10 poemas de Emily Dickinson traduzidos por Jorge de Sena

Celebrando data nacional americana, aqui trazemos uma das vozes poéticas mais originais dos USA: Emily Dickinson (1830-1886), a "solitária de Amherst". Especialmente apreciada por Jorge de Sena, mereceu-lhe a tradução de 80 poemas, reunidos em livro recentemente reeditado, em cuja introdução se pode ler: Nenhuma poesia do tempo se parecia com a sua, tão insólita, tão abrupta, tão tensa e tão concisa. […] a "liberdade" de Emily Dickinson é extremamente complexa, só entendível em pessoalíssimos termos. Mas, na história da poesia norte-americana, em que as figuras dolorosas ou tragicamente isoladas são tantas, ela avulta esplêndida, igualmente distante dos "profissionais" da poesia ou dos fabricantes dela para consumo doméstico ou público.

 

 

A Letter is a joy of Earth –
It is denied the Gods –

 

Uma carta é uma alegria da Terra
– Denegada aos Deuses.

 

* * *

 

A sepal, petal, and a thorn
Upon a common summer's morn –
A flash of Dew – A Bee or two –
A Breeze – a caper in the trees –
And I'm a Rose!

 

Sépala, pétala, espinho.
Na vulgar manhã de Verão –
Brilho de orvalho – uma abelha ou duas –
Brisa saltando nas árvores –
– E sou uma Rosa!

 

* * *

 

Afraid? Of whom am I afraid?
Not Death – for who is He?
The Porter of my Father's Lodge
As much abasheth me.

Of Life? 'Twere odd I fear [a] thing
That comprehendeth me
In one or more existences –
At Deity decree –

Of Resurrection? Is the East
Afraid to trust the Morn
With her fastidious forehead?
As soon impeach my Crown!

 

Ter Medo? De quem terei?
Não da Morte – quem é ela?
O Porteiro de meu Pai
Igualmente me atropela.

Da Vida? Seria cómico
Temer coisa que me inclui
Em uma ou mais existências –
Conforme Deus estatui.

De ressuscitar? O Oriente
Tem medo do Madrugar
Com sua fronte subtil?
Mais me valera abdicar!

 

* * *

 

By a departing light
We see acuter, quite,
Than by a wick that stays.
There's something in the flight
That clarifies the sight
And decks the rays.

 

A uma luz evanescente
Vemos mais agudamente
Que à da candeia que fica.
Algo há na fuga silente
Que aclara a vista da gente
E aos raios afia.

 

* * *

 

I died for beauty – but was scarce
Adjusted in the Tomb,
When One who died for Truth was lain
In an adjoining Room –

He questioned softly why I failed?
"For Beauty," I replied –
"And I – for Truth – Themself are One –
We Brethren are," He said –

And so, as Kinsmen met a-Night –
We talked between the Rooms –
Until the Moss had reached our lips –
And covered up – our names –

 

Morri pela Beleza – mas mal eu
Na tumba me acomodara,
Um que pela Verdade então morrera
A meu lado se deitava.

De manso perguntou por quem tombara…
– Pela Beleza – disse eu.
– A mim foi a Verdade. É a mesma Coisa.
Somos Irmãos – respondeu.

E quais na Noite os que se encontram falam –
De Quarto a Quarto a gente conversou –
Até que o Musgo veio aos nossos lábios –
E os nossos nomes – tapou.

 

* * *

 

I hide myself within my flower,
That fading from your Vase,
You, unsuspecting, feel for me –
Almost a loneliness.


Escondo-me na minha flor,
Para que, murchando em teu Vaso,
tu, insciente, me procures –
Quase uma solidão.

 


* * *

 

I'm Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – Too?
Then there's a pair of us!
Don't tell! they'd advertise – you know!

How dreary – to be – Somebody!
How public – like a Frog –
To tell one's name – the livelong June –
To an admiring Bog!

 

Não sou Ninguém! Quem és tu?
Também – tu não és – Ninguém?
Somos um par – nada digas!
Banir-nos-iam – não sabes?

Mas que horrível – ser-se – Alguém!
Uma Rã que o dia todo –
Coaxa em público o nome
Para quem a admira – o Lodo.

 

* * *

 

Silence is all we dread.
There's Ransom in a Voice –
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.

 

O Silêncio é o que tememos.
Há um Resgate na Voz –
Mas Silêncio é Infinidade.
Não tem sequer uma Face.

 

* * *


Soft as the massacre of Suns
By Evening's Sabres slain

 

Suave como o massacre dos Sóis
Mortos pelos sabres do Anoitecer.


* * *

Volcanoes be in Sicily
And South America
I judge from my Geography –
Volcanoes nearer here
A Lava step at any time
Am I inclined to climb –
A Crater I may contemplate
Vesuvius at Home.

 

Os vulcões são na Sicília
E na América do Sul.
Diz-mo a minha geografia –
Vulcões mais perto daqui,
Encostas de Lava que eu
Queira inclinar-me a subir –
Cratera que eu possa ver –
Há um Vesúvio cá em casa.

 

* * *

Dois interessantes casos americanos e o mais que vem a propósito deles

Trazidos à baila há quase que exatos 40 anos, cabe ao leitor avaliar se estes “dois interessantes casos americanos” relativos à situação dos imigrantes, particularmente os portugueses, permanecem atuais na terra do Tio Sam.  

 

Actualmente, dois curiosos casos têm tido grande repercussão jornalística nos Estados Unidos; e ambos (se bem que não seja tanto a significação deles como certo sensacionalismo o que excitou jornalistas) extremamente importantes para trazer à luz do dia alguns aspectos estranhos da América em relação aos imigrantes que recebe, e que até agora não têm sido debatidos como devem, não só na América mas também nos países que a essas pessoas correspondam.

Durante mais de cem anos (já que as grandes massas migratórias só começaram a chegar ou a ser atraídas depois dos meados do século xix), os dramas dos emigrantes — salvo um ou outro caso politicamente famoso e alguma literatura — longamente e silenciosamente se dissolveram no domínio absoluto do anglo–saxonismo. E o facto é que a imigração, desde que a América se fez América, não se tem feito da Inglaterra, mas de todo o resto do mundo não anglo-saxónico, a que os irlandeses não pertencem e até os escoceses não muito. Estes dois casos, porém, levantam finalmente a questão da constitucionalidade de certas normas e acções sempre humildemente aceites, e que provavelmente são ignoradas ou nunca foram atentadas pelos países de origem ou de naturalização de quem emigra para os Estados Unidos.

O primeiro caso tem que ver com a imigração clandestina, entrada pela fronteira do México. E um problema de atracção compreensível, uma vez que as regiões desse país confinantes com os Estados Unidos são pobres e pouco desenvolvidas. Mas têm raízes na História, se nos lembrarmos que uma área imensa de todo o sul dos Estados Unidos foi conquistada ao México, e possui vastas populações mexicanas (ou «chicanas») que se tornaram americanas por força da conquista. São milhares os mexicanos que, sós ou com as famílias, entram e ficam clandestinamente na Califórnia, Texas, Novo México, etc., aonde os que os precederam por atracção e pela existência de populações análogas, lhes arranjam trabalho e os escondem das autoridades nas vastidões territoriais ou na massa anónima dos seus guetos urbanos. Claro que, quando são denunciados ou descobertos como imigrantes ilegais, as autoridades os expulsam de novo para o México.

Mas, muito recentemente, uma família assim descoberta recebeu — a mulher e os filhos — ordem de regressar ao México, enquanto o chefe da família era metido num avião e remetido à Espanha. Não foi isto uma daquelas confusões de latinidades muito comuns na América. Foi mais estranho. Mas muito burocraticamente natural, visto que os Estados Unidos não reconhecem., para efeito de «residência permanente» (eufemismo oficial para «imigrante legal») qualquer nacionalidade segunda ou do país de onde o imigrante partiu. Toda a gente é, para tal efeito, sempre do país onde nasceu, mesmo que isso possa envolver descaso de um passaporte de outra nação amiga. Assim, por exemplo: um húngaro foi menino para Portugal, viveu anos lá, cresceu, adquiriu a nacionalidade portuguesa, e transferiu-se depois para os Estados Unidos. Se acaso, por qualquer razão, for devolvido à procedência, esta não será Portugal, de cujo cidadão é e onde se fez homem, mas a Hungria, onde apenas nasceu e não põe ou não quer pôr os pés há décadas. Talvez o exemplo não seja bem escolhido, porque, por ser húngaro, quiçá o não devolveriam, por excepção, para o outro lado da «cortina de ferro». Mas aquele pobre chefe de família não era húngaro; e parece que, muito jovem, emigrou da sua Espanha natal para o México, aonde constituiu família. Com ela, mais tarde, esgueirou-se para os Estados Unidos. Apanhado pelas autoridades, estas aplicaram rigorosamente as normas — e ei-lo retornado à Gran Via ou à Puerta dei Sol, que nunca terão sido da sua vida, mas são lugares da capital do país onde nasceu. O caso foi tão incongruente que suscitou clamores (até porque, hoje em dia, os «chicanos» não perdem uma oportunidade de reclamar), visto que a família deverá retirar-se para o México ou para lá já foi retirada, com ele encalhado em Espanha. Imaginem por aí que, um dia, os Estados Unidos se aborrecem de mim. Em lugar de eu ser remetido ao Brasil, como alguns desejariam, pelo passaporte que possuo, enquanto a família tem toda (menos dois membros dela) passaportes portugueses, eu seria devolvido, com ela, à minha procedência lisboeta. O que é, mesmo distante, hipótese de inquietar. Mas os meus dois filhos mais novos, brasileiros natos, seriam provavelmente restituídos ao Brasil, onde não têm família nenhuma… De resto, com crianças, não se sabe nunca o que pode por aqui acontecer nestas matérias. Com efeito, muito recentemente, tribunais americanos recusaram devolver à mãe deles e ao país onde haviam nascido, meninos, creio que checos, que ao pai, foragido às agitações no seu país, trouxera para os Estados Unidos, onde suponho que morreu. Os tribunais decidiram que, entre uma mãe de país pouco simpático e a felicidade de crescer nos Estados Unidos entregue a protectores isentos do vírus materno, não havia escolha — sinal da influência salomónica da Bíblia, ou curiosa dramatização do Círculo de Giz Caucasiano, de Bertold Brecht. Mas voltando ao exemplo que imaginei pessoal — acho que nem a sublime dupla cidadania nos valeria no aperto, a nós e a Lisboa.

O outro caso é muito diverso, mas tem que ver igualmente com a imigração. Não é sabido nos diversos países directamente interessados, e a esmagadora maioria da população americana o ignora nos próprios Estados Unidos hoje, que a lei (ou alguma interpretação dela) exige que o imigrante, em chegando à idade militar, ingresse nas Forças Armadas dos Estados Unidos. Se recusar, e a menos que qualquer saída legal seja encontrada e conseguida (objecção de consciência, por exemplo), é obrigado a retirar-se do país onde cresceu e a voltar ao país onde nasceu, perdendo o direito não só à residência permanente como a tornar a pôr os pés nos Estados Unidos.

As razões que levaram, em tempos mais ou menos idos, a uma tal atitude supostamente legal são óbvias. Antes de tudo, forçar a integração nacional do residente estrangeiro enquanto jovem, quando, no último século, grandes massas da população norte-americana eram de imigrantes (que chegaram a ter direito de voto em certas eleições não nacionais, já que os manipuladores políticos precisavam de votos para se elegerem — o que, mais tarde, foi suprimido). E também quando, nesse tempo, os «nacionais» tinham imensas maneiras e o dinheiro para se esquivarem ao serviço militar que os recém-chegados fariam por conta deles, sem saberem ao certo para que gloriosos fins. Mas a constitucionalidade de uma tal medida ser obrigatória e não facultativa (já que nada, na entrada legal, estipula que o emigrante deva vir a ser cidadão dos Estados Unidos, forçosamente) é outra questão que agora se levanta. O pretexto, curiosamente, é português, e não sei se a imprensa portuguesa tomou conhecimento do caso. Um jovem imigrante de nacionalidade portuguesa, que serve neste momento, e segundo as notícias «heroicamente», no Vietname, decidiu pôr judicialmente em causa a legalidade dessa guerra — os aspectos políticos desta controvérsia não nos importam aqui. Mas o que, automaticamente, resultou da acção dele foi levantar-se o problema da constitucionalidade de como ele foi lá parar.

E de supor que os países de origem dos imigrantes da América, embora sempre desejem ou façam liricamente que desejam manterem eles laços afectivos e culturais (para não dizermos financeiros, neste plano do puro altruísmo) com o berço natal, ou sempre ignoraram estas incongruências, ou nunca desafiaram diplomaticamente os Estados Unidos, para não incorrerem — se é que incorreriam — em retaliações possíveis contra as cotas de imigração atribuídas pela América às diversas áreas de emigração para ela. Estas cotas só muito recentemente diminuíram ou elidiram as suas discriminações racistas, em que, é claro, escandinavos e germanos — ai os louros! — tinham especial preferência. Como é sabido, a própria Grã-Bretanha deixara perder em séculos, ou dissolver-se, o sangue nórdico que algumas depredações dos vikings e uma invasão de anglo-saxões lhe injectaram, e o teor da boa cepa romântica precisava de ser melhorado nos Estados Unidos, e de ser compensado dos efeitos deletérios de tanto italiano, português, espanhol, sírio, etc., etc. Quanto a indiferença ou ignorância em relação aos casos referidos, o que se disse dos países de origem dir-se-á dos países «segundos», para os quais, no fundo, não importa o que possa acontecer a um cidadão não nato que decidiu mudar-se para os Estados Unidos por sua conta e risco.

Os problemas, porém, de que esses casos são exemplo incongruente e pouco humano, não deveriam ser indiferentes aos países envolvidos por cidadãos seus, primeiros ou segundos. Trata-se de consciência, coerência, e dignidade de uma nacionalidade que lhes cumpre proteger, seja em que circunstâncias for. E de modo algum, e muito pelo contrário, se trata na verdade de «desafiar» os Estados Unidos, de cujo sistema legal o «desafio» é parte integrante, já que qualquer pessoa tem o direito de pôr em causa, judicialmente, nele, a legalidade de tudo. Trata-se, sim, de fazer o que tantos milhares e milhares de americanos se esforçam por fazer todos os dias: conduzir os Estados Unidos a serem razoavelmente fiéis àqueles ideais abstractos de liberdade e de justiça, que eles mesmos, os Estados que se uniram numa independência, escreveram numa constituição e numa declaração de direitos básicos, naqueles bons tempos em que os ideais esclarecidos dos Rousseaus, dos Voltaires e dos Tom Paines, como dos Jeffersons e dos outros fundadores, não haviam sucumbido a nacionalismos estreitos, ou à supremacia de uns grupos sobre os outros.

Portugal, com mais de um milhão de portugueses e de luso–americanos só na Califórnia, e mais de outros tantos na Costa Leste, deveria estar informado e tomar conhecimento de tais situações, cuja legalidade interna é, ao que parece, duvidosa, mas nunca foi posta em causa, que se saiba, antes, pela humildade das pessoas envolvidas. Tanto mais que, no caso português, muitas dessas pessoas não são já sequer «humildes», mas triunfantes, influentes, ainda que muito agarradas até há pouco à brandura tradicional dos nossos costumes, que manda comer e calar.

Mas os países não são só, reciprocamente, aqueles que tomam chá ou uísque nas embaixadas, não é verdade? São também aqueles que nunca pensaram em certos casos que não subiram às suas alturas, e aqueles que, com a sua laboriosa actividade, se espalham pelo Mundo. E isto de espalhar-se pelo mundo, por certo que foi sempre o mais natural de Portugal, desde que o Senhor D. João I deu o exemplo, partindo-se, a Ceuta, onde, talvez erradamente, não fixou residência. E já antes dele muito português aparece registado nos lugares mais inesperados do Globo que, então, como se sabe, não era nem Globo nem inteiro. O menos comum, ou menos numeroso, foi sempre o ficar de flor ou de batata no Jardim da Europa.

Pense Portugal a sério no outro Portugal, o pelo mundo em pedaços repartido, numa tradição de tantos séculos, e hoje especialmente concentrado em certos países, aonde, se devidamente apoiado, poderá contribuir decisivamente para «lusitanizar» essas terras bárbaras e gentias, com vantagem para elas serem menos convencidas de si mesmas, e para Portugal ser menos distraído. Antes que — valha-nos a Providência — tenhamos algum português de França a imitar La Fontaine (quando já temos no próprio Portugal tanta gente que se não cura do morbo gálico) ou algum português dos Estados Unidos a repetir os sucessos de tanto abominável best-seller (quando já há em Portugal hippies que são luxuosamente filhos das melhores famílias).

Santa Barbara, 10 de Junho de 1972, Dia de Camões

Revista Estudos Portugueses

Após um longo intervalo, a revista Estudos Portugueses, criada em 1989 pela Associação de Estudos Portugueses João Emerenciano, da Universidade Federal de Pernambuco, acaba de lançar sua edição de número 8. O volume de retorno da publicação traz uma seleção multifacetada de ensaios sobre diversos temas e autores, incluindo-se aí um ensaio sobre nosso multifacetado Jorge de Sena, que aparece já na capa da edição. Que seja o primeiro de muitos novos números.

De Carlos Drummond de Andrade

Na exemplar crônica-necrológio “Jorge de Sena, também brasileiro”, o poeta de Claro Enigma recorda Sena e sua passagem pelo Brasil.

Jorge de Sena e Carlos Drummond de Andrade encontraram-se algumas vezes no Brasil, solidificando uma amizade que se iniciara epistolograficamente. Como prova de inquestionável admiração, também perceptível nos textos críticos que lhe dedicou, o poeta português chegou mesmo a agir, debalde, em prol de uma indicação do poeta mineiro ao Nobel. Com o comedimento que lhe é peculiar, Drummond deixa claro neste necrológio, além de seu grande apreço pelo confrade, um sentido de perda que largamente ultrapassa a esfera das relações pessoais.

 

 JORGE DE SENA, TAMBÉM BRASILEIRO.

«Morreu um dos raros portugueses universais do nosso tempo» — disse em Lisboa o poeta Eugénio de Andrade, ao comentar o falecimento de Jorge de Sena em hospital de Santa Bárbara, na Califórnia. E disse bem, mas poderia chamar-lhe igualmente «um dos raros brasileiros universais do nosso tempo». Porque Jorge de Sena tinha duas nacionalidades. Nascido em Lisboa, e formado culturalmente na Europa, tornou-se cidadão brasileiro por força da áspera condição que a ditadura salazarista impunha aos intelectuais não submissos, e aqui leccionou em cursos universitários. Como certa vez eu o declarasse brasileiro pelo sentimento, corrigiu-me em carta de 1972:

«Olhe que não sou brasileiro apenas pelo sentimento. Sou cidadão brasileiro desde 1963 (naturalização requerida em 1962, e que só saiu em princípios do março de 1965, por se não saber em Brasília, nas confusões da época, parlamentarismo, etc., quem assinava o decreto… que foi ainda o Goulart quem assinou e que está depositado em Araraquara, aonde a recebi), nacionalidade que mantenho, passaporte que possuo. O que no Brasil nunca foi muito público, por não se acreditar na nacionalização brasileira de portugueses que não sejam o padeiro da esquina. Por isso é que sempre me apresento como escritor português, cidadão brasileiro e professor norte-americano. Mas as minhas lealdades não são triplas e sim duplas, no que não vejo incompatibilidade alguma (para lá do respeito que devo às instituições do país que me emprega e onde vivo). No plano cultural e de amor aos países (amor bastante infeliz, porque a luso-brasilidade é uma raça danada), já que no plano político não a devo tecnicamente a Portugal. Este é que me deve a mim.»

Esta situação curiosa, quer civil quer psicológica, mostra como os regimes políticos de excepção podem influir no destino das pessoas jogando-as à mercê dos ventos num mundo gerido por fórmulas burocráticas e incompatibilidades políticas. Jorge de Sena acabou sendo um exilado profissional, buscando aqui e ah elementos de vida e de estudo. Foi fiel à culturalidade portuguesa, e seus ensaios sobre Camões, Fernando Pessoa, a pintura, a música, a filosofia do país natal, comprovam a permanência de suas raízes, entrelaçadas com um pensamento supranacional que justifica o juízo de Eugénio de Andrade: Jorge foi mesmo um espírito universal, completamente livre de pressões e interesses de grupo literário, magisterial, classista ou nacionalista. Seu feitio áspero, polémico, atingindo a agressividade, o terá ajudado no exercício da independência, traço distintivo de sua vida de intelectual rebelde.

Havia muitos «eus» pensantes e sentintes em Jorge de Sena professor, poeta, contista, crítico literário e de artes plásticas, dramaturgo, historiógrafo, ensaísta… homem pulsante, inquieto, brigão, generoso, buscando conciliar pensamento e sensibilidade numa poesia que, ao beirar inicialmente o surrealismo, alcançou a criação verbal destituída de apoio etimológico e semântico, em proveito da livre sugestividade. Isto sem perder de vista as potencialidades de sarcasmo, sátira e revolta do verso. Há composições suas que parecem escritas em estado de fúria, em protesto contra a mediocridade, a burrice, a hipocrisia, a injustiça, mas ainda nelas observo menos um panfletário em verso do que um ser ferido pelos desregramentos do mundo, um ser que não se adapta e sofre com a falta de autenticidade das fórmulas e dos homens.

(Jornal do Brasil,  Caderno B, quinta-feira, 8 de Junho de 1978 - pág. 5) CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIÁ-LA
(Jornal do Brasil, Caderno B, quinta-feira, 8 de Junho de 1978 – pág. 5) | CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIÁ-LA

Faltou a Jorge de Sena uma pátria constante e receptiva, que agasalhasse o seu destino de intelectual e erudito a serviço exclusivo do espírito. Teve de procurar outra e mais outra, afirmando-se, porém, mas ao mesmo tempo mutilando-se na aventura de errar pelo mundo, servir-se de bibliotecas alheias, ter um pouso de ocasião em vez da morada estável que é hoje impossível para tantos escritores e sábios. Teve assim a sorte de espanhóis, russos, latino-americanos, inclusive brasileiros, e de muitos outros países, a quem a intolerância mudou ou truncou o programa de vida. Não se deixou vencer, mas pagou alto o direito de amar a liberdade da inteligência, preservando a consciência crítica. Imagino, entretanto, que nenhum «cidadão do mundo» se console realmente de, por uma ou outra razão, lhe haver faltado a consonância por assim dizer musical entre sua vida e sua terra de nascimento. Haverá muitas maneiras de superar o desencontro, mas resta sempre a tristeza de nos haverem roubado alguma coisa de inalienável. Mas Jorge de Sena foi, durante anos, exilado mesmo em Portugal. Esta a vida que lhe tocou viver, mas que ele encheu com as ocupações do magistério errante, de análise e da invenção literária e com o sarcasmo, o ácido penetrante de sua poesia, explodindo em revolta contra as mentiras do nosso tempo.

Não soubemos conservá-lo conosco, nem sequer chegamos a conhecê-lo na plenitude de seu espírito. Foi um professor que passou pelo Brasil, de 1959 a 1965. Mas que sonhou em dar ao Brasil, através da língua portuguesa, uma situação de prestígio na literatura mundial. Se não o conseguiu, não foi por omissão. Merece a nossa lembrança, embora tardia.

 

De Francisco Cota Fagundes

 

Francisco Cota Fagundes, Professor do Department of Languages, Literatures & Cultures — Spanish and Portuguese, na University of Massachusetts, Amherst, é, de longa data, um estudioso da obra de Jorge de Sena, tendo contribuído com numerosos e conhecidos títulos para a fortuna crítica do autor. Simultaneamente, tem promovido a expansão dos estudos senianos nos USA, quer através dos cursos, teses e dissertações acadêmicas sob sua orientação, quer através dos colóquios e publicações que organizou. Muito gentilmente, aqui nos traz seu testemunho sobre essa já larga convivência com o nosso autor prodigioso.

 

Jorge de Sena na Revista Pessoa

Publicação dedicada às literaturas lusófonas, com o apoio do Museu da Língua Portuguesa e da Fundação José Saramago, a Revista Pessoa apresentou na sua última edição (Ano II, n.2, Março-Abril-Maio) um texto até então inédito de Jorge de Sena, "Estudos de Português na América", que figura no livro recém-lançado América, América (Ed. Guimarães, maio de 2011).

Disponível nas versões impressa e online, a revista tem todo o seu conteúdo acessível em www.revistapessoa.com e pode ser assinada em http://www.revistapessoa.com/subscricao.php.

Prêmio PEN Clube 2011

Os vencedores do prêmio PEN CLube 2011 foram conhecidos na última semana, e o Ler Jorge de Sena faz questão de destacar a vitória, na categoria ensaio, do livro Jorge de Sena: Sinais de Fogo como Romance de Formação, de Jorge Vaz de Carvalho, que divide a honraria com O Género Intranquilo: Anatomia do Ensaio e do Fragmento, de João Barrento. A escolha do júri formado por Maria João Reynaud, Álvaro Manuel Machado e Fernando Cabral Martins, ao premiar um estudo sobre a obra de Sena, é ainda mais significativa se lembrarmos que a primeira edição do prêmio, que agora completa trinta anos, foi dedicada a Jorge de Sena e seu Trinta Anos de Camões.

Para mais detalhes sobre o prêmio e para lembrar os demais premiados ao longo dessas três décadas, clique aqui.

Prêmio Capes de Tese

Foi divulgado no passado dia 01 de dezembro* o resultado do "Prêmio Capes de Tese 2010" da área de Letras/ Linguística e a contemplada foi Luciana dos Santos Salles, por sua tese de Doutoramento “Poesia e o Diabo a Quatro: Jorge de Sena e a escrita do diálogo”, defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) é organismo do Ministério da Educação e instituiu este prêmio em 2005, avaliando anualmente as teses defendidas em todo o Brasil.

Pela primeira vez o prêmio foi concedido à área de Literatura Portuguesa e ao Estado do Rio de Janeiro.

Luciana é, desde novembro de 2010, uma das coordenadoras do "Ler Jorge de Sena" e a sua tese está disponível tanto em livro (no Brasil e em Portugal) como no link http://www.letras.ufrj.br/posverna/doutorado/SallesLS.pdf

*O resultado foi publicado no Diário Oficial da União de 01/12/2011, seção 1, páginas 41 e 42, e se encontra disponível no site: http://www.capes.gov.br/premios-capes-de-teses. O evento de entrega dos prêmios acontecerá em Brasília no dia 15 de dezembro de 2011

Jorge de Sena na FEUP: "o escritor da casa"

 

Noticiamos no ano passado a evocação de Jorge de Sena promovida na FEUP (Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto), em sessão onde se pronunciaram o Professor Doutor Joaquim Sarmento e o Engenheiro João Lamas (ver:http://www.letras.ufrj.br/lerjorgedesena/port/ressonancias/arquivo/texto.php?id=247). A propósito do evento, para melhor dar a conhecer a figura do seu antigo aluno ora homenageado, a FEUP dedicou-lhe uma página no seu site (ver: http://biblioteca.fe.up.pt/cl/events/sena), contendo não só muitas informações sobre esse "tempo portuense" de JS, como também o acesso à gravação em video da referida sessão. Dela, reproduzimos a seguir a intervenção do Eng. Lamas, colega de JS nos bancos acadêmicos, complementando um depoimento já antes transcrito no nosso site (ver:http://www.letras.ufrj.br/lerjorgedesena/port/vida/testemunhos/texto.php?id=252).

 

Pesquisa acadêmica sobre Jorge de Sena

Teses, dissertações, monografias, etc.

A bibliografia acadêmica sobre Jorge de Sena já se faz volumosa. Abaixo, a listagem dessa produção.

 

Jorge de Sena em teses e dissertações defendidas na Faculdade de Letras/ UFRJ

Luciana Salles. Poesia e o Diabo a Quatro: Jorge de Sena e a Escrita do Diálogo, UFRJ, 2009 (Tese de Doutorado, Orientação de Luci Ruas).

Sebastião Edson Sousa Macedo, As metamorfoses do sujeito em Arte de Música de Jorge de Sena., UFRJ, 2009 (Dissertação de Mestrado, Orientação de Jorge Fernandes da Silveira;Co-orientação de Gilda Santos)

Marcelo Pacheco Soares, Espelhos deformantes: a escrita diabólica de Jorge de Sena em O Físico Prodigioso, UFRJ, 2007 (Dissertação de Mestrado, Orientação de Teresa Cristina Cerdeira da Silva)

Flavia Tebaldi H. Queiroz, A poesia de exílio de Jorge de Sena, UFRJ, 2006 (Dissertação de Mestrado, Orientação de Gilda Santos)

Maria Fernanda Alvito Pereira de Souza Oliveira, Manda-me o tempo que cante – sobre o pensamento poético de Jorge de Sena, UFRJ, 2000 (Tese de Doutorado, Orientação de Jorge Fernandes da Silveira, Co-orientação de Gilda Santos)

Cláudia Atanazio Valentim, Vozes em exílio dentro da Pátria: alguns ecos na Literatura Portuguesa do Século XX, UFRJ, 1998 (Dissertação de Mestrado, Orientação de Gilda Santos)

Márcia Vieira Maia, Olhares de Eros: uma viagem na ficção breve de Jorge de Sena, UFRJ, 1996 (Dissertação de Mestrado, Orientação de Gilda Santos)

Beatriz de Mendonça Lima, Uma nova legenda de S. Beda: “Mar de Pedras” de J. de Sena, UFRJ, 1996 (Dissertação de Mestrado, Orientação de Gilda Santos)

David do Vale Lima, Sinais de um Testemunho: A Guerra Civil Espanhola e a prosa ficcional de Jorge de Sena, UFRJ, 26 de fevereiro de 1996 (Dissertação de Mestrado, Orientação de Gilda Santos)

Márcia de Oliveira Alfama, Algumas andanças do demônio na obra de Jorge de Sena, UFRJ, 1995 (Dissertação de Mestrado, Orientação de Gilda Santos)

Gilda Santos, Uma alquimia de ressonâncias: O Físico Prodigioso de Jorge Sena, UFRJ, 1989 (Tese de Doutorado, Orientação de Cleonice Berardinelli)

 

Jorge de Sena em outras teses e dissertações defendidas no Brasil

Beatriz Helena Souza da Cruz. Trabalhadores do século XX em poemas de Jorge de Sena. UFF, 2013 (Dissertação de Mestrado, Orientação de Luis Maffei)

Kássia Fernandes da Cunha, Paisagens na poética de Jorge de Sena: peregrinação, visão de mundo e testemunho., UFF, 2010 (Dissertação de Mestrado, Orientação de Ida Ferreira Alves)

Danilo Rodrigues Bueno, A função poético-crítica em Jorge de Sena: problemáticas do poeta moderno., USP, 2009 (Dissertação de Mestrado, Orientação de José Horácio Costa)

Christiano dos Santos Costa, Jorge de Sena e Ruy Belo: diálogos éticos e estéticos, UFF, 2005 (Dissertação de Mestrado, Orientação de Ida Ferreira Alves)

Orlando Nunes de Amorim, À luz do mar aceso: um estudo das relações entre memória individual e memória histórica em Sinais de Fogo, de Jorge de Sena., USP, 2002 (Tese de Doutorado, Orientação de Álvaro Cardoso Gomes)

José Batista de Sales, O Discurso teórico na poesia de Jorge de Sena., UNESP/Assis, 1997 (Tese de Doutorado, Orientação de Luiz Antonio de Figueiredo)

Orlando Nunes de Amorim. O Físico Prodigioso, a novela poética de Jorge de Sena., USP, 1996 (Dissertação de Mestrado, Orientação de Álvaro Cardoso Gomes)

Ana Maria Gottardi Leal, Jorge de Sena: A Modernidade da Tradição, USP, 1984

 

Jorge de Sena em teses e dissertações defendidas em Portugal

Joana Meirim. Literatura e posteridade: Jorge de Sena e Alexandre O’NeillUniversidade de Lisboa, 2014.

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Jorge de Sena em teses e dissertações defendidas em outros países

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13. “A comemoração”: o simulacro do espetáculo

[JS LIDO NA UFRJ – 13: Marcelo Pacheco Soares]

Publicada originalmente em Andanças do Demónio, de 1960, a narrativa seniana “A comemoração” é datada em seu termo pelo ano de 1943. Seu enredo gira em torno do empenho de Gustavo Dores, funcionário chefe de uma repartição pública, para prestar homenagem póstuma a João Pereira Castanheira, negociante que teria se elevado a governador de um distrito português na África Colonial, liderado ocupações e defendido o território conquistado contra os gentios, após o que, vitimado por uma doença tropical, terminara os seus dias em Lisboa, esquecido na mesma repartição onde surgia agora, dez anos após a sua morte, o projeto encampado por Dores:

De uma conversa de café surgira aquela idéia, mas, na voz empreendedora de Gustavo Dores logo a tal ponto se completou, que nem os habituais companheiros, levados na paixão imperial do chefe de repartição, reclamavam o título de sócios fundadores da importante comemoração a celebrar.[1]

Menos, porém, do que oferecer tributo ao finado homem, preocupa ao funcionário que seja reconhecido o seu próprio mérito pela organização da solenidade, cuja idealização reclamara exclusiva e quase impositivamente para si. Distinguir um suposto valor de alguém evidencia uma habilidade social e o ato de demonstrar tal habilidade é que se revela a primeira intenção de Gustavo Dores, sendo pois a celebração em si secundária, pretexto (oferecido aos outros e mesmo à sua própria consciência) para a exposição de sua figura pública. Fica isso manifesto, por exemplo, em seu planejamento do protocolo da cerimônia: levariam flores, colocariam silenciosamente os ramos, não haveria discursos, imagina ele, logo corrigindo-se, autenticando o seu direito de discorrer no evento, sem que, todavia, demonstrassem-se (nem mesmo para si) as razões egocêntricas que o levaram a formalizar a homenagem:

Dizia algumas palavras, era natural, fora o promotor, o organizador, se ali estavam a ele se devia. Palavras simples, explicando o motivo, fazendo uma leve referência ao seu esforço, talvez uma anedota do defunto não caísse mal, essas coisas, em tais ocasiões, enternecem sempre, sempre ajudam a recordar. [2]

Ora, ao contrário da maioria dos outros colegas de repartição, composta por funcionários reformados, empregados da Fazenda ou administradores saudosos do espaço e do poder, fartos da “secretaria” e, ao mesmo tempo, admiradores suspeitosos da burocracia metropolitana, Dores ostentava um duvidoso e frágil prestígio proveniente de ser um homem saído do outro lado dos “guichets” do Terreiro do Paço que portanto alcançara certamente a sua posição em razão de suas competências e sem apadrinhamentos. Reside nessa sua origem diferenciada a necessidade de ratificar tal distinção a partir de atitudes nobres (não por acaso entrega-se ao trabalho com mais empenho do que os colegas). A ideia da homenagem, então, revela-se um novo instrumento producente para que se sustente dentre os demais o conceito que sobre ele se desenvolvera.

Aqui, o evento que se organiza representa, dessa maneira, uma mercadoria a ser vendida: “Na cidade, tudo se compra e tudo se vende: as amizades, as honras, os títulos, os graus e as profissões de fé.”[3] — como descreve o filósofo francês Henri Laborit. Ora, esse produto que se torna a comemoração a ser realizada apresenta uma suposta funcionalidade, que na verdade pretende mascarar outra questão, de cunho ideológico. Outro pensador francês, Guy Debord, em sua leitura do que reconheceu como sociedade do espetáculo, esclarece essa sobreposição sígnica entre mercadoria e espetáculo:

O princípio do fetichismo da mercadoria, a dominação da sociedade por “coisas suprassensíveis embora sensíveis”, se realiza completamente no espetáculo, no qual o mundo sensível é substituído por uma seleção de imagens que existe acima dele, e que ao mesmo tempo se fez reconhecer como o sensível por excelência.[4]

E Dores se dedica com afinco à empreitada. Estabelece todas as bases do evento, da ampla badalação interna à divulgação externa via imprensa, passando ainda pelos rechaços à ajuda de colegas que ele julgava apenas quererem usurpar da sua glória; assim, aliás, “afastara friamente o Pereira Cláudio, outro chefe de repartição, que se interessara demasiado pela homenagem, e procurara associar-se a ela.”[5] Aguarda o dia marcado sob expectativas ilusórias, que a narrativa revela por meio do uso de um discurso modulado pelo hipotético: “dizia-se que o próprio Ministro, em conversa com o director-geral, louvara a iniciativa” [6]. Porém, na manhã agendada no cemitério para a comemoração, ninguém compareceu.

O cotejamento da cena imaginada pouco antes da chegada de Dores à campa do homenageado e da cena efetivamente realizada logo depois (cujos traços estão grifados abaixo) dá conta do paralelismo existente entre o egocêntrico (mas também ingênuo) pensamento do funcionário e o real baixo nível de entusiasmo que a comemoração despertara nos demais colegas de trabalho. A representação do grupo coeso que respeitosamente aguardaria portando flores recém-compradas, empenhado por conseguinte em consumar a comemoração que Dores julgava tão importante para todos quanto para si, transforma-se, por contraste, em uma cena com poucas pessoas isoladas no cemitério, todas sem ligação com o evento, na qual flores envelhecidas se destacam em meio a um campo sem requintes, com sinais de falta de manutenção.

Já via o quarteirão por detrás do qual repousava o Castanheira. Os outros esperá-lo-iam, em volta da sepultura funante, e todos de preto, com ramos em punho, conversando em voz baixa. A correnteza de jazigos encobria a cena; Gustavo Dores empertigou-se e afugentou do rosto a bonomia que a frescura da manhã nele espalhara. Dobrou a esquina. As sepulturas sucediam-se pela encosta abaixo; algumas pessoas, aqui e ali, moviam-se por entre a rede, aparentemente instransponível, de gradeamentos, cruzes e caixas de lata mais ou menos desbotadas. Não se via qualquer grupo. Gustavo Dores olhou em volta, ainda duvidoso, e depois ficou com os olhos perdidos na terra amarelada, que os ramos de flores envelhecidas faziam parecer um imenso jardim devastado pelo espalhar de tanto ferro velho, e as flores plantadas e viçosas não conseguiam emergir, com nitidez, de tão confusa massa. Era ali, não havia dúvida, mas não estava ninguém. Ninguém viera. [7]

Durante o percurso que Dores fizera ao campo-santo e mais tarde quando vai embora, identifica-se um elemento cujo espaço de sentido estrategicamente não preenchido institui um mistério que prepara o leitor para o episódio ambiguamente insólito que fechará a narrativa: trata-se da figura de um estranho homem que se encontra, de terno, no transporte coletivo em que Dores se conduz ao evento e que entra no cemitério na sua frente. O protagonista cogita desde a primeira vez em que o vê, em função dos trajes e do caminho, a sua intenção de participar da homenagem, quiçá atraído pelas notícias na imprensa, o que todavia não se concretiza. Na saída, após o fracasso, ao cruzar novamente com o homem, envergonha-se por ainda estar com as flores nas mãos (a falta de explicação plausível para alguém levar um ramo ao cemitério e sair ainda com ele faz com que Dores sinta que elas delatam a todos seu fracasso); por isso, entrega-as a ele, que as pega e volta-se novamente na direção das sepulturas. À noite, em casa, é prioritariamente sobre a efígie misteriosa desse homem desconhecido que o chefe de repartição solitariamente reflete (“tornara-se-lhe impossível arredar a imagem do extravagante sujeito, ora cruzando-se com ele, ora com as bochechas pendendo para as flores” [8]), quando a sua filha o chama para ouvir a notícia no rádio:

“…uma singela homenagem em memória de um ilustre africanista, Pereira Castanheira, que foi um dos heróis das Campanhas da Ocupação, defendendo Namucala contra milhares de indígenas revoltados. Em volta da sepultura, reuniram-se alguns dos seus amigos, entre eles o nosso querido consócio Sr. Gustavo Dores, alto funcionário da administração pública, a quem se deve a brilhante ideia desta comovedora cerimónia. Num curto mas sentido improviso, o Sr. Gustavo Dores traçou o perfil do homenageado, após o que todos os presentes desfilaram, em religioso silêncio, pela humilde sepultura, que deixaram juncada de flores.” [9]

A descrição desse não-acontecimento mostra-se uma manifestação francamente fantástica (em termos todorovianos) porque reside na ambiguidade de duas explicações opostas e cuja escolha a narrativa não concretiza: não é possível afirmar se o episódio representa uma efetiva sobrenaturalidade ou justifica-se pelo fato de o radialista noticiar algo que ele supõe assim ter ocorrido embora ninguém tenha realizado a cobertura jornalística da homenagem, apenas recriando um discurso a partir de uma série de lugares-comuns normalmente observados nesse tipo de cerimônia. Dores, por sua vez, não busca explicações; pelo contrário, apenas se regozija por ter alcançado o seu objetivo: Sentia-se feliz. E essa felicidade é, na verdade, resultado da sua opção (deliberada e consciente, claro está) por um jogo social de oportunismos. De certo modo desloca-se esse citado fantástico da ação para a ideologia. Se nada de extraordinário acontecera, se tudo afinal pode ter ao menos alguma explicação plausível, é o próprio cotidiano que se investe de implausibilidades, localizando-se aí, nesse ponto crucial, o cruzamento — perdoe-se a redundância — de uma farsa e de um simulacro com a realidade.

Em função disso é que, discorrendo sobre a contística de Sena, Óscar Lopes afirma:

A verdade é que Jorge de Sena se assume como narrador realista mesmo nos seus contos fantasmagóricos, aqueles que mais ‘desrealizam’ sensos de realidade predominantes, mesmo nos seus contos de feições lendárias, ou mais nimbados de uma distanciação histórica ou de um exótico oriental. [10]

Em “A comemoração”, onde a classe alvo de crítica é a de um indolente funcionalismo público (trechos como “A cerimónia fora marcada para as dez da manhã, hora afinal só propícia à pontualidade de Gustavo Dores, visto que os outros ou não tinham que fazer, ou começavam a trabalhar por volta dessa hora.” [11] confirmam isso), o acontecimento insólito — qual seja, o de a cerimônia ser descrita com detalhes embora não tenha ocorrido — ratifica a leitura sarcástica que a própria narrativa evidenciara ao reforçar as máscaras usadas pelos integrantes dessa burocracia metropolitana: vida social como jogo de simulacros. Afinal, a partir do discurso sobre a suposta consumação do evento, todos irão agir em função da sua presumida realização.

Maria de Fátima Marinho afirma que, nesse conto, “é o humor o elemento principal” [12]; e seríamos mais específicos em dizer que sua comicidade é alcançada pelo viés da ironia. E parece importante dizer que os funcionários ironizados na narrativa de Jorge de Sena estão inseridos no ambiente de trabalho de um Estado salazarista, totalitarista e imperialista. É o próprio autor quem, em nota publicada ao fim do livro, classifica essa criação sua como uma “alegórica sátira à mania ‘comemorativa’ que era endêmica no Estado Novo” [13] — e, por agora, pretendemos mais bem esclarecer o que motiva esse hábito festeiro.

O conto, segundo se observou, é datado ao seu término pelo ano de 1946, o primeiro pós-Segunda Grande Guerra Mundial, cujo resultado trouxera como uma das consequências para Portugal a possibilidade mais concreta de demonstração de uma crise da legitimidade do império português, causada pela descrença na superioridade da civilização ocidental e na missão tutelar das nações europeias sobre as outras raças, antes ditas inferiores. Estas são contudo leituras ideológicas difíceis de serem mantidas após um conflito vencido por uma aliança libertadora que se propunha a lutar contra a violência e o autoritarismo do nazismo e do facismo, sob o risco de se identificar com o inimigo, o que resultaria afinal numa estratégia pouco inteligente por parte do poder português. É preciso, portanto, encontrar outros caminhos para a sustentação do imperialismo colonial.

Ora, no conto, os funcionários públicos espelham um sistema de ideias introjetado, reproduzindo-as muitas vezes acriticamente. Trabalham para um governo que investe em propagandas ideológicas que buscam legitimar o império português das suas colônias africanas, baseado em um nacionalismo elitista que apregoa a crença na histórica missão sagrada de Portugal em mantê-lo, como se fora um direito afiançado pelas conquistas e descobertas atribuídas ao país nos últimos seis séculos e pela defesa dos valores cristãos. De fato, o Estado Novo aprofundara, a partir dos anos de 1930, essa mentalidade imperial no povo português, através de uma campanha eficaz com bases estabelecidas em realizações de impacto junto à opinião pública [14] — daí a sua endêmica mania comemorativa — e por intermédio de um sistema educativo de princípios fascistas e colonialistas, alicerçado numa leitura tendenciosa e, nesse sentido, claramente deturpada do poema épico camoniano, o que por muito tempo condenaria Os Lusíadas a uma verdadeira repulsa pela vertente política e intelectual anti-imperialista de tendência mais radical e possivelmente menos sensível à representação universalizante que a obra, na verdade, continha.

Pois é nesse contexto histórico e político que o protagonista do conto de Jorge de Sena realiza a homenagem a Castanheira, que teria sido peça ativa na exploração e na manutenção dessas colônias. Segundo Gustavo Dores, empreender a comemoração era recordar o passado, real ou virtual, de uma classe, da “sua” ( da “vossa”, como acentuava Gustavo Dores com simplicidade), era chamar a atenção pública, “por meio de uma iniciativa modesta mas significativa, para uma vida de perigos e responsabilidades”. Vale destacar que o protagonista se refere a um passado real ou virtual, como real ou virtual passará a ser, ambiguamente, a própria comemoração. Os funcionários públicos mostram-se, assim, coadjuvantes e vítimas também desse investimento do Estado Novo na propaganda imperial, cuja ideologia eles seguem alienadamente. Estamos sem dúvida na “sociedade do espetáculo, na qual a mercadoria contempla a si mesma no mundo que ela criou” [15], como ratifica Debord.

 

Notas:

1. SENA, J. de (1984), p. 87.
2. SENA, J. de (1984), p. 91. (Grifos nossos)
3. LABORIT, H. (1990), p. 190.
4. DEBORD, G. (1997), p. 28.
5. SENA, J. de (1984), p. 90.
6. SENA, J. de (1984), p. 89.
7. SENA, J. de (1984), p. 93-4 (Grifos nossos).
8. SENA, J. de (1984), p. 98.
9. SENA, J. de (1984), p. 99.
10. LOPES, Ó. (1984), p. 328.
11. SENA, J. de (1984), p. 90.
12. MARINHO, M. de F. (1987), p. 180.
13. SENA, J. de (1984), p. 217.
14. Em 8 de junho de 1940, inaugura-se em Coimbra o parque temático “Portugal dos Pequeninos”, miniatura emblemática do paradisíaco império português, no conjunto das comemorações de oito séculos da fundação de Portugal (1140-1940). Essas festividades ganhariam força entre os meses de junho e dezembro de 1940 na conhecida “Exposição do Mundo Português”, realizada em Lisboa, que se oferecia como imagem idealizada do império e como contraponto de uma Europa devastada pela guerra.
15. DEBORD, G. (1997), p. 35.
Referências bibliográficas:
1. DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo – comentários sobre a sociedade do espetáculo. Tradução: Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
2. LABORIT, Henri. O homem e a cidade. Tradução: Alberto Paes Salvação. Lisboa: Europa-América, 1990.
3. LOPES, Óscar. “Os contos de Jorge de Sena (problemas de um assumido realismo)”. In: LISBOA, Eugénio (org.). Estudos sobre Jorge de Sena. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984, p. 319-37.
4. MARINHO, Maria de Fátima. O Surrealismo em Portugal. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1987.
5. SENA, Jorge de. Antigas e novas andanças do demónio. Lisboa: Edições 70, 1984.
6. TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. Tradução: Maria Clara Correa Castello. São Paulo: Perspectiva, 2004.

12. Uma constelação de métodos: Jorge de Sena e a poesia da ciência

[JS LIDO NA UFRJ – 12: Luciana Salles]

Aquelas estrelas desenham um quadrado mal feito.
Jorge de Sena

 

Desde o princípio era o verbo, mas também o número. Durante sua dança entre os planetas demonstrando a mágica capaz de lançá-los em movimento, a assistente do mágico levanta para nós os cartazes com os dizeres impressionantes, como o fiat lux e outras belas palavras em Latim (ou aramaico, ou sânscrito), enquanto o demiurgo ilusionista faz ecoar os sons da criação, não em letras, mas em fórmulas numéricas, em geometrias fantásticas, em sopros químicos. O verdadeiro logos da vida, o capaz de converter elementos e partículas em mundo e gente, transformar pó de estrelas em carne e o diabólico enxofre no divino ouro, não se expressa primeiro em verbo. O verbo é apenas a sua tradução.

A história da ciência apresenta toda uma longa tradição de luta contra a incompreensão, contra o estaticamente aceito, contra o pré-estabelecido. Como a poesia, é uma forma de busca pelo conhecimento de si mesmo, do mundo e do outro. Mas por lidar com uma linguagem com menos adeptos, acaba por vezes tendo seu discurso mal interpretado, ou mesmo simplesmente recusado, à força do silêncio obrigatório a que é submetido. O diálogo entre números e palavras é reduzido, incomum, e, como afirma Jorge de Sena,

o tremendo mal do nosso tempo (…) é a cisão entre uma cultura literária que se pretende largamente humanística e é apenas uma forma organizada de ignorância do mundo em que vivemos, e uma cultura científica que não sabe sequer da existência dos valores estéticos que dão humano sentido à vida. [1]

A falta de comunicação entre arte e ciência leva à conversão em meras disciplinas daquilo que deveriam ser diferentes expressões de um mesmo esforço comunicativo do homem consigo mesmo e com seus (des-)semelhantes. Num mundo em que tanto se discute a globalização e as muitas formas de conexão – reais ou virtuais – entre indivíduos, povos, culturas, é no mínimo estranho que haja tão pouca gente interessada nas respostas que só um olhar realmente plural é capaz de obter. Fragmento de mundo composto por minúsculos fragmentos de universo, aquele que se percebe como breve intervalo de tempo na história da humanidade, cápsula portadora da bagagem mítica a ser oferecida às gerações futuras, é aquele capaz de compreender a um só tempo a mesquinhez e a magnitude da condição humana, nas palavras de Jorge de Sena, “essa miséria de ser por intervalos”. [2]

Quando os sinos tocam, ainda que avaliando os efeitos acústicos e o comprimento das ondas sonoras, os cientistas também se perguntam por quem tocam, e é também por eles, por todos os que pensam e possivelmente existem, rememorados no poema “For whom the bell tolls, com incidências do cogito cartesiano”, de Peregrinatio ad loca infecta (1969), de que extraímos as partes a seguir

VI

Penso que penso: e, assim pensando, sou.
Mas, sendo por pensar, eu sou quem pensa,
e, porque penso, de pensar não sou.
Eu penso apenas o que aflui em mim
do que pensado foi por outros que
nem sangue deles me nas veias corre.
E quanto de pensar se fez ideia
nega-me e ao mundo, não como aparência,
mas como imagem da realidade.
Real não é o que penso ou que imagino,
nem quanto o que essa imagem representa.
Real é tudo, menos eu pensando,
ou quanto de pensar-se o real é feito.
Deste não-ser que pensa eu tenho a voz.

VII

Uma voz que não crê nem em si mesma,
porque descrente não a crentes fala,
e só seria ouvida de quem crê,
já que de ouvi-la quem não crê não ouve.
Uma voz como o vento do deserto,
como o sibilo de vazios mares,
como a harmonia das esferas mortas,
como o silêncio das conversas que
se extinguem nos ouvidos distraídos.
Um eco distantíssimo das cinzas
em que arderiam deuses, se os houvesse.
(…) [3] Convertendo a lógica de Descartes em tautologia anti-racionalista, o poeta se afirma como o não-ser – já que o não-pensar não é uma opção válida – herdeiro de uma tradição de ideia e pensamento iniciada “por outros que / nem sangue deles me nas veias corre.” Irmãos em pensamento e ideia são todos os homens que pensam, mesmo que o sangue os separe ou simplesmente não os una, e em comum têm todos esse estigma de não viver no real, de negar-se ao mundo enquanto apenas mais um pedaço de realidade não imaginada. Imaginando e construindo para si mesmos mundos possíveis, teorias de conhecimento, abstrações como “a harmonia das esferas mortas”, são, esses não-seres que pensam, criaturas irreais como todo criador, vozes silenciadas pela descrença, pelo descrédito, pela ignorância alheia, pela incompreensão dos seres reais que o são porque não pensam. Portadores de uma mesma voz comum a todos os não-seres que pensam e logo não existem, os indivíduos por quem os sinos dobram estão unidos pelo silêncio que atravessa os tempos, “eco distantíssimo das cinzas em que arderiam deuses, se os houvesse”.

Essa voz feita de silêncio, e que ecoa o canto das cinzas de quem um dia foi sinal de fogo, tem o dom da percepção de que o pensamento não pode ser categorizado. Enquanto imagem, porque fruto de uma imaginação criadora, o conhecimento produzido pelo pensamento que atravessa os séculos como luz ricocheteando em infinitos espelhos, é conhecimento que provém da reflexão. Como no sentido mesmo da teoria dos filósofos românticos, o conhecimento que se depreende da poesia de Jorge de Sena é o resultado de um processo de reflexão que, como em todo espelho, busca a si mesmo mirando o outro, mas que também busca olhar o outro de forma i-mediata, sem a mediação de instrumentos, anteparos ou interventores.

O que se busca, através da reflexão, é o conhecimento narcísico de penetração nas miragens do real, para conhecer por dentro cada um de seus aspectos. Desse tipo de envolvimento, contudo, não se sai impune e imaculado, e daí a constatação do poeta, na segunda parte de “Em Creta, com o Minotauro”, de que tanto ele como seu companheiro de café teriam “o dedo sujo de investigar as origens da vida”. Ninguém penetra nas origens da vida como em água pura, não se sai limpo desse banho. O dedo sujo é a marca dos que reviram as cinzas, a lama, e todas as impurezas e viscosidades do real a que não pertencem, porque pensam.

Para os filósofos românticos esse desejo de conhecer sem mediação deveria acompanhar uma certa competência para olhar o todo sem compartimentos. De nada vale um dedo sujo sempre do mesmo pó. A experimentação, o livre trânsito entre diferentes métodos e linguagens, é o que permite ao indivíduo uma concepção do mundo enquanto produto de uma assombrosa diversidade. Caberia ao artista a função que na idade média fora da alquimia: a transformação do real em imagem, a metamorfose do natural em criação humana, a conversão da forma em ideia.

A tal competência necessária à contemplação do mundo como coisa inteira, talento para a omniabrangência, tinha, para os românticos alemães, como Novalis e os irmãos Schlegel, o nome de Witz. Intraduzível como grande parte dos termos de filosofia alemães, o Witz é, em grande medida, uma espécie de diabolus in poetica [4], isto é, uma certa intervenção diabólica – entenda-se: transgressora, ambígua, plural, multifacetada – na escrita poética. Construído sobre uma base de analogia e ironia, o Witz é o amálgama dialético ideal para a compreensão da escrita seniana. É o conceito que reúne em si a um só tempo a capacidade de enxergar ligações onde para os outros só há distância e diferença e a intuição de, vendo o mundo como estrutura fundamentalmente irônica, fazer da arte um espaço de experimentação em que ondas e partículas possam ser tudo ao mesmo tempo e o contrário de cada verdade absoluta seja não só outra verdade absoluta, mas uma parte do todo cheio de partes que formam as ondas ou partículas da verdade original.

De acordo com Novalis,

o artista (…) é utensílio e gênio ao mesmo tempo. Ele encontra que aquela separação originária das atividades filosóficas absolutas é uma separação a nível mais profundo de seu próprio ser – cuja subsistência repousa sobre a possibilidade de sua mediação – de sua vinculação. Encontra que, por mais heterogêneas que sejam essas atividades, no entanto já se encontra nele uma faculdade de passar de uma delas à outra, de alterar a seu agrado sua polaridade – Descobre portanto nelas membros necessários de seu espírito – nota que ambas tem de estar unificadas em um princípio comum. [5]

Seria então, nesse caso, inerente ao artista um certo espírito religioso, no sentido de buscar a reunião – religare, mesmo – das diversas faculdades humanas, habitualmente distanciadas entre si. É, no entanto, uma religião diabólica, uma religião do Witz, em que o componente de comunhão, a pedra filosofal, é essa mistura de analogia e ironia. Esse amálgama, contudo, tem, dentro da poética seniana, um catalisador específico, comum aliás aos princípios religiosos e científicos: o erotismo.

Sobre as pontes que ligam a religião ao erótico, muito já foi dito. Quanto à ciência, contudo, talvez seja útil lembrar a afirmação feita por Bachelard de que,

é muito sintomático que uma reação química na qual entrem em jogo dois corpos diferentes seja imediatamente sexualizada, de modo às vezes um pouco atenuado, pela determinação de um dos corpos ser ativo e o outro passivo. (…) O fato de o produto ser um sal neutro não deixa de ter uma repercussão psicanalítca. [6]

Essa relação que se estabelece entre erotismo e ciência surge em meio aos processos da alquimia. Ainda com Bachelard, vemos que o tratamento dado pelos alquimistas aos elementos, instrumentos e procedimentos é frequentemente carregado de sexualidade quando transformado em relato: “abre-lhe pois as entranhas com uma lâmina de aço e usa uma língua suave, insinuante, agradável, acariciante, úmida e ardente. Por esse meio, tornarás manifesto o que está escondido e oculto.” [7]

O princípio analógico fica evidente, recheando o discurso científico de metáforas eróticas bastante diretas. A ironia que faltava para atrair o demônio do Witz reside, naturalmente, menos no fato de tratar-se de um discurso de ciência, do que no fato de serem os alquimistas e seus relatos elementos de uma idade média cheia de rigores católicos, regida pela lógica do pecado. Vale lembrar ainda que, segundo Bachelard, “é surpreendente que todas as experiências da alquimia possam ser interpretadas de duas maneiras, uma química e outra moral”[8]. Isto é, para além de exercícios de invenções e descobertas químicas, os alquimistas viam no seu processo de combinação e metamorfose dos elementos uma forma de purificação das substâncias. Daí que o objetivo fosse o ouro – considerando que o valor e a pureza sejam equivalentes – e a Pedra Filosofal (ou o Andrógino Hermético) fosse uma representação metafórica de Jesus, já que ambos nascem da mistura de dois elementos (o divino e o humano, no caso de Jesus) e da elevação espiritual da matéria. Claro está que isso também significa que seus objetivos e símbolos eram duplos e ambíguos como a ironia. E de um pan-erotismo que não conhece limites de ação, posto que

até esses quatro corpos imensos que chamamos os quatro Elementos, que são as colunas do mundo, não podem impedir, com toda sua grandeza e enorme solidez, que a Alquimia os penetre de lado a lado, e veja por meio desses procedimentos o que têm no ventre, e o que têm de escondido no mais recôndito de seu centro desconhecido. [9]

O interesse de Jorge de Sena enquanto portador de diabólico Witz é o de penetrar, não os quatro elementos como os alquimistas, mas as diferentes linguagens de lado a lado para ver o que “têm no ventre”, numa busca pelo que o humano tem “de escondido no mais recôndito de seu centro desconhecido”. Surgem, dessa proposta, poemas como “A Arquitectura dos Corpos”, de Exorcismos (1972), que lemos a seguir:

Pendentes como frutos ou moluscos
da intersecção convexa das colunas
alongam-se volume adivinhado
nos véus retensos que os desenham soltos.
Os fustes se articulam de joelhos
ancas artelhos metatarso e dedos.
E no de se mover a arquitectura
desnudo o templo se promete ampliado
e penetrante e ardente quando a vida
que é suco em fruto endurecer de sangue.
Outras colunas se entreabrem já
humedecidas no seu friso oculto
a tanta imagem prometida. E só
os dorsos das estátuas se não fitam.

De uma cintura opostamente os globos
se erguem metades lado a lado rijos.
Lisos na curva os que de baixo avançam
e pontiagudos no seu eixo os outros
que acima opostamente se arredondam
e em contracurva se diluem suaves
na curvatura larga que irradia
de um ponto refundado até uma linha
em que outra curva enegrecida avança.
Sob esta – aonde se bifurca o fuste –
em lábios se abre vertical um friso
internamente prolongado para
o duro eixo do templo receber
que a horizontal cariátide sustenta.

♂♀

Na noite cavernosa a que se aponta
e em que mergulha e se desliza e volta
quando se move do que as partes une
de oscilações o templo e o seu suporte –
trementes superfícies e rebordos
se roçam se estrangulam se recravam
até que imóveis o edifício jorra
adentro de si mesmo um fecho líquido
selando a abóbada nocturna e quente
da cripta profunda. Ou não selando.
Dentro se funde ou não se funde um ovo
com desse líquido o pequeno acaso.
No campo se separam em pedaços
colunas arcos tímpanos e frisos.
[10]

Invertendo (ou subvertendo, ou pervertendo) a sexualizada descrição científica dos processos alquímicos, o que se vê no poema é uma descrição artístico-científica (já que afinal a arquitetura também se ergue numa base dupla e ambígua) de um ato erótico. Tanto a descrição de cada um dos corpos – identificados por símbolos e não por palavras – , como a descrição da relação sexual em si fazem uso de uma terminologia pouco usual, valendo-se de “eixos”, “curvaturas”, “contracurvas”, e até uma “intersecção convexa”. A “abóbada”, a “cariátide” as “colunas arcos tímpanos e frisos”, todos os elementos arquitetônicos da escrita servem, no entanto, mais para explicitar que para dissimular, numa escrita de metáforas claras que torna o casal flagrado tão visível como se de fato fosse um edifício construído e desconstruído diante do olhar do leitor. Como no caso da música, o desenho que se modula no espaço-tempo como desejo de suspensão do vazio, de infinito e eternidade passa logo a pedaços separados, “colunas arcos tímpanos e frisos”, fragmentos de espaço sem tempo e tempo sem espaço em que, descartada a hipótese de por “um pequeno acaso” “fundir-se ou não um ovo”, restar apenas o silêncio, “colunas arcos tímpanos e frisos” e “o dedo sujo de investigar as origens da vida”.

Sendo as reflexões sobre a natureza humana o principal objetivo de uma poesia que se tece no intervalo das conexões, ciência e literatura acabam por se converter em experiências análogas de observação do universo. O olhar dialético de Jorge de Sena enxerga no número, por exemplo, uma forma andrógina – o que o aproxima morfologicamente da poesia. Como crítico, Sena incorpora a aritmosofia a seu método de leitura em diversas ocasiões. A concepção pitagórica do número como elemento duplo, articulando o que aparenta e o que significa, o aproxima da palavra, em sua dupla condição de sema e morfema, e do poema, composto de forma e conteúdo. O número carrega em si a carga de ambiguidade e ironia do Witz, a duplicidade analógica da metáfora, o poder de dizer duas (ou mais) coisas ao mesmo tempo, abarcando, ainda que dissimuladamente, diferenças e mesmo oposições. Como o signo linguístico, o signo numérico também se divide em significante e significado, e assim como “a poesia como criação de linguagem é supra-real, isto é, engloba a realidade e a sua mesma representação linguística” [11], o mesmo vale para as relações numéricas que compõem a estrutura do poema.

A aritmosofia não é, contudo, uma forma das mais frequentes na crítica literária tradicional e sua utilização, em grande medida, reforça a localização de Sena à margem do discurso oficial. Sobre essa questão, diria o autor que

qualquer historiador ou critico da cultura, por muito que numerologias mais ou menos pitagóricas e cabalísticas lhe pareçam indignas de altos espíritos ou da sua mesma ciência de critico ou de historiador, deve profissionalmente e intelectualmente reconhecer que tais coisas, ainda ou já antes de Pitágoras, existiam e eram usadas ou praticadas, que o foram muito particularmente em certas épocas da História, e que mesmo aspectos culturais do nosso tempo não são entendíveis sem elas (…). Quer o historiador seja conservador e tradicionalista, quer seja marxista (e, portanto, ao menos por definição, revolucionário), a situação não se altera. Pode mesmo dizer-se que o “marxista”, com a sua consciência dialéctica da História, e a sua noção de perspectiva do entendimento dela, (…) há que notar que, variamente, em muitas circunstâncias de época, estes esoterismos e numerologias (…) representaram um papel revolucionário, pois que eram usadas como suporte (oculto ou disfarçado) de significados subversivos da ordem ideologicamente estabelecida. [12]

A dualidade do signo numérico e seu consequente potencial subversivo de portador de códigos secretos conduz à reflexão sobre o papel da ciência. Envolvida na tradução do mundo em números, fórmulas, teorias, a ciência, em suas diversas matérias de pesquisa e áreas de atuação, dá a entender que se ocupa da obtenção de respostas precisas e absolutas, em busca de uma equação prefeita que solucione tudo na clareza e objetividade de seu resultado. Entretanto, se tal resultado é expresso em números e estes, como já se sabe, podem representar muito mais que simples quantidades, chegamos a um espaço de incerteza que surge aos nossos olhos perplexos como manifestação da mesma ambiguidade irresoluta que Sena definiu como essência da poesia.

Tal ambiguidade se traduz naquilo que Boaventura de Souza Santos chama de ciência pós-moderna ou “paradigma emergente”:

a ciência pós-moderna é uma ciência assumidamente analógica que conhece o que conhece pior através do que conhece melhor. Já mencionei a analogia textual e julgo que tanto a analogia lúdica como a analogia dramática, como ainda a analogia biográfica, figurarão entre as categorias matriciais do paradigma emergente: o mundo, que hoje é natural ou social e amanhã será ambos, visto como um texto, como um jogo, como um palco ou ainda como uma autobiografia.(…) Cada uma destas analogias desvela uma ponta do mundo. A nudez total, que será sempre a de quem se vê no que vê, resultará das configurações de analogias que soubermos imaginar: afinal, o jogo pressupõe um palco, o palco exercita-se com um texto e o texto é a autobiografia do seu autor. Jogo, palco, texto ou biografia, o mundo é comunicação e por isso a lógica existencial da ciência pós-moderna é promover a “situação comunicativa” tal como Habermas a concebe. [13]

Em busca dessa “nudez total” de que fala o filósofo – e nisso, mais uma vez o princípio erótico se faz presente – Jorge de Sena constrói para si uma poética baseada na comunicação, em que a arte se apresenta, não como mediação do saber, mas como jogo de busca pelo outro, como palco em que se encenam as relações entre as diferentes linguagens, como texto em que se escreve a biografia de todos os homens e ao mesmo tempo a sua própria autobiografia. Partilhando desse intuito de “promover a ‘situação comunicativa’”, o poeta faz da sua obra um local de comunicação em que cada fragmento-poema surge como materialização de um diálogo no espaço-tempo, existente porque pensado.

Sena foi sempre um homem de escolhas difíceis que o levaram a experienciar muitos espaços em pouco tempo. Faz a opção pela dúvida em tempo de certezas, faz a opção pelo conhecimento em tempo de ignorância, pelo diálogo em tempo de silêncio. Mas a escolha mais complexa e mais dolorosa é a opção que faz pela humanidade. Como escreveu Albert Einstein:

Conheço com lucidez e sem prevenção as fronteiras da comunicação entre mim e os outros homens. Com isso perdi algo da ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais firmo uma opinião, um hábito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. É inconsistente. (…) No entanto, creio profundamente na humanidade. [14]

A angústia é o sentimento mais comum aos que optam por acreditar numa humanidade feita de homens inconsistentes. Apesar de, como Einstein, conhecer as fronteiras da comunicação que o separa dos outros, Sena faz de sua própria dor o impulso criativo persistente que busca incessantemente a ruptura de barreiras arbitrárias que o separem dos demais. O desejo de atravessar tais fronteiras, levando consigo a própria linguagem desejosa de absorver e penetrar a linguagem do outro lado, é mais um aspecto de aproximação entre a sua poesia e a ciência pós-moderna, como vemos, novamente, no discurso de Boaventura de Souza Santos:

a ciência do paradigma emergente, sendo (…) assumidamente analógica, é também assumidamente tradutora, ou seja, incentiva os conceitos e as teorias desenvolvidos localmente a emigrarem para outros lugares cognitivos, de modo a poderem ser utilizados fora do seu contexto de origem. (…) O conhecimento pós-moderno (…) é relativamente imetódico, constitui-se a partir de uma pluralidade metodológica. Cada método é uma linguagem e a realidade responde na língua em que é perguntada. Só uma constelação de métodos pode captar o silêncio que persiste entre cada língua que pergunta.[15]

Da passagem citada, duas ideias saltam aos olhos: em primeiro lugar, a importância da tradução como construção de pontes que possibilitem a travessia das fronteiras e o diálogo com o outro, viabilizando a utilização de conceitos e teorias fora do seu contexto cognitivo de origem. Em segundo lugar, o caráter “imetódico” do conhecimento e a necessidade de abordagens plurais, já que “só uma constelação de métodos pode captar o silêncio que persiste entre cada língua que pergunta”.

Lembramos então que, de acordo com Jorge de Sena,

a tradução é uma forma de decifração estilística; e, dado que o homem não possui efectivamente aquilo que não faz (ou não refaz pela consciência crítica), ela é, também, uma forma dialéctica de consciencialização. (…) a tradução não é uma escola de imitação. Só se imita o que se não conhece por dentro. [16]

Traduzir a linguagem do universo em palavras, isto é, em linguagem verbal e, portanto, mais acessível ao homem, é o esforço daqueles que, “versados” em termos numéricos, aceitam o desafio de interpretar em uma linguagem o que leem em outra. O exercício de “decifrar o estilo” do discurso da natureza em termos humanos, demanda por parte do cientista uma recriação constante do mundo pela fábrica da consciência crítica. Traduzir, contudo, o discurso científico em poesia exige que se conheçam as duas formas de manifestação “por dentro”, o que demanda naturalmente um envolvimento de caráter erótico entre as instâncias postas em diálogo. Antes de tudo, é imprescindível a consciência de que a relação que se estabelece entre as duas linguagens “é entre dois sujeitos e não entre um sujeito e um objecto. Cada um é a tradução do outro” [17]. A partir dessa constatação, transfigurar a criatividade científica em criatividade artística provoca um questionamento do saber em vários níveis diferentes, conduz a uma necessária revisão de conceitos e permite à ciência uma desejável troca de experiências com a humanidade que, frequentemente, a condena à incompreensão.

Esse tipo de conhecimento de busca do outro no espelho e de si mesmo na imagem alheia, de penetração das linguagens como forma de apreensão do humano, de tradução do idioma que se fala além das fronteiras, é o conhecimento revelado pelo Witz enquanto modo de visão de mundo. É um saber imediato e imetódico que exige toda uma “constelação de métodos” para ser interrogado e compreendido. É um saber diabólico que se obtém numa viagem de descida sem volta, como a do segundo movimento dos “Nocturnos” (Perseguição, 1942) de Sena:

Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.

E a noite que é como alguém que desce,
cheio de confiança,
os degraus de uma escada própria interminável
– os degraus serão sempre os mesmos,
nunca haverá outros degraus no fundo.
[18]

Fruto da angústia, a viagem que se empreende degraus abaixo é interminável. Mesmo que imóvel como se em “uma cadeira para assistir à noite”, a ação de penetração nessa noite que é também sujeito e, portanto, também penetra de volta, é uma descida sem fim por “uma escada própria”, pelos degraus de si mesmo. E, armado apenas de um dedo sujo e uma constelação de métodos, em plena descida o poeta se imagina em “Ascensão”, a poucos degraus da verdade:

Nunca estive tão perto da verdade.
Sinto-a contra mim,
sei que vou com ela.
Tantas vezes falei negando sempre,
esgotando todas as negações possíveis,
conduzindo-as ao cerco da verdade,
que hoje, côncavo tão côncavo,
sou inteiramente liso interiormente,
sou um aquário dos mares,
sou apenas um balão cheio dessa verdade do mundo.

Sei que vou com ela,
sinto-a contra mim, –
nunca estive tão perto da verdade.
[19]

Terá encontrado alguma depois do toque dos sinos? Ou só o “eco distantíssimo das cinzas em que arderiam deuses, se os houvesse”?
Notas:

1. Sena, 1991, p. 45.
2. Sena, 1988(a), p. 150-1.
3. Sena, 1989, p.72.
4. Pequena perversão do conceito de diabolus in musica, terminologia medieval para o dissonante intervalo de 4a aumentada.
5. Novalis, 2001, p. 112.
6. Bachelard, 1996, p. 240.
7. S. n. a. apud Bachelard, 1996. p. 237.
8. Bachelard, 1996. p. 65.
9. Pierre-Jean Fabre apud Bachelard, 1996. p. 237.
10. Sena, 1989, p.125-6.
11. Sena, 1988(b), p.159.
12. Sena, 1978, p.65 (nota 9).
13. Santos, 2001, p. 72-73.
14. Einstein, 1981, p. 12.
15. Santos, 2001, p. 77-8.
16. Sena, 1978, p.272.
17. Santos, 2001, p. 87.
18. Sena, 1988(a), p. 40.
19. Sena, 1988(a), p. 78-9.

 

Bibliografia:

BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
NOVALIS, Pólen. São Paulo: Iluminuras, 2001.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez, 2001.
SENA, Jorge de. Dialécticas aplicadas da Literatura. Lisboa: Edições 70, 1978.
______. Poesia I. 3ª ed. Lisboa: Edições 70, 1988(a).
______. Poesia II. 2ª ed. Lisboa: Edições 70, 1988(b).
______. Poesia III. 2ª ed. Lisboa: Edições 70, 1989.
______. “A poesia de António (esboço de análise objetiva)” apud Rosa Maria B. Goulart, “Poesia da ciência, poesia do mundo”. In: GRAFF, Marc-Ange (org.), Poesia da Ciência – Ciência da Poesia. Lisboa: Escher, 1991.