De Luís Amaro

Francisco Luís Amaro (1923) é um completo homem de letras, produzindo páginas como poeta, articulista, revisor literário, editor, memorialista, sendo hoje reputado como um dos mais atentos estudiosos da história literária contemporânea portuguesa. Durante largos anos atuou na Portugália Editora e na Revista Colóquio/Letras, colaborando paralelamente em diversas revistas literárias, como a Távola Redonda, a Portucale e a Seara Nova. Foi ainda co-fundador das celebradas folhas de poesia Árvore. Tendo privado de muito perto com alguns dos maiores autores portugueses do nosso tempo, reuniu vasto arquivo literário e epistolar que doou à Biblioteca Nacional de Portugal. Esta selecionou parte de tão precioso acervo para compor uma exposição (de 7 de maio a 29 de junho de 2013) em homenagem aos lúcidos e produtivos 90 anos do autodidata intelectual, que, segundo Vasco Graça Moura, é “a pessoa que mais sabe em Portugal sobre livros e escritores”. Transcrevemos a seguir o seu depoimento sobre Jorge de Sena em texto originalmente editado na «revista de poesia» lisboeta Relâmpago nº 21, de 2007 — revisto e atualizado em agosto de 2013 — e que inclui carta inédita de Sena a Amaro, ambos então jovens e amigos. (LJdS)

 

Data de muito cedo – teria eu apenas dezanove anos – a primeira vez que, em certa manhã de 1942, na antiga e lisboeta Livraria Portugália, da Rua do Carmo 75, me deparei com Jorge de Sena, amenamente à conversa com Manuel da Fonseca, talvez já o fulgurante autor de Aldeia Nova (contos, março daquele ano), edição da casa onde me empregara em setembro de 41. Deu-se o encontro provavelmente antes de maio, pois não tardei a avistar o poeta na Feira do Livro, na Avenida da Liberdade. Recordo a invulgar simpatia do escritor não famoso ainda, o interesse dele pelos clássicos quinhentistas (creio que trazia consigo o volume das Obras de Frei Agostinho da Cruz), aos quais chegou a dedicar no jornal O Globo (“Poesia enterrada viva”, 01-IX-1944) toda uma página antológica.

A extrema acessibilidade de Jorge de Sena, mais velho que eu só três anos e meio, fez com que o nosso relacionamento se firmasse, não direi intimamente, mas, da minha parte, com imprevisto à-vontade. Já de nome o conhecia, da única referência que tinha dele, a Ruy Cinatti ouvida na Livraria, proclamando, entusiástico, “o Jorge” a alguém que não posso precisar – Tomaz Kim, talvez – como a maior revelação crítica da época: revelação essa a lançar pela revista Aventura (no. 1, maio 1942), que ele, Cinatti, inesquecível “criança grande”, mas de notória maturidade cultural, poeta de Nós não somos deste mundo, dirigia com o puro ardor que em tudo punha.

Importa sublinhar, situando ou clarificando estas relações pessoais com o autor de Perseguição e o consequente intercâmbio epistolar que cresceu com o seu exílio, o importante papel que, de início Livraria Editora[1], e depois, simultaneamente, núcleo editorial autónomo na Avenida da Liberdade, 13-3°. Dt.º ambas as Portugálias exerceram no ambiente literário nacional de 30 até ao fim de 70 – para não recuarmos já à década de 20, ou, mais exatamente, à fundação, cerca de 1918, da PORTVGALIA EDITORA [sic], com Heitor Antunes principal sócio (mais tarde radicado no Brasil, onde morreu) e repartida a empresa, logo, pelo Rio de Janeiro: assim consta da edição, única que possuo de 1918 com a chancela “portugálica”, do livro “SOLDADO:QVEVAES Á GVERRA…// Novas:Redondilhas //De Antonio Corrêa d’Oliveira //Impresso em Lxª. MCMXVIII.  Na respectiva loja, de não vasta dimensão, se reuniam, segundo testemunhos epocais, relevantes figuras das letras, das artes, da política, de heterogéneos sectores – como, é agora de supor, o tão queirosiano Conde Sabugosa (um dos “Vencidos da Vida”, gloriosa mentira…), o mais aristocrático autor da casa e ao qual a PORTVGALIA EDITORA consagraria, em 1924, opulento ln Memoriam, desveladamente organizado por José António Correia, também sócio-gerente, até 1937, da Livraria.

Essa frequência intelectual mantinha-se ainda qualificada quando, há sessenta e seis anos (!), ingressei no histórico estabelecimento, apenas quatro meses volvidos sobre a inauguração da Livraria Portugal, no prédio fronteiro e sob a gerência dos mesmos sócios, Pedro Ferreira de Andrade, Raul Luís Dias, acrescidos de Henrique Pinto e com dois capitalistas. Moderna e ampla, a Portugal, em 5 de maio de 1944 fundada, encerrou há meses as suas portas, devido à crise que nos avassala, finda a euforia de Abril. E também já não existem os que lhe deram vida, à Livraria Portugal.

Regressando à casa-mãe: nela convergiam, como antigamente, os mais diversos e adversos grupos convivenciais, cada um para seu lado (em quantas ocasiões António Sérgio se cruzaria com o seu feroz antagonista Alfredo Pimenta! De ambos, por sinal, guardo boa lembrança). Acrescente-se que a Livraria Portugália, no limiar dos anos 40, distribuía, por vezes lançava (Alves Redol, o de maior êxito, e Manuel da Fonseca…) as obras dos novos enquanto prosadores, não se arriscando a editar poetas (que me lembre só o Mário Beirão de Novas Estrelas [1940, Prémio da Academia], o Alfredo Pimenta de Últimos Echos de Um Violino Partido [1941], o João Saraiva de Sol-Posto [1942])… Das novas gerações, designadamente a dos Cadernos de Poesia (Cinatti, Kim, o próprio Sena de Perseguição), da neorrealista (Manuel da Fonseca, Rosa dos Ventos, 1940), e da de Eugénio de Andrade (Adolescente, 1942; As Mães e os Frutos, 1948), a casa era simplesmente depositária ou distribuidora, e sê-lo-ia, já Portugália Editora, da estreia de Sebastião da Gama (Serra-Mãi, 1945). Assim prosseguiria, salvo raras exceções, até 1961, quando a Editora propriamente dita, então literariamente orientada por Augusto da Costa Dias (após efémera passagem, nela, de Jorge de Sena), criou a coleção “Poetas de hoje”, com predomínio neorrealista (ouvi, um dia, Joaquim Namorado, que por acaso não chegou a ser incluído na coleção, lamentar, receoso, ao seu camarada ideológico, a inclusão, na mesma, de Saúl Dias, Cabral do Nascimento…). Dos “Poetas de hoje” saíram 39 volumes até 1972 (último, de José Augusto Seabra: Tempo Táctil). O nº. 33 foi, precisamente, de Jorge de Sena (Peregrinatio ad Loca Infecta, 1969). Também da iniciativa de Costa Dias, a série dos “Novos”, que revelou ou reafirmou jovens poetas, dramaturgos, contistas, romancistas – Fiama, Gastão Cruz, Casimiro de Brito, Luiza Neto Jorge, José Augusto Seabra, César Pratas, Herberto Helder (Os Passos em Volta), Almeida Faria (Rumor Branco), Almeida Faria, António Rebordão Navarro, Ivette K. Centeno, Baptista-Bastos…

Anteriormente, e já propriedade exclusiva de Agostinho Fernandes, que nos anos 20 financiara a revista Contemporânea, a Editora convidara Jorge de Sena a organizar a 3ª. série da magna antologia Líricas Portuguesas (1958). Passados tempos, e ascendendo ele, no exílio em São Paulo (Brasil), a professor catedrático, a casa editou-lhe imponentes estudos camonianos (Uma Canção de Camões, 1966…), os contos de Novas Andanças do Demónio (id.), exaustivos prefácios-ensaios, e, a exemplo do que já Gaspar Simões fizera em relação ao amigo no limiar dos anos 40, traduções de célebres autores ingleses e americanos.

De tal operosidade intelectual, verdadeiramente assombrosa, e com o autor vivendo, a partir de finais de 59, no estrangeiro, resultou que a correspondência entre o escritor e o “secretário” da Portugália – editora que, de resto, não poderia absorver-lhe a torrencial produção – fosse crescendo sempre. Do material epistolográfico seniano a mim dirigido e que, nas múltiplas andanças domiciliárias em Lisboa, me foi possível guardar, há um total de 135 documentos (datados de outubro de 1943 a 23 de setembro de 1977) na Biblioteca Nacional-Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, desde dezembro de 1981, quando o saudoso João Palma-Ferreira dirigia aquela instituição.

Mas, para além de motivações editoriais de ordem bibliográfica ou, digamos, prática, Jorge de Sena manteria até morrer, a 4 de junho de 1978, generosa estima pessoal ao camarada obscuro: facto que se comprova não só na correspondência, ou nos sucessivos encontros em Lisboa, também em dedicatórias nos livros que ia publicando, a partir da sua estreia poemática, Perseguição (Ed. Cadernos de Poesia, 1942). É certo que algumas, raras, intermitências houve em tais ofertas senianas, talvez devidas, as lacunas, ao abismo cultural entre nós e que me levava a, com a audácia dos tímidos, não calar a primária dificuldade em seguir-lhe os voos, no verso e na prosa[2]. Lembro-me de, provavelmente no seu primeiro retorno a Lisboa (dezembro de 1968), lhe ter falado nisso e, a propósito da fase inicial da sua obra, jamais renegada aliás, ele me responder, tolerante: “Não me admira que você não compreendesse. Eu queria ser surrealista … “. Noutro encontro, a uma vaga objecção quanto a um seu texto juvenil, volveu-me: “Mas eu já existia nessa altura?!”

Enganoso seria, porém, pressupor “humildade” (!) em quem não escondia a exacerbada consciência de seus altíssimos méritos. Quando muito, haveria nele uma risonha autocrítica, que se depreende destoutra dedicatória, numa separata de Resenhas, da época brasileira: “Ao Luís Amaro, estas sábias ironias sobre o exercício da crítica, doutamente subscritas pelo sempre seu / Jorge de Sena / Araraquara, São Paulo, Brasil / agosto de 1965.

”
Imagine-se a comoção com que recebi, já morto o autor inestimável, o seu derradeiro volume publicado – Régio, Casais, a “presença” e Outros Afins (Porto, Brasília Ed., Out. 1977): “Ao Luís Amaro, infalível e insubstituível, que talvez saiba de algo mais que eu escrevi e esqueci neste livro, com o velho abraço amigo de algumas décadas de / Jorge de Sena / St. Barbara, Março 78.

Não valerá a pena anotar que o elogio incidia no meu inalterável “devotamento” presencista, de que, julgo, dei algumas provas. As restantes palavras são como que uma despedida, um adeus final e corajoso, em letra firme e lúcida, a breves e fatais semanas de nos deixar.

Ele era, antes de tudo, e a coincidir com o ser complexo e exigente, não raro contraditório e explosivo porque incompreendido na sua altitude – um afetivo, leal às antigas amizades, solidário nos momentos sombrios daqueles que estimava. Virtudes que não excluem o implacável espírito crítico, o irritado melindre, a desenganada reserva quanto às relações literárias (mas quantas exceçõesabria também!), a causticidade ora oportuna ora injusta; ou, ainda, a humaníssima falibilidade. Facetas, elas todas, que se refletem nas temíveis Dedicácias(ed. póstuma, 1999) ou se desprendem da enorme massa epistolar seniana vinda já a lume e, decerto, na que está inédita ou em vias de publicação. No monumental conjunto, porém, a sua obra espelha uma das mais ricas, multímodas, fascinantes (e perturbantes) individualidades da história literária portuguesa contemporânea e, porque não?, de sempre.

MASSAMÁ, 2007, 2013.

 

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Carta de Jorge de Sena a Luís Amaro

Tancos, 25/10/43[3]

 

Meu caro Amaro

 

Recebi a sua carta em que me pede colaboração para a página[4] que V. está prestes a dar à luz. Engana-se redondamente quando supõe que a província me não interessa. A província interessa-me por ela própria, é o caso, e não como extensão da capital, maior palco para a exibição citadina dos talentos literários. E se até aqui nunca colaborei em nada de provinciano (passe o adjetivo), foi apenas porque nunca as circunstâncias me proporcionaram esse poleiro pa. informação. A província, por culpa de quem escreve, tem falta de vista e, portanto, falta de óculos com que a possa corrigir. E depois… , a maior parte das vezes, as lunetas que de boa mente lhe fornecem não lhe assentam no nariz. E digo boa mente, para não me referir ao mais vulgar aspecto da questão: o fornecerem-lhe lentes de cor, que ela usa sem saber que as usa nem os erros de visão que elas provocam.

É tão fácil dizer cobras e lagartos de quem os outros não conhecem! É fácil, cómodo, seguro: e a justiça é assim, quantas vezes também na capital, sacrificada a altos fins. Desconfio sempre dos altos fins que confundem a justiça necessária com a justiça suficiente.

Os originais que me diz ter são, de facto e em princípio, uma garantia de qualidade. Que o J. P. de Andrade[5] lhe tenha dado teatro e não prosa especulativa é coisa para deitar foguetes em louvor do bom senso e bom gosto que, parecia, ele ia perdendo. Quanto ao meu envio urgente, será uma urgência até ao fim da semana, o mais tardar. Não tenho nada e vou tentar escrever depressa e bem, com a melhor boa vontade. Crítica a livro português recente? Ensaio? Não sei ainda. Mas é de lembrar que ando bem fora das novidades e, felizmente, das pugnas…

 

Creia sempre no

Jorge de Sena

 

 

P. S. Comecei a escrever uma prosa; vai mais depressa do q supunha. Mando-lha amanhã ou depois.

 

NOTAS

[1] Remeto o leitor interessado (como eu próprio, afinal…) por estas minudências para a p. 48, nota 1, do catálogo Presença de João Gaspar Simões, “Exposição Comemorativa do Centenário do Nascimento”, Lisboa, Biblioteca Nacional, 2003. A nota, no meu “Esboço de Uma Bibliografia Crítica, com presença dentro”, diz respeito a um parágrafo da carta de Fernando Pessoa, em 28-VI-30, para Gaspar Simões: “O que vem a ser o conteúdo de dentro de um manifesto, assinado por três dos rapazes vossos amigos e colaboradores, de que me deram um exemplar na Livraria Portugália?” (subl. meu). É lícito deduzir que também Fernando Pessoa frequentava, ao tempo, o “centro intelectual” da Rua do Carmo. Em cuja Livraria funcionara outrora um Gabinete de Leitura de que Florbela Espanca era utente (cf. também o meu texto introdutório do álbum homenageando Agostinho Fernandes […], Lisboa, 2000, p. 11 e passim).

 

[2] Disse que muitas vezes me não era acessível a poesia de Jorge de Sena, de nobre elocução sempre, de início de timbre surrealizante e, a partir de Pedra Filosofal (1950), menos “difícil” embora, dum classicismo cultista porventura afim do de Nemésio (Nem Toda a Noite a Vida), mas dele tão diverso (felizes os leitores que “decifrarem”, na íntegra, a Mensagem pessoana!). E, todavia, dois casos houve em que o ingénuo lírico (eu) e o grande poeta ultramoderno (Sena) talvez se encontrassem, por interpostas vias: intitulam-se os textos “Dádiva” / “Uma pequenina luz”, e “Nada mais quero … ” / “Súplica final”. Será precisa, aqui, a autoflagelação?

 

[3] Com o timbre, riscado, da Companhia Nacional de Navegação / Lisboa. Rigorosamente, a “primeira carta” foi… um bilhete-postal, emitido de “Tancos, 19/10/43″ por “Jorge de Sena / Cadete do C.O.M. / E.P.E. / Tancos”, e do teor seguinte:

 

Caro Amaro

Cá recebi o jornal, e mto. obrigado. Fiquei, assim, bem ciente do que, em tempos, disse. Então de provas nada?

Creia sempre no amigo

Jorge de Sena

 

À distância de tantos anos, não me é possível lembrar de que jornal se tratava. Quanto às provas, seriam da 2.ª edição, revista por Sena a convite de João Gaspar Simões, o fundador literário da Portugália Editora, de Os Melhores Contos Americanos – 1.ª série, com traduções de Fernando Pessoa (dois contos de O. Henry, extraídos da revista Athena, nº. 2, Lisboa, 1924), de Tomaz Kim e de João de Oliveira, nas “Antologias Universais”. A casa em que eu, desde a primeira hora, trabalhava – a referida Portugália Editora, criada em setembro de 1942 sob a gerência de Raul Luís Dias – distinguia-se, na época, por uma atividade intensa, só comparável à da Editorial Inquérito, dirigida, também em Lisboa, por Eduardo Salgueiro, a cuja memória de grande editor ex-poeta devo igualmente preito.

 

[4] As condições em que, sem família na capital, então vivia, por quartos ou pensões, não me possibilitaram o projeto, no semanário Ecos do Sul, de Vila Real de Santo António. Todavia, já tinha assegurado o apoio não só de Jorge de Sena e de João Pedro de Andrade como de Castelo Branco Chaves, Alberto de Serpa, Tomaz Kim, António de Navarro, Manuel do Nascimento e outros com quem privava. Na minha carta-convite, datada de 23-X-43 e cuja cópia me foi gentilmente facultada por Mécia de Sena (ah, prodígios de organização!), traçava eu considerações sobre a pretensa “aridez” cultural da província, tema desenvolvido na resposta do poeta.

 

[5] Sublinho que João Pedro de Andrade (1902-1974), dramaturgo, crítico, ensaísta e novelista, havia posto algumas reservas, naturalmente provindas duma formação cultural autodidática (no superior sentido!), ao seu livro de estreia, Perseguição (cf. Seara Nova, nº. 798, de 28-XI-42), e, mais tarde, à Coroa da Terra, também de poemas (cf. Diário de Lisboa, 19-VI-46). Apesar de ambos se estimarem e admirarem, João Pedro de Andrade, com a isenção que lhe era peculiar, tornaria a não se mostrar incondicional de Sena, agora enquanto autor, este, da peça em verso O Indesejado (António, Rei) (cf. Seara Nova, 05-IV-52; reprod. em Reflexões sobre o Teatro Português, Lisboa, ed. Acontecimento, 2004, pp. 100-107). O dramaturgo respondeu-lhe, na mesma revista, n.º 1252-53, de 31-V-1952, seguido de comentário de J. P. de Andrade (apud J. Fazenda Lourenço e F. G. Williams, Uma Bibliografia Cronológica de Jorge de Sena, Lisboa, I.N.-C.M., 1994, p. 102). Anteriormente, ainda na Seara Nova, nº 1248-49, de 29-III-52, Sena manifestara, ao “retomar sozinho” (?) as “crónicas de teatro que durante tanto tempo […] [partilhara] com J. P. de A.”, “o [seu] apreço pelo crítico honesto – e pelo dramaturgo de mérito […]“; reprod. em Jorge de Sena, Do Teatro em Portugal, Lisboa, Ed. 70, 1989, p. 153. Em 1969, num ensaio acerca de “A Crítica Portuguesa no Século XX”, inclui João Pedro de Andrade, muito justamente, nos críticos “mais abertos [nas hostes neorrealistas] a uma compreensão menos proselítica da literatura”, colocando-o, nesse contexto, a par de Joel Serrão e Mário Sacramento (cf. Estudos de Literatura Portuguesa – III, Lisboa, Ed. 70, 1988, p. 102).

 

 

De Rita Azevedo Gomes

A cineasta portuguesa Rita Azevedo Gomes, realizadora, entre outros, do premiado filme “A vingança de uma mulher”, tem como próximo projeto cinematográfico a sua leitura pessoal da correspondência trocada entre Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen. É sobre isto que aqui nos fala. 

 

64. Jorge de Sena e as pequenas metamorfoses

[LER E RELER JS – 64: Fernando Cabral Martins]

Sinais de Fogo e Metamorfoses são os principais livros de Sena abordados neste ensaio de Fernando Cabral Martins, que, muito gentilmente, reviu e corrigiu o texto anteriormente publicado especialmente para esta edição no site LJdS.
 

Desenho de João Vieira "expressamente executado" para a 1ª edição de Metamorfoses
Desenho de João Vieira “expressamente executado” para a 1ª edição de Metamorfoses

“Sinais de Fogo, os homens se despedem, / exaustos e tranquilos, destas cinzas frias, / lançando ao mar os barcos de outra vida” (Jorge de Sena, Sinais de Fogo, Lisboa, Edições 70, 1979: 427-428). Uma interpretação destes versos, assim aparecendo em Sinais de Fogo, destacando-se de súbito da prosa mas ainda próximos dela, é a de uma escrita que a si mesma se pensa no acto de ser gerada. No romance, a frase anterior de que são uma evolução há-de ainda ter mais tarde outra metamorfose em verso, mais extensa, que definirá com maior precisão a escrita do poema como criação de “sinais de fogo”. É de uma variabilidade das versões, e de uma autonomia relativa de cada uma delas, que é também questão. Mas a fase intermédia que citei tem sobretudo a ver com a fábula e as suas peripécias. E tem a ver com o seu género próprio: é um romance de aprendizagem, um bildungsroman, em que se dá a transmutação das “cinzas frias” nos “barcos de outra vida”, de outra idade. Nisso, aliás, se parece com outro dos maiores romances portugueses do século XX, Nome de Guerra, de Almada Negreiros. É, em ambos, de uma mesma bildung, de uma mesma metamorfose que se trata. Aquela que permite a chegada da escrita.

 

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Jorge de Sena nasceu em 1919 e morreu em l978: não viu a primeira edição de Sinais de Fogo, em 1979. A escrita do romance ocorreu entre 1964 e 1967. Deveria ter sido o primeiro de uma série, de título geral Monte Cativo, de que haverá outras passagens em Os Grão-Capitães, por exemplo, texto narrativo fragmentário que é claramente do mesmo tipo de labor do romance: a escrita tem o mesmo tónus realista, as personagens parecem esboços de outras pertencentes à saga que Sinais de Fogo implica. Assim, uma ideia que circula em torno de Sinais de Fogo é o de ser apenas uma pequena parte do que a vida não deixou que fosse mais. No entanto, Sinais de Fogo deve igualmente ser lido como um romance completo. A que não falta nada, e que não faz parte de nenhum conjunto, mesmo virtual. Uma parte dele é publicada em 1968 na revista O Tempo e o Modo, sob o título Aparição da Poesia. Em 1966 tinham-se editado Novas Andanças do Demónio, recolha em que um dos contos mais importantes, Super Flumina Babylonis, trata também desse preciso instante da “aparição” do poema. Este contexto histórico e bibliográfico parece remeter Sinais de Fogo para um romance da criação poética. O primeiro sentido que aqui se pode deixar ler é o de um poeta que fala de si sob a forma de romance, ou até, o de um romance que fala da poesia. Ou de um testemunho, se quisermos empregar a palavra de Sena. Ou de uma introdução geral à poética que assume.

 

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Jorge de Sena, que tinha catorze anos no instaurar do Estado Novo, viveu a experiência de um país e de uma cultura abafados por uma inquisição política, económica, cultural e moral. Os que tinham pertencido a gerações anteriores ainda conseguiram escapar a essa calote opressiva, insuportável para quem se alimenta, como o artista, de liberdade. Pessoa, Almada ou Sá-Carneiro fizeram todas as revoluções. Os que vieram depois, como Régio, Gaspar Simões ou Casais Monteiro, viram-se e desejaram-se para aguentar a pesada herança do Modernismo. Quanto aos neo-realistas de 40, ninguém os pôde calar, com liberdade ou sem ela. Mas os homens de 50? Aqueles que Pedro Oom disse viverem nada menos que o Abjeccionismo? Um surrealista dos maiores, Aexandre O’Neill, passou a vida a pedir desculpa de ser português, de continuar a viver em Portugal e ainda persistir em escrever poemas. Jorge de Sena foi dos que partiram. Preferiu-se longe da sua pátria. Não foi um insigne ficante. Quando escreveu Sinais de Fogo, ele contava o mundo em que se formou, reconstituía o Portugal de onde tinha emergido, apontava para a experiência terrível de vir ao mundo num país subjugado, irrespirável. A sua reconstituição de memória é uma vingança e um exorcismo. Daí a violência que inunda o romance. Violência por vezes impossivelmente, ridiculamente radical. Neste sentido, é um romance que não era para ser lido, era só para ser escrito.

 

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Num livrinho publicado pelos cuidados de Mécia de Sena, chamado Sobre o Romance, e que recolhe sobretudo artigos da década de 50 – da década anterior à produção de Sinais de Fogo, portanto – para além dos prefácios às traduções famosas que fez de tantos ficcionistas importantes da língua inglesa, como Faulkner ou Hemingway, Jorge de Sena cita Proust e Thomas Mann como as grandes luminárias do romance moderno. Também fala de Conrad, de Gide, e mostra conhecer a obra de Joyce e dar-lhe todo o valor que tem. Mas os nomes de Proust e Thomas Mann é que marcam, e retornam com insistência. Em 1976, dois anos antes da sua morte, Jorge de Sena começa um esboço de ensaio sobre Thomas Mann, a que Mécia de Sena, ao integrá-lo na colectânea a que me refiro, dá o nome adequado de “Ainda Thomas Mann”. Thomas Mann que pertence a uma grande cultura, a germânica, pouco conhecida pela nossa atenta veneração dos franceses. Thomas Mann que, como ele, Jorge de Sena, se exilara por, num momento dado, o ambiente político em que o seu país vivia o ter feito mudar de país. Quanto à hipótese de que Proust possa constituir um modelo do romance para Jorge de Sena, eis o que tende a tornar-se evidente. Por exemplo, a lição de Proust ilumina o gosto pelas expansões enormes de umas cenas e não de outras no fio do tempo contado, como certa discussão com os espanhóis escondidos ou a última noite com Mercedes. Outro exemplo é a ressonância das memórias fina e minuciosamente descritas, em que os acontecimentos passados ganham ganham outros contornos, outra verdade. Depois, a perfeita estruturação do episódio central, simetricamente colocado entre duas partes cujas relações com ele e entre si são tudo menos transparentes, nessa íntima desarticulação semântica que uma finíssima rede tece de uma espécie de pensamento abstracto, é também de leitura proustiana. Isto além de o protagonista e narrador se chamar simplesmente Jorge, raramente nomeado – o que é uma citação óbvia da forma de nomeação, Marcel, que é a do narrador do romance de Proust. De novo quanto a Thomas Mann, a relação que o romance estabelece com a sua obra monumental é, desde logo, a utilização do mesmo tipo de postura realista típica, a sua posição moral perante os discursos que transcreve. Do mesmo modo, Sena deduz de certas ideias quer personagens quer episódios. O artificial de um personagem como o Rodrigues, cuja cuja característica é, desde o início, o tamanho do seu “equipamento”, tem a dimensão mítica, transpessoal, arquetípica (e quase caricatural) de um Settembrini, por exemplo. E, por falar na Montanha Mágica: de onde é que vem, se não desse romance, a concepção de uma extraordinária viagem de fim de adolescência até ao lugar do amor e da morte, do fogo e da noite?

 

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Sinais de Fogo é um romance cujo tema só tarde se revela. Trata-se do nascimento do poema. Torna-se, assim, um romance metaliterário, e o ser sobre palavras e o modo como elas surgem marca a coerência autotélica da narrativa – que constrói um efeito culminante de sentido, que é a experiência física que as palavras são, aquilo que de sangue e de esperma e de suor há nas palavras que são ditas poesia. É um romance de Jorge de Sena sobre o poeta Jorge de Sena, em que um conta o outro, num desdobramento que permite precisar o sentido do nome “Jorge” do protagonista e, ao mesmo tempo, separar com nitidez esse nome do nome do autor.

 

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A última cena da quarta parte do romance é uma montagem minuciosa de dois discursos, o da busca da verdade e o da pornografia. Enquanto participam de uma orgia, dois personagens trocam impressões que revelam a última face escondida da história. O mistério que envolvia a morte central é dissipado – tanto quanto qualquer mistério o poderia ser, nesta narrativa em que a ambiguidade e irracionalidade de tudo é olhada de frente. A razão formal dessa intersecção entre dois discursos o mais afastados possível não reside apenas na ideia nuclear da afinidade entre o corpo que goza e o corpo que morre. E, do mesmo modo, a descoberta do cadáver do irmão, pela mesma rapariga que regressa com o namorado de uma noite de amor, não “significa” necessariamente que o amor e a morte estão ligados no mais fundo de todas as histórias. Esse “grande tema” é que, precisamente, se encontra desarticulado por esse conjugar das duas versões e pela montagem entre os dois discursos. A montagem que, por sua vez, é o procedimento maior da arte moderna. A montagem concebida como operadora de metamorfoses.

 

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Metamorfoses, Jorge de Sena, 1963. A poesia das imagens. Tratar o tema horaciano ut pictura poesis com base nos sentidos que foi tomando de emblema realista ou figurativo. “A poesia é como a pintura”, eis o refrão do classicismo em vulgata. Na verdade, e porque Jorge de Sena é filho do classicismo perverso de Ricardo Reis, o lema de Horácio tem que ler-se, aqui, ao contrário: “a pintura é como a poesia”. Metamorfoses – poemas sobre objectos visuais, espaciais, tácteis, reprodutíveis analogicamente sob a forma de gravuras num livro. Depois, Arte de Música, de 1968, compõe “metamorfoses musicais”, como em subtítulo aparece dito, de certos objectos sonoros, mas a grande diferença é que não é deles que é questão, mas antes da impressão, do prazer, das ideias, do silêncio que se agarram a uma experiência intransmissível – que é a experiência da música. Curioso que a própria matéria sonora, a música, tão evidentemente escape ao livro, que deveria aspirar, ao ser lírico, a ser arte de música também. Logo se conclui que são corpos no espaço, as palavras. A poesia é escrita, é visual, e é inscrição numa rede de relações. A própria música é dada como pura ocupação do espaço. A provar isto, por redução ao absurdo e no ponto em que os dois livros estrategicamente se ligam, eis a charneira que constituem os Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena: uma língua de jogo, uma trama fonética, lirismo absoluto, partitura ultracodificada, (quase) totalmente exterior ao sentido. Quer dizer, a poesia enquanto música é-o à custa do sentido, a música é o desfazer das imagens. A poesia como pintura é, ao contrário, a produção de sentidos que as imagens suportam e ecoam.

 

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Tome-se o último poema de Metamorfoses: A Morte, o Espaço, a Eternidade. A morte é o fim do tempo, ou o momento em que o tempo se converte em espaço. Só que o objecto reproduzido em gravura não é, como nos outros dezanove casos, de alguma arte plástica, mas um simbólico design de ciência e história: o primeiro satélite artificial da Terra. O choque entre a eternidade convocada pelo título do poema e a historicidade do Sputnik abre para a identificação desse objecto voador no firmamento das palavras – e demarca-se da artificialidade e da ficcionalidade da sua representação fototográfica.

 

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Esta é uma poesia do tempo da proliferação das imagens. A contemporaneidade de todas as imagens, ou a simultaneidade delas por via da sua infinita reprodutibilidade técnica, não as faz, em Metamorfoses, banalizarem-se. Cada poema as recolhe e as aceita, transformando o acto de ver uma imagem num outro acto: o de imaginar a partir de e sobre a imagem. O que, sendo feito por palavras, pode ser dito simplesmente o acto de pensar. Mas não desdobrando um pensamento ordenado, ou de qualquer modo preso a regras ou estruturado em ficções, antes pondo em jogo um pensar emocionado, cativado pelas imagens que escolhe pensar, imagens que habitaram longamente consigo, e que na sua presença (quase) perfeita (a imagem fotográfica transporta-se no tempo e no espaço) podem ser então o objecto de uma metamorfose. Ou, mais modestamente, participarem num processo de alteração, de desunificação, de refundição das imagens. É uma poesia de revoluções mínimas, de alquimias invisíveis cujo alcance se não pode conhecer por completo. Uma poesia de reescritas, de alterações do ponto de vista, de inclinações do olhar, de montagem por dentro do sentido, como se o sentido fosse ele mesmo o resultado de uma montagem.

 

*

 

Esta poesia não transforma o mundo, transforma as imagens que nós temos do mundo. O que é a metamorfose por excelência – se quisermos, a própria revolução. É por imagens que vivemos, são as imagens que nos alimentam o prazer e a esperança. Transformar as imagens que temos do mundo, “lançando ao mar os barcos de outra vida”, é o primeiro passo para mudarmos os modos do prazer e os conteúdos da esperança. Nenhuma coisa está imóvel, porque, se a imagem dela pode mudar, alguma coisa dela muda também. E a sedução da poesia não é só orientada para a produção de um mundo simultâneo, mas de um mundo possível, que nega este na sua miséria. Se a poesia, no caso destas Metamorfoses, escolhe cuidadosamente imagens que já existem, e que na página par nos são mostradas, é para tornar evidente qual o material de que é feita, qual o material que trabalha. É sempre de imagens que se parte, são imagens que se analisam, são imagens aquilo que pode ser por imagens de poesia transformado. A poesia é como uma análise prática do modo de produção de sentido que nos faz viver (com) as nossas imagens. É como uma representação que pensa a representação: e a meta-representação trabalha aqui um material entre todos frágil, que parece mero efeito (imagem) de outras coisas (História, Autor, Ideia), mas tem uma realidade e uma eficácia produtiva que vão muito além dessa sua aparente natureza de reflexo ou de sombra.

 

[*] Fernando Cabral Martins é Professor do Depto. de Estudos Portugueses da Universidade Nova de Lisboa.

[**] Primeira publicação: Sentido que a Vida Faz, miscelânea de homenagem a Óscar Lopes, Porto, Campo das Letras, 1997.
Repr. em F.C. Martins, O Trabalho das Imagens, Lisboa, Aríon, 2000.

63. Sobre a Correspondência entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões

[LER E RELER JS – 63: George Monteiro]

O mais recente volume de correspondência tendo Jorge de Sena como protagonista — aquela trocada com João Gaspar Simões, organizada por Filipe Delfim Santos e lançada em Lisboa em fins de maio/2013 — mereceu a recensão assinada pelo Prof. George Monteiro abaixo transcrita, na sua tradução em Português. No original, em Língua Inglesa, pode ser lida na edição de 9 de julho de 2013 do Portuguese American Journal.

 

Jorge de Sena / João Gaspar Simões, Correspondência 1943-1977.

Org. Filipe Delfim Santos, Lisboa: Guerra e Paz, 2013, 261 pp.

 

Em minha opinião foi particularmente adequado que o lançamento público deste livro tivesse ocorrido no Grémio Literário, essa venerável instituição fundada em Lisboa, segundo se diz, por Eça de Queiroz: há mais de 40 anos, ou para ser mais exato no verão de 1980, fui convidado para lá almoçar por João Gaspar Simões, que eu conhecera três anos antes em Providence, Rhode Island, quando ele foi orador convidado no Simpósio Internacional de Estudos Pessoanos da Brown University, que decorreu entre 7 e 8 de outubro desse ano. Comemos praticamente sozinhos, no grande salão do restaurante do Grémio. Ele pediu desculpas pela falta de comensais. Pouco depois, para ser mais preciso a 15 de julho, eu tentaria marcar o evento num curto poema intitulado “Rua Ivens, n.º 35”:

 

Dizem-me que o Grémio Literário
fervilha de memórias;
e o quadro no bar,
discretamente exibindo o grupo
de seus fundadores (com seus nomes
lembrando aquelas
personalidades) amplamente
testemunha seus inícios,
sua durabilidade. É famoso,
também, por Eça e outros.
“Mas os escritores não estão
mais vindo aqui, só eu”, diz-me
Gaspar Simões.
“Eu não sei para onde eles estão
 indo agora”. Ele se resigna. [1]

 
Se o Grémio ainda estava enfrentando tempos difíceis, seis anos após a revolução de 1974, na mesma situação encontrava-se esse último dos moicanos, Gaspar Simões. Ambos eram vistos como resquícios de um passado que seria melhor esquecer, ou pelo menos não evocar. Porém, ambos resistiram. Gaspar Simões continuou fiel à missão que há muito assumira ao serviço da cultura portuguesa, especialmente da literatura. Exemplo disso é o modo como promoverá ainda a publicação da tradução inédita que Pessoa fizera de A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne: quando, em uma visita posterior a Lisboa, ao pesquisar os papeis da Pessoana da Biblioteca Nacional, deparei com o datiloscrito dessa tradução, o primeiro a quem relatei minha descoberta foi Gaspar Simões, telefonando-lhe de imediato e perguntando-lhe se conhecia aquele texto. Disse-me que não, mas que deveria absolutamente ser publicado. Ligou-me pouco depois para me informar que já tinha reportado minha descoberta à editora Dom Quixote, e que eles estavam muito interessados na publicação, devendo eu telefonar-lhes — e assim fiz. O resto é história, como se costuma dizer, pois o livro foi publicado em 1988 e ainda está à venda.

Gaspar Simões visitou os Estados Unidos pela primeira vez em 1977, para participar como orador convidado no Simpósio Internacional de Estudos Pessoanos, a convite do Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University. Por muito tempo acreditei que fora aí que Sena e Simões se haviam reencontrado, após longos anos de distanciamento (esses “anos de afastamento” são repetidamente evocados nesta obra [128, 132, 153]). Porém, e tal como o presente livro me veio revelar, o primeiro reencontro teve lugar em Coimbra uns quatro meses antes, durante as comemorações do cinquentenário de fundação da revista presença. Na sequência do Simpósio Pessoano de Providence, Gaspar Simões visitou a Costa Oeste, onde, por iniciativa de Sena, proferiu conferências em diversas universidades, incluindo a Universidade da Califórnia em Santa Barbara, onde Sena era diretor de departamentos ou cursos. Seria o último encontro deles, Sena morreria em 4 de junho de 1978.

Imediatamente após a morte de seu marido, Mécia de Sena assumiu voluntariamente a gigantesca tarefa de manter viva a memória de Sena e de seus enciclopédicos contributos para a literatura, cultura e história portuguesas. Haveria que publicar livros e manuscritos inéditos, a par de novas edições de sua poesia, ficção e ensaios.  “[E]stou em Londres para fazer o mesmo que fazia em Santa Barbara,” explicou ela a Gaspar Simões em fevereiro de 1980, “ou seja, dedicar-me inteiramente à publicação da obra do Jorge, agora num ambiente, em certos aspectos, mais estimulante. Há seis ou sete livros no prelo (já em provas) pelo que a presença do Jorge será constante ainda por muitos anos futuros, uma vez que uns outros tantos, pelo menos, estão já em esquema preparatório.  E está longe de ser tudo, mesmo sem infindável arca.  Assim eu tenha vida, saúde e lucidez para realizar esta monstruosa tarefa” (168-69).  A alusão à famosa arca que continha o espólio pessoano é significativa, já que Mécia de Sena tinha um plano para ampliar o contributo de Jorge de Sena para a literatura e a cultura portuguesas: seguindo o exemplo dos intelectuais anglo-saxônicos, ela iria publicar, não uma antologia das cartas do marido ou um volume que todas coligisse, mas sim uma série de volumes de correspondência nos quais apresentaria monograficamente o carteio trocado entre Sena e as personalidades mais significativas de seu tempo. Convicto do seu valor histórico e literário, Jorge de Sena conservara sistematicamente cópias das cartas que enviara. Em maio de 1978 escreveu a Gaspar Simões que fora uma circunstância feliz não o ter encontrado em casa quando nesse dia lhe telefonara, pois o desencontro lhe permitira escrever aquela carta: “E foi melhor assim: porque, em lugar de, grata e comovidamente, lhe agradecer o seu artigo de viva voz, tenho oportunidade de o fazer nos escritos que ficam (quando não vão parar ao lixo por mão dos nossos herdeiros)” (139). Se a falta de papel-carbono lhe pode ter causado obstáculos para conservar essas cópias, estava fora de questão que seus herdeiros — pelo menos Mécia — jogassem algo fora. Pelo contrário, ela ampliaria o espólio: “Tenho andado a recolher a correspondência do Jorge em vista a uma publicação futura,” escreveu ela a Gaspar Simões, “não sei quando, mas pelo menos no intuito de a preservar e preparar em diálogo, como entendo que deve ser.  Não me lembro bem e não tenho comigo os arquivos, qual a extensão desta correspondência consigo, por isso lhe pergunto: tem cartas do Jorge?  Quantas?  Importa-se de me dar cópias xerox delas?” (179-80).

A obra aqui resenhada não faz parte, estritamente falando, da série de volumes que Mécia então organizou. O que não é de espantar, já que devido ao afastamento entre Gaspar Simões e Jorge de Sena — que se seguiria, ao que parece, a 1952, período durante o qual não existiram quaisquer contatos entre eles — não deveria haver material bastante que justificasse um volume para publicação. Foi por isso que Filipe Delfim Santos acrescentou, à correspondência disponível entre os protagonistas, algumas bem selecionadas resenhas que Gaspar Simões escreveu sobre a obra seniana, um conjunto de cartas de Mécia de Sena (e um testemunho dela), uma carta de Rui Knopfli, uma carta de Sena ao autor desta resenha, bem como o testemunho “A Conversa após um Longo Silêncio”, também pelo autor destas linhas. O livro abre com o ‘Estudo Introdutório’ elaborado pelo organizador da edição, que, ao longo de vinte e nove páginas, constitui um ensaio sobre o relacionamento entre Jorge de Sena e Gaspar Simões. Simplesmente com esta listagem de conteúdos não se pode fazer justiça à importância do livro para os estudos senianos, ou para um melhor conhecimento sobre Gaspar Simões.

Jorge de Sena via-se a si próprio como um homem perseguido, um Ismael, cuja mão estava “contra todo o homem, e todo homem contra ele” (Genesis, 16:12).  A sua prevenção e  seu azedume contra seus inimigos conheciam poucos limites e seu comportamento para com Gaspar Simões, durantes esses anos em que ele o considerou um seu adversário tão agressivo quanto ele próprio o era dele, não fugiu à regra. Por várias vezes manifesta sua agressividade, em algumas ocasiões de forma mais discreta mas igualmente reveladora: como exemplo, leia-se a sua entrada diarística de 5 de setembro de 1968, na qual anota com regozijo que certa fofoca ouvida a seu colega das letras Rodrigues Miguéis sobre a “companheira” de Gaspar Simões (como o organizador literário optou por designar a senhora) o ter abandonado por José Saramago, “pasmou-me e fez-me rir” (102).[2] Contudo, ainda mais malicioso que esse comentário sobre a vida privada, é o poema “Aviso à Circulação”, cuja composição Sena data de “13 Dez.o 70” mas que permaneceria inédito até 1991:

 

Se de um poeta dos últimos cinquenta anos
o Gaspar Simões escreve um elogio,
e eu estimo esse poeta, quedo logo
numa aflição por ele (o poeta):
que defeito haverá nessa poesia
para o Simões gostar tanto assim dela?[3]

 

Parece que Jorge de Sena esquecera aqui as resenhas generosamente favoráveis que Gaspar Simões escrevera sobre sua obra, a começar pela publicada em 1942, no Diário de Lisboa, sobre Perseguição, o seu livro de estreia poética, e que seguira resenhando intermitentemente a produção seniana ao longo das décadas seguintes. E essa não era tarefa fácil pois que Sena, mesmo quando seu trabalho era elogiado e avaliado criticamente de forma responsável, obtinha (desconfiamos) um grande prazer em “corrigir” qualquer detalhe importante ou alguma minudência que o resenhista tivesse deixado escapar ou, na opinião do autor, tivesse tratado erroneamente. Não é de espantar que até seu amigo Adolfo Casais Monteiro tivesse observado: “é muito difícil fazer crítica a um livro do Sena[4] — uma queixa que Filipe Delfim Santos adotou para epígrafe da obra que agora comento.

Porém, é espantoso que Sena, sempre impulsivo, pudesse ser desagradável para com outros que nada tinham dito ou escrito contra ele ou contra seu trabalho. Graças às investigações de Filipe Delfim Santos posso testemunhá-lo pessoalmente. Oito dias após ter respondido de forma cortês ao meu convite de dezembro de 1976 para participar no Simpósio Pessoano, ele respondeu a Gaspar Simões:

 

E agora um outro assunto, acerca do qual ia escrever-lhe por curiosa coincidência, para lhe remeter a carta que, datada de 2 de Dezembro, recebera do Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University (o centro cheira-me a criação recente, para contrabater o crescimento dos meus estudos portugueses na Univ[ersidade] da Califórnia, mas isso é o menos), e a minha resposta datada de 7 do corrente, porque lhe diz pessoalmente respeito. […] De ambas as coisas lhe remeto aqui cópias — e, no que se refere às entrelinhas da minha carta ao Dr. George Monteiro (que é, segundo os registos da Modern Language Association a que pertencemos mais ou menos todos os cerca de 28,000 professores universitários de inglês e línguas estrangeiras neste país, e da qual sou um dos dirigentes — 1974-78 —, catedrático de Inglês, o que tanto quer dizer que se dedica à lit[eratura] inglesa como à norte-americana ou a ambas), não preciso dar-lhe explicações nenhumas: à bon entendeur…  (114-15)

 

Queixar-se a Gaspar Simões não seria o suficiente, pois Sena prossegue dizendo que reportará esse tema a outrem: “Como devo, por razões oficiais, escrever ao Dr. José Blanco, da Gulbenkian, que sempre tem sido meu amigo, não deixarei de mencionar, à minha inteira responsabilidade, o caso, já que sei que ele provavelmente virá aos Estados Unidos” (115).  Refere-se depois a mim, sugerindo que uma resposta clarificando a incerteza que expressa lhe seria de alguma importância: “Monteiro (um luso-americano de não sei que geração)” (115).

Mas isto ainda não era nada, em comparação com a animosidade geral que  alimentava em relação aos seus presumidos inimigos. Em 3 de setembro de 1977, apenas nove meses antes de sua morte, em uma carta a mim dirigida (alguém que ele ainda nem conhecia) escreveu sem quaisquer reservas:

 

Foi muita gentileza sua, ao enviar o prospecto sobre sua recente coleção “Roads etc.”, informar que minha pessoa e meu trabalho eram referidos por vários professores vossos. Mas à parte o fato de alguns dos cursos que aí estão sendo dados não permitirem uma tal menção, eu sei perfeitamente, dessa lista de nomes, quem se referiria e quem não se referiria a mim. Em geral, canalhas e medíocres foram sempre meus jurados inimigos, não porque eu os tenha prejudicado em algo (pelo contrário, alguns até me devem o dinheiro que eu não tenho), mas simplesmente pelo fato de que eu existo como uma sombra de decência por sobre suas cabeças (e essa sombra irá permanecer, eles bem o sabem, adensando-se ainda mais quando eu morrer). [5]

 

Ismael — até à morte, e mesmo para além dela — com uma praga perpétua em seus lábios para aqueles inimigos fadados a sobreviver além dele.

            trad. Breno DOMIZZI

[*] George Monteiro é Professor da Brown University

[1] George MONTEIRO (1982) The Coffee Exchange, Providence, RI: Gávea-Brown, 48.

[2] Veja-se, porém, como esta entrada diarística aparece em Jorge de SENA (2004) Diários, ed. Mécia de Sena, Porto: Caixotim: “De todos os can-cans com que o Miguéis me cansou antecipadamente de Lisboa, um pasmou-me e fez-me rir: a do G. Simões abandonou-o pelo… Saramago” (173). Não sabemos se a entrada original coincide com a transcrição publicada nos Diários.

[3] Jorge de SENA (1991) Seis Poemas Inéditos de ‘Dedicácias’, Hífen 6 (fev.), 88; coligido em (1999) Dedicácias, Lisboa: Três Sinais, 55.

[4] Citação feita pelo próprio Jorge de Sena em 1946, registrada em Diários, 45.

[5] George MONTEIRO (2013) First International Symposium on Fernando Pessoa / Seven unpublished letters by Jorge de Sena, Pessoa Plural 3 (Spring), 132; online em http://www.brown.edu/Departments/Portuguese_Brazilian_Studies/ejph/
pessoaplural/issues.html

 

De F.S.S

Disponibilizamos abaixo a entrevista radiofônica ao organizador do volume de Correspondência entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões, no programa “À volta dos livros“, transmitido dia 28 de junho de 2013. Complementando a entrevista, um depoimento mais pessoal sobre o convívio de F.F.S. com Jorge, Mécia e com suas obras literárias. 

 

 

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Eu estou profundamente grato à Mécia por ter confiado em mim, por me ter dado essa oportunidade extraordinária de editar uma fração tão importante do espólio seniano.

O meu interesse pela obra do Jorge começou por alguma identificação temperamental com ele. Foi o primeiro poeta que me marcou no Liceu, tinha eu uns 15 anos e me puseram seus livros nas mãos. Até hoje eu sei de memória alguns poemas e traduções dos XX Séculos… Mais tarde, professor universitário de Cultura Portuguesa, escolhi e propiciei aos meus alunos poemas senianos com o entusiasmo que se adivinha. Admirei o crítico lúcido do regime saído de 1974, algo que era quase um tabu em Portugal, mas que tinha, infelizmente, precedentes históricos recorrentes, não fosse outro grande lúcido, Fialho de Almeida, ter escrito no rescaldo da revolução republicana: “hemos de convir que afinal o começo deste regime novo cheira diabolicamente ao fim do velho”… Frase que bem poderia ser do Jorge – foi rara a visão, rara a coragem, rara a independência de espírito que ele demonstrou face aos poderes novos, velhos e de sempre.

E a Mécia revelou-se uma personalidade ao nível da do marido – se é que o caso Mécia de Sena não é mesmo mais admirável que o do Jorge. Eu aprendi muito com as edições dela, que considero a Grande Senhora da epistolografia portuguesa e que é autora de cartas admiráveis de humanidade – e até de alguma parte da obra epistolar (e não só…?) que passa por ser do Jorge. Juntos marcaram dois dos meus começos: ele, as primícias da minha vida poética – e ainda hoje a minha poesia me sai bastante à la Jorge de Sena –; ela, os honrosos inícios da editorial. E me comove que a Mécia sempre faça questão de mencionar que se lembra de mim desde os meus 8 anos de idade…
Apesar dos condicionantes que se lhes reconhecem e das dificuldades pelas quais passaram, os dois se ergueram à altura de modelos para qualquer tempo, em qualquer latitude, um Casal à dimensão dessa Obra diferente e necessária, agentes de um tempo novo, de uma possível mentalidade pós-burguesa que afinal não vingou – pois que é uma herança renegada nos tempos atuais de conformismo e de hipocrisia, de moralismo e mesquinhez.

A ambos o meu “Muito Obrigado” e o “Sempre ao Vosso Dispor”.

 

F. S. S.

De Sofia de Sousa Silva

Sofia de Sousa Silva é professora de Literatura Portuguesa na UFRJ e aqui nos expõe algumas considerações sobre a correspondência trocada entre os amigos Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen — autora à qual se dedicou em sua tese de Doutorado. De toda a correspondência editada que tem Jorge de Sena como interlocutor, certamente foi este volume, lançado em 2006, o que alcançou mais sucesso de público e vendas, posto que já se encontra em 3a. edição. 

 

De Luci Ruas

Luci Ruas, professora de Literatura Portuguesa na UFRJ, nos traz de viva-voz seus comentários sobre a correspondência trocada entre Jorge de Sena e Vergílio Ferreira — autor que exaustivamente estudou em sua tese de Doutorado. A este volume, de 1987, que reúne o carteio dos dois escritores dedicou ensaio que já aqui reproduzimos

 

 

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