Discurso da Guarda

Em áudio: Trechos do Discurso na voz de Jorge de Sena

entrevistasDiscurso proferido na cidade da Guarda, durante as comemorações do “Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas”, no dia 10 de junho de 1977 — o primeiro depois da “Revolução dos Cravos”. Além de Jorge de Sena, foi orador Vergílio Ferreira, na presença do Presidente Ramalho Eanes, de altas autoridades e de enorme platéia. (Destacamos em negrito no texto, o trecho em áudio)

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É para mim uma honra insigne o ter sido oficialmente convidado pela comissão organizadora das comemorações de Camões em 1975, e do dedicar-se do Dia de Camões à recordação das comunidades portuguesas ou de origem portuguesa dispersas pelo mundo, para aqui falar na minha dupla qualidade de estudioso de Camões, e de residente no estrangeiro, que eu sou. Com efeito, em 1978, cumprem-se trinta anos sobre a primeira vez que, de público me ocupei de Camões, iniciando o que, sem vaidade me permito dizê-lo, tem sido uma contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência. Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer cor ou feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal; e foi a desconfiança suspeitosa de muita gente de esquerda, a quem eu oferecia um Camões que deveria ser o deles, quando eles preferiam atacar ou desculpar o Camões dos outros. Foi e ainda é, e será. Porque, sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo. São essa pedra de toque e esse escândalo o que, neste momento solene, a três anos de distância do 4o. centenário da morte do maior português de todos os tempos, vos trago aqui, certo e seguro de que ele mesmo assim o desejaria. E, antes de mais, peço que, nas minhas palavras anteriores ou nas minhas palavras seguintes, ninguém veja ataques ou referências pessoais que não há; tenhamos todos, tenham todos a humildade de reconhecer que, quando se fala de Camões e de Portugal, não podemos pensar em mais ninguém.
Quanto a ser um residente no estrangeiro, vai para dezoito anos que o sou, o que, curiosamente, é mais ou menos o tempo que o próprio Camões viveu fora de Portugal, desde que dele partiu para as Índias [em 1553, até que regressou,]* em 1570, tão pobre como partira, mas com Os Lusíadas no bolso ou na bagagem, para publicá-los. Eu nem estou a regressar, nem tenho Lusíadas nenhuns. Mas não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, ainda que neste viva, e com os emigrantes me possa identificar – aqueles emigrantes que vi e tenho visto de perto, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos, e também pelo mais largo mundo que tenho percorrido, e que, com a sua laboriosidade, a sua dignidade, a sua humanidade convivente, são em toda a parte, míseros e mesquinhos, ou ascendidos e triunfantes, muitas vezes, os embaixadores que Portugal não envia, ou os representantes da cultura que Portugal não exporta. Por dezassete anos, recordemos, Camões foi apenas um deles, quando ninguém sabia ou podia ainda saber o génio que ele era. Reatando: eu não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, porque, quando saí de Portugal, tinha vinte anos de escritor publicado, e desde então a maior parte da minha obra, ou grande parte dela, foi escrita para Portugal ou em Portugal publicada. Seja o que seja, continuo a ser o que era, quando me exilei muito a tempo naqueles idos negros e tristes de 1959: um escritor português que vive no estrangeiro e que mantém um permanente contacto com Portugal, até por obrigação profissional: catedrático de Literatura Portuguesa, que é um dos meus títulos e deveres, não tenho outro remédio senão estar a par do que se publica. Por outro lado, a minha fidelidade a Portugal – e fidelidade é uma das palavras-chave da minha pessoa e da minha obra, como liberdade é outra – nunca me permitiu livrar-me de partilhar (acrescentadas da dor da distância) as dores e as alegrias, os desalentos e as esperanças de Portugal. Permitam-me ainda um esclarecimento. Na melhor das intenções, vária imprensa anunciou ou referiu que eu falaria aqui como representante dos luso-americanos. Se alguém pensou que eu tal faria, mais que num plano meramente simbólico de partilhar com eles o viver nos Estados Unidos, enganou-se redondamente. Primeiro que tudo, eu não sou um luso-americano: esta palavra significa não o português que vive na América, mas ou o que adquiriu a cidadania americana, ou o que descende de portugueses e já nasceu americano: luso-americanas são duas filhas minhas, por naturalização, e um neto meu que o é nato, como brasileiro por naturalização eu sou, e dois filhos meus o são natos, enquanto minha mulher e outros cinco filhos mantiveram a nacionalidade portuguesa. E, em segundo lugar, que é o primeiro de todos, eu não recebi dos luso-americanos nenhum mandato eleitoral para falar em nome deles, embora esteja certo de que mo teriam dado, se a eles o tivesse pedido, por saberem que os respeito e estimo, sem distinção de credo ou cor (porque há luso-americanos de cor, idos de Cabo Verde para lá, por exemplo). Democrata como sou, eu não falo em nome de ninguém, sem ter recebido um expresso mandato para tal. Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de nada ou de ninguém. Esse vício centralista da nossa tradição administrativa – um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas – deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião. Também dos limites da ordem social e dos deveres do homem para consigo mesmo e a sociedade de que faz parte foi Camões um mestre. Assim, aqui, no âmbito de celebrações que são camoneanas e do Portugal disperso pelo mundo desde que o país existe e desde que, no estrangeiro, comunidades portuguesas ou de lusa origem se formaram ou mantiveram, eu não represento luso-americanos, e não falo em nome deles ou de ninguém no largo mundo. Aceito falar, como eu mesmo, da importância e do significado de Camões hoje, e da necessidade de ter presente ao espírito esta ideia tão simples: um país não é só a terra com que se identifica e a gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou. E poucos países do mundo, ao longo dos tempos, terão exportado, proporcionalmente, tanta gente como este.
Sejamos francos e brutais. Há neste momento, milhões de portugueses dispersos pelo mundo em mais de um continente, e não só na Europa de que são mão-de-obra. O país pensa neles, e deseja recordar-se deles. Mas o país, pura e simplesmente, na situação económica que herdou e em que se encontra e toda a gente sabe desastrosa, não pode prescindir do dinheiro deles, ou do dinheiro que eles costumam enviar para a santa terrinha, ao contrário do que faziam e fazem portugueses do território nacional, que mandavam o seu dinheiro para o anonimato dos bancos da Suíça. Deste modo, celebrar as Comunidades Portuguesas no dia do santo nacional que celebrou a expansão imperial do país é, ao mesmo tempo, um belo ideal e um cálculo muito prático. Há quem diga e quem pense que celebrações como esta – de Camões ou das comunidades – são uma compensação para a perda ou derrocada do Império oferecida ao sentimento popular, e que isso das comunidades é mesmo ainda pior: uma ideia do fascismo. Antes de mais, neste país há que pôr um basta não só ao fascismo ele mesmo, mas à mania de atribuir tudo ao fascismo, até as ideias. Porque, por esse caminho, ficamos todos sem ideias de que precisamos muito, e os fascistas ou os saudosistas deles acabam convencidos de que tinham ideias, quando ter ideias e ser fascista é uma absoluta impossibilidade intelectual e moral. O celebrar-se no presente e no passado em sua gente, o homenagear essa gente e recordá-la aonde quer que viva ou tenha vivido é um imperativo imarcescível da dignidade humana, num dos aspectos que a representa: o pertencer-se directa ou indirectamente a um povo, uma história, uma cultura, que como no caso de Portugal, foi, é e será capaz de diversificar-se em outras. Nenhum internacionalismo que se preze de ter os pés na realidade e na matéria de que somos feitos, pode negar ou ignorar essas realidades tremendas que são uma língua ou muitas, uma raça ou várias, uma cultura por mais adaptável ou capaz de absorção que ela seja, que se identificam com um nome secular – Portugal no nosso caso, aqui e agora.
Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos, que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo, é prestar homenagem a um reaccionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a Inquisição e a censura se instituíam todas poderosas: se o condenamos por isso, condenamo-nos nós todos a que, escrevendo ou não-escrevendo, e ainda vivos ou já mortos, resistimos durante décadas a uma censura opressiva, e a uma repressão implacável e insidiosa, escrevendo nas entrelinhas como ele escreveu. Isto é, condenamos a vera ideia de “Resistência” que, modernamente, fomos dos primeiros povos da Europa a tristemente conhecer e corajosamente praticar. E sejam quais forem as nossas ideias e as nossas situações políticas, nenhum de vós que me escutais ou não, pode viver sem uma ideia que, genericamente, é inerente à própria condição humana: o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos. Camões não tem também culpa de ter sido transformado em símbolo dos orgulhos nacionais, em diversos momentos da nossa história em que esse orgulho se viu deprimido e abatido. Claro que esse aproveitamento não teria sido possível se ele não tivesse escrito Os Lusíadas. Mas o restituir a quem o podia ler e o podia sentir mais fundamente um pouco de confiança em horas difíceis, é um acto de caridade, essa virtude que não é só cristã porque é, desde antes do cristianismo, a própria essência da civilização: a solidariedade humana quando a dor nos fere. E o ter sido usado, manipulado e treslido como Camões o foi, ou denegrido como também foi desde a publicação do seu poema, é um dos preços que a grandeza paga neste mundo. Camões e a sua obra têm pago esse preço como todos os outros. Deixem-me todavia recordar-vos que o grande aproveitacionismo de Camões para oportunismos de politicagem moderna não foi iniciado pela reacção. Esta, na verdade, e desde sempre, mesmo quando brandindo Camões, sentia que as mãos lhe ardiam. Aqueles oportunismos foram iniciados com o liberalismo romântico e com o positivismo republicano. E se o Estado Novo tentou apoderar-se de Camões, devemos reconhecer que ele era o herdeiro do nacionalismo político e burguês, inventado e desenvolvido por aquele liberalismo e aquele positivismo naquelas confusões ideológicas que os caracterizavam e de que Camões não tem culpa: tê-la-iam por exemplo dois homens que merecem o nosso respeito: Almeida Garrett e Teófilo Braga. E quanto à reacção mais recente em face de Camões, eu lembro apenas dois pequenos exemplos em que a censura o proibiu, se não estou em erro: o caso do jornal de Vila do Conde, em que um tio de José Régio usava publicar os clássicos, citando-os convenientemente, e o da revista Vértice, de Coimbra, que fazia o mesmo. E isto para não falarmos de crimes literários e socio-morais de mais largo alcance, de que Camões era vítima nas escolas, parecendo até que nós éramos as vítimas dele. Porque, para além de encher-se a boca com a Fé e o Império, que nem uma nem outro eram para Camões o que eram para o Dr. Salazar, o poeta não servia para mais nada senão para exercícios de gramática estúpida: o que, tudo junto, chega para gerações lhe terem ganho alguma raiva e perdido o gosto de o ler. E há mais e pior: quando, no liceu, líamos Os Lusíadas, éramos proibidos de ler (e não estudávamos) as passagens consideradas mais chocantes pela pudicícia hipócrita desta nossa sociedade de sujeitos felizmente desavergonhados que fingem lamentavelmente possuir a virtude que não têm, e vivem a perseguir ou reprimir os pecados alheios. Claro que nós todos íamos logo ler as passagens “proibidas” e lendo-as assim, com olhos libidinosos, perdíamos a grandeza delas: a majestade do sexo e do amor, a magnitude da liberdade e da tolerância, a inocência magnífica do prazer físico e da paixão erótica, que, acima de tudo, Camões cantava e celebrava nessas passagens com uma abertura de espírito e uma audácia espantosas. Será possível que os frades o tenham feito alterar algumas coisas antes de publicar Os Lusíadas. Mas, em face de algumas daquelas que lá ficaram, temos de reconhecer que, mais do que aquilo, só um poema francamente pornográfico, incompatível com a dignidade e o decoro da grande epopeia que Camões desejou escrever e escreveu.
Tem-se dito que o grande protagonista da epopeia é o povo português, e na verdade o povo aparece, segundo as tradições clássicas, representado apenas pelos seus heróis, aqueles que Camões seleccionou para o efeito, à excepção dos marinheiros anónimos que acompanhavam Vasco da Gama ou os seus guerreiros anónimos sem os quais não haveria a magnificente descrição da batalha de Aljubarrota ou análogos momentos. Aqueles marinheiros, como o próprio Vasco, são deificados, ou transfigurados epicamente na Ilha dos Amores, em condições sem dúvida moralmente impróprias de quem deixara família em Portugal, mas altamente consentâneas, se me permitem a rudeza, com a promiscuidade sexual notória do povo português, ao mesmo tempo que de acordo com as convenções épicas e mitológicas pelas quais os heróis se dignificavam no conhecimento (que aqui uso no sentido intelectualmente neo-platónico e no sentido obscenamente público) das entidades divinas. Já se disse que as personagens mais vivas e activas de Os Lusíadas são os deuses pagãos, e não as criaturas históricas, mais pálidas e incaracterísticas do que elas. Até certo ponto, isto é verdade. E é-o por algumas razões camonianamente importantes. Antes de mais, na filosofia que Camões assume e torna extremamente pessoal, os deuses pagãos possuem, como atributos do Deus supremo, invisível e silencioso, e como seus intermediários agentes, uma realidade autêntica que a criação artística faria necessariamente mais palpável e concreta. E é assim que nós vemos tão nitidamente Vénus, a Afrodite originária e primeva, um dos deuses anteriores a tudo, e também a deusa do amor que este sim, é todo poderoso – como a não veríamos? Ela é a amante, a esposa, a mãe, tudo o que o princípio feminino significa dentro e fora da nossa humanidade, naquelas complexidades psico-sexuais a que Camões se compraz em aludir, servindo-se de alusões mitológicas que parecem meros ornamentos ao longo da epopeia inteira. E como não veríamos Baco ou Diónisos, receoso de ser castrado da sua lendária glória de conquistador da Índia? Se, como descendentes de Luso, descendemos dele, e ele é o nosso pai receoso do triunfo e da liberdade dos filhos? Como não veríamos Júpiter, se ele é de certa maneira a providência divina, sempre disposta a sucumbir, mesmo incestuosamente, às atracções do amor? Estes deuses, na dialéctica camoniana, sem a qual Camões se não entende, são ao mesmo tempo as emanações do princípio divino que desce à terra, e são a nossa humanidade ascendida e divinizada. E é neste mesmo sentido que as referências a Cristo devem ser entendidas nos contextos camoneanos: ele é, supremamente, para Camões, o princípio divino que, como um fogo de vida, desce a encarnar-se humanamente, mas é também o homem, o herói humano que, pelo seu sacrifício, ascende ou regressa ao divino. E é este heroísmo do apostolado e do sacrifício o que, em toda a sua epopeia, Camões propõe continuamente pela referência ou pela narrativa. Até Inês de Castro, a grande matriarca do poema, ascende à glória épica pelo seu sacrifício de amor. Porque para o amor, para todas as formas de amor, Camões arranja sempre uma desculpa, um louvor, ou a suprema divindade, porque esse amor é, para ele, a todos os níveis, a realidade última, e a realidade sempre presente. Sem amor, não há heróis, nem há homens dignos desse nome. E amor, mesmo numa epopeia que transborda de feitos bélicos e de acções guerreiras, não existe sem uma infinita e total tolerância, um respeito pelos outros povos, as outras raças, as outras culturas, as outras religiões, ao ponto de, como já tenho chamado a atenção, o conceito de santidade ou a palavra santo se aplicar a todos, sem distinção alguma, cristãos, muçulmanos, brâmanes, etc., e até – não o esqueçamos – a uma ninfa que se deixa possuir, por bem requestada, na Ilha dos Amores. Este Camões de amor e tolerância permeia Os Lusíadas. Mas já se disse que, além e acima de tudo e todos, a principal personagem da epopeia é Camões ele-mesmo, não só como o autor, não só como o narrador, não só como o crítico severo e implacável de toda a corrupção e de toda a maldade, como o denunciador angustiado de uma decadência moral e cívica que ele via e sentia à sua volta, e o qual constantemente interrompe a narrativa para invectivar com o maior desassombro (lembremo-nos de que as ordens daquele D. Sebastião a quem o poema é dedicado, dirigidas aos seus imperiais governadores, chamando-os à virtude e à dignidade, não tinham de tom diverso senão a diferença que vai de uma carta oficial a uma poesia de génio). E há nisso de Camões ser central uma enorme e profunda verdade que é o Camões-homem e o Camões-poeta. Não só ele se colocou, nos seus cálculos arquitectónicos do poema, nessa posição, e assim se colocando, se apresenta como a culminação da aventura portuguesa que ele conta, como o herói que o é por ser quem transforma Portugal numa obra de arte, acima das contingências históricas e da mesquinhês humanas. O Camões que na epopeia espreita ou se mostra a cada momento, roubando mesmo alguma realidade estética a tudo e todos, nós conhecêmo-lo e entendêmo-lo de outro volante do políptico que é a sua obra: o grande poeta lírico que é também um grande pensador, e que, na obra lírica como na épica, se apresenta como resumo e epítome da humanidade mesma, e não só do povo português. Ele é o homem em si, aquele ser que se busca continuamente e ao amor que o projecta para dentro e para fora de si mesmo, e é, como Luís de Camões, o predestinado para ser, ao mesmo tempo, o poeta-herói supremo que realiza, isto é, torna real para a eternidade da poesia, a história de Portugal, e a embarca nos navios de Vasco da Gama para unir o Ocidente ao Oriente. Ao mesmo tempo, este poeta-herói-épico, e o poeta-homem, exemplo de ser-se português, em exílios e trabalhos, em sofrer incompreensões e injustiças , e – ao contrário do que sucede ou sucedeu a alguns – regressar com as mãos vazias, apenas rico de desilusões, de amarguras e do génio que havia posto numa das mais prodigiosas construções jamais criadas, desde que o mundo é mundo. E essa construção ele trazia, reunindo o Portugal disperso, para o que ele deixara a vida, como disse, pelo mundo em pedaços repartida. Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros. Ele, o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo. Ninguém, como ele desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exactamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares. Ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa. É o exilado físico de muitos anos mas é, como todos nós, e nisso tanto ou mais o somos que outros povos, o exilado moral, clamando por justiça, por tolerância, por dedicação à pátria, por espírito de sacrifício, por unidade nacional e universal, lá onde via que o homem é, como ele disse mais que uma vez, o “bicho da terra tão pequeno” contra o qual se encarniçam os poderes do mal.
Haverá ainda quem diga que esse homem cantou a expansão imperial, apesar de tudo, as conquistas imperiais do Oriente, e está portanto fora do nosso tempo e do nosso espaço históricos, e a sua epopeia ofende a consciência das Ásias e das Áfricas. Mas ele cantou a expansão portuguesa, na medida em que considerava que esta expansão era ou deveria ser a civilização ocidental levada a toda a parte, no que tinha de moralmente digno e de socialmente responsável. Ao escolher para assunto central da sua epopeia a viagem de Vasco da Gama, ele sabia perfeitamente que escolhia um momento decisivo da história universal; o encontro, para todo o sempre, para bem e para mal, da Europa com a Ásia, passando-se pela África. Momento decisivo dessa história do mundo, como eminentes historiadores insuspeitos de simpatias portuguesas ou imperialistas o têm proclamado e reconhecido. E, na verdade, esse encontro (e esse Império que, no tempo de Camões, com todos os erros e crimes, não era os impérios coloniais inventados pela Europa do século XIX, nem socio-moralmente inferior à desordem política existente então, como hoje, em toda a parte) simboliza aquilo mesmo que, mais tarde, nos nossos dias, veio a verificar-se. Porque as ideias de independência política e de justiça social pelas quais lutaram e ainda lutam os povos da Ásia e da África, e às quais se renderam os povos das Américas ao separar-se da velha Europa, não são as tradições tribais originárias por respeitáveis que sejam: são aquelas mesmas ideias que, geradas na Europa, da Europa se difundiram, tal como as naus do Gama partiram de Lisboa para uma das mais gloriosas viagens de todos os tempos. Isso Camões cantou: e vendo-o no seu tempo, e na visão do mundo que ele teve, sabemos que devemos relê-lo atentamente para saber, que ele, tão orgulhosamente português, entenderia todas as independências, se fosse em vida nosso contemporâneo como ele o é na obra que nos legou, para glória máxima de uma língua falada e escrita ou recordada em todos os continentes. O orgulho de ser-se alguma coisa, o inabalável sentimento de independência e de liberdade, disso ele falou, e sentiu como ninguém. É disso um mestre. Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, e desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento e a sensualidade mais desbragada, uma fé inteiramente pessoal, pensada e meditada como ele a queria e não como uma instituição, e a dúvida do predestinado que se sente todavia só e abandonado a si mesmo. Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida.

 

Paris, 3 de Junho de 1977.

* Corrigimos aqui um evidente lapso que aparece em todas as edições do texto impresso.

 

A Noite que fôra de Natal

De Antigas e Novas Andanças do Demónio

“Foi publicado pela Editora Estúdios Cor, como “brinde de natal” distribuído à crítica, aos seus clientes e amigos, em Dezembro de 1961, numa plaquete ilustrada com desenhos que seriam bons, se estivessem de acordo com o conto. […] Publicado o conto, e porque nesse tempo eu ainda não agredira as “viúvas de Aquilino Ribeiro”, teve ele boa recepção da crítica. Nem toda gente, é claro, sabia que Saulo de Tarso é São Paulo; e nem terá saboreado a alusão à morte de Pã, que provém, salvo erro, do De defectu oraculorum, de Plutarco; nem entendeu, que, influenciado eu há muito por um ensaio de Norman Douglas, em “Siren Land”, o imperador Tibério, me era simpático. Mas isso são questões de somenos importância… O que importa é que o conto agradou, principalmente a muitos que não perceberam, ou fingiram não perceber o que ia nele:  por exemplo, o escândalo de ser S. Paulo a aventar a hipótese, na conversa com o pagão, do adopcionismo (pela qual primitivos cristãos consideram Cristo elevado a Messias no momento em que Deus o teria escolhido, ou lhe dera uma consciência de sua missão), contra a qual foi precisamente o paulinismo quem fundou o dogma cristão”. JS. 

 

Se Deus desce em pessoa à humanidade é que abandona a morada que é a sua. Do mesmo passo, abala o universo. Alteremos do universo a mínima parcela, e todo o conjunto desaba.

Celso, cit. por Orígenes, in Contra Celsum

I

Era como se a noite, de negra, fosse apenas o estron-dear das vagas invisíveis no sopé da escarpa e a aragem fria que salina sentia na boca e nas narinas e, cortante, nas orelhas e na inserção dos caracóis da testa. Envolto no manto de lã, nada mais sentia; e os olhos, absortamente fitos na distância alta, além do parapeito, opaca e sem horizonte, não perscrutavam, apenas alongavam por ela dentro imagens que lhe enchiam a memória vaga.

— Marco Semprónio…

Voltou-se e só então ouviu, por sob o estrondo das vagas invisíveis, os passos arquejantes que haviam precedido o chamamento. No clarão indistinto que difuso vinha de entre as colunas do palácio, reconheceu a barba de Quintílio Vero; imagens da memória, refluindo também para os seus membros, deram-lhe a lembrança da barca, dos exercícios de natação pelas grutas, dos remos batendo na água transparente, e de um cadáver de escravo emanando de si, no azul do fundo, uma nuvem vermelha que se dissipava.

— Que é?

Quintílio Vero tentou ler-lhe no rosto a disposição de ouvi-lo. Mas havia, na inquietação que todo o agitava, uma decisão de falar.

— Os pescadores de Áqua Lívia, tu sabes. Marco Sem-prónio, os de Áqua Lívia — (e no tédio de Marco Semprónio desenhou-se a pequena praia com garotos saltando por entre o peixe que saltava também) —, quando dobravam o cabo, esta noite, ouviram…

— Ouviram o quê? — e a voz soou distante, distraída, timbrada da claridade dardejante da areia da pequena praia.

— Ouviram uma voz que gritava, não gritava, não, mas soluçava, uivava, era um rugido triste, dentro da noite, em cima do cabo, ou dentro dele…

Marco Semprónio, como que para precipitar as delongas narrativas, principiou a atravessar o terraço lajeado. Junto da estátua de Eros, que se erguia no sopé dos degraus da colunata, voltou-se, uma das sandálias no primeiro degrau.

Quintílio Vero, com o seu andar balanceante, aproxi-mou-se devagar. Marco Semprónio, olhando por sobre ele o negrume da noite além do parapeito, sorriu, torcendo os lábios.

— Marco Semprónio… eles ouviram uma voz que dizia… — e Quintílio Vero, esquecido das conveniências que se manifestaram num fugidio franzir do sobrolho de Marco Semprónio, sentou-se cabisbaixo no primeiro degrau, junto da sandália de cordões de ouro.

— Ouviram então uma voz. E que dizia a voz? — perguntou Marco Semprónio, fitando a nuca revolta do pescador.

Quintílio Vero torcia as mãos. Marco Semprónio começou a sentir uma leve agonia, como que um enjoo, e teve subitamente um frio que lhe lambia as pernas depiladas. Aconchegou-se no manto, e subiu as escadas.

A voz do outro chamou-o, quando roçava a coluna de mármore e o manto se pegava nos espinhos da roseira que a envolvia.

— Marco Semprónio… Avisa o Imperador… Eles ouviram dizer… era o cabo quem falava… que tinha morrido…

Marco Semprónio parou sem se voltar.

— Marco Semprónio, não me deixes com esta notícia. Nem digas ao Imperador que eu vim trazê-la. Eles ouviram dizer que morreu o Grande Deus Pã.

Marco Semprónio voltou-se, desceu os degraus até à estátua, encostou a cabeça às ancas de íEros e perguntou:

— O Grande Deus Pã?

Quintílio Vero não respondeu.

— Mas os deuses não morrem, Quintílio Vero, os deuses são imortais.

— Eu sei, Marco Semprónio; eu sei, que sou piedoso. Mas foi o que eles ouviram. E a voz uivava tanto, que deve ser verdade.

Marco Semprónio veio até junto do vulto agachado. Sob o manto, sem desagasalhar-se, tirou da bolsa moedas que tilintaram no lajedo.

— Vai, Quintílio Vero, e não repitas a ninguém essa história. E os pescadores de Áqua Lívia que a não repitam também, ou o Imperador os mandará matar por blasfemos.

E Marco Semprónio subiu os degraus e penetrou no palácio.

II

Na grande sala, iluminada por archotes fumarentos, Marco Semprónio passou devagar por entre os coxins dispersos, alçou cuidadosamente as pernas por sobre um escravo estendido e nu, que já devia estar morto, e reclinou-se, alargando o manto, ao lado do imperador. O olhar vagueou-lhe do rosto envelhecido do César para outro escravo também nu que, em frente deles, pendia, pelos pés, de um varão de ferro, com as pontas dos dedos a roçarem de leve o mármore do pavimento. Mais uma vez Marco Semprónio verificou que um corpo de homem, assim suspenso e exangue, tinha uma beleza estranha, que não teria noutras circunstâncias, por belo que fosse. E aquele era-o. As imagens que haviam flutuado na noite, além do parapeito, configuravam-se agora na recordação daquele corpo vivo, vigoroso, jovem, tão submisso e hábil, e que ele próprio cedera ao imperador. Apurando a vista, examinou-o minuciosamente, e deteve os olhos no pequeno golpe no pescoço, de onde, escorrendo em fio pela cabeça acima — sorriu da inversão dos termos que a suspensão impunha —, o sangue pingava escuro para uma bacia de prata entre as mãos pendidas. Um instante apenas, meditou em porque esquecera a bacia, a não vira quando se sentara, mas às mãos, mais nada. Por certo as mãos pareciam vivas, e é que estavam ainda vivas. Sentiu um saboroso arrepio, uma saudade antecipada e agradável daquelas mãos que morriam. Suspirou.

O imperador dormia, respirando tranquilo, ridiculamente descomposto, e no chão estava o punhal sujo de sangue. Marco Semprónio curvou-se, apanhou o punhal, limpou-o na túnica de Tibério, pousou-o novamente no chão, e levantou-se. Olhando de esguelha o imperador, bateu palmas. Dois escravos surgiram com uma pedra e uma corda, que amarraram aos pés do cadáver por cima do qual passara Marco Semprónio.

E, carregando-o, saíram para o terraço. Marco Semprónio aguardou, de pé, sem olhar o imperador, que eles voltassem, e fê-los desaparecer com um gesto.

Tornou a sentar-se, meio recostado. E divertiu-se a examinar o imperador, que, pelos fugidios brilhos que entrevia nos seus olhos semicerrados, agora fingia dormir. Como estava velho, cheio de refegos no pescoço e no corpo! Como parecia um sileno emagrecido e exausto! Como as rugas e as peles pendidas das faces pareciam com o seu peso esticar mais a pele do crânio, que brilhava suada sob o cabelo ralo! Como o nariz parecia uma tromba ou um sexo, e como o sexo parecia um nariz! Fingindo solicitude e carinho, desenvencilhou-se da sua capa, e com ela cobriu o imperador. Tibério abriu os olhos, sorriu-lhe, acomodou-se melhor sob a capa. Os lábios finos e descaídos, que pareciam esvaziados do que haviam sido de carnudos, entreabriram-se.

— Obrigado, Marco Semprónio. Que seria de mim sem os teus cuidados?

Marco Semprónio baixou modestamente os olhos, e disse: — Bem sabes, César, que a vida para mim não vale senão ao teu serviço.

— E não é fácil servir-me, não é fácil — e a voz tornou–se-lhe amarga para acrescentar: — Se até eu estou farto de servir-me! — e depois, com humor, continuou: — Mas também há quase setenta anos que me aturo e tu, Marco Semprónio, há dez apenas.

— É como se tivesse sido ontem.

— E é verdade, porque te estimo. Mas igualmente é verdade, porque, nesta ilha e neste palácio, tu e eu suprimimos o tempo. Graças a nós, o tempo não passa. Ou passa como as ondas sempre iguais e que são sempre outras com o mesmo mar. Não temos, nesta ilha, rios, Marco Semprónio. E os rios é que são o tempo que passa. Quando agora mandaste deitar ao mar o escravo cuja morte algum prazer me deu, tão pouco, eu claramente senti como aqui nem com a morte o tempo passa. Ou não passa precisamente porque é morte. Repara, Marco Semprónio, naquele sangue que pinga. É como se a vida se esgotasse na água que pinga na clepsidra, e a morte se esgotasse, e com ela o tempo, naquele sangue que escorre, gota a gota, de uma clepsidra humana que voltámos. Quando o sangue pulsa em nossas veias, ele é o tempo que passa. Quando escorre assim, é o tempo que fica.

— Mas, César, porque não abres as tuas veias, para que, com o teu sangue, o tempo acabe?

Os olhos de Tibério olharam ironicamente Marco Semprónio.

— Porque, se as abrisse ou mandasse abrir, eu seria igual àquele escravo que me deste. Seria alguém, um ser, um animal, a quem, como imperador, eu dava a morte. E a última coisa que eu desejo, Marco Semprónio, e por isso deixo que o Império se governe, é ser imperador de mim mesmo.

— Nunca deixaste de governar o Império, César.

— Não, na verdade nunca deixei. Mas não consigo governá-lo senão longe dele. Eu cansei-me de traições, de perfídias, de ambições, de lutas, das pompas imperiais, dos sacerdotes, da família, de tudo. No meio disso, eu não podia governar nem ser quem sou. Assim, nesta ilha, que é como se fosse no fim do mundo, eu sou para eles o Imperador, o imperador ideal, o imperador invisível, que os deixa fazer todo o mal que querem e todo o bem que desejam, em meu nome, e cujos decretos sagrados às vezes descem sobre eles como uma voz divina. Os meus decretos são como a chuva de ouro que fecundou Dánae. E a lenda das minhas crueldades e das minhas devassidões, aqui, ampliada pela ignorância e pela fantasia de cada um, que tem os limites da nossa, mas não tem a minha liberdade para executá-las, só me torna, cada vez mais, um deus temeroso e longínquo que vive na imaginação deles. Por minha parte, nunca me senti tão humano.

Novamente fitou, com fascinação entediada agora, a bacia onde o sangue coalhava espesso.

— Dizem os poetas, Marco Semprónio, que morrem jovens os que os deuses amam. Acreditas que eu amei esse escravo? Ele era belo, jovem, inteligente, sabias que ele era inteligente?, e está ali suspenso, esvaindo-se tão submissamente como um cordeiro que não entende porque é sacrificado pelo arúspice. Pois é verdade, eu amava-o muito; e quero crer que ele foi das poucas pessoas, admitindo-se que um escravo o é, que às vezes se esqueceu que eu era o Imperador. Provavelmente, os deuses amavam-no, porque os homens, qual sou, nunca acreditei que possam ser deuses.

— Foste então o instrumento do amor dos deuses, César Augusto.

— Fui, Marco Semprónio, e não em vão.

Marco Semprónio deitou-se para trás, de olhos fechados. Tibério sentou-se, e olhou-o. Sem abrir os olhos, Marco Semprónio perguntou: — Que foi que ele revelou antes de desfalecer?

— Que morria feliz, porque hoje nascera um deus. Não falou muito claramente, era um murmúrio indistinto, foi preciso que eu me ajoelhasse e encostasse o ouvido à boca dele. Já vou ficando surdo para escutar os oráculos.

Tibério levantou-se, acomodou pelos ombros o manto de Marco Semprónio, e aproximou-se do escravo suspenso. De leve, percorreu-lhe com uma das unhas o flanco, que estremeceu num arrepio.

— Marco Semprónio, ajuda-me a despendurá-lo.

O tribuno sentou-se, olhando surpresamente o imperador. Era tão raro aquilo.

—Ajuda-me a despendurá-lo, Marco Semprónio. Eu quero que ele viva.

Mais surpreso ainda, o outro levantou-se, e disse: — Mas, Tibério, se queres que um deus tenha nascido, é preciso que o deixes morrer.

O imperador não lhe respondeu. Então, ambos, erguendo o corpo inteiriçado e também, como por partes, flácido, tiraram do varão o gancho que havia na corda que lhe amarrava os pés, e conseguiram deitá-lo, cambaleantes, no leito próximo. Tibério, rasgando uma tira da túnica, fez-lhe uma ligadura no pescoço. Marco Semprónio seguia os movimentos do imperador: pegar numa ânfora, deitar numa taça um pouco de vinho, vertê-lo na boca entreaberta, debruçar-se para os olhos esbugalhados e vítreos.

— Marco Semprónio…

Este inclinou-se para o escravo, afastou Tibério com um gesto e, curvando-se, auscultou o peito imóvel e rígido. Depois, foi a uma mesa próxima e trouxe um espelho de metal polido, que chegou à boca entreaberta e que examinou.

— César Augusto, ele está morto.

III

Marco Semprónio recordou os imperadores que a todos tinha conhecido de perto: o grande Tibério, que lembrava com saudade; Calígula, que se imaginara poder ser Tibério; Cláudio, que tremia de ser imperador, e este petulante de agora, cuja vida (era evidente, pois que até ele, Marco Semprónio, conspirava) devia estar por um fio. Na sua «vila», contemplando os netos que brincavam à sombra das parreiras, vigiados por um escravo idoso (como sabia histórias, como era músico, que lições de retórica não dava ele às crianças!), Marco Semprónio não se queixava (ah, não) da vida. Queixava-se, sim, das dores que o não largavam, nem naquela secura tranquila das encostas floridas. A esposa morrera (o túmulo, que mandara fazer-lhe, era umas das curiosidades mais admiradas na Via Apia), as filhas haviam casado (eram de uma delas os pequenos), os dois filhos viviam longe, na Bitínia um, na Tarraconense o outro, ambos magistrados, ambos casados e felizes. As suas comunicações científicas sobre a rigidez dos corpos, e a distribuição dos humores sanguíneos, haviam-lhe granjeado o respeito dos sábios do Império, que todos conheciam as possibilidades que tivera de fazer experiências. Igualmente estimada era a sua «Apologia de Tibério», de que Nero mandara fazer uma edição especial para ser distribuída aos funcionários (coitado, convencido de que, por comparação, se justificaria).

Sentado no banco de pedra ao pé do lago, Marco Semprónio olhava o poente que avermelhava as folhas das parreiras, e punha nos cachos, quase maduros, laivos purpuríneos. Olhando o poente, os risos das crianças eram-lhe uma música suave sublinhando o fim da tarde, com os gritos longínquos dos pastores, os balidos das ovelhas, os chocalhos, as conversas dos escravos no pátio da cozinha.

Pela álea areada, um escravo vinha correndo em direcção a ele. Era o ibero que o filho lhe mandara. Marco Sem-prónio sentiu um baque, um mal-estar, uma angústia, uma curiosidade receosa. Nero teria caído? Tê-lo-ia envolvido numa das conspirações que descobria todos os dias? Ou chamava-o, mais uma vez, para aconselhá-lo na perseguição àquela seita absurda que fazia todas as provocações necessárias para ser perseguida e clandestina?

Marco Semprónio olhou o seu jovem secretário, em quem tinha (não é verdade que tinha?) a maior confiança, a ponto de perdoar-lhe inúmeras faltas, caprichos, grosserias. Átis (era o nome que lhe pusera) parou junto dele, e disse:

— Marco Semprónio, está ali um homem à tua procura, que diz ser um velho amigo teu, mas nunca o vi. Pede para falar-te.

Marco Semprónio achou que, como sempre, Átis dramatizava para dar-se importância.

— Os meus amigos velhos já morreram todos — e sorria.

— De onde é que ele me conhece? Ele disse?

— Da Judeia e da Síria. Diz que tu e ele eram amigos, quando foste o pretor de Antioquia.

— Antioquia? — e Marco Semprónio levantou-se, aprumando com esforço a elegância que era ainda a sua. — Átis, como é ele? Um homem alto, moreno, de barba negra, olhos de fogo, que não é capaz de estar quieto?

— É alto e moreno, e tem olhos de fogo. Mas a barba é grisalha, e nunca vi ninguém tão sereno a não ser meu amo Marco Semprónio.

Este, dando uma palmada no ombro de Átis, declarou:

— Só pode ser o Saulo. Manda entrar.

— Para onde? Para aqui?

— Para a biblioteca. E serve-lhe, enquanto me preparo, daquele Salerno especial. Como ele gostava de Salerno!

E, seguindo Átis que corria, Marco Semprónio, apoiado ao seu bastão, caminhou para casa. Momentos depois, lavado e perfumado, com roupas impecáveis de brancura, assomava à porta da biblioteca e, alçando cuidadosamente as pernas, para não tropeçar numa série de livros que, espalhados no chão, eram o sinal da sua vida estudiosa, aproximou-se do vulto que, de costas, examinava um rolo retirado da prateleira dos poetas.

Marco Semprónio parou e disse: — Tens o mesmo faro de sempre — e já o vulto se voltava, súbito, de papiro na mão, e avançavam, de braços estendidos, um para o outro, quando concluiu: — É um manuscrito grego. — E abraçavam–se, com certa efusão convencional, quando explicou: — São poemas atribuídos a Platão, mas creio que são falsos.

Ficaram depois frente a frente, observando-se mutuamente. E o outro, com voz suave e firme, disse:

— Toda a filosofia é falsa, Marco Semprónio.

Sentaram-se ambos, a um gesto de Marco Semprónio,

e o outro pousou na mesa, onde um jarro e taças brilhavam, o rolo de papiro.

—: Há quantos anos! Que fazes tu em Roma? — perguntou Marco Semprónio. —Nunca mais soube de ti… Que tens feito?

— Nada do que devia. Mas estou em Roma para servir a causa da justiça e da liberdade.

— (Nero é um monstro, com efeito. Não imaginei, porém, que fosse preciso vir da Síria conspirar em Roma, Saulo… Aqui, o mal é precisamente haver conspiradores de mais.

¦— Bem sei, mas para nós a situação é muito grave. E foi por isso que te procurei, em risco de comprometer-te e com-prometer-me.

— Porquê?

— Porque eu sou, Marco Semprónio, pela vontade do Senhor, um dos chefes desses cristãos que tu persegues.

Marco Semprónio olhou-o, estupefacto: — Tu, Saulo?

— Eu.

— Como é possível? Mas há cristãos da tua categoria? E, quando alguém da tua categoria se torna cristão, consegue ser cristão de categoria?

— A minha categoria não era, e não é, nenhuma, Marco Semprónio.

— Mas tu rias deles, Saulo, que eu recordo.

— Ria. Acontece, porém, que eu não sabia o que fazia, e crucificava todos os dias o Senhor em mim mesmo.

Marco Semprónio calou-se, e um silêncio se demorou na biblioteca, durante o qual se ouviram, abafados, no crepúsculo que punha sombras pelos cantos, os ruídos domésticos da «vila». Foi Saulo quem o quebrou.

— Marco Semprónio, é preciso que a perseguição acabe.

— Qual perseguição? Sabes bem que os teus amigos tentaram incendiar Roma. Foste tu quem ordenou?

— Não fui. Cheguei por isso mesmo. Foi um erro monstruoso que é preciso corrigir. Há sempre quem suponha, na sua paixão, que destruir Roma, a devassa Roma, a pecadora Roma, é dar testemunho dos desígnios de Deus. Mas só uma Roma devassa e pecadora deve ser destruída pela oração e a humildade: a que corrói os nossos corações. Eu nunca falei de outra. E quando vós, romanos de Roma, os perseguis, apenas suscitais um amor do martírio, que, um dia, será amor da perseguição. O meu mestre disse: «Amai-vos uns aos outros.» É no amor que o Senhor nos conhece e o conhecemos. Venho pedir-te que uses da tua influência, que é grande, para sustar, no começo, esta cadeia de erros. Para que Roma não seja os Neros que a governam, nem os cristãos venham a ser os Neros que hão-de governá-la.

Marco Semprónio ficou pensativo, e depois fitou o rosto moreno, de nariz fino e longo, as barbas grisalhas e, por fim, os olhos com aquela ardência de sempre: — Mas, Saulo, eu não tenho, esta é a verdade, influência alguma. Neste momento, ninguém a tem. E não creio, desculpa que te diga, que alguma vez os cristãos governem Roma.

— Hão-de governar o mundo, Marco Semprónio. E hão–de até fazê-lo maior, além das Hespérides, para maior glória de Deus.

— Estou a lembrar-me das nossas conversas de Antioquia. Do entusiasmo com que discutias, pela noite dentro. Saulo, tu transferiste para a religião o teu entusiasmo apaixonado. Naquele tempo, todas as filosofias te eram verdadeiras, quando eu achava que nenhuma o era. E hoje, quando eu acho que só a filosofia pode ser verdade, ah, uma filosofia que eu nem mesmo sei o que seja, tu achas que nenhuma o pode ser e que os cristãos hão-de governar o mundo… Quem sabe o que os fados nos reservam? Mas Roma é tão dura, Saulo, que nem nós veremos, nem os nossos netos, uma tal coisa.

— Mas, se tens netos, Marco Semprónio, pensa neles.

— Se eu pensar muito neles, Saulo, são eles quem não pensará em mim. Mas que queres tu que eu faça? Que posso fazer por ti, apenas por ti, já que os teus cristãos, segundo entendo, se não contentam com ser teus?

— Nem têm que contentar. É sozinhos que os homens se salvam ou se perdem. Deus não lhes dá mais do que uma alma, e o seu infinito amor, e os preceitos que devem entender com o coração. Sempre insisti nisso em tudo quanto escrevo.

—São teus esses escritos que por aí circulam, anunciando a chegada próxima do reino de Deus? E contando histórias de milagres?

— Nem todos. E só porque o Espírito sopra onde Ele quer é que eu não sei dizer-te, nem quereria, quais serão os meus.

Marco Semprónio sorriu: —Alguma coisa te ficou, bem que eu dizia, de quando eras filósofo. Mas que pensaste que eu poderia fazer? E, repito, que eu, se puder fazer, o que não creio, só farei por ti, em nome da nossa velha amizade.

Tornou a fitar nos olhos luminosos e profundos o interlocutor, e uma perturbação o percorreu.

— Que eu não sei se podes ser o mesmo amigo. Deves ter ouvido, a meu respeito, horrores. Em Antioquia a minha fama precedera-me. Se mudei muito, se ninguém lembra já o que mais de quarenta anos de Império tornou vulgar, não menos devo ser, para ti, uma dessas Romãs corruptas, um desses corações que não há incêndio que purifique.

— Como te enganas, Marco Semprónio! Tu não conheces a infinita caridade do Senhor, o poder que ele tem sobre a ^Natureza. Nenhum homem pode gabar-se de não ser inestimável aos olhos de Deus. E tu próprio, só porque falaste, acabaste de confessar isso mesmo.

Marco Semprónio franziu o sobrolho, e soltou uma leve gargalhada, pousando com firmeza divertida as mãos nos pontiagudos joelhos.

— Saulo, a melhor maneira de que eu possa ser-te útil não é começar por converter-me.

O outro levantou-se, e deu uns passos pela sala, remexeu nas estantes e, cruzando os braços, encostado a uma, olhou Marco Semprónio e disse: — Nem tenciono. De resto, não te esqueças, nós só procuramos aquilo que, no fundo dos nossos corações, já havíamos encontrado.

Marco Semprónio tossiu secamente.

— Saulo, vou dizer-te uma coisa. Tu falaste do poder do teu Deus sobre a Natureza. Quero crer que o teu Deus se parece com a essência divina dos alexandrinos que estimavas tanto. Mas não importa. Além de que os teus cristãos, na maior parte escravos de todos os cantos do Império, não devem, como tu eras, ser entendidos em alexandrinismos. Sabes que, vai para quarenta anos ou mais, eu era, em seu exílio voluntário, o companheiro fiel do imperador Tibério, que os deuses tenham na sua santa glória. Certa noite, e eu nunca contei isto a ninguém, nem mesmo, nessa ocasião, a Tibério, um pescador veio dizer-me que outros pescadores haviam ouvido, dentro da noite, uma voz que anunciava a morte do deus Pã. Ao imperador, um escravo muito amado, que se esvaía em sangue, anunciara, antes de morrer, oh, eram experiências que nós fazíamos, que morria feliz porque nascera um deus. Ambos os factos sucederam na mesma noite, uma noite cerrada em que nada se via. Eu não acredito em portentos. Achas que as duas coisas se relacionam? Quando foi que nasceu esse homem que os cristãos consideram Deus, um deus mortal?

— Dizes que isso foi há quarenta anos. Nessa altura deve .Ele ter começado a pregar a Palavra de seu Pai. Não me parece que tal noite coincida, pois, com o nascimento dele, mais de vinte anos antes, nem com a sua morte na cruz, alguns anos mais tarde.

— Tibério, depois, mandou fazer inquirições secretas por todo o Império. A história da morte de Pã foi recolhida nos pontos mais distantes. A do nascimento de um deus não foi. Ou não o foi, por maior excesso ainda, já que, para toda a gente, se lhes perguntarmos, há sempre um deus que está nascendo. Será que aquele escravo era cristão? Era tão moço, viera para Roma quase criança, tu dizes que o teu Mestre começou a pregar nessa época, não é possível.

Saulo desencostou-se da estante, veio até Marco Semprónio, parou diante dele, que levantou os olhos papudos e vazios.

— Marco Semprónio, tu sempre meditaste nisso ou foi agora, ao falares comigo, que te lembraste?

— Na verdade, não sei.

— Porque é possível.

— Possível?

— Sim. Imagina que foi nessa hora que Ele reconheceu em si a sua missão, e sentiu em si mesmo que era filho de Deus e o próprio Deus. Não foi, portanto, nessa hora que o meu divino Mestre nasceu de novo, pela segunda vez, na plena integridade do seu Ser? E no momento em que Deus, Ele e a Palavra se tornaram um só, uno e indivisível, na sua consciência, não foi que o deus Pã morreu?

Quase se não viam um ao outro. E ficaram ambos silenciosos e imóveis, até que um escravo entrou com uma candeia que pousou na mesa. O jarro brilhou. O escravo, tão suavemente como entrara, saiu.

Marco Semprónio levantou-se e perguntou: — Voltas para Roma esta noite? Ficas para cear comigo?

Saulo respondeu: — Volto.

— Ao menos bebeste desse vinho de Salerno, que mandei servir-te? Tu gostavas muito de Salerno.

— Não bebi.

— Então bebamos juntos uma taça.

Foi à mesa, encheu duas taças, uma das quais estendeu a Saulo. Este pegou-lhe, e ambos, de taças em punho, eram iluminados amareladamente pela candeia.

Saulo disse: —Sabes, Marco Semprónio, que o vinho santificado é o sangue do meu Mestre?

Marco Semprónio pensou: «Tibério bebia o sangue dos escravos», mas respondeu apenas: — Não, não sabia. — E levantou a taça: —Para que os deuses, todos os deuses, nos sejam propícios.

— Para que o Senhor te proteja.

Beberam e pousaram as taças.

— Saulo, eu na verdade não tenho influência alguma. Mas farei o que puder.

Foram caminhando para a porta, tropeçaram nos rolos que estavam no chão.

— Saulo, se fores preso, não deixarei que te torturem, que te crucifiquem. Tu, afinal, és um cidadão romano. Só podem decapitar-te.

— Eu nunca invocaria, para tanto, a minha condição de cidadão romano, que meu Mestre não foi, porque não sou mais do que Ele, na minha pequenez humana. Mas agradeço-te, porque, último dos seus discípulos, não sou digno da cruz em que Ele morreu.

— Não terei influência para mais.

— É muito já. É tudo. Deus te abençoe.

Marco Semprónio não o viu sair.

 

Araraquara, Dezembro de 1961.

In: Antigas e Novas Andanças do Demónio, 4a.ed., Lisboa: Ed. 70, 1984. pp. 135-148.

(As informações aqui fragmentariamente reproduzidas como introdução encontram-se nas “Notas” finais ao livro.)

 

Leia mais:

Sobre Sinais de Fogo

[BIBLIOGRAFIA CRÍTICA – 2]

Traduzido em francês, catalão, holandês, alemão, castelhano, inglês e italiano, certamente o romance seniano mereceu apreciações críticas nessas diversas línguas, cujo rastreio deixamos para outra oportunidade. Agora, listamos sua recepção ensaística em Português, do modo mais atualizado que nos foi possível.


1. AMORIM, Orlando Nunes de. À Luz do Mar Aceso: um estudo das relações entre memória individual e memória histórica em Sinais de Fogo, de Jorge de Sena. São Paulo, USP, 2002. (Tese de Doutorado)

2. AMORIM, Orlando Nunes de. A polifonia nos Sinais de fogo, de Jorge de Sena. In: GOBBI, Márcia Valéria Zamboni et alii, org. Intelectuais portugueses e a cultura brasileira. Bauru/São Paulo, EDUSC/UNESP, 2002

3. AMORIM, Orlando Nunes de. Sinais de uma guerra: trauma e crise histórica em Sinais de fogo, de Jorge de Sena. Terra Roxa e Outras Terras, Londrina, PR, v. 6, 2005.

4. AMORIM, Orlando Nunes de. O desvio autobiográfico em Sinais de Fogo de Jorge de Sena. In: NIGRO, C. M. C.; BUSATO, S.; AMORIM, O. N.. (Org.). Literatura e representações do eu: impressões autobiográficas. São Paulo: Ed. UNESP, 2010.

5. CARVALHO, Jorge Vaz de. Sinais de Fogo de Jorge de Sena: Uma Poética da Formação. Lisboa, Universidade Católica Portuguesa, 2009 (em livro: Sinais de Fogo como romance de formação. Ed. Assírio e Alvim, 2011)

6. CARVALHO, Jorge Vaz de. Incipit vita nova: romance de formação em Dante Alighieri e Jorge de Sena. In: FAGUNDES, F. C. & LOURENÇO, J. F., org. Jorge de Sena – novas perspectivas, 30 anos depois. Lisboa, Univ. Católica, 2009

7. CARVALHO, Jorge Vaz de. Sinais de Fogo: metamorfose e epigenia. Metamorfoses nº 10.2. Rio de Janeiro/Lisboa, Cátedra Jorge de Sena/Caminho, 2010.

8. CIRURGIÃO, António. O nascimento do poeta em Sinais de Fogo de Jorge de Sena. In: FAGUNDES, Francisco Cota & ORNELAS, José N., org. Jorge de Sena. O homem que sempre foi. Lisboa, Min. da Cultura/ICALP, 1992

9. DIAS, Eduardo Mayone.A Presença da Espanha na Prosa Ficcional de Jorge de Sena. In: FAGUNDES, Francisco Cota & ORNELAS, José N. org. Jorge de Sena. O homem que sempre foi. Lisboa: Ministério da Cultura/ICALP; 1992

10. FERREIRA, Antonio Manuel. Sinais de cinza: derivas homoeróticas na obra de Jorge de Sena. In: FAGUNDES, F. C. & LOURENÇO, J. F., org. Jorge de Sena- novas perspectivas, 30 anos depois. Lisboa, Univ. Católica, 2009

11. GOBBI, Márcia Valéria Zamboni. "A encenação da história em Sinais de Fogo". Boletim do Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena, Araraquara, nº 13, p. 69-76, jan./jun. 1998. Repr. (versão revista e ampliada) em: GOBBI, M.V.Z. A ficcionalização da história: mito e paródia na narrativa portuguesa contemporânea. São Paulo: Editora Unesp, 2011. p. 203-215.

12. LEPECKI, Maria Lúcia. Jorge de Sena, Sinais de Fogo. Colóquio/Letras nº 60, Março de 1981, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1981.

13. LIMA, David do Vale. Sinais de um Testemunho: A Guerra Civil Espanhola e a prosa ficcional de Jorge de Sena. Rio de Janeiro, UFRJ, 1996 (Dissertação de Mestrado)

14. LOURENÇO, Eduardo. Sinais de Fogo: a invenção de um poeta. Arquivos do Centro Cultural Português, XXV, Paris; 1988

15. LOURENÇO, Jorge Fazenda. Jorge de Sena e a Guerra Civil de Espanha. In: LOURENÇO, Jorge Fazenda & VIEIRA, Inês Espada (org.). Guerra Civil de Espanha: cruzando fronteiras 70 anos depois, Lisboa, Univ. Católica Editora; 2007

16. LOURENÇO, Jorge Fazenda. Como se faz um poeta? Sobre Sinais de Fogo como Bildungsroman e uma referência a Orfeu. Relâmpago, Revista de Poesia nº 21. Lisboa, Fundação Luís Miguel Nava; Outubro de 2007

17. MARTINS GARCIA, José. A violência da nossa brandura (sobre Sinais de Fogo, de Jorge de Sena). Sílex 7, 1982.

18. MOLDER, Maria Filomena. Entre duas águas: sobre Sinais de Fogo de Jorge de Sena. In: BUESCU, Helena et alii, org. Floresta Encantada: Novos Caminhos da Literatura Comparada. Lisboa, Dom Quixote, 2001.

19. NASCIMENTO, Flávia. O poeta expulso da República: prenúncios e rastros da História em Sinais de Fogo, de Jorge de Sena. Metamorfoses nº 7. Rio de Janeiro/Lisboa, Cátedra Jorge de Sena/Caminho, 2006

20. NASCIMENTO, Flávia. Poiesis e auto-poiesis em Sinais de Fogo, de Jorge de Sena. Scripta nº 19, Belo Horizonte, PUC/CESPUC, 2006

21. NEVES, Margarida Braga. "Sinais de Fogo ou a transformação em processo", Les Langues Néo-Latines, supplément au nº 327, Décembre 2003, pp. 153-168.

22. REBELO, Luís de Sousa. Sinais de Fogo de Jorge de Sena, ou os exorcismos da memória. Quaderni portoghesi nº 13-14. Pisa, Giardini editori e stampatori; Primavera-Autunno 1983.

23. REBELO, Luís de Sousa. Recensão crítica de Sinais de Fogo na Enciclopédia Britânica. In: LISBOA, Eugénio, org. Estudos sobre Jorge de Sena. Lisboa, IN-CM, 1984.

24. SANTOS, Gilda. Sinais de Fogo: do livro ao filme. In: GOBBI, Márcia Valéria Zamboni et alii, org. Intelectuais portugueses e a cultura brasileira. Bauru/São Paulo, EDUSC/UNESP, 2002. Rep. em Mealibra nº 13. Viana do Castelo, Centro Cultural do Alto Minho, inverno 2003/2004.

25. SARAIVA, Arnaldo. História de um Romance (Im)perfeito. In: SENA, Jorge. Sinais de Fogo. Lisboa: Edições 70; 1979.

26. SEDLMAYER, Sabrina. Sinais de fogo, aviso de incêndio – ideias estéticas, históricas e literárias em Jorge de Sena e Walter Benjamin. Revista Literatura e Autoritarismo (Dossiê Walter Benjamin e a Literatura Brasileira). Santa Maria, Universidade Federal de Santa Maria/RS. Disponível em http://w3.ufsm.br/grpesqla/revista/dossie05/art_02.php

27. SEIXO, Maria Alzira. Interferências genológicas na obra de Jorge de Sena. In: —. A palavra do romance: ensaios de genologia e análise. Lisboa, Livros Horizonte, 1986.

28. SENA, Mécia de. Introdução. In: SENA, Jorge. Sinais de Fogo – todas as edições, a partir da 3ª. (1985)

29. SIMÕES, João Gaspar. O romance de Jorge de Sena. In: LISBOA, Eugénio, org. Estudos sobre Jorge de Sena. Lisboa, IN-CM, 1984.

Jorge de Sena na Colóquio/Letras

Criada em 1971, a revista   Colóquio-Letras   — de inquestionável importância e prestígio no cenário da cultura lusófona — desde os primeiros números vem acolhendo Jorge de Sena em suas páginas, seja em ensaios, recensões ou diversificadas referências, que formam precioso fundo de pesquisa. Visando a agilizar a consulta, e, simultaneamente, a fornecer uma visão de conjunto das múltiplas abordagens, listam-se a seguir esses textos (com os respectivos links). Assim, registramos também nosso reconhecimento à Fundação Calouste Gulbenkian, que, por vários meios, sempre apoiou Jorge de Sena e tudo a ele relacionado.

 

 

 

Textos de Jorge de Sena publicados na   Colóquio-Letras  :

1. “«Vanguarda ideológica» e «vanguarda literária»” / Jorge de Sena. In: Revista Colóquio/Letras. Inquérito, n.º 23, Jan. 1975, p. 19-20.
2. “O significado histórico do Orpheu (1915-1975)” / Jorge de Sena. In: Revista Colóquio/Letras. Inquérito, n.º 26, Jul. 1975, p. 12-17.
3. “Algumas palavras sobre o realismo, em especial o português e o brasileiro” / Jorge de Sena. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 31, Maio 1976, p. 5-13.
4. “[Carta de 12-5-1942 (para Ruy Cinatti)]” / Jorge de Sena. In: Uma carta de Jorge de Sena a Ruy Cinatti / Mécia de Sena. Documento, n.º 80, Jul. 1984.
5. “[«Da virtualidade poética à sua expressão»]” / Jorge de Sena. In: Um inédito de Jorge de Sena / Acerca de um «ensaio sobre o Kim» / Mécia de Sena. Documento, n.º 90, Mar. 1986.
6. “[Carta de 16-2-1976 (para Arquimedes da Silva Santos)]” / Jorge de Sena. In: Uma carta de Jorge de Sena para Arquimedes da Silva Santos / Mécia de Sena. Documento, n.º 97, Maio 1987.
7. “[Carta de 28-9-1955 (para Rachel Bastos)]” / Jorge de Sena. In: Homenagem a Jorge de Sena / Três cartas inéditas de Jorge de Sena / Mécia de Sena. Documento, n.º 104/105, Jul. 1988.
8. “[Carta de 13-6-1957 (para José Osório de Oliveira)]” / Jorge de Sena. In: Homenagem a Jorge de Sena / Três cartas inéditas de Jorge de Sena / Mécia de Sena. Documento, n.º 104/105, Jul. 1988.
9. “[Carta de 9-2-1958 (para José Osório de Oliveira)]” / Jorge de Sena. In: Homenagem a Jorge de Sena / Três cartas inéditas de Jorge de Sena / Mécia de Sena. Documento, n.º 104/105, Jul. 1988.
10. “«Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,» (manuscrito) [fac-símile]” / Jorge de Sena. In: Homenagem a Jorge de Sena / Jorge de Sena: a pirâmide no inverso. Projecto de construção / Luís F. Adriano Carlos. Ilustração, n.º 104/105, Jul. 1988, p. 7.
11. “[Carta de 24-10-1942 (para José Blanc de Portugal)]” / Jorge de Sena. In: Nos 80 anos de José Blanc de Portugal. Cartas inéditas de Jorge de Sena/José Blanc de Portugal. Acera de uma grande amizade / Mécia de Sena. Documento, n.º 132/133, Abr. 1994.
12. “[Carta de 8-11-1942 (para José Blanc de Portugal)]” / Jorge de Sena. In: Nos 80 anos de José Blanc de Portugal. Cartas inéditas de Jorge de Sena/José Blanc de Portugal. Acerca de uma grande amizade / Mécia de Sena. Documento, n.º 132/133, Abr. 1994.

 

Textos sobre Jorge de Sena e recensões críticas à sua obra:

1. “Jorge de Sena e os números de «Os Lusíadas»” / Maria Vitalina Leal de Matos. In: Revista Colóquio/Letras. Notas e Comentários, n.º 5, Jan. 1972, p. 58-63.
2. “Jorge de Sena e a arte de traduzir [crítica a ‘Poesia de 26 séculos: De Arquíloco a Calderón‘, de Jorge de Sena; ‘Poesia de 26 Séculos: De Bashô a Nietzsche‘, de Jorge de Sena]” / Luís de Sousa Rebelo. In: Revista Colóquio/Letras. Notas e Comentários, n.º 11, Jan. 1973, p. 56-60.
3. “[Recensão crítica a ‘Exorcismos‘, de Jorge de Sena]” / Vasco Miranda. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 14, Jul. 1973, p. 77-78.
4. “[Recensão crítica a ‘Conheço o Sal… e Outros Poemas‘, de Jorge de Sena]” / João Barrento. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 23, Jan. 1975, p. 77-78.
5. “[Recensão crítica a ‘Francisco de la Torre e D. João de Almeida‘, de Jorge de Sena]” / José Ares Montes. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 32, Jul. 1976, p. 96-97.
6. “[Recensão crítica a ‘Esorcismi. Antologia poetica‘, de Jorge de Sena]” / Fernando Guimarães. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 33, Set. 1976, p. 93.
7. “[Recensão crítica a ‘Os Grão-Capitães‘, de Jorge de Sena]” / Maria Lúcia Lepecki. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 37, Maio 1977, p. 83-85.
8. “Breve enquadramento da poesia de Jorge de Sena” / Fernando J. B. Martinho. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 37, Maio 1977, p. 5-12.
9. “[Recensão crítica a ‘Régio, Casais, a «presença» e outros afins‘, de Jorge de Sena]” / Eugénio Lisboa. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 43, Maio 1978, p. 87-89.
10. “[Recensão crítica a ‘O Físico Prodigioso‘, de Jorge de Sena]” / Duarte Faria. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 44, Jul. 1978, p. 84.
11. “Na morte de Jorge de Sena” / José-Augusto França. In: Revista Colóquio/Letras. Homenagem, n.º 44, Jul. 1978, p. 60-62.
12. “A literatura teatral nos últimos cinco anos” / Luiz Francisco Rebello. In: Revista Colóquio/Letras. Inquérito, n.º 46, Nov. 1978, p. 55-56.
13. “[Recensão crítica a ‘O Reino da Estupidez – II‘, de Jorge de Sena]” / João Palma-Ferreira. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 48, Mar. 1979, p. 84-85.
14. “Um breve livro” / Fiama Hasse Pais Brandão. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 51, Set. 1979, p. 8-14.
15. “[Recensão crítica a ‘Quarenta Anos de Servidão‘, de Jorge de Sena]” / Fernando Guimarães. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 56, Jul. 1980, p. 71-72.
16. “[Recensão crítica a ‘Oitenta Poemas de Emily Dickinson‘, de Jorge de Sena]” / João Almeida Flor. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 58, Nov. 1980, p. 79.
17. “[Recensão crítica a ‘Sinais de Fogo‘, de Jorge de Sena]” / Maria Lúcia Lepecki. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 60, Mar. 1981, p. 81-82.
18. “[Recensão crítica a ‘Sequências‘, de Jorge de Sena]” / José Bento. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 67, Maio 1982, p. 89-90.
19. “O teatro de Jorge de Sena” / Eugénio Lisboa. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 67, Maio 1982, p. 35-43.
20. “As evidências de Eros” / Eduardo Lourenço. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 67, Maio 1982, p. 5-13.
21. “Leituras na poesia de Jorge de Sena” / Fernando J. B. Martinho. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 67, Maio 1982, p. 14-25.
22. “Jorge de Sena, camonista” / Vítor Manuel de Aguiar e Silva. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 67, Maio 1982, p. 45-52.
23. “Panorama breve da ficção de Jorge de Sena” / Alexandre Pinheiro Torres. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 67, Maio 1982, p. 26-34.
24. “Sena : o primeiro volume da «Correspondência» [crítica a ‘Correspondência I. Jorge de Sena/Guilherme de Castilho’, de Jorge de Sena]” / Eugénio Lisboa. In: Revista Colóquio/Letras. Notas e Comentários, n.º 71, Jan. 1983, p. 72-75.
25. “[Recensão crítica a ‘Estudos de Literatura Portuguesa I’, de Jorge de Sena]” / Ofélia Paiva Monteiro. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 73, Maio 1983, p. 88-89.
26. “[Recensão crítica a ‘Fernando Pessoa e C.ª Heterónima‘, de Jorge de Sena]” / Carlos Felipe Moisés. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 75, Set. 1983, p. 103.
27. “[Recensão crítica a ‘A Poesia de Teixeira de Pascoaes‘, de Jorge de Sena]” / Albano Nogueira. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 75, Set. 1983, p. 96-97.
28. “[Recensão crítica a ‘Visão Perpétua‘, de Jorge de Sena]” / Fernando J. B. Martinho. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 81, Set. 1984, p. 78-79.
29. “[Recensão crítica a ‘Líricas Portuguesas’, de Jorge de Sena]” / Fernando Guimarães. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 82, Nov. 1984, p. 99-100.
30. “Obras de Jorge de Sena [crítica a ‘Trinta Anos de Poesia‘, de Jorge de Sena; ‘Uma Canção de Camões‘, de Jorge de Sena; ‘Fernando Pessoa & C.ª Heterónima‘, de Jorge de Sena; ‘O Reino da Estupidez‘, de Jorge de Sena; ‘Sinais de Fogo‘, de Jorge de Sena; ‘Os Grão-Capitães‘, de Jorge de Sena]” / Álvaro Salema. In: Revista Colóquio/Letras. Livros sobre a Mesa, n.º 86, Jul. 1985, p. 73.
31. “«Genesis» : os contos juvenis de Jorge de Sena [crítica a ‘Genesis‘, de Jorge de Sena]” / Carlo Vittorio Cattaneo. In: Revista Colóquio/Letras. Notas e Comentários, n.º 87, Set. 1985, p. 71-73.
32. “Interferências genológicas na obra de Jorge de Sena” / Maria Alzira Seixo. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 90, Mar. 1986, p. 57-62.
33. “Três antologias da poesia de Jorge de Sena [crítica a ‘Jorge de Sena. Antologia Crítica‘, de Eugénio Lisboa; ‘Trinta Anos de Poesia‘, de Jorge de Sena; ‘Poesia de Jorge de Sena‘, de Fátima Freitas Morna]” / Maria de Lourdes Belchior. In: Revista Colóquio/Letras. Notas e Comentários, n.º 91, Maio 1986, p. 59-63.
34. “Meios de transporte, amor e morte na poesia portuguesa contemporânea” / Eduardo Prado Coelho. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 92, Jul. 1986, p. 42-48.
35. “Jorge de Sena / José Régio: a correspondência [crítica a ‘Correspondência‘, de Jorge de Sena]” / Jorge Fazenda Lourenço. In: Revista Colóquio/Letras. Notas e Comentários, n.º 95, Jan. 1987, p. 106-108.
36. “Desejado teatro [crítica a ‘O Indesejado‘, de Jorge de Sena]” / J. A. Osório Mateus. In: Revista Colóquio/Letras. Livros sobre a Mesa, n.º 96, Mar. 1987, p. 100.
37. “Jorge de Sena por Carlo Vittorio Cattaneo, na publicação da edição italiana de «Metamorfoses» [crítica a ‘Metamorfosi‘, de Jorge de Sena]” / Jorge Fazenda Lourenço. In: Revista Colóquio/Letras. Notas e Comentários, n.º 98, Jul. 1987, p. 93-96.
38. “[Recensão crítica a ‘Inglaterra Revisitada‘, de Jorge de Sena]” / Albano Nogueira. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 99, Set. 1987, p. 119-121.
39. “Homenagem a Jorge de Sena / Jorge de Sena: a pirâmide no inverso. Projecto de construção” / Luís F. Adriano Carlos. In: Revista Colóquio/Letras. Homenagem, n.º 104/105, Jul. 1988, p. 5-14.
40. “[Recensão crítica a ‘Correspondência‘, de Jorge de Sena]” / Luís F. Adriano Carlos. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 104/105, Jul. 1988, p. 177-178.
41. “From love’s revenge to love’s reward : «Kama e o Génio» as antithesis of «O Físico Prodigioso»” / Francisco Cota Fagundes. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 109, Maio 1989, p. 17-24.
42. “[Recensão crítica a ‘Estudos de Literatura Portuguesa I‘, de Jorge de Sena; ‘Estudos de Literatura Portuguesa II‘, de Jorge de Sena]” / Silvina Rodrigues Lopes. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 109, Maio 1989, p. 130-131.
43. “[Recensão crítica a ‘Sobre Cinema‘, de Jorge de Sena]” / Joana de Matos Martinho. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 110/111, Jul. 1989, p. 163-164.
44. “Orgia de textos e oposições” / Joaquim de Montezuma de Carvalho. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 115/116, Maio 1990, p. 89-92.
45. “Inquisição : entre história e ficção na narrativa portuguesa” / Paulo Pereira. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 120, Abr. 1991, p. 117-123.
46. “[Recensão crítica a ‘Estudos de Cultura e Literatura Brasileira‘, de Jorge de Sena]” / Horácio Costa. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 121/122, Jul. 1991, p. 265-266.
47. “O ensaio teórico «à la» Jorge de Sena” / Onésimo Teotónio Almeida. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 125/126, Jul. 1992, p. 119-128.
48. “Quatro sonetos e um labirinto (acerca de Jorge de Sena)” / Luís F. Adriano Carlos. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 125/126, Jul. 1992, p. 97-104.
49. “[Recensão crítica a ‘Mater Imperialis‘, de Jorge de Sena]” / Luís F. Adriano Carlos. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 125/126, Jul. 1992, p. 301-303.
50. “«Post tenebras spero lucem» : texto-vida e alegoria em «O Físico Prodigioso» de Jorge de Sena” / Horácio Costa. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 125/126, Jul. 1992, p. 105-118.
51. “[Recensão crítica a ‘Maquiavel, Marx e Outros Estudos‘, de Jorge de Sena]” / Victor J. Mendes. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 140/141, Abr. 1996, p. 317-319.
52. “Um convite à efabulação : sobre «Monte Cativo e Outros Projectos de Ficção», de Jorge de Sena [crítica a ‘Monte Cativo e Outros Projectos de Ficção‘, de Jorge de Sena]” / Jorge Fazenda Lourenço. In: Revista Colóquio/Letras. Notas e Comentários, n.º 142, Out. 1996, p. 214-217.
53. “Poesia do modernismo [crítica a ‘Poesia do Século XX (De Thomas Hardy a C. V. Cattaneo)’, de Jorge de Sena]” / Jorge Fazenda Lourenço. In: Revista Colóquio/Letras. Livros sobre a Mesa, n.º 142, Out. 1996, p. 231.
54. “A esplenderosa ressonância de estar vivo : Jorge de Sena 1919-1978-1998” / Luís F. Adriano Carlos. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 147/148, Jan. 1998, p. 121-131.
55. “Fernando Pessoa e Jorge de Sena, segundo este último” / Victor J. Mendes. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 147/148, Jan. 1998, p. 132-149.
56. “Jorge de Sena : «meu diário feito poesia que o escrever poemas me é desde sempre»” / Gilda Santos. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 172, Set. 2009, p. 78-91.
57. “[Recensão crítica a ‘O Físico Prodigioso’, de Jorge de Sena]” / Maria Theresa Abelha Alves. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 175, Set. 2010, p. 193-195.
58. “[Recensão crítica a ‘Antologia Poética’, de Jorge de Sena]” / Luciana Salles. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 178, Set. 2011, p. 201-203.
59. “[Recensão crítica a ‘Rever Portugal. Textos Políticos a afins’, de Jorge de Sena]” / Gilda Santos. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 179, Jan. 2012, p. 269-272.
Recensões críticas a obras sobre Jorge de Sena:

1. “Sena e Pessoa [crítica a ‘Fernando Pessoa e Jorge de Sena’, de Arnaldo Saraiva]” / Jacinto do Prado Coelho. In: Revista Colóquio/Letras. Livros sobre a Mesa, n.º 67, Maio 1982, p. 85.
2. “[Recensão crítica a ‘The Poetry of Jorge de Sena’, de Frederick G. Williams]” / João Almeida Flor. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 67, Maio 1982, p. 91-92.
3. “[Recensão crítica a ‘O Código Científico-Cosmogónico-Metafísico de ‘Perseguição’ de Jorge de Sena’, de Alexandre Pinheiro Torres]” / Eugénio Lisboa. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 67, Maio 1982, p. 94-96.
4. “[Recensão crítica a ‘Studies on Jorge de Sena : a Colloquium’, de Harvey L. Sharrer]” / José-Augusto França. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 70, Nov. 1982, p. 95-96.
5. “Jorge de Sena e a crítica [crítica a ‘Estudos sobre Jorge de Sena’, de Eugénio Lisboa]” / Álvaro Salema. In: Revista Colóquio/Letras. Livros sobre a Mesa, n.º 82, Nov. 1984, p. 92.
6. “[Recensão crítica a ‘Jorge de Sena’, de Luciana Stegagno Picchio]” / Eugénio Lisboa. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 87, Set. 1985, p. 101-103.
7. “[Recensão crítica a ‘O Essencial sobre Jorge de Sena’, de Jorge Fazenda Lourenço]” / Luís F. Adriano Carlos. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 102, Mar. 1988, p. 129-130.
8. “[Recensão crítica a ‘Jorge de Sena e a Fidelidade ao Porto’, de Paulo Samuel]” / Ramiro Teixeira. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 121/122, Jul. 1991, p. 266.
9. “[Recensão crítica a ‘O Corpo e os Signos. Ensaios sobre «O Físico Prodigioso» de Jorge de Sena’, de Maria Alzira Seixo]” / Luís F. Adriano Carlos. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 125/126, Jul. 1992, p. 313-314.
10. “[Recensão crítica a ‘Uma Bibliografia Cronológica de Jorge de Sena (1939-1994)’, de Jorge Fazenda Lourenço]” / Gil de Carvalho. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 140/141, Abr. 1996, p. 335.
11. “Jorge de Sena em rotas entrecruzadas [crítica a ‘Jorge de Sena em Rotas Entrecruzadas’, de Gilda Santos]” / Margarida Braga Neves. In: Revista Colóquio/Letras. Notas e Comentários, n.º 157/158, Jul. 2000, p. 357-362.
12. “[Recensão crítica a ‘Linguagem e Ideologia. Uma Abordagem desde Almeida Garrett a Jorge de Sena’, de Fernando Guimarães]” / Fernando J. B. Martinho. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 159/160, Jan. 2002, p. 478-479.
13. “[Recensão crítica a ‘Metamorfoses do Amor. Estudos sobre a Ficção Breve de Jorge de Sena’, de Francisco Cota Fagundes]” / Margarida Braga Neves. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 159/160, Jan. 2002, p. 486-488.
14. “[Recensão crítica a ‘Jorge de Sena e Camões. Trinta Anos de Amor e Melancolia’, de Vítor Aguiar e Silva]” / Jorge Fazenda Lourenço. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 175, Set. 2010, p. 211-214.
15. “[Recensão crítica a ‘Jorge de Sena : ‘Sinais de Fogo’ como Romance de Formação’, de Jorge Vaz de Carvalho]” / Orlando Nunes de Amorim. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 178, Set. 2011, p. 254-260.

Novos Estudos em Livro: Portugal como (Im)possibilidade continuada (abril/2011)

De Maria Otília Pereira Lage

Deve-se à Ed. Afrontamento, do Porto, a mais recente publicação em livro a focalizar Jorge de Sena: Portugal como (Im)possibilidade continuada: Cidadania e Exílios (1930-1970). "À conversa" com Jorge de Sena. Trata-se do resultado de extensa investigação de Pós-Doutoramento, na área de estudos sociais e históricos, da Professora Doutora Maria Otília Pereira Lage. Eis a apresentação que se lê na contracapa:

"… Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem..." é o conhecido verso seniano que, problematizando um dos principais constructos históricos modernos, a nacionalidade, concentra e antecipa o processo de conhecimento que a autora se propôs levar a cabo. Este estudo mobiliza a relevância singular da poliédrica vida-obra de Jorge de Sena, na sua trama polifacetada de poeta, romancista, contista, dramaturgo, ensaísta, crítico e tradutor, com a qual se estabelece aqui um diálogo metafórico, privilegiando as relações entre história e literatura na compreensão sócio-histórica da contemporaneidade portuguesa. Em causa estão fundamentalmente as relações entre o literário e o social, a função que a sociedade atribui à literatura e o papel que esta última admite aí representar. Assim, o livro é também uma viagem por representações político-sociais e culturais da nossa história recente, tornada visível por Jorge de Sena, "cidadão do mundo", em seu ideal emancipatório de escritor e intelectual de vanguarda, onde temas como humanidade, fidelidade, utopia, cidadania, desencanto, amargura, exílio, ironia e, naturalmente, Portugal são recorrentes. Com um enfoque na materialidade do texto e na corporeidade do leitor potencial, socioculturalmente construída, este livro torna possível, em hipotéticas leituras do texto, pensar a literatura comprometida no seu sentido de transformação radical a partir de um modo peculiar de denúncia constante da repressão, da censura, da mesquinhez e do autoritarismo instalados pelo regime salazarista.

 


 

Novas Edições e Novas Obras: tradução e correspondência (abril/2011)

Pela Guimarães Editores

Encerramos 2010 com mais duas ótimas notícias no que diz respeito à edição de obras de Jorge de Sena. Dando prosseguimento ao projeto de publicação das Obras Completas do autor, a Guimarães Editores acaba de (re-)lançar o volume 80 Poemas de Emily Dickinson, um belo encontro entre a poetisa norteamericana e o poeta português, num livro que, esgotado há muitos anos, é um bom exemplo de uma das vertentes da produção seniana: a do tradutor.  Ao mesmo tempo, a Guerra & Paz – editora que já havia publicado a correspondência de Jorge de Sena e Sophia de Melo Breyner Andresen (já em sua 3a. edição) – lança a correspondência até então inédita entre Jorge de Sena e Raul Leal, um dos menos conhecidos colaboradores de Orpheu.

De acordo com Jorge Fazenda Lourenço, em depoimento registrado no site da editora, «Esta breve, mas intensa, correspondência vem recordar Raul Leal como uma das grandes figuras do nosso modernismo. As suas cartas, dominadas por um êxtase de linguagem, chamam a atenção para aquele veio ocultista, esotérico, que foi uma das matrizes dos poetas da Orpheu, na continuidade de algum simbolismo e decadentismo finissecular. Quanto a Jorge de Sena, esta correspondência vem mostrar, uma vez mais, a importância do seu trabalho de mediação, feito pelo convívio e admiração crítica, na afirmação de uma plêiade de poetas que ousaram ser modernos em Portugal.» Em suas 136 páginas, Jorge de Sena / Raul Leal: Correspondência 1957-1960 traz 19 cartas de Raul Leal, seis de Jorge de Sena e ainda uma introdução de Mécia de Sena e prefácio de José Augusto Seabra, que afirma: «A publicação da correspondência de Raul Leal e Jorge de Sena […] constitui um alto acontecimento cultural, para além de uma justa homenagem, como ela [Mécia de Sena] belissimamente escreve, a um grande espírito de fidalga e inesquecível presença.»

Novas Edições e Novas Obras: reedições de Jorge Fazenda Lourenço (dezembro/2011)

Acaba de chegar às livrarias uma "nova" antologia de poemas de Jorge de Sena, organizada e prefaciada por Jorge Fazenda Lourenço. Trata-se, na verdade, de uma reprodução – com algumas alterações – da antologia publicada pela editora ASA em 1999, esgotada há tempos. Publicada pela Guimarães Editores, a Antologia Poética de Jorge de Sena é uma seleção de 168 poemas (dentre os 1600 que constituem a poesia seniana), em uma edição de 130 páginas com capa dura. Faz parte da coleção "Obras Completas de Jorge de Sena", lançada pela editora, que define o volume como "uma das mais belas e importantes antologias da Poesia mundial do século xx".

Ao mesmo tempo, a Guerra e Paz lança uma reedição de A Poesia de Jorge de Sena. Testemunho, Metamorfose, Peregrinação, tese de doutoramento de Jorge Fazenda Lourenço, defendida em 1993 e publicada em livro em 1998. O longo ensaio de Fazenda Lourenço é um dos mais completos estudos dedicados à poesia de Jorge de Sena e sua reedição, bem como a de sua antologia, é uma enorme contribuição àqueles que se interessam pela obra de Sena. A julgar pelo interesse editorial, somos muitos os leitores; que as novas publicações nos tornem cada vez mais numerosos.

Novos Estudos em Livro: Sinais de Fogo como romance de formação (dezembro/2011)

De Jorge Vaz de Carvalho

Acaba de sair, pela Assírio & Alvim, o livro Jorge de Sena: Sinais de Fogo como romance de formação, fruto da tese de doutorado de Jorge Vaz de Carvalho, originalmente intitulada Jorge de Sena: Uma poética da Formação e tendo Jorge Fazenda Lourenço como orientador. O volume de 448 páginas vem preencher um vazio nos estudos senianos, como aponta o autor em sua Introdução: «De toda a criação literária de Sena, a menos favorecida comparativamente pela investigação é o romance único e inacabado Sinais de Fogo. Embora haja sobre ele estudos parciais, faltava, sem dúvida, um trabalho mais volumoso e profundo sobre este que consideramos um dos mais notáveis romances da literatura em língua portuguesa.»

Fazenda Lourenço, em seu prefácio à obra, afirma que «a partir de agora, não é mais possível ler e estudar Sinais de Fogo, ou mesmo abordar alguns aspectos da obra multímoda de Jorge de Sena, e em especial a questão fulcral do erotismo, sem fazer referência a esta investigação de Jorge Vaz de Carvalho, que veio suprir uma lacuna imensa no estudo e na recepção de um dos romances fundamentais do século XX.»

Mais recente "doutor em Jorge de Sena", como noticiamos aqui há alguns meses, Jorge Vaz de Carvalho, atualmente na FCH da Universidade Católica, além de docente e investigador no Centro de Estudos de Comunicação e Cultura, é o Diretor Científico da nova área de Estudos Artísticos — tudo isto, sem abandonar a música e a carreira operática que abraçou em 1984.
 

Novas Edições e Novas Obras: Poemas Selecionados e Rever Portugal (dezembro/2011)

A obra editada de Jorge de Sena acaba de receber dois novos acréscimos. O primeiro, lançado pela Companhia Nacional de Música, é Jorge de Sena: Poemas Seleccionados e Ditos pelo Autor, uma antologia publicada na forma de audio book. Reedição do disco publicado pela Divisão do Disco Falado da Editora Sassetti na década de 70, a partir de gravação realizada nos estúdios da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, o CD contém 20 poemas:

1. Felicidade
2. Humanidade
3. Ode Para o Futuro
4. Glosa à Chegada do Inverno
5. Ó Doce Perspicácia
6. As Evidências-Soneto XI
7. Epígrafe Para a Arte de Furtar
8. A Paz-I,II,III,IV,V
9. Quem a Tem
10. Uma Pequenina Luz
11. Como Queiras Amor…
12. Camões Dirige-se…
13. Anósia
14. Requiem de Mozart-I,II,III,IV
15. Missa Solene de Beethoven
16. Sonetos da Visão Perpétua I,VII
17. Os Ossos do Imperador
18. Madrugada
19. Tu és Terra…
20. Conheço o Sal…
A segunda novidade, lançada pela Guimarães, é Rever Portugal, edição dos textos políticos de Jorge de Sena, escritos entre 1959 e 1978. O volume de 476 páginas apresenta, segundo as palavras de Jorge Fazenda Lourenço na contracapa, as reflexões de Jorge de Sena sobre temas como “a questão colonial, a unidade no combate à ditadura, a reavaliação da herança republicana, a afirmação de um imaginário simbólico e cultural fora do estreito nacionalismo colonialista, a definição de uma identidade portuguesa pós-colonial, o papel dos intelectuais antes e depois do 25 de Abril”. Os textos escritos por Sena ao longo de seus anos de exílio, constituem uma revisão crítica de Portugal e sua história recente, observada sempre pelo olhar atento do humanista apaixonado pela liberdade.

Novos Estudos em Livro: Poesia e arquitetura em Jorge de Sena (julho/2012)

Lançamento recente da Assírio & Alvim, Corpo Arquitectura Poema – Leituras inter-artes na poesia de Jorge de Sena, de Jorge Fazenda Lourenço e João Borges da Cunha, é a mais nova publicação acerca da poesia seniana e suas relações com outras artes. Reproduzimos aqui a sinopse de divulgação da editora:

Estas duas leituras de dois poemas de Jorge de Sena nas suas relações com a arquitectura resultam de um seminário sobre Literatura e Outras Artes. Os textos foram apresentados publicamente numa dupla palestra, «Da arquitectura dos corpos aos corpos da arquitectura», realizada no âmbito das actividades científicas do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura daquela Faculdade, no dia 10 de Dezembro de 2010. Como lembra Bruno Zevi, «a arquitectura é como uma grande escultura escavada, em cujo interior o homem penetra e caminha».

Novas Edições e Novas Obras: Jorge de Sena e Delfim Santos (outubro/2012)

Jorge de Sena e Delfim Santos: Correspondência 1943-1959, apresenta a amizade entre os dois intelectuais, documentada através das cartas organizadas e anotadas por Filipe Delfim Santos. O volume de 127 páginas, recém-publicado pela editora Guerra & Paz, conta ainda com uma nota complementar de José-Augusto França e comentário introdutório de Mécia de Sena. 

Novas Edições e Novas Obras: América, América (julho/2012)

Nas palavras de Jorge Fazenda Lourenço, "América, América reúne textos escritos por Jorge de Sena, entre 1968 e 1978, sobre a vida política e cultural dos Estados Unidos, e, de um modo mais testemunhal, sobre a sua experiência americana. O título procura fazer pendant com a série de poemas «América, América, I love you», de Sequências. Sob alguns aspectos, esta obra é o prolongamento complementar dos textos políticos e afins reunidos em Rever Portugal, volume anterior das suas Obras Completas, nomeadamente no que respeita à questão da diáspora portuguesa, na sua dupla feição de emigração (ou imigração) e exílio.

O ensino da língua portuguesa e os estudos portugueses nos Estados Unidos, quer quanto à (pouca) visibilidade oficial que lhes é dada, quer quanto à procura de articulações entre as universidades e as comunidades luso-americanas, são também objecto de uma atenção especial.
Esta obra inclui o último texto escrito por Jorge de Sena."

Novas Edições e Novas Obras: Jorge de Sena e António Ramos Rosa (outubro/2012)

A editora Babel acaba de lançar mais um volume da correspondência de Jorge de Sena: Correspondência 1952-1971
de Jorge de Sena e António Ramos Rosa.
O diálogo entre os poetas, até então inédito, inaugura um projeto de publicação em série da correspondência seniana, como sugere a nota de divulgação da editora:  

"Em paralelo com a edição das Obras Completas de Jorge de Sena, surge agora uma colecção dedicada à sua vasta e diversa Correspondência, cuja publicação é fulcral para o entendimento da sua obra, e da obra dos seus correspondentes, bem como para o conhecimento da vida cultural portuguesa da segunda metade do século XX. E não podia ser inaugurada da melhor forma, com a inteligência e o afecto de dois poetas: António Ramos Rosa e Jorge de Sena." – in Nota Editorial (Jorge Fazenda Lourenço)

Puigmal

Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal já era célebre, quando, por fusão de duas turmas, passou a ser meu colega no 6° ano dos liceus. É assim que começa Sinais de Fogo de Jorge de Sena, dando entrada a uma personagem que, não obstante ser secundária, ganha um estatuto de centralidade nas duas primeiras páginas do romance, empurrando, aí, para um segundo plano o narrador auto-diegético cujo nome só conheceremos mais tarde na obra.

Se pelos primeiros parágrafos um livro ganha ou perde os seus leitores, o extraordinário descendente dos condes de Barcelona joga e ganha. Fabulosa figura de insolentes frases e actividades alegadamente científicas que visam comunicar com as almas penadas, fotografar a alma dos gafanhotos no seu trânsito final e a manufactura de uma pomada que confira a hímen uma elasticidade perene e impeça a sua ruptura, Puigmal é personagem fundamental no tom teatral e mimético que o narrador imprime ao início do romance, quando aquele tenta convencer o professor de Filosofia, um pobre diabo de intelecto amachucado, da existência de alma em todos os seres vivos.

— Quais regras da ciência? – E ele, entreabrindo os lábios finos que nunca se sabia quando sorriam ou se apertavam de contrariedade, respondeu: — A observação e a experimentação. — Ah, muito bem, e como foi que o senhor observou e experimentou a alma dos animais? — Como, senhor doutor? Pessoalmente –. E foi uma gargalhada geral. Ficou imperturbável. — Pessoalmente? – repetiu o professor. — Sim senhor. Fotografando a morte de um gafanhoto – Nova gargalhada. — Um gafanhoto? E o que deu a fotografia? – continuou o professor como que desperto da sua sonolência costumeira. — A fotografia, senhor doutor, foi tirada por um irmão meu, enquanto eu matava o gafanhoto. Mas de modo que se visse a alma passar. E, nela, vê-se nitidamente a alma subindo ao céu. – (…) — Essa é boa, snr. Puigmal, essa é muito boa. Subindo ao céu? Ah, ah, ah. E como subia ela? — Em espiral, snr. Doutor –

A construção do diálogo faz lembrar a maiêutica socrática, exposta por Platão no Teeteto, só que aqui, por força do carácter quase burlesco de que os dois interlocutores se revestem, não é revelada a verdade mas apenas a imensa pesporrência de Puigmal. É também com ele que entram no texto as referências às tensões que antecedem a Guerra Civil espanhola, embora essa alusão surja nimbada de humor porquanto é feita quando Puigmal conta o seu encontro com os separatistas catalães, separatismo em que ele, Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal, único descendente dos condes de Barcelona, está naturalmente interessado.

Sinais de Fogo, para mim um dos grandes romances do séc XX português, tem uma miríade de motivos para convocar novas leituras e novos leitores. Puigmal é a mais divertida de todas.

02/01/2013