32. Reiteração e desconstrução de um modelo: a imagem de Cristo n’’A Demanda do Santo Graal e em O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena

[LER E RELER JS – 32: Márcio Ricardo Coelho Muniz]

Recuperando tradições medievas, e traçando interlocuções entre passado e presente, o ensaio de Márcio Muniz nos traz enriquecedora leitura da novela seniana, a partir das “transposições simbólicas” da figura de Cristo dentro da cultura literária.

1.
Figura exponencial da cultura do Ocidente, Jesus Cristo é personagem recorrente na literatura do mundo cristão, modelo perfeito dos mais altos ideais que as sociedades são capazes de vislumbrar. Destaca-se em sua caracterização o aspecto ambivalente de sua constituição: Cristo é “ao mesmo tempo homem, no legítimo e autêntico sentido da palavra, e bem mais do que um homem, um ser divino, o Filho de Deus” (DABEZIES: 1998, p.517). Esta ambivalência foi consagrada no Concílio de Calcedônia, em 453. Dependendo do momento e dos interesses em jogo, um desses aspectos será ressaltado pelo grupo social.

Conforme aponta Dabezies, os primeiros cristãos interessaram-se mais pela divindade, pelo caráter transcendental da figura de Cristo. No entanto, com o processo de individuação que a sociedade medieval viveu após a reforma gregoriana, no século XI, foi a humanidade de Cristo o aspecto que passou a interessar. O que esta divindade possuía de próximo ao homem comum e os exemplos de conduta individual que transmitia foram os dados que começaram a despertar atenção nesse período.

A reforma eclesiástica promovida pelo Papa Gregório VII (1073-1085) sintetizava o caráter das modificações por que a sociedade e a Igreja passavam. Foram dois os aspectos centrais da reforma: o primeiro, de motivação política, buscava diminuir a interferência dos leigos nos assuntos da Igreja; o segundo, o mais importante, era de teor moral. Gregório preocupou-se particularmente em corrigir hábitos e práticas religiosas. A condenação da simonia e das violações do celibato foram os pontos centrais de seu desejo de mudança.

Da reforma gregoriana e, de certa forma, paralela a esta, veio o grande desenvolvimento da vida monástica que o séc. XII presenciou. A vida de enclausuramento cenobítico que as ordens beneditinas pregavam fortalecia aqueles aspectos defendidos por Gregório VII. Ao mesmo tempo que propiciava uma melhor e maior ascese espiritual, a vida cenobítica protegia-as das interferências políticas e fortalecia a imagem de pureza, castidade, rigidez moral etc. que se desejava para a Igreja. A influência que ordens como as de Cluny e Cister exerceram e a admiração que despertaram nos homens leigos, assim como os favores que conseguiram destes, corroboram o quanto estava certo o Papa Gregório VII.

Todavia, os favores dos leigos fizeram com que as ordens beneditinas crescessem em demasia, cedendo ao luxo material e paulatinamente afastando-se dos ideais de humildade, bondade e pureza que estavam na base do pensamento de São Bento, inspirador daquelas ordens. Além disso, os leigos viam no despertar para a espiritualidade e no negar os prazeres terrenos o grande valor das ordens monásticas. E não só a admiravam como a desejavam. O modelo de busca da ascese espiritual desenvolvido pelos monges em seus enclausuramentos era ao que aspiravam poder seguir, de forma individual, os homens da época. O grande desenvolvimento do eremitismo não só entre religiosos, mas principalmente entre leigos, denuncia a aspiração ascética que movia esses homens e a ambição por uma vida espiritual individual. Exortava-se por um retorno aos ideais dos primeiros apóstolos, por uma vita apostolica, uma vita angelica.

Neste sentido, os ideais de ‘pobreza evangélica’, ‘amor caritativo’ e ‘proselitismo’ defendidos pelas Ordens Mendicantes (BOLTON: 1986, p. 78) vinham ao encontro dos anseios espirituais do homem do século XII. Os ‘Frades Pregadores’ e os ‘Frades Menores’, de certo modo, representaram uma ‘reforma’ dentro da Reforma Gregoriana.

Para a Igreja elas representavam uma resposta ordenada — regida pela obediência hierárquica e orientada pelos verdadeiros valores cristãos — aos movimentos heréticos que desabrochavam por todos os cantos da Europa. Ao mesmo tempo, aqueles mesmos ideais, somados à constante peregrinação e ao comportamento exemplar, vinham ao encontro daquilo que todos desejavam, ou seja, religiosos com vida modelar e dispostos a retomar a orientação evangelizadora dos primeiros apóstolos, preocupando-se em particular com as classes menos favorecidas da sociedade. O cristocentrismo defendido pelos Frades Mendicantes, em particular pelos Franciscanos, repõe no centro da questão espiritual o exemplo modelar e evangelizador de Cristo.

É dentro deste contexto de reforma e de individualização espiritual que a tradução portuguesa d’A Demanda do Santo Graal foi produzida [1]. Este ensaio pretende demonstrar que não é aleatório que a caracterização do herói da DSG aproxime-o de tal forma da figura de Cristo que, em alguns momentos, deixe a impressão de que se fala do próprio Cristo. Outrossim, pretendemos observar de que forma Jorge de Sena, poeta e prosador português do séc. XX, em sua novela O Físico Prodigioso, retoma o modelo utilizado na DSG para desconstruí-lo, por meio do erotismo.


2.
Conforme explicita Dabezies, diversas são as maneiras de “transposições simbólicas” da figura de Cristo dentro da cultura literária: o escritor pode trazê-la para a atualidade ou para um passado próximo em que Ele ainda desempenhe um papel moralizador, de corretor dos vícios sociais; ou pode transportá-la para os nossos dias e tentar imaginar como Jesus viveria hoje; ou ainda, associar a figura de Cristo a uma coletividade oprimida, que sofre as injustiças do mundo (DABEIZIES:1998, p. 521). Enfim, há, segundo o autor, uma espécie de “cristologia poética” que possibilita que a figura mítica de Cristo seja atualizada de variadas formas.

Acompanhando, primeiramente, o percurso de Galaaz pela DSG conseguimos levantar as semelhanças entre ele e Cristo, de quem é “sergente”. De início, a descrição, por parte do ermitão que o acompanha, de sua origem e dos porquês de sua escolha por Deus deixa claro a sua predestinação:

_ “Filho, cousa santa e honrada, frol e louvor de todos os menios, outorga-me, se te praz, que te faça companha em todo minha vida mentre te puder seguir dê que te partires da côrte del-Rei Artus, ca eu bem sei que nom morarás i mais de uu dia ca a demanda do Santo Graal se começará tanto que tu i chegares (…) Ca Deus, que te fez nascer em tal pecado como tu sabes, por mostrar seu grande poder, essa gram virtude te outorgou per sua piedade e pola bõa vida que tu começaste de tua meninice atá aqui que te dará poder e força e bondade de armas e de ardimento sobre todolos cavaleiros que nunca trouxeram armas no regno de Logres, assi que tu darás cima a todalas outras maravilhas e aventuras u todolos outros falecerom e falecerám. E por em quero todos os teus feitos saber que acabarás, que foste feito em tal pecado, u os outros nom poderom hi aviir, que foram feitos em leal casamento. Eu te quero teer campanha como sei que em nosso tempo nunca fez tam fremoso milagres Nosso Senhor, nem tam conheçudos como fará por ti” (p. 21- 22) [2].

De imediato, ficamos sabendo que a Demanda só começará com a chegada de Galaaz e que ele dará cima a “todalas outras maravilhas e aventuras u todolos outros faleceram e falecerám” [3]. Da mesma maneira, o fato de ele ter sido preferido, apesar de ser fruto do pecado, preterindo-se outros cavaleiros, frutos de “leal casamento”, deve-se à escolha divina que deseja, através de Galaaz, pecaminosamente concebido [4], demonstrar todo seu grande poder e sua grande virtude [5]. Como se vê, ele é o eleito, que vem ao mundo cumprir a missão de demonstrar o poder de Deus, assim como Cristo.
A condição de escolhido, de eleito, é constantemente reiterada ao longo da obra. Logo à sua chegada à Távola Redonda, o ermitão que o acompanha revela sua filiação à linhagem a que pertence o próprio Cristo: “_ Rei Artur, eu te trago o cavaleiro desejado, aquel que vem do alto linhagem del-rei David e de Josep Baramatia, per que as maravilhas desta terra e das outras haverám cima” (p. 29). No episódio do Escudo, o ermitão ao referir-se à Galaaz, diz: “(…) ca el é ora o escolheito que nom há par entre todo os cavaleiros que ora sam nem foram gram tempo há” (p. 54). Durante a aventura do mosteiro, novamente um ermitão associa-o, agora de forma mais literal, à figura de Cristo, apontando as profecias de sua vinda. Entende-se claramente pela fala do ermitão ser Galaaz um “novo Cristo”:

“E assi como os profetas, gram tempo ante da viinda de Jesu Cristo, profetizarom sua viinda, e o que ele livraria o poboo das coitas do inferno, bem assi profetizaram os santos ermitães e outrossi muitos homees bõõs vossa viinda mui gram sazom ante que vós viéssedes” (p. 61)

Sua entrada na sala em que estão reunidos os cavaleiros da Távola Redonda é, da mesma forma, marcada por uma série de dados sobrenaturais, semelhantes aos que marcarão, mais à frente, a aparição maravilhosa do Santo Graal. Apesar de todas as portas e frestas do paço cerrarem-se sozinhas, ainda assim este não escurece porque “entrou i uu tal raio de sol”. Este raio precede a entrada triunfal de Galaaz. Sabemos que, entre outros, Cristo está associado ao simbolismo solar. Do mesmo modo, Galaaz tem luz própria e será também a luz do caminho até o Graal.

Como Cristo, Galaaz também é tentado. Na DSG, a preocupação com a luxúria que impera na Ordem da Cavalaria, em que os pecados da carne são os grandes e principais impecilhos para a ascese dos cavaleiros, o diabo assume a forma de uma donzela que, sob o impacto da beleza do herói, se apaixona perdidamente por ele e deseja tentá-lo em seu leito. O episódio da tentação de Galaaz pela filha de Brutus é emblemático do paradigma que a obra busca construir entre o herói e Cristo [6]. Também Galaaz deve ser testado, também ele deve resistir às malícias e às astúcias do demônio para cumprir seu percurso até a ascese plena, que se dará no encontro com o Santo Graal.

A partir de determinado momento da narrativa, Galaaz também começa a operar milagres, como a expulsão do diabo do corpo da donzela possessa, o desmascaramento do demônio disfarçado no “encantador” que acompanha o Rei Peles, a cura do aleijado na entrada da cidade de Sarras, entre outros. Como se observa, milagres semelhantes e, poderíamos dizer, espelhados naqueles que operou Cristo, conforme os relatos dos Evangelhos.
Conforme afirma Mongelli, “a trajetória de Galaaz é uma seqüência de sucessos” Estes serão coroados com sua contemplação do Santo Graal e, após sua morte, com sua ascensão ao céu, como o modelo sobre o qual se constrói. Galaaz perfaz assim as exigências necessárias para a conformação de “sua natureza de Cristo renovado” (MONGELLI: 1995, p. 70-73). Ainda que não consiga redimir e salvar o reino de Logres, todo entregue aos pecados da luxúria, da soberba e da inveja, ele apresenta-se como modelo perfeito de ascese espiritual e individual, corroborando o caráter doutrinário cristão da novela portuguesa.

3.
Outra novela portuguesa, agora nossa contemporânea, constrói sua personagem central sobre o mesmo modelo mítico de Cristo. Jorge de Sena, em seu O Físico Prodigioso, de 1966, revisita o mundo e o imaginário medievais [7] para nos contar as andanças de um Físico. Criada “como símbolo da liberdade e do amor” (SENA: 1986, p. 9), a novela apresenta a peregrinação do Físico, que trilhará um percurso em muito semelhante ao de Cristo, e por sua vez ao de Galaaz, mas que em determinado momento será desvirtuado do caminho seguido por aqueles.

O motivo do desvirtuamento o próprio autor já indica na “nota introdutória” à edição independente, apontando não só aquela simbologia de que falamos acima, como também assumindo ter conferido um caráter erótico e revolucionário à novela. Tratando do moralismo da sociedade portuguesa à época da publicação do conto na coletânea Novas Andanças do Demônio, de 1966, Sena afirma que “o descarado pan-erotismo do ‘físico’ podia chocar, caso a não chocassem (a sociedade) as implicações fundamente revolucionárias e subversivas da narrativa inteira” (Idem, p. 10).

Não bastasse esta ‘subversão’ temática amorosa, o autor ainda denuncia plena consciência de ter construído sua novela sob o signo de outra rebeldia, a formal: “… o experimentalismo narrativo, jogando com o espaço, o tempo, a repetição variada do texto, etc., é uma das bases essenciais desta novela, como o é a Idade Média ou algo semelhante, fantástica, em que a situei” (Idem, p. 12).

Como se percebe, estão aqui já anunciados os elementos motivadores do desvirtuamento do modelo a que nos referimos acima. Todavia, interessa-nos, mais do que constatar o apartamento do modelo e os componentes provocadores deste, analisar de que maneira o modelo mítico de Cristo é retomado por Sena e de que forma sua narrativa avança, em relação à DSG, na utilização deste. Observemos, para tanto, a peregrinação deste Físico dito prodigioso.
A novela começa com o Físico interrompendo sua caminhada para banhar-se em um rio. Ao se por nu para entrar na água, é assediado por uma figura invisível que goza de seu corpo. Logo ficamos sabendo que se trata do diabo, com quem o Físico tem um pacto, estabelecido por sua madrinha que, ao lhe dar um gorro mágico, convocou o diabo para que este desse poderes sobrenaturais ao seu afilhado. Desde então, aceito o acordo, sempre que sozinho e nu a cena se repetia.

Depois de servido o diabo, o Físico banha-se no rio para se limpar das marcas daquela relação que lhe causa tédio e certo nojo. Logo após, deita-se à beira do rio. Neste momento, aparecem três donzelas que, tendo travado comunicação com ele, identificam marcas (formoso, físico e virgem) que o caracterizam como o “esperado”, aquele que virá salvar-lhes a senhora por quem choram, doente e desenganada à espera de seu salvador no castelo. Utilizando-se de seus poderes mágicos, o Físico cura a rainha com um banho feito a partir de seu próprio sangue.

Mário Martins interpreta desta forma este episódio, que tem como fonte, como vimos, o Orto do Esposo: “Este castelo simboliza a Igreja. As três donzelas chamam-se Fé, Esperança e Caridade. Choram por causa da humanidade, a castelã doente pelo pecado e a ponto de morrer. Veio por fim Jesus. As três virtudes… meteram-no na Igreja, para curar a todos no banho do sangue de seu coração trespassado” [8]. Vê-se desta maneira a associação da figura do Físico com Cristo. Não param aí as semelhanças. Fagundes aponta ainda a missão do Físico: “disseminar amor, curar enfermos e ressuscitar mortos” (FAGUNDES: 1981, p. 135). Além disso, sua presença representa uma ameaça às normas e às instituições vigentes. Não por outro motivo, ele será denunciado à Inquisição por uma espécie de Judas, o Capelão do Castelo.

Fagundes chama também atenção para a subdivisão simbólica do desenvolvimento da narrativa entre os doze capítulos: seis capítulos para a criação (encontro, cura e amor) e outros seis para a destruição (prisão, paixão e morte) (Idem, p. 135). Por fim, o Físico vive uma “paixão” em muito semelhante à de Cristo: arrasta-se pelas ruas, há um cortejo que o segue, algumas mulheres saem à rua a limpar seu sangue e, após sua morte, uma roseira e um novo físico surgem de sua sepultura, como a anunciar a ressurreição.

Os elementos de cristologia na caracterização do Físico são evidentes e nos permitem ver renovados aqueles ideais que presenciamos na peregrinação de Galaaz na DSG. No entanto, as semelhanças se encerram por aqui.

4.
Como vimos, a orientação que Jorge de Sena dá à sua novela é de teor revolucionário e erótico. Consoante a definição de Batailles, “o domínio do erotismo é o domínio da violência, o domínio da violação” (BATAILLES: 1987, p. 16). A partir do capítulo sete da novela, toda a narrativa enceta um caminho pela violência. Acusado de compactuar com o demônio, o Físico é preso, julgado e condenado. Sua morte na forca só não se dá por interferência de seu protetor, o diabo [9]. Sua ‘via crucis’, todavia, promove uma verdadeira revolução, já que o castelo e a cidade são tomados pelo fogo, ocorrem tumultos, assaltos, e — de acordo com a subversão típica provocado pelo registro carnavalizado da paródia — “no meio, porém, de aquilo a população vivia num delírio de prazeres, em festa” (SENA: 1986, p. 135).

A este contexto podemos relacionar uma daquelas “transposições simbólicas” da figura mítica de Cristo de que fala Dabezies. Uma transposição possível é justamente identificar Jesus com os ideais de um grupo social oprimido. O fogo, a festa, a peste, enfim, todos os acontecimentos que parecem oriundos da peregrinação do Físico resultam em profundas transformações na sociedade. Diferentemente da DSG, em que as ações de Galaaz revertem em proveito individual, contribuem quase que exclusivamente para sua ascese pessoal e, no máximo, para a reiteração de um modelo perfeito de cristão, o deslocamento do físico para o interior da comunidade promove mudanças significativas para esta. Resulta em subversão, rebeldia, liberdade.

Do mesmo modo, para Bataille o erotismo traz em si também a aura da subversão. Identificamos imediatamente este caráter subversivo na relação que se estabelece entre o Físico e a cortesã. Se era necessário que o “desejado”, aquele que viria curá-la, fosse virgem, portanto puro e casto, como se espera de um ser capaz de operar curas/milagres, esta mesma cortesã põe fim à virgindade do Físico, como se para que a cura acontecesse fosse necessário sacrificar sua castidade. Lembre-se que a castidade é, na DSG, um dos valores maiores de cavaleiros como Galaaz e Boorz e que o pecar contra a carne é a acusação mais constante feita aos guerreiros de Artur.

A relação que se estabelece entre cortesã e Físico, a partir da cura daquela, é de intensa paixão, paixão que levará ambos a morte. Se entendermos erotismo como um impulso que leva dois seres descontínuos a se unirem no intuito de encontrar a continuidade, ainda que disso resulte a morte de ambos (BATAILLES: 1987, p.14), compreendemos que o encontro dos dois é altamente subversivo, pois ainda que os leve à morte, estabelece pela via erótica a continuidade, a esperança implícita no ato subversivo: a roseira e o novo físico que nascem do túmulo dos amantes.

Esta “continuidade erótica”, a nosso ver, ilustra com clareza a defesa da liberdade e força do amor que desejou Sena representar em sua novela. Retomando um tema caro ao imaginário medieval — e não só a ele —, aquilo que Dabezies chama de “cristologia poética”, o autor reitera alguns de seus aspectos, mas inova, pela via da desconstrução mítica, outras tantas de suas características.

Assim, ao dialogar com a tradição literária de seu país, Jorge de Sena parece ter consciência do que afirma Eliot, sobre o escritor e a tradição que o conforma, em seu “Tradição e talento individual”: “o passado dev(e) ser modificado pelo presente tanto quanto o presente (deve estar) orientado pelo passado” (ELIOT: 1962, p. 40).

 

1. O texto d’A Demanda do Santo Graal a que temos acesso hoje, em sua tradução portuguesa, deriva de uma segunda versão da Post-Vulgata ou Pseudo Boron. A cópia é, provavelmente, do início do séc. XV e a tradução pode remontar à metade do século XIII (MEGALE, 1988). A partir deste momento A Demanda do Santo Graal, por motivo de concisão, será designada por DSG.
2. Todas as citações do texto da DSG dar-se-ão pela edição preparada por Irene Freire Nunes, indicada nas referências bibliográficas, ao final deste trabalho. Indicaremos, ao fim de cada citação, entre parêntesis, apenas a página em que esta se encontra.
3. Em obra de cariz sociológico, Heitor Megale não deixa de reconhecer esse caráter de predestinação de Galaaz. O crítico chama atenção para o fato de que apesar de Galvam ter feito o juramento e todos os cavaleiros seguirem-no de imediato, a demanda não se inicia. Espera-se pelo cavaleiro eleito. Da mesma forma, enquanto todas as missões que este deve cumprir não são terminadas, o reino de Artur mantém-se, como se fosse o cavaleiro Galaaz um “anteparo”, a segurança do reino. Exatamente por isso, no momento em que este morre, se inicia a derrocada daquele, já que não tem mais quem o defenda e sustente. Cf. MEGALE:1992.
4. Neste ponto, Galaaz se difere de Cristo, concebido por uma virgem imaculada. No entanto, deste se aproxima pela peculiaridade do nascimento de ambos. O ser gerado por uma virgem distingue Cristo de seus contemporâneos, assim como Galaaz diferencia-se de seus pares, entre outras coisas, pela origem pecaminosa.
5. “Retoma-se a querela do arbítrio e da predestinação: sendo Deus misericordioso, escolheu um pecador para se fazer representar e exercer justiça (…) Assim, Galaaz é ‘sergente de Jesus Cristo’, instrumento da Providência Divina, em quem simultaneamente se realiza o cancro do pecado e a graça da absolvição” (MONGELLI: 1995, p. 63).
6. Para uma análise mais detalhada e inteligentemente sugestiva do episódio, remetemos o leitor para o capítulo III, primeira parte, do livro de MONGELLI: 1995.
7. Jorge de Sena em notas finais à edição d’O Físico Prodigioso, afirma ser sua obra um “desenvolvimento muito ampliado e, se quiserem, muito deturpado de dois ‘exemplos’ do Orto do esposo, o belo livro moralístico-religioso da literatura portuguesa da primeira metade do século XV” (SENA: 1986, p. 145). A partir deste ponto passaremos a denominar O Físico Prodigioso pela sigla FP, para efeito de concisão do trabalho.
8. MARTINS, Mário, apud FAGUNDES: 1981, p. 135. Seguiremos, a partir daqui, o levantamento dos elementos semelhantes e distintos de cristologia presentes n’O físico prodigioso, identificados por Francisco Cota Fagundes.
9. Registre-se aqui uma diferença fulcral entre Galaaz e o Físico: a perseverança, a fé, os poderes daquele advêm de Deus; a força e os poderes deste, ao contrário, advêm diretamente do diabo.
 

Referências bibliográficas:

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BAKHTIN, Mikhail, A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, Trad. de Yara F. Vieira, 2. ed., São Paulo/Brasília, HUCITEC/ Editora da Universidade de Brasília, 1993.

BATAILLE, Georges. O erotismo. Trad. de Antônio C. Viana. Porto Alegre: L&PM, 1987.

BOLTON, Brenda. A Reforma na Idade Média: século XII. Lisboa: Edições 70, 1986.

BRANCO, Lúcia Castello. O que é erotismo. São Paulo: Brasiliense, s/d.

DABEZIES, André. “Jesus Cristo na literatura”. In: BRUNEL, Pierre (org.). Dicionário de mitos literários. 2 ed. Rio de Janeiro/Brasília: José Olympio/Ed. da UNB, 1998. p.517-523

DUBY, George. São Bernado e a arte cisterciense. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

ELIOT, T. S. “A tradição e o talento individual”. In.: Ensaios de doutrina crítica. Lisboa: Guimarães, 1962.

FAGUNDES, F. C. “O artista com um malho: uma leitura d’O físico prodigioso”. In.: SHARRER, H. L. & WILLIAMS, F. G. (org.) Studies on Jorge de Sena. Santa Barnara: University of California, 1981. p. 133-141.

FARIA, Eduardo. “Recensão crítica de O físico prodigioso”. In.: Estudos Sobre Jorge de Sena. Org. e introd. de Eugênio Lisboa: IN/CM, 1984. P. 377-379.

LOPES, ÓSCAR. “Os contos de Jorge de Sena: problemas de assumido realismo”. In.: Estudos Sobre Jorge de Sena. Org. e introd. de Eugênio Lisboa: IN/CM, 1984. p.319-337.

LOURENÇO, Eduardo. “Jorge de Sena e o demoníaco”. In.: Estudos Sobre Jorge de Sena. Org. e introd. de Eugênio Lisboa: IN/CM, 1984. p. 49-59

LOYN, H. R. (org.) Dicionário da Idade Média. 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

MARINHO, M. F. “O físico profigioso: o outro e o mesmo”. In.: SHARRER, H. L. & WILLIAMS, F. G. (org.) Studies on Jorge de Sena. Santa Barnara: University of California Press, 1981. p.142-151.

MEGALE, H. “Introdução”. In.: A Demanda do Santo Graal. Texto sob os cuidados de Heitor Megale. São Paulo: T. A. Queiroz, 1988. p. 1-21.

______. O jogo dos anteparos: A demanda do santo Graal: a estrutura ideológica e a construção da narrativa. São Paulo: T. A. Queiroz, 1992.

MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. 6 ed. São Paulo: Cultrix, 1992.

MONGELLI, L. M. de Medeiros. Por quem peregrinam os cavaleiros de Artur. Cotia: Íbis, 1995.

NOGUEIRA, Carlos R. F. O diabo no imaginário cristão. São Paulo: Ática, 1986.

Orto do Esposo. Ed. crít., intr. e gloss. de Bertil Maler. Rio de Janeiro/Stockolm: Instituto Nacional do Livro/Almquist Wihkselll, 1956-1964, 3 vols.

SENA, Jorge. O Físico Prodigioso. 4 ed. Lisboa: Edições 70, 1986.

VAUCHEZ, André. A espiritualidade na Idade Média Ocidental: séculos VIII a XIII. Trad. de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1995.
 

Pronunciamentos: textos políticos e discursos solenes

Com o título “Pronunciamentos” pretendemos abarcar duas dimensões da atuação pública de Jorge de Sena, que, segundo entendemos, se complementam. De um lado, os seus textos explicitamente políticos, publicados principalmente no jornal anti-salazarista Portugal Democrático (1956-1975), criado por exilados portugueses em São Paulo, no qual passou a colaborar tão logo se fixou no Brasil; de outro, os dois discursos solenes proferidos em 1977, ano anterior a sua morte, que registram com nitidez uma trajetória de vida e de obra onde as opções políticas nunca foram escamoteadas.

 

Discursos solenes:

* Discurso do Prêmio Etna-Taormina Discurso de agradecimento do 15º Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina, atribuído a Jorge de Sena em 1977. A solenidade de entrega deste prestigioso prêmio transcorreu em Catânia, na Sicília, no dia 25 de abril, onde o texto foi lido, com incrível êxito, na tradução italiana de Carlo Vittorio Cattaneo. Até então, apenas outro premiado agradecera em italiano: Murilo Mendes. O dactiloscrito registra “Taormina, 23 de abril de 1977”. Está integralmente reproduzido em Jorge de Sena, Poesia e Cultura (Porto: Caixotim, 2005, p. 203-207).

* Discurso da Guarda Discurso proferido na cidade da Guarda, durante as comemorações do “Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas”, no dia 10 de junho. O convite partiu do próprio Presidente da República, General Ramalho Eanes. O dactiloscrito registra “Paris, 3 de junho de 1977”. Está integralmente reproduzido em várias publicações — inclusive em brochura da Secretaria de Estado da Comunicação Social –, mas, desde 1980, encerra o vol.II de Jorge de Sena, Trinta Anos de Camões (Lisboa: Ed. 70, p. 253-262).

 

Textos políticos no jornal “Portugal Democrático”:

1. “Um 5 de outubro”: editorial anônimo – Ano III, n. 30, Nov. 1959.
2. “Some-te rato”: nota anônima – Ano III, n. 30, Nov. 1959
3. “Salazar processa o New Stateman”: editorial anônimo – Ano III, n. 31, Dez. 1959
4. “Eleições em Portugal”: assinado Candido Alves – Ano III, n. 31, Dez. 1959
5. “Uma vitória da Democracia”: editorial anônimo – Ano IV, n. 33, Fev. 1960
6. “O General Delgado presidiu às comemorações do 31 de Janeiro”: nota anônima – Ano IV, n. 33, Fev. 1960
7. “Fugas em Portugal”: nota anônima – Ano IV, n. 33, Fev. 1960
8. “Uma ditadura de juristas”: Ano IV, n. 35, Abr. 1960
9. “Os dois cadáveres”: editorial anônimo – Ano IV, n. 36, Maio de 1960
10. “O Cap. Almeida Santos assassinado pela PIDE” [carta-protesto]”: assinaturas do Comité dos Intelectuais e Artistas Portugueses Pró-Liberdade de Expressão – Ano IV, n. 36, Maio de 1960
11. “A palavra dos portugueses (Homenagem a Álvaro Lins)”: Ano IV, n. 37, Jun. 1960
12. “Uma visita presidencial”: editorial anônimo – Ano IV, n. 38, Jul. 1960
13. “Uma conspiração contra a democracia”: assinado “A Comissão Redactorial do Portugal Democrático” – Ano IV, n. 38, Jul. 1960
14. “Os correios do ditador”: anônimo – Ano IV, n. 38, Jul. 1960
15. “O Natal do preso político e o patriarcado”: Ano IV, n. 38, Jul. 1960
16. “Bevan”: anônimo – Ano IV, n. 39, Ago. 1960
17. “O infante D. Henrique, Salazar e o Brasil”: anônimo – Ano IV, n. 39, Ago. 1960
18. “Valores portugueses – o Infante D. Henrique”: anônimo – Ano IV, n. 39, Ago. 1960
19. “A comunidade de Estados Portugueses”: Ano IV, n. 39, Ago. 1960
20. “Um inédito de Fernando Pessoa [contra] Salazar”: Ano IV, n. 40, Set. 1960
21. “50 anos da República”: editorial anônimo – Ano IV, n. 41, Out. 1960
22. “Jaime Cortesão, o Historiador”: Ano IV, n. 41, Out. 1960
23. “Mensagem” [discurso do 50º aniversário da República]: Ano IV, n. 42, Nov. 1960
24. “Um novo ano”: editorial anônimo – Ano V, n. 44, Jan. 1961
25. “O rato e as bandeirinhas”: editorial anônimo – Ano V, n. 46, Mar. 1961
26. “A organização da Democracia portuguesa”: Ano V, n. 47, Abr. 1961
27. “Política externa portuguesa”: Ano V, n. 48, Mai. 1961
28. “A reforma inicial”: editorial anônimo – Ano V, n. 49, Jun. 1961
29. “As esquerdas”: Ano V, n. 49, Jun. 1961
30. “Pronunciamento de portugueses exilados no Brasil”: anônimo – Ano V, n. 51, Ago. 1961
31. “Uma denúncia! A política internacional de Salazar”: Ano VI, n. 58, Mar. 1962
32. “Comunicado do Comité dos Intelectuais”: [assinado por mais 10 pessoas] – Ano VI, n. 58, Mar. 1962
33. “O pânico”: Ano VI, n. 62, Jul. 1962
34. “Dois Mestres”: Ano VII, n. 63, Ago. 1962
35. “Agostinho Neto”: Ano VII, n. 63, Ago. 1962
36. “Salazar e os Estados Unidos”: Ano VII, n. 63, Ago. 1962
37. “A unidade”: Ano VII, n. 65, Out. 1962

 

=> Depois de longa espera, finalmente veio à luz em 2011 o livro Rever Portugal, há muito organizado por Mécia de Sena e agora co-editado com Jorge Fazenda Lourenço, que reúne os “textos políticos e afins” de Jorge de Sena, talvez a faceta menos conhecida de sua obra. Entretanto, sobre sua atuação no jornal Portugal Democrático, e sobre o próprio jornal, indicamos a seguinte bibliografia sumária:

 

  • Douglas Mansur da Silva, A Oposição ao Estado Novo no Exílio Brasileiro, 1956-1974, Imprensa de Ciências Sociais, 2006
  • Gilda Santos, “O Jornal Portugal Democrático – Demandas do literário em meio à proposta política”. Légua & Meia– Revista de Literatura e Diversidade Cultural, nº 3, Feira de Santana, UEFS, 2005 p. 59-69
  • Gilda Santos, “Le journal Portugal Democrático: une sociabilité vouée à l’action politique”. Sociabilités Intellectuelles XVIe-XXe siècle. Arquivos do Centro Cultural Calouste Gulbenkian, v. XLIX. Lisboa-Paris, 2005 p. 199-205
  • Miguel Urbano Rodrigues, “Portugal Democrático – um jornal revolucionário”. In: Lemos, Fernando & Leite, Rui M. A missão portuguesa – Rotas Entrecruzadas, SP, UNESP/EDUSC, 2003 p.183-188
  • Miguel Urbano Rodrigues, “A Luta na Imigração dos Antifascistas Portugueses contra a Ditadura e o Colonialismo” (palestra proferida em Grenoble, França, a 25 de Abril de 2009), reproduzida em: http://www.odiario.info/?p=1178
  • “[Recensão crítica a ‘Rever Portugal. Textos Políticos a afins’, de Jorge de Sena]” / Gilda Santos. In: Revista Colóquio/Letras n.º 179, Jan. 2012, p. 269-272.

 

Monumentos revisitados

O "Dia Internacional dos Monumentos e Sítios" (comemorado a 18 de abril, e instituído em 1982 com o patrocínio da UNESCO) nos traz à mente a quantidade de monumentos, ou de espaços históricos, ou de museus, referidos por Jorge de Sena em numerosos escritos. Para só ficarmos pela poesia, recorde-se, por exemplo e muito rapidamente, "A Nave de Alcobaça", "A Mesquita de Córdova", "Chartres ou as pazes com a Europa", "Vila Adriana", "Florença vista de San Miniato al Monte", "Plaza Mayor de Salamanca"…  Embora Sena não poupe referências ao patrimônio monumental português, fácil é deduzir que este é sobrepujado numericamente por aquele que se encontra na restante Europa. Dos registros de primeiras "descobertas" fora de Portugal, com o olhar de escritor, já aqui trouxemos suas cartas de Londres, relativas à viagem de 1952, pontilhada de "peregrinações" a museus e catedrais. Depois desta, a seguinte "viagem internacional" teve como destino a Galiza, anotada no diário de 1953/54, cujos excertos relativos ao "monumental" visitado transcrevemos abaixo. Bem mais do que este, o diário da viagem de 1968 é rico em apontamentos sobre lugares culturais, canônicos e não-canônicos, percorridos pelo olhar arguto e pela palavra certeira de nosso autor. Deles, recortamos os das páginas finais, voltados para terras de Espanha, que abaixo se lêem.


22 de abril de 1954: Estou em Santiago, depois de Tuy, Vigo, Pontevedra. A catedral e a cidade são admiráveis. Curiosa a catedral de Tuy, lindíssima a paisagem das rias, de uma extraordinaríssima beleza uma ábside gótica em ruínas, coberta de heras, que há em Pontevedra. Como é praxe, abracei S. Tiago a quem fiz um pedido. […] o Sousa andou a mostrar-me a cidade velha com o lagedo que a chuva molhou e as arcadas sucessivas. Chega a parecer-me incrível que aqui esteja.
 

23: Pela manhã, demos mais uma volta em Santiago e fomos à Colegiada del Sur. Depois — Orense, onde almoçamos. Catedral maravilhosa, e pouco citada. Entramos em Chaves ao fim da tarde.[…]  

25: Fui ao café onde dei largas ao meu entusiasmo. Conversou-se muito, tendo eu e o Casais defendido, com Galiza, o império atlântico. O Marinho, que admira o Pedrayo que acaba de traduzir, via antes a velha idéia da federação ibérica. Concedi que, dentro dos pactos regionais, o poderia haver com uma federação hispânica, que agrupasse a Espanha e a América espanhola. […] No pórtico de Orense, que copia muito de perto o pórtico da Glória, tive ocasião de ver, pois que a pintura está bem conservada (relativamente), como a escultura românica e gótica é para ser pintada, e foi concebida para ser completada com ela. À cor é confiado o que se pretende que a pedra não dê ou não dá mesmo. De resto, ambos os pórticos (como aliás Las Platerias na Catedral de Santiago) são muito belos.
 


16 de Dezembro de 1968, 2a. feira: […] Fui à Diputación, ao Ayuntamiento, à catedral, ao museu (capela real e salão nobre do palácio, sendo que o retábulo da capela é o que o D. Pedro de Portugal mandou fazer) — e mesmo percorri Barcelona romana que, subterrânea, foi posta extraordinariamente à vista. […] Barcelona é realmente magnífica, e a parte antiga esplêndida, sobretudo para embeber-me da evocação que pretendo. Bom é que me reste a manhã de 4a. feira (amanhã é a excursão pela Catalunha), para ver St. Maria del Mar, onde o Condestável jaz (a espada dele, descobri, está no tesouro da Catedral). […]


17 de Dezembro, 3a. feira: […] Fomos directos a Vich, onde entrámos na catedral para ver as pinturas de J. M. Sert, e depois a Ripoll, para ver o velho mosteiro fundado por Vilfredo, o primeiro conde de Barcelona, e onde está o célebre portal; vimos o claustro também, e abasteci-me de postais. […] De Ripoll, fomos ver San Juan de las Abadessas, com o seu calvário de figuras de madeira, monumental, incomparável coisa românica (a primeira abadessa foi a filha de Vilfredo). Seguimos para Olot, e ao longe eu vi o majestoso Canigou que, do outro lado, fora paisagem minha em La Tour de Carol. […] Fomos por Olot a Besalu dos velhos condes, cidadinha que conserva a atmosfera românica de casas, ruas e igrejas. Aí almoçamos, e vimos também a ponte romana-gótica. Por Figueras, descemos – e a paisagem abria-se sobre a Baía de Rosas, luminosa – para Ampúrias, onde vi as ruínas da cidade e do porto grego, e o museu. […]


18 de Dezembro, 4a. feira: O Badia veio buscar-me às 9 horas, e levou-me a ver a loucura do Gaudi, que eu queria contemplar de perto, e depois a Luja del Mar. E deixou-me à porta de St. Maria del Mar, que é uma das mais elegantes coisas góticas que já vi na minha vida […]. Conseguimos, entre as obras de Sta. Maria que está em restauro, encontrar a pedra sepulcral, muito deteriorada, do Condestável D. Pedro – resta confirmar. E fomos ver o belo museu Picasso, feito num palácio antigo, com a colecção Sabartes – e as "Meninas", a sério, que Picasso doou a Barcelona. […]  

20 de Dezembro, 6a. feira: […] Saí por volta das onze horas, fui à Calle do Barbazán, e depois fiz caminho para os correios pela Calle Lope de Vega, onde está o convento das Trinitárias que recebeu Cervantes morto (e na esquina fronteira era a casa de Quevedo), e pela Calle Cervantes, onde está a casa onde viveu e morreu Lope de Vega (a razão de as duas ruas estarem trocadas é que não entendo), que contemplei. […] Fui ao Museu do Prado flanar nas salas, muitas sem luz, quase impossíveis de rever, um desespero. […] Agora, só quero rever a Plaza Mayor e visitar a mãe do D. Sebastião nas Descalzas Reales, o que farei amanhã, antes de ir à biblioteca.
 

21 de Dezembro, sábado: […] fui visitar as Descalzas Reales que é uma beleza barroca (com encanto e severidade), menos a igreja onde só vale a capela tumular de D. Joana de Áustria, neo-clássica, com a sua belíssima estátua orante. No museu, que é o convento que ela fundou e onde morreu (tinha nascido ali, quando a casa era de campo para Carlos V), está o retrato de D. Sebastião por Cristóvão de Morais. Pela Plaza Mayor, passando por S. Ginés, voltei ao hotel.

Há 50 anos: cartas de 1962

Na correspondência editada de Jorge de Sena, só 4 cartas testemunham o ano de 1962: duas dirigidas a Sophia de Mello Breyner Andresen, uma a José-Augusto França e uma a Vergílio Ferreira. Esta última é quase integralmente dedicada a responder, ponto a ponto, aos comentários que o romancista de Aparição fizera, também em carta, ao ensaio "O Poeta é um fingidor", e pouco há sobre as circunstâncias então vivenciadas por Sena. Eis porque a eliminamos da transcrição abaixo, que visa a contextualizar esse tempo seniano de Araraquara, lá se vão exatos 50 anos.


Araraquara, 1/3/62

Meu caro José-Augusto

Acabada a História da Literatura Inglesa (480 pgs. dactilografadas) que me ocupava imensamente desde Out. e acabados os exames de admissão e 2a. época, eis-me, antes de lançar-me aos novos trabalhos, exausto, cansado, desiludido, mais danado que nunca com o mundo e a humanidade, diante da sua carta de 14 de Janeiro.

De obra minha publicada, não sei se entretanto já viu o Reino da Estupidez. Por certo, e com gralhas pavorosas (que a precipitação de não me mandarem provas produziu), recebeu da COR «A Noite que fora de Natal», safadeza de que gosto muito e onde pus do melhor e do pior de mim próprio (não como estilo, que acho ser lá só do melhor).

Diz-me que não me importe com a supressão do meu nome praticado no Colóquio, porque eu sou eu! Muito bem: mas se eu não me alegro a mim mesmo como espectáculo, sem o aplauso público, já que não acredito na eternidade (sob nenhuma forma), tenho da perpetuidade histórico-literária da canalhice e da estupidez ideias assentes, e acho a vida demasiado chata para ser sofrida sem coroações, com louros, aos Capitólios — como quer você que eu não me sinta? Os meus poemas longos são muito bons; mas a COR acaba de confessar que afinal não os publica, e o seu «primo» Azevedo não mexerá uma palha para isso, enquanto publicam monumentalmente e pomarescamente uma merda poética da Sophia. Os meus contos são muito bons — mas quem mos publica? Os meus ensaios são óptimos — quem fala neles? E por isso que, meu filho, já agora me não contento se não vir Portugal a ferro e fogo, transformado à luz do mundo na sangueira torpe que merece ser. A índia foi-se? Pois até que enfim! O Salazar fique? Pois que a todos muito preste. Acaso isso impede que Urbanos e Mourões, Namoras e «tutti quanti» sejam grandes escritores? Não protesto, nem protestarei jamais, contra qualquer agressão, por mais vil que seja, de que Portugal seja vítima: nunca será mais vil do que ele colectivamente é. E, no entanto, não suponha que lhe prefiro o Brasil: que acho um país de espantosas virtualidades, se não fosse de gente sem carácter, sem dignidade, sem hábitos intelectuais, sem amor da cultura, só interessada em ganhar mesquinhamente um dinheiro com que nem sequer saberia deixar de comer na cozinha. Acho a Europa irremediavelmente podre; e as Américas irremediavelmente reles. Que o Manuel Anselmo vá para Paris e para a UNESCO, está perfeitamente certo: se a UNESCO se sentisse mal, protestaria. Não sente. Que me importa a mim? Às vezes penso que a Rússia e a China são melhores. Não são. A única diferença — consoladora durante um tempo — seria assistir a estes burgueses todos lá varrendo a rua. Mas já acabaram esses que tiveram de varrê-las; e agora começa a haver outros, muito conspícuos, que as novas ordens trazem sempre consigo, prontos a admirar a Gioconda e a Vénus de Milo, e a mijarem-se de puro amor de Pátria ainda que socialista. Como compreendo o Tibério em Capri, sangrando escravos, ou o Calígula desejando que a humanidade tivesse uma só cabeça para cortá-la de uma vez! Pobres imperadores! — mas homens muito razoáveis e sobretudo sinceros.

O meu estado de espírito não sei se é o pior possível. É, porém, este. E dificilmente me parece que venha a ser outro. Descri de tudo, e não espero em verdade nada: apenas, porque continuarei sempre a exigir o reconhecimento a que tenho direito, por parte de uma corja humana que nem me merece, e eu mereço apenas pelos meus pecados de amor infeliz dela. A tal ponto assim é, meu caro, que não só o muito trabalho me impediu de fazer ofertas e dedicatórias do Reino da Estupidez, apesar dos apelos lancinantes da Moraes, deixados sem resposta. Oferecer para quê? Para uns não dizerem nada? Ou os melhores amigos me escreverem dez linhas carinhosas? Se quiserem ler, comprem. Se não quiserem ler, que não leiam. Afinal, toda a gente anda ocupada em justificar a sua própria existência: é pedir muito que nos ajudem a justificar também a nossa.

Obrigadíssimo pelas suas démarches todas, de que me dá conta nesta sua carta. Dê notícias dessa pátria parisiense, onde proliferam gloriosos e «bolsistas» tantos Saraivas. A minha próxima crónica de «Letras Portuguesas» será, com justos elogios, uma execução capital da Hist. da Lit. dele e do meu cunhado. A seguir será o Namora. Com alguma antropofagia me hei-de contentar.

A minha História da Literatura Inglesa ficou uma coisa monumental, como informação, como originalidade crítica, como síntese do método histórico-sociológico, e do método «ontológico». Alguém, nestes países de analfabetos ou pretensos «comunas», quererá dar-se conta de que não é uma compilação sem graça? Claro que não. E é tudo assim. Na poesia, a minha disposição não é melhor. Junto lhe envio a ode «A Portugal» que em tempos escrevi, e será a abertura ou o fecho dos Grão-Capitães, em que intercalarei violentos poemas «políticos». Mas já me resignei a ser um Lautréamont conspícuo… os meus amigos entreter-se-ão a publicar-me, a pôr os olhos em alvo, a dizerem com emoção: «— O Jorge… ah…» E continuarão todos muito tolerantes com todos os Gaspar Simões que me infernizaram a vida.

Não, meu caro, Portugal não existe. É uma fantasia apenas, muito triste. Um Carnaval sangrento e malcheiroso. Viu que o Zaluar Nunes, brasileiro agora, para que o soltassem em Lisboa, declarou que lhe falsificámos a assinatura num protesto do Comité dos Intelectuais, publicado há dois anos?
O que não impediu que os estudantes do Recife o aclamassem à chegada, e que os jornais não publiquem o comunicado em que o tratamos como ele merece. Veja se tudo isto não é o Portugal glorioso dos Albuquerques — uma língua suja que ainda hoje não merece que Camões a tenha usado para outros fins e em outros lugares.

Dê aos Seus as nossas melhores lembranças. E receba o grande abraço muito amigo do sempre seu

Jorge

PS – Esquecia-me dizer-lhe que o meu compadre António Cândido gostou muito de V. e do Terra, e achou o Saraiva um pedante malcriado, surdo por dentro e por fora, e que é bom que fique aí. [1]
 

 

Araraquara, 4 de Junho de 1962*

P.S. Acuse imediatamente a recepção desta carta.

Caríssima Sophia

Chegado de São Paulo onde fui fazer uma palestra sobre poesia moderna portuguesa na «Mostra Internacional de Poesia» (onde li o seu Porque e a sua Meditação do duque de Gandia), encontro a sua carta sem data (a senhora da Intemporalidade!). Para que nada esqueça vou respondê-la a par e passo.

Obrigado pelos parabéns pelo nascimento da nossa «brasileira» que vai prosperando, com o frio pavoroso que tem sido o Inverno em que estamos agora a 5o, 8o, etc. – puramente europeus! E ainda bem que vocês vão singrando firmes no meio desses acontecimentos que já comentarei.
Também eu acho – com a ressalva de A Janela da esquina, de que V. não gosta muito, e de os Amantes de que V. não gosta nada – que A Noite que Fora de Natal é, dos contos que a Sophia conhece, o meu melhor. Nele pus todas as minhas ambições de renovação literária, e as «teológicas» também: não lhe terá escapado que é visceralmente «anti-cristão» o conto, embora não seja «anti-católico». Mas os meus contos melhores, na opinião dos amigos daqui, que os têm lido, são os que tenho escrito e estou escrevendo: uns para Novas Andanças; outros, para um livro agora impublicável em Portugal (não recordo se já falei dele), Os Grão-Capitães. Estes são, além de implacável libelo contra a sociedade portuguesa das últimas décadas, uma exemplificação do manifesto que as prefacia, em que proclamarei o «realismo fenomenológico» e integral… São, tematicamente, estilisticamente, pelas situações, etc. terríficos. Não sei se a Sophia, apesar da dignidade que eles possuam, tolerará o estadeamento de tamanha miséria e degradação – que temos de vomitar. Creio que são dos melhores contos que já se escreveram em português, até pela audácia técnica e experimental de todos eles. São, porém, verdades medonhas e pavorosas: não poupo nada, nem ninguém.

De certo ponto de vista, tem V. razão quanto ao Reino da Estupidez; mas há no meio daquilo tudo, uma série de tomadas de posição que são afinal o que mais me interessa. Parece que o livro, apesar da cortina de silêncio que os nossos insignes confrades têm lançado sobre ele (et pour cause…), tem tido êxito…

Não recebi ainda o Livro Sexto, que já vira anunciado e aguardo ansiosamente.

A carta francesa recebi, sim. E não respondi a ela, porque queria escrever ao Murilo, e mandar à Sophia a carta em cópia… acontece que a minha vida é inenarrável de trabalho nestes últimos tempos, e fez-me inclusivamente suspender toda a correspondência. Com efeito, repentinamente, desde meados de Março a fins de Abril, compus uma gigantesca tese sobre Camões (300 páginas de máquina), em que joguei todas as minhas teorias de técnica literária e camonianas… Tinha de ser entregue até 30 de Abril, data do concurso de livre-docência em Belo-Horizonte, na Universidade de Minas Gerais. A Universidade que é a 3a. do Brasil, depois do Rio e São Paulo (esta última, a cujo âmbito externo eu pertenço), queria que eu concorresse à cátedra, na sucessão do [Manuel] Rodrigues Lapa. Não me convém financeiramente, pois que como catedrático federal ganharia (independentemente do mais que me arranjassem), menos de metade do que São Paulo me paga (cerca de 120 contos, ou sejam 10 portugueses, que valem cá mais do que aí, apesar da alta do custo de vida, e o tempo livre para fazer o que quiser…). A livre-docência é o título acima de doutor, e equivale a catedrático sem cátedra e eu preciso de um título de letras, que não tenho, para não estar à mercê de qualquer conspirata que, «legalmente», me exclua do ensino. Aqui, Sophia, é como aí… é preciso usar navalha, e aguentar as navalhadas: só que se está menos só, e a luta é mais de igual para igual… Acabo de ser excluído, «legalmente», do concurso de «livre-docência», perdendo o trabalho e a paciência. Mas, como queriam que eu concorresse à cátedra, «amigos» e inimigos uniram-se para isso: e, agora, os «amigos» prolongam o prazo de concurso de cátedra, para eu concorrer… E uma comédia. Este mês de Maio foi de desgosto, de expectativa e de exaustão total, o que culminou tudo numa gravíssima «virose» ou seja um festival bacteriano que me ia levando a garganta, o pescoço, e não sei se a vida. Só na passada semana me recuperei um pouco. Aqui tem a razão do meu silêncio, e de não ter escrito ainda ao Murilo, explicando-lhe quem são esses «cafagestes» (adorável expressão brasileira): os Urbanos, Natálias & C.a. O que farei agora.

Já notara pelos recortes e uma ou outra «página» (e até pelo boletim do Grémio dos Editores, vendo que se publica), que a canalha tomou conta do «poder» literário, na preparação para a tomada do outro (que garantirá os êxitos financeiros daquele). E o resultado inevitável da degradação geral de um país que perdeu, totalmente, nas pessoas e nas coisas, o sentido da dignidade e da decência.

E, acerca disto, creio, Sophia, que, por carta, se pode dizer tudo, menos aquilo que seja inconveniente que se «saiba»… para prevenir os acasos de «leitura», que não se dão sempre, nem tanto quanto o terror aí imagina.

Neste momento – pegue lá esta bomba – chegou ao Brasil, com autorização do governo brasileiro, o A. Cunhal, ou seja o famigerado secretário-geral… Sabe ao que ele vem? Procurar uma reunião «deles», com o Manuel Sertório, com o [Henrique] Galvão (!!!), e com o [Humberto] Delgado, da qual seja excluído este seu amigo, o Casais e o Paulo de Castro, isto é, o triunvirato da esquerda não comunista. Já ninguém está pensando na queda do Salazar, mas na sucessão dele. É provável que, a estas horas, um emissário do Marcelo [Caetano] já se tenha avistado, em Paris, com o dito cujo secretário-geral… Está vendo o golpe? É preciso, quanto antes (e nisso estão todos de acordo), eliminar a esquerda que faça balanço entre a direita foragida do Estado Novo e o extremismo partidário, que mutuamente se servem. Eu continuo a pensar que não se deve entrar em combines com os reformistas caetânicos: eles que «sucedam», se quiserem e puderem, que nós assistiremos de palanque ao festival (e deve ser essa a nossa posição). Tudo o que muda é mudança: mas sem compromisso. O futuro limpo que desejamos pertence às esquerdas descomprometidas; que todos se associem e lhes preste muito. Considero que a unidade de toda as forças é necessária, mas sem entrar pelo Estado Novo adentro, ou é ele o que se passa para nós: já pensaram que é o que está acontecendo? Mas é preciso que essa unidade se faça lealmente, e sem aventureiros, que um partido que se não destalinizou (senão na fachada) continua a achar, inescrupulosamente, interessantes, como o caso do Galvão, de partida para os States com visto dos EE.UU., para depor sobre Angola nas Nações Unidas (os «trusts» do urânio, dos diamantes têm mais força do que nós… e do que o [Getúlio] Vargas…). Curioso, não é?

Tenho a impressão de que, aí, falta perspectiva para se verem e apreciarem estes «ballets». Eu, por mim, continuo apenas a querer ser… embaixador fora daí! E, entretanto, serei o professor universitário que todos se aplicarão em que eu não seja aí…

Para o Francisco e para a Sophia vão as nossas saudosas e afectuosas lembranças. Dê notícias. Escreverei logo que possa. E beija-lhe as mãos o seu muito amigo

Jorge

P.S. – Como vão os seus pequenos? Conte o que fazem. O Casais está morando aqui, perto de mim, que o trouxe para reger a Teoria da Literatura. Não sei ao certo o número da porta. Mas pode enviar-lhe o livro para: Faculdade de Filosofia de Araraquara, Caixa Postal 174, Araraquara – São Paulo – Brasil. [2]

Araraquara, São Paulo, 20 de Dezembro de 1962

Caríssima Sophia

Perdoe-me, se pode o meu silêncio. Mas eu já não sei que fazer para aguentar o trabalho incrível que é e cada vez mais vai sendo o meu. Todos os dias penso nas cartas que preciso de escrever àqueles que estão sempre presentes no meu coração; e todos os dias sucumbo ao peso das urgências atropeladas de tudo o que tenha aceitado fazer. Se, nestes últimos meses, eu não estivesse livre da direcção do Curso de Letras de que me demiti, não sei como estaria vivo… Acabo de enviar, hoje mesmo, para Ocidente, a primeira parte dos meus estudos medievais – será que sairão? Estão, a meu lado, as provas da minha História da Literatura Inglesa, para fazer o índice onomástico… Tenho, até ao fim do ano (é bem de ver que não posso), de entregar os meus estudos antológicos de Garrett e de Pascoaes. Acabo de assinar o contrato para a publicação do Livro do Desassossego, do Pessoa, cujos originais recebi. A Ática insiste pelos poemas ingleses dele, de que estou redigindo o prefácio. Recebi duas bolsas, uma federal e outra estadual, para a realização de uma edição crítica da Lírica de Camões. Terei de, depois do ano novo, partir para o Rio de Janeiro, com demora, para montar a máquina camoniana necessária. Estou concluindo um monumental estudo sobre Inês de Castro e a política portuguesa até ao fim do século XVI (que inclui a análise estrutural da Castro de [António] Ferreira). Tenho em mãos uma tradução imensa, porque preciso desse dinheiro. No sábado, tenho os exames finais de Literatura Inglesa, cuja especialização de 4o. ano regi, com um curso sobre Shakespeare… Junte a isto a falta de dinheiro, as tricas sinistras da vida universitária, a amargura com as canalhices da «oposição» (de cuja acção activa me afastei por completo), o desgosto por nada saber das minhas edições portuguesas (poemas, ensaios, etc.), a solidão que é a nossa aqui em Araraquara, e terá uma pálida imagem da minha vida e da Mécia.
A única alegria e a única certeza que ambos tivemos, neste fim de ano que foi para nós duríssimo, foi o feliz nascimento do nosso segundo brasileiro, um rapaz desta vez, o Nuno Afonso, que veio ao mundo, a este mundo que não sabemos já (e talvez não importe muito) que seja, no dia 5 deste mês.

Não foi, pois, por desinteresse que tenho estado calado, mas por humana impossibilidade. Espero que esta carta lhe chegue às mãos e se lhe demore nelas. Nunca imaginei que a P[IDE] se tentasse com os meus autógrafos… Resta-nos a consolação de pensarmos que ficaram sabendo o que já sabiam ou o que até bom seria que soubessem. A minha posição política continua inalterável: não tenho, e não terei nunca (a menos que me filie em mim mesmo), filiação partidária. Penso que a unidade de todos é a suma necessidade; mas reconheço que é impossível colaborar com a mediocridade invejosa, que é a dos nossos políticos, desde a clandestinidade em que mesmo no exílio se comprazem os comunistas, até ao Palácio de São Bento. Cada vez mais penso que Portugal não precisa de ser salvo, porque estará sempre perdido como merece. Nós todos é que precisamos que nos salvem dele. Mas sabe que não há maneira fácil? Eu, por exemplo, tenho feito por comportar-me como brasileiro em tudo, o que a minha vida oficial me impõe aqui: eu sou funcionário do Estado, assessor do Ministério da Educação (constará aí que se me deve que a Literatura Portuguesa seja obrigatória em todos os cursos superiores de Letras?), figura pública de mérito reconhecido. Isto sem abdicar em nada de ser o português que ninguém é mais do que eu. Pois só consigo ser suspeito a todo o mundo: aos «exilados», porque me abrasileirei, quando eles se recusam a tomar conhecimento do país em que vivem e do que vivem; e aos brasileiros (não aos meus amigos, é claro), porque sou um agente temível de «portugalidade»… No momento em que, no Rio, eu conseguia o triunfo (e consegui-o, sacrificando-me a partilhá-lo com brasileiros…) oficial da nossa cultura, recebi na imprensa a mais violenta campanha de que jamais fui objecto na vida. Tudo isto são as minhas alegrias – sem compensação alguma. E a vida encarece, vertiginosamente: se estou, com os vencimentos actualizados, ganhando três vezes mais do que quando entrei para o ensino, o custo de vida subiu quatro vezes… E, no momento em que o Brasil se encaminha para uma emancipado espantosa (que nos não é indiferente), não sabemos se os Estados Unidos não propiciarão um golpe de direita…

O primeiro número da Távola que recebi foi, há poucos dias, o 19, em que vem a notícia da morte do Bernardo Marques (que eu já sabia e me entristecera muito – sei que se suicidou). Foi no anterior que a vossa direcção começou? Neste vem a sua «Procelária», que é muito belo. Recebi, sim, o Livro Sexto acerca do qual ainda não escrevi nas minhas «Letras Portuguesas» do Estado de São Paulo, que têm estado suspensas pelas razões supra. Gostei muito do seu livro; parece-me – e creio ter-lhe já dito isto, em carta anterior – uma admirável renovação da sua mesma identidade de poeta sempre fiel a si próprio. Mas direi isto melhor e mais longamente.

Não sei já que poema meu lhe mandara para a sua revista que não houve… Mas deve estar inédito, porquanto há séculos que não publico poemas em Portugal. Aonde os publicaria? Pode, sem dúvida, publicá-lo na Távola.

Vou mandar-lhe um capítulo da minha magna tese inédita sobre Camões. E desculpe-me a pergunta: a Távola paga? Se paga, eu depois lhe direi a quem, que é meu cunhado de Lisboa, o nosso procurador aí.

Não posso agora pensar numa colaboração regular para vocês, que não cumpriria. Mas farei todo o possível por estar presente. Crónica sobre a literatura brasileira – poesia ou prosa – não farei; porque tenho mais que fazer do que ocupar-me das porcarias que aqui, como aí, se vão publicando. O que não quer dizer que eu não me considere especialista em Brasil, como poucos portugueses terão sido… É provável que, num momento de alívio (e de menor amargura, para não dizer coisas demasiado graves, que me criassem mais complicações do que as que já me bastam), eu retome convosco as "Cartas do Brasil" que eu escrevia para a Gazeta Musical, e que não continuei por estupidez dessa comunistada honorária.

Eu e a Mécia mandamos à Sophia, ao Francisco e a todos os vossos, os nossos mais afectuosos e saudosos votos de Natal e de Ano Novo. E creia na dedicação e na amizade do sempre seu

Jorge [3]

 

 

[1] —> Correspondência Jorge de Sena/ José-Augusto França, Lisboa, IN-CM, 2007, p. 223-5
[2] —> Correspondência Sophia de Mello Breyner/ Jorge de Sena, 3.ed, Lisboa, Guerra & Paz, 2010, p. 58-62
[3] —> Correspondência Sophia de Mello Breyner/ Jorge de Sena, 3.ed, Lisboa, Guerra & Paz, 2010, p. 67-71
 

Camões, personagem poética

Em áudio: “Camões dirige-se aos seus contemporâneos”, lido por Jorge de Sena

Manuscrito de "Camões dirige-se aos seus contemporâneos"
Manuscrito de “Camões dirige-se aos seus contemporâneos”

Além de dedicar a Camões largo espaço de seu ensaísmo, Sena constantemente presentifica o poeta em sua obra de criação com inúmeras menções, citações, glosas… Porém, nada supera a força dramática que emana do Camões-protagonista, presente tanto no conto “Super Flumina Babylonis”, como nos dois poemas abaixo transcritos.

 

* Camões dirige-se aos seus contemporâneos (Metamorfoses, Poesia II)

* Camões na Ilha de Moçambique (Camões dirige-se aos seus contemporâneos, Poesia III)

 

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CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS
Podereis roubar-me tudo:
as idéias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E, mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

Assis, 11/6/1961

 

CAMÕES NA ILHA DE MOÇAMBIQUE

A Amilcar Fernandes e Rui Knopfli,
moçambicanos de alma e coração,
que me passearam a Ilha de Moçambique

É pobre e já foi rica. Era mais pobre
quando Camões aqui passou primeiro,
cheia de livros a cabeça e lendas
e muita estúrdia de Lisboa reles.
Quando passados nele os Orientes
e o amargor dos vis sempre tão ricos,
aqui ficou, isto crescera, mas
a fortaleza ainda estava em obras,
as casas eram poucas, e o terreno
passeio descampado ao vento e ao sol
desta alavanca mínima, em coral,
de onde saltavam para Goa as naus,
que dela vinham cheias de pecados
e de bagagens ricas e pimentas podres.
Como nau nos baixios que aos Sepúlvedas
deram no amor corte primeiro à vida,
aqui ficou sem nada senão versos.
Mas antes dele, como depois dele,
aqui passaram todos: almirantes,
ladrões e vice-reis, poetas e cobardes,
os santos e os heróis, mais a canalha
sem nome e sem memória, que serviu
de lastro, marujagem, e de carne
para os canhões e os peixes, como os outros.
Tudo passou aqui – Almeidas e Gonzagas,
Bocages e Albuquerques, desde o Gama.
Naqueles tempos se fazia o espanto
desta pequena aldeia citadina
de brancos, negros, indianos, e cristãos,
e muculmanos, brâmanes, e ateus.
Europa e África, o Brasil e as Índias,
cruzou-se tudo aqui neste calor tão branco
como do forte a cal no pátio, e tão cruzado
como a elegância das nervuras simples
da capela pequena do baluarte.
Jazem aqui em lápides perdidas
os nomes todos dessa gente que,
como hoje os negros, se chegava às rochas,
baixava as calças e largava ao mar
a mal-cheirosa escória de estar vivo.
Não é de bronze, louros na cabeça,
nem no escrever parnasos, que te vejo aqui.
Mas num recanto em cócoras marinhas,
soltando às ninfas que lambiam rochas
o quanto a fome e a glória da epopeia
em ti se digeriam. Pendendo para as pedras
teu membro se lembrava e estremecia
de recordar na brisa as croias mais as damas,
e versos de sonetos perpassavam
junto de um cheiro a merda lá na sombra,
de onde n’alma fervia quanto nem pensavas.
Depois, aliviado, tu subias
aos baluartes e fitando as águas
sonhavas de outra Ilha, a Ilha única,
enquanto a mão se te pousava lusa,
em franca distracção, no que te era a pátria
por ser a ponta da semente dela.
E de zarolho não podias ver
distâncias separadas: tudo te era uma
e nada mais: o Paraíso e as Ilhas,
heróis, mulheres, o amor que mais se inventa
e uma grandeza que não há em nada.
Pousavas n’água o olhar e te sorrias
– mas não amargamente, só de alivio,
como se te limparas de miséria,
e de desgraça e de injustiça e dor
de ver que eram tão poucos os melhores,
enquanto a caca ia-se na brisa esbelta,
igual ao que se esquece e se lançou de nós.

Ilha de Moçambique, 20 de julho de 1972

Possibilidades universais do mundo luso-brasileiro

A complexidade do diálogo luso-brasileiro ocupou inúmeras páginas assinadas por Jorge de Sena. Dentre elas, destacamos três textos que a organizadora do volume Estudos de Cultura e Literatura Brasileira considera interrelacionados. O único dado como completo é "O entendimento histórico luso-brasileiro: uma proposta", com data de 25.6.1966, publicado semanas depois no Diário de Notícias, o qual teria tido em "Portugal e Brasil: uma proposta", datável de 1964/5, a sua primeira versão, abandonada. Este, por sua vez, teria sido esboçado no texto que abaixo transcrevemos, datável de 1963/4.

Embora sob a mesma temática, há notórias diferenças entre eles. E nossa escolha recaiu sobre o mais antigo, porque, além de bastante sintético, nele se encontra uma referência a tema atualíssimo e monopolizador de acirrados debates: a "reforma ortográfica".

 

O fenómeno mais importante — dizem os sociólogos, os historiadores e os políticos — da segunda metade do presente século é a acessão da África e da Ásia à independência política. Mesmo para os mais liberais espíritos euro-americanos é um fenómeno que os inquieta, lhes altera as mais profundas (e ocultas) convicções, os faz olhar o futuro com inquietação. Mas, ao contrário das aparências, se há unidade cultural e linguística, ou até político-económica que menos riscos corra, em relação ao futuro, nessa subversão das estruturas, e que menos possa identificar-se com tais pavores do capitalismo euro-americano, é precisamente o luso-brasileiro, cujas posições geográficas, étnicas, e culturais, no tão diverso e tumultuário concerto dos povos lhe permitem estar presente em toda a parte, e receber em si, como suas, as mais diversas culturas. Como garantia de uma sobrevivência política e de uma hegemonia cultural, quando esta deixou de ser apanágio das nações europeias, nenhum está melhor colocado. O «melting pot» dos Estados Unidos e as suas projecções imperialistas nada fizeram para absorver através da emigração ou da colonização económica as boas-graças culturais dos outros povos. O império britânico tende cada vez mais, à medida que a metrópole regressa à ilha de que partiu, a ser um conjunto de baluartes dos mitos novecentistas da supremacia política da raça branca e dos seus métodos de domínio capitalista. A França, que com a Inglaterra partilhou esses mitos, projectou muito menos do que ela uma civilização, e muito mais uma cultura literário-política que, longe de interessar-se pelas idiossincrasias estranhas só é assimilável pelas minorias aristocratizantes que se afrancesam. A Espanha e o mundo que dela se pulverizou não tem unidade política que torne a impor um prestígio que resultou, paradoxalmente, da criação autoritária de uma unidade artificial. De modo que nenhum dos impérios ou ex-impérios ocidentais está em condições de opor-se à unidade política que são milhões de brasileiros com alguns portugueses. Mas não só isso. O Brasil, hoje, é, sobre a miscegenação luso-ameríndia, a que se seguiu logo e durante séculos a integração de uma vasta imigração negra forçada, um país italiano, sirio-libanês, japonês, alemão, e nem sequer se podem esquecer os núcleos eslavos e balcânicos, em que, como no núcleo alemão, predomina o elemento judaico. Portugal, contíguo da Espanha, como o Brasil o é das repúblicas sul-americanas de língua espanhola, está disperso pela África Ocidental e Oriental, pela índia, a China e a Indonésia. E a comunidade das nações sub-desenvolvidas aproxima o Brasil de todos os estados novos da Ásia e da África. A presença judaica e árabe na Península Ibérica medieval revive, hoje, nos laços que a poderosa colonização levantina estabelece entre o Brasil e a Síria, o Líbano, Israel. Os reinos germânicos da Península Ibérica reaparecem na atracção dos alemães pelo Brasil. A unidade mediterrânica da latinidade consubstancia-se na emigração italiana. A civilização ocidental que os portugueses levaram ao Japão é simbolicamente paga pelos nipo-brasileiros. Os goeses são na África Oriental e na imensa índia um grupo peculiar e influente. Os macaístas são luso-chineses, como os ingleses em Hong-Kong não souberam fazer que lhes equivalha. E, nos confins da Indonésia, Timor poderá ser a confluência concreta dos interesses desenvolvimentistas que unem essa Indonésia ao Brasil. As relações do Brasil com as repúblicas negras da costa ocidental da África e do Golfo da Guiné não são meramente platónicas. Governam-nas muitos descendentes de escravos brasileiros regressados à pátria. Além dos interesses comuns de independentização económica, há uma natural atracção cultural; e essa comunidade de orientações é a melhor garantia de Angola ser um país integrado num mesmo círculo que, sendo brasileiro, é português também. Se o futuro do mundo pertence à Ásia e à África, pertence também à América do Sul. E nenhum país da Europa está em condições, como Portugal, se deixar de atrelar o seu carro a interesses euro-americanos que lhe são alheios (além de obsoletos), de ser a encruzilhada entre a América do Sul e a Europa, entre estas e o mundo islâmico, o mundo negro e a Ásia. Portugal não poderá ser nada disso —e não será nem isso nem nada—, sem o Brasil. Mas, para tanto, necessita estabelecer as mais cordiais relações com todos os países que, directa ou indirectamente, pertencem a este vasto esquema. E colocar-se, em relação ao Brasil, num plano de presença cultural e intermigratória que, identificando-os, conduza à abolição dos complexos colonialistas que, em Portugal e no Brasil, subsistem até nas pretensões de mútua independência linguística. Se há cada vez mais um português do Brasil, é porque se tem inventado ficticiamente, nos vocabulários e nas gramáticas, um português de Portugal. A sobrevivência de uma cultura e de uma civilização vale mais que uma reforma ortográfica e que os gramáticos escolásticos, de um lado e de outro do Atlântico, postos ao serviço de estruturas feudais.
 

Sobre o Modernismo em Portugal e no Brasil: Alguns problemas e clarificações

A paulista "Semana de Arte Moderna", de 1922, completou 90 anos e as comemorações se prolongam por toda parte. Aderindo aos festejos, buscamos o pensamento de Jorge de Sena sobre esse marco na cultura brasileira. Salvo erro, os dois textos ensaísticos que dedicou ao tema, hoje compilados nos Estudos de Cultura e Literatura Brasileira, destinaram-se à Convenção Anual da MLA – Modern Language Association. O primeiro — "Modernismo brasileiro – 1922 e hoje" — foi apresentado em New York, em dezembro de 1966, quando era professor de Literatura Portuguesa e Brasileira na University of Wisconsin, Madison. O segundo, abaixo transcrito, integrou o evento de dezembro de 1973, sendo já professor das mesmas disciplinas na University of California, Santa Barbara.

Num momento em que tantas reavaliações do modernismo brasileiro vêm à tona, aqui oferecemos ao leitor a visão de um "escritor português, cidadão brasileiro e professor norte-americano" sobre o tema, cabendo-lhe decidir sobre a atualidade, ou não, das palavras senianas.

 

Considera-se habitualmente, em Portugal, que o modernismo (ou seja a eclosão pública de atitudes de Vanguarda na criação literária, no mesmo sentido que o termo tem em França ou no mundo anglo-saxónico, e não no que tem para Espanha e Hispano–América) teve início com a publicação da revista ORPHEU em 1915, acontecimento que foi um escândalo reiterado em 1917 pela publicação de Portugal Futurista. No Brasil, a Semana de Arte Moderna, em 1922, desempenha o mesmo papel daquelas duas publicações. Mas, enquanto para o Brasil os críticos brasileiros ou estrangeiros interessados no Modernismo têm largamente escrito sobre a Semana (e os cinquenta anos dela produziram recentemente uma enorme massa de publicações) e os antecedentes desse evento, já para Portugal, se bem que toda a crítica portuguesa responsável aceite que os rumos da literatura se alteraram decisivamente a partir de 1915, não se fez ainda uma sistemática pesquisa dos «antecedentes» de ORPHEU, por modo a mostrar a que ponto e como uma atmosfera se prepara em contacto directo ou indirecto com as agitações artísticas e literárias que, desde os primeiros anos do século (e sem dúvida desde 1909 com o escândalo das manifestações futuristas), se desenvolviam na Europa. Tanto em Portugal como no Brasil, a maioria desses antecedentes diz respeito mais aos artistas plásticos do que aos escritores, e à repercussão que a obra desses artistas ia tendo. Não é para admirar que assim tenha sido, e para um estudo geral é indispensável que os críticos literários não ignorem as artes: com efeito, independentemente de todas as agitações literárias, os movimentos e grupos artísticos vinham desde as últimas décadas do século XIX, e sobretudo centrados em Paris, desafiando mais ostensivamente que as letras todos os cânones formais que datavam do Renascimento. Atraídos para Paris, e por mera força dos estudos que iam fazer, os artistas estariam mais directamente envolvidos no que se passava de novo, e não estavam tanto como os escritores limitados pelos condicionamentos locais das suas culturas nacionais, no que respeitasse à expressão escrita.

Mas tais estudos de «antecedentes» não devem fazer-nos esquecer um par de questões fundamentais. O facto de dizer-se que o escritor fulano foi a Paris em 1912, ou que o escritor cicrano leu isto ou aquilo em 1915, etc., por certo que importa para um enquadramento do fenómeno cultural. Mas para a história e a crítica literárias enquanto tais, e no que ao modernismo importa, o que mais interessa é saber-se quando foi e como foi que esses escritores, a mais do que haviam jyisto-ou lido, começaram, em obras suas, a ser diferentes. Esta 4liferen.ça-'devc ser determinada em função de um duplo padrão: nacional e internacional. Pelo primeiro critério, observar-se em que medida o escritor se tornou diferente do que, em linhas gerais, o seu lugar e o seu tempo pediam a um escritor. Pelo segundo critério, avaliar a que ponto essa diferença irmana o escritor àquilo que, internacionalmente, se apresentava como «moderno» ou a Vanguarda aceitava como tal. A este último respeito, há que ter presente que, sendo princípio fundamental do modernismo uma busca pessoal de novas formas de expressão, muitas vezes os escritores se irmanaram mais nesse fito do que em imitar deliberadamente modelos vanguardistas. Um dos perigos que a crítica corre, em contrapartida deste facto, é tomar demasiadamente a sério tentativas superficiais que não punham profundamente em causa a tradição.

Esta uma das questões fundamentais que, a nosso ver, tem sustentado numerosos equívocos na crítica brasileira do Modernismo, em que parece detectar-se uma obsessão com ampliar-se o conceito de «moderno», de maneira a satisfazer receios inconscientes de que possa ser dito que o Brasil chegou mais tarde do que outros países ao Modernismo. Quando um qualquer país ou qualquer cultura não deu início primeiro do que quaisquer outros a um determinado movimento artístico ou literário, e quando, por outro lado, aquilo que realizou é realmente superior e significativo e suporta perfeitamente uma comparação com as realizações dos outros, é inteiramente absurda essa obsessão e indigna de uma crítica que não sirva apenas preconceitos de puro «ufanismo» nacional.

Outra das questões fundamentais — que críticos de origem anglo-saxónica com o seu tradicional horror de «escolas», de «períodos», e de «ismos», como os críticos espanhóis e hispano–americanos geralmente empenhados em minimizar quanto foi Vanguarda, tendem a esquecer — consiste em ter presente que, no caso de Portugal e do Brasil, a Vanguarda realmente existiu, desafiou decisivamente o «establishment» literário-artístico, e de uma maneira ou de outra triunfou. Mas, tendo-se isto presente, tenha-se também em mente (ou não se entendeu o Modernismo) que, se todos os movimentos e atitudes de Vanguarda fizeram necessariamente parte do Modernismo a que deram forma, nem todo o Modernismo foi Vanguarda. Por exemplo: podemos dizer, e não só porque sejam poetas deste século, que Juan Ramon Jiménez, Paul Valéry, ou Rainer Maria Rilke, foram poetas modernos. Mas que haverá de Vanguarda em qualquer deles? Pouco ou nada. E no entanto esses escritores, e outros como eles, são dos maiores do século XX, e sem dúvida que revolucionaram pessoalmente as heranças e tradições recebidas. Não foi diverso o que sucedeu com alguns escritores em Portugal e no Brasil. Assim, cumpre reconhecer que o Modernismo (nos termos que definimos) se desenvolveu entre dois pólos ou tendências principais: os escritores que adaptaram aos seus próprios fins os movimentos literários das últimas décadas do século XIX, de cujas ideias básicas se não separam, e os escritores que cortaram, total ou parcialmente, com o passado para se lançarem na experimentação vanguardista. Esta distinção é muito importante, e permite melhor ajuizar da complexidade de atitudes que a libertação modernista permitiu. Dentro de um tal quadro, cabem perfeitamente variações e retrocessos ou emergências de tendências anteriores que se verifiquem individualmente na evolução de vários escritores. Para Portugal e para o Brasil, à semelhança do que sucede noutros países da Europa, é possível chamar àquela tendêneia extrema que prolonga e transfigura o que vem do século XIX post-simbolismo, opostamente à Vanguarda propriamente dita. Nesta tendência se inscrevem por exemplo poetas como Mário de Sá-Carneiro e Cecília Meireles que transmutam radicalmente a herança simbolista sob o influxo da agitação de Vanguarda, sém todavia aderirem aos métodos desta. Já Almada-Negreiros em Portugal, ou Oswald de Andrade no Brasil são vanguardistas, enquanto se pode dizer que um Fernando Pessoa e um Manuel Bandeira, vanguardistas, conservaram nas suas obras certas linhas de post-simbolismo.

Um outro ponto jdecisivo, para o caso luso-brasileiro, é a questão do verso-livre -que durante muito tempo foi para a crítica pedra de toque do Vanguardismo, pelo que representava de corte com a tradição estabelecida. Há que ter presente que, nos países latinos em geral, e em Portugal e no Brasil em particular, o versilibrismo de um Walt Whitman, com o seu longo versículo, não tivera repercussão alguma, ainda que por certo fossem conhecidas as experiências de abolição de fronteiras entre o poema em prosa e o poema metrificado, praticadas pelas simbolistas franceses ou alguns deles, da mesma forma que o foram — e largamente usadas pelo simbolismo em Portugal sobretudo e também no Brasil — as experiências de desarticulação métrica do verso tradicional. O que foi escandalosamente verso livre em Portugal e no Brasil foi, porém, não tanto o verso metricamente desarticulado, agrupado sem regra visível de regularidade da sua extensão, mas, muito particularmente, um verso com estruturas e níveis da linguagem prosaica (pelo menos na aparência, já que os equilíbrios rítmicos interiores escapavam ao leitor surpreendido, como ainda hoje escapam ao crítico desprevenido). E isto foi o que desenvolveram Fernando Pessoa sob o nome de Álvaro de Campos e de Alberto Caeiro e um Bandeira, um Mário de Andrade, um Carlos Drummond de Andrade, um Murilo Mendes.

Também na prosa o Yanguardismo trouxe uma revolução paralela, em direcção a níveis coloquiais da linguagem, e mais além disso, a um calculado primitivismo dela, experimentalmente buscado. No fim do século XIX, e nos primeiros anos do actual, a prosa portuguesa ou brasileira ficara limitada pela tradição de impressionismo visual desenvolvida dentro da descritividade realista e naturalista, pelo regionalismo pitoresco que do naturalismo evoluíra (e o facto de, em Portugal, um Aquilino Ribeiro, ou no Brasil um Monteiro Lobato apresentarem os camponeses numa reacção realística contra o pitoresco nada altera ao facto de que ambos continuam fiéis às estruturas estéticas e estilísticas da tradição), ou era marcada pelas elegâncias e requebros simbolistas e esteticistas que iam até à superficialidade amável e jornalística. Assim cumpre entender qualificadamente a asserção tão repetida de que o Modernismo brasileiro, na sua linhagem mais vanguardista, buscou e realizou uma libertação da tirania da linguagem literária tal como era praticada em Portugal. Essa tirania era, em grande parte, menos proveniente de Portugal do que uma das bases essenciais do próprio «establishment» literário brasileiro. E estava na continuidade ideológica que vinha desde os árcades brasileiros do século XVIII, quando estes queriam provar a si mesmos e aos outros (como provaram, aliás) que, agindo como brasileiros, e promovendo temas brasileiros, podiam escrever tão bem como os portugueses. Tratava-se — como fizeram no Brasil o Romantismo e os críticos e autores da segunda metade do século XIX — de nacionalizar a tradição dos clássicos da língua, e mostrar que uma diversificação brasileira da linguagem culta era possível e sobretudo indispensável à dignidade da cultura. É esta a orientação assumida por José de Alencar, Machado de Assis, João Ribeiro, etc. — e Rui Barbosa, com a sua criação de uma prosa moldada nos clássicos, ou os poetas parnasianos como Alberto de Oliveira ou Olavo Bilac, com o seu refinado domínio das estruturas rítmicas e sintácticas tradicionais, foram brasileiros e não poderiam ter sido outra coisa. Ao tempo, em Portugal, aonde o simbolismo dominara mais ostensivamente a poesia que no Brasil aonde a linhagem parnasiana predominara publicamente (apesar da grande difusão que o simbolismo teve), a rigidez tradicional estava mais quebrada pelos poetas do saudosismo com Teixeira de Pascoaes e os seus seguidores, e só a prosa estava mais presa dentro das linhagens que descrevemos. A revolta do Modernismo brasileiro contra a tirania da linguagem literária oficial deve ainda ser entendida e é essencial que o seja, em termos sócio-políticos. Aquele «establishment» era a expressão literária e culta de uma alta burguesia rica e aristocratizada que constituíra a sociedade do Segundo Império e se prolongara nas estruturas conservadoras da Primeira República, a qual vivia das suas rendas agrárias, num requinte urbano e internacional, ignorando ostensivamente as realidades ambientes não só da imensa população do Brasil, mas mesmo a quotidiana experiência dos seus contactos com ela. Essas realidades só podiam ser objecto de gracioso regionalismo em que se registasse a maneira pitoresca e peculiar da fala popular, sem que o escritor ele mesmo usasse, a não ser como registador dos níveis coloquiais ou familiares da linguagem. Em Portugal, em contrapartida, um pequeno-burguesismo aliado às pequenas aristocracias rurais tradicionais triunfara politicamente na República de 1910 contra uma sociedade equivalente àquela brasileira, e arrasta consigo uma mediocrização populista contra a qual, como contra o saudosismo sentimental e simbo-lista, os Vanguardistas de 1915 pretendem reagir, em nome de uma exigência estética da criação literária.

Errado seria supor que o Modernismo brasileiro, no seu afã de busca do Brasil real, representa uma reacção politicamente orientada em sentido estrito (o que de facto sucedeu, neste capítulo, foi, primeiro, antes de atitudes políticas virem a ser assumidas por escritores esquerdizantes, uma aproximação com a emergência internacional do fascismo). Nem a esmagadora maioria dos modernistas provinha socialmente de famílias não-tradicionais. O que essa esmagadora maioria representa é a reacção dos estratos secundários da oligarquia contra os mitos culturais desta, em favor de um Brasil mediano, familiar, afim das tradições domésticas e populares, que, para esses estratos, eram, sob a face do quotidiano, a realidade que eles representavam, mantida em xeque pela oligarquia entre o povo e as altas camadas dirigentes — o que teve paradoxal expressão política na Revolução de 1930. Nada mais iluminante do que por par a par a antropofagia pregada por Oswald de Andrade, e o exame de consciência que quase no fim da sua vida Mário de Andrade fez ao analisar o que, em sua opinião, o Modernismo não tinha feito. De um lado, temos, na melhor tradição da iconoclastia vanguardista europeia, a proclamação de um radicalismo cultural que iria até às raízes pré-colombinas das Américas: a justa negação da falsa cultura praticada artificialmente pelas oligarquias, mas também a substituição dela por novos mitos culturais (já que o Brasil era e é historicamente o que se fez desde 1500), que produziram obras tão peculiares e artificiais como Macunaíma ou Cobra Norato. O que lança, sublinhe-se, uma luz nova sobre a raiva e a fúria que Oswald de Andrade se sentiu impelido a usar em Serafim Ponte-Grande, expressão da contradição fundamental do radicalismo meramente cultural que ele pregara. Do outro lado, temos um epitáfio muito pessoal (e no fim das contas altamente injusto) do Modernismo dos anos 20, quando Mário de Andrade sente que, apesar do prodigioso surto cultural desencadeado pelo Modernismo, este jogara na «literatura» e não na análise social das condições existentes. Parece contraditório que assim Mário tenha visto, quando tantos romancistas desenvolviam obras de protesto social. Mas a verdade é que a maior parte destas obras (com excepção do Graciliano Ramos) não criava novas formas na ficção, e na verdade criticava a derrocada das velhas estruturas senhoriais em face das novas estruturas capitalistas, muito mais do que trazia o povo enquanto tal ao primeiro plano de uma vida sócio-política que o excluíra e excluía inteiramente.

Ainda quanto ao problema da libertação da linguagem literária, num sentido coloquial e primitivista, e nas relações ou comparações entre Portugal e o Brasil usualmente os críticos de literatura brasileira esquecem ou ignoram que o «establishment» português recusara ou atacara o Vanguardismo violentamente (e que os republicanos de 1910 viam com enorme suspeição o aristocratismo intelectual dos homens de 1915), que o lançamento do Modernismo em Portugal pretendeu ser uma iniciativa luso-brasileira (em que post-simbolismo e vanguardismo aparecem significativamente confundidos em ORPHEU, ou lado a lado), e que as obras em prosa de Almada-Negreiros eram desde 1915–1917 um corte total com a tradição literata luso-brasileira. Por outro lado, foram os homens de ORPHEU quem, nas páginas da revista, deram publicidade à poesia do simbolista Ângelo de Lima (1872-1921) cuja linguagem poética inventa palavras e desarticula a sintaxe tradicional. Assim, quando Ângelo de Lima, Almada-Negreiros, Álvaro de Campos, e as audácias de Sá-Carneiro (obras em prosa e verso do qual haviam sido publicadas em 1914-15) já existiam, a revolta do Modernismo brasileiro fazia-se na verdade contra a mitologia daquelas oligarquias que, na frase famosa de Afrânio Peixoto, representante delas, definiam a literatura como «o sorriso da sociedade», mas não contra o Portugal de Vanguarda que se afirmara nas páginas de ORPHEU.

Ainda estão por estudar em extensão e em profundidade as relações das vanguardas de Portugal e do Brasil, não só em 1915-22, mas até aos anos 40, quando durante os anos 30 e 40 os modernistas brasileiros colaboravam nas revistas modernistas portuguesas e eram nelas criticados com especial relevo. Não se trata ou não deverá tratar-se de meramente atribuir influências ou precedências, ou discutir ridiculamente quem primeiro fez seja o que for, mas de ter presente que duas literaturas na mesma língua, cujos contactos mútuos e íntimos vinham desde as origens do Brasil, necessariamente não se ignoraram durante essas déca-das. Um isolacionismo narcisista, como tanto tem sido praticado nos últimos anos pela crítica brasileira, por certo que não é senão efeito de um absurdo sentimento de independência cultural, que as realizações da cultura brasileira tornam totalmente obsoleto.

Tanto o modernismo português como o brasileiro buscaram, paralelamente, uma interiorização da experiência contra a superficialidade da criação literária, e uma renovação radical da expressão. Independentemente do individualismo que caracterizou as experimentações modernistas de Vanguarda, aquela interiorização, pelas condições locais, assumiu em Portugal um carácter existencial, e um carácter nacional no Brasil («nacional», no sentido de trazer a realidade quotidiana e a experiêndia de vida do escritor, enquanto brasileiro, à literatura). Mas as peculiaridades «exóticas» (a que, ainda pelo modelo europeu, os brasileiros têm sido sensíveis a respeito do próprio país, e que tanto atraem alguns críticos estrangeiros) do modernismo brasileiro não podem fazer esquecer que aquele «nacional», nos melhores escritores, não deixa de ser uma específica análise existencial de certos aspectos do homem brasileiro, ou da condição humana no Brasil, e aspira a uma expressão de valor universal, como sucede com toda a grande arte.
 

Paixão, morte e redenção do Físico

Recortes da novela O Físico Prodigioso

Decerto não há na obra de Jorge de Sena outra personagem mais claramente “crística” que o seu “muito bem-amado filho” O Físico Prodigioso — criado “como símbolo da liberdade e do amor”, “sustentado pela força do amor que tudo manda, e pelo ímpeto da liberdade que tudo arrrasa”. Se dúvidas houvesse, os capítulos finais da novela as dissipariam. Destes, em alusão ao calendário pascal, recortamos os passos que demarcam a nítida via-crucis do protagonista e a sua simbólica ultrapassagem final.

 

Quando as grades se abriram rangendo, ele, como sempre, não se moveu. E, quando elas se fecharam sem que ninguém lhe falasse, é que levantou a cabeça. Os seus olhos, com o tempo de prisão, viam claramente à luz que vinha das grades. Mas sombras enormes se projectavam dentro, e eram dos frades que ele conhecia bem. Baixou outra vez a cabeça, e não se moveu quando o rato lhe tocou num pé. O rato subiu para o pé e apalpou-lhe o tornozelo. Era mão e não rato. Levantou a cabeça e viu diante de si uma sombra agachada, de cabelos caídos, cujas mãos ambas lhe subiam pelas pernas até aos joelhos. Estendeu os braços para ela, e deixou-se cair, alongado, num arrastar de correntes. Ela alongou-se contra ele, e assim ficaram quietos, abraçados. Os membros do tribunal registaram a imobilidade absoluta deles. De súbito, um estremecimento os percorreu e um estertor ecoou. E a confiança regimental nos cintos oficiais, na verdade infalíveis, não deu ao tribunal a ideia de que eles se haviam possuído. O silêncio e a imobilidade voltaram logo. E, como se não passava nada, as grades foram abertas e os frades entraram. As duas formas num novelo de correntes, continuavam alongadas, abraçadas, imóveis. Dois guardas se abaixaram para separá-las. Foi fácil destacar a que não estava acorrentada. Era um corpo flácido, que arrastaram para o corredor e os frades seguiram num tropel. Era mais do que um corpo flácido: um cadáver. Não era, porém, Dona Urraca. Ou era. Mas os longos cabelos estavam louros, e as feições defuntas eram as dele.

Os frades caíram todos de joelhos, benzendo-se, trémulos, gritando esconjuras, enquanto dos guardas se ouvia ecoar o correr da fuga.[1]

(…)

O tribunal torturou-o então. Começou por manter-lhe rapado o cabelo, e por tê-lo sem a longa barba que lhe crescera. Submeteu-o ao potro, à roda, aos tratos graduados da polé, às tenazes ardentes, ao chicote de ferro. O corpo dele, magro, chagado, com os membros deslocados, era uma ruína que se arrastava aos pés dos juízes, sem fala, babujando grunhidos. Toda a beleza e toda a juventude haviam desaparecido. Foi assim que o confrontaram com todos os outros acusados, um por um, e uma por uma, sem que sequer eles o reconhecessem. [2]

(…)

Ele seria enforcado, primeiro, eviscerado, depois, e tudo queimado logo na fogueira já acesa entretanto. A evisceração era fundamental, para impedir que houvesse possibilidades de ressurreição demoníaca, antes de consumido o corpo maldito. Seria enforcado tal qual estava, com as correntes, para o caso de ficar invisível de repente e as correntes até ajudariam com o seu peso, não sendo necessário que o carrasco se chegasse muito a ele antes de morto. Toda a gente usaria capuzes pela cabeça, menos o réu.

Tiveram de o trazer numa padiola até ao pátio, era já noite, porque o erguer da forca e a instalação da fogueira levaram tempo. Durante este tempo, os cinco se ocuparam freneticamente da remoção dos outros presos para longe do palácio. A luz de archotes, arrastaram o corpo para a plataforma da forca. Como não se aguentava de pé, o carrasco passou-lhe um laço pelos sovacos, que o ajudante puxou até ele ficar suspenso, com as longas correntes pendendo. Então, a cavalo no travessão da forca, o carrasco enfiou-lhe na cabeça o laço propriamente dito, e soltou uma exclamação.

O pequeno grupo de capuzes no sopé da forca agitou-se. Que seria? O carrasco encapuzado desceu e explicou. Não poderia enforcá-lo com a coleira de ferro da corrente do pescoço. Era preciso tirá-la primeiro.

Foi uma aflição, uma perplexidade. Saíram pela cidade à procura do ferreiro de serviço, que desaparecera. Entretanto, segurando o outro laço, o ajudante gritava se ia ficar ali a aguentar com o peso das correntes, que o corpo, por si, não pesava nada. Mandaram que o largasse, ele largou-o de repente, e o corpo, com um estrondo de correntes, desabou no tablado, e era um molho de carne e de anéis de ferro. Enfim, o ferreiro veio; e, no silêncio, apenas se ouvia o martelar tilintante, até que a coleira caiu.

Recomeçaram a operação de levantar o corpo com as correntes pendentes, e o carrasco enfiou-lhe o laço no pescoço. Ao mesmo tempo, e por um bater de palmas do meirinho, o ajudante largou a suspensão, e o carrasco saltou para os ombros do justiçado. O corpo rodopiou num balancear largo das correntes, e ficou rodando devagar. Um suspiro de alívio percorreu os capuzes.

Mas o carrasco, agarrado à corda, debruçava-se para a cabeça pendida que tinha entre os joelhos. Depois, levantou-se e sentou-se, várias vezes. E, por fim, passando para a forquilha da forca, desceu escorrendo em suor que brilhava no seu torso nu, e sentou-se na beira da plataforma, fazendo com as mãos abertas movimentos de confessada impotência.

Os capuzes correram para ele.
– Não está morto, não morre; quando calco para baixo, alguém – e benzeu-se – o levanta para cima.

Não precisaram entreolhar-se para entenderem claramente o que se passava. E Frei Antão tomou uma decisão suprema.[3]

(…)

Tudo estava nos mesmos lugares, à luz dos archotes. O corpo e as correntes no tablado. O carrasco sentado na beira. O ajudante, de pé, ao lado. O grupo dos capuzes entre a forca e a fogueira.

Frei Antão aproximou-se deles, que se ajoelharam, e disse: — Desacorrentem esse homem. Vistam-lhe uma roupa. Montem-no num cavalo. Ponham-no fora da cidade.

Os outros ficaram indecisos. Frei Antão declarou:
— Se assim fizermos, Deus nos fará um milagre. Eu o sei de ciência certa.

O ferreiro cortou (e parecia interminável o seu tilintar de martelo) os anéis dos pulsos e dos tornozelos, e o da cintura. Depois, tirou o cinto de castidade. O corpo estendido aos pés dos cinco frades era todo ele uma chaga e uma bostela de lixo nauseabundo.

Frei Antão mandou que o levassem e lhe pusessem unguento.

Assim foi feito.

Frei Antão voltou-se então para a assistência com a sua voz fininha e estridente:

— Em nome de Deus, declaro que este tribunal condena ao vazamento dos olhos e ao corte da língua e das mãos quem quer que seja, clérigo ou não, que jamais fale do que viu agora e aqui. Nós enforcámos este homem, nós arrancamos-lhe as vísceras, nós queimámo-lo. São todos testemunhas disso. Vistam-no e ponham-no sobre um cavalo.

Enfiaram pela cabeça rapada um saco com buracos, como os que dão aos leprosos, e tentaram em vão que ele se aguentasse na sela do cavalo que haviam trazido. Escorregava e caía.

Frei Antão mudou de ideias.

— Deixem-no aí. Vamos embora. — E quando, seguido pelos outros, ia a cruzar o grande arco da escada, voltou-se e disse: — Deixem as portas abertas.

E, no pátio deserto e escuro, o vulto ficou estendido no chão, ao pé da forca.[4]

(…)

Frei Demétrios murmurou: – Que vamos fazer? Deixá-lo ali, à espera que seja dia e o movimento do palácio comece?

Frei Antão endireitou-se e meditou. Depois disse:

– Reverendos irmãos: Vossas Reverências vão levantá-lo por debaixo dos braços, de modo que ele possa andar, e atentem no mínimo movimento dele, para levarem-no onde queira ir.

Os outros olhavam-no, apavorados, ou percebeu Frei Antão que assim o olhavam de sob os capuzes.

Frei Antão acrescentou: — Eu segui-los-ei, com a minha cruz na mão.

Os outros hesitaram, mas Frei Antão empurrou-os com um gesto imperioso. Foram-se até ao corpo, e levantaram-no de repente, porque ele estava muito mais leve do que tinham pensado. E avançaram pelo túnel até à saída do palácio. Os guardas, sonolentos, ao verem o grupo, agitaram-se assustados nos seus capuzes. Mas reconheceram logo principalmente Frei Antão, pela sua pequenez, e que os mandou afastar erguendo a cruz peitoral.

No grande adro em frente, o grupo parou. E que os transportadores não sentiam que, daquele corpo desfeito cujos pés se arrastavam deslocados pelo chão, viesse a mínima indicação de para onde ele queria ir.

Consultaram-se os três sobre o que fazerem. E decidiram experimentar sucessivamente várias direcções, a ver se ele reagia. E, assim, avançaram aos ziguezagues, apontando de cada vez a uma das quatro saídas da praça. Mas ele não reagiu a nenhuma. Pararam.

Frei Antão mandou que o pousassem no chão. E ficaram os três, atrás dele, à espera que se movesse. A luz que raiava da manhã, uma luz muito branca e rosada, que fazia brilhar numa poalha dourada os negros e altos prédios da praça e punha pelo chão dela uma aragem rasteira, o corpo ali estendido, e mesmo de bruços como estava, era horrível de ver-se. A cabeça rapada tinha livores e pústulas, e a chaga do pescoço era como uma degolaçao incompletada que mal deixara que a segurasse ao corpo. Este, no burel do saco em que estava enfiado, não se via. Mas adivinhava-se pelos braços e pelas pernas de que os ossos apontavam de uma pele esticada, cheia de rasgões purulentos. As mãos, sobretudo, só tendões e ossos protuberantes, eram horríveis, com uns dedos compridíssimos pelas unhas retorcidas e longas, mas quebradas. E tanto as mãos como os pés, separados dos braços e das pernas pelo círculo chagado que os anéis de ferro haviam feito, pareciam semidecepados. [5]

(…)

O sol começou a entrar na praça pelas ruas do lado nascente e, de súbito, emergindo sobre os prédios, iluminou-a de uma luz que era alaranjada e prata. As sombras dos três frades, muito longas, cruzavam-se sobre o corpo. Frei Antão desviou-se e os outros dois imitaram-no. E continuaram à espera. O corpo, em que o sol batia, persistia imóvel. Em certo momento, pareceu aos frades que ele gemia. E esticaram-se à escuta. Mas teria sido ilusão. Depois, pareceu-lhes que se movera ligeiramente, que percorrera um tremor como o da pele de cavalos picados por moscas. Mas a imobilidade era tanta que não deveria ter tremido. Mesmo a respiração dele era imperceptível. Seria que estava morto?

Foi quando as mãos se moveram. Os dedos encolheram-se e esticaram-se, encolheram-se e esticaram-se, e ficaram parados. Depois, com um esforço infinito, um dos joelhos dobrou-se, e o corpo rolou um pouco, ficando meio de lado. Os frades soltaram todos uma exclamação contida, que reboou na praça como uma praça como uma onda que rebenta. Voltaram-se assustados. A praça estava cheia de gente, por trás deles. Era uma massa compacta e silenciosa e imóvel. Frei Antão ergueu a cruz peitoral, e gritou:

— É um pestífero, fujam! – e benzeu-se.

Mas a multidão não se moveu.

— Não ouvem que é um pestífero? Fujam. Saiam daqui. Voltem para as suas casas. É uma ordem. Em nome do Santo Padre, cujo legado sou, voltem para as suas casas, sob pena de excomunhão maior!

A multidão continuou silenciosa e, depois toda junta, avançou um passo, que Frei Antão recuou gritando: – É um pestífero, fujam!

Mas a multidão, e ouvia-se agora o respirar dela como um rio correndo, avançou outro passo, que também Frei Antão recuou, dizendo com a voz trémula e sumida: – Estais excomungados. Que a maldição de Deus caia sobre vós e sobre os vossos filhos!

A multidão deu outro passo para a frente, e começou a caminhar em passos muito lentos. Foi então que Frei Antão lhe voltou as costas, com medo de tropeçar, e viu que o corpo, cuja cabeça pendida entre os ombros ele não via, avançava devagar, e de gatas, para uma das saídas da praça, seguido pelos outros dois frades.

Assim saíram da praça e entraram na rua que descia. O corpo gatinhando e deixando um rastro de sangue, os dois frades atrás, depois Frei Antão que ora os seguia, ora se voltava para a multidão que era um mar como de lava comprimida, espessa e lenta, entre as paredes da rua. Mas das casas da rua saía mais gente, e o cortejo ia descendo por entre alas de povo, que o mar de lava absorvia. A onda espessa e lenta respirava, rumorejava dos passos pelas lajes, mas era silenciosa. A única voz que se ouvia era a de Frei Antão, numa estridência rouca, que de vez em quando, mecanicamente, gritava: – É um pestífero, um pestífero, fujam!

Nos cruzamentos com outras ruas, novas multidões esperavam em silêncio, e juntavam-se ao cortejo. Este, todavia, não era só a massa que escorria por aquela rua. Nos cruzamentos se apercebia que, pelas outras ruas mais ou menos paralelas, desciam rios iguais, também silenciosos e lentos, cujo suave estrondo pairava por sobre as cabeças e por sobre a cidade. Só à frente não havia ninguém. E o corpo ia gatinhando devagar, ora uma das mãos, ora um joelho.

De vez em quando, de uma porta ou de uma massa de gente, uma mulher corria, agachava-se entre o corpo e os dois frades, que logo o seguiam, e, com um pano, limpava os pingos de sangue, que ficavam nas lajes.

Às vezes, a procissão parava, quando o corpo parava. E foi num desses altos que Frei Bermudo vacilou e caiu. Mas o corpo recomeçou a sua marcha. Frei Demétrios seguiu atrás dele. E Frei Antão, nas voltas que dava para trás, pôde ver o caído vulto de Frei Bermudo ser absorvido sob os pés da multidão.

E o cortejo ia caminhando sempre, e chegou às portas da cidade, que o corpo, sempre gatinhando, cruzou. Fora das muralhas, enquanto ele descia a encosta, as multidões espraiaram-se como água represada que encontra leito livre. Mas não era livre inteiramente, porque as beiras do caminho já formigavam de gente que viera por certo dos arrabaldes e das aldeias mais próximas, e que se fundia com o mar que descia das portas da cidade.

O corpo continuava a avançar, tendo-se desviado para um caminho estreito. Então, e um murmúrio sobrevoou os campos negros de povo, endireitou-se e ficou de joelhos. Depois, pousou uma das mãos no chão, e avançou a outra perna que não a desse lado, fimmando o pé. E levantou-se. Oscilava lentamente, e parecia que ia cair inteiro. Mas não. Arrastando os pés, e como se o estar sempre caindo para a frente o ajudasse, foi dando passos sucessivos, até cair de borco à beira de uma grande vala que ali havia.

Então, de novo rastejando, desequilibrou-se e rebolou para o fundo, onde ficou de costas, descomposto, exibindo as chagas que o anel da cintura e o cinto de castidade lhe haviam feito. E o rosto, que o Sol já alto iluminava, era horrível de ver-se e, se possível ainda mais que o resto: os olhos muito encovados arregalavam-se, o nariz estava quebrado, a boca hiante mostrava uma língua inchada e o vazio dos dentes, e toda a testa era, como as faces, protuberâncias roxas e negras.

Assim ficou largo tempo, com a multidão comprimindo-se ao longo da vala, que todos conheciam. Frei Antão e Frei Demétrios, na borda da vala, sentiam atrás de si uma pressão contida, e tinham do outro lado um mar igual de gente.

Então, do corpo estendido e descomposto, começaram a sair gemidos e soluços. Frei Antão ergueu mais a sua cruz peitoral por sobre a vala, e sentiu que lha arrebatavam das mãos com uma violência que lhe rebentou o cordão de ouro, que a sustinha. O choro subia de tom, era uma lamentação sem palavras, uma gritada cantilena que se propagou à turba imensa.

Dois homens, e logo mais outros, saltaram para a cova, e, com as mãos começaram a escavar. Como que os gritos os guiavam, cada vez mais agudos. Até que, de súbito, fez-se um grande silêncio. Uma madeixa de cabelos louros surgira da terra, e depois uma cabeça apodrecida que, no afã de a desenterrarem, quase destacavam do corpo que ia surgindo também.

Os homens afastaram-se. E ele rebolou novamente, e arrastou-se para o cadáver exposto e que devia ter sido de mulher. Quando o tocou, com uma das mãos que para tanto se fazia compridíssima, todos viram que os cabelos da caveira ficavam negros, e o cadáver era uma mulher de espantosa beleza.

Ele caiu de costas a seu lado e, pouco a pouco, à medida que o seu estertor se tornava mais nítido, as chagas iam desaparecendo, o cabelo crescendo louro, as feições recuperando os traços desaparecidos. Era como um deus, quando todos viram que expirara.

E todos ficaram imóveis longo tempo. Então, os homens abaixaram-se e tentaram levantar os dois cadáveres para transportá-los. Não foi possível. Via-se que suavam, que os músculos se retesavam – mas não foi possível. Tentaram então, passando as camisas sob eles, levantar ambos em conjunto. Também não foi possível.

Uma mulher, do outro lado da vala, atirou um punhado de terra. Os homens saltaram para fora. Não tardou que a vala estivesse nivelada, e desaparecidas as alturas de terra que iam ao longo dela.

Tudo estava terminado, pensou Frei Antão. Mas a multidão permanecia imóvel, esperando alguma coisa.

E, com efeito, no lugar que seria aquele em que jaziam, começou a brotar uma pequenina erva que, a olhos vistos, crescia. Teria já uma vara de altura, quando, por sua vez, os botões se abriram, saudados por um grande clamor da multidão. Eram rosas enormes, redondas, rosadas, cujo perfume entontecia. Era um perfume estranho, não bem de rosa: não… um perfume de… Frei Antão atirou-se à planta e tentou arrancá-la. Apenas quebrou um galho, de cuja quebra escorriam dois fios líquidos. Um, de uma resina esbranquiçada; outro, de uma seiva vermelha. Frei Antão ficou olhando, tão desvairado, que nem notou que a sua mão, ainda estendida, enegrecia e mirrava.

E não teve mais tempo de notar, porque, com o crânio despedaçado, a multidão o arrastava, e a Frei Demétrios, pelos pés, num tumulto que voltava à cidade.[6]

1. cap. VII – p. 100-1
2. cap. VIII – p.103
3. cap. VIII – p. 105-7
4. cap. IX – p. 114-5
5. cap. X – p. 121-3
6. cap. XI, na íntegra.

Índices da Poesia de Jorge de Sena – 13: Quarenta Anos de Servidão (partes I, II e III)

Continuando a série de Índices da Poesia de Jorge de Sena, apresentamos os títulos, primeiros versos e datas de composição dos poemas escritos entre 1938 e 1950, que compõem as partes I, II e III de Quarenta Anos de Servidão, publicado em 1979.

 

 

Título —– “Primeiro Verso” —– Data

 

I – Tempo de Perseguição (1938-1942)
Variações sobre cantares de D. Dinis — “Ramo verde florido” — 17/05/1938
Dístico — “O viver que grita muito não diz nada” — 08/07/1938
Morte… — “Quando morrer” — 14/09/1938
Cegueira — “As pernas vão vergando de cansadas…” — 16/09/1938
Agonia — “Saber que a morte vem… preparar tudo” — 20/12/1938
Dissociação — “Aqueles olhos segredando de amor” — 17/01/1939
Nevoeiro — “O nevoeiro / rodeou o teu vulto negro” — 04/02/1939
Mastros — “Andou em ti o teu amor por mim” — 25/04/1939
Nau — “Ondeiam lanternins de marear” — 24/06/1939
Ciclo — “Tu crês no céu azul? No céu rasgado” — 03/08/1939
Contraponto — “Nós, aqueles poetas exigentes” — 27/02/1941
Hospício — “Ficar será malícia, cântico ou desprezo” — 02/01/1942
Jornal — “O arame farpado empresta-lhes penumbra” — 11/03/1942
Um Jogo — “Na brancura firme das plataformas tranquilas” — 26/04/1941-1942
Ode a Ricardo Reis — “Rosas raquitas te of’reço, poeta” — 08/04/1942-1947
Para eu murmurar à hora da morte — “Sempre que alguém morreu à minha beira” — 03/06/1942
Poema Apócrifo de Alberto Caeiro — “Não quero este menino que desce do céu…” — 17/07/1942

 

II – Tempo de Coroa da Terra (1943-1944)
Soneto Antigo — “Na linha branca o vento volteava” — 28/01/1940 – 06/02/1943
Dois Sonetos — “Ó meus amigos poetas portugueses!” — 23-25/12/1943
Soneto Incompleto — “Como foi, meu amor, que não nasceste” — 28/3/1944
Sacrifício da Imortalidade — “A minha voz, quando estiver tão longe” — 12/06/1944
“Sempre tão longe o apelo dos que sofrem” — 26/06/1944
Ode aos livros que não posso comprar — “Hoje, fiz uma lista de livros” — 27/06/1944
“Assim como o Sol não corre pelo céu” — 05/12/1944

 

III – Tempo de Pedra Filosofal (1945-1950)
Meditação junto a uma obra gigantesca — “Deste cansaço imenso…” — 04/12/1946
“Nunca ninguém ao certo nos conhece” — 06/02/1948
“Poeta: se teus anos contas” — 04/07/1948
Ode à Beira-Nada — “Eu leio estes poetas com imensa amargura” — 20/07/1948
O Véu Nada Inconsútil — “A vida… Sabeis como se perde o delicado véu” — 26/07/1948
À Memória de J. P. Jacobsen — “Levanto os olhos de Niels Lyhns…” — 14/08/1949
Auto-Epitáfio de Gomes Leal — “Nem nu, nem vestido” — 29/06/1944-1949
“Quando o mundo inteiro está em nossa alma” — 10/09/1950

Leituras Piedosas e Prodigiosas – Padre Manuel Bernardes*

Em 1962, concentrado na elaboração da tese Uma Canção de Camões, sem abdicar da docência acadêmica em duas cidades do interior de São Paulo, a produção ensaística esparsa de Jorge de Sena restringiu-se à colaboração mantida no jornal O Estado de São Paulo e à que resultou de umas poucas participações em eventos culturais. Dentre estas, é de destacar sua conferência no curso "Barroco Literário", organizado por Antonio Cândido na Fundação Armando Álvares Penteado, em setembro/outubro. Dessa altura, e ainda à volta do período barroco, é também a recensão crítica que dedica à antologia da obra do Padre Manuel Bernardes, editada sob responsabilidade de Coimbra Martins, e que Sena publica a 13 de outubro no "Suplemento Literário" daquele jornal paulista. Os dois longos parágrafos dedicados à avaliação dos escritos "espirituais" desse oratoriano seiscentista constituem, porventura, os mais agressivos que Sena jamais teria desferido contra algum escritor. Entretando, dois anos depois, uma citação de Manuel Bernardes comporá a página de epígrafes da novela O Físico Prodigioso. Sabendo-se que na obra seniana há grande unidade e nada parece gratuito, recomenda-se ler essa epígrafe em cotejo com a recensão que em breve faz 50 anos, abaixo transcrita.

 

O padre Manuel Bernardes foi sempre tido e continua a ser havido como uma glória da literatura portuguesa. Os louvores à pureza clássica da sua prosa e à limpidez da sua espiritualidade têm contribuído consideravelmente para os erros de juízo acerca da época barroca, de que ele, com Rodrigues Lobo, Fr. Luiz de Souza, Jacinto Freire de Andrade, Francisco Manuel de Melo, António Vieira, Fr. António das Chagas, e a Arte de Furtar, é, conforme as selectas e as histórias são mais ou menos resumidas, uma das indefectíveis e modelares expressões da bela prosa. Os outros podem não aparecer todos: o seráfico autor da Nova Floresta lá está sempre, respeitosamente instalado. Lobo e Fr. Luiz é muito duvidoso que possam ser considerados barrocos, na elegância fluente e linear das suas prosas respectivas, tão dadas mais à humanidade pensativa da experiência humana que é a deles, e à visualização idealizada de uma natureza a que são agudamente sensíveis. São, antes, os últimos maneiristas, como, sob certos aspectos, o é também D. Francisco Manuel. Freire de Andrade é o derradeiro expoente da prosa heróica, à maneira de João de Barros, mas depurada pelos ideais de geometrismo do melhor Barroco. Fr. António das Chagas transferiu para os seus escritos devotos e para a delicadeza untuosa dos conselhos espirituais, uma experiência de vida e de poesia, que faz dele uma das personalidades mais interessantes do período, em que avultam os homens tremendos como inteligência e como domínio orgulhoso da expressão, que são Melo e Vieira. A Arte de Furtar é, numa época em que a ironia está em toda a parte, uma gigantesca metáfora satírica. Bernardes, a comparar com todos estes homens e obras, é a prova mais cabal de que um estilo só é um homem, quando esse homem não é uma cavalgadura. Os ideais dos gramáticos reaccionários não podiam deixar de aclamar o estilo de um homem cuja obra é uma escola de imbecilidade. Porque o que, em Vieira podemos levar à conta de uma loucura de génio, é em Bernardes a cretinice obsessiva de um filho natural de judeu e de mãe dissoluta, que quer todos os cristãos à escala da sua castração mental. Não admira que, nos tempos recentes, as belezas de Bernardes tivessem sido postas em antologia pelo Bernardes do Romantismo, que o cego Castilho foi, e por Agostinho de Campos, que denunciava os modernistas à polícia. E, salvo pela linguagem «castiça» ao merecido ridículo das suas historietas crédulas e idiotas, o padre Bernardes sobrevive a uma época que hoje consideramos notável, precisamente na medida em que ela escapou à influência deletéria dos muitos Bernardes oficiais que pulularam nela. Bernardes pertence, não à história literária, mas à história da incultura portuguesa. E não deixa de ser uma deliciosa ironia que este vigilante defensor da ortodoxia subitamente se nos revele, na sua imbecilidade zelosa, como um autor envenenado pelo quietismo que combatia. No encalço dos estudos de Robert Ricard, o jovem estudioso Coimbra Martins apresenta e selecciona excelentemente o reverendo padre. Não são mais as graças ingénuas da devoção o que é recolhido nestas páginas do maior interesse. Mas, sim, os aspectos especulativos, se assim pode chamar-se à actividade para-intelectual do divulgador sem nível filosófico e teológico, que Bernardes foi. Poderia fazer-se de Bernardes uma antologia do mais alto «humour», digna de um Swift, se o humor do pobre padre não fosse virtuosamente involuntário. Mas ainda bem que não faltaram nesta antologia aquele trecho sobre a guerra dos ossos de frades e de leigos, nem o magistral ensaio sobre as dimensões do inferno e a sua capacidade, da qual se deduz seguramente o número viável dos danados…

O trabalho de Coimbra Martins é muito sério e desenvolvido com discreta ironia. Para a história das ideias involuntárias em Portugal é, ao alcance de todos, indispensável. E, para lançar a suspeição sobre um escritor que detinha o respeito das sacristias, decisivo. Eu creio sinceramente que nenhum católico esclarecido e sincero possa, depois de compulsar esta antologia, mencionar o nome de Bernardes sem corar de vergonha. Porque, e é esse o segredo da prosa dele, Bernardes não é um pobre de espírito, que mereça a nossa simpatia, e tenha por natureza o seu ganho. Ele é um possesso de imbecilidade, que tudo faz para torná-la fascinante. Apesar de imenso, deve ter encontrado espaço para ele mesmo no inferno cujas dimensões tanto o preocupavam. Malignamente devoto, lá tinha as suas razões. Mas a história da literatura portuguesa e a estética literária nada têm com isso. A literatura barroca é outra coisa, felizmente, E é-o, ainda quando um Vieira igualmente se preocupa com as dimensões do inferno. Porque o inferno do padre Vieira não podia ser o do padre Manuel Bernardes, morto em 1710 (em geral esquece-se que quase um século o separa de Rodrigues Lobo e de Fr. Luiz de Souza, e quase quarenta anos de Vieira e Francisco Manuel), quando a Europa, desenvolvendo as linhas de pensamento do mundo barroco, não admitiria já, senão como caricatura, aquela confiança nos números que o matematicismo primário inspira barrocamente a Bernardes. Caricatura da espiritualidade barroca, isso sim, ele é. E, como escritor de tão decantado estilo, é inconcebível que continue a passar por tal uma doçura de linguagem, em que nenhuma ideia, nenhum sentido estético da expressão, nenhuma humanidade viva, compensam o proselitismo fradesco. Tomou-se por estilo o que era uma retórica de catecismo para boi dormir. Credulidade por credulidade, antes as fantasias históricas de Fr. Bernardo de Brito, que ao menos sabia e sentia o que fosse criação artística. Que este meritório volume, chamando a atenção para Manuel Bernardes, ajude a enterrá-lo definitivamente. A literatura portuguesa sempre andou precisada de limpeza.
 

*Selecção, introdução, cronologia e notas por António Coimbra Martins – Livraria Bertrand, Lisboa (1962)

Há 50 anos: poemas de 1962

O ano de 1962 foi particularmente trabalhoso para Jorge de Sena. Nos primeiros meses do ano escreve a tese Uma Canção de Camões, com vistas ao ingresso, abortado, na Universidade Federal de Minas Gerais. Em termos de docência acadêmica, teve de dividir-se entre São José do Rio Preto e Araraquara — aqui incumbindo-se de três disciplinas: Literatura Portuguesa, Teoria Literária e Literatura Inglesa. Assim, imerso em lides universitárias, a sua produção literária stricto sensu, se comparada a outros anos, não foi das maiores. No entanto, dentre os poemas que ora completam 50 anos, há marcos importantes, alguns já antes transcritos neste site, como é o caso de “Uma sepultura em Londres”, “Requiem de Mozart” e “Pot-pourri final”. E o magnífico “A nave de Alcobaça”, que antes só editáramos em versão inglesa, agora reaparece em sua forma original.

Mas, dos 14 datados desse ano (a metade formando uma sequência cronológica no livro Peregrinatio ad loca infecta, 1969), vale destacar o quanto são representativos das mais recorrentes temáticas senianas, onde sobressaem as referências políticas e as grandes inquietações existenciais.

 

 

 

GLOSA DE MENANDRO

«Morrem jovens os que os deuses amam», dizia o poeta.
E eu pergunto: morrem velhos os que eles detestam?
O sábio antigo, cheio de rugas e barbas,
com os olhos vazios, de estátua, resumando
a sageza acumulada nas vigílias austeras
(ou não) – os dueses detestavam-no?
Entre a juventude e o amor dos deuses,
não teria ele escolhido a dor de envelhecer desamado
no vácuo ardor das paisagens marinhas
em que os deuses são a ausência de uma humanidade?
Ou nâo teriam deuses escolhidos que ele
escolhesse a dor de nâo armá-los, quando,
na plenitude marinha dos ventos e das águas,
os deuses sâo tâo-só o oceano sob o céu azul,
o céu zul tão-só no oceano reflectido,
o olhar vazio como o vento entre ambos?

1962

 

 

PEQUENO TRATADO DE DERMATOLOGIA

(intermezzo cubano)

De cada vez que um povo exige liberdade
– oh não bem o povo, mas os grupos que o grupo no poder
não inclui na partilha da pele do povo propriamente dito –
os clamores são comoventes pela democracia.
No entanto, é claro, nada pode fazer-se
que não clamar de mão no peito
(a outra coçando nos lugares impróprios),
pois que, em verdade, os poderes dos grupos
é sempre o poder dos grupos.

Mas de cada vez que, farto de palavras,
um povo estoura com tais odres rotos,
e faz deles passadores que esguicham
muito menos sangue que o chupado em séculos,
os clamores são, a mais de comoventes, trémulos
de indignação, não já co’a mão no peito
(a outra coçando sempre nos lugares impróprios),
mas exigindo acções colectivas em defesa da ordem,
da justiça, da liberdade. E sanções (e bombas).

Pois que em verdade o poder dos grupos
é sempre o poder dos grupos, e lá dizia o poeta
«qualquer morte de homem me diminui», e o número
de mercenários diminui assim terrivelmente,
neste mundo em que são precisos tantos para manter a ordem,
a justiça, a liberdade, sobretudo aquelas
que são feitas da pele de qualquer povo. E enfim,
considerando que a circuncisão é altamente uma prática higiénica
e desde há séculos predilecta de Jeová,
talvez que o grupo no poder nos quisesse vender
nem que seja um prepúcio em que investir capital.

30/1/1962

 

«NEL MEZZO DEL CAMIN…»

I

Quarenta e dois… Provavelmente já
vivi mais de metade a minha vida.
Provavelmente até, em mim escondida,
não como inevitável, mas guarda-

do fim com que termina tudo, está
a morte a me roubar da consentida
afirmação de que se finge a vida.
Provavelmente, não verei o que há

Além do tempo que me é dado. Não
assistirei às pompas da vitória.
Mas, se eu morrer de raiva, como cão

a que é negada a própria liberdade,
provavelmente não terei memória
de quanto a vida só me foi saudade…

II

…de tudo, sim. Não me contento nunca.
Não me contentarei. Mesmo que eu visse
mordendo a lama a secular canalha,
dona de tudo; e mesmo que ainda visse

liberta e justa a sórdida espelunca
de bancos e palácios, catedrais,
em que a arrogância dela se esparralha
– não me contentaria. Porque há mais

que mesmo dessangrados não vomitam:
os séculos roubados e mentido,
os corpos mortos de prostituídos,
o esgar humano com que humanos fitam.
E nem morte nem vida podem mais
do que apagarem sem deixar sinais.

30/1/62

 

 

POST-METAMORFOSE: VARIAÇÃO SEGUNDA

Cariátide retensa que o teu corpo é
na expectativa ansiosa do prazer lembrado,
sustentas sobre os ombros desmedidos,
e nas abertas mãos, o voo aflante
que te rodeia a pel’ salgada e fina
sob que, atenta, a carne rósea e espessa
palpita em sangue concentrado e duro.
Nos pés pousada e sobre os ombros tudo
o que invisível tece o trémulo dos dedos,
sustenta ancas, pernas, seios, pêlos,
e olhar perdido, e braços e cabelos.

Ondulam-te os desejos, cariátide!
Assim de pé, nas pernas afastadas,
na curva alada que, do queixo ao ventre,
alonga o mundo que em teus dedos vai,
como redondas nádegas tranquilas
de céu azul, pousar pelo horizonte
de adolescentes ancas, tu sustentas
o giro dos planetas; e, nos eixos
do sexo e do torso, a geometria
inscreve o gesto com que as ancas rodam
sobre si mesmas, pendulares, contidas
entre colunas que coluna tornam
a humedecida estátua que tu és.

Olhar vazio, ó templo demolido,
ó tecto aberto, ó treva esquartejada,
ó forma variável e perfeita
do que há e que não há! ó cariátide!
Pilar do mundo! Como é suave o braço
descendo dos teus ombros! Como é frágil
a firme decisão que pousa em ti,
dos ombros à cintura, da cintura às pernas,
e das pernas abertas ao espalmado pé
que assentas delicado sobre o tempo
escoando-se por saltos do desejo,
que te contraem, lambem, e deslizam
para o chão das cousas, para o pó que o vento
levanta em nuvens à tua volta. Quando…
Quando acabar, quando voltar teu sangue,
quando na noite ejaculares o brilho
dos astros coroando os teus cabelos,
quando, cariátide, os teus seios forem
a fonte de que mana vertical
esse universo que finito rói
a fímbria ausente ao nada ilimitado,
sustentas, ampla e diminuta já,
na curva dos teus lábios, na saliva
que entre eles petrifica as línguas tensas,
sustentas tudo nos teus dentes brancos:
o retornar do tempo, o repelir do gesto
que, aflante e alheio, te percorre toda,
senhora do destino, vida congelada,
que um toque liquefaz, salgada e fina,
em sangue espesso e negro, em mãos abertas,
em dedos afilados percutindo o espaço.

7/3/1962

 

 

A NOITE PROFUNDA

É de repente que a noite profunda chega,
como um enjoo, uma agonia, uma vertigem,
uma queda irreparável, no vácuo, no vazio,
na treva em que tudo perde significado,
em que não há gestos, palavras, sombras,
nem memórias de espectros e remorsos,
nada senão a queda repousada e lenta,
a descida tranquila, inenarravelmente amarga
de tranquilidade, indiferença, de abandono.

Repentinamente (a música tocava, a noite
física do mundo viera serena e perpassante
para ficar), a outra noite chegou
abrupta, inexorável, impiedosa,
feroz, cruel, tirânica, no entanto
extensamente e vastamente alheia,
tomando posse do que um corpo é,
posse por dentro, por fora, não deixando um vão,
um vão sequer que seja livre.

Descemos juntos por mim dentro
como se houvera algum recanto não prostituído ainda
à rígida amargura de existir sabendo
que nada há senão esta descida,
a uma hora qualquer, quando essa outra,
essa outra noite caí repentinamente,
fechando as asas negras sobre o que já negro
interiormente lhe pertence.

Tal como veio, partirá. De súbito,
o claro dia está. O sol de coisa alguma.
e é como se nada tivesse acontecido,
e o enjoo, a agonia, a vertigem, a queda,
não houvessem sido mais que imaginados.

Apenas, e é isso a alma, uma sensação
de nódoa, como de dedos, dentes, que apertassem,
mordessem algures no âmago da carne, lá onde
o âmago não existe senão como o que fica
de sentir-se a nódoa negra dessa uma outra noite.

18/05/1962

 

EXPULSÃO DA POESIA

Neste crepúsculo dos deuses que incendeia serenamente de púrpura
os massacres sem conta, e em que nada
é já significativo, porque tudo sempre significou alguma coisa
e não ressuscita ninguém (a ressurreição é
negócio individual, requerendo vítima, sepulcro emprestado,
alguns guardas, dedicadas mulheres, e vários fiéis
desinteressadamente interessados nela – enfim,
a ignomínia tratada com exemplar dignidade,
sem improvisos de última hora, nem excessivos
planejamentos ou ensaios, por modo a que
as imaginações possam com ela despersonalizar-se inteiramente
da sordidez sordidamente sórdida, etc.),
um fenómeno se verifica, observa, e que, ele, sim,
é altamente significativo.

Com efeito: ela cantou os tiranos, as revoluções proletárias,
as guerras todas de libertação nacional. Em séculos
e séculos, cantou ou chorou sempre nas
grandes horas. Ás vezes com atraso. Outras,
com adiantamento desagradável, sobretudo,
se era o caso de choro. Muitas outras vezes,
para dar-se importância, reles importância, inventou mesmo
as grandes horas. Quantas outras vezes,
se deixou matar de fome, de miséria e solidão,
para repetir com alegria infrene que
a imortalidade existe, que o céu existe,
e que a terra, só ela, a pobre terra, não existe.
Fizeram-se por esta letrada ciência os maiores sacrifícios
de vidas e papel impresso. Não comparáveis,
é certo, aos massacres habituais, em que
se molhava delicadamente a pena.

E, agora, neste delicioso crepúsculo que devia inspirá-la,
porque se cala, porque não canta nem chora?
Porque se limita a coçar o cu tranquilamente,
como prostituta honesta que se retirou da vida?
Com que então, a brincadeira acabou?
S. Excia já não serve? Já não é livre? Já não é
nem deixa de ser coisa nenhuma?
Então não era eterna, a voz da justiça,
a voz da liberdade, do mais profundamente humano,
não era imortal, mais que divina, mais
que o raio que a parta? Então
não era tudo isso e o céu também?

É que, meus amigos, a coisa está difícil.
A agonia chegou. O vómito que se não vomita.
Porque não se descobriu maneira de sair do beco:
a salvação é só de cada um, e diz respeito
a cada um, mas ninguém se salva sozinho,
nem se perde por própria culpa. E não é possível,
sem fazer cair as cotações da bolsa, ou a produção
que é necessário elevar para bater as potências capitalistas
na coexistência pacífica, que seja dado a cada um
o direito de arrastar os outros para
a sua pequena salvação pessoal.

A coisa está difícil, não é verdade, velha prostituta?
Como é difícil a paz! Como é difícil… –
Quanto veneno, quanta raiva, quanta miséria,
Quanta ignomínia, quanta falta de ressurreição
– sobretudo isso dói muito… – é preciso engolir!
E o ódio de que se tem vivido ou morrido?
Que fazer dele? Transferi-lo aos pedantes,
aos cretinos, calinos, alarves, bestas, cavalos,
safardanas, que se ocupam dos teus piolhos?
E valerá a pena? Os teus piolhos chegaram
às universidades, são classificados lá por outros que,
conscienciosamente, fazem o seu currículo de aracnídeos
ensinando aos outros insectos como evitar o DDT
e continuar comendo em paz folhas de livros.

Vai, puta! Já não enganas ninguém!
Leva contigo a tua corte de semis de tudo,
o homem macaco, a mulher eléctrica, o que voltou
da Abíssinia, o que se enforcou na
Vielle Lanterne (não confundir o lampião
com a rua), o que hipotecava casas
em Blackfriars, os que eram cegos
de um olho ou dois, o barbaças
das profecias, o soneteiro
suicida, o da picada
do espinho da rosa, ali!
(tecnicamente, um acúleo),
toda essa canalha solitária
de todas as cores e feitios,
tomando banho ou não,
fazendo a barba ou não.
Vai! Vai! Espoja-te no chão,
e pede humildemente que as crianças do mundo,
todas as crianças do mundo,
te mijem em cima.

26/5/1962

 

CLOSE READING

As flores, solícitas, desfolham-se.

Há mais de uma década, ao fim de um longo poema,
verifiquei que assim era.

Que as folhas se desfolhem não é novidade alguma.
Que o façam solícitas, tão prontas como tudo
a despetalar-se de si mesmas, assumindo
o destino implícito na frágil inserção
das próprias pétalas, eis o que constitui
peculiar observação. Mas
será que importa muito registar
analogicamente este saber de nada,
tão antigo e vulgar, que não se vê,
não se ouve, não se considera
senão como imagem de como perdemos
de boa mente, de boa vontade, ou
gostosamente, numa resignação que é alegria,
numa jovial complacência, aquilo mesmo
por que sendo, nos somos e vivemos?

Solícitas, as flores deixam-se não ser
as flores que eram pelas perdidas pétalas.
E finalmente, ao fim, no fim das contas,
ou no fim de tudo, que flores
seremos nós? Eu creio petulância,
infantilidade, gosto de confundir,
além de irreparável pretensão à delicadeza,
esta mania analógica: um triste
hábito milenário de ser por conta de outrem
o medo de não ser por conta própria.
E não é tudo ainda, porque o hábito implica
perigos de grande gravidade. Com efeito
a gente começa por comparar aceitando,
por forma oculta ou inconsciente, o mimetismo
que o comparar assimilando arrasta;
depois, a gente não distingue já
a cor de coisa alguma; e daí a crer
que somos mesmo flores solícitas
solicitas se dando a desfolhar-se,
apenas vai um passo; e, dado o passo,
jamais seremos só, como compete, homens.

As flores não se desfolham.
As flores são desfolhadas por nós, pelas brisas,
enfim pelo que for a circunstância delas.
Não é destino serem-no, porque,
para passarem de flor a fruto,
elas estão estruturadas tais
que perderem as pétalas lhes é
perfeitamente consentâneo. Se umas perdem,
e se outras secam sem as ter perdido,
não é destino esta alternativa
que nem chega a ser de tão ocasional,
de tão fortuita, e tão inexorável
como morrer fecundo ou estéril, morrendo.
Se o destino fosse apenas isto,
nada haveria que mecanicamente não fosse
um destino fatal.

Solícitas as flores. Destino é isto,
mas não de flores. A escolha obrigatória,
mas livre escolha entre dois passos que
são já milhares de passos livremente dados
e limitadamente irreversíveis. Destino é não sabermos
se aquela escolha marca o transmutar
de tantos passos noutro ser diverso.
Destino é suspeitar, temer, que possa
irreparavelmente ser-se essa mudança.
E dado o passo, quando tal soubermos,
não seremos sequer os mesmos já
para sabermos, pois que o que nos fora
esse saber Ião longo de chegar-se ali
deixou de ser, e vai recomeçar
como do nada um novo e tentativo
saber aflito que, e todavia,
sem ser perdido aquele não recomeçara.
E que não é sequer um recomeço:
começa onde o outro se acabou, se visto
ao nível de se olharem flores
perdendo as pétalas no fim do tempo;
mas, se visto ao nível do dever
obrigatório de escolher, começa
como um salto no espaço para uma outra órbita.

Isto de órbita é porém um aspecto
da mesma mania analógica: o átomo
como sistema solar, etc., etc.,
tal qual havia o microcosmo, e o macro,
e os espíritos vagando no intervalo.
Quando, ah quando, os homens deixarão
de crer em tudo, de exigir que tudo
seja como tudo? Se tudo é como tudo,
o nada é como nada? Mas tautológico
é só o medo, o medo de escolher
entre duas coisas, dois entes, dois momentos,
duas coincidências diversas de milhares de instantes,
de que escolhê-las se nos faz o tempo,
tempo que foge no ampliar-se o espaço.

27/5/1962

 

A MISÉRIA DAS PALAVRAS

Não: não me falem assim na miséria, nos pobres,
Na liberdade.

Se a miséria e a pobreza
Fossem o vómito que deviam ser posto em palavras,
A imaginação possuída e vomitada que deviam ser,
Viria a liberdade por acréscimo,
Sem palavras, sem gestos, sem delíquios.

Assim, apenas se fala do que se não fala,
Apenas se vive do que não se vive,
Apenas liberdade é uma miséria
Sem nome, sem futuro, sem memória.

E a miséria é isso: não imaginar
O nome que transforma a ideia em coisa,
A coisa que transforma o ser em vida,
A vida que transforma a língua em algo mais
Que o falar por falar.

Falem. Mas não comigo. E sobretudo
Sejam miseráveis, e pobres, sejam escravos,
No silêncio que à linguagem faz
Imaginar-se mais do que o próprio mundo.

5/8/1962

 

REQUIEM PARA O MUNDO PERDIDO
É noite, eu sei. Mas como é tanta a noite
que nada resta humano entre os mortais?
Como tão negra e espessa, tão nocturna
ainda se esconde em luz do sol e em estrelas,
ainda a atravessa, embora fluído, o luar?
Como vivemos e porquê, se as sombras
nem sequer se projectam, devoradas
pelo restar das coisas insensíveis
que são vazio de órbitas sem astros
entrelaçados, virtuais, não sendo?
Porquê e para quê, se nada somos,
se nada mais sonhamos de completo
amor que a tudo mova e nos refaça?
Humanos éramos quando o desejo
nos dava a angústia de não sermos já
mais do que as coisas resistindo ao espanto.
Palavras inda são fímbria de sol,
de estrelas e planetas, são memória
da integridade que só espera nelas
o sopro derradeiro que a dissolva.
Nesta noite do mundo, nada resta
de humano e de sensível; nada resta
que tempo seja e que limite o espaço,
precisamente quando o tempo é espaço
que em si mesmo se move limitado.
Nocturna a noite é tão trans-noite que
nada somos nem fomos nem seremos
daquela falsa bem-aventurança
de quando o sofrimento nos doía
lá onde a dor era uma imagem cénica
no espelho embaciado que partíamos
sem que nenhum dos cacos rebrilhasse,
imagem que eram sem vidraça ou estanho.
Ali como a noite é tanta, como é noite
o tanto que seríamos felizes!
Mas não resta mais nada; instante a instante,
mortais mas não de humanos mais que efígie
parada, envelhecendo. E breves são
os toques delicados, a violência
de que palpita o triturar da carne.
Vento perpassa arrepiando efémera
a escassa pele tão crestada pela
secura em que águas se atomizam.
Falávamos de inferno. Acaso ainda é memória de um sentido? Acaso a mú-
sica ressoa no deserto mi-
croscópico e sem cor, gelado e quente?
Nem pegajosa ao menos se demora
a noite. É noite, eu sei. Nunca pensei
que o fosse tanto, tanto, que nem noite
— das órbitas vazias de partículas
anónimas voando em luz extinta —
obscura, inominada, noturnal,
zodíaco de meses sem figura.
E debruçado, pensativo, um rosto
sem traços ou feiçõs tem noite dentro
e fora do perfil, fora da linha
em que uma testa, o supercílio, as ór-
bitas, nariz, o recurvar dos lábios,
o queixo, linha são contínua e pura
de uma pureza que não significa.
Nem mesmo, noite em noite, esse perfil
se vê. Quem o veria? Com que olhar
e com que luz na treva iluminada?
Morramos de estar mortos, esvaindo
em pura perda que não existe
entre anjos que não há e os viventes
que como nós não vivem. Como pedras
sejamos, transmutáveis no destino
de raios que matéria se transformam
na perda em espaço do passar do tempo.
Pedras amantes e nocturnas que
se chocam como seixos nas espumas
do mar que os lava. Mas, se humanidade
subitamente vier de tanta noite,
de outrém será que não do espelho negro
de humano se não ser entre os mortais.

9-10/11/1962

 

NOÇÕES DE LINGUÍSTICA

Fumo névoa emanação
da boca: o dom da fala
o sentido sonoro
o gesto verbal
fumo da boca
exacto e vago
invisível
na China
apenas
a palavra.

*

Sinónimo
analogia
sentido paralelo
e o fumo — só na China —
impresso e desenhado
é som (conforme)
e conformado.

*

Dor uivo silêncio
muda mão
crispada
imagem
fumo na cabeça
nos olhos
confusa névoa
clarão
(na China não)

*
Como que tranquilo escreves e pontuas
frases consentâneas com ideias
que frases consentâneas com
ideias que frases consentâneas
com ideias que frases con-
o fumo foi transcrito.

*
A China parece que procedeu à reforma do seu alfabeto (dos jornais)
o vento varreu o fumo (dos dicionários)
e nós tão sânscritos tão gregos tão romanos
tão fonéticos morfológicos sintácticos
e sintagmáticos (que é mais)
sem ideogramas para o fumo
(das chaminés dos campos de concentração)
na ponta da língua
(de fogo dos foguetes nucleares)
que fazer?

*
Ideogramemos.

11/11/1962

 

A NAVE DE ALCOBAÇA

Vazia, vertical, de pedra branca e fria,
longa de luz e linhas, do silêncio
a arcada sucessiva, madrugada
mortal da eternidade, vácuo puro
do espaço preenchido, pontiaguda
como se transparência cristalina
dos céus harmónicos, espessa, côncava
de rectas concreção, ar retirado
ao tremor último da carne viva,
pedra não-pedra que em pilar’s se amarra
em feixes de brancura, geometria
do espírito provável, proporção
da essência tripartida, ideograma
da muda imensidão que se contrai
na perspectiva humana. Ambulatório
da expectação tranquila.
Nave e cetro,
e sepulcral resíduo, tempestade
suspensa e transferida. Rosa e tempo.
Escada horizontal. Cilindro curvo.
Exemplo e manifesto. Paz e forma
do abstracto e do concreto.
Hierarquia
de uma outra vida sobre a terra. Gesto
de pedra branca e fria, sem limites
por dentro dos limites. Esperança
vazia e vertical. Humanidade.

27/11/1962

 

Sobre O Físico Prodigioso

[BIBLIOGRAFIA CRÍTICA – 1]

Escolhemos a única novela de Jorge de Sena para inaugurar a série que listará a bibliografia crítica sobre os muitos veios de sua obra.

 

Teses e Dissertações:
• SANTOS, Gilda. Uma alquimia de ressonâncias: O Físico Prodigioso de Jorge Sena, Rio de Janeiro: UFRJ, 1989 (Tese de Doutorado)

• AMORIM, Orlando Nunes de. O Físico Prodigioso, a novela poética de Jorge de Sena. Araraquara, UNESP /Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena, 1996 (Dissertação de Mestrado, USP, 1993)

• AZEVEDO, Orlanda de. As Metamorfoses do Corpo e a Problematização da Identidade – em O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena e Orlando, de Virginia Woolf. Lisboa: Colibri, 2003 (Dissertação de Mestrado, Univ. de Lisboa, 2001)

• SOARES, Marcelo Pacheco. Espelhos deformantes: a escrita diabólica de Jorge de Sena em O Físico Prodigioso, Rio de Janeiro: UFRJ, 2007 (Dissertação de Mestrado)

• DOSTALOVA, Alena. Concepção dualista em O Físico Prodigioso de Jorge de Sena incluindo a tradução panorâmica da obra em foco. Magisterska diplomova prace. Vedouci prace: Mgr. Silvie Špankova, 2008.

 

Textos em livros e periódicos:
1. SEIXO, Maria Alzira, org. O Corpo e os signos – ensaios sobre O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. Lisboa: Comunicação, 1990 (o livro é integralmente dedicado à novela)

2. ALVES, Maria Theresa Abelha. Jorge de Sena. O Físico Prodigioso. Colóquio/Letras, Lisboa, nº 175, p. 193-195, set./dez.2010 (recensão)

3. AMORIM, Orlando Nunes de. Entre a ficção e a poesia: sobre O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena. Convergência Lusíada, Rio de Janeiro, nº. 15, p. 153-163, 1998

4. AMORIM, Orlando Nunes de. O Físico Prodigioso no tecido fáustico. In: SANTOS, Gilda, org. Jorge de Sena em rotas entrecruzadas. Lisboa: Cosmos, 1999, p. 267-274.

5. AMORIM, Orlando Nunes de. Um belo desconhecido entre dois tempos: O Físico Prodigioso e as aventuras cavaleirescas. In: SANTOS, Gilda, org. Jorge de Sena: ressonâncias e cinqüenta poemas. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006, p. 98-109.

6. AZEVEDO, Orlanda de. Do mito do andrógino à figura cristológica: as fronteiras do corpo em O Físico Prodigioso (1966), de Jorge de Sena, e Orlando (1921) de Virginia Woolf. Actas do IV Congresso Internacional da Associação Portuguesa de Literatura Comparada, Univ. de Évora, mai 2001. Ver: http://www.eventos.uevora.pt/comparada/VolumeII/DO%20MITO%20DO%20ANDROGINO%20A%20FIGURA%20CRISTOLOGICA.pdf

7. AZEVEDO, Orlanda de. A imagem do corpo próprio: do mito de Narciso à ‘fase do espelho’ em O Físico Prodigioso (1966), de Jorge de Sena. Textos e pretextos – O Espelho, Lisboa, nº 2, p. 3-8, 2003.

8. CAMPOS, Luciana de. A teia de Aracne ou a paixão fantástica em O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. Boletim do Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena, Araraquara, nº 4, p. 101-108, jul/dez. 1993.

9. COSTA, Horácio. ‘Post Tenebras Spero Lucem’: Texto-Vida e Alegoria em O Físico Prodigioso de Jorge de Sena”. Revista USP, São Paulo, nº 10, p.191-200, 1991. Reprod. em Colóquio/Letras, Lisboa, nº125-126, p. 105-18, jul./dez.1992. Reprod. em FAGUNDES, F. C. & ORNELAS, J.N., org. Jorge de Sena:o homem que sempre foi. Lisboa: ICALP, 1992, p.169-80.

10. DURAND, Alain-Philippe, Le Monde d’ O Físico Prodigioso selon Girard, Romance Notes, Chapel Hill, nº 37.2, p. 207-16, Winter 1997

11. EIRAS, Pedro. Notas sobre O Físico Prodigioso – algumas figuras. Metamorfoses, Rio de Janeiro, nº 9, p. 37-54, 2008.

12. FAGUNDES, Francisco Cota. O artista com um malho: uma leitura d’O Físico Prodigioso. In: WILLIAMS, F.G. & SHARRER, H.L. Studies on Jorge de Sena. Santa Barbara: UCSB/Bandanna Books, 1981 p. 133-141

13. FARIA, Duarte. O Físico Prodigioso (recensão). Colóquio/Letras, Lisboa, nº 44, p. 84, jul. 1978. Reprod. em LISBOA, E., org. Estudos sobre Jorge de Sena. Lisboa: IN-CM, 1984 p. 377-9

14. FAZENDA LOURENÇO, Jorge. As rosas do desejado: sobre O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. Convergência Lusíada, Rio de Janeiro, nº. 9, p. 109-27, 1992. Reprod. em —. O brilho dos sinais- Estudos sobre Jorge de Sena. Porto: Caixotim, 2002 p. 125-151

15. GIUDICELLI, Michelle. Jorge de Sena: O Físico Prodigioso ou du bon usage du démon. Les Langues Néo-Latines, Paris, nº 271, p. 83-91, 1989

16. GIUDICELLI, Michelle. Le Physicien prodigieux: une érotique de la libération. Arquivos do Centro Cultural Português. Lisboa/Paris, nº 32, p.289-301, 1993

17. HARLAND, Mike. Jorge de Sena on Cinema: some further insights into the genesis of O Fisico Prodigioso?. Portuguese Studies, Londres, v.20, nº 1, p. 169-185, Set. 2004

18. HARLAND, Mike. Metamorfose, transformação, individuação; aspectos junguianos de O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. Metamorfoses, Rio de Janeiro, nº 6, p. 243-48, 2005.

19. LARANJINHA, Ana Sofia. O Eterno Retorno em O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. Intercâmbio, Porto, nº 4, p. 234-248, 1993.

20. LOPES, Maria de Freitas. Ser é estar – sobre os sentidos (do corpo) em O Físico Prodigioso. In: SEIXO, M. A., org. O Corpo e os signos – ensaios sobre O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. Lisboa: Comunicação, 1990 p. 43-61

21. LOURENÇO, Eduardo. Jorge de Sena e o demoníaco. O Tempo e o Modo, Lisboa, nº 59 (esp.), p. 324-31, abr. 1968. Reprod. em LISBOA, E., org. Estudos sobre Jorge de Sena. Lisboa: IN-CM, 1984 p. 49-59. Reprod. em —. O Canto do Signo: Existência e Literatura. Lisboa: Presença, 1994 p. 172-79.

22. LUKASZYK, Ewa. “Sangue e leite. A transmutação andrógina n’ O Físico Prodigioso de Jorge de Sena” , Estudios Hispánicos, XXI, 2013, p. 121-131. 

23. MARINHO, Maria de Fátima. O Físico Prodigioso: o outro e o mesmo. In: WILLIAMS, F.G. & SHARRER, H.L. Studies on Jorge de Sena. Santa Barbara: UCSB/ Bandanna Books, 1981 p. 142-151

24. MUNIZ, Márcio R.C. Reiteração e desconstrução de um modelo: a imagem de Cristo n’A Demanda do Santo Graal e em O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena. Via Atlântica, São Paulo, v. 7, p. 99-109, 2004.

25. PEREIRA, Paulo Alexandre. Tradição e reescrita em O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. In: Actas do VI Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas, Rio de Janeiro, 1999.

26. ROTHWELL, Phillip. Lacanian desire and the absent sexual relationship in Jorge de Sena’s O físico prodigioso. In: The Journal of Romance Studies, Volume 11, Number 3, Winter 2011 , pp. 53-63(11)

27. SANTOS, Gilda. O Físico Prodigioso: um roteiro de leitura. Revista de Cultura UFES, Vitória, nº 34, p.5-13, 1985

28. SANTOS, Gilda. A mulher-pássaro em O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. Cadernos (1) do 3º Seminário Nacional Mulher e Literatura. Florianópolis, Out. 1989

29. SANTOS, Gilda. A recriada memória de vozes d’antanho (ou de como Jorge de Sena reescreve cantares da tradição ibérica na novela O Físico Prodigioso). Literatura e Memória Cultural – Anais do II Congresso ABRALIC, Belo Horizonte, v.2, p.461-65, 1991.

30. SANTOS, Gilda. Para invocar o Demónio, à Luz d’ O Físico Prodigioso. Estudos Portugueses e Africanos, Campinas, nº 24, p. 19-34, jul/dez 1994.

31. SANTOS, Gilda. Entre o atemporal e o circunstancial. In: SENA, Jorge de. O Físico Prodigioso. Rio de Janeiro, 7Letras, 2009. p. 7-14 (prefácio)

32. SARMENTO-PANTOJA, Tânia. Arcanos da Resistência: Rastros Subterrâneos do Surrealismo n’ O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. Revista de Letras, Vol. 50, No. 1, Vanguardas literárias do século XX / Literary avant-gardes of the twentieth century (Janeiro/Junho 2010), pp. 111-128.

33. SEIXO, Maria Alzira. O corpo e os signos. In: —, org. O Corpo e os signos – ensaios sobre O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. Lisboa: Comunicação, 1990 p. 15-22

34. SHARRER, Harvey L. Temas e motivos medievais em O Físico Prodigioso. In: SEIXO, M. A., org. O Corpo e os signos – ensaios sobre O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. Lisboa: Comunicação, 1990 p. 85-98

35. SOARES, Marcelo Pacheco. O amor em O Físico Prodigioso sob reflexos camonianos. Metamorfoses, Rio de Janeiro, nº 9, p. 55-63, 2008.

36. SOUSA, Francisco F. Abordagem: espaços. In: SEIXO, M. A., org. O Corpo e os signos – ensaios sobre O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. Lisboa: Comunicação, 1990 p. 23-42

37. STEGAGNO PICCHIO, Luciana. Au nom du diable. In: SENA, Jorge. Le physicien prodigieux. Paris: Metailié, 1985 p. 119-24 Reprod. como «Nel nome del diavolo» em SENA, Jorge. Il medico prodigioso. Milano: Feltrinelli, 1987 p.5-11

38. STEGAGNO PICCHIO, Luciana. Ainda O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. In: BRITO, OLIVEIRA, PIRES & MARTELO, org. Sentido que a vida faz – Estudos para Óscar Lopes. Porto: Campo das Letras, 1997 p. 347-50

39. VALENTIM, Jorge. “Jorge de Sena e o seu canto de exílio”. In: F.Cristóvão, M. L. Ferraz & A. Carvalho, org.. Nacionalismo e Regionalismo nas Literaturas Lusófonas. Lisbon: Edições Cosmos, 1997. p. 497-5

40. VESSELS, Gary. A simultaneidade em O Físico Prodigioso. In: SEIXO, M. A., org. O Corpo e os signos – ensaios sobre O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. Lisboa: Comunicação, 1990 p. 63-68

41. WILLIAMS, Frederick G. Dualidade, emparelhamento e contraste – estruturando a realidade em O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. In: SEIXO, M. A., org. O Corpo e os signos – ensaios sobre O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. Lisboa: Comunicação, 1990 p. 69-83

 

Na web:

E-nigma: Revista Electrónica de Ficção Científica e Fantástico. O físico prodigioso, por Jorge de Sena. Uma crítica de Jorge Candeias.

Citador. Opinião de Leitura. O físico prodigioso.

Rascunho: O jornal de literatura do Brasil. Ensaios e Resenas. O diabo enamorado

Recanto das Letras. Textos. O físico e o Autor prodigioso – A genialidade de Jorge de Sena.

Jornal do Brasil. Cultura. Livro de Jorge de Sena é uma caça as bruxas em Portugal.

Vimeo. O Físico Prodigioso (1) e (2). Encenação de João Mota na Escola Superior de Teatro e Cinema, de Lisboa, do texto de Jorge de Sena, com alunos do 3º Ano dos Cursos de Teatro. Direcção Musical e sonoplastia ao vivo de Domingos Morais.