Recorte antigo: Sinais de Fogo na Figueira

Mencionado por José Augusto Cardoso Bernardes no testemunho que nos concedeu, desentranhamos de arquivos mortos este breve artigo que assinou n’O Figueirense, há mais de 20 anos, a propósito do romance de Jorge de Sena.

 

“SINAIS DE FOGO” NA FIGUEIRA

José Augusto Cardoso Bernardes

 

“Para aquele lado, a praia estava quase deserta; e o areal encurvava-se até ao Cabo Mondego, com os barcos varados, e um ou outro vulto perdido na areia. Entre os barcos, e também sentados na borda das muralhas, havia pescadores cosendo redes…” p. 109.

Muitas descrições como esta referentes a espaços da Figueira podem ser encontrados em “Sinais de Fogo”, um romance de Jorge de Sena publicado postumamente, em 1979. As situações aí descritas têm, sobretudo, a ver com a animação estival na década de 30 e vão desde o bulício da zona da praia e do Bairro Novo, até às cercanias de Buarcos (onde, por vezes, se alugavam quartos à hora para amores furtivos) e de Tavarede por onde jovens verancantes, apaziguadas as ardências do meio-dia, estendiam os seus passeios de lazer e de namoro.

Mesmo para quem não tenha conhecido a Figueira daquele tempo (o romance ocupa-se de apenas de alguns meses do ano de 1936) não é difícil, ainda hoje, reconhecer os locais descritos no livro. Os cafés e as pensões do Bairro Novo, por exemplo, não deveriam ser muito diferentes. Naquela altura fervilhavam de espanhóis: turistas na sua maioria, mas também alguns refugiados da guerra civil que entretanto eclodira no país vizinho.

O romance tem um nítido suporte autobiográfico: o narrador e personagem principal chama-se mesmo “Jorge” e o “Tio Justino”, professor de um colégio local, frequentador incontido do jogo do Casino e inveterado mulherengo, inspirou-se numa figura real que muita gente ainda lembra. A sua quinta dava para a estrada de Tavarede e nela se refugiaram, realmente, muitos perseguidos políticos e estrangeiros.

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A intriga que atravessa o romance é, também, se não real, bem verosímil pelo menos. As personagens principais são jovens em férias na Figueira a quem a vida social e recreativa da cidade proporcionava, naturalmente, borgas e “rapaziadas”, convívios chiques de chá ou de praia, encontros e desencontros mais ou menos duradouros. O pano de fundo de toda a acção é porém, a Guerra Civil de Espanha e os ecos que ela ia tendo no nosso país nesse Verão que de 36. Esse acontecimento constitui de resto, a base do encontro dos jovens com os problemas políticos e sociais do seu tempo.

Apesar disso, “Sinais de Fogo” não se confina aos limites de um romance de espaço social. A categoria romanesca que mais avulta, em termos de história e de discurso, é a final a personagem e o seu processo de maturação. Uma maturação que se desdobra em vários planos com destaque para o plano cívico (em que sobressai a figura tutelar do “Tio Justino”) e para o plano existencial, que implica a descoberta da vida e o confronto com as grandes questões que ela coloca ao jovem e ao adolescente de ontem e de hoje.

O livro de Jorge de Sena é, assim, um livro de circunstâncias pessoais e políticas. Mas é muito mais do que isso: é também, sob o ponto de vista literário um dos mais importantes romances portugueses deste século.

E não é só pelo facto de se relacionar com Figueira que merece ser lido.

In: O Figueirense, Figueira da Foz, 7 set, 1990, p.8

O acervo de Jorge de Sena continua a preocupar…

Na cerimônia de entrega do “Prémio Jorge de Sena–2012” a Jorge Fazenda Lourenço, Margarida Braga Neves, em nome do júri, leu algumas páginas condizentes com a ocasião. Destas, destacamos o trecho abaixo, que nos parece oportuníssimo, por trazer novamente à ribalta a premência de medidas eficazes para preservar, em Portugal, o rico acervo de Jorge de Sena.

 

O ACERVO DE JORGE DE SENA CONTINUA A PREOCUPAR…

Margarida Braga Neves

 

Para além da inesgotável arca pessoana, existe um outro grande acervo do século XX que continua em grande parte – e para preocupação nossa – a 10.000 Km de Portugal, instalado numa residência sem condições especiais de segurança nem de climatização, para mais numa zona como a cidade de Santa Bárbara que é periodicamente flagelada por fogos florestais devastadores. Claro está – e é da mais absoluta justiça referi-lo aqui – que esse espólio tem vindo a ser cuidado há longas décadas, com a maior devoção,  por aquela que é a sua maior especialista – Mécia de Sena, a viúva do Poeta – que lhe tem dedicado o melhor do seu vasto saber e da sua extraordinária capacidade de trabalho. Contudo, e dada a sua avançada idade, é chegado o momento de as autoridades que tutelam a cultura em Portugal assumirem plenamente as suas responsabilidades e concluírem de uma vez a transferência já iniciada e entretanto suspensa de tão importante acervo para a Biblioteca Nacional de Portugal, que é o lugar mais adequado à sua preservação, estudo e divulgação.

Se após trinta anos em solo estrangeiro os restos mortais de Jorge de Sena repousam finalmente em solo pátrio, como sempre foi seu desejo, é tempo de, pela mesma ordem de razões, o imenso espólio que nos legou ser acolhido e instalado na instituição mais vocacionada para tal efeito, disponibilizando aos investigadores da sua obra, nas condições mais adequadas, os materiais que, com inexcedível generosidade e o maior espírito de colaboração, Mécia de Sena sempre disponibilizou a todos aqueles que, ao longo dos anos, a procuraram na sua residência em Santa Bárbara.

Por ocasião da entrega deste prémio, num dia que se reveste do simbolismo [4 de Junho de 2013 assinala o 35 º aniversário da morte de Jorge de Sena, em Santa Bárbara, na Califórnia, em 1978] cabe talvez recordar que Jorge de Sena apenas recebeu um prémio em Portugal, o Prémio António Ramos de Almeida – 1976, atribuído a uma colectânea de ensaios, Maquiavel e Outros Estudos (1974), por ocasião da Feira do Livro do Porto. A sua obra poética ou ficcional nunca foi premida.

Em contrapartida a Itália foi incomparavelmente mais generosa, tendo-lhe atribuído o 15º Prémio Etna-Taormina, que anteriormente apenas galardoara um autor de língua portuguesa, o poeta brasileiro Murilo Mendes. O prémio foi entregue a Jorge de Sena  em Catânia, na Sicília, em 1977. No discurso de agradecimento, o poeta teve palavras duras para aqueles que, no seu país de origem, lhe negaram ou roubaram as honras à última hora, acentuando que “Pela primeira vez na vida, por estranho que pareça recebo um prémio de poesia” (p.203). E prosseguiu a sua intervenção proferindo palavras, que continuam e continuarão a ecoar,  tanto pela justeza da dimensão ética que é a sua, como pela peculiar definição de poesia enquanto testemunho que nelas (se) formula:

“ [Esta] é (…) a poesia de um homem que viveu muito, sofreu muito, partilhou a vida pelo mundo adiante, sempre exilado e sempre presente com uma vontade de ferro. Mas é uma poesia que sempre que se forma, não sabe nada, porque é precisamente a busca ansiosa e desesperada de um sentido que não há, se não formos nós a criá-lo e a fazê-lo. Quis sempre que essa poesia fosse o testemunho fiel de mim mesmo neste mundo, e do mundo que me deram para viver. Mas uma testemunha que cria no mundo aquele sentido que eu disse, e, ao mesmo tempo, deseja lembrar aos outros que há uns valores essenciais muito simples: honra, amor, camaradagem, lealdade, honestidade, sem os quais a vida não é possível, e toda a poesia, por mais sábia que seja, é falsa. Uma testemunha de que, sem justiça e sem liberdade, as sociedades humanas não dão ao homem a dignidade que é a sua, e que ao poeta cumpre afirmar. Não uma testemunha passiva mas activa. Porque é esse o papel da poesia. Pode ela ser panfleto, ou ser visão mística, ou ser sátira, porque ela pode ser tudo. Mas tem de ser activa, não só no sentido meramente panfletário, mas no de, herdando tudo o que a Antiguidade e o passado nos legaram, criarmos a língua do presente e a língua do futuro.” (Poesia e Cultura: 205-206)

Essa língua do nosso tempo e dos tempos por vir que os grandes poetas criam e de que nós, seus estudiosos, temos o privilégio de ser os arautos.

62. Ainda Pessoa e Sena

[LER E RELER JS – 62: Osvaldo Manuel Silvestre]

Prolongando as comemorações dos 125 anos de nascimento de Fernando Pessoa, aqui trazemos primoroso ensaio de Osvaldo Manuel Silvestre a desvelar as relações entre Pessoa e Sena nos anos 40, logo após o falecimento do poeta dos heterônimos.

 

O MENINO (DOUTOR) ENTRE OS DOUTORES: FERNANDO PESSOA EM

JORGE DE SENA, NOS ANOS 40

Osvaldo Manuel Silvestre

Jorge de Sena apreciava, como sabemos, a retórica do número, essa que surge, em registo exemplificativo e exemplar, num título como Trinta Anos de Camões, a obra em cujos dois volumes reuniu, em 1978, a sua ensaística dispersa sobre Camões. O caso de Fernando Pessoa é e não é aproximável do de Camões, na obra e no percurso de Sena. Não é, para começar, pois Sena escreveu muito mais sobre Camões do que sobre Pessoa, dedicando ao quinhentista um conjunto impressivo de tomos, enquanto a sua dedicação a Pessoa ocupa apenas o volume Fernando Pessoa & Cª Heterónima (Estudos Coligidos 1940-1978), com edição inicial, em dois volumes, em 1982 – este «apenas» não abarca obviamente todas as remissões para Pessoa em muitos dos seus estudos ou prefácios (a antologias ou volumes de tradução) e ainda na sua epistolografia e obra poética. O caso não é aproximável, ainda, uma vez que Sena não dedicou a Pessoa senão textos de extensão relativamente breve, ensaios «de ocasião» quase todos, se exceptuarmos os trabalhos, suscitados por encomenda, de organização do volume de 1947, Fernando Pessoa. Páginas de Doutrina Estética. Do ponto de vista da «profissão», a questão explica-se assim: Sena fez tese sobre Camões e fez sobretudo carreira académica sobre Camões e os seus contemporâneos, o que se traduziu nas pesquisas sistemáticas, e de ambição sistémica, a que corresponderam os famosos volumes que a partir do início dos anos 60 foi editando sobre Camões e seus contemporâneos.

Os casos são contudo aproximáveis de muitas maneiras, e desde logo, para retomar a retórica do número, na longa dedicação, de décadas, a Camões e a Pessoa. Essa retórica está patente no parêntesis que subtitula a obra em que se coligem os ensaios sobre Pessoa: «(Estudos Coligidos 1940-1978)». A morte não permitiu que este número tomasse a feição redonda patente nos «30 anos» da dedicação camoniana do autor, mas a indicação não deixa de ser impressiva: 38 anos. Para recorrer à linguagem de Sena, estamos perante uma dedicação, ou uma fidelidade, testemunhada por um número: eis a lógica e a retórica da quantidade no seu pensamento e, desde logo, nos seus títulos. Como é evidente, e até porque o autor não foi longevo, esta função ético-retórica da quantidade implica precocidade: digamos que a dá a ver de forma (desejavelmente) incontroversa – como é manifesto, Sena acreditava que o número, e a sua tradução estatística, suspende controvérsias. Não explorarei o topos da precocidade na obra de Sena, e tentarei antes sugerir o modo divergente dessa precoce relação com Pessoa e Camões: porque se Camões foi a dedicação absorvente que sabemos, e que do ensaio se transferiria para a poesia, de modo mais nítido a partir de As Evidências, em 1955, Pessoa foi, em grande medida, o autor ao qual Sena atribuiu a responsabilidade pela sua constituição como «poeta moderno»[1], o que explica o seu longo embate com Pessoa, a que sobretudo dá voz pública o «Prefácio da primeira edição» de Poesia I, em 1960, na oposição que estabelece (ou melhor: tenta estabelecer) entre fingimento e testemunho.

Num certo sentido, aliás, essa posição rigorosamente originária e originante da relação com Pessoa não cessará de se reforçar na óptica do Sena-poeta, escritor e crítico modernista. Recordo aqui duas datas decisivas neste processo: 1940 e 1960. A primeira refere a «aparição» pública de Sena na nossa cena literária, na forma de uma carta à presença. A carta, um «correctivo»[2] filológico à edição de «Apostila» de Fernando Pessoa no nº I da nova série da revista (de Novembro de 1939), sairá assinada por Teles de Abreu, pseudónimo das primícias de um autor que assim se assinava «por medo do Pai»[3]. Notemos, ainda assim, a situação modernista em diferido e em duplicado: um proto-autor que se apresenta sob um nom de plume, que o faz nas páginas de uma revista emblemática do nosso modernismo, e que o faz pronunciando-se sobre Pessoa, autor que revela conhecer com uma intimidade seguramente rara à época. A esta carta, enviada em Janeiro e publicada no último número da presença, seguir-se-á uma outra, com data de Abril, sobre o mesmo poema de Pessoa e já não publicada, por não haver já revista[4]. Muito nitidamente, as cartas são típicos gestos de filiação: produção retroactiva de uma genealogia Paterna (Pessoa) e eleição de Mestres, aqui nomeados reverentemente como Doutores: o Dr. Casais Monteiro e o Dr. Gaspar Simões, na primeira carta, o Dr. José Régio, além de Casais de novo, na segunda[5]. A reverência, vinda de quem vem, e vinda de quem, na correspondência com Régio, ainda na década de 40, derivará do nome de Gaspar Simões uma série cáustica de inversões – Simar Gaspões, etc. -, é de todo reveladora desse processo de juvenil filiação.

De teor bem diferente é a data de 1960 que agora chamo à colação. Não me refiro ao texto prefacial a Poesia I, acima invocado e sempre abordado quando esteja em pauta a «descendência crítica» do fingimento pessoano, mas sim ao estranho texto com que, no mesmo ano, Sena assinala, no Suplemento Literário do Estado de S. Paulo, a 3 de Dezembro de 1960, a histórica edição da Obra Poética de Pessoa, da responsabilidade de Maria Aliete Galhoz, pela Editora José Aguilar. Estranho e singular texto, de facto, e não apenas pelo facto de a resenha propriamente dita ser escassa e concentrada em rigor num parágrafo final. Mas também pela economia com que nele se distribuem três outros pontos: (i) a consideração dos inéditos apresentados pelo volume, (ii) a retoma de teses caras a Sena enquanto leitor de Pessoa, mas, sobretudo, (iii) o surpreendente registo confessional do texto, com Sena a revelar que na infância e adolescência conhecera pessoalmente Fernando Pessoa, ainda que desconhecendo quem estava de facto a conhecer.

O texto inicia-se, à maneira daquelas longas e minudentes investigações genealógicas que sempre fascinaram Sena (e que atingem o seu ponto alto com Camões e Inês de Castro), com a frase «Minha tia-avó Virgínia Sena Pereira, irmã de meu avô paterno, vivia nos Açores, onde casou, já viúva, com o cônsul americano, que acompanhou a Boston, de onde ele era, e onde viveu muitos anos» (id.: 159). A descrição do encontro, por intermédio da tia-avó, com essa versão de Pessoa antes de Pessoa, surge mais adiante, já na Rua Coelho da Rocha, rua na qual a tia-avó Virgínia, a mãe de Pessoa e ele mesmo, jogam já o jogo de uma singular e extraterritorial vizinhança, porque «anglófila», trocando e lendo «livros ingleses, como ninguém então (…), em Portugal lia, a não ser, talvez, a colónia britânica» (id.: 160). Transcrevo o passo fundamental da descrição do «encontro do jovem Sena com Pessoa»:

Essa minha tia-avó, como a minha avó materna, foi uma das deusas tutelares da minha infância. Lembro-me de que, quando a visitava, às vezes encontrava lá aquele senhor suavemente simpático, muito bem vestido, que escondia no beiço de cima o riso discretamente casquinado. Parecia-me muito velho, e tinha ele então poucos mais anos do que tenho agora, já que morreu em 1935, aos quarenta e sete. Mas a calvície, os olhos gastos, o jeito de sentar-se com as mãos nos joelhos, e uma voz velada – o primo Chester contribuía com os seus uísques (em Lisboa, nos anos 30!) para isso – davam-lhe um ar estrangeiro, distante no tempo e no espaço. O meu primeiro contacto com a literatura inglesa sucedeu precisamente numa dessas visitas, quando, chegando eu com minha mãe, sobre a mesa da sala estava um livro que o vizinho do lado devolvia e era Romola de George Eliot. Curiosamente, e talvez por isso mesmo, é um dos raros livros que nunca li, de um romancista que admiro tanto. Quando, em 31 de Dezembro de 1934, os jornais noticiaram que um prémio do Secretariado da (então) Propaganda Nacional fora atribuído a Mensagem de Fernando Pessoa, foi para mim um pasmo. Porque o premiado era precisamente aquele senhor amigo da minha tia-avó que não falava nunca de poesia e cujas aventuras modernistas eu ignorava. (ibid.)

Uma questão prévia: por que razão só em 1960, data daquilo que Sena designa, no título do artigo, como os «Vinte e cinco anos de Fernando Pessoa» (eis-nos de regresso à retórica do número), o autor nos oferece esta revelação? Note-se que já na primeira carta à presença, vinte anos antes, Sena sugerira um elemento autobiográfico, ainda que incoativo, na sua relação literária com Pessoa, ao rematar os dados filológicos relativos a «Apostila» com a informação/confissão de que o Notícias Ilustrado em que o poema fora publicado, e vários outros de Pessoa, era do seu conhecimento desde a infância – a cena burguesa e familiar pressuposta no modelo comunicacional dessa publicação[6] é assim explicitamente ratificada por Sena. Referindo-se aos números antigos da publicação, que consultara, afirma o autor:

Há doze anos folheei-os [aos números do Notícias Ilustrado] à medida que saíam, pode dizer-se que só para os ver[7]; se os li – às vezes reconheço uns escritos, mas não basta – não li as poesias, passei os olhos por elas, que não me interessavam em si mesmas de pequeno que eu era. (id.: 20)

A datação remete este encontro primordial para os 8 anos de idade de Sena, período em que, como percebemos ao ler o texto de 1960, o futuro poeta poderia ter já contactado com Pessoa na casa da tia-avó na Rua Coelho da Rocha, sem saber verdadeiramente com quem contactava. Ora, tendo o «pasmo» experimentado pelo jovem Sena em 1934, com a notícia da atribuição do prémio do SPN a Mensagem, ficado já bem para trás, em 1940, e sendo esse «pasmo», como é manifesto, o detonador de um interesse que se alarga, retroactivamente, até ao Notícias Ilustrado de doze anos antes e, mais do que isso, a toda a obra de Pessoa, que o Sena dos 20 anos de idade revela conhecer de modo impressionante, a questão antes colocada afigura-se-me não só pertinente como inevitável. Em 1960, Sena parece sentir a necessidade de integrar Pessoa na sua genealogia familiar, por meio de uma tia-avó (uma parentela indirecta para uma genealogia «adoptiva»). Melhor dizendo: Sena sente-se no direito de o fazer, direito que vinte anos antes não sentira poder reivindicar[8]. Note-se, em todo o caso, que fazê-lo quando Fernando Pessoa «celebra», de acordo com Sena, 25 anos, é diferente do que poderia ter ocorrido em 1940, data em que o poeta qua poeta teria – e Sena insiste longamente no texto de 1960 na dicotomia entre conhecer o poeta biograficamente, o que equivaleria a desconhecê-lo, ou conhecê-lo na sua Obra, coisa só realizável a sério em 1960, após a primeira tentativa de edição da Obra Completa – apenas cinco anos de existência póstuma, para todos os efeitos a que neste caso conta para Sena.

Recordemos, de novo, que 1960 é o ano em que Sena decide dar a público as suas divergências em relação ao magno tópico do fingimento pessoano. Suspendo agora a sua descrição daquilo que lhe opõe – o «testemunho» – e permito-me destacar o teor dessas divergências enfim publicitadas no prefácio a Poesia I:

Também para mim, a poesia não é de facto um fingimento. Se algumas vezes tentei elucidar e defender essa poética que um Pessoa constituiu base do seu ser poético, o fiz sempre contra mim, levado pelo sentimento de que nos urge compreender e aceitar como cada qual se propõe, antes de assumirmos o que seja uma outra proposição mais nossa. (Sena, 1977: 25)

Logo a seguir, Sena dirá da sua «repugnância»:

Mas repugnou-me sempre a parte de artifício, no mais elevado sentido de técnica de apreensão das mais virtualidades, que um tal fingimento implica. (id.)

Entre o Prefácio, datado de Março de 1960, e a resenha da edição Galhoz, publicado a 3 de Dezembro do mesmo ano, os pontos de contacto são evidentes. Na resenha, e sobre esta matéria, Sena limita-se a descrever aquela que é para si «a lição de Pessoa»[9], para depois concluir, sobre tal lição: «que nos cumpre ultrapassar». (ibid.) A resenha, contudo, fornece a armatura autobiográfica indispensável a esta proclamação de uma distância que no Prefácio ganha tradução doutrinária. Porque é na resenha que Sena regressa, a um tempo, aos textos fundacionais da sua relação com Pessoa e aos momentos retroactivamente fundacionais dessa relação, agora no plano biográfico. Desses textos, Sena elege a sua «Carta a Fernando Pessoa», de 1944, transcrevendo o início do texto, em que lamenta não ter conhecido o poeta pessoalmente. Para comentar, em seguida:

E eu estava duplamente mentindo e falando a verdade. Eu não o conhecera pessoalmente, tendo-o conhecido, porque nem ele fora ele para mim, nem eu, adolescente, era ainda eu. Mentia, dizendo a verdade. (Sena, 1984:166.)

Suponho não ser necessário fazer notar a exasperação, ainda pessoana, destas palavras repartidas entre a verdade da mentira e a comédia de autores. Mas tudo isto parece suscitar a Sena algo entre o testemunho e a confissão, pelo que tão ou mais importante do que a auto-citação de um texto de 1944 parece ser o recuo, via tia-avó, ao ante-começo de uma obra que, num certo sentido auto-mitográfico, teria começado no ano da morte de Fernando Pessoa. Convirá então transcrever todo o trecho mais assumidamente autobiográfico, na lógica de um poeta que, após ter inscrito Pessoa na sua genealogia familiar, o inscreve na sua genealogia poética:

Nunca contei isto, e minha tia-avó morreu há alguns anos, e a filha pouco lhe sobreviveu. Mas a 30 de Novembro cumprem-se vinte e cinco anos sobre a morte de Fernando Pessoa, e há vinte e cinco anos que, tendo ouvido La Cathédrale Engloutie, de Debussy, perpetrei um poema muito mau, em que, se bem me lembro, se falava de almas penadas. E este ano publicou-se, enfim, a primeira tentativa monumental de edição da Obra Poética de Pessoa. É possível que, se todas estas circunstâncias se não houvessem reunido, eu continuasse calado com incidentes que, do meu ponto de vista autobiográfico, não interessam nada, mas que, ainda que ocasionalmente, ajudam a acertar o romance banal dos últimos anos da vida de um dos maiores poetas do mundo. Porque afinal, e à semelhança de tantos que hoje se vangloriam de o ter conhecido, eu não cheguei a conhecer Fernando Pessoa. (id.:161)

Não parece, de facto, que os ditos incidentes «não interessem nada». Parece, sim, que Sena não consegue mais calar essa sua versão do (des)encontro do pré-poeta quando (muito) jovem com o Grande Poeta. Com esta confissão, produzida no mesmo ano em que o poeta, na maturidade (e coligindo já os seus primeiros livros em Poesia I), separa as águas em relação a quem, por esta mesma confissão, vem inundar a sua pré-história, Sena torna-se, ou deseja tornar-se, inseparável de Pessoa na narrativa da nossa poesia novecentista, em relação a quem seria o elo seguinte de uma cadeia que o próprio Sena, percebemos agora, foi produzindo desde a sua primeira carta à presença. Dizendo-o de outra forma, é como se o testemunho, enquanto categoria poetológica, colidisse com o testemunho enquanto dispositivo auto/bio/gráfico (sigo aqui De Man nesta decomposição do termo e suas implicações): porque não se trata do mesmo «testemunho», e creio um tanto inconsequente estudá-lo na poetologia seniana sem considerar a forma como, por meio dele, se produz, no mesmo ano e numa mesma e dupla jogada, uma narrativa da poesia portuguesa novecentista e do lugar de Pessoa e Sena nela.

Podíamos mesmo sugerir, creio, que este uso duplo e dúplice do «testemunho» curto-circuita a desejada potência derrogatória da noção, no seu enfrentamento com o fingimento pessoano. Porque, de facto, o que Sena aqui faz é, para começar, dar testemunho do carácter retórico do testemunho. Refiro-me ao facto de este testemunho fazer sentido numa narrativa morosamente construída e tardiamente revelada enquanto tal: enquanto «testemunho», esclareço, não enquanto narrativa, pois a bem da força persuasiva deste testemunho tardio, é de toda a conveniência que a narrativa subjacente – a do inderrogável vínculo Sena-Pessoa na nossa poesia do século XX – fique na sombra, preservando aí a sua latência. Notemos, porém, que este é um testemunho da experiência de uma radical alteridade: a do Autor como vizinho desconhecido ou Grande Oculto. Mas, mais ainda, ou mais modernamente ainda, do Autor como efeito institucional de uma assinatura e inscrição pública, isto é, aquele premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional que «era precisamente aquele senhor amigo da minha tia-avó que não falava nunca de poesia e cujas aventuras modernistas eu ignorava».

Sena, digamo-lo assim, dá-se a ver como testemunha, não de Pessoa mas antes daquela pessoa vizinha da tia-avó Virgínia – o que nos permitiria a inferência de que a situação testemunhada por Sena põe em causa, em toda a extensão, as próprias condições de possibilidade do testemunho, pois a anamnese, como o Sena de 1960 insiste, não recupera a verdade de uma recalcada experiência infanto-juvenil. Ainda assim, porém, a anamnese não faz do Sena que a recupera um mentiroso, já que é da própria natureza paradoxal deste testemunho dar a ver a impertinência de uma contraposição epistémica entre verdade e mentira. Como Sena judiciosamente nota, ao ocultar esse seu conhecimento estranhamente não-pessoal de Pessoa, ele não mentia, pois em rigor (i) nem votara ao vizinho enigmático da tia-avó mais do que aquela curiosidade protocolar que a vizinhos se vota (percebemos que a Rua Coelho da Rocha não seria exactamente o Pátio das Cantigas, ou melhor, que seria a sua tradução british), nem (ii) um maior investimento nesse vizinho conseguiria mais do que conhecer o Homem, que não o Poeta – dicotomia em que Sena se demora, e sempre em termos que mimam rigorosamente a epistemologia do… fingimento.

Não podemos pois deixar de concluir que Sena se vê forçado a deslocar o investimento patente no testemunho induzido pela anamnese para o terreno do ético, e que essa seria no fundo a sua divergência em relação a Pessoa, divergência que poderíamos qualificar como uma re-saturação humanista de um quadro que o alto-modernismo, e o de Pessoa em particular, tende justamente a esvaziar de conteúdos humanistas. O problema, contudo, reside em que a forma como Sena se vê também forçado a esvaziar epistemicamente o quadro deste particular testemunho, força o ético a assumir feições que diríamos deslocadas, reduzindo-o a um gesto ou gesticular um tanto auto-referencial: Sena, mais do que a poesia portuguesa de Novecentos, necessita de uma confissão cujo conteúdo, porém, não podemos predicar como verdadeiro ou falso – tanto é possível dizer que Sena conheceu Pessoa como o contrário -, e que também não podemos em rigor qualificar como ético-moral, já que as suas consequências não parecem ser desse tipo. A única consequência em rigor reconhecível deste gesto é uma espécie de catarse, patente no esforço para traduzir «testemunho» como «rotura com Pessoa». O que explica que a questão seja, mais do que ética, psicanalítica, vale dizer, narrativa.

A narrativa, que Sena constrói em 1960, sai reforçada pela decisão, da responsabilidade de Mécia de Sena, de inclusão, em 1982, no volume Fernando Pessoa & Ca. Heterónima, de um como que preâmbulo, ou epígrafe, consistindo na reprodução fac-similada de uma tentativa de composição musical, datada de Setembro de 1938, em torno de «Pobre velha música», de Pessoa[10]. Transcrevo a nota que acompanha a reprodução do «Lied» (indicação genológica da manuscrito), da autoria de Mécia:

Entre os projectos de juventude de Jorge de Sena, o de vir a ser compositor foi um dos de maior vulto. Tivera educação musical na infância, educação essa que a mãe acompanhara por alguns anos mais e a avó encorajara. E a tal ponto se sentia dotado para essa carreira, que, mesmo depois de a ter posto de lado como irrisório sonho, uma da suas delícias de toda a vida era sentar-se ao piano e «improvisar» com largos harpejos e estrondosos acordes, tal como descreve no conto «O Papagaio Verde».

Como resultado desse devaneio juvenil sobraram algumas «composições» das quais «Pobre velha música» é a de data mais recuada e feitura mais completa, o que não significa, forçosamente, tocável ou cantável. Damo-la à estampa apenas como mera curiosidade e complementar dado biográfico (M. de S.)

A datação da composição inscreve-a naquela fase pós-«pasmo» (um pasmo rigorosamente datado, recordo: 31 de Dezembro de 1934, data do anúncio do prémio do SPN), em que o jovem Sena sabe já que o vizinho da tia-avó Virgínia é poeta. Mas, quatro anos depois dessa data, e dois antes da primeira carta à presença, o jovem Sena parece saber não apenas que o vizinho é poeta, mas que o poeta Fernando Pessoa não é apenas um entre outros. Neste ano de 1938, Pessoa, é manifesto, integra já o romance das origens do Sena criador (e não apenas, como vemos, do «Sena poeta»), tanto mais que lhe suscita uma composição musical. Mécia informa – e esta informação, neste lugar do volume, como a decisão que subjaz à reprodução material do fac-simile, são mais do que mera filologia – que das composições resultantes desse «devaneio juvenil», «’Pobre velha música’ é a de data mais recuada e feitura mais completa», o que parece ser contraditado pela numeração, ao cimo, e sob o nome do autor – «J. Sena» – da obra como sendo o «op. 2». Não é claro, da frase de Mécia, se devemos entender que esta é a primeira, em data e completude, das composições que restam desse devaneio juvenil, ou se as sobras pressupõem outras composições perdidas, qual seria o caso do «op. 1». Em todo o caso, a composição deixa claro que, como em nenhum outro poeta português de Novecentos, o romance de educação do Sena poeta pressupõe, na sua origem – uma origem construída a partir da experiência do «pasmo» de 1934 e reconstruída a partir do testemunho de 1960 – uma relação constitutiva com Pessoa. O carácter revisionista desta origem, denunciado já no «pasmo» de 1934, é aqui deslocado para a música, ou melhor, para o «Lied», no registo e inscrição de uma primeira obra que é, como sempre, um «opus 2».

Em todo o caso, 1938 é uma data útil para o estudo de ocorrências de diálogo entre Sena e Pessoa, já que é a partir destes anos finais de 30 que esse diálogo se manifesta na sua poesia. Notemos, contudo, que a poesia onde reconhecemos os primeiros sinais visíveis de um diálogo não será publicada em vida por Sena, o que significa que não integra o corpus de Poesia I. Caberá a Mécia recuperar esses textos nos volumes póstumos e, para o que agora nos interessa, nos dois de Post-Scriptum (ambos de 1985). A razão dessa não-publicação das primícias dos anos finais de 30 não oferece grande dificuldade de escrutínio, dada a flagrante menoridade de tais textos. Recupero, em todo o caso, dois textos significativos. O primeiro, com data de 5/9/38, ou seja, do mesmo mês de Setembro e do mesmo ano do «op. 2», em rigor uma variação de «Pobre velha música», no mesmo registo de singeleza formal (agora não o recorte das quadras, mas ainda o poema curto e algo desenfadado, o que parece ser a marca da revisio seniana do «outrora agora»), ainda que com menos um verso e claramente menos sílabas:

CANÇÃO SINGELA

Dantes eu era
bem mais feliz
do que agora.
E talvez não.
Sou tão feliz
agora como
o era dantes;
Talvez até
o seja mais.
Mas o que estou
é mais cansado. (Sena, 1985a:210)

O outro poema, com data de 15/2/39, intitula-se «Destino português». É um espécime daquele patriotismo, transfigurado mais ou menos belicamente em nacionalismo, que reconhecemos em Camões e Pessoa e que, na sua versão agónica, percorre toda a obra de Sena. Literariamente é uma revisitação da Mensagem em duas partes, a primeira mais descritiva e guerreira (e entre parêntesis rectos), a segunda mais dada ao simbolismo esotérico do Pessoa épico, e abusando, para esse efeito, das maiúsculas e dos nomes e símbolos pessoanos. O poema, aliás, é uma sobrecarga abusiva de imagens e símbolos. Transcrevo a 4ª estrofe, primeira sem parêntesis:

Lama de sangue… Sangue já em rio…
O rio o leva ao mar e o mar não bebe –
o mar conhece a voz da santa guerra,
por ordem do poder que o governa
dará a rumo e rumo a Rosa eterna
e o Mundo nunca mais será o Mundo
mas Terra, Terra inteira, livre terra! (Sena, 1985b:77)

A última estrofe inicia-se com um verso que regressa ao «sangue dos heróis» e consiste, aproximadamente, numa reescrita de «O dos castelos», poema de abertura da Mensagem[11], com um último verso em espanhol, num exercício de alteridade idiomática e cronológica que quebra o decoro «tonal» do poema e não o beneficia:

E o sangue dos heróis percorre as águas
e vai marcando as praias destinadas
e o mar, rolando a areia dessas praias,
beijando a marca com que estão firmadas;
diz onda a onda o nome que adivinha –
o Nome, nome, o Nome sem igual,
o nome que o Destino ainda não tinha,
yo lo sé muy bien: es Portugal. (id.)

Eis, pois, recuperada a arqueologia da ocorrência primeira da relação pública de Sena com Pessoa nos anos 40, aquela carta à presença, com data de 1940, antes mencionada. As ocorrências recenseáveis seguirão, muito proximamente, o modelo reconstituível na indagação realizada até a este momento: um diálogo oscilante entre o crítico e o poético e, sempre, muito mais visível no plano crítico e ensaístico do que no poético, já que neste continua a ser relevante o contributo fornecido pelos volumes póstumos para uma mais perfeita intelecção do processo. Sem eles, teríamos mesmo alguma dificuldade em rastrear a sua evolução, coisa que não sucede com a ensaística, toda ela de referência na recepção de Pessoa a partir da década de 40. O ponto sensível é justamente o cruzamento das duas «séries», a ensaística e a poética, não na sua lógica profunda, que como vimos vai mais além do que se poderia imaginar, mas nas suas motivações circunstanciais. É o que ocorre com um poema, de título «Encruzilhada» (título bem presencista, diga-se), recolhido no segundo volume de Post-Scriptum II, dedicado «A João Gaspar Simões» – estamos ainda, nitidamente, na fase da veneração pelos doutores de Coimbra, veneração há muito pouco tempo formulada.

Perseguição, primeira colectânea poética de Sena, com data de 1942, recoloca a questão de modo diverso. Organizado em três partes, o livro apresenta quatro epígrafes, uma para o livro no seu todo, e uma para cada parte. A primeira pertence a René Char, a segunda a André Breton, a terceira a André Gide e a última a Antonio Machado[12]. Algumas notas a este respeito: (i) Como Jorge Fazenda Lourenço deixou claro, no já referido levantamento da biblioteca do Sena juvenil, a sua francofilia é nesta fase indesmentível: «Ler em língua estrangeira» significa para Sena, pelo menos até 1942, ler em francês[13]. Convém recordar, a propósito, aquele momento em que Sena, na anamnese de 1960, nota que foi na casa da tia-avó Virgínia que teve o seu primeiro contacto com a literatura inglesa, por meio de um romance de George Eliot devolvido por Pessoa: Romola, esse romance que Sena diz, no texto de 1960, não ter ainda lido, apesar da sua admiração por George Eliot, concluindo retoricamente o texto com a afirmação: «Decididamente, chegou a hora de eu ler Romola, de George Eliot» (Sena, 1984:167). Ler Romola seria penetrar um pouco mais na comédia british de costumes encenada entre a tia-avó e Pessoa ou, o que daria no mesmo, penetrar um pouco mais no universo bilingue de Pessoa, um tópico de que Sena foi dos primeiros a extrair rendimento crítico. Mas seria também uma forma de ir substituindo o francês pelo inglês no sistema cultural de Sena. E ainda, um tanto paradoxalmente, de «desencantar» (uso o termo em acepção weberiana), pela profanação da leitura, um vestígio algo oracular de um passado retroactivamente encantado: um livro que funciona como metonímia da relação entre a família de Sena e Pessoa[14]. (ii) Sena fez questão, ele mesmo, de filiar o seu primeiro livro num como que meta ou hiper-surrealismo, filiação que leva sobretudo a cabo em 1977, no «Prefácio à segunda edição» de Poesia I. Nesse texto, após relevar a «linguagem totalmente diversa» de Perseguição no panorama poético português de então, o autor reporta-se a palavras de José-Augusto França que o ajudam nesse gesto:

Era, na verdade, como José-Augusto França afirmou recentemente, um livro surrealista para lá do surrealismo que já houvera na Europa mas não chegara poeticamente, com declarada ou praticada consistência, a Portugal ainda, independentemente de um ou outro caso esporádico que pode aliás filiar-se no muito e vário que precedeu o surrealismo francês e veio, vanguardisticamente, a fundir-se nele ou a ser utilizado por ele. (Sena, 1977: 13)

Proponho que se leia esta filiação num «surrealismo para lá do surrealismo»[15] contra o pano de fundo de dois dados relativos a Pessoa: o primeiro, o facto de 1942 ser a data da edição Ática das Poesias do ortónimo, obra que integra também a biblioteca de Sena; o segundo, uma informação constante da correspondência de Sena com Guilherme de Castilho, em carta deste de Abril de 1942: «Entretanto Você tem o Orfeu à sua disposição (…)». (Sena, 1981:25) Isto para dizer que se a presença de Pessoa em Perseguição não é flagrante, não deixa de ser contudo constatável que nos poemas em que se solicita ao verso livre o apoio indispensável a uma respiração larga, a lição sobretudo de Campos é reconhecível. Um exemplo: «Infância», poema filiável na grande ode à noite de Campos, mas sobretudo na sua lição imagética, rítmica e tímbrica[16]:

Noite de infância luminosa e pálida
em que o crescimento vem por saltos que surpreendem adiante do espelho
e o cabelo regista escondendo o que se via.
Noite de fora para dentro, noite num sentido,
pêlo de veludo que só dá para um lado único e repleto

(…)

Ah noite de infância
não noite de além,
noite de além do fundo que se alonga, altera e prelimina
e cresce e vem e tomba e permanece e vibra…
Mais para grande que permanecer,
maior que ficar!
– isso te solta para não vibrar!…
Ah não vibres nem voltes creio que não falei em voltar,
não, não, não quero ir… e nem pensar contigo
Noite de infância, luminosa e pálida. (Sena, 1977: 56)

Digamos que se o surrealismo declarado ocupa a boca de cena deste livro, na sua imagética tentativamente livre – mas que na parte III se cristianiza a ponto de encenar um exasperado diálogo com Deus, na linha daquele modernismo que entre nós deu ou Régio ou Torga -, tudo se passa como se as suas condições de possibilidade fossem asseguradas pela lição prévia de Pessoa-Campos, um tanto como aliás sucederá no nosso surrealismo «oficial», também ele reconhecendo, ainda que entre um ranger de dentes, uma dívida com Pessoa, via Campos.

Com data também de 1942, um poema recolhido a um dos volumes póstumos – 40 Anos de Servidão, ainda congeminado pelo poeta mas de facto levado a cabo por Mécia – denuncia a recepção de Pessoa por meio de um dos seus poemas mais produtivos em Sena: o poema VIII do «Guardador de Rebanhos»[17]. Intitulado «Ode apócrifa de Alberto Caeiro», trata-se de uma muito conseguida revisitação do poema VIII, sem blasfémia e com metafísica, sendo algo surpreendente que o texto não tenha sido incluído em nenhum dos volumes de Sena nos anos 40. Transcrevo o poema:

Ode apócrifa de Alberto Caeiro

Não quero este menino que desce do céu para os meus braços
e que ri da minha desconfiança de eu poder com ele;
eu sei que posso, mas não quero este menino,
nem outros meninos, nem o mundo
como quando o mesmo menino, já grande
e sentado num trono, tem na sua mão.

Não quero nos meus braços coisa alguma.
Neste grito recurvo de embalar o nada,
a minha vida encontra-se e descansa.

Inclino a cabeça e penso que viver
podia ter-me sido um menino nos braços,
fugindo para o mundo acaso fosse um homem,
ou para o Universo acaso fosse um Deus.

E tu, menino do céu, tão tarde vens!
Mas teimas, sabes que um carinho
se escondeu cá dentro e não tem nome ou obra,
e teimas – e eis-te nos meus braços.

Ó meu menino querido, agora que pensei,
aperto-te com força e não te deixo crescer. (Sena, 1982c:37)

Datado de entre 8/4/42 a 1947, um outro poema de inspiração pessoana consta desse volume póstumo: «Ode a Ricardo Reis», um exercício aplicado de estilo de que transcrevo os três primeiros versos:

Rosas raquíticas te ofereço, poeta,
porque é das odes oferecer rosas
e não há doutras nas palavras de hoje. (id.:35)

O episódio seguinte da recepção de Pessoa por Sena é a «Carta a Fernando Pessoa», publicada na página literária de O Primeiro de Janeiro, em 9/8/1944, sob o título «Carta ao Poeta». Como o autor informa, logo a abrir, é a segunda carta a Pessoa publicada após a sua morte, sendo a primeira a de Carlos Queiroz, intitulada «Carta à memória de Fernando Pessoa», incluída na presença, no número com que a revista homenageou Pessoa na sua morte (nº 48, vol. II, de 1936). São textos com mais pontos de contacto do que poderia parecer, à primeira vista. Queiroz, na secção II da sua carta, esforça-se por «decompor» a «fulgurante radiação prismática» de Pessoa, apresentando os seus heterónimos e poéticas ao leitor de 1936[18]. Esse será também o propósito maior de Sena que, na esteira do que os primeiros «donos de Pessoa» se esforçaram por fazer, tentará, nestes ensaios iniciais, explicar o escândalo da heteronímia. É o que ocorre numa passagem das mais reveladoras da «Carta»:

V. não foi um mistificador, nem foi contraditório. Foi complexo, da pior das complexidades – a sensação do vácuo dentro e fora, V. não foi um poeta do Nada, mas, pelo contrário, poeta do excessivamente tudo, do excessivamente virtual, de toda a consciência trágica de probabilidade, que a crença no Destino não exclui. (Sena, 1984:27)

De resto, a especificidade da interpretação seniana da heteronímia reside (i) numa restrição à despersonalização do «drama em gente»: os heterónimos não seriam «personagens independentes» e as vidas que Pessoa os fez protagonizar «vieram depois, e amassadas com lágrimas que V. considerou imerecidas, que não quis gastar sobre a sua própria vida» (id.:28); (ii) na tese, aliás paradoxalmente congruente com essa restrição, de que o Pessoa ortónimo – o que lhe teria ficado «das sobras» – «não foi menos heterónimo do que qualquer deles» (id.:28) (entenda-se: do que os heterónimos); (iii) na tese final de que, de entre os heterónimos, só a Alberto Caeiro e Ricardo Reis «pertencia a possibilidade poética de se erguerem, totalmente, acima do ‘Indefinido’» (id.), por uma estratégia, bebida em Lucrécio e Horácio, de auto-limitação, já que Campos e Pessoa «eram da sua revolta sentimental», provindo «de uma auto-submissão intelectual terrivelmente activa» (id.). Ou seja, e como muitas vezes acontece nos primeiros exegetas de Pessoa, trata-se de uma leitura que é a um tempo uma topografia e uma hierarquia da heteronímia – e que explica o privilégio de Caeiro e Reis nas tentativas poéticas de 1942, há pouco recenseadas.

Notemos que, de 1940, data da carta à presença, a 1944, data da «Carta ao Poeta», o escopo da intervenção do Sena ensaísta se alterou significativamente. O texto de 1940 visava um problema filológico num único poema de Pessoa, anunciando porém o desejo de dar a público as suas ideias sobre o poeta:

Essas ideias e mais com outras que eu sei que tenho, mas que ainda não conheço, fazem parte de uma qualquer coisa que um dia eu talvez escreva a propósito de F. Pessoa. (Sena, 1984: 20)

A «Carta ao Poeta» concretiza pela primeira vez a promessa de 1940, anunciando a transformação rápida do caloiro em dono e Doutor in re Pessoa. Num certo sentido, aliás, Sena não irá muito além do que consta da «Carta ao Poeta» na sua hermenêutica da heteronímia, remetendo expressamente para essas posições por mais de uma vez. O que mudará, ou melhor, o que acrescentará, será sobretudo da ordem do que latamente descreveríamos como «comparatismo», saturando o caso Pessoa de informação, sobretudo proveniente da área anglo-americana, sobre o que foi o modernismo, saturação essa levada a cabo em especial nos anos 50 e 60.

1946 e 1947 são os anos finais e decisivos deste processo, que podíamos qualificar como de «Doutoramento em Pessoa». 1946 é, para começar, o ano de Coroa da Terra, segundo livro de poemas do autor. A presença de Pessoa, neste livro marcado pela gravidade do momento histórico e por uma diluição daquele ímpeto de afirmação vanguardista, nota-se agora numa contaminação da sua metafísica, em poemas como «Os Trabalhos e os Dias» – «À medida que escrevo, vou ficando espantado / com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada» (Sena, 1977: 84) – e, em especial, «Exame»: «Estendo as mãos / eternamente as minhas mãos / e toco a realidade sem acreditar nela». (id.:86).

Mas 1946 é também o ano em que Sena praticamente conclui os trabalhos, longos e por vezes exasperantes, de preparação do volume das Páginas de Doutrina Estética, de Fernando Pessoa, que após longo processo editorial será publicado em 1947. A correspondência com Mécia dá a ver todo o transe da preparação desse volume, levada a cabo por várias localidades do país na fase do Sena-engenheiro, com especial demora no Alentejo. Um primeiro anúncio da conclusão do volume data de 31 de Julho de 1945: «O Salgueiro da ‘Inquérito’ não me manda provas das prosas do F. Pessoa, que escolhi, anotei, e tão necessárias considero no momento que passa». (Sena, 1982d: 55-56) Mécia manifesta o seu contentamento em carta de 23 de Setembro com uma judiciosa questão ortográfica – «Felizmente já acabaste o Fernando Pessoa. Menos uma carga que tens sobre ti. Como reviste, ortografia do autor?» (id.: 58) -, mas a verdade é que, em carta de Vale de Gaio de 23 de Novembro de 1946, Sena comenta que «Queria ver se, de uma vez, me libertava das notas do Pessoa» (id.: 91), o que não acontece ainda em 2 de Dezembro, quando informa Mécia de que «Não acabei o ‘Pessoa-livro’. E o correio trouxe o resto do texto, mais 70 páginas de provas, que só mandarei amanhã» (id.: 114).

Entretanto, e a partir de pelo menos 23 de Novembro de 1946, o «Pessoa-livro» mistura-se nas preocupações e trabalhos de Sena com o «Pessoa conferência». Trata-se do texto que virá a chamar-se «Fernando Pessoa, indisciplinador de almas», lido no Ateneu Comercial do Porto a 12 de Dezembro de 1946. Nas palavras que o autor acrescentou mais tarde ao texto, aquando da sua publicação em volume, a conferência teria tido lugar

por ocasião da publicação de Páginas de Doutrina Estética, que eu seleccionara, prefaciara e anotara, e cuja responsabilidade me cabe pois inteiramente e não a Pessoa, ao contrário do que possa depreender-se de algumas obras que citam essa colectânea. Apesar do título, que foi o então anunciado, esta conferência não deve ser confundida com o estudo, que sempre preparo sobre o Poeta, e que tenho anunciado com, provisoriamente, esse título de empréstimo. (Sena, 1984: 463)

Registemos, para começar, o lapso de Sena, ao fazer coincidir a conferência no Ateneu com a data da efectiva edição do volume pessoano. O tempo entretanto decorrido – a «Nota do Autor» ao texto da conferência, então incluído no volume Da Poesia Portuguesa, data de 1959 – talvez explique o lapso, que uma importante carta a José Régio, de 16 de Fevereiro de 1947 (trata-se da «carta autobiográfica» de Sena, aquela em narra a sua vida e relação com a família), esclarece, já que logo a abrir Sena informa Régio de que

A minha demora em responder à sua carta não foi para que, entretanto, houvesse já lido a crítica ao seu livro [trata-se de Histórias de Mulheres]. As provas do F. Pessoa e as questões editoriais pendentes (…) me adiaram uma resposta que desejei pronta… (Sena, 1986:32)

Ou seja, o volume será editado de facto em 1947, no termo de um moroso e complicado processo. Quanto à conferência, e como a nota acima transcrita deixa perceber, convém não diminuir o seu peso em tudo o que Sena escreveu sobre Pessoa, já que é visível que o tropo «indisciplinador de almas» resumia muita da perspectiva seniana sobre a obra do autor da Mensagem, perspectiva que, nesta promessa não cumprida, se alargaria num estudo que, não custa perceber, funcionaria como a abóbada do seu edifício pessoano. Para a percepção desse peso contribui o esforço de Sena, ao longo da correspondência com Mécia, para separar as águas entre o volume pessoano e a conferência, ou, se se preferir, entre filologia e interpretação[19]. Vejamos um exemplo, de 24/11/1946:

Ainda antes de jantar, já serenado, resolvi os problemas ‘pessoanos’ que, de momento, me encravam, o que concluí depois de jantar, neste mesmo instante. São dez e meia. Compreendes como é difícil, com a conferência já a ferver na cabeça, mesmo sem eu dar por isso, evitar que se imiscuam, nas notas do livro, coisas que são para ela. (Sena, 1982d: 100-101)

A especial importância que Sena atribui à conferência é contudo reforçada pelo elemento performativo que a acompanhará, e a que Sena atribui uma manifesta relevância: a leitura de textos de Pessoa por Manuela Porto. Na «Nota do Autor» antes referida, Jorge de Sena demora-se na questão, em termos em que o reconhecemos excessivamente:

Não poderei nunca esquecer que Manuela Porto, num dos seus derradeiros recitais de grande estilo, foi a maravilhosa ilustradora desta conferência. Ao dedicá-la agora à sua memória, não faço mais que prestar também o meu preito de gratidão a quem tanto fez pela poesia moderna… e nunca me recitou, tendo recitado outros que já nem recordam, por certo, os seus ilustres poemas. (Sena, 1984:463)

Recordo que Perseguição inclui um poema, «Parcela», dedicado a Manuela Porto, pelo que a dedicatória póstuma da conferência de 1946 «À memória de Manuela Porto» faz sistema com uma ênfase no performativo que temos hoje dificuldade em reconhecer, porque desde logo temos dificuldade em reconstituir a dimensão performativa na poesia portuguesa dos anos 40 – dificuldade pela qual o maior responsável é seguramente a evolução e confinamento disciplinar dos estudos literários a um paradigma estreitamente textualista. Faço notar que Sena releva em Manuela Porto não apenas o «grande estilo» dos seus recitais, mas a sua contribuição para a defesa e divulgação da «poesia moderna», aspecto quase inteiramente por estudar[20]. Para percebermos como Sena pensou toda a dimensão performativa da conferência, proponho que vejamos a forma como, em carta de 30 de Novembro de 1946, Sena a apresenta à sua namorada:

São dez horas da noite. Já te disse qual o nome que dei à conferência? – «Fernando Pessoa, indisciplinador de almas (uma introdução à sua obra em prosa)». Estou certo que, aparte o interesse do que eu diga, o público gostará dos extractos, de que me convém abusar, e serão recolhidos de entre os mais graciosos ou mais paradoxalmente penetrantes. É curioso: faz hoje 11 anos que ele morreu… (Sena, 1982d: 106)

Para a «História da Conferência Literária em Portugal no Século XX», de que não dispomos, ou mesmo para a história da performance literária em Portugal, a conferência de Sena no Ateneu Comercial do Porto, em 1946, é sem dúvida marcante. Sena pensa a sua conferência em função do público, e daí a escolha dos extractos – «os mais graciosos ou mais paradoxalmente penetrantes» – e da sua partilha da performance com uma «leitora especializada», Manuela Porto. Daí também a sua preocupação, em carta anterior, de 24/11, face a uma eventual recusa da recitadora, convidada, ao que se percebe, em cima da hora:

Ao Ateneu, levarei a casaca, se Deus quiser que eu lá vá. Assim leve também a conferência… Duvido que, em tão pouco tempo, a Manuela Porto se disponha a ir: de resto, é coisa que só saberei lá para o fim da semana. (id.: 99)

Daí ainda, em função da aflição dessa eventual recusa, a colocação de uma hipótese de puro, e delicioso, marketing:

Faltam 11 dias para estar aí junto de ti, se Deus quiser. Ao fim e ao cabo, graças aos correios pressurosos desta região, tudo vai ser tratado às corridas e de afogadilho. Se outra razão não houvesse, eu deveria estar na 2ª feira na Barragem, para receber logo o correio, e poder telegrafar ao Macedo a resposta – é impossível que entretanto não chegue! – da Manuela Porto. Quase me sinto tentado a que se anuncie a ida dela, e se diga, depois, que à última hora ela não pôde ir… (id.: 105)

Seria importante estudar o texto de Sena a partir dessa partilha de leitura com Manuela Porto, tentando reconhecer no texto a linha de partilha da enunciação, que na versão impressa (a de que dispomos) pareceria atribuir ao itálico e às aspas os momentos da intervenção da recitadora. As coisas são seguramente mais complicadas, porém. Porque há itálicos ou textos entre aspas que, na lógica sintáctica do discurso, deverão ter sido lidas por Sena; mas sobretudo porque temos razões para crer que a versão impressa da conferência não acolhe, por razões de economia e, em particular, de diverso regime comunicacional, todos os textos e excertos pessoanos que Sena terá confiado a Manuela Porto (e lembro o seu propósito de «abusar dos extractos»). Precisaríamos de um esforço reconstrutivo, com uma certa margem conjectural, para conseguir perceber todas as dimensões desta conferência[21], a que Sena atribui manifestamente uma função muito particular, e relevante, no seu processo de consagração como exegeta pessoano – processo que neste texto agrega a essa exegese sobretudo a dimensão de uma ironia que começa em Schlegel e vai até Nietzsche e Kierkegaard, anexando Pessoa a um devir outronímico que no modernismo será também, à sua maneira, o de um Antonio Machado (cuja epígrafe, na terceira parte de Perseguição, de certo modo «estava» por Pessoa).

Em todo o caso, e para terminar, diria que é com o díptico «Pessoa-conferência», de 1946, e «Pessoa-livro», de 1947, que Sena conclui o seu vertiginoso doutoramento em Pessoa, aos 27 anos. Se a dissertação é o livro de 1947, as provas académicas são contudo realizadas no Ateneu Comercial do Porto em Dezembro de 1946. É aí, num espectáculo encenado ao milímetro pelo próprio, que Sena se torna, com a ajuda de Manuela Porto (à data, uma «figura pública»), um dos donos de Pessoa, como dirá em 1960, no texto em que, como vimos, tenta reforçar essa posse pela mais-valia de um conhecimento pessoal, esse que teria ocorrido quando nem Sena era ainda Sena nem Pessoa ainda em rigor Pessoa. Porque, em boa verdade, é necessário que Pessoa se torne objecto de uma performance literária – uma conferência «coral» – para que o seu processo de consagração se torne imparável. Para que, e concluo, a Era de Pessoa seja também, e como que necessariamente, a Era de Sena.

 

 

Referências:

1.

Sena, Jorge de (1977) Poesia I, Lisboa, Moraes, 2ª ed.

(1981) Correspondência com Guilherme de Castilho, Ed. de Mécia de Sena, Lisboa, IN-CM.

(1982a) A Poesia de Teixeira de Pascoaes. Estudo Prefacial, Selecção e Notas de Jorge de Sena, Porto, Brasília Editora.

(1982b) Visão Perpétua, Edição de Mécia de Sena, Lisboa, IN-CM.

(1982c) 40 Anos de Servidão, Lisboa, Moraes, 2ª ed.

(1982d) Isto tudo que nos rodeia (Cartas de Amor), Correspondência com Mécia de Sena, Lisboa, IN-CM.

(1984) Fernando Pessoa & Cª Heterónima (Estudos Coligidos 1940-1978), Lisboa, Edições 70, 2ª ed.

(1985a) Post-Scriptum II, Ed. de Mécia de Sena, Lisboa, IN-CM, vol. I.

(1985b) Post-Scriptum II, Ed. de Mécia de Sena, Lisboa, IN-CM, vol. II.

(1986) Correspondência com José Régio, Ed. de Mécia de Sena, Lisboa, IN-CM.

 

2.

Lourenço, Jorge Fazenda (2002) «Para um Retrato de Jorge de Sena enquanto Jovem Leitor. Uma Reconstituição da sua Biblioteca até 1942, Precedida de algumas Observações», in O Brilho dos Sinais. Estudos sobre Jorge de Sena, Porto, Caixotim, pp. 197-305.

Martinho, Fernando J. B. (1983) Pessoa e a Moderna Poesia Portuguesa. Do Orpheu a 1960, Biblioteca Breve, Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa.

Queiroz, Carlos (1936) «Carta à Memória de Fernando Pessoa», in presença, Ano Décimo, nº 48, Volume segundo, Julho, pp. 9-11.

Saraiva, Arnaldo (1981) «Jorge de Sena e Fernando Pessoa», in Studies on Jorge de Sena. By its Collleagues and Friends. A Colloquium, Ed. by Harvey L. Sharrer and Frederick G. Williams, Jorge de Sena Center for Portuguese Studies, University of California, Santa Barbara, in association with Bandanna Books, pp. 236-257.

 

[1] Uso a expressão «atribuir a responsabilidade da sua constituição como poeta moderno» de modo a não obliterar o facto de que, antes de Pessoa (antes do verdadeiro encontro com Pessoa), o jovem Sena praticou o culto de Pascoaes em termos que, no texto de 1960 a que passarei a referir-me, sobre a edição da Obra Poética de Pessoa por Maria Aliete Galhoz na Aguilar, são descritos assim: «Em 1936, lia devotadamente Teixeira de Pascoaes» (Sena, 1984:160). Recordemos que Sena antologiou Pascoaes, para a Agir, em 1965, antologia mais tarde editada em Portugal em 1982, referindo-se então à grandeza de Pascoaes, na impressionante «Apresentação Histórico-Crítica» com que abre o volume, em termos inequívocos: «um dos poetas grandes e maiores da língua portuguesa» (Sena, 1982a:29). O triunfo esmagador de Pessoa na narrativa da poesia portuguesa novecentista tem feito esquecer, com alguma ligeireza, o quanto Pascoaes constituiu, para poetas centrais dessa mesma narrativa – Sena, Eugénio, Cesariny –, uma real alternativa ao império do verbo pessoano. Que essa alternativa tivesse sido, com diferenças específicas de cada um, efectivamente denegada ao longo do seu percurso, não obsta a esse efeito de produção de um como que contrafactual da poesia portuguesa do século XX, quando centrada não em Pessoa mas em Pascoaes.
[2] Adopto aqui o termo descritivo usado por Arnaldo Saraiva para a referida carta, no seu ensaio fundamental sobre a relação entre Pessoa e Sena (Saraiva, 1981:239).

[3] Em vários lugares, Sena, ou Mécia por ele, notam que para a família, ou seja, para o Pai, uma actividade como a poética seria encarada como coisa pouco decente (se não, mesmo, pouco varonil). Jorge Fazenda Lourenço, por exemplo, ao abordar a questão, biograficamente prévia em relação à poesia, da inclinação musical de Sena, afirma que «a educação musical de Jorge de Sena, fortemente impulsionada pela mãe, era motivo de discórdia familiar» (Lourenço, 2002:217). A inclinação para as letras, por seu turno, reforçaria a discórdia entre «o lado feminino e o lado masculino [da família], entre o destino das letras (e da música) e o das armas», este último muito popular numa família de militares (id.).
[4] Admitindo que, a haver ainda revista, a carta, uma mera «reincidência crítica» (palavras do jovem Sena no texto) sem novidade assinalável em relação à primeira, merecesse a distinção de ser publicada.

[5]Registe-se, a este propósito, que a primeira ocorrência, na biblioteca do jovem Sena (sigo o estudo de referência de Fazenda Lourenço), de livros de um destes «doutores da presença» data de 1934, tratando-se então da obra de Gaspar Simões Uma História de Província I – Amores Infelizes, uma produção das Edições Presença do mesmo ano. Data de 1939 o primeiro livro de autor presencista oferecido e com dedicatória: A Vida é o Dia de Hoje, de Alberto de Serpa. A dedicatória é endereçada a Jorge de Sena, gesto não frequente nestes anos, em que o nome próprio é substituído com frequência, nessas dedicatórias, pelo pseudónimo inicial, Teles de Abreu.

[6] Na qual, note-se, Pessoa publica um conjunto importante de poemas do ortónimo.

[7]  Atente-se na qualificação dessa primeira leitura: o infante Sena folheia a revista «só para ver» ou, como se dirá logo a seguir, «pass[ando] os olhos por elas». Esta qualificação recupera para a sua relação com Pessoa uma cena infantil que, contudo, é e não é uma cena primitiva. De facto, só a revisão a posteriori a constituirá como tal, e ainda assim de modo inconvicto, pois nem Sena podia saber ainda quem fosse Pessoa nem a criança que então era podia ler, em toda a dimensão dessa prática, os poemas do nosso grande moderno. Parodiando Lacan, diríamos que «não há relação» possível entre este Sena e aquele Pessoa.

[8] No último parágrafo, ao fazer o elogio de Maria Aliete Galhoz, Sena não deixa dúvidas sobre esse seu direito: «Maria Aliete Galhoz vem tomar um lugar proeminente entre os donos encartados de Fernando Pessoa: João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Jacinto do Prado Coelho, eu próprio, e alguns mais, como Joel Serrão, Jorge Nemésio, Agostinho da Silva» (id.: 167, eu sublinho). Esta reivindicação deve contudo articular-se com a denúncia, em poema tardio (de 1971) e editado postumamente em Visão Perpétua, do preço a pagar por ter sido um dos primeiros editores de Pessoa. O poema intitula-se «Quando há trinta anos…» e é um rol das «tentativas de assassinato» de que Sena terá sido vítima, ao longo da sua vida, pelo establishment literário. Os versos que para o efeito mais importam são os seguintes: «Quando publiquei Pessoa, / passei a ser discípulo de Pessoa» (Sena, 1982b:151). Este poema foi pela primeira vez citado por Arnaldo Saraiva, no seu estudo pioneiro sobre a relação entre Sena e Pessoa, quando ainda inédito, e pouco depois por Fernando J. B. Martinho, no seu livro de referência sobre o rastro pessoano na poesia portuguesa até finais de 50 (Martinho, 1983). Ambas as situações – reivindicar uma posse sobre o nome Pessoa e denunciar uma anexação supostamente impertinente a esse nome – devem ler-se como efeitos, colocáveis sob a égide da «ansiedade da influência», da relação com um Poeta Forte. É fácil de perceber que ao pé da capacidade de atracção da galáxia-Pessoa, a força de Sena, tantas vezes auto-reivindicada, parece ser diminuta.

[9] Essa lição teria sobretudo a ver com «a regeneração da natureza humana dividida», a qual passaria por uma «dialéctica da verdade e da mentira» que, na óptica de Sena, «não tem que ver nem põe em causa a honestidade e a lealdade, sem as quais não são possíveis a arte nem a compreensão dela» (Sena, 1984: 166).

[10] Suponho que o primeiro poema de Pessoa musicado terá sido o poema «Põe-me as mãos nos ombros», integrado no Cancioneiro do ortónimo e posto em música por Fernando Lopes Graça. No nº 48, vol. II, de Julho de 1936, com que a presença assinalou a morte de Pessoa, encontra-se o fac-símile dessa composição.

[11] Recorro de novo, a este respeito, a informações carreadas por Fazenda Lourenço no estudo já referido. Existe na biblioteca de Sena um exemplar da edição princeps da Mensagem. Transcrevo a descrição bibliográfica que Fazenda Lourenço faz da anotação de Sena no volume: «4 de Agôsto de 1937 / Jorge Cândido de Sena. Anotação na pág. de ante-rosto, sob o título: Prémio Antero de Quental (Poema) / S.P.N. e, um pouco ao lado da 1ª linha, a indicação 1935». (Lourenço, id.:263) No mesmo estudo sobre a biblioteca de Sena até 1942, Fazenda Lourenço recenseia duas referências significativas a Pessoa, na revista literária brasileira Vamos lêr!. A primeira, no nº 25, Ano I, 21 de Janeiro de 1937, uma «nota sobre Fernando pessoa sem destaque» (id.:261). A segunda, no nº 69, de 25 de Novembro de 1937, comprado por Jorge de Sena em Santos, aquando da sua viagem como cadete da Marinha, uma «nota sobre a poesia nacionalista de Fernando Pessoa (sem destaque por parte do nosso jovem leitor), transcrevendo versos da Mensagem e uma opinião de Manuel Anselmo: Essa poesia “Não foi política, conforme se entende em Portugal, actualmente, o nacionalismo; ela foi essencialmente messiânica, religiosa, da estirpe de nacionalismo que morreu em Alcácer-kibir» (id.: 265). Trata-se seguramente das primeiras referências à Mensagem em contexto brasileiro, sendo que a interpretação da obra por Manuel Anselmo parece ter algum impacto sobre o jovem autor do poema inspirado na Mensagem que acabei de abordar. Como vimos antes, convém não esquecer que este Sena dos inícios chega em boa medida a Pessoa por via do pasmo induzido pela notícia sobre a Mensagem.

[12] Esta teoria de autores em epígrafe é também, como se percebe, uma teoria do modernismo, ou melhor, dos vários modernismos, em acepção desde logo, mas não apenas, cronológica. Dir-se-ia que Gide e Machado estariam de um lado dessa teoria do moderno, enquanto Char e Breton constituiriam o lado do surrealismo, em termos porém não coincidentes. Note-se, ainda, que a epígrafe de Machado – «No es el yo fundamental / eso que busca el poeta, / sino el tu essencial» – é a única que encena o drama da identidade, em termos que, diríamos, poderiam ser mais perfeitamente ditos por Pessoa, em contexto português, tanto mais que Sena conhecia o bastante a sua obra para não depender da edição do ortónimo na Ática em 1942 para lhe ser «apresentado».

[13] Nas palavras de Fazenda Lourenço, «As primeiras leituras de autores alemães, escandinavos, ingleses e norte-americanos, são feitas através de traduções francesas, enquanto que os russos e os espanhóis (com excepções), ou os italianos, o são quase sempre em português. De facto, a língua estrangeira predominante, até 1942, é o francês. Quer dizer, a par da literatura da língua, um número muito significativo de obras de todas as outras literaturas estrangeiras aparece em tradução francesa». (Lourenço, id.:201) É curioso constatar que Sena, na sua fase tardia, se afasta drasticamente desta origem francófila, denunciando pelo contrário em termos cáusticos o galicismo da cultura, e em particular da cultura literária, portuguesa. O já citado poema «Quando há trinta anos…», editado postumamente em Visão Perpétua, termina de modo emblemático a este respeito com os versos seguintes: «Siamo tutti portoghesi, tutti portoghesi – / – n’est-ce pas (na língua nacional dos litras)?» (Sena, 1982: 152). Trata-se, não apenas de um devir explicado biograficamente pela sua deslocação para a América do Norte, mas também, e porventura sobretudo, de um avatar mais de uma revisio lançada sobre a sua própria matriz, inteiramente congruente com o episódio infanto-juvenil da (não-)relação com Pessoa na casa da tia-avó. Recordo que dessa não-relação ficou um livro por ler, e, ou porque, em inglês: Romola, de George Eliot.

[14] «Ler Romola» parece surgir, neste ponto do texto de Sena (o ponto final, com toda a retórica do explicit a funcionar), como indício ou sintoma de uma situação que o autor decide trazer inteiramente à luz, activando todo o seu potencial narrativo à rebours. Digamos que romance de George Eliot que ficou por ler está aqui pela história que foi recalcada até 1960. Ele conecta Sena a Pessoa e institui esses (des)encontros infantis como cena primitiva de uma relação impossível, qual seria toda a relação de um poeta posterior com Pessoa. Um tanto como o telefone da tia-avó Virgínia, a que Pessoa recorria, trata-se de uma relação feita de «pequenas atenções amigas» (Sena, 1984: 160), percorrida embora pela desatenção maior ao Poeta que aquele vizinho era também.

[15] Cito, a este respeito, ainda de Fazenda Lourenço: «Entre 1939 e 1940, Jorge de Sena leu, declaradamente (cf. Estudos de Literatura Portuguesa – III, 249-50; e “Memórias críticas”), pela mão de Tomaz Kim, duas obras de apresentação do surrealismo: a Petite anthologie du surréalisme (1934), de Georges Hugnet, e A Short Survey of Surrealism (1935), de David Gascoyne. Porém, até 1942 não encontramos, hoje, nenhuma obra individual ou colectiva de poetas surrealistas» (Lourenço, id.:210-211). No mesmo levantamento da biblioteca de Sena até 1942, Fazenda Lourenço refere, no nº 20, Ano I, 17 de Dezembro de 1936, da revista brasileira Vamos lêr!, uma notícia, com o título «Super-realismo», «sobre a exposição de pintura surrealista em Burlington», notícia que Sena destacou a lápis encarnado (id.:259).

[16] Seria interessante analisar a forma como neste poema a lição versilibrista de Campos (mas não apenas, pois toda uma topologia metafísica do mundo, como toda uma fenomenologia das sensações decorrem nitidamente dele) derrota a eventual lição de Pascoaes, que em poemas deste teor é um antecedente inevitável, como Pessoa aliás bem sabia.

[17] Cito, de Arnaldo Saraiva: «Nesta [na ‘Ode apócrifa de Alberto Caeiro’] se revela, aliás, o gosto de Sena pelo poema VIII de O Guardador de Rebanhos, que pouco depois, em 1944, revelará também a dedicatória do conto e o conto ‘Razão de o Pai Natal não ter barbas brancas’, que faz parte das Andanças do Demónio, e que deu como ‘meditação demonológica’ sobre aquele grande poema». (Saraiva, id.: 240)

[18] É de notar também que Queiroz introduz, logo a abrir, a questão da impossibilidade de se conhecer Pessoa, em termos que Sena depois recuperará sobretudo no texto de 1960 em que confessará o seu conhecimento pessoal do poeta. Cito, de Queiroz: «Fecho os olhos com força para recordá-lo melhor. E penso: – Quem há que o conheça bem? Quem há que possa dizer que você é assim, que se define desta ou daquela maneira, se as mais primárias psicologias se escoam pela nossa compreensão, como areia entre os dedos?». (Queiroz, 1936: 9)

[19] Esse esforço, todavia, parece desde sempre condenado ao fracasso, como se percebe lendo o texto, que oscila entre interpretação e apresentação histórico-literária do autor, mas que está já patente na Nota 1, claramente acrescentada por Sena à data da sua edição inicial em livro, em 1959: «Era essa a situação em fins de 1946. Havia, apenas, os quatro primeiros volumes das ‘obras completas’, no âmbito das quais a Mensagem não fora ainda reeditada, e haviam sido publicadas por Joel Serrão as cartas a Côrtes-Rodrigues. A prosa estava toda dispersa, esquecida ou desprezada, e foi precisamente essa situação que Páginas de Doutrina Estética, que esta conferência apresentava, se propunha modificar». (Sena, 1984: 92) O que é curioso é que, como é verificável lendo o texto da conferência, esta não apresenta de facto o volume indicado, parecendo contudo pressupô-lo, já que se trataria de uma «Introdução à sua obra em prosa», contrato que contudo largamente derroga.

[20] A situação sofreu recentemente uma notável alteração qualitativa com a investigação levada a cabo por Diana Dionísio Monteiro Marques para a sua tese de mestrado em Estudos de Teatro, com o título «Um Teatro com Sentido: a voz crítica de Manuela Porto», apresentado à FLUL em 2008 (consultável em http://repositorio.ul.pt/handle/10451/350). Embora se trate de um trabalho centrado na contribuição de Manuela Porto no domínio do teatro, mais do que no do «recital de poesia», a autora apresenta informação preciosa para a reconstituição do panorama da leitura de poesia em público em Portugal nos anos 40.

[21] As marcas da oralidade, por exemplo, estão patentes desde a primeira frase: «Não é para vós um desconhecido este Fernando Pessoa». (Sena, 1984:71, itálico meu) Quanto ao público, a preocupação de Sena na sua cativação vai ao ponto de admitir enviar convites, por intermédio de um colega, Santos Soares, para «a tropa fandanga neo-realista…». (Sena, 1982d: 105)

 

[*] Osvaldo Manuel Silvestre é Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

[**] In: Central de Poesia – A recepção de Fernando Pessoa nos anos 40. Lisboa: CLEPUL/FLUL, 2011

61. Fernando Pessoa e Jorge de Sena: encontros e desencontros entre dois “indisciplinadores” de almas

[LER E RELER JS – 61: Dora Nunes Gago]

fernando-pessoaApesar da distância conceitual que se insinua entre o Fingimento e o Testemunho, no âmbito ético e estético, Fernando Pessoa é uma referência incontornável na obra de Jorge de Sena – em particular na sua produção ensaística. O poeta dos heterônimos foi sempre um dos principais objetos de estudo de JS, como demonstra a bibliografia comentada por José Blanco que já publicamos aqui. E é a partir das aproximações e divergências entre os dois poetas que celebramos hoje o aniversário de Fernando Pessoa, através do ensaio gentilmente cedido por Dora Gago.

Junho foi, simultaneamente, o mês de nascimento de Fernando Pessoa (há 125 anos, no dia 13) e da morte de Jorge de Sena (ocorrida a 4/6/1978). Para além de terem sido dois geniais poetas, estas duas figuras ímpares da nossa Literatura, partilhavam igualmente a ascendência açoriana. Pessoa era filho de Maria Magdalena Pinheiro Nogueira, natural da Ilha Terceira – que terá visitado em 1902. Por seu turno, Sena era filho de Augusto Raposo de Sena, natural de S. Miguel, de ascendência aristocrata e comandante da Marinha Mercante.

Os ecos pessoanos na obra de Jorge de Sena são inegáveis, corroborados apriori pelos estudos e ensaios consagrados a este poeta e aos seus heterónimos. É principalmente os ecos dessa presença, os encontros, afinidades e desencontros que abordaremos em seguida.

Jorge de Sena ainda conheceu, pessoalmente, durante a sua adolescência, o poeta Fernando Pessoa. Isto porque, uma tia-avó de Sena, viúva de um cônsul norte-americano era amiga e vizinha da mãe de Fernando Pessoa (também ela viúva de um cônsul, neste caso português e falecido na África do Sul). (cf. Saraiva 1981: 236). Neste contexto, não era invulgar para o jovem Sena, encontrar como visita na casa da sua tia, o poeta: “aquele senhor suavemente simpático, muito bem vestido, que escondia no beiço de cima o riso discretamente casquinado” (Sena 1984:160).

Contudo, só mais tarde o chegou a “conhecer” verdadeiramente, tendo inclusive, ficado estupefacto, ao saber, em 1934, pouco tempo antes do falecimento de Pessoa, que ele fora premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, pela sua Mensagem: “Porque o premiado era precisamente aquele senhor amigo da minha tia-avó que não falava nunca de poesia e cujas aventuras modernistas eu ignorava.” (160).  Então, Sena afirma, num texto publicado em 1960, sobre estes encontros “Porque afinal, e à semelhança de tantos que hoje se vangloriam de o ter conhecido, eu não cheguei a conhecer Fernando Pessoa” (161).

Contudo, é através da Mensagem, e da obra pessoana que Sena descobre o Modernismo. A este poeta consagra muitos estudos, a ponto de podermos dizer que com ele inicia e termina a sua vida literária. Esses ensaios, coligidos entre 1940 e 1978 (ano da morte de Sena), encontram-se reunidos num volume editado postumamente por Mécia de Sena (2ª edição, 1984), intitulado Fernando Pessoa & Cª Heterónima.

Dessa colectânea, de forma a corroborarmos a importância assumida por Pessoa na obra literária de Sena, referiremos e comentaremos, de forma muito sucinta, alguns dos textos mais relevantes.

Primeiramente, datadas de 1940, encontram-se duas cartas dirigidas à presença sobre o poema “Apostilha” de Fernando Pessoa, cujo objectivo era corrigir um lapso cometido pelos editores da revista, ao considerarem inédito o poema supramencionado. Esta correspondência comprova que, ainda bastante jovem, Sena já detinha notório conhecimento da poesia de Pessoa, numa altura em que ela ainda nem sequer tinha sido grandemente divulgada. Além disso, datam de 1942 duas odes dedicadas por Sena a Alberto Caeiro e a Ricardo Reis.

Por seu turno, a “Carta a Fernando Pessoa” foi publicada em Da Poesia Portuguesa (1959) e revela um profundo conhecimento da obra pessoana, ao “dizer-lhe”:

V. não foi um mistificador, nem foi contraditório. Foi complexo, da pior das complexidades – a sensação do vácuo dentro e fora, V. não foi um poeta do nada, mas pelo contrario, poeta do excessivamente virtual, de toda a consciência trágica de probabilidade, que a crença no Destino não exclui. (27)

Note-se que se lhe dirige tratando-o por “Meu caro Amigo” e termina com a fórmula de despedida: “Creia na imensa admiração e no imenso respeito do”, reveladoras precisamente do profundo apreço por Pessoa. Por seu turno, “Prefácio e notas a Páginas de Doutrina Estética” e “Fernando Pessoa, indisciplinador de almas (uma introdução a sua obra em prosa) apresentam a vertente de prosador do autor. Neste último texto, abordam-se aspectos decorrentes das implicações ocultistas e dissolução da personalidade, entre outras. Conclui-se o artigo da seguinte forma:

 

Ele quis-se, e foi, de facto, um terrífico “indisciplinador de almas”, para chamá-las ao conhecimento de si próprias, a hierática dignidade, a liberdade intemerata. E até o que há de espiritualismo conservantístico nele, e, por isso mesmo, num país de pretensa espiritualidade, profundamente revulsivo. Por muito tempo, no exercício desta missão sagrada, não haverá na língua portuguesa quem se lhe compare, como anteriormente, o não houvera. (82)

Como podemos constatar, neste caso é sublinhada a unicidade e superioridade de Pessoa, sem paralelo entre os poetas de Língua Portuguesa.

Por seu turno, “Inscriptions de Fernando Pessoa: algumas notas para a sua compreensão” – refere a ideia de divulgar, traduzir, analisar e anotar os poemas ingleses de Pessoa, concretizada em 1974, com o título Poemas ingleses, e a colaboração de Casais Monteiro e José Blanc de Portugal. Neste texto, Sena situa a poesia inglesa pessoana, negligenciada pela crítica, “com certo brilho entre a dos outros poetas ingleses dos fins do século XIX e primeiro quartel do nosso século”.(85). Aliás, enfatiza o valor desta poesia ao mencionar:” Deve mesmo acentuar-se que os seus 35 sonetos ingleses, tão afins da poesia dos “metaphysical poets”, e não tanto da tradição shakespeariana que pessoa se propunha adoptar, quase antecedem a voga cultural, na própria Inglaterra, dessa esplêndida poesia!” (85).

Em “Fernando Pessoa e a literatura inglesa”, datado de 1953, Sena começa por esclarecer que o tema mais adequado seria antes “a literatura de língua inglesa” uma vez que nem Edgar Poe, nem Walt Whitman são ingleses, mas são indispensáveis para a sua compreensão. Neste contexto, salienta: “O problema das relações de Pessoa com o “inglês” e indirectamente com a cultura britânica (na mais alta acepção do termo, que deve incluir as instituições e os costumes políticos) é da mais alta importância.” (92). Este contacto com a cultura inglesa conferiu ao poeta, para além de todo o enriquecimento cultural, a possibilidade de usar a língua portuguesa “com uma virgindade de quem a contempla pela primeira vez” (93). Na sequência deste estudo, Sena escreve também “Maugham, Mestre Therion e Fernando Pessoa” (1957) para o qual se inspirou na publicação da reedição do romance de S. Maugham The Magician, cujo protagonista teria afinidades com Mestre Therion. Segundo Sena, esse Mestre Therion seria precisamente Aleister Crowley (1875-1947), ocultista britânico, aventureiro, hedonista, crítico social e influente referência de muitos escritores. Nesta esteira, Pessoa também não escapou a este fascínio e traduziu de mestre Therion um poema esotérico (“Hino a Pan”), publicado na revista nº 33 da presença (Julho-Outubro de 1931). Gaspar Simões julgou, erradamente, que este “Mestre” seria mais um heterónimo pessoano. Então, no texto “Pessoa e a Besta” Sena esclarece também este aspecto, enfatizando a importância das relações de Fernando Pessoa com a cultura britânica e o esoterismo.

Em “O poeta e um fingidor (Nietzshe, Pessoa e outras coisas mais)” são apontadas as raízes esteticistas-nietzscheanas da teoria do fingimento poético preconizada por Pessoa. Esse fingimento delineia-se como uma “arte poética”, partilhada com diversos outros modernistas (entre eles, António Machado), de várias línguas, como forma de cisão com o “subjectivismo romântico”. Assim, o fingimento possibilitaria precisamente atingir o “âmago mais profundo” (423). Não obstante, verificamos que apesar de defender essa teoria, Sena recusa-a na sua poesia devido ao facto de contrastar com: “a humildade expectante, a atenção discreta, a disponibilidade vigilante, com que, dando de nós mais que nós mesmos, testemunhamos do mundo que nos cerca, como do mundo que, vivendo-o, nós próprios cercamos do nosso maternal cuidado” (Sena 1988:25).Assim, esta teoria não se coaduna com a concepção testemunhal da poesia que habita a obra seniana.

Verificamos, então que Sena se assume como um pioneiro dos estudos pessoanos, tendo produzido notáveis artigos sobre a sua obra, que contribuíram para a compreensão do fenómeno da heteronímia, do “drama em gente”, da problemática acerca da sinceridade e fingimento, do esoterismo, das profundas relações com a literatura inglesa.

Por seu turno, no texto “Fernando Pessoa, o homem que nunca foi”, Jorge de Sena refere o seguinte:

Claro que tenho sido chamado um discípulo de Fernando Pessoa – ninguém com um mínimo de distinção poética tem escapado a isso em Portugal, uma vez que Pessoa se tornou o símbolo do Modernismo que todos buscávamos, e era por certo parte da nossa educação poética. Mas todos somos, em sentido positivo, negativo ou ambivalente discípulos de tudo o que nos precedeu, desde a Epopeia de Gilgamesh e o egípcio Livro dos Mortos, que se queira que não. (1984: 416).

Constatamos que, nestas palavras, ecoa a concepção de Shelley, referente às “influências”. Este autor considerava que os poetas de todos os tempos e idades contribuíram para um “Grande Poema” perpetuamente em progresso, pois tal como referiu Borges, os poetas criam os seus precursores. Nesta senda, ainda segundo Harold Bloom: “Poetic Influence in the sense -amazing, agonizing, delighting -of other poets, as felt in the depts of all perfect solipsist, the potentially strong poet. For the poet is condemned to learn his profoundest yearnings through an awareness of other selves” (1997: 19).

Assim, notamos que apesar das inúmeras diferenças a nível biográfico e de personalidade entre Sena e Pessoa, também são bastantes as afinidades, como por exemplo, a ascendência açoriana, o local de nascimento (Lisboa), a educação cuidada, a vinculação a cultura e aos países de língua inglesa, a coragem de assumir posições originais e ousadas, a concepção da língua como pátria ou a pátria como língua (a “pátria de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações /nasci”), a constante inquietação com o destino e o futuro de Portugal. Além disso, evidenciam-se temáticas comuns, como o pessimismo existencial, a divisão do sujeito. Por isso, como referiu Arnaldo Saraiva, as obras dois autores, “iluminam-se e enriquecem-se mutuamente” (1981: 256), aliando as diversas vertentes duma cultura simultaneamente nacional e universal.

Em suma, ambos assumiram, através da genialidade da sua obra poética, a heróica missão de “indisciplinadores de almas”, ultrapassando as fronteiras geográficas, humanas e culturais.

 

Bibliografia:

Bloom, Harold. The Anxiety of influence. A Theory of Poetry, 2ed., Oxford, Oxford University Press, 1997.

Saraiva, Arnaldo, “Jorge de Sena e Fernando Pessoa”, Studies on Jorge de Sena, by his Colleagues and Friends, A Colloquium, edited by H. Sharrer and Frederick G. Williams, University of California, Santa Bárbara, Santa Bárbara, 1981, 236-257.

Sena, Jorge de. 40 anos de Servidão, Lisboa, Moraes Editores, 1979.

—————– Fernando Pessoa & Ca Heterónima, Lisboa, 2 a ed., 1984

—————– Poesia I,  Lisboa, edições 70, 1988.

 

[*] Versão publicada primeiramente por Irene Maria F. Blayer e Lélia Nunes no Blogue “Comunidades da RTP Açores” (21.7.2012)”

A morte vista pelo jovem JS

A 4 de junho de 1978 falece Jorge de Sena. Bem antes, o tema da morte já inquietava o autor e percorria insistentemente a sua obra (vide Como se morre? e Eu e a morte). Ainda jovem, no fértil período dos anos de 1938 e 1939, quando escreve mais de 400 poemas, são vários os que evocam a “indesejada das gentes”. Dessa fase, que também registra a comédia em um ato com o título de “Luto”, selecionamos os três poemas abaixo, procurando vislumbrar nos versos imaturos o gérmen do poeta algo elegíaco que se agigantaria no decorrer dos anos. Versos iniciantes a assinalar o fim “que é de todos e virá”. Porém, como sabemos, 35 anos depois de nos deixar, Sena continua vivo e hoje avulta entre os maiores da Língua.

 

  • “Morte” (40 anos de Servidão)
  • “Imortalidade” (Post-Scriptum II)
  • “Necrológio”  (Post-Scriptum II)

 

MORTE…

 

Quando morrer

não verei o mundo apagar-se,

enegrecer,

à minha volta.

Morrerei de olhos fechados.

 

Mesmo quando morrer

jã estarão mais do que fechados

porque os fechei há muito

ao espaço que rodeia

a minha presença material

de cada instante…

 

Morrer para mim

não será deixar de ver,

nem de ouvir, nem de sentir qualquer coisa,

porque os meus outros sentidos

também descansam do cansaço

de não terem encontrado

o cansaço procurado…

 

Enfastiaram-se de monotonia…

Queriam outros perfumes…

outra gente…

outros horizontes…

e não tiveram nada,

tiveram mal,

ou tiveram para depois ficarem

com menos do que tinham…

 

Na minha morte

não há-de haver

despedidas dos sentidos.

As despedidas já estão feitas.

 

A minha morte

há-de ser só morte.

uma simples morte de morrer…

 

14/9/1938

 

 

IMORTALIDADE

O meu tempo começou quando nasci

mas não há-de acabar quando eu morrer.

Eu não sei terminar nada,

gosto de não saber

e tudo fica assim, no ar, indefinido…

 

A minha morte talvez seja incompleta.

 

Morrer é ocupar no espaço

uma posição que não depende da vontade.

Mas quem a ocupa é o corpo.

 

O Corpo deixa então

de existir no tempo.

 

Só o espaço ficará conosco?

Que direitos tem o espaço a mais do tempo?

Do nós que na verdade somos

não haverá um resto acorrentado ao tempo?

 

Se o espaço sem tempo não é vida,

talvez o tempo sem espaço o possa ser.

 

E eu fique assim

vivendo sem matéria…

 

E o meu tempo,

sendo então eu mesmo,

não há-de acabar quando eu morrer.

 

25/9/38

 

 

NECROLÓGIO

 

Terei terminado um rumo e então morri.

Não se fazem convites,

ninguém conhece o morto.

Só eu, já póstumo,

aqui estou na rua enlameada e escura

a ver passar o Fim.

 

Lá passam os carros com as flores

que eu próprio me ofereci por mim

e pelos outros durante a vida.

 

Agora é o carro em que me vejo a mim.

 

Agora um carro vazio.

 

Começa a chover.

Molham-se as luzes e apagam-se… uma… outra …

 

E eu guardo o cortejo na gaveta

para não se molhar mais.

 

25/ 12/39

De Stephen Reckert

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Grande amigo de Jorge de Sena, incumbiu-se o lusitanista Stephen Reckert de lhe escrever o necrológio para The Times. Marcando o 35º ano de falecimento do escritor, cumprido em 4 de junho de 2013, aqui o transcrevemos (a partir dos Estudos sobre Jorge de Sena, org. Eugénio Lisboa,IN-CM, 1984, p. 490-1).

Norte-americano de nascimento, o Prof. Reckert cursou universidades inglesas e nelas prioritariamente desenvolveu sua profícua atuação acadêmica, vindo a ser titular da Cátedra Camões da Univ. de Londres de 1967 a 1982, quando se jubilou. Renomado estudioso de Gil Vicente, alargou a outros séculos e autores seu olhar crítico, ensejando convites como Pesquisador e Professor Visitante em várias universidades européias, inclusive as portuguesas. Falecido em janeiro de 2013, legou-nos importantes livros e ensaios sobre temas medievais, renascentistas e oitocentistas.

 

JORGE DE SENA

 

A morte de Jorge de Sena, aos 58 anos, priva Portugal do seu mais destacado académico e de um dos melhores poetas modernos. Sena era uma figura de dimensões invulgares: e era-o inconfortavelmente para o «establishment» cultural do seu país, que só lentamente foi reconhecendo a sua estatura, mesmo depois da revolução. A Ordem de Henrique o Navegador e a Grã-Cruz de Santiago no leito de morte ajudaram a corrigir a desatenção inicial, mas a candidatura ao Nobel, lançada imediatamente antes de a doença o atingir, teve a sua origem em Londres, no King’s College, que visitara anualmente nos últimos dez anos. Veio pela última vez à Europa em 1977 para receber o prémio de poesia Etna-Taormina.

Mesmo ocupando simultaneamente duas cátedras na Califórnia, nunca se ajustou à imagem convencional do dirigente académico, e o seu maior êxito erudito foi revelar Camões não como um respeitável monumento nacional, mas como um dos poetas europeus mais complexos e subversivos. Ele próprio um formidável touro no armazém de louça sufocante que foi Portugal durante a maior parte da sua vida, escreveu alguma da poesia de amor mais ultrajantemente explícita da sua língua («não, não pornográfica», explica pacientemente ao censor, «simplesmente obscena»); um punhado de novelas e de contos terão também lugar duradouro na literatura de língua portuguesa. Como engenheiro, Sena fez parte, antes do seu exílio para o Brasil, em 1959, da equipa que planeou a grande ponte sobre o Tejo, em Lisboa.

A força serena de sua mulher e seu suporte intelectual, durante 30 anos, Mécia, amparou-o na sua doença final, contra a qual lutou com a mesma raiva lucidamente sardónica que sempre desferira contra outras indignidades: hipocrisia, estreiteza de vistas, injustiça. Para ela e para os seus nove filhos vão o amor e simpatia dos amigos de quatro continentes para quem uma luz se apagou.

 

(in The Times, 13 de Junho de 1978.)