Situação da Literatura Portuguesa no Brasil

No Brasil, o 15 de outubro é "Dia do Professor". Assinalando a data, considerações de Jorge de Sena sobre o ensino da Literatura Portuguesa no Brasil, escritas pouco depois de ter concluído sua experiência docente no Brasil, sempre à frente dessa disciplina. "Este artigo é constituído por alguns excertos da comunicação apresentada no VI Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, reunido em Harvard, em setembro de 1966" — avisa a nota do autor no número especial dedicado ao Brasil da revista O Tempo e o Modo, de setembro de 1967, onde foi primeiramente publicado. À distância de quase 50 anos, é o caso de se refletir sobre o que permanece pertinente no seu conteúdo, ou deixou de sê-lo nos dias de hoje — reflexão também muito apropriada no contexto das celebrações do "Ano de Portugal no Brasil" e do "Ano do Brasil em Portugal", já em curso.


Introdução — O problema de discutir-se a situação actual de uma literatura, dos estudos sobre ela, e das perspectivas futuras dela e desses estudos, complica-se especialmente quando, como é o caso da Literatura Portuguesa, ela importa não apenas a si mesma e a quem, por qualquer razão de preferência cultural, por ela se interesse, mas também a outros países que, separados, ontem ou no futuro, da área de expansão política da língua em que ela foi escrita e que ela foi formando e subtilizando, a possuem, em suas culturas, e queiram-no ou não, como passado escrito da língua que falam e escrevem. A língua inglesa, a espanhola, a francesa, entre as línguas do ocidente europeu, repartem com a portuguesa uma semelhante situação. Mas talvez para nenhuma a dificuldade dos problemas que dessa situação surgem seja tão complexa como para a Literatura Portuguesa.

As razões disto são diversas, e por certo muito poucas delas correspondem às ilusões oficiais da cultura portuguesa. Para tratarmos da questão, é-nos forçoso examinar estas últimas, serenamente, e na esperança de que uma lucidez serena substitua, no espírito dos portugueses que nos ouçam ou nos leiam, a cega obstinação com que, mesmo muitos dos melhores, encaram o que, longe de ser uma discussão académica, é e será cada vez mais uma problemática vital.

Ao contrário do que acontece com as línguas que referimos, a língua portuguesa não tem ainda, no mundo de hoje, um prestígio comparável ao delas. E não pode dizer-se, em boa consciência, que, se, como tudo indica, vier a tê-lo, a literatura portuguesa represente, nessa transformação, algum papel de relevo. É secundário, neste ponto, inquirir sobre se isso é ou não uma injustiça — porque é um facto. A importância que a língua portuguesa está adquirindo no mundo está em directa razão com a do Brasil, como potência e como cultura, e com a curiosidade desperta e difundida acerca dos territórios ultramarinos de Portugal. Se a explosão demográfica do Brasil, por um lado, e uma manutenção . da língua portuguesa como língua nacional daqueles territórios, se unirem no futuro para levar o português ao lugar de uma das quatro primeiras línguas do mundo, em sua expansão falada e escrita, a Literatura Portuguesa, caso venha a captar as atenções dos estudiosos, captá-las-á, sempre e mais, pelo seu passado que pelo seu presente. E, necessariamente, mais como um passado arqueológico da língua, do que como uma fonte para investigação das raízes históricas das diversificações da linguística portuguesa, enquanto não estiverem mortas e sepultas as amarguras políticas e as frustrações psicológicas (para não referirmos os oportunismos que com elas jogam) que presidiram, no passado e no presente, à expansão imperial de uma língua que nunca se fez acompanhar da radicação de instrumentos de cultura.

Portugal não teve nunca, por razões óbvias de limitação de poder e de escala europeia, a projecção cultural da França. Não constituiu nunca, e pelas mesmas razões, um dinâmico império, como a Inglaterra; nem o Brasil é, ou será por muitos anos ainda, uns outros Estados Unidos da América. Portugal, segregado, pelo seu destino de ser nação, do complexo hispânico, não participou, nem participa, da glória da cultura espanhola, ao lado da qual é o responsável pela América Latina. Não foi uma Itália, imagem mítica da unidade imperial romana. E não se germanizou o suficiente, no passado longínquo (como à própria Espanha aconteceu mais intensamente em vários momentos da sua História), para colher algum reflexo do prestígio romântico da Alemanha. E, não tendo sido nunca suficientemente invadido, pelo menos para as imaginações euro-americanas racistamente germânicas, por escandinavos e normandos, também por este lado ficou de fora do ciclo de formação comum das nações europeias nórdicas. No século XV e no século XVI, Portugal deu início à expansão ultramarina da Europa, e criou um vasto império, de cuja importância os restos ainda existentes serão testemunho bastante. Mas, ao que parece, fê-lo mais como intermediário que como detentor das bases económicas de uma tal expansão — e será por isso que é fácil, aos outros historiadores europeus, descendentes das civilizações que forneceram os créditos e recolheram os lucros, ignorar aqueles mesmos que criaram uma riqueza que em verdade não gozaram nunca (salvo uns quantos privilegiados), e não tiveram os meios de estabelecer-se em parte alguma com a mesma solidez cultural com que a Espanha ou Inglaterra puderam e souberam fazê-lo. Não os tiveram — ou as suas classes dirigentes foram sempre incapazes de raciocinar à escala universal em que pretendiam viver.

É ocioso repetr que, todavia, Portugal fez o Brasil. Sejam quais forem as medidas positivas que a administração portuguesa, em determinados momentos, pôs em execução, com maior ou menor sabedoria, e contribuíram para dar uma forma e um ser ao Brasil, seja qual for o peso que, em quatro séculos, a imigração portuguesa teve em fornecer a base principal da população brasileira, a triste e dura verdade é que o Brasil, aquém e além das saudações académicas e oficiais, não tem por Portugal o respeito e o amor que, ainda que muito contraditoriamente alimentados de queixas e recriminações, nutrem pela Inglaterra, os Estados Unidos da América do Norte, ou pela Espanha os países americanos de língua castelhana. Ainda quando o Brasil reconheça o interesse, para os seus estudos de língua e de cultura nacionais, de uma ampla presença de estudos de literatura portuguesa nos currículos superiores de Letras, como recentemente reconheceu, não obstante essa presença é muito mais sentida como uma indispensável necessidade curricular, que desejada como o convívio com uma outra área da mesma língua, que não só é a originária mas também de paralela e interpenetrada evolução. E a essa presença curricular não corresponde, na vida intelectual do Brasil, realidade quotidiana alguma. Se a presença da literatura inglesa nos Estados Unidos chega a parecer a um estrangeiro excessiva, nada de semelhante sucede no Brasil — e podemos mesmo afirmar que nada de semelhante ao que sucede em Portugal com a literatura brasileira. A cultura do Brasil em Portugal, todavia, está oficialmente na mesma posição que é a da cultura portuguesa entre os intelectuais e o público brasi leiros. Em Portugal, em que pese aos que proclamam de estudos universitários brasileiros, a literatura viva do Brasil existe fora dos círculos oficiais e universitários, exactamente ao contrário do que no Brasil acontece. E isto é extremamente significativo da situação real.

Este estado de coisas agrava-se por causas extrínsecas, onde e quando se desenvolve, como nos Estados Unidos agora, um grande interesse pelo Brasil. Não é de hoje, no Brasil ou fora dele, a existência de um, digamos, «americanismo» que, explorando os sentimentos anti-portugueses de muitos brasileiros, procura segregá-los, e à cultura brasileira, de quaisquer raízes europeias, a coberto de torná-los livres da herança colonial portuguesa. Nem sequer não é de hoje apenas no Brasil, por quanto o fenómeno se tem verificado, em diversas oportunidades, noutros países latino-americanos. Há evidentemente razoes politicas e sócio-económicas para isto: um país economicamen e subdesenvolvida que seja segregado do conhecimento das suas raízes e miticamente identificado com uma unidade das Américas, entrega-se mais prontamente a uma sujeição politico-economico a ciualquer grande potência continental. E isso acontece por um curioso processo psico-social: segregado facilmente daquela raiz europeia que professa detestar (por supo-la especifica o passado que renegou justamente), não possui a suficiente independência política-económica para opor, a qualquer penetraçao, uma cultura criticamente assente nas tradições, boas ou mas, que possui. Assim, do mesmo passo, o «statu-quo» politico–social subrepticamente adquire foros de inerente a segurança nacional, e o organismo nacional fica aberto a desnacionalização cultural e económica, precisamente quando parece esta-velmente conquistá-la. O interesse pelo Brasil, que se verifique hoie nos grandes países, não é necessariamente condicionado por esta visão política — seria uma grande injustiça, e de um grande e perigoso simplismo, o afirmá-lo. Mas a tendencia de um grande país predominantemente de mentalidade euro-americana, ao inte ressar-se por um país do Equador, em que a chamada raça anglo–saxénica não tenha imposto o seu exclusivismo (como> e o caso contrário de nações como a União Sul Africana ou a Austraba) se não é prepará-lo para os seus próprios fins, e para estima-lo paternalmente, admirando-lhe a paisagem e o pitoresco, e lutando filantropicamente por melhorar a vida de gente tao engraçada e tão simpática. As razões históricas de essa gente ser assim, o conhecimento de quais tradições essa gente herdou e transformou, eis o que é secundário, e, mais do que secundário, perturba inteiramente o facto folclórico e filantrópico, com considerações de exigência cultural, incompatíveis com o gosto pela especialização estrita e não-problemática. Isto e tanto a verdade que qualquer americano se escandalizaria com um estudo do sistema legal norte-americano, ou da religiosidade norte-ame cana, que ignorasse inteiramente as suas raízes anglo-saxomcas. Mas por certo serão muito poucos os que pensem necessário conhecer o sistema legal português ou a religiosidade portuguesa, para discutir-se disso mesmo no Brasil. E, nisto, a maioria do intelectuais brasileiros participa: que um estrangeiro estude isso sem recorrer a Portugal, eis o que os tranquiliza quanto a peculiaridade e originalidade do Brasil, enquanto o estrangeiro baseando-se nas bibliografias existentes, e levado a crer, por exemplo, que realmente no Brasil as tradições religiosas negras ou índias sobrelevam de longe a importância dos cultos cristãos (ainda quando, como é o caso dos protestantismos, eles não tenham sido instalados no Brasil pelos portugueses, mas por ociedades bíblicas de origem anglo-saxónicas ou germânica, já que e perfeitamente mítica, do ponto de vista da permanência cultural, a presença do protestantismo holandês no Nordeste ou a do protestantismo francês no Rio de Janeiro). Se isto é assim, ou tende a ser assim, com as questões antropológicas e sociais com maioria de razão o será com as literárias e culturais Ue modo que a manter-se esta situação que as circunstâncias de interesse pelo Brasil só podem agravar, não pode a literatura portuguesa esperar que sequer uma atenção para com ela seja tida, ainda por muito tempo, como indispensável a uma compreensão mais profunda e mais correcta do Brasil.

E evidente que atenção apareceu e existe, e não se pretende negar ou minimizar o que os Estados Unidos ou países da Europa tem feito pela cultura portuguesa, muitas vezes realizando aquilo mesmo que os intelectuais portugueses tinham o dever de fazer e nunca fizeram. Mas, com raríssimas excepções, os estudos da literatura portuguesa no estrangeiro (isto é, fora de Portugal e o rasi) têm partido ou dependido de estudiosos principal-mente interessados na cultura hispânica. Isto não é necessariamente um mal, porque precisamente serve a corrigir as extremas limitações que a ignorância portuguesa tem sofrido nesse campo como em outros em que raro abundam de um actualizado e bem informado comparativismo. Mas, contribuindo para colocar os estudos de cultura portuguesa como um capítulo da cultura hispanica que tem poderosas tradições internacionais, mais cinde a literatura portuguesa da sua conexão com um Brasil que não e hispânico em nada. E tanto o não é, e a tal ponto a sua individualidade e importancia se afirmam, que a literatura brasileira nao e considerada um capítulo mais na história das literaturas hispano-americanas que são apenas as de língua espanhola.

A realidade — ou melhor, a existência e o valor em si — da literatura portuguesa não depende evidentemente de tudo isto mas, muito mais do que os seus cultores e críticos portugueses imaginam, e, e cada vez mais será, extremamente condicionada por estes factores que fomos indicando. E sê-lo-á quanto à criação presente e quanto aos juízos sobre o passado. Quando a literatura de um pequeno país se fecha sobre si mesma ao mesmo tempo exagerando o seu valor universal (que, por potencial que seja, só existe quando reconhecido universalmente) e aceitando ser só eventualmente reconhecida, corre o risco de não apenas reduzir o passado à escala dos seus pequenos interesses provincianos, como o de desinteressar desse passado mesmo os estudiosos fiéis que tenderam a corrigir os erros de visão estreita, e que, assim fazendo, sabem não poder agradar àqueles mesmos que poderão dar-lhes apoio e estímulo. E, quanto ao presente dj^. criação literária, será muito difícil que obras apareçam, dignas da atenção universal, ainda quando encerram elementos de uma mais universal visão ou estejam seus autores bem informados acerca do que se passa no mundo da cultura. A razão é simples: de tal modo tudo isso estará integrado no pequeno círculo de uma cultura que, como sociedade, perdeu os contactos e a consciência das interrelações, que mesmo o mais universal dos escritores parecerá, e sera a muitos títulos, apenas um curioso caso de uma pequena literatura.


A literatura portuguesa no Brasil


A posição da literatura portuguesa no Brasil é ambígua, embora a sua ambiguidade não seja exactamente a que transicionalmente se supõe no Brasil ou descuidadamente se imagina em Portugal. Para os brasileiros, a literatura portuguesa situar-se-á em dois planos diversos: o de ser a expressão literária do passado da língua nacional (e, nesse plano, ela pertence realmente às duas culturas e é comum património de ambas), e o de ser expressão contemporânea da língua, em nível estético, mas numa diferente área cultural (e, neste outro plano, já ela não exerce a mesma função em ambas as culturas). Todavia, neste segundo dos dois planos, a literatura portuguesa confina, funcionalmente, com as demais literaturas estrangeiras, e é, paradoxalmente, mais estrangeira do que elas. Na verdade, ela [não]* pode competir em prestígio e difusão com literaturas como a francesa, a norte-americana, etc., porque não pode oferecer, àqueles que buscam nessas literaturas o complemento cultural necessário à construção de uma cultura tida por actual, a magnitude fascinante que elas apresentam. É perfeitamente secundário discutir, mesmo com elementos de mais objectiva crítica, se, na sua relativa pequenez, a literatura portuguesa dos últimos cem anos não possui, alguns escritores tão interessantes ou até superiores a muitos escritores franceses ou norte-americanos que ganharam a celebridade internacional. Tudo se passa, com raríssimas excepções como um Eça de Queiroz ou um Fernando Pessoa, que de resto, mesmo admirando-os, poucos se atrevem a dizer que são maiores que alguns dos seus contemporâneos mais influentes; tudo realmente se passa como se fossem efectivamente, aqueles escritores, secundaríssimos, mais ou menos na mesma medida em que o são para as grandes culturas euro-americanas que os ignoram. Claro que, e até por razões de profissão, um ou outro autor, e o movimento geral da história portuguesa interessam a quantos, no Brasil, se dedicam ao estudo ou ao ensino da literatura portuguesa. Mas esse interesse não ultrapassa o âmbito da área de influência desses estudiosos. Seria curiosíssimo, a este respeito, fazer um levantamento estatístico dos trabalhos publicados por esses estudiosos, pois que nitidamente nos elucidaria sobre a ambiguidade da literatura portuguesa contemporânea no Brasil. Quando não são personalidades especialmente dedicadas aos aspectos filológicos ou linguístico, campo em que o Brasil se destaca por trabalhos de alto valor, mas personalidades dirigidas para ou confinadas nos estudos literários, os estudiosos de literatura portuguesa, no Brasil, ocupam-se de estudar de literatura brasileira. E estes estudos, de um modo geral, não se caracterizam por um comparativismo das duas literaturas vernáculas, mas cuidadosamente as separam em domínios sem continuidade. Os estudiosos brasileiros de literaturas estrangeiras não sentem a mesma necessidade de ocuparem-se de literatura brasileira que muitas vezes não se pejam de ignorar; e os especialmente dedicados à literatura brasileira, quando se não dedicam ao estudo dela como isolada de todas as correntes, ou quase, da cultura euro-americana, sentem a preocupação (evidente nas maciças referências bibliográficas e na vasta cópia de nomes citados) de colocar a literatura brasileira em estreita correlação com essas mesmas correntes, sem que a literatura portuguesa (que, no passado colonial, foi o predominante intermediário, às vezes com demasiado exclusivismo) seja chamado a desempenhar nesse quadro um papel preponderante ou mesmo de modesta importância. Nada há de extraordinário, em princípio, no gosto e no interesse dos estudiosos brasileiros de literatura portuguesa pela literatura brasileira, que é sua nacional, e já que são literaturas da mesma área vernácula; e sem dúvida que é profundamente errado o interesse excessivo e exclusivo por outras literaturas estrangeiras. Mas o facto de verificar-se como que uma segregação dos estudos de literaturas vernáculas não deixa de ser um sintoma quanto ao que se diria a falta de naturalidade e a self-consciousness» de muitos brasileiros, ao tratarem da literatura portuguesa. E, no entanto, por isentos do «commitment» de serem portugueses, e por terem uma preparação filológica que em Portugal falta em escala igual, estão em condições de ser, e vários são, mais competentes nela que a maioria dos portugueses de equivalente educação e cultura.

Da parte de Portugal, tomar ao pé da letra este estado de coisas, actuar no Brasil como se a literatura portuguesa fosse efectivamente estrangeira, será por certo um erro de incalculáveis, ou demasiado previsíveis, consequências, visto que a situação da literatura portuguesa no Brasil, e os correlatos problemas que afloramos, não são os mesmos. Para o Brasil, a literatura portuguesa anterior à independência política (ou, mais exactamente, à Inconfidência Mineira), se é a literatura do país colonizador, não menos é a 'do passado da língua e da cultura, e não menos é parte do seu património nacional, ao mesmo tempo que o é para Portugal, por estranho que isso possa parecer à estreiteza de visão, a que Portugal é muitas vezes sujeito. Aliás, e paradoxalmente, uma das queixas da cultura brasileira contra a literatura portuguesa de 1500 aos fins do século XVIII reside precisamente na muito notória ausência do Brasil nela — queixa que corresponde a uma das características dessa mesma literatura e é a curiosa e generalizada ausência, nela, não apenas do Brasil, mas de todo o ultramar e das navegações, se vistos de um ponto de vista não-oficial e não-militar, com as possíveis excepções, de resto gloriosas, dos relatos que compõem a História Trágico-Marítima, e da Peregrinação. Que estas observações têm enorme fundamento é fácil de verificar pelo que sucede aos autores dos séculos XVI e XVII que se ocuparam do Brasil. Têm os brasileiros a tendência a considerá-los seus compatriotas, mesmo quando se trata de um autor tão conspicuamente dedicado a Portugal como António Vieira, enquanto outros não figuram nas histórias da literatura portuguesa, ou pelo menos não figuram, ainda hoje, em proporção da justa importância que possuem para o Brasil. Vieira, é claro, disfruta sempre um grande lugar na literatura portuguesa, mas por razões inteiramente diversas e às vezes incongruentes: o vácuo da prosa seiscentista seria sempre repartido entre ele e um Francisco Manuel de Melo ou um Bernardes, mesmo que eles valessem a décima parte do que valem; e o facto de ter sido um jesuíta perseguido pela Inquisição faz que as tradições jacobinas portuguesas se esqueçam de que ele foi não só um jesuíta, mas um dos articuladores do jesuitismo que tão ominoso é para os admiradores do Marquês de Pombal. Em contrapartida, o prestígio de Vieira no Brasil, que ele de modo algum teve entre os brasileiros seus contemporâneos, que chegaram a expulsá-lo de lá, é precisamente devido ao mito de que os jesuítas fizeram, à base de índios românticos, um país diferenciado dos «colonos» que os escravizavam. Nem eles fizeram esse país (ou o fizeram aceitando uma escravatura negra preconizada pelo próprio Vieira — cf. a sua «Resposta aos capítulos do Procurador do Maranhão), nem os «colonos» que se opunham a Vieira eram só emigrantes portugueses, mas, na terminologia do tempo, também os habitantes ou naturais da colónia. O caso de Vieira é assim uma pedra de toque, para a observação, em termos de sociologia da cultura, das relações literárias luso-brasileiras, sobretudo se nos lembrarmos de que os sermões dele, mais escolarmente célebres em Portugal, não são os mais conhecidos no Brasil, quando entre estes figuram dos melhores que ele terá proferido.

Quanto à literatura portuguesa posterior à independêncià política do Brasil (e a Inconfidência Mineira, desejada e preparada por homens que pertenciam ao Esclarecimento internacional dos fins do século XVIII, é necessariamente mais um fenómeno de independência política que do nacionalismo cultural que, em termos de liberalismo romântico, não tinha, para esses homens, sentido algum), com ser um prolongamento daquela anterior, não deixa de estar numa posição inteiramente diversa de qualquer das outras literaturas estrangeiras. Faltam, de resto, e quase totalmente, em Portugal e no Brasil, os estudos sobre o intercâmbio literário luso-brasileiro durante o século XIX e até ao advento do Modernismo vanguardista, durante a fase romântica e naturalista, a que correspondeu no Brasil a criação de uma literatura desejadamente nacional. No Brasil, dir-se-ia que esse intercâmbio apenas se cifrou em desagradáveis ataques portugueses aos supostos deslizes gramaticais dos brasileiros, quando esses ataques partiram, em geral, de figuras sem representação alguma na cultura portuguesa, e quando os melhores escritores e críticos portugueses, desde a primeira hora, aclamaram, como liberais que eram, o advento e a demonstração literária de um Brasil brasileiro, como foi o caso de Garrett ou de Herculano. Que tais estudos, baseados em sérios levantamentos históricos e documentais, faltem no Brasil, compreende-se, já que não são prioritária matéria de investigação cultural; que faltem em Portugal é por certo sintomático de quanto, nos últimos cem anos, a cultura média portuguesa (não os melhores elementos dela) foi aceitando, passo a passo, a sua menoridade e a sua restrita importância, entre um Brasil que crescia e lhe voltava as costas, e um mundo que precisamente para mais silenciosamente cooperar com as classes dirigentes portuguesas na exploração colonial, lhe impunha uma imagem de pequeno país inerme do ocidente europeu.

A literatura portuguesa de vanguarda, a literatura viva dos últimos cinquenta anos, muito pouco deve a esforços de agentes universitários ou oficiais portugueses no Brasil. O pouco que dela os brasileiros conhecem deve-se a eles mesmos ou à obra divulgadora de portugueses que precisamente nunca saborearam as delícias das protecções oficiais, nem as aceitariam. De resto, desenvolvendo-se a literatura brasileira moderna em duas linhas aparentemente opostas (porque estão convergindo nos autores mais recentes), o vanguardismo português, sobretudo voltado para a exigência estética e para a análise irónica e dramática das mitologias nacionais, tinha em comum com o vanguardismo brasileiro que, nas datas oficiais antecipou de meia dúzia de anos, apenas o que era comum a todo o vanguardismo ocidental: a quebra com os esquemas tradicionais e académicos. Mas, sobretudo na primeira fase do vanguardismo brasileiro, afastava-se dele e não podia ser-lhe profundamente interessante, visto que, em Portugal, era preciso demolir o equivalente caduco do que, no Brasil, era juvenilmente necessário, ou seja, o mito de uma aproximação cultural com a vivência quotidiana, com as tradições populares, com a consciência de uma nacionalidade peculiar, com a problemática social de uma grande nação à beira de profundas transformações sócio-económicas e políticas. A aproximação deu-se, logo depois, e da parte de Portugal, em duas fases sucessivas: primeiro, os continuadores do primeiro vanguardismo português sentiram a afinidade recíproca com o Segundo Modernismo brasileiro (aquele que precisamente criticava o excessivo folclorismo do primeiro), e, depois, quando nos anos trinta e quarenta se desenvolveu, em toda a parte, um florescimento do realismo em termos de politização esquerdizante, os ficcionistas portugueses encontraram no romance brasileiro nordestino, mais que em qualquer outro, o exemplo próximo de que precisavam e que as estruturas literárias portuguesas lhes não forneciam. O vanguardismo brasileiro, ao tornar-se mais interiorizado e mais esteticamente exigente (no sentido de os problemas estéticos sobrelevarem os de criação de uma nova fase de literatura nacional), ficava mais próximo da tradição do vanguardismo português. E este foi atacado em Portugal pelos discípulos portugueses do romance nordestino, exactamente pelas mesmas razões que fizeram os homens do Nordeste opor-se ao vanguardismo carioca e paulista.

Posto isto, insinuar, mesmo indirectamente e inocentemente, que os brasileiros precisam de ser iniciados pelos portugueses nos arcanos da literatura portuguesa é ofensivo e ridículo, ainda quando a dificuldade de obter, no Brasil, informações, edições, revistas, etc., seja um severo «handicap». O problema é apenas de meios de informação, de falta de difusão de edições, e, também, um pouco à escala das contrariedades diversas que temos mencionado, quanto à cultura portuguesa no Brasil. Mas, na verdade, aquele «handicap» não será inferior ao que os brasileiros encontrariam, e encontraram pela frente (como aliás todo o estrangeiro), ao utilizarem de boa fé as espécies bibliográficas da crítica portuguesa, quase todas elas viciadas por preconceitos políticos ou mesquinhamente pessoais, necessariamente ininteligíveis para quem tenha a felicidade de não viver no interior daquele caos de alusões ou omissões. E, nisto, a literatura portuguesa de hoje não é mais estrangeira no Brasil que em si mesma.

 

Certamente por lapso, JS omitiu esta negativa que dá sentido à frase.

Depois do “Discurso da Guarda”: carta aberta a Ministros

 

Com a acidez agressiva que muitos lhe reconhecem, JS dirige esta carta aberta aos Ministros de Estado responsáveis pela emigração portuguesa e pela representação de Portugal fora de seu território. Em vários passos avalia o “Discurso da Guarda” e as circunstâncias que o cercaram, sem deixar de lado a figura do grande homenageado e tudo que ele representa. Datada de 26 de março de 1978, só a 3 de maio veio à luz, num “destacável’ do Diário Popular de Lisboa. Note-se, particularmente, ao fim, a longa “assinatura”, pejada de ironia.

 

 
Carta Aberta ao Ex.mo Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, e também aos Ex.mos Secretário e Sub-secretário da Emigração

Começo por pedir desculpa, ao dirigir-me primacialmente a V. Exa. Sr. Ministro, e também aos acima referidos membros do Governo, de náo mencionar nomes, não por qualquer calculada ou involuntária falta de respeito, mas porque os membros dos governos em Portugal têm mudado tanto, ou têm trocado entre si tantas vezes as mesmas cadeiras, ou estas cadeiras têm mudado de nome tantas vezes, que creio humanamente impossível ao povo português, quer o que vive e labuta em Portugal metropolitano (do qual até os chamados Distritos Autónomos já estão longe, pela distância que os separa do secular e sempre permanente eixo São Bento-Terreiro do Paço, que este último, ao menos no tempo das ladroeiras no Oriente e nos Brasis, não tinha São Bento com que reparti-las), quer, com maioria de razão, o que vive no estrangeiro, e para fins de retórica demagógica e de colecta de fundos para o desgoverno de Portugal, é sempre, e cada vez mais, com crescente desvergonha, cinismo e hipocrisia, chamado «português», com uns braços larguíssimos abertos em ansioso e lacrimoso apelo fraterno de cortar as almas incautas, se é que ainda subsistem portugueses desses em que possa pegar esta lambugem repelente, que cumpre denunciar em público de uma vez para sempre, com promessa dc repetição mais violenta de cada vez que qualquer dos Senhores tornar a repetir, seja onde for, afirmações de semelhante quilate. E poderão estar certos de que a mim nem a morte me cala, como acabará por calar e sumir nas sombras dela a maioria dos Senhores, de todas as cores e feitios, com suma caridade patriótica, apagando os vossos nomes e dos vossos comparsas, da lista dos ilustres da Lusitânia, na qual, como tem sucedido desde D. Tareja, a fundadora do Condado Portucalense, e senhora — já então — de notoriamente patrióticos maus costumes, numerosa gente tem feito por ser incluída, por mais que mudassem os reis, os sistemas de governo, etc., para não falarmos de revoluções gloriosas ou não, e de guerras civis de mais segura ou mais duvidosa glória.

Como é sabido de algum modo pelas pessoas de algumas letras em Portugal, e é sem dúvida sabido claramente pelo povo português mesmo sem letras mal gastas e desrespeitadas, desde que a ele e gara.ele falei, em 10 de Junho de 1977, nas comemorações nacionais na Guarda, eu tenho alguma autoridade — ainda que nada de oficial em sector algum — intelectual, moral e política para falar de Portugal e dos seus filhos, e da cultura que é chamada portuguesa, nos seus mais diversos aspectos. E como criatura que nasceu em Lisboa, filho de pais portugueses, aí viveu até aos quarenta anos, e de Portugal se exilou para o Brasil por motivos sabidamente políticos, aonde se tornou por necessidade e simpatia «cidadão brasileiro» (ponto de suma importância para o entendimento público desta carta aberta), e manteve sempre a sua casa de Lisboa, aonde, desde que em 1968 lhe foi possível regressar ao País (para ser imediatamente preso na fronteira e transportado para a Espanha pela PIDE, tendo depois sido autorizado a entrar, devido ao escândalo internacional logo desencadeado, altamente inconveniente para a fachada conciliatória que a ditadura de então desejava no momento assumir), sempre têm estado ele, sua Esposa, e alguns dos seus nove filhos, casa essa que o governo de Salazar tentou tirar-lhe uma vez, e a Revolução de Abril, pela qual o presente signatário sacrificou muito da sua vida e da dos seus ao longo de trinta anos de antifascismo (sem dúvida um respeitável recorde no Portugal de hoje, tão cheio de honrados e poderosos antifascistas que, não há muito, a gente podia ver em farda, palavras, obras e lucros de outra cor), tentou roubar-lhe duas vezes (precisamente ao pretexto daquela ausência minha que S. Exa. o Sr. Presidente da República galardoou com a Ordem do Infante D. Henrique, chamando-me «emigrante ilustre» que tem prestado no estrangeiro alguns serviços meritórios), criatura, o signatário que agora trabalha regularmente, desde 1965 nos Estados Unidos da América, onde, desde 1970, vivendo na Califórnia, está em estreito contacto com vastos sectores da colónia portuguesa e luso-americana, também mais alguma autoridade lhe não falta (com perdão do longo período que nunca afligiu os analfabetos quando falam a língua portuguesa viva, mas sim os semianalfabetos quando a escrevem ou lêem morta) para responder ao Sr. Ministro.

A razão desta resposta é a mensagem de não sei que data (e estas lamentáveis coisas, pelo carácter de repetidas e mastigadas, e o mais que já ficou dito, em verdade não têm data nem a merecem) que o Sr. Ministro lá pelos idos de Fevereiro ou Março distribuiu pelo Universo, e me chega agora no prestimoso boletim informativo publicado e distribuído pelo Consulado-Geral de Portugal de São Francisco (cidade muito próxima de mim, mas a 600 km). E antes de entrarmos na purulenta matéria, perdoe-me o Sr. Ministro uma outra falta: o não tratá-lo continuamente por V. Exa. Eu ingenuamente pensava que uma das conquistas da Revolução de Abril havia sido, não direi a abolição do Vossa Excelência (que deve reservar-se para os mais altos magistrados da Nação como o Presidente da República), mas a diminuição do seu uso. Ingénuo era: nunca se viu em Portugal tamanha multiplicação de Excelências como desde Abril de 1974, tal como nunca tanta gente que não é Doutor em coisa nenhuma senão em mudar de cadeira governativa, ou ser chefe de partido político, é Doutor, sendo muito simples e honestamente só Licenciados por terem ganho os respectivos canudos nas universidades salazaristas que é o que aconteceu com quem ainda não anda pelos setenta anos. Diga-se de passagem, e não fica mal a propósito, que com os títulos se deu o contrário do que sucedeu com aquele oficial A Bem da Nação que o Salazar mandara pôr no fim de todos os escritos emanados de entidades idem. Muito bem abolido foi. O que todavia cada vez mais parece, na politicagem de que não há grupo nenhum que possa procla-mar-se inteiramente limpo e inocente, é que a abolição daquela fórmula foi tomada demasiado ao pé da letra, com o desastroso mas evidente resultado de que, ao deixar de escrever «a bem da Nação», muita gente de responsabilidade, por si mesma jogando com a irresponsabilidade alheia, passou a confundir o bem do País com o seu próprio, e a esquecer que a Nação realmente existe, abaixo e acima das combines e traficâncias, e mais dia menos dia virá pedir as contas dos milhões desaparecidos.

Posto este intróito informativo e moralista, entremos em matéria, esquecendo de momento o adjectivo que ela merece. E, para começarmos por alguma parte, comecemos pela honra insigne que — é verdade — eu tive a oportunidade de conferir a mim mesmo: a de ter falado na Guarda, a 10 de Junho de 1977, ao autêntico povo português de Portugal e de toda a parte (na medida em que, como é sabido, uma manifestação puramente nacional e de projecção internacional, não foi prejudicada por uma falta de cobertura notória, que, no dia seguinte, motivou, no almoço de encerramento das festas mais oficiais, o veemente protesto de S. Exa. o Sr. Presidente da República). Como nota de pé de página, e para informação do verdadeiro povo português e dos emigrantes em nome dos quais protesto aqui, seja-me permitido apontar que de uma antologia de poesia de Camões, preparada não por um camonista, mas reeditada de outra já existente, organizada por um distintíssimo poeta contemporâneo, se mandaram imprimir para distribuição pelo Universo inteiro, centenas de milhares de exemplares, ao que consta, e por certo que alguns ganharam bastante com isso, e entre eles, por acidente, o próprio Camões. Todavia convém sublinhar que o folheto de uma reunião tão transcendente como foi a da Guarda em 1977, contendo os discursos de Vergílio Ferreira e o meu, além dos das personalidades, como o Exmo. Presidente da República e outros, que, por dever de ofício ou de responsabilidade na organização da mundial celebração do Emigrante, lá falaram também, esse folheto, impresso em Lisboa, em Setembro de 1977, foi-o numa modestíssima edição de escassos 20 000 exemplares, evidentemente não destinados a mais que uma simbólica e invisível distribuição,fctalfcomo aquela «cobertura» que fez o Sr. Presidente da República protestar, no fim do almoço, na cidade mais alta de Portugal (cujo distrito é o que tem exportado, para as Franças e Germânias, o maior contingente dos únicos emigrantes que, para lá e dentro de todas as hipocrisias, são os que realmente contam para as necessidades reais ou sôfregas do orçamento continental ou metropolitano). Como se vê, agora como no tempo do salazarismo, nem toda a gente possui ou recebe os mesmos direitos (os discursantes da Guarda, pelo menos os literários, foram apenas pagos com a viagem em transporte oficial e as esposas arrumadas na última fila das dezenas e dezenas de convidados) de ser égua de cobertura ou cavalo de cobrição. Isto para falarmos em metáfora de cavalaria, que é tradicionalmente, com o devido respeito, a mais acessível às classes dirigentes e governativas.

Temos de reconhecer que, para aquelas festividades à escala mundial, de 1977, e que agora se decidiu que serão, como Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas, repetidas, por certo que a escala menor, todos os anos (embora o escamotear do pobre Camões por dentro das «comunidades», o que está certo, dado que, de entre todos nós, ele foi, por cerca de vinte anos de vida, o mais ilustre emigrante, se pareça muito com a falta de cultura que tem feito propagandear-se certa vergonha de Camões ter existido, quando o pobre triste já sabia e disse, há quatrocentos anos, da sua amarga vergonha de ter nascido entre gente que não merecia o seu canto, e ainda ele não tinha visto nada…), houve o cuidado novo de convidar para discursantes e recitantes, urbi et orbi, escritores ou artistas na sua maioria de reconhecido mérito. Sem dúvida que isto é de registar-se e louvar-se, esperando-se que, no futuro, não se transforme em mais um pretexto para voos internacionais da compinchada para ir tratar dos seus (dela) direitos autorais e outras oportunidades nos países aonde, segundo a fórmula oficial — literalmente muito justa — a selecção dos autores a traduzir se faz só segundo a «qualidade», sem que se explique que essa qualidade não significa necessariamente superioridade estética, mas sim que os indivíduos são, pelas entidades competentes, garantidos como, senão praticantes estritos do Realismo Socialista, pelo menos pessoas que convém usar ou são quem os analfabetos competentes incluem na lista dos compinchas (às vezes só da cerveja ali para os lados da Trindade, em Lisboa). Reatemos, e que nos perdoem os numerosos parênteses elucidativos, requeridos pelas oportunidades de informar o público alguém, como o signatário, que tem sido sempre suspeito de cripto-comunista para as Direitas, enquanto as Esquerdas há quarenta anos que o usam, sempre desconfiadas de que ele é um perigoso «direitista» (quem me chamar ou disser-me fascista será perseguido em justiça, se houver ainda em Portugal um advogado com, para usar-se uma expressão de cunho popular, «eles no sítio» e não atados por um fio a qualquer manjedoura partidária).

Pois o caso é que eu, de Abril a Junho de 1977, estaria e estive de licença sabática da minha Universidade, sendo minha intenção visitar a Europa em Maio e Junho, no que se incluía passagem por Portugal. Subitamente e inesperadamente, fui chamado de Itália a ir receber o Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina de 1977, o mais cobiçado prémio internacional que um poeta pode receber, mas que, em Portugal, conta pouco ou nada, por duas importantes razões: primeiro, ter sido eu o distinguido (o que dá dores de fígado a numerosos vates e seus admiradores que há anos me perseguem com a sua inveja), e segundo, porque a geografia literária lusitana, nestas matérias, não vai além dos Alguidares de Baixo, aliás dignos, da Bélgica, ou daqueles prémios sempre suspeitos de sórdida politicagem e outras coisas mais feias ainda, que costumam ser dados por uma dessas chafaricas académicas do Mundo, estando esta, com os seus competentes analfabetos, sita ali para os lados de Estocolmo. Pois sucede que por ocasião da minha viagem, que me fez ficar pela Europa até fins de Junho, eu fui contactado pelo Sr. Major Vítor Alves, organizador supremo das comemorações e, oiais acontecimentos, e tive com ele uma primeira entrevista que se destinava a convidar-me a ser um dos falantes algures no grande Dia. E como aquele ilustre membro do Exército sem dúvida se recorda, a proposta que me foi feita consistia entre ir falar à Venezuela aos portugueses dos pitróis (que também contam nas remessas para a pátria), ou falar na Guarda, como representante dos emigrantes estabelecidos nas Américas. Que se tenham lembrado de mim, eis ao que sou grato. Mas o caso é que eu não ando a dormir, e, com precária saúde, estando na Europa, não ia voar-me para Caracas em 10 de Junho, por muito respeito e estima que eu tenha pelas culturas e pelos explorados e escravizados povos da América Latina, que o têm sido todos muito mais desde que, há mais de um século, a «pérfida Albion» (vulgo, Inglaterra) os ajudou a «libertarem-se» do jugo colonial da Espanha e de Portugal (lição que os povos africanos estão repetindo e aprendendo à própria custa, por mais que seja partidário da independência deles, como eu fui desde sempre, e ainda me lembro dos calafrios e silêncios que tal ideia causava aos revolucionários civis e militares que conspiravam comigo nos anos 50, quando eu insistia por esta declaração de princípios). Claro que, entre andar para trás e para diante e ir perorar a Caracas, ou aproveitar a ocasião de falar na principal das comemorações nacionais, eu escolhi falar na Guarda. Creio não errar se anotar que Vergílio Ferreira foi convidado a discursar não por ser o altíssimo escritor que é, mas por imposição local como glória regional das Beiras, e ele escreveu um esplêndido estudo sobre Camões, que ninguém ouviu, porque não era um texto para tal ocasião em que era necessário literalmente gritar à multidão — o que muita gente achou estranho que eu fizesse, quando me viram aos berros na TV, pela simples razão de que a TV nunca mostrou a gigantesca massa de povo que das mais variadas partes e reais aldeias confluíra para a Guarda e se amontoara avidamente à nossa volta, num dos mais comoventes momentos de espontaneidade popular a que me foi ou será dado assistir, e, sem fabricos partidários com muitas camionetas e muitos automóveis transportando o «povo» do costume (como é difícil não repetir o único modelo existente e de relativa eficiência, como eram as «manifestações espontâneas» da Outra Senhora… tanto mais quanto o povo cada vez mais quer obras que paleio e misteriosas combines nunca explicadas, como as que se sucedem desde antes de Abril de 1974, cala-te boca). E mais uma nota de pé de página, quando eu, o Vergílio, as nossas caras-metades, Conselheiros da Revolução, membros da Casa da Presidência, o Exmo. Presidente da República e Sua Esposa, pousamos no campo de jogos da Guarda, e saímos dos dois helicópteros oficiais, éramos aguardados pelos membros do Governo, outras altas autoridades, e uma imensa quantidade de povo que se estendia desde ali até à Câmara aonde o Sr. Presidente foi recebido pelas autoridades locais. A marcha desde o campo até à Câmara foi a pé, como depois daí para o Hotel Turismo, aonde se albergava já o Governo e se albergavam também os recém-che-gados. E foi quando me deu o destino de saborear o magnificente e realmente democrático espectáculo de ver toda aquela quantidade de simbólicos representantes do eterno e centralizador Terreiro do Paço não conseguirem maior distinção que serem levados de roldão pela massa popular, que lhes puxava pela manga, lhes berrava aos ouvidos o que pensava, etc., etc., e os largou intactos e a respeitosa distância ao começo dos degraus do hotel. Será que terão aprendido alguma coisa? O futuro, tão incerto, o dirá, mas o povo sem dúvida que, com tudo o que o engana e leva à bebida, aprendeu muito nestes últimos quatro anos.

Ora voltemos ao ponto de eu ser convidado a falar na Guarda, no que é, para os portugueses de Portugal, tão ciosos do espaço que lhes resta (e também do dinheiro alheio que deve continuar a chegar de fora), uma dupla e saborosa ironia — muito mais complicada do que alguns imaginam ou sabem — e que muito importa ao principal assunto desta Carta Aberta. Quando em 1959 me exilei no Brasil, e me fizeram lá catedrático de Literatura, as condições da minha vida e dos meus eram as mais precárias: eu era e seria sempre contratado por não ser «Doutor», e podia perder o emprego em resultado de qualquer intriga (o que, na melhor tradição das culturas de língua portuguesa, nunca lá me faltou nos meus seis anos de residência brasileira, e não vem ao caso). Mas precisamente por isso é que ninguém me deixava fazer doutoramento, para que o «portuga» não tivesse segurança (durante anos não foi diversa a situação do meu velho e saudoso amigo Casais Monteiro, meu colega de universidade). A única saída foi uma luta homérica que devo a amigos brasileiros que honram o Brasil, e de alguns dos quais já só tenho a nobre memória para venerar: conseguir-se — o que era legalíssimo mas sumamente raro e difícil compreensivelmente — o reconhecimento, por obras e actividades, do chamado notório saber por parte do Conselho Superior de Educação, e a consequente autorização para que eu me submetesse ao concurso de Livre-Docência, análogo em tudo a um concurso de cátedra, mas título superior ao de Doutor cuja concessão oficial desse mais alto concurso decorria. Naqueles idos negros dos anos 60, todos nós no Brasil (excepto, é claro, aqueles portugueses da Oposição que iam pagos para vigiar as nossas actividades oposicionistas, e tratar de suprimi-las o mais possível em suas repercussões, com a mais completa colaboração da quase inexistente «resistência interna», ou a «externa» de outros focos, que invejavam qualquer influência daqueles que primeiro haviam no Estrangeiro denunciado alto e bom som a opressão salazarista) imaginávamos que nunca mais voltaríamos a Portugal (já que não tínhamos emprego respeitável de mártires da clandestinidade), e que o melhor era sermos cidadãos brasileiros, pagando a hospitalidade que desfrutávamos, apesar do desgosto de muitos que disfarçavam às vezes de anti-salazarismo o que era aquele antiportuguesismo que muito português de Portugal não entende e julga ser uma justíssima reacção contra o colonialismo e o imperialismo, quando é na verdade a máscara com que as classes dirigentes do Brasil escondem, há bem duzentos anos, o seu conúbio íntimo com aqueles dois «ismos» que lhes garantem e perpetuam o Poder. No meu caso, porém, a naturalização não era só decisão de ficar e gratamente: era também uma absoluta imposição legal, já que no Brasil, pelo menos naquele tempo, [se] se podia ser estrangeiro e Doutor, não se podia concorrer a Livre-Docência ou Cátedra sem ser-se cidadão. A este respeito, ainda que os direitos adquiridos sejam quase os do cidadão-nato, há que notar que o Brasil trata, por carimbo, o naturalizado como cidadão de 2.a classe, pois que por esse meio o passaporte informa o Universo de que o sujeito é «brasileiro por naturalização» (o que para o Universo não tem importância alguma, mas para os brasileiros tem, e por isso mesmo o proclamador da Independência, ou seja o Pedro IV de cá, depois de ter sido o Pedro I de lá, foi corrido a pontapé na primeira oportunidade, sendo que uma das suas principais faltas era ser… português-nato, ainda que, pelo grito de Ipiranga que berrou, se houvesse realmente proclamado a si mesmo o «brasileiro n.° 1», visto que os mais tiveram de requerer-lhe a ele a nacionalidade). Isto de eu ser «brasileiro» tem causado inúmeros engulhos e grandes vantagens a Portugal e a portugueses, como adiante se verá. E é que então (exactamente quando com tão grandes manifestações de consideração por mim me era dado escolher entre Caracas e a Guarda) oficialmente, oficiosamente, e através de várias entidades e criaturas, orquestrava-se o bloqueio à apresentação da minha candidatura a um prémio literário internacional, sob o declarado pretexto de que eu era brasileiro e não podia ser proposto (o que era, no caso, uma refinada falsidade, sabido que é não serem tais candidaturas necessariamente apresentadas ou apoiadas pelos governos nacionais, e assim por exemplo, se nos ativermos ao Nobel, a candidatura de Juan Ramon Jiménez, grande poeta da Espanha, foi apoiada por recomendações da América Latina e dos Estados Unidos, e é sabido que os prémios dados a Pasternak e a Soljenitsine não tinham, nem podiam ter, o apoio da União Soviética). Não vou entrar na história inoportuna dos numerosos prémios portugueses que, a todos os pretextos, me têm sido roubados à última hora, ainda quando nem sequer sei que me tinham posto a concorrer a eles — seria uma longa e malcheirosa história que não importa aqui. Mas há um que sumamente importa: foi quando em princípios de 1969, no meu regresso a Portugal, de visita, após oito-nove anos de exílio, me foi atribuído o Prémio Nacional do Diário de Notícias, conforme declaração escrita, e verbal ante testemunhas, do falecido Dr. Augusto de Castro. Eu possuo as cartas dele, em que me é explicado como, à última hora, personalidades houve que sublinharam a impossibilidade de eu receber o prémio, por ser brasileiro. Se um sujeito que é tido como um dos mais respeitáveis escritores portugueses deste século, segundo a crítica e a Imprensa, é discriminado assim, que pode esperar da hipocrisia metropolitana qualquer emigrante anónimo sem conta no Banco (que eu nunca tive nos Estados Unidos, em Portugal ou no Brasil, e muito menos na Suíça, com perdão da referência que não sei ao certo a quem sirva)? Responda ou cale-se, e de preferência cale-se, que todos Vossas Excelências o que têm é falado por de mais e a desoras.

Pois é verdade — lá ia o «brasileiro» falar à Guarda em nome dos emigrantes sobretudo na América do Norte, onde as vicissitudes da América Latina me puseram, ao tempo em que eu não podia voltar a Portugal. Mas é claro que isto era esquecer os meus sentimentos democráticos e era ainda, e sempre, funcionar mentalmente nos esquemas centralistas e autoritários do Estado Novo, com a habitual inocência. Tinham-me os portugueses dos Estados Unidos e os luso-americanos plebiscitado para os representar? Não tinham, ninguém os ouvira (tanto mais que eu não fui parar a Caracas por esperteza minha), ainda que eu não duvide que o tivessem feito, se devidamente consultados. Eu era, como sempre, pura e simplesmente nomeado representante deles por um acto gratuito (em todo o sentido da palavra) da eterna Lisboa ou Lísbia onde nasci, ou do seu simbólico Terreiro do Paço. O que na Guarda aclarei devidamente, com os mesmos democráticos argumentos, e dizendo que só tinha autoridade para falar em meu próprio nome. Acerca da minha nacionalidade brasileira, que assim se tem provado tão vantajosa a alguns, há uma deliciosa nota complementar que os Serviços do Ministério dos Negócios (que palavra infeliz) Estrangeiros por certo não ignorarão. É que, para efeitos de imigração (com i, para quem entra), os Estados Unidos da América não reconhecem nem aceitam nacionalidades segundas, pelo que, oficialmente e legalmente, embora com um passaporte brasileiro, eu continuo português nos Estados Unidos, ainda que não em Portugal sempre que é conveniente. Aqui têm VV. Exas., com muito resumo, o que tem sido para mim ser «emigrante» vai para vinte anos, e em dois países, e que reflexos isso tem tido na minha existência lusitana. Passemos agora aos emigrantes a quem, com tanto trémulo de garganta, mensagens são enviadas. Não sem primeiro eu dizer que, se não tenho remetido para Portugal o dinheiro que não me sobra, nunca em cerca de vinte anos de ausência de lá retirei os parcos dinheiros ganhos com as edições dos meus livros que longamente têm estado na lista negra das entidades compradoras de exemplares (antes e depois de Abril, sem diferença), e nunca foram incluídas nas leituras obrigatórias de nenhum partido político, o que faz uma grande diferença, quanto a aquisições populares e outras.

Pois o caso é que, na verdade, o País tendo desbaratado o que tinha e o que não tinha em fazer e desfazer Abriladas, com uns quantos devotados ingénuos e uma catrefa de aventureiros à comparação dos quais os grandes malandros dos tempos salazaristas, além de serem em muito menor número, fazem figura de criaturas em dieta de Quaresma rigorosa (e eu não quero mencionar ninguém, mas permito-me recordar ao público leitor que este fazer e desfazer de revoluções que, na esmagadora maioria dos casos, ninguém jamais desejou para lá de agitações convenientes ou de vinganças e satisfação de ressentimentos e ambições pessoais, este desfazer e contrafazer, acompanhado sempre de muita gritaria, com muito pequena? diferenças, tem sido há quatro anos realizado praticamente pelas mesmas pessoas ainda que se disfarcem de outras e mudem de cadeiras e até de partidos — e que, apesar do desenfreado despautério, e além da inestimável liberdade que realmente se recuperou e defendeu, há um largo saldo positivo de verdadeiras conquistas sociais, no que não devemos esquecer a generosa amnistia tão prontamente dada, ou fuga, a numerosos «pidosos», antes de poder saber-se a quantos senhores tinham servido, ao tempo em que os Doutores e não Licenciados Salazar e Caetano eram quem oficialmente lhes pagava), pois é o caso que o País precisa imenso de que os emigrantes mandem as economias para a metrópole (terminologia dos tempos colonialistas) ou o Continente (terminologia das Ilhas ditas Adjacentes), mas, ao mesmo tempo, para continuarem a mandar esse dinheiro, fiquem lá onde estão, até porque, se pensassem em voltar trazendo consigo o tremendo capital, muitos deles, do seu trabalho especializado que o País perdeu, iam aumentar ainda mais o terrífico problema do desemprego lá onde muitos não querem trabalhar ou trabalham o menos que podem, outros acumulam empregos e luvas que é um nunca acabar de sangria, e muitos outros não têm trabalho porque os governos andaram a brincar aos socialismos, o que é uma brincadeira muito cara que só se sustenta com força de ditadura que mande apertar o cinto e dê porrada nos recalcitrantes, ou quando um país tem uma sólida economia de alta produção industrial capaz de pagar as benesses do socialismo que todos, ou quase todos, que mais não seja sob o simples nome de justiça social, temos portuguesmente desejado. Enfim, é tarde para choramingas, como quem regerá os destinos dos Estrangeiros Negócios saberá melhor do que ninguém, ao ter de dourar governamentalmente as amargas pílulas impostas pelos prestamistas que se conseguiram arranjar, e que não deram nunca nada de graça, a não ser ao Xá da Pérsia e aos coronéis da América Latina, como a outros conhecidos democratas, qual o governo da Indonésia a quem de Portugal se entregaram as vidas de Timor. O cómico e o ridículo disto tudo já eu o apontei na Guarda, em 1977, alto e bom som, falando ao povo e aos respeitáveis ouvidos governamentais, e não terei sido o primeiro e quem me dera ser o último. Antes da Revolução, que eu já chamei dos Cravos e dos Cravas, era um pavoroso crime do fascismo, denunciado com veemência e estatísticas em todas as oportunidades, a exportação de gado humano para a França e a Alemanha, empobrecendo-se tragicamente as reservas de trabalho do povo português. E era verdade: em vez de estabelecer-se verdadeiramente uma política de fomento, instalava-se uma desenfreada especulação financeira e imobiliária, sem qualquer base na realidade, que não fossem as remessas de numerário feitas por esses trabalhadores (que os emigrantes da América tenham por anos e anos sustentado os Açores nunca passou pela cabeça de ninguém, até à hora do susto de ser agitado, por interesses sumamente escusos, o fantasma de uma independência que acabaria com eles em algo semelhante a Havai ou a Porto Rico). Chegou a Revolução Libertadora que a gente desconfia terem sido muitas que nem todas sabiam umas das outras, entre elas sem dúvida, ainda que ele discretamente não tenha dito nada e provavelmente não o diga nunca, a do próprio Doutor Caetano que se sabia num beco sem saída por todos os lados, e deixava a herança aos que se propunham havia tanto (outros mais recentemente, como é sabido, e para que, segundo a frase histórica, «o poder não caísse na rua») salvar a Pátria e mais pertences. Tem sido, como é sabido, uma grande Salvação que, com perdão da desagradável comparação, mais parece o epílogo farsesco do Salve-se Quem Puder do Caetanismo, que, em 1972, tive oportunidade de examinar em Portugal, em Angola e em Moçambique. Mas, enfim, é o que se pode arranjar, e alegre-se a gente com a liberdade de falar e escrever.

Veio, pois, a múltipla Desrevolução (na verdade, segundo a retórica salazarista, a gente tinha já uma revolução que continuava desde 1926, e parar esta era o mais preciso); e, quando a gente esperava que Portugal, em ansiados gritos, conclamasse ao materno ou paterno seio (a gente nisto de mamas pátrias nunca sabe de que lado está) os filhos dispersos e abandonados da mãe-terra ingratíssima, qual nada: logo se começou a dizer que era melhor ficarem todos onde estavam, a mandarem para Portugal o dinheiro que voava, voava, que era uma dor de alma. Além do mais, eu peço infinitos perdões de lembrar acontecimentos tidos por clandestinos e impróprios de serem referidos. Portugal recebeu de repente as vagas sucessivas dos chamados retornados — e só este nome é uma das mais clamorosas faltas de competência, lucidez e até cinismo político das Esquerdas portuguesas. Com efeito, desses milhares e milhares de pessoas de todas as cores políticas e de pele, que a precipitação da chamada «descolonização» e das consequentes lutas civis logo desencadeadas em Angola atirou sem protecção alguma ou previsão alguma para Portugal, muitíssimos, nados e criados em Angola ou Moçambique, e por gerações de lá oriundos, não retornavam a parte nenhuma, mas escapavam-se (nem todos nascem heróis, como a maioria dos políticos profissionais bem sabe por experiência própria) da terra em que sempre haviam vivido, para uma outra que, se podia ser suposta uma lendária vaga mãe-pátria, lhes era totalmente alheia. Os realmente retornados eram só os «patos-bravos» que tinham, na década anterior a 1974, ido fazer a sua grossa maquia no Fim de Festa (e é melhor não inquirir quantos prédios de Luanda ou de Lourenço Marques — desculpem-me não dizer Maputo, que portuguesmente soa mal, e eu respeito e amo Moçambique — não foram ou ainda são pertença de muitos dos nossos heróicos libertadores de Abril e outros amigos deles, dos tempos em que, coitados, encalhados naquelas terras ou guerras bárbaras, que haviam eles honestamente de fazer senão investir o que elas lhes rendiam). As Esquerdas, na sua cegueira de cada qual se dar ares de ser mais à esquerda que o vizinho da esquerda, desejou apenas ver nessa gente, na sua maioria vítimas desorientadas, mas reaccionários pavorosos que era necessário isolar e exportar para não piorar ainda mais o desequilíbrio de forças notoriamente existente na população portuguesa, quer a gente goste, quer não goste. Como tudo era Esquerda, e havia muitas que todas se detestavam com o mesmo ardor com que hoje se detestam mais para a Direita, podiam, sem aquela cegueira, ter tirado um colossal lucro político do desastre. Em lugar de alienarem aquela gente toda que se viu logo rodeada dos cuidados e carinhos das Direitas encapotadas ou às abertas, podiam todos ter jogado em convencê-los que tinham sido os outros quem os havia traído, como a Direita dizia que sucedera. No fim de contas, essas acusações mútuas eram de regra, e nunca impediram a notória boa harmonia de sucessivas coligações ministeriais: mas teriam rendido tremendamente no caso, tanto mais que é sabido que toda a gente foi realmente traída numa ocasião ou noutra por alguém (na mais lídima tradição dos gloriosos fastos das imperiais traições lusitanas que eram o pão nosso de cada dia dos pobre rajás do Oriente, que confiassem num português governante), e a isso não escaparam, como é mal sabido, e sob as flores da mais devotada amizade, o PAIGC, a Frelimo, ou o sacrossanto MPLA, que o sabem muito bem. Não faltaria lama mútua, da qual se capitalizassem alguns dos «retornados» que a gente, creio eu, ainda vê esquecidos em enxergas no aeroporto de Sacavém, para ilustração de nacionais e estrangeiros no que seja a falta de vergonha a que se pode chegar. Para não falarmos puramente de «humanitarismo», sabido que somos, na verdade, uma raça de pêlos no coração, dura como o diabo, e mais impiedosa do que ele, sob a doce máscara da nossa grosseria risonha e satisfeita, capaz de despachar à sacholada o vizinho e amigo, só com pôr um pouco de cuspo nas mãos.

Silêncio, pois, discretíssimo silêncio quanto aos emigrantes e ao seu dinheiro. Este, e eles, darão provas de confiança na medida da confiança que Vossas Excelências inspirem ou com que sejam inspirados, no entalanço entre receber as patacas e contentar as conquistas da Revolução (muitas das quais são na verdade os numerosos tachos aos amigos, ou àqueles cuja amizade se pensa comprar assim). Mas cessem de uma vez, por amor à decência de cantar de sereias, para o que sem dúvida lhes faltam a voz e o físico atraentes que baste, além de lhes faltar a afinação política para cantar acertadamente. Ou então confessem de uma vez que estão a fazer a colecta para o funeral de 1980, quando há que celebrar dignamente as traições de quatro séculos antes. O maior problema que eu vejo é onde guardar-se higienicamente um cadáver de 90 000 km quadrados, cujos restos mortais ninguém deseja que não para bases estratégicas no Atlântico, fim para que os portugueses são inteiramente inúteis. Se essas bases tiverem de ficar, todos sabemos que há cubanos em Miami, ou em Havana, em número suficiente para mantê-las em nível de eficiência para os possíveis ocupantes.

Perdoem-me estas tão extensas e por vezes tão duras observações de um «emigrante» condecorado por ilustre isso mesmo. Mas era mais que tempo de dizerem-se umas cruas verdades que eu tenho independência e limpeza para dizer. Que os deuses vos iluminem, e conservem o Exmo. Presidente da República tão íntegro como o conheci, e tão independente e isento como o sei capaz de ser. E para terminar, Sr. Ministro, deixe-me confessar-lhe que tudo isto escrevi sem ter lido a sua mensagem, por absolutamente desnecessário. Creia que, cumprimentando em V. Exa. o Governo legal da República, se subscreve com o devido respeito, o

Jorge de Sena, escritor português, cidadão brasileiro, imigrante nos Estados Unidos da América, e com residência em Lisboa no nada aristocrático Bairro do Restelo, à Torre de Belém, magnificente símbolo do que não cabe no empequenecimento de um Portugal cujo enterro esperemos evitar.

Santa Barbara, Califórnia, 26 de Março de 1978

From the interview in “O Tempo e o Modo” (1968)

For the June 10, 1979 celebrations of the “Day of Portugal, Camões, and the Portuguese Communities,” the Secretaria de Estado da Cultura published a compact anthology titled Versos e Alguma Prosa de Jorge de Sena. Eugênio Lisboa was responsible for the selection of texts. Included was this paragraph extracted from the interview Sena accorded the journal O Tempo e o Modo in 1968. The excerpt bears the editorially provided title of “Auto-exame.” The translation, done more than thirty years ago, has not been previously published.

Em celebração ao “Dia de Portugal, Camões e as Comunidades Portuguesas”, em 10 de junho de 1979, a Secretaria de Estado da Cultura publicou uma breve antologia intitulada Versos e Alguma Prosa de Jorge de Sena. Eugênio Lisboa foi o responsável pela seleção dos textos. A edição incluiu este parágrafo extraído da entrevista concedida por Sena à revista O Tempo e o Modo em 1968. O excerto recebeu o texto editorial de “Auto-exame”. A tradução, feita há mais de trinta anos, nunca havia sido publicada.  
SELF-ANALYSIS

I am not myself one of my more steadfast admirers. The only reason, it appears, that I proclaim my talent at every opportunity is that, until recently, if I did not do so, no one else would; and given that I’m acutely sensitive to injustice in all its forms, should I allow injustice to work with impunity in my own case? Very few Portuguese writers of merit owe as little to the critics as I do. From every corner the rule for nearly thirty years has been either to remain totally silent or to under-evaluate. Where is that body of commentary on my work for the past thirty years? With rare, if notable, exceptions, I have been for years honored by nothing more than some book dedications or the receipt of personal letters, admiring and devoted, to be sure. But where on my behalf has been the equivalent of that great public acclaim accorded to my illustrious comrades? Every once in a while, there will be a tantalizing bit in some preface or other, or some grudging praise in a work of literary history. That is the most that I get, while mediocrities get great acclaim because they are sufficiently reactionary, or, sufficiently “one of them,” are garlanded with flowers. Grant it that I do not believe in immortality of any kind, that I’m sufficiently well informed to know that cemeteries are the real libraries and the true literary histories, and grant it as well that I’m not given to playing at what partisanship offers as a sub-stitute for immortality-—the illusion of immortality—and it will become crystal clear why I insist on recognition for the widespread good I have done. To tell you the truth, I detest false modesty. But even more than that, I abhor that mediocrity which will not allow itself to recognize excellence. No, I am not one of my more secure admirers. If I were, I would be like the majority of those living the Portuguese literary life, so utterly self-satisfied with themselves that each one of their books is worse than the last. The problem is not that I think I am so great but that the others, the majority of them, are such small fry. But one thing more: I should say a word in all justice and with grateful recognition about many of the lesser fry, those who do not insist that they are great, and to whom for many years I failed to extend even a single word of re-ciprocal praise, and who in honesty and impartiality, paid more at¬tention to me than did the official criticism emanating from all public sources, individually and collectively. To them, for a long time, I have owed thanks for the touching initiative, one that too often I did not accept as coming from friends. And I want to ask one last question, How many great writers have spent as much of their time working on behalf of so many of their contemporaries as I have over the past thirty years’? How many, I ask? The most that the “others” have done is to praise some piece of mediocrity or, occasionally, dig up some dead man, fearing that otherwise he might cast a shadow upon them. The difference between me and them is that I fear no future judgment, and that I make no attempt to catch sunlight in a sieve. Not at all. My self-confidence is total; it is absolute. No one can destroy me, unless I do the job myself.

 

AUTO-EXAME
Não sou [um dos seus mais seguros admiradores]. A única razão pela qual parece que eu proclamo a cada instante o meu talento é porque, até muito recentemente, se eu o não fizesse, ninguém o faria. E, se eu sou agudamente sensível a todas as formas de injustiça, haveria de deixar que ela se exercesse impunemente comigo? Poucos escritores portugueses de relativo mérito deverão tão pouco à crítica como eu. De todo os sectores, o silêncio ou o amesquinhamento foram de regra durante quase trinta anos. Onde está a bibliografia a meu respeito durante trinta anos? Com raras e dignas excepções, eu, durante anos, recebi apenas dedicatórias de livros ou cartas particulares, ou devotadamente admiradoras, mas onde estão os equivalentes públicos de tanta admiração dos meus ilustres camaradas? Uma ou outra dentada em prefácio, quando muito. Elogios «à contre–coeur» em histórias literárias é o mais que eu recebo, quando notórios medíocres são coroados de flores, por serem suficientemente reaccionários, ou suficientemente «dos nossos». Dado que eu não acredito em nenhuma forma de imortalidade, e tenho erudição bastante para saber que cemitérios são as bibliotecas e as histórias literárias; e dado ainda que não me dou a participar de partidarismos que me ofereçam, por substituição, a ilusão da imortalidade, será bem clara a razão de exigir o reconhecimento que me cabe pelo muito e bom que tenho feito. Tenho horror de falsas modéstias, de facto. Mas tenho ainda maior horror da mediocridade que se compraz em recusar-se a reconhecer o que a excede. Não, não sou um dos meus mais seguros admiradores. Se o fosse, seria como a maioria dos membros da vida literária portuguesa, tão satisfeitos de si mesmos que escrevem sempre um livro pior do que o anterior. O problema não está em eu me considerar muito grande — mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos. De resto, devo acrescentar uma palavra de justiça e de grato reconhecimento: foram muitos dos pequenos que não se julgam grandes, e aos quais durante anos não dei nem uma palavra de correspondente louvaminha, quem honestamente, e com isenção, se ocupou mais de mim do que a crítica oficial das várias chafaricas individuais ou colectivas. A eles devi, por muito tempo, um comovente incentivo que muitas vezes não recebi de amigos. E, ainda, quero fazer uma pergunta: quantos escritores de categoria se têm ocupado tão largamente e tão numerosamente dos outros seus contemporâneos, como eu fiz durante trinta anos? Quantos? O mais que fazem é louvar às vezes um medíocre ou desenterrar um morto, com medo da sombra que lhes seja feita. A diferença entre mim e eles é que não temo o juízo do futuro, e não procuro tapar o sol com uma peneira. Não: a minha segurança é total e absoluta: ninguém pode destruir-me senão eu mesmo.

 

De uma entrevista concedida à revista O Tempo e o Modo, n.° 59, Moraes Editores, Lisboa, Abril de 1968.

Odes de Jorge de Sena

A ode é forma poética canônica muito revisitada por Jorge de Sena, sobretudo nos anos 40 e 50. Das 14 que nos legou, já aqui editamos a "Ode ao surrealismo por conta alheia", "Ode aos livros que não posso comprar" e "Ode para o futuro". As que se seguem bem comprovam a variedade de modulações com que JS recria forma tão arcaica que varou os séculos.

  

 

 

 

Ode a Alberto de Lacerda

Ao longe, entre palmares e brumas
e ventos de monção erguendo espumas,
uma visita recebeste, gélida e ardente.
Beijou-te os olhos de menino doente,
as mãos ingênuas de menino arguto –
e tu, olhando as coisas e tocando-as leve,
ouviste que falavas
do que não tocavas,
e pelo mar partiste.

A ti, quem te chamou? Quem te expulsou?
Quem te acordou? Quem te mantém dormido?
Quem com palavras nuas te comprou?
Quem te despe da vida como a um deus vestido?
Ai nunca saberemos que ninguém!
E nem palmares, nem brumas, nem visita ardente
ou gélida, nem mesmo a tua velha infância,
nem mesmo tu, que morres de ser só
o sopro que te anima.

Mas tu, fechando os olhos, vês Diotima.

2/9/1951


 

 

Ode à Beira Nada

Eu leio estes poetas com imensa amargura.
É tão verdade que todos desejamos
( todos, menos quem deseja o sossego dos outros)
a liberdade mais perdida a cada sonho com ela
como flor tranquila vicejando algures
onde contemplá-la é só chilreio vago
do campo antigo!…Eu espero, eu vejo, eu quero,
mas há em tudo isto um travo exacto
a deslealdade, a fuga, a evasão, e não a luta,
um travo a imaginar que a outra humanidade
será melhor apenas para nós sermos os mesmos
com auditório melhor. Tudo será igual,
no fundo querem tudo igual, pois quando gritam
por este vácuo de universo e acaso,
delírio de estruturas consumindo-se
voltadas para um fim que não possuem,
pois quando gritam (e dizem nomes belos,
imprecações brilhantes, vocativos mágicos)
por este claro monstro que em mim trago,
de que não há cesariana que me salve,
não é por ele que chamam; não procuram
saber que existe, desconfiam, temem,
agarram-se uns aos outros, temerosos,
fingindo rir da ingenuidade aflita
dos que, outrora, se curvavam solícitos,
sonâmbulos, seguros, para a poeira do mundo,
nela beijando os sinais, patadas, marcas,
dos deuses que brincavam aos humanos,
como os humanos a imortais brincavam,
brincavam a invisíveis, a sem peso,
primeiro ainda orgulhosos de que as coisas
fossem a pedra com que faziam outras,
depois já tristes de que as pedras fossem
como o regresso ao ventre entressonhado,
mais tarde atentos à evidência de estar vivos,
e quase agora aflitos sem saber porquê.
Não, não, toda esta gente é ignóbil, miserável,
não posso deixar de os ler com imensa amargura.
Passam cantando inúmeros disfarces
contra a morte dos deuses e das leis, das classes,
de tudo o que por séculos inventou palavras
com que eles cantam; e, no calor do canto,
há um consolo atroz, gramatical, de sobrevida,
relento a vida viúva e mal lavada.
Não! tudo isso é falso! Acudam que é traição!
Ainda é tudo o mesmo, a mesma teatrada,
a margem da verdade que não é a verdade,
se não há razões, se nós, os que sabemos,
é que andamos cá por ver andar os outros?
Que fidelidade eu devo, mais que a de voluntário escravo,
a novas grades com que se preparem
para prender quem grite que não há uma causa,
que não há um fim, nem uma razão,
que de nos agarrarmos uns aos outros
não nasce outra razão além dos gestos?
Confessai, por uma vez, cobardes,
que até por corbadia particais heroismos!
confessai por uma vez, que não tendes coragem
para lutar alegremente e sem motivos!
confessai que não sabeis amar a vida,
que não a amais senão na dor dos outros!
Confessai, confessai, apenas uma vez!
E, se depois cantardes, se ainda então
o sexo a mais ou a menos que vos subiu à garganta
ainda for o pipilar das avezinhas,
por entre os ramos mentais de um arvoredo
que os montes não conhecem, nem os rios
reflectiram nunca, nem os homens viram,
então, sim, então podereis ser líricos.
Sereis só líricos sem máscara. Repipilareis
na doçura da tarde( ai como é doce!),
no silêncio da noite ( ai como é escura!),
no estalido róseo da madrugada próxima…
…………………………………………………………….

Alto! Alto aí! Não vos inspireis! Deixai nascer o Sol!…
Deixai que ele nasça, que, sem todos vós – el' nasce.


20/7/48

 

 

Ode à Incompreensão

De todas estas palavras não ficará, bem sei,
um eco para depois da minha morte
que as disse vagarosamente pela minha boca.
Tudo quanto sonhei, quanto pensei, sofri,
ou nem sonhei ou nem pensei
ou apenas sofri de não ter sofrido tanto
como aterradamente esperara –
nenhum eco haverá de outras canções
não ditas, guardadas nos corações
alheios, ecoando abscônditas ao sopro do poeta.

Não por mim. Por tudo o que, para ecoar-se,
não encontrou eco. Por tudo o que,
para ecoar, ficou silencioso, imóvel –
– isso me dói como se ausência a música
não tocada, não ouvida, o ritmo suspenso,
eminente, destinado, isso me dói
dolorosamente, amargamente, na distância
do saber tão claro, da visão tão lúcida,
que para longe afasta o compassado ardor
das vibrações do sangue pelos corpos próximos.

Tão longe, meu amor, te quis da minha imperfeição,
da minha crueldade, desta miséria de ser por intervalos
a imensa altura para que me arrebatas
– meu palpitar de imagem à beira da alegria,
meu reflexo nas águas tranquilas da liberdade imaginada-,
tão longe, que já não meus erros regressassem
como verdade envenenando o dia a dia alheio.

Tão longe, meu amor, tão longe,
quem de tão longe alguma vez regressa?!

E quem, ó minha imagem, foi contigo?

(De mim a ti, a mim,
quem de tão longe alguma vez regressa?)

9/10/49 – rev. 1950

 

 

Ode à Mentira

Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
como sereis cruéis, como sereis injustas?
Quem torturais, quem perseguis,
quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
apenas sendo vosso gemeria as dores
que ansiosamente ao vosso medo lembram
e ao vosso coração cardíaco constrangem.
Quem de vós morre, quem de por vós a vida
lhe vai sendo sugada a cada canto
dos gestos e palavras, nas esquinas
das ruas e dos montes e dos mares
da terra que marcais, matriculais, comprais,
vendeis, hipotecais, regais a sangue,
esses e os outros, que, de olhar à escuta
e de sorriso amargurado à beira de saber-vos,
vos contemplam como coisas óbvias,
fatais a vós que não a quem matais,
esses e os outros todos… – como sereis cruéis,
como sereis injustas, como sereis tão falsas?
Ferocidade, falsidade, injúria
são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso
o coração que apavorado em vós soluça
a raiva ansiosa de esmagar as pedras
dessa encosta abrupta que desceis.
Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo.
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis, descereis sempre, descereis.  

31/3/49

 

 

Ode a Ricardo Reis

Rosas raquítas te of'reço, poeta,
porque é da ode of'recer rosas
e não há doutras nas palavras de hoje.

Desfolha-as sabiamente nos teus lábios
e fala esse perfume que el's não têm;
ah diz-me como é vão o vão das pétalas,
se as rosas que te ofereço não são rosas
para criar em ti novo desdém.

Dilui-te um pouco nesse amor vendado;
e, quando o teu cuidado nos buscar,
aventa a hipótese da morte inglória:
se algum de nós morrer da morte de ambos,
é que estas rosas te serviram tais
que assim raquíticas duravam mais.

8/4/1942 – 1947

 

 

Ode a um reformador do mundo

Outros, que não tu, puseram nos teus braços 
o mundo imprimido por ti à sede de justiça.
Mas foi como nascendo que lhes deste
o sangue de mais outros que já estavam mortos
tão antes de raiar o novo dia
a quem, também, traçaste o círculo da terra!

E a sede era maior porque vivia,
porque era, sobre o campo da alegria,
uma seara ardendo ao tempo que crescia,
um pão de eternidade sem um deus presente
abandonando os gestos ao fervor de outrora.

… … … … … … … … … … … … … …

A nós as cordilheiras entre as terras
suspensas dos montes como de um senhor!
A nós a perspicácia dos olhares impuros,
quando olham corpos que pertencem sempre!
A nós a mancha que as nuvens negras
passeiam parda sobre a terra seca!
A nós as cores do inatingível termo
em que a justiça embalará os homens,
se falsos homens há para atingi-lo!
A nós os dedos que emprestaste às mãos,
a que obrigaste as mãos dos que não entendem!
A nós a liberdade de cantar vitória
por cada espezinhar de um velho mundo!
A nós o círculo sempre traçado à terra!

E a mim o amor das searas invencíveis!
A mim as lanças das bandeiras do universo
e não as franjas de ouro do caminho andado!
Quero que a tua glória seja do meu rasto!

A mim todo o futuro e a multidão que o encha!
À minha voz, a dor da vida quando exige tudo
e rasga em homens a ilusão de paz!
Que eu grite a angústia firme da exigência eterna,
grito após grito, quanto um grito custa:
– e nem o meu mundo é já o que me dás.

8/2/42

 

 

Ode ao Amor

Tão lentamente, como alheio, o excesso de desejo,
atento o olhar a outros movimentos,
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque,
obscuro sexo á flor da pele sob o entreaberto
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro
e vago ainda, e súbito contrai-se,
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes
no interior da carne, as pernas se distendem,
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as mãos,
dedos esguios escorrendo trémulos
e um sorriso irónico, violentos gestos,
amor…
            ah tu, senhor da sombra e da ilusão sombria,
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto,
imagem sempre morta ao dealbar da aurora
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida,
fuga perpétua, demorado espasmo, distração no auge,
cansaço e caridade pelo desejo alheio,
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes,
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota,
hesitação, vertigem, pressa arrependida,
insuportável triturar, deslize amargo,
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda.

Distantemente uma alegria foi,
imensa, já tranquila, apascentando orvalhos,
de contacto a contacto, ansiosamente serenando,
obscuro sexo à flor da pele… amor… amor…
ah tu senhor da sombra e da ilusão sombria…
rei destronado, deus lembrado, homem cumprido.

Distantemente, irónico, esquecido.  

17/7/49


 

Ode ao destino

Destino: desiste, regresso, aqui me tens

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais,
das ameaças
do recolher felino das tuas unhas retráteis
– ah então no silêncio tranquilo, eu me
acolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe
inesperado.

Em vão tentei não conhecer-te, não notar
como tudo se ordenava, como as pessoas
as coisas chegavam
em bandos,
que eu de soslaio, e disfarçando, observava
para conter as palavras, as minhas e as
dos outros,
para dominar a tempo um gesto de
amizade inoportuna.
Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças,
em audácias;
descendo à fé em mim próprio, até busquei
sentir-te . imenso, exacto, magnânimo
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.

Lei universal que a sem razão constrói
de um Deus ínvio caminho, capricho
dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falia de vontade
minha,
superstição, metafísica barata, medo
infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos
freudianos,
contradição ridícula não superada pelo
menino burguês,
educação falhada, fraqueza de espírito,
a solidão da vida,
existirão ou não, serás tudo isso ou não,
só isto ou só aquilo,
mas desisti, regresso, aqui me tens.
……………………………………………………
Desisti, regresso, aqui me tens,
coberto de vergonha e de maus versos,
para continuar lutando, continuar
morrendo,
continuar perdendo-me de tudo e de todos,
mas à tua sombra nenhuma e tutelar.

17/10/47 


 

Ode aos Plátanos

Queda de folhas com que a aragem soa
a luz do sol em sombras sobre os vossos troncos
de esverdinhado ouro secular
– ó plátanos dourados e nodosos! –
que sempre o mesmo Outono vos consola,
dormência igual, Inverno já tão próximo,
carícia vegetal de esquecer tudo,
folhas tombando, esguios ramos hirtos,
tão doloroso e fácil contemplar-vos!,
tão lentidão de sombras mais antigas
que a dança cadenciada de escutar-vos.
Troncos, rochedos, grenha de braçadas,
chiar de sonhos, solidão musgosa,
e as folhas caem por entre a limpidez
de um ar sonoro levemente azul.
Ligeiras, secas, já de sempre ouvidas,
as folhas correm pelo saibro húmido.
Nas noites frias, rígidas, metálicas,
de sono lúcido e profundo além da névoa,
com vossos ramos nus tão numerosos,
que nevoeiros calmos esfarrapareis!
– ó plátanos dourados e nodosos!…

6/12/49


 

Ode às Ideias Irresponsáveis

Estou só, deitei ao nevoeiro que rodeia a fronte
à hora da partida para a dúvida já física
todos os mundos… Ó minhas irmãs,
como estou só! sem flores, sem barcos,
sem a minha voz, sem alma,
sem a alegria de um nascer diário
na força de astros múltiplos, sensíveis,
confiando auroras ao carrear do vácuo
e ao pálio de ondas que as falésias deixam
desdobrar em franjas,
                                       franjas que o azul alonga
ee já verde, enquanto um pássaro
persiste nos rochedos e o rochedo é o pássaro
pousado e as asas são a espuma
                                                           a um lado e outro,
e já verde o azul imita o frágil mar…
Ó minhas irmãs, cabelos sois e um corpo sempre virgem
e o que ele brilha, próximo do fim,
                                                         junto à inocência,
por ambição e medo do contacto!

Ó minhas irmãs, demora-se o destino
a ponto de ser vossa a tempestade
que a tempestade enfrenta, esmaga, calca,
nas nuvens lúcidas e livres,
nenhum vento,
                           nenhum vento aqui.

Ó minhas irmãs, dentro de mim,
numa insistência de lágrimas traídas,
elevam-se montanhas prenhes de raízes,
                                                                     ruge
essa cascata de que emana Deus,
emana a Sua Imagem rápida e vulgar
de eu não viver convosco,
mas para vós no espaço tão completo!

E bem sabeis
                        que a violência foi e não voltou ainda,
que não caminha nela o canto que a antecede,
que não existe um laço entre ninguém,
que nada é invisível,
                                  nada injusto,
nada um êxtase de pálpebras marinhas,
nada o vosso corpo e a multidão dos povos,
de cérebro convulso, em luta pelas margens
do rio que vós sois porque ela existe!
existe apenas, basta,
ó minhas irmãs, não sei chorar.

Não sei, minhas irmãs, e perdi tudo:
a confiança, a fé, a independência,
o amor único do arado em espírito.

Ó minhas irmãs, chorai por mim. Se foi,
no centro ardente dos bailados que dançastes
sobre a minha esperança, o meu lugar prateado
pela angústia humana de extorquir imagens,
se foi a minha esperança a erva das montanhas,
que, orvalhada de sangue, vos ungiu os pés,
se os vossos pés ungidos transportam pólen,
se o pólen era estéril longe dos meus olhos,
se os meus olhos não souberam ver
que uma verdade é só de estar contida
e prisioneira, e não sentido ou acto,
ó minhas irmãs,
                             as lágrimas traídas
são vossas, são do pássaro
que enegreceu na rocha
e da sua pupila
fixa e convexa
– e não minhas, que as não sei chorar…

Ó minhas irmãs, se montanhas vagueiam,
vagueia o Sol com a esfera dos planetas
e o firmamento vagueia na audácia dos homens…

E que homens há levando a verdadeira noite
nas pontas dos dedos com que vos tocaram
amorosamente,
                             recolhidamente,
para que a verdade suba vitoriosa,
neles e eles nela, ao miserável encontro
dos sublimes astros?
                                    Ó minhas irmãs,
é vossa a tempestade, eu perdi tudo,
eu deitei ao nevoeiro as minhas vestes
e o vosso orgulho, a vossa humanidade,
e o vosso heroísmo…

Estou só, minhas irmãs. Foram-se os séculos.
Não tendes vós os séculos da vida?!

Eis que vos peço que choreis por mim.

1/7/1942

43. Jorge de Sena: «Morrerei por exílio sempre, mas fiel ao mundo» (Uma ideia de poesia como descrição e independência em Peregrinatio ad Loca Infecta)

[LER E RELER JS – 43: António Carlos Cortez]

Uma substancial e fina leitura de Peregrinatio ad loca infecta, pelo olhar arguto de António Carlos Cortez, que muito gentilmente nos faculta seu texto "em primeira mão". 

A Mécia de Sena, com quem me correspondi, por carta, entre 1997 e 1998, recordando as suas respostas, generosas e cordiais, num papel quase vegetal e em que se firmavam palavras que não poderei esquecer. A Jorge Fazenda Lourenço, pelo seu amor à poesia, tendo na lembrança o efeito.

«Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído e foi roubado, e foi
privado em extremo de justiça justa […]»

Jorge de Sena, in Poesia-III, Lisboa, Ed. 70, 1989, p.48


I

Poderia ser este o momento em que, chegados a uma situação de sobrevivência pátria, os portugueses se interrogassem sobre que personalidades, igualmente portuguesas, os interrogaram, a eles (a nós) portugueses. Poderia ser também este o momento em que, para além de uma questão de sobrevivência económica e mental do país, fôssemos todos levados a um movimento de redescoberta daqueles que, como Sena, ousaram agir em nome de si e dos seus conterrâneos, na esperança (talvez cega e vã) de que, um dia, os seus contemporâneos os viessem a ler, a saber um pouco mais sobre quem são ou se pensam ser; sobre o que foram ou imaginaram ter sido.
Mas este é um momento – o de Portugal e o da Europa (do Mundo, em suma), em 2011 – em que poucos são os que percebem que o nosso presente histórico foi já previsto em múltiplos passados. Este é o momento em que o mundo ocidental, a sua cultura, ou se questiona em termos de civilização ou soçobra, gradualmente, como é também próprio de todas as civilizações…
Poucos saberão, na verdade, perceber como, nas artes em geral e na poesia em particular, o mundo é quase sempre antecipado, nas suas misérias e nas suas grandezas, nas suas esperanças e frustrações. Paradigmático é o mito romântico de um Camões que, ao morrer, se despede do país dizendo: «Morro, mas a pátria morre comigo». Pode muito bem ser um mito (com tudo o que o mito encerra de verdade e fantasia… que não é menos verdade), mas mostra exemplarmente como aos poetas imorredoiros, para lembrar Fiama, o futuro é o presente prolongando-se no tempo.
Se os poetas fundam alguma coisa é, justamente, o futuro. Mas fundam-no por entenderem a época a que pertencerem, e por saberem, de algum modo, que estão ligados a um elo fortíssimo de vozes e visões que, encadeadas entre si, constroem a tradição, a cultura e a memória, sem as quais o futuro não se integra numa compreensão dialéctica dos factos. Assim, a cultura é sempre um produto e um processo – ou é um compósito de produtos, de que a poesia é um dos mais dignos, e um complexo de processos que se entrecruzam: processos humanos, políticos, estéticos, económicos. O poeta, que vive dentro e para a compreensão desse produto e processso que é a cultura, traz consigo uma vontade de compreensão dos fenómenos humanos (o maior dos quais é, sem dúvida, o próprio homem).
Jorge de Sena, que quis compreender o seu mundo e o seu tempo concebeu a poesia como testemunho e como entrega à «fiel dedicação à honra de estar vivo», defenderá uma noção de poesia como manifestação de uma vida, testemunhalmente comprometida, que se faz de um passado, se vive e respeita num presente e se abre a um futuro honrado. É talvez nesse sentido que o poeta de Pedra Filosofal se torna uma das vozes mais solidamente incómodas da cultura e da poesia portuguesas da segunda metade do século XX. Relembremos que o próprio trajecto do poeta de Perseguição (1942) se realiza sob o signo da heterodoxia, da ruptura e da independência quando, ainda jovem como crítico e homem de cultura, escrevendo sobre Pessoa no último número da revista presença, em 1940.
Nos anos trinta e quarenta a literatura portuguesa está ainda refém de duas tendências que, como sabemos, não seriam, quanto ao trabalho de linguagem e segundo a herança de invenção do primeiro modernismo, tão antagónicas quanto, à primeira vista, se pode julgar. Fernando Pessoa, cuja obra completa apenas sete após a sua morte passará a ter uma chancela forte, a Ática, em 1942, tinha publicado na revista presença alguns dos seus mais representativos poemas: «Autopsicografia», «Isto» ou «Tabacaria». Quanto à segunda figura de proa do Modernismo, Mário de Sá-Carneiro, é ele, o «esfinge gorda», o preferido pelos presencistas Régio, Casais e João Gaspar Simões, e é editado ou reeditado pelo órgão de Coimbra. Não sofre contestação a tese segundo a qual os nossos primeiros modernistas ficam a dever ao papel de divulgador de Régio (principalmente), o facto de se tornarem mais próximos dos leitores. E deste ponto de vista, na verdade, a presença desempenha o papel reservado, quantas vezes, aos que, justamente, ficam com a responsabilidade de revelar, estudar, canonizar quem os precede e é tido por mestre.
Pois bem, nessa década de trinta, pela actividade crítica presencista, dir-se-ia que a poesia portuguesa se irá pensar a si própria em função de dois problemas que são, hoje, faces de uma mesma moeda: o problema da poesia como expressão de uma sinceridade ou o problema da poesia como fingimento de uma personalidade.
De facto, é como uma «espada de Dâmocles» que a acusação de artifício, feita por Régio, pode ser hoje entendida, à distância de cerca de oitenta anos. Mas para o poeta que vem a ser Jorge de Sena não deixa de constituir um pesado fardo o pensar o fenómeno poético nesses termos – enquanto caminho bifurcado -, ou seja, dicotomia entre sinceridade e fingimento. E, em rigor, esse fardo ser-lhe-á tanto mais pesado quanto é certo não ser Pessoa um poeta reconhecido pelos responsáveis dos balanços literários realizados entre 1939 e 1943, algo que, para alguém que por essa época se lança na compreensão da poesia, poderia ter contribuído para uma incompleta leitura das conquistas expressivas de primeiro e segundo modernismos.
Aliás, a dificuldade de ler o «mistério» Pessoa, a «extrema dificuldade na compreensão do conceito estético, e não apenas periodológico, de modernismo», como explicita Jorge Fazenda Lourenço em A Poesia de Jorge de Sena – Testemunho, Metamorfose, Peregrinação (1998, 2010) acabavam por obnubilar a ampla compreensão dos matizes existentes entre «moderno» e «contemporâneo» e, sob este prisma, não espanta que fosse o Neo-realismo a assumir, em relação ao presencismo, uma posição de revolta ou, pelo menos, de incomodidade, questionando o papel do artista e do intelectual em face de um mundo que pedia, segundo a visão empenhada do poético desses anos trinta, a renúncia do formalismo em favor de uma implicação do Homem nos problemas do seu tempo. Não nos admire o elogio que recebe o livro de poesia de Joaquim Namorado, Sinfonia de Guerra, colectânea que revelava uma poesia «sem artificialismos», numa «simplicidade de linguagem [que enchia os versos] de um romantismo novo, humano, esclarecido, um novo heroísmo».
A aceitação de uma poética que não se concebia como aventura de linguagem e inquirição do sentido das palavras na relação do sujeito com o mundo, eis o que, de resto, acabava por familiarizar muitos dos poetas do movimento neo-realista com os poetas vindos da revista presença. Uma concepção de poesia que era mais um meio para ideologicamente se marcar uma posição partidária, do que propriamente uma ideia de poesia esteticamente autónoma, independente, centrada nas palavras, na linguagem e no seu trabalho.
Justamente, como dizíamos, Jorge de Sena responde a essa contraditória e dicotómica compreensão do fenómeno da poesia, instaurando uma revolução poetológica, de alcance fenomenológico, absolutamente inigualável e irrepetível no contexto da poesia portuguesa da segunda metade do século XX.
Contraditória era a poesia desses anos trinta e quarenta, por se ver se conceber o texto poético como meio e não como fim em si mesmo, e por o presencismo e o neo-realismo defenderem, de novo, um pérfido regresso ao romantismo ou idealismo líricos, mesmo se sob a capa de um «novo heroísmo. Ora, a reacção do poeta-crítico Jorge de Sena será uma reacção, antes de mais, estética, pela recusa da herança pós-simbolista que domina a linguagem presencista; mas também reacção contra ser a poesia um apêndice de quaisquer ideologias; reacção ainda a uma certa inflação surrealista, pese embora a aceitação do «potencial de transformação, a nível estético e estético» que esse movimento comportava.
Mas Sena igualmente rejeitará, do surrealismo, tudo quanto haja de inspiração ou impressão de imediatismo na expressão poética e restaura, do Modernismo, a certeza de que se fingimento é a mais alta forma de conhecimento, compete ao testemunho uma fidelidade integral do poeta no mundo. Assim, recusa-se o mascaramento ou projecção em um «outro» do sujeito empírico, e inverte-se a ideia de fingimento como moldagem, manipulação, dissimulação, tornando o conceito concomitante àquele testemunhar na linguagem o Homem e o mundo. No fim de contas, Sena apreende de Fernando Pessoa a axial certeza de que é no trabalho com palavras, originando uma realidade nova, que melhor se acede a um ser, a uma essência da linguagem, matéria que define o humano.
Nesse sentido, a obra seniana deve ser lida como radical proposta de linguagem poética, a que mais corajosamente combateu, no contexto das poéticas do século XX, essa «angústia da influência» estética que a sombra tutelar de Pessoa projectava por sobre toda a experiência de discurso de poesia pós-1935. No prefácio que redige em Julho de 1977 e no qual procede ao balanço do seu percurso de poeta, Sena considerará, justamente, o carácter independente da sua expressão literária e a sua compreensão fenomenológica da literatura. Uma poesia que, husserlianamente, está entre sujeito e mundo, entre Homem e objectos do conhecimento e se torna possibilidade cognoscitiva.
Pois bem, o que se nos afigura de capital importância é a capacidade de Sena, leitor de si mesmo, adicionar a uma poesia que nada sabe e questiona tudo, a certeza de que só independente pode ela ser pergunta e resposta relativamente a um mundo humano cruel, contraditório, hipócrita, pejado de aparências.
Assim, tenhamos em conta que o itinerário de Sena, podendo ser – como é – «testemunho, metamorfose e peregrinação», é também perseguição, independência e descrição. Diríamos, esclarecendo: perseguição de uma expressão dialéctica da literatura, por meio da qual o poema é representação de um «eu» que tudo perscruta e interroga, e é, em simultâneo, assunção do «desejo de independência partidária da poesia social»; e por isso pode ser ainda desejada independência de tudo quanto seja «qualquer disciplina ultrapassada», obedecendo àquele desejo de ser-se clássico e lapidar por oposição à poesia como sinónimo de absurdo ou linguagem do insólito, tal qual o surrealismo veiculava. Considerada ainda como descrição do mundo, já por meio do processo testemunhal que visa, lembremos: «dar expressão ao que o mundo (o dentro e o fora) nos vai revelando, não apenas de outros mundos […] possíveis, mas, principalmente, de outros que a nossa vontade de dignidade humana deseja convocar a que o sejam de facto», já por consciente domínio de uma tchné que fará do mundo um verdadeiro matter of fact linguístico a partir do qual o Homem delimita, restringe, selecciona, aliena o que da realidade lhe importa saber.
 Quando, a pretexto de linguagem poética, Jorge de Sena fala em discursivismo, acabamos por nos encaminhar para o necessário plano da descrição em poesia, o qual, podendo não ser condição sine qua non para o objectivismo em poesia, pode, em todo o caso, esclarecer o poeta quanto a um ponto essencial – que a poesia e o poeta é que são objectivos em si, e que na relação do Homem com o mundo, objectividade não se separa de idealismo. Mas a poesia deve transfigurar estas dicotomias e fazer-se, como pretende Sena, «objectividade», ou melhor, encaminhamento da linguagem para um dos graus poéticos: ou objectividade ou subjectividade, sem cair na falsa questão ou confusão entre objecto e «subjectum». Em Peregrinatio ad Loca Infecta acabamos por perceber precisamente como podem esses diferentes estádios poéticos – o subjectivo e o objectivo – conviver numa mesma colectânea de poemas.
Sobretudo, cremos que, quando Sena defende uma linguagem descritiva, isto é, quando conscientemente ataca o excesso de lirismo, fá-lo de um ponto de vista conceptual, teorético, questionando não o lirismo em si mesmo, mas aquele lirismo vazio que não traz consigo senão um método para facilmente emocionar, redundando a leitura da poesia em mera distracção que, de resto, culturalmente se inscreve numa tradição lírica de que esteve quase sempre ausente o concreto da vida, fosse por imposições de teor político e concentracionário (Inquisição, Absolutismo, Ditaduras…) fosse por um arreigado saudosismo e gosto nefelibata que, salvo excepções, encaminhou a expressão literária portuguesa para um estéril refinamento formal sem conteúdo de facto. Requer o discurso de poesia uma singularíssima capacidade inventiva, resgatando o Homem das mistificações várias, edificando a sua experiência de mundo; uma edificação poética. Portanto, a poesia:
«[…] é (ou resulta de) um compromisso – e sublinhe-se de uma vez para sempre que esse compromisso se não destina a captar o «inexprimível» … -, evidente se torna que a poesia só existe como relação: a relação que relata e a relação que relaciona entre si duas entidades.»
Deste ponto de vista, ganha relevo o Sena diz em 1977 no prefácio a que nos referimos. Aí, numa recusa de todos os dogmatismos estéticos, reitera o que nos Cadernos tinha sido, logo de início, um posicionamento crítico relativamente às tendências dominantes. Se a poesia é um trabalho e um estabelecimento de relações, então, declara, ela é, intrisecamente, relacional e comunicante. Defender-se uma linguagem descritiva, por vezes anti-lírica (evitando o que o lirismo tem, para além de vago, de excessivamente exasperado ou declamatório) conduzirá à obtenção daquela «expressão lapidar» e daquele tom clássico que, proveniente de Camões e mesmo de alguns barrocos, tornam densa e penetrante a consciência linguística e a condição verbal do poema. Essa responsabilidade de escrever poesia, enquanto arte entre as artes, e o reflectir, por meio dela, e nela meditar, sobre música e pintura, humanidade e vida, amor e morte, prazer dos corpos e esse Deus inacessível e alheado dos homens, eis o que a rede temática seniana acabará por fazer ver aos seus leitores.
Por outro lado, sublinhe-se que para Jorge de Sena, a poesia, ao representar o seu «desejo de independência partidária da poesia social, um desejo de comprometimento humano da poesia pura» e aquela expressão lapidar, intimamente se relaciona com uma noção de poesia quer como testemunho, quer como implicação explicativa do texto acerca do mundo experimentado.
Os poemas de Sena obrigam quem escreve a tecer, de modo concentrado e analítico, um texto (ou um mundo-texto) que se não exime a ser um «tipo de comunicação», participante desse mundo, sem evasões. Exige-se, portanto, uma poesia que, como mundo, tenha nela humanidade dentro, sendo que essa humanidade só plenamente se realiza, por sua vez, enquanto textualidade. Para usarmos de uma imagem representativa, não é por mera coincidência que um título como Visão Perpétua nos reenvia para a expressão da clausura eterna da prisão perpétua em que se transforma a entrega à poesia. Esta poesia que nega radicalmente a poética do fingimento e se apresenta, como se lê no poema «Pré-História», como «alimento imponderável» é, assim, prisão e ao mesmo tempo expressão da liberdade – uma liberdade de tudo perguntar, de nada aceitar como definitivo.
Uma Visão perpétua, confirmada, além do mais, por uma prática de crítica e ensaio que se fazem de uma forte consciência pessoal segundo uma perspectiva «superativa» desse mesmo trabalho crítico, o qual é iluminador do projecto de poesia – como diário, exílio, peregrinação e amor. O que se persegue, no limite, é a «visão profunda» que ultrapasse ou resolva, como se quer em Peregrinatio ad Loca Infecta, a dicotomia entre os planos da acção e do conhecimento.
 Mas nada melhor que o próprio Jorge de Sena para assim percebermos a revolução de linguagem e as repercussões de um projecto de poesia que no livro de 1969 atinge um dos seus momentos mais altos. O parágrafo de abertura, no qual se comprova e firma o projecto seniano de vida (de uma vida ofertada à poesia), é a vários níveis revelador:
«Reclusa a vida em poesia, não para tirá-la da Vida, mas para encerrá-la dentro do mundo da transfiguração poética, o único capaz de abarcar inteiramente tudo, compreendendo tudo fitando tudo, aceitando tudo, menos aquilo que diminua a liberdade da criação, que o mesmo é dizer a liberdade do ser humano, recluso em poesia, para não fugir de maneira alguma para os campos da maldade e da infâmia, da mesquinhez e da vileza, aonde tanto tem andado à solta neste mundo que perdeu o sentido do que necessita de ganhar de novo. Deixem-me, para explicar melhor, usar os títulos dos meus livros, qual cronologicamente se sucederam. O homem corre em perseguição de si mesmo e do seu outro até à coroa da terra, aonde humildemente encontrará a pedra filosofal que lhe permite reconhecer as evidências. Ao longo disto e depois disto e sempre, nada é possível sem fidelidade a si mesmo, aos outros e ao que aprendeu / desaprendeu ou fez que assim acontecesse aos mais. Se pausa para coligir estas experiências, haverá algum Post-Scriptum ao que disse. Após o que a existência lhe são metamorfoses cuja estrutura íntima só uma arte de música regula. Mas, tendo atingido aquelas alturas rarefeitas, andou sempre, na verdade, e continuará a andar, os passos sem fim (enquanto a vida é vida) de uma peregrinatio ad loca infecta, já que os «lugares santos» são poucos, raros, e ainda por cima altamente duvidosos quanto à autenticidade. Que fazer? Exorcismos. E depois vagar como Camões numa ilha perdida, meditar, sobre esta praia aonde a humanidade se desnude, e declarar simplesmente que terminamos (e começamos) por ter de declarar: Conheço o sal… sim, o sal do amor que nos salva ou nos perde, o que é o mesmo. O mais que vier não poderá deixar de continuar esta linha de, sobretudo, fidelidade à «honra de estar vivo», por muito que às vezes doa.»

II

Fenomenologicamente compreendida, o posicionamento estético de Sena consistirá na assunção se que toda a linguagem, sendo produção humana não é necessariamente, quando poeticamente formulada ou usada, sinal de subjectividade. Todo o sujeito é produtor de linguagem e, nessa medida, mesmo quando se trate de enunciação literária, há sempre, mesmo que mitigada, a presença de um sujeito, alguém que diz/ escreve. Dizer e escrever, sendo poesia, têm de ser processos transformantes da percepção dos dados do real e transfiguração desses dados por uma intelecção deles, revelando as evidências, desmontando ou destruindo as aparências.
 Jorge de Sena, enquanto poeta-autor, assume essa condição naturalmente subjectiva da poesia, mas não pratica, não adere, ao subjectivismo poético, tal qual ele é ainda praticado ou reiterado, seja pelos poetas da presença e seus epígonos, seja por lúcida fidelidade a um destino humano («soube-me sempre a destino a minha vida»).
 Digamos que, a traços largos, subjectivismo e subjectividade não são exactamente a mesma coisa quando se fala de literatura. Nem significam o mesmo quando se fala em vida predestinada para a poesia… O subjectivismo de Sena está congraçado numa funda visão trágica do mundo. Não será o seu subjectivismo que, sendo lírica, será, preponderantemente, imediata e pouco meditada. Bem pelo contrário: a sua subjectividade reside naquilo que tem há de capacidade transfiguradora quando a expressão poética vem a concentrar-se na intrínseca matéria verbal e faz o poema ser o humano mundo da linguagem densa e intensa (e não diz Sophia, tão próxima de Sena, que os versos são tensos porque os dias foram intensamente vividos?).
 Uma poesia que se afirma, como a do autor de Fidelidade, tão intrisecamente subjectiva, nem por isso deixa de ser meditação estética e, logo, questionamento filosófico e cultural transfigurados. Como lembra o próprio autor, referindo-se às séries Metamorfoses (1963) e Arte de Música (1968), importa que, na dialéctica e na evolução de livro para livro, se aprofunde a capacidade de transformar, metamorfosear poeticamente a vida que nos cabe viver. De acordo com Fazenda Lourenço, Sena «aplica a sua meditação de mundo ao mundo da criação estética – às artes visuais, à música e à linguagem poética – e, do mesmo passo, inaugura uma nova linhagem na poesia portuguesa, divergente do modernismo que entre nós se atarda até aos anos 70.»
 No afã de pensar a arte, o poeta de Sobre esta Praia… (1972) concita, muito em particular a partir da década de sessenta, e até ao fim da sua vida, a ideia de poesia como testemunho, mas um testemunho activo e não de mera observação ou contemplação. Tal origina igualmente uma ideia de poesia como itinerância e peregrinação pelos textos-mundo da sua existência de poeta, mas sempre com um radical cepticismo. Não, a poesia não é salvação, mas antes «lugar infecto», isto é, contagiado, contaminado, infectado por diversos registos retóricos, multímodas visões do mundo dos homens e dos deuses (ou desse Deus ausente por detrás deles). O poema é como que o lugar infecto (e infestado) de uma dolorosa doença que, sendo dor, ao mesmo tempo causa prazer em quem escreve: a doença, ou melhor, o pathos, a lúcida inteligência de perceber que, para além da divisão na consciência entre conhecer e agir no Homem, a própria poesia lhe é afirmação absoluta de uma incapacidade para abarcar esse Homem e as suas circunstâncias. Condenação primeira e última: ter de escrever sobre tudo e todas as coisas, humanas e desumanas e não poder deixar, jamais, de o fazer.
 Jorge de Sena, falando muito de si e considerando mesmo que a poesia lhe foi sempre como que um diário do seu quotidiano, encaminhará essa a marca da subjectividade – que é a de haver um sujeito que a escreve sem dissimular quem seja, mas sem se entregar a uma emocional e romântica expressão – para aquilo que poderíamos ver como uma estratégia discursiva centrada na narração de factos.
 Com efeito, a adopção de uma estratégia de narração corresponde a essa procura de narratividade centrada num anti-esteticismo, conduzindo o dizer poético para uma historicidade e temporalidade humanas, longe da linha creacionista do poema ou da dimensão prometeica que, como foi com o surrealismo, figurava uma ideia de poesia e de poeta. Ao querer revelar o mundo empírico, ao querer pensar testemunhalmente o amor, a morte, o tempo, a poesia, Deus-deuses e o Homem, acaba-se por chegar a um Nada fenomenologicamente exacto, transparente, seguro e misterioso. Mas, entenda-se, esse combate contra o esteticismo não é sinónimo de separação, em Sena, entre palavra como mundo e mundo suprimido. O Nada em que muitas os poemas de Sena mergulham é um Nada grávido de vida, latência de novas visões sobre uma nova realidade que acabará por irromper desse mesmo Nada.
 Para se chegar a uma espécie de amoralismo total, Sena, já em Peregrinatio escreve – como em Exorcismos fará de modo completo – disserta sobre um desconcerto muito seu, feito inteligência dolorida por saber que, da humanidade, daquilo que ela própria cria e vive, não restará senão o erro, a interrogação, e a dignidade de se ter falhado bem. A poesia é, então, poetização em si mesma, o único real absoluto, não à maneira de Rimbaud, mas um absoluto de linguagem, de amplos ritmos, de largo fôlego, compensado, por hipótese, o falhar-se ou perder-se na vida:
De amor eu nunca amei senão desejo visto
ou pressentido. Um corpo. Um rosto. Um gesto.
E nunca de paixão sujei o meu prazer
ou o de alguém. Por isso posso

mesmo as audácias recordar sem culpa.
Tudo o que fiz ou quis que me fizessem
o paguei comigo ou com dinheiro.
E só lamento as vezes que perdi

retido por algum respeito. Errei
por certo – mas foi nisso. O que me dói
não é tristeza de quem dissipou

no puro estéril quanto esperma pôde
gastar assim. O que me mata agora
é este frio que não está em mim.

Poesia-diário, a colectânea onde, de modo mais claro nos parece haver a passagem de um lirismo especulativo – passagem essa que se opera dentro do próprio livro e ao longo das secções que o formam – para uma estratégia declaradamente narrativa, é Peregrinatio. Como se o poema fosse construído segundo uma lógica de entrecruzamento discursivo, em que lirismo e narrativa mutuamente se confundem e mutuamente se complementam num sistema de vasos comunicantes entre os textos, esse livro é o que consta de setenta e um poemas, «alguns dos quais amáveis, com um apílogo altamente filosófico, e sem prefácio do autor»; um volume, de resto, onde se depuram muitas das ideias e muitas das opções estilísticas, ideológicas e metaliterárias ou metapoéticas que Sena, desde a sua estreia em 1942 com Perseguição, tinha postulado, ora por meio da poesia, ora através do seu ensaismo. Uma poesia que fosse, tal como o ensaio, um sentimento que pensa e um pensamento que sente, mas, e para além disso, uma poesia que fosse um lirismo que conta e uma narrativa que canta.
 Visitam-se, pois, os lugares infectos do Homem. Poderia ser essa «peregrinatio» um libelo contra os Estados Unidos, atolados nas suas contradições históricas, particularmente as que se inserem no contexto histórico-social desses terríveis anos sessenta, da luta dos direitos sociais, da Guerra do Vietname? Não só, mas também. Poderia ser essa peregrinação, a viagem aos infernos da própria condição da poesia, tanto mais poética quanto humana? Eventualmente.
 Será essa peregrinação, por outro lado, o roteiro, o diário dos anos que vão de 1959 até a 1969; viagem mais interior que propriamente visitação de locais referencialmente localizáveis? Ou, se não, viagem mais projectada que real?… E, a ser assim, de que modo uma poesia que se quer de circunstância se dá a ver em registos vários – dos poemas em verso branco, de ritmos ora longos (hendecassílabos e dodecassílabos e outros tantos com quinze sílabas métricas), ora breves, em redondilha, sem esquecer o decassílabo de não poucos sonetos… – como se ao mesmo tempo se perseguisse a anulação entre subjectivo e objectivo?
Peregrinatio ad Loca Infecta tem, em pano de fundo, sem dúvida, a experiência americana e aquela temática do exílio que Francisco Cota Fagundes em altura própria explorou e desenvolveu com sagacidade. Mas há nesse volume a repercussão de uma vida e de uma visita, cremos e dessa ambivalência – entre poesia de situação e poesia feita diário íntimo, entre confissão meditativa e aplicação cognoscitiva – vive muita da produção literária seniana. Com efeito, Sena, em 1968, vem à Europa por vários meses. É esse o ano em que a revista O Tempo e o Modo lhe dedica integralmente o nº 59 (Abril) e é nesse ano que também publica Arte de Música. O livro de 1969 revela, de modo oblíquo, mas de modo também explícito, a poesia-diário de Sena e a vida-peregrinação do poeta. A enunciação multifacetada deste volume denota, se quisermos, uma primeira ideia-chave: a poesia, se é testemunho, sê-lo-á nos mais diversos andamentos, numa liberdade absoluta de formas poéticas e de linguagens, pois detém em si o poder de ser todas as linguagens. Num tão vasto mundo, só uma poética de longo alcance retórico pode abarcar o muito que deseja conhecer.
 A abrir temos um prefácio que ironicamente se auto-intitula «Isto não é um prefácio», procedimento provocatório, colocando sob um anátema não tanto este prefácio – que o não é, diz-nos o seu prefaciador – mas todos os anteriormente escritos e que, prazeirosamente, Sena escrevia para chocar, esclarecer e fazer o que, segundo ele, a crítica especializada não sabia nem podia fazer: estudá-lo.
Pelo designativo «Isto não é um prefácio», como que temos uma desautorização do próprio gesto do ensaio enquanto exercício de uma inteligência. Em Peregrinatio encena-se, antes de mais, por ironia, a improcedência ou o desinvestimento do lugar, forma e função do prefácio tal qual o mesmo Jorge de Sena o idealiza: «ensaio-emoção-da-inteligência», até porque se retira a autoridade da categoria ou género «ensaio» a um texto que acaba por ter de ser lido, então, como mais um comentário aos poemas-comentários que configuram essa Peregrinatio ad Loca Infecta. Deixando de o fazer, o prefácio, já o livro se insinua como «apenas» poesia-diário, com datação dos escritos e representação / encenação da viagem ou viagens feitas ao longo de determinado tempo, colocando sob o signo da circunstância a escrita referencial que se apresenta. Não é, logo, preciso um prefácio.
 Nada mais certo: a uma poesia que tudo quer perscrutar cabe bem a representação de um autor-poeta que, conhecendo como mais ninguém as motivações da sua escrita, chega a um ponto em que declara não ser o seu prefácio mais um dos tantos até essa data escritos, mas antes um «não-prefácio», dado que a sua poesia se coloca num plano já autónomo e absolutamente «fora» de quem sobre ela detém autoridade. Os poemas, assim vistos, são dos outros, daqueles que, ao lê-lo, dispensam o prefácio, por faceto, e querem agora ler não o poeta-prefaciador que não pode já escrever sobre eles, mas apenas ler o poeta-diarista que irá inquirir do sentido pessoal e colectivo de uma «peregrinatio». Vê-los ao longe, como se de outros fossem, eis uma segunda impressão que os poemas, por um efeito de distanciamento, datados no tempo, acabam por provocar.
 Deste modo, os poemas de Peregrinatio começam antes de começar. Ou seja: sob a égide do equívoco ou de uma ficção irónica em que poemas são «como que uma selecção de comentários do próprio poeta à sua situação no mundo», escreve Sena no seu «não-prefácio». Obedecendo à ordenação da sua poesia segundo «tempos», estamos, em 1969, no período medial da sua obra. Pertence esta colectânea de setenta poemas ao mesmo «tempo», à mesma «época» – os anos sessenta – em que se tinham já publicado, em 1963, Metamorfoses. E é este o período riquíssimo em que escreve e publica «O Poeta é um Fingidor» (ensaios), O Reino da Estupidez (polémica, ensaios culturais, história e crítica); ainda Os Sonetos de Camões e o soneto quinhentista peninsular (que virá a ser publicado emm 1969, apesar de redigido antes); em 1964 defende a sua tese de doutoramento, aos 45 anos, o magistral Uma Canção de Camões e é ainda nessa década que adquire nacionalidade brasileira (1964) e transita para a Universidade de Wiscosin (1965), como professor de Literatura Portuguesa e Brasileira. Em 1966 publica a sua tese sobre Camões e Novas Andanças do Demónio (em 1960 tinham sido editados os contos de Andanças do Demónio), onde se inclui a novela O Físico Prodigioso e, em 1968, para além do reconhecimento geral da intelectualidade portuguesa, encimado, esse reconhecimento, pelo número de O Tempo e o Modo, não se esqueça que é logo em 1970 – findando um ciclo importantíssimo de experiência humana – que Sena passará para a Universidade da Califórnia para dirigir os Departamento de Espanhol e Português daquela Universidade. Pelo caminho, ao fechar os anos sessenta: Peregrinatio.
 Sob o signo do equívoco, dissémos. Sete poemas, escreve, referem-se à sua viagem à Europa ocorrida entre fins de 1968 e princípios de 1969 e neles se patenteia e aí se afirma também que, para além de ser um livro organizado com poemas avulsos, pese embora a coerência de temas e motivos, é concomitantemente um livro com poemas de circunstância.
 Para Sena, de acordo com a sua concepção fenomenológica da linguagem poética: «toda a poesia é circunstancial; e a específica circunstancialidade dela será precisamente o que contribui para a particular unidade desta peregrinatio: de certo modo um diário poético dos anos de 1959-69, paralelamente à composição das duas séries sobre obras de arte (plásticas ou musicais).» e será em Peregrinatio ad Loca Infecta que Jorge de Sena, a partir da alusão ao guia espiritual, de peregrinação à Terra Santa, da autoria provável de Egéria (ou Etéria), «freira talvez de Braga», que terá escrito esse documento em 395 d. C, levará também até ao limite essa associação entre testemunho-peregrinação e metamorfose e aquilo que é perseguição, independência e descrição. A consumar a unidade deste livro está, cremos, uma coesão estilística, de teor narrativo por meio de cuja estratégia discursiva o poeta responsavelmente põe a nu as evidências que a hipocrisia humana oculta. Justifica-se plenamente o juízo segundo o qual, diz o autor, «[estes] poemas representam momentâneas descidas críticas do poeta ao seio da sua visão do mundo.» e, apesar de pedir para que não se associe esta «peregrinação» a uma qualquer «expressão das amarguras de ser-se peregrino na América», por ingratidão que seria quanto ao muito que Brasil e Estados Unidos lhe ofereceram, não deixa de admitir que «[viveu], fosse onde fosse, no lugar infecto que é o nosso mundo de hoje, em que brutalmente, insidiosamente, e teimosamente persiste, seja em que hemisfério ou regime, uma concepção do mundo e da vida como tirânico vale de lágrimas.»
 Após apresentar um livro que acaba por constituir um momento de transição entre a sua poesia da década de sessenta e a que fará depois (em 1972 publicará Exorcismos, livro de poemas em que ainda se percebe a contaminação dos lugares infectos visitados em 1969, mas onde igualmente se percebe a fidelidade a uma expressão de circunstância na poesia. Ou melhor: a fidelidade de dizer claramente do mundo circundante, procurando no poema a função exorcizadora que ele, «desde os tempos mais vetustos» tem), o poeta lança-se numa estrutural ou arquitectural «viagem» a realizar-se num plano mental: projectando em livro o que exteriormente é da ordem biográfica ou da ordem existencial e se torna matamorfoseado, subjectivado pela rememoração. Exigindo uma mitação (ao cabo de mais de dez anos, curiosamente…):
As flores, solícitas, desfolham-se.

Há mais de uma década, ao fim de um longo poema,
Verifiquei que assim era.

Que as flores se desfolhem não é novidade alguma.
Que o façam solícitas, tão prontas como tudo
a despetalar-se de si mesmas, assumindo
o destino implícito na frágil inserção
das próprias pétalas, eis o que constitui
peculiar observação. Mas
será que importa muito registar
analogicamente este saber de nada,
tão antigo e vulgar, que não se vê,
não se ouve, não se considera
senão como imagem de como perdemos
de boa mente, de boa vontade, ou
gostosamente, numa resignação que é alegria,
numa jovial complacência, aquilo mesmo
por que sendo, nos somos e vivemos? […]»

Se, na verdade, a poesia se afirma como perseguição intelectiva do ser e estar no munmdo, se é poesia tudo quanto, na ordem do discurso, é procura de sentido para um universo tantas vezes misterioso e de quem nem os deuses serão senão imperfeitas e cruéis emanações; poesia vem a ser, ainda e sempre, e por meio de outras formas de mundo – as artes visuais, a música, a literatura, e restantes produções culturais humanas (comportamentos, pessoas, gestos…) que responde a uma das mais inquietantes perguntas de Sena na sua «peregrinatio»: a que diz respeito, no fundo, à «miséria das palavras», segundo o tópico modernista (e da modernidade) das «palavras gastas» à força de um excesso de linguagem:
«E a miséria é isso: não imaginar
o nome que transforma a ideia em coisa,
a coisa que transforma o ser em vida,
a vida que transforma a língua em algo mais
que o falar por falar.»

A voz que fala em Peregrinatio vai recriar uma realidade por meio das palavras, a vida verdadeira e única, ainda que sabendo da miséria de não poder haver linguagem poética suficiente para que o acto de nomear se faça, concretamente coisa dita. Desocultar, em peregrinação dialéctica pela vida, a realidade; desvendá-la ou tirar-lhe o manto, o véu de Maya, que são as convenções e a segurança das leis quotidianas, primeiro fito de uma viagem ao labirinto da própria criação de literatura como criação de vida.
 No central «Em Creta com o Minotauro» – um ser metade homem e metade touro, associado à luta entre bestialidade e humanidade, símbolo da própria condição humana, que está sempre entre animalidade e instinto e inteligência e razão – a voz da enunciação que autobiograficamente se apresenta, como num palco, vai-se revelando e revelando ao mundo vivido. Se bem que seja o problema do exílio aquele tópico que mais patente se pensa nesse poema, essa sensação de exílio – de Portugal e que o faz coleccionar «nacionalidades como camisas se despem» – acaba por levar Sena a uma das raras afirmações verdades que foi capaz de afirmar: «Eu sou eu mesmo a minha pátria», que não por acaso é a língua portuguesa em que por acaso escreve. Esse poema, precedido do poema «Amor» (verdadeira hermenêutica do sentir amoroso como «Amor de amor de amar»), e seguido dos «Sete poemas da Visão Perpétua», é também, sendo de exílio, uma alegoria da vida como labirinto, da vida «pelo mundo em pedaços repartida» e que, revelando a condição de peregrino de Sena, é revelação da vida humana, da humanidade que desde de a Grécia, esqueceu o próprio Minotauro, surgido antes da pátria de Péricles, anterior a «esta merda toda que nos cobre há séculos, / cegada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos / os escravos dos outros».
 A familiaridade com o Minotauro – que vai tomando café com o sujeito do poema – é a única pátria possível. O Minotauro do poema: não apenas a figura mitológica, transfigura-se em «alter ego» do poeta («Nem eu nem o Minotauro / teremos nenhuma pátria. Apenas o café, / aromático e bem forte […]») e vem a ser, se quisermos, representação da sua própria obra; obra de «monstro rangendo os dentes na treva», como escreve numa «Carta a um Jovem poeta», parodiando Rilke. É que a poesia seniana é isso mesmo: a «minotáurica» expressão de vários exílios: o da pátria, o da literatura (longe de escolas e grupos), o de si mesmo, corpo, razão e sentidos, sondados nesta «peregrinação» a um mundo exterior e interior, de grave balanço existencial. E talvez que a própria numeração dos fragmentos em que se organiza o poema nos remeta, afinal (e tão ao gosto do seu autor) para o significado esotérico do número cinco, o do Homem…

III

Já no fundador poema «La Cathédral engloutie» se preconizava, tendo em conta os versos nos quais, devido à audição de uma obra musical de Debussy, a irrupção da poesia vem desvelar a primeira das realidades feitas só de aparência – o «eu», o sujeito:
«Submersa catedral inacessível! Como perdoarei
aquele momento em que do rádio vieste,
solene e vaga e grave, de sob as águas que
marinhas me seriam mer destino perdido?
É desta imprecisão que tenho ódio:
nunca mais pude ser eu mesmo – esse homem parvo
que, nascido do jovem tiranizado e triste,
viveria tranquilamente arreliado até à morte.
[…]»

A revelação poética é uma revelação do si a si próprio: o jovem, tiranizado e triste, torna-se «soma teimosa do que não existe / exigência, anseio, dúvida e gosto / de impor aos outros a visão profunda, / não a visão que eles fingem, / mas a visão que recusam […]». Repete-se, de certo modo, em Peregrinatio ad Loca Infecta a mesma sensação de excepcionalidade do poeta, quando comparado com «os outros». O poeta é, em Sena, não o inspirado ou o tomado por um qualquer daimon, mas não desconhece que esse sentido do demoníaco ou do dionisíaco existiu um dia e está presente, ou latente, quando o poema surge. O eu / os outros torna-se, assim, uma das linhas-de-força do conjunto, transversal, essa oposição, nas quatro secções. Mas um eu dubitativo e mesmo receoso ou desconfiado de quanto o exercício do poema-visão-diário lhe faculta.
 Dir-se-ia que o gesto encenado no poema «Os Trabalhos e os Dias» é retomado de forma subtil em Peregrinatio, na medida em que se pretende aprrender o que se escreve e, com isso, solicitar a vinda do mundo inteiro para o poema, matter of fact. A poesia constante, por exemplo, nos sonetos de «Heptarquia do Mundo Ocidental» é ainda a invocação do poema como mesa do mundo, e é o chamamento do texto que se traduz na inescapável interpretação do mundo, que faz com que o texto seja texto ou literatura significativa, por tudo transmudar em linguagem. Embora haja sempre a sensação de que «no limiar do tempo», «limbo perdido» só se possa ser feliz «à estupidez das coisas», pois que aos olhos do «eu» tudo se dissolve entre esperança e desesperança de o entender, toldando de uma dúvida essencial a própria «visão profunda» que se julgaria possuir pela poesia:
«Como quando era ténue a minha esperança,
a desperança é ténue, retraída.
Mas ténue apenas que uma e outra sejam,
tão diminutas que se não diferem,

à transparência vejo que não tenho
nada. Que em nada creio, nada espero,
nem desespero de não ter que creia.
À luz do mundo, que atravessa tudo,

sequer importa ver esta miséria
imensa. Imensa? Não. Porquê – imensa?
Porquê – miséria até? Se só resquício

de vida humana que nem chega a ser,
se apenas é visão de quanto vale
a própria luz com que não vejo nada?

A poesia como exercício vital, a integração do mundo na poesia e da poesia no mundo, como indicia o gesto afirmativo daquele primordial verso «Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro» pode reiterar-se enquanto crença na escrita como respiração inescapável («e principio a escrever como se escrever fosse respirar»).
 Esse poema, inserto em Coroa da Terra, constitui-se como «ars poetica» que, na primeira secção de Peregrinatio ad Loca Infecta, com o poema de abertura – num tom anafórico que repercute o tipo de poesia elevada, apropriada a um elogio – dedicado a Sophia de Mello Breyner, constitui, também, uma meditação sobre a condição do escritor, pois se associa o dar filhos ao mundo com o dar versos a esse mesmo mundo. Quer dizer: o poeta é um fecundador, alguém que na relação intersubjectiva com a realidade se abre a essa mesma realidade, por mais cruel e insidiosa seja a vida real. Portanto, é Sophia de Mello Breyner, e não outro destinatário, quem é convocada também como nome e emblema, quem acaba por funcionar como «alter ego» da senianan voz que a configura. O poema de circunstância torna-se, assim, palco enunciativo, espaço onde a voz da escrita se vai representando como uma voz vidente, que se vai multiplicando ao ver a diversidade dos lugares, espaços, tempos, disciplinas… A Poesia de Peregrinatio: «uma evidência da realidade concreta, um mundo onde os passos do poeta marcam o ritmo da aparição e da revelação do sentido das coisas.».
 No limite, a atenção à realidade concreta deriva e ao mesmo tempo origina (d)esse mesmo testemunho, facto que, no caso do volume de 1969, é transposto «para o campo da estrutura da linguagem poética», porquanto a circunstancialidade «já não consiste em algo de interior e imanente: uma marca ou propriedade da linguagem que estrutura o poema.», como considera Luís Adriano Carlos. Assim é que, dialecticamente, Jorge de Sena acabará por fazer a sua peregrinação aos lugares infectos na companhia de outros, que são como seus companheiros de viagem e que, como ele, Dante a passar o cabo dos cinquenta anos, terão de ver o que ele vê, segunda uma «visão profunda» que lucidamente é cepticismo e realismo absoluto ou integral.
 A seguir ao poema «A Sophia de Mello Breyner Andresen Enviando-lhe um Exemplar de «Pedra Filosofal»», comparece um poema, «Vampiro», em que o sujeito do enunciado e da enunciação se misturam e narram, elipticamente, os factos exteriores (gatos que brincam, um automóvel cortando o ar da noite, risos na distância e, mais longe, «o rodar de um eléctrico»). A evocação, tão similar à que ocorre no romance Sinais de Fogo, quando o protagonista descobre a poesia e tem de escrever com as mãos tremendo os versos «sinais de fogo os homens se despedem…» e igualmente um eléctrico vem a ser motivo ou pretexto da escrita; a evocação, diziamos, logo se faz especulação, meditação (no acto de lembrar, as mãos do «eu» tremem-lhe, pois que se inicia a escritura do poema?) e se chega à clarividente certeza de que, recordando, «as coisas [lhe] são estranhas» e, questionando tudo, o sujeito como que se divide, e cindido sabe que uma voz, de fora, pergunta: «Os gatos brincam? Outro carro passa? / Outros regressam? Viram-te? Tiveram-te? / Sou eu quem está dentro de ti com eles? […]».
 Justamente, dir-se-ia, o modus faciendi deste livro oscila entre testemunho e circunstância («[a sua poesia é] o diário poético de uma testemunha», sentencia no prefácio à segunda edição de Poesia-III), mas tem em linha de conta que a peregrinação encetada, enquanto itinerário, compreende essa necessidade última de testemunhar de si e dos outros, universalizando a poesia, não a circunscrevendo a uma projecção emotiva ou sentimental de um indivíduo que assim peregrina num diário que passa, na datação e na arquitectura e edição, por sobre outros tantos livros dados à estampa entre o ano do poema mais antigo constante em Peregrinatio (de 1950) e o que encerra o volume, «Relatório», com data de 7/5/1969.
 Em última análise, Peregrinatio ad Loca Infecta, sendo testemunho daquele «não esperar» nada do Nada que é o mundo, conclui, ao findar os anos sessenta, um ciclo poético marcado por aquela necessidade de construir lapidarmente, classicamente, uma personalidade independente, uma poética da perseguição incessante do que possa definir a humanidade como mais que a «carne seca» que a condiciona, tudo segundo uma revolução estética que participa de uma propensão descritiva. Descrever testemunhando, descrever abrindo a expressão lírica ao poema longo, forma que abarca uma prosódia variável, e exige uma profunda meditação feita de diálogos, citações, narrações, tal como Peregrinatio, apesar das suas quatro secções, se organiza. Modo outro de dizer exílio, «de amor, de poesia e de ter pátria» – os quatro tempos, os quatro blocos que de Portugal (1950-1959), Brasil (1959-1965), Estados Unidos da América (1965-1969) a Notas de um Regresso à Europa (1968-1969) – numa circularidade perfeita que confirma esta poesia como projecto pensado até ao fim. Projecto que termina, camonianamente, onde começou – na fidelidade ao seu destino, podendo declarar, com conhecimento de mundo e de humanidade:
Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.

 

Obras de Jorge de Sena
(consultadas para realização deste ensaio)

«Conceito de Poesia», Conferência. Ateneu Comercial do Porto, 7 de Jul.1951
Correspondência 1959-1978, com Sophia de Mello Breyner. 2006. 3ª ed. Aumentada, Lisboa: Guerra e Paz, 2010.
Correspondência com Eduardo Lourenço, Ed. Mécia de Sena, Lisboa: Imprensa Nacional, 1991
«Da compreensão em Poesia», Diário Popular [Lisboa], 15 de Jun.1955, [Poesia e Cultura, 2005] Dialécticas Aplicadas da Literatura. Lisboa, Edições 70, 1978.
Dialécticas Teóricas da Literatura. Lisboa, Edições 70, 1977.
O Dogma da Trindade Poética (Rimbaud) e Outros Ensaios, ed. Mécia de Sena, Porto, ASA, 1994.
Fernando Pessoa e C.ª Heterónima (Estudos Coligidos 1940-1978), ed. Mécia de Sena., 3ª ed., aum., Lisboa: Edições 70, 2000.
Sobre Teoria e Crítica Literária, Porto, Edições Caixotim, 2008.
«Pátria ingrata o meu país». A Capital [Lisboa] 5 de Maio 1977. Discurso do XV Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina, Taormina, Sicília, 25 de Abril, 1977. [Poesia e Cultura, 2005] Poesia – I, 3ª ed., rev., por Mécia de Sena. Lisboa: Edições 70, 1988.
Poesia – II, 2ª ed., rev. Por Mécia de Sena. Lisboa: Edições 70, 1988.
Poesia – III, 2ª ed., rev., por Mécia de Sena. Lisboa: Edições 70, 1989.
Poesia e Cultura. Ed., Mécia de Sena. Porto: Caixotim, 2005.
«A Poesia e a vida», [Poesia e Cultura, 2005] «A poesia é só uma 1940-1951», com José Blanc de Portugal, Ruy Cinatti, José-Augusto França e Tomaz Kim, Cadernos de Poesia [Lisboa] 6 (2ª Série), 1951, pp.5-8. [Poesia e Cultura, 2005] «O Poeta é um fingidor», Lisboa, Ática, 1961.
40 Anos de Servidão, ed. Mécia de Sena, 1979, 3ª ed. Lisboa: Edições 70, 1989.
O Reino da Estupidez – I, 1961, 3ª ed., rev., por Mécia de Sena, Lisboa: Edições 70, 1984.
«Sobre a objectividade da poesia». Diário Popular [Lisboa] 15 Jul. 1943, p. 5 +. [Poesia e Cultura, 2005] «Sobre o discursivismo em poesia». [Poesia e Cultura, 2005] Sobre Teoria e Crítica Literária. Ed. Mécia de Sena. Porto: Caixotim, 2008.
Visão Perpétua, ed. Mécia de Sena, 1982, 2ª. ed., Lisboa: Edições 70, 1989. 

Obras sobre Jorge de Sena consultadas:

CARLOS, Luís Adriano. Fenomenologia do Discurso Poético. Ensaio sobnre Jorge de Sena. Porto: Campo das Letras, 1999 (Doutoramento. U. Porto, 1993)
CRUZ, Gastão. «Jorge de Sena na poesia do seu tempo ou “A arte de ser moderno em Portugal”». A Vida da Poesia: Textos Críticos Reunidos (1964-2008). Lisboa: Assírio & Alvim, pp.112-133.
CRUZ, Gastão e Paulo TEIXEIRA. ORG. Jorge de Sena, N. esp. de Relâmpago [Lisboa], nº 21, 2007.
CATTANEO, Carlo Vittorio. «Testemunho e Linguagem», trad. Olga Gonçalves. Lisboa, Estudos sobre Jorge de Sena (1984), pp. 239-258.
COELHO, Eduardo Prado. «Jorge de Sena, a estrutura da poesia e a metamorfose do sujeito». Lisboa, Estudos sobre Jorge de Sena (1984). Pp. 169-169.
FAGUNDES, Francisco Cota. A Poet’Way with Music: Humanism in Jorge de Sena’s Poetry, Providence, RI: Gávea-Brown, 1988.
FAGUNDES, Francisco Cota. «Para Emergir Nascemos»: Estudos em Rememoração de Jorge de Sena. Lisboa: Salamandra, 1999.
FAGUNDES, Francisco Cota e Jorge Fazenda LOURENÇO., org. Jorge de Sena: Novas Perspectivas, 30 Anos Depois. U. Católica Editora, 2009.
Jorge de Sena Vinte Anos Depois (O Colóquio de Lisboa, 1998). Lisboa: CML/Cosmos, 2001
GUIMARÃES, Fernando. «Jorge de Sena ou os limites da alteridade em poesia». Lisboa, Estudos sobre Jorge de Sena (1984), pp. 152-159.
LISBOA, Eugénio.ed. Estudos sobre Jorge de Sena.Lisboa: Imprensa Nacional, 1984.
LOURENÇO, Jorge de Fazenda. A Poesia de Jorge de Sena: Testemunho, Metamorfose, Peregrinação. Lisboa: Guerra e Paz, 2010 (1ª ed. F. C. G., Paris, 1998).
O Essencial sobre Jorge de Sena. Lisboa: Imprensa Nacional, 1987.
___________. «Jorge de Sena: Fragmentos». Um Século de Poesia (1888-1988), ed. Fernando Pinto do Amaral, José Bento, Gil de Carvalho e Manuel Hermínio Monteiro. Nº. esp. de A Phala. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988, pp.72-78.
___________. O Brilho dos Sinais. Estudos sobre Jorge de Sena. Porto: Caixotim, 2001.
MAGALHÃES, Joaquim Manuel. «Sobre Jorge de Sena», Os Dois Crepúsculos: Sobre Poesia Portuguesa Actual e Outras Crónicas. Lisboa: A Regra do Jogo, 1981, pp.49-62.
____________. «Jorge de Sena». Um Pouco da Morte. Lisboa: Presença, 1989, pp.43-57.
MARTINHO, Fernando J. B.. «Leituras na poesia de Jorge de Sena», Colóquio/Letras [Lisboa], nº 67, 1982, pp.14-25.
 

De António Carlos Cortez

 

* Professor de Literatura Portuguesa, crítico e ensaísta, é colaborador permanente, com crítica de poesia, no Jornal de Letras, nas revistas Colóquio-Letras (Fundação Calouste Gulbenkian), Relâmpago (Fundação Luís Miguel Nava), Agio (Ed. Artefacto), Pessoa – revista da Casa Fernando Pessoa e Letras Convida – revista de artes, literatura e cultura do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigador pelo mesmo centro, CLEPUL, e do Instituto de Estudos do Modernismo, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Publicou cinco livros de poesia – Ritos de Passagem, 1999; Um Barco no Rio, 2002; A Sombra no Limite, 2004; À Flor da Pele, 2008 e em 2010, Depois de Dezembro (Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores / RTP – melhor livro de poesia de 2010). Em 2005 publicou Nos Passos da Poesia – estudos sobre a pedagogia do texto lírico. É conselheiro para a leitura do Clube UNESCO, em Portugal. Prepara doutoramento em Estudos Portugueses – poesia contemporânea (sobre a poesia de Gastão Cruz).