Correspondência inédita com Luciana Stegagno Picchio e Carlo Vittorio Cattaneo

As 4 cartas inéditas a seguir transcritas — reunindo como interlocutores Jorge de Sena, Luciana Stegagno Picchio e Carlo Vittorio Cattaneo (este apenas como destinatário) — formam um conjunto homogêneo que tem como elo o primeiro trabalho acadêmico sobre a obra seniana: Una poesia di Jorge de Sena: Studio di strutture, tese de licenciatura defendida em 1970 por Cattaneo, poeta e futuro tradutor de Sena, na Università degli Studi di Roma, sob orientação de Luciana.

Escritas entre fevereiro de 1970 e fevereiro de 1971, revelam-nos, da parte de Sena, dados sobre os últimos tempos que passou no Wisconsin e os primeiros que passou na Califórnia, sua intensa e constante produção, seus projetos, seus problemas de saúde, seu modo de ler, atento e minucioso, do referido ensaio de Cattaneo, centrado no poema "Imenso de searas…", de Pedra Filosofal; da parte de Luciana, também há problemas de saúde a superar, pesado trabalho acadêmico e burocrático a conduzir, questões internas na sua universidade a contornar, mas, sobretudo, a ânsia de muito mais vir a fazer, inclusive com a colaboração do bom amigo Sena — o que os anos seguintes confirmarão.

Luciana e Jorge conheceram-se pessoalmente em agosto de 1959, no famoso IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, promovido pela Universidade da Bahia, e desde então tornaram-se amigos. Dez anos depois, Sena divide com Luiz Francisco Rebello as badanas da edição portuguesa da pioneira História do Teatro Português, assinada por Luciana e editada pela Portugália. Além de manter o carteio, Sena não deixava de visitar o casal Picchio em suas viagens à Europa, estreitando o fértil diálogo intelectual. Em 1976, é Luciana quem se desloca a Santa Barbara para um ciclo de conferências, a convite de Sena. Pela mesma altura, Luciana integra o grupo de amigos italianos que propõe Sena ao Prêmio de Poesia Etna-Taormina, a ele atribuído em 1977. Após o prematuro falecimento deste, aceitando convites de Maria de Lourdes Belchior, será ela Visiting Professor em Santa Barbara, em períodos de 1980, 1981 e 1983. Em memória do amigo, deve-se a Luciana a organização do primoroso número dos Quaderni Portoghesi dedicado a Sena, datado de 1983. E assina ainda uma pouco falada coletânea de poemas, que ela própria escreveu em cenário californiano, evocando o amigo que partira — La Terra dei Lotofagi – poesie con note (Milão, All'insegna del pesce d'oro,1993).

A correspondência abaixo, verdadeira prenda a nossos leitores, deve-se à generosa atenção de João Nuno Alçada, que a "descobriu", e à família de Luciana Stegagno Picchio, que, muito gentilmente, autorizou sua reprodução, bem como à consabida aquiescência de Mécia. A todos, imensamente agradecemos.

 

Madison, 8 de Fevereiro de 1970

Caríssima Luciana

Nao respondi logo à sua carta, porque o trabalho tem sido muitíssimo, as arrelias algumas, e a saúde pouca (em verdade, a um ano de diferença de ter sido em Lisboa operado das pedras da vesícula, acabo de descobrir-me uma incipiente e prometedora úlcera no estômago, após longas suspeitas minhas de que o meu mal-estar era excessivo para só adaptação a condições normais – pelo que eis-me de volta a dieta ainda mais rigorosa e selecta que a que tinha antes..»). Mas respondi, entretanto recebida, à carta do seu aluno Carlo Cattaneo, acerca de uma possível tese a meu respeito (mais exactamente, da minha poesia). Nela fiz algumas observações, e manifestei o meu evidente agrado (não se pode ser indiferente a estas coisas). O que, se a carta chegou, por certo V. terá visto. A V., porém, é que me cabe agradecer a ideia – e gratamente lha agradeço.

Desde que vim da Europa que a minha vida tem sido um inferno de trabalho, e também de algumas daquelas pequenas arrelias de que V. teve longa experiencia universitária. Embora seja catedrático do Departamento de Espanhol e Português, os estudos de Português continuam a ser um pequeno clube dos fundadores, que tudo fazem e dispõem como lhes apraz – e os meus antecessores ou estavam de visita e não se ralavam, ou não estavam, e aguentaram menos tempo do que eu (vai para cinco anos já que aqui estamos). A gente de Espanhol, muita da qual é ciente da situação, ou alinha com o chefe de departamento que é um modelo de jesuitíca doçura e paternalística ditadura, ou fica à espera que eu ponha a mão no fogo por conta das retaliações entre eles todos… O que evidentemente nao farei. Estou decidido a ir-me embora daqui. Tenho em vista uma oferta da Califórnia (melhor clima mas mais longe ainda da Europa), e concorri documentalmente à vaga da cátedra de Português em Amsterdam, anunciada urbi et orbi. Não sei se terei alguma possibilidade. Devo dizer-lhe que, entre os nomes que citei como comprovantes possíveis de quem sou, dei o seu, e peço-lhe desculpa de nao ter havido tempo para pedir-lhe a licença prévia que se devia.

Nao cheguei a voltar ao Leste americano, desde que cheguei da Europa há quase um ano. Apenas fui a três lugares aonde tinha de dar conferências, e eram para o outro lado (St.Louis, Denver, e New Orleans). Mas, indo para aquelas bandas, não deixarei de visitar o seu irmão. Diga-lhe que, aqui, fui nomeado catedrático da Literatura Comparada, para dar (a partir do próximo ano, se cá estiver…) um curso sobre Maneirismo e Barroco.

Peregrinatio tem posto em aflições os críticos portugueses, que agora estão em maré de considerar-me génio, mas não conseguem perceber porquê, e muito menos naquele livro. Estão para sair o 3o volume camoniano, e o das traduções de Cavafy, em que tenho trabalhado intermitentemente desde 1953. Está também para sair o das minhas traduções desde Arquíloco até ao fim do século XIX, uma montanha de mais de 60 poetas e cerca de 200 poemas, em que a Itália ocupa lugar largo. Seguir-se-á o da poesia moderna de várias partes, que sempre também largamente traduzi.

Recomende-me a Seu Marido, e ao Tavani (cujo repertório da métrica medieval nunca recebi). Como ficou, se já está definitivamente, resolvida a vossa situação catedrática? Se eu fôr para Amsterdam, faremos um eixo com Roma…

As mais afectuosas lembranças e um abraço muito amigo do sempre seu

Jorge de Sena

 

 


Santa Barbara, 5 de Janeiro de 1971

Exmo Senhor
Dr. Carlo Vittorio Cattaneo

Meu caro Amigo

Os melhores augúrios para 1971, trouxe-me ontem o correio, com a sua tese que muitíssimo e reconhecidamente lhe agradeço por duas razões principais: havê-la feito, e por ser excelente. Por ela — e não por mim — lhe dou os parabéns (extensivos também à Professora Luciana Stegagno Picchio, minha boa Amiga).  Não creio sinceramente que, em vida minha, fàcilmente eu veja repetir-se o seu feito de analisar tão cuidadosamente, e com tanta inteligência, um poema meu: a crítica portuguesa nao se dá a esses trabalhos de rigor, não sou grata figura das universidades aonde tais coisas lá se poderiam fazer (e não fazem), e o resto dos lusófilos está à espera de que eu morra… para continuar a ocupar-se da mediocridade lusitana à escala deles. E, nas Américas, não sou suficientemente brasileiro para interessar os meus ilustres colegas que aliás evitam poesia como o diabo a cruz. Ontem mesmo estive a ler com a maior atenção o seu estudo, e cuido de escrever-lhe já hoje – sem deixar amadurecer um pouco mais as minhas ideias — , para que as aulas do novo trimestre, que amanhã começam, me não protelem o agradecimento e o comentário que me cumpre fazer.

Houve tempo em que gostei desse poema que, depois, por comparação com outros ulteriores, passei a achar um pouco tosco e imaturo – razão pela qual, ao saber da selecção, me lembro de haver dito que outros poderiam ser mais fecundos para a análise. A sua análise, porém, mostrou-me que ele é muito mais "sólido" de estrutura do que eu havia pensado sem demorar-me em observá-lo — e o modo seguro como o decompõe não é dos menores méritos do seu estudo. As simetrias, os paralelismos, as recorrências, foram admiravelmente postas em relevo, e não poderiam tê-lo sido melhor. Por outro lado, a forma como o método foi aplicado, gradativamente, permite uma integração sucessiva dos círculos de significação, em que melhor ressaltam, ampliadas ou modificadas, as ressonâncias semânticas. Tudo isto lhe digo, para mostrar-lhe como apreciei o método e a sua aplicação, e como considerei excepcional a qualidade da análise. Posto isto, tenho discrepâncias de pormenor, que quero comunicar-lhe, não para diminuir o seu trabalho, mas para contribuir, se posso, para a exactidão dele. Note que eu, se disse que não sei o que os versos dizem de mim, não disse que não sabia, o que não dizem…

Vamos por partes. Compreendi perfeitamente a intenção e o alcance dos capítulos introdutórios, subordinados ao fim de explicar de quem se tratava: e mesmo me pareceu que vão bem mais longe do que essa mera limitação com que os define na sua carta. A tradução é excelente. Apenas nela creio que há um pequeno lapso: no v. 45 traduziu V. tremeluz por tremola. Tratava-se do verbo tremeluzir, que raramente se conjuga (= brilhar com luz trémula, e não apenas "tremer"), e de que em geral só se usa, além do infinitivo, o p. presente tremeluzindo. Parece-me que essa luz trémula posta na garganta fez falta para enriquecer a sua interpretação. Depois, até à p. 92, não tenho senão louvores a dar pela subtileza de tudo. Na p. 92, creio que a "vida inteira", no contexto, não é a "vita stessa del poeta", mas, como habitualmente significa,"a humanidade como ser vivente". Daí que se faça a transição para o que, na humanidade, limita essa humanidade: a teimosia, a vacuidade honesta, etc. E creio que é, neste ponto, que nos separamos. Verá porquê. A p.103,
fala V. de "disgustosa immoralitá". Não há tal. O que o poema pretende condenar é que existam todos os constrangimentos de uma moralidade normativa que me desgosta. O que ninguém ousou dizer é que não há que dizer senão o uivo animal (comento a p.8). Parece-me muito boa a aproximaçao de marmóreo do v. 35 e dos deuses do v. 39. Mas, naquele verso, creio que existe uma específica progressão de lunar, que paraleliza o "desolado" do v. 31, para marmóreo (figura sem vida, estátua, e, irònicamente, evocação de um epíteto muito comum para as formas à luz da lua), logo cortada mas ampliada pelo "prosaico" pardacento (que é a cor de uma paisagem lunar), deste para infausto (transformando em "aziago", "infeliz", o colorido triste de "pardacento") e para humano – o céu humano, infausto, pardacento, marmóreo (= pétreo), lunar, que esmaga o uivo desolado do animal preso. Assim, se o final de p. 30 e a p. 31 merecem a minha absoluta concordância, o mesmo não sucede com o parágrafo que começa "C'è la convinzione…" (p. 128). É assim que também não posso concordar com 3.7 (p. 136-39). Os deuses e as vestais são usados satiricamente, à luz do que imediatamente os precede — e por isso, considerando o que fica dito, creio que reconhecerá que o achou estranho por tê-lo tomado a sério. "Vestal", em português, num contexto de sugestão sexual, é já por si termo irónico. Se eles e elas (ou eles, e eles em sentido genérico, já que "vestais", ironicamente, se usa para os dois sexos), os símbolos da pureza e do angelismo e os que pretendem imitá-los na vida, "gritam de horror", numa falsa pudicicia, note que o fazem com o sexo a humedecer-se – com o que rigorosamente eu não quiz sugerir polução ou ejaculação, mas a ironia de se horrorizarem (fingindo), quando precisamente o sexo se lhes humedece (e não "inunda") daquela humidade que a excitação ou atracção sexual faz que o sexo se humedeça… apenas em preparação premonitória. Não é, pois, possível que os deuses sejam a poesia e as vestais o poeta. Trata-se de uma crítica da hipocrisia sexual, e não da possibilidade ou impossibilidade de comunicação. Daqui resulta que as palavras foram criadas para prender o homem, e nao para libertá-lo, a menos que a poesia as refaça inteiramente para dizer do uivo último.

Suponho que, se aceitar a razoabilidade destas minhas sugestões, a parte 4, sobre os vs. 43—56, que é excelente, encontrará ainda maior possibilidade de análise, para além da admirável qualidade em que se coloca. Porque não é o artista quem é esmagado pelo bicho, mas o poeta convencional que ao bicho e ao seu uivo se recuse.

Como lhe disse, tudo isto lhe digo pelo enorme e grato interesse que a sua tese me suscitou, e pela alta qualidade da análise do meu poema. Se quizer: a sua análise foi que me deu asas para discordar aonde me parece que se não trata de divergência, mas quiçá da circunstância de a imagem dos vermes e das sugestões de animalidade o terem focalmente atraido. E isso pode ser deficiência do poema, dado o meu gosto de certa ambiguidade e de imagens violentas que se sobrelevam quiçá demasiadamente. Os vermes rolando-se animalmente sao uma imagem dura, acrescentada pelo "lixo podre". É uma ambiguidade – todos nós, por repressão civilizacional, recuamos ante a sujidade animal, mas todos nós somos isso mesmo, quer gostemos ou não, e não há razão para não aceitar que isso nao é agradável nem desagradável. Além do mais, o "lixo " é uma criação da civilização (que quanto mais desenvolvida mais lixo faz) – de modo que, se ele é podre, apodreceu das repressões civilizacionais. Não pense que escrevi agora de propósito (escrevi há tempos) o poema inédito que adiante lhe transcrevo e explica tudo isto melhor do que faço agora:

Quem diz de amor fazer que os actos não são belos,
que sabe ou sonha de beleza? Quem
sente que suja ou é sujado, por fazê-los,
que goza de si mesmo e com alguém ?

Só não é belo o que se não deseja
ou que ao nosso desejo mal responde.
E suja ou é sujado que não seja
feito do ardor que se não nega ou esconde.

Que gestos há mais belos que os do sexo?
Que corpo belo é menos belo em movimento ?
E que movor-se um corpo no de um outro o amplexo
não é dos corpos o mais puro intento ?

Olhos se fechem não para não ver,
mas para o corpo ver o que eles não;
e no silêncio se ouça o só ranger
da carne que é da carne a só razão. [1]

Gostaria muito de ver a sua tese publicada [2], e espero ter contribuído para o entusiasmo que pôs nela. Creia que, em tantos anos de ler coisas inteligentes, ou malignas, a meu respeito, raras vezes me foi dado ler, sobre mim, um texto tão seriamente e tão aprofundadamente escrito. E, de um ponto de vista metodológico que para mim o mais importante, nunca. A sua tradução faz-me pensar no que seriam outros poemas meus traduzidos por si. Não quero, porém, influi-lo a este respeito – e sou um péssimo propagandista de mim mesmo, que sempre se sente preso para solicitar o interesse alheio. E sobretudo quando o meu prazer seria maior – como é o caso da Itália, já que ser-se traduzido em francês ou em inglês não adianta nada a um poeta português, porque só será lido pelos que leriam o original, e esses países não acreditam que haja poetas noutras línguas, particularmente em Portugal. Se o próprio Camões ainda nao é conhecido, que podem esperar os outros?

Transmita as minhas melhores lembranças aos Profs. Tavani e Luciana. A ela diga que vou escrever-lhe. Gratamente lhe retribuo os seus desejos de Feliz Ano Novo. E receba o mais grato abraço do sempre seu

Jorge de Sena

PS – Se receber para o verão uma bolsa que solicitei, tenciono ir à Europa e sem dúvida a Itália (que, como esperava, me encantou na minha veloz visita, a primeira, há dois anos). Conto ter então o prazer de conhecê-lo pessoalmente. E, é óbvio, fico à espera, dos seus comentários às minhas observações. Que livros meus não tem, a ver quais terei eu que possa oferecer-lhe?
Repare na minha nova morada pessoal, visto que, há meses, mudei para a Universidade da Califórnia (Santa Barbara).

 

 

Roma, 12 de Janeiro de 1971

Meu caro Amigo

o meu querido aluno, agora licenciado, Carlo Vittorio Cattaneo, trouxe-me ontem a sua carta de 5 de Janeiro. Ma perché far tanta fatica a scrivere in portoghese quando Lei sa benissimo l'italiano?

Dunque: ho saputo da Cattaneo del Suo nuovo indirizzo: Mudança definitiva o provvisoria? Sono contenta comunque che Lei stia finalmente al caldo.

Io sono stata molto ammalata, mi hanno squartato e ricucito e adesso torno, pian piano, alla vita e al mio lavoro. La cattedra di Lingua e letteratura portoghese presso l'Università di Roma finalmente istituita e attribuitami a partire dal 1o. novembre 1970 mi libera finalmente dalla provvisorietà. Pisa è rimasta sguarnita; altre tre cattedre sono però state istituite in aggiunte a quella del nostro beneamato Rossi (Venezia, Lingue, Tavani – Bari Lingue, Macchi, Roma Lettere, io – Napoli, Orientale, Rossi), In quattro riusciremo a fare di più per la "difusão da cultura portuguesa na Italia e no mundo?" Lo spero proprio.

E cominciamo da noi. Sono contenta che in linea di massima la tesi di Cattaneo Le sia piaciuta. Anche a me, che l'ho seguito e in un certo senso, provocato, pare un lavoro serio e degno di ogni rispetto. E grazie, per quanto mi riguarda, della Sua accettazione. Adesso besognerebbe pubblicare il tutto. Ma, io ho l'impressione che sarebbe meglio farlo in una lingua diversa dall'italiano. O inglese o portoghese. Se lo pubblicassimo in italiano andrebbe a finire o in una rivista generica qui (che pretenderebbe molti tagli, fino a ridurre ad un massimo di 30 pagine il lavoro), o in una rivista di poca diffusione e di scarsa rilevanza internazionale come (mi dispiace dirlo, ma è la verità) gli "Estudos Italianos em Portugal".

Se lo traducessimo in portoghes potremmo tentare o una rivista portoghese, o una rivista americana (la "Revista ibero-americana" di Austin, Texas? o qualche cosa di simile). Che cosa ne pensa Lei? Si potrebbe fare anche un libretto autonomo, da dare alla Portugalia o a casa editrice affine. Quali sono i suoi suggerimenti, anche a proposito dell'eventuale traduzione?

Lasciando a Lei di risolvere questo problema, se Dio mi dà grazia e salute, io mi occi però prossimamente di trovare un Editore qui in Italia per una antologia poetica Sua fatta eventualmente da Cattaneo, o da Cattaneo e me a quattro mani. Sarebbe una bellissima cosa.

Per il resto… tiriamo avanti. Qui mi trovo completamente sommersa dal lavoro: anche burocratico. Come ultima arrivata sono infatti anche Segretaria della Facoltà. Troppo, per il mio temperamento. Ma non mi è stato possibile tirarmi indietro.

Chissà comunque che io riesca a fare una puntata in America entro i prossimi mesi. Il fratello mi reclama, con la scusa che i medici americani sono migliori degli italiani. E chissà che io finisca per dargli ragione. Nell'attesa di rivederLa, o qui o lì, La prego di non scomparire e di esistere ogni tanto, almeno per gli amici.

Con tanta stima e amicizia de

Luciana Stegagno Picchio

 

Santa Barbara, 21 de Fevereiro de 1971

Caríssima Luciana

Perdoe-me que, com a sua carta de 12 de Janeiro há um mês diante dos meus olhos, só agora lhe responda, quando, tendo sabido por Cattaneo da sua falta de saúde e operações, já antes andava em angústias de escrever-lhe. Mas estes últimos tempos têm sido – felizmente que a menor escala – também de pouca saúde para mim, e sobretudo de uma espécie de agonia, que não me deixa mais que o trabalho quotidiano e as provas tipográficas ou escritos urgentes, a remeter ràpidamente (em especial, artigos para o Dicionário do Cochofel [3], alguns longos e de especial responsabilidade por tocarem em ideias feitas). Faço votos por que V. esteja, entretanto, recuperada (o que não posso dizer que, a menos a vesícula e respectivas pedras, tenha sido o meu caso, desde que regressei há dois anos da operação em Lisboa), e em plena actividade – quanto aos médicos americanos não partilho a confiança de seu Irmão, e, pelo contrário, tenho deles um medo danado. Esse trabalho extra – de ser secretária da Faculdade, desgraças burocráticas que às vezes nos caem em sorte – é que me parece excessivo para uma pessoa que se refaz de aventuras cirúrgicas!

Não, não vim para a universidade da Califórnia em caráter provisório. Os tempos de Wisconsin, aonde todos os problemas existentes (mais o que se haviam aproveitado para fazer durante a minha ausência europeia) explodiram com as sucessivas crises estudantis e políticas, dentro da universidade e na rua, foram muito duros e desagradáveis, desde que eu havia voltado de Lisboa. Enchi a paciência, como dizem os brasileiros, e aceitei o convite de Santa Barbata, para onde fui nomeado, ao fim de muito tempo de delongas burocráticas, em Julho – mas ensinei em Madison até ao fim do verão, quando me lancei à magna aventura de mudar a família, a biblioteca e mais pertences, através da América, de Madison à Califórnia, tentado pelo clima de primavera eterna, pelo mar e a montanha, a proximidade de Los Angeles (hora e meia de automóvel daqui) e de San Francisco, e decidido a não ter de cruzar no corredor com rostos e sorrisos que me metiam nojo. Que numerosa tropa reles e fandanga é a nossa profissão em grande maioria, não é verdade? E recusei as ofertas do Wisconsin para lá ficar, e que igualavam, e até cobriam a daqui. Estamos instalados, ou vamos estando, a família e eu, desde os princípios de Setembro, com saudades dos amigos que deixei em Madison (embora a minha saída e do Diego Catalán, e outras que vão efectivar-se, arraste a derrocada do departamento e tenha destruído os estudos graduados de Português) e dos excelentes estudantes que formara ou dos que me acarinhavam, sobretudo depois das posições que eu, ainda que com os cuidados do bom senso, tomara em favor deles, que todos compreenderam, com tristeza, as razões de eu me demitir, espectacularmente, de um coio de intrujões. Já lá estava, como estou aqui, também em Literatura Comparada que é, tanto ou mais que a Lit. Port. e Bras., meu campo. E estou nela, a ensinar um curso, aqui, sobre o Maneirismo o o Barroco (em inglês, é claro). Santa Barbara é um dos nove "campuses" (plural de fazer tremer as pedras) da universidade da Califórnia, com Berkeley, Los Angeles, etc. Mas os tempos vão maus, com a tendência de reacção feroz contra as universidades como  centros de agitação, e com o oculto desígnio governamental de as fazer descer ao nível antigo, para controlá-las melhor e pô-las na dependência política dos dinheiros federais (e respectivos programas bélicos – ex: sabe acaso V. a razão de os extremistas terem feito ir pelos ares, em Madison, o Centro de Pesquisa Matemática? Porque era inteiramente pago por dinheiros secretos da CIA e do Pentágono – e foi lá que se fizeram, em computador, os cálculos para caçar o Ché Guevara…). A repressão vai acesa ainda que subterrânea, e a eliminação de todos os controlos democráticos por parte do professorado, também (nem já a "tenure", efectividade, é segura, pois que pode ser revogada pelos Regentes – e quem é que tem dinheiro, sem ajuda de grupos de resistência, para ir a tribunal contestá-los?). É esta a atmosfera geral – que evidentemente não só dá inquietação como enjôo, mesmo a pessoas não-políticas como eu. E, muito mais americanamente do que se julga, toda a gente se encolhe e baixa a cabeça.

Muito folgo – e dou-lhe os parabéns – por ter sido resolvida a sua situação e a dos estudos portugueses, com a criação da cátedra. Concluo, do que me diz, que só a sua (a do Rossi também?) é de Língua e Literatura, sendo só de Língua as do Tavani em Veneza (continua lá o meu velho amigo brasileiro Alexandre Eulálio de leitor?) e do Macchi em Bari. É assim?

Claro que a tese de Cattaneo me agradou muito, não só por ser sobre mim, mas por ser especialmente inteligente e subtil – independentemente de eu discordar (e não creio que seja matéria de opinião mas de facto) de alguns pormenores (tenho, a este respeito, uma carta dele, para responder, em que ele responde à minha). É sem dúvida um trabalho sério – e será que muitos poetas modernos portugueses se podem gabar de terem sido tratados em mais que estilo ensaístico? Concordo consigo que a publicação em outra língua que não o italiano, realmente só lido por quem se interessa por estudos italianos (e não por portugueses), seria preferível. O facto de ser publicado o estudo numa revista (para o que teria de ser condensado) não prejudica que possa ser oferecido, paralelamente, ou logo depois, na sua forma completa (e quiçá com um capítulo final e outro introdutório a enquadrá-lo na minha obra poética), a um editor português: ou a Portugália ou a Inova, do Porto, que se interessa também muito pelas minhas coisas. Mesmo nos Estados Unidos, conviria que, não sendo traduzido para inglês, o fosse para português. Os "estudos italianos em Portugal" seriam uma possibilidade – mas que lê e recebe essa revista? Quanto à tradução, poderiam VV. aí preparar uma versão que com muito prazer eu reveria (sem que isso figurasse em mais que dizer-se que eu vira a tradução – o que só se diria a modos que prefaciais, pois que de outro modo as pessoas pensariam que eu tivera mão no trabalho e na publicação dele).

Quanto a um volume de poemas meus traduzidos – por Cattaneo, ou por ele e V. "a quatro nãos" — , seria para mim alta recompensa (e estaria ao dispôr para esclarecer ou sugerir, como tenho feito com Jean Longland, de New York, que tem traduzido poemas meus na ideia de um eventual volume). Poesia minha tem aparecido em inglês, francês, alemão, em antologias, ou artigos (e, pasme, em croata e lituano) – mas, que eu saiba ou recorde, nunca em italiano, língua que me é tão cara e de país que amo tanto. Seria uma grande coisa. Haverá editor? Quando eu não sou dos lusos ou dos brasílicos que têm feito as suas "cavações" em Itália?

Antes que me esqueça: um estudo mais breve, e diverso, de Cattaneo (como a ele direi) poderá aparecer num volume que a Inova, do Porto, prepara, e sobre o qual me consultou, de "21 Ensaios" sobre mim (está para sair um assim sobre o Eugénio de Andrade, e encomendaram-me a preparação de outro sobre Camões). A propósito, esse volume, que é para coincidir com o centenário de Os Lusíadas, não incluirá necessàriamente só estudos sobre a epopeia. Escrever-lhe-ia, em breve, sobre o seu e meu interesse em colaboração sua. Está V. disposta a preparar alguma coisa? Quem mais, de Itália, pensa V. que poderia fazer algo interessante? Não necessariamente um camonista – ainda há pouco recebi, de Oklahoma, um interessante artigo
publicado por especialista de Milton, que abre de novo a questão de Camões ter "influenciado" (termo que detesto) aquele.

Pedi a esta universidade uma bolsa de viagem para ir à Europa no verão. Não sei se ma darão. Se derem, tenciono estar principalmente em Espanha, por causa das minhas pesquisas nesse sentido. Mas é minha ideia ir à Itália, para demorar-me em Roma mais dias que da outra vez, e visitar um ou outro lugar mais. Aonde estará V. por Julho e Agosto?

Ouvi dizer que Yale (não é aonde o seu irmão está?) andava à procura de um "nome" para Português – não fui contactado, talvez porque — e é sempre o problema na América – não seja suficientemente brasileiro para o gosto dominante, nem suficientemente português para as miragens deitadas às benesses oficiais lusitanas. Mas haverá nos EE.UU. nome maior do que o meu? Claro que há a considerar, também, o analfabetismo universal da maioria dos sujeitos que, na América, fingem que sabem português… ou cultura de qualquer dos dois países. Razão pela qual só me quero aonde esteja 50/50 em Português e em Literatura Comparada – até o momento em que, vivendo aqui, possa ter o português corno o escritor que sou, e esquecer-me de que ele é ou possa ser ensinado. No fim das contas, para que lutar pela melhoria de algo com que Portugal e o Brasil estão tão contentes?

E aqui vai o grande abraço da melhor amizade do sempre seu muito grato

Jorge de Sena
 

 

Notas:

1. Trata-se do poema "Arte de Amar", publicado em Exorcismos (Poesia III)

2. A tese de Cattaneo virá a ser publicada, refundida, em Estudos Italianos em Portugal, nª 38/39, Lisboa, 1975/1976, p. 29-78.

3. Como se sabe, pouco veio à luz do Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, projetado por João José Cochofel em fins dos anos 60. Os 37 verbetes destinados por Jorge de Sena a essa obra monumental integram hoje o volume póstumo Amor e outros verbetes (Lisboa, Ed. 70, 1992).
 

1919-1959: Portugal

1919, 2 de novembro: nasce em Lisboa Jorge Cândido de Sena, filho único de Augusto Raposo de Sena, comandante da Marinha Mercante, natural de Ponta Delgada (Ilha de S. Miguel, Açores), e de Maria da Luz Telles Grilo, natural da Covilhã.

1922 Com três anos de idade, começa a ler.

1923 Escreve as primeiras letras num bilhete para o pai.

1926 Entra para o Colégio Vasco da Gama (Lisboa), que frequenta até o 3º ano liceal.

1929 Inicia o estudo de piano, que se estende por cerca de seis anos.

1932 Transfere-se para o Liceu de Camões, onde será aluno de Rômulo de Carvalho (o poeta António Gedeão).

1933 O pai sofre um acidente a bordo que o leva à amputação de uma perna, sendo obrigado a retirar-se da Companhia Nacional de Navegação depois de mais de 40 anos de serviço, e a família passa a viver da parca mensalidade que lhe é concedida.

1935 Férias de verão na Figueira da Foz, em casa de seu tio Jaime Teles Grilo.

1936 Com 16 anos, conclui o Liceu (julho) e faz os preparatórios (outubro) para a Escola Naval, na Escola Politécnica (Faculdade de Ciências). Sob o impacto de ouvir “La Cathédrale Engloutie”, de Debussy, inicia a sua carreira de poeta. A 11 de junho, escreve “Desengano”, o seu poema mais antigo de que há registro. Escreve a narrativa histórica, inacabada, “Século XII (D. Fuas Roupinho)”.

1937 A 7 de setembro escreve o conto “Paraíso Perdido” (Génesis). A 15 de setembro, ingressa na Escola Naval com as mais altas classificações. Como Chefe do “Curso do Condestável” embarca a 1º de outubro para a viagem de instrução e adaptação no navio-escola “Sagres”, que dura até fevereiro de 1938. Visita Cabo Verde, Brasil (Santos e São Paulo), Angola (Lobito e Luanda), São Tomé, Senegal (Dakar) e Canárias (La Luz, Grã-Canária) – lugares assinalados em sua obra.

1938 A 14 de março é excluído da Marinha de Guerra. De 28 de março até ao fim do ano escreve 256 poemas e, no ano seguinte, 168. Começa a transcrever a sua produção literária para uns cadernos escolares com o título de “Obras”, dividida em “Volumes”. Em abril, escreve o conto “Caim” (Génesis). Em maio, escreve a comédia em 1 ato, Luto. Em junho, começa o romance inacabado A personagem total, cuja escrita só foi suspensa em 1940. Verão na Figueira da Foz. Em setembro, compõe um lied inspirado no poema “Pobre velha música”, de Fernando Pessoa. Em outubro, inicia os preparatórios para Engenharia Civil na Faculdade de Ciências de Lisboa, onde conhece José Blanc de Portugal, de quem será grande amigo.

1939 Sob o pseudônimo Teles de Abreu, estreia no “quinzenário universitário” Movimento, com o poema “Nevoeiro” (no n°1, de março) e o ensaio “Em prol da poesia chamada moderna” (no n° 2), graças a José Blanc de Portugal.

1940 Colabora no último número da presença, com uma carta sobre o poema “Apostilha”, de Fernando Pessoa. Conhece Adolfo Casais Monteiro, que se tornará seu grande amigo e compadre. Participa nas reuniões do grupo fundador (Tomaz Kim, Ruy Cinatti, José Blanc de Portugal) dos Cadernos de Poesia, onde colabora, ainda sob pseudônimo, no fascículo 2, vindo a organizar o fascículo 5. Inicia o curso de Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia do Porto. Vive em quartos alugados, com permanentes dificuldades financeiras e de saúde. A 7 de dezembro, conhece Maria Mécia de Freitas Lopes (Leça), filha do compositor e folclorista Armando Leça, num baile de calouros da Faculdade de Farmácia do Porto.

1941 Assina pela primeira vez como Jorge de Sena (seguido ainda do pseudônimo entre parêntesis) os poemas que publica no fascículo 4 dos Cadernos de Poesia. Durante as férias de verão, faz um estágio de Topografia na zona de Lisboa. Em 20 de dezembro, profere sua primeira conferência, “Rimbaud ou o dogma da trindade poética”, na Juventude Universitária Católica (Lisboa), a convite de Ruy Cinatti.

1942 Em maio sai a sua primeira crítica literária, sobre Poemas de África, de António Navarro, no n° 1 da revista Aventura, de que é redator nos dois primeiros números. No nº 2, publica aquela sua primeira conferência, integrando a separata “Homenagem a Rimbaud” que contará com mais colaboradores. Em junho/julho, publica Perseguição, primeiro livro de poesia, editado sob a égide dos Cadernos de Poesia, pago por Ruy Cinatti e Tomaz Kim, e impresso na tipografia Atlântida, de Coimbra, graças ao papel ofertado por João Alves Gomes dos Santos. Em setembro, frequenta o 1° ciclo do Curso de Oficiais Milicianos, em Penafiel. Interrompe os estudos devido ao agravamento do seu estado de saúde, ficando em Lisboa no período letivo de 1942/43.

1943 A 11 de fevereiro começa a colaborar no Diário Popular, como crítico literário. Frequenta o 2° ciclo do Curso de Oficiais Milicianos. Regressa à Faculdade de Engenharia do Porto.

1944 Em janeiro morre-lhe o pai e, em fevereiro, sua avó materna – grande apoio de sua infância e juventude. Em março, publica traduções de poemas de Paul Verlaine no Primeiro de Janeiro. Em setembro, publica n´O Globo uma página dedicada à poesia surrealista: apresentação e tradução de poemas de André Breton, Paul Éluad, Georges Hugnet e Benjamim Péret. Figura na antologia de Cecília Meireles, Poetas novos de Portugal. Faz o último exame da Licenciatura em Engenharia Civil e conclui o curso, graças à ajuda financeira de Ruy Cinatti e José Blanc de Portugal e ao apoio de José Osório de Oliveira, que lhe faz um adiantamento sobre futuras publicações na Portugália Editora. Começa a tragédia em verso O Indesejado.

1945 Cumpre o serviço militar no Batalhão de Engenharia 2, em Lisboa. Em maio, participa numa operação de transporte de tropas para os Açores, que lhe permite conhecer S. Miguel, ilha natal de seu pai. Em outubro, ainda oficial miliciano do Exército, subscreve listas públicas exigindo eleições livres. Não é deportado para a prisão do Tarrafal (Cabo Verde) por intervenção direta, junto a Salazar, de Ribeiro Couto – poeta e diplomata brasileiro. Em novembro termina O Indesejado.

1946 No começo do ano, é licenciado do serviço militar. A 28 de janeiro, no Clube Fenianos Portuenses, tem grande êxito a sua conferência “Florbela Espanca ou a expressão do feminino na poesia portuguesa”. Em fevereiro, graças à intermediação de Ribeiro Couto, sai seu segundo livro de poesia, Coroa da Terra (Lello, Porto). Em maio, começa a colaborar no Mundo Literário. Em dezembro conclui o estágio do curso de Engenharia, na Barragem de Vale do Gaio. A 12 de dezembro, faz a conferência “Fernando Pessoa, indisciplinador de almas”, no Ateneu Comercial do Porto, tendo Manuela Porto como declamadora. Saem as Páginas de doutrina estética, de Fernando Pessoa, com seleção, prefácio e notas de sua responsabilidade.

1947 É publicada sua conferência sobre Florbela. Obtém a Carta de Engenheiro e trabalha para a Câmara Municipal de Lisboa e a Direção Geral dos Serviços de Urbanização (Monumentos Nacionais) do Ministério de Obras Públicas. Inscreve-se na Ordem dos Engenheiros (sócio n°2496). Em março, estreia como crítico de teatro na Seara Nova e faz a palestra inaugural do Círculo de Cinema na Sociedade Nacional de Belas-Artes.

1948 A 12 de junho, profere, no Clube Fenianos Portuenses, a primeira de muitas conferências sobre Camões: “A poesia de Camões – ensaio de revelação da dialéctica camoneana”. Entre 24 de junho e 16 de setembro adapta treze textos ao teatro radiofônico, para o programa de António Pedro, “Romance policial”, no Rádio Clube Português, de Lisboa. Em novembro, entra para a Junta Autônoma de Estradas (JAE), onde permanece até 1959.

1949 A 12 de março casa com Maria Mécia de Freitas Lopes. Em maio, começa a publicar O Indesejado na revista Portvcale. Em julho, começa a comentar filmes nas “Terças-feiras Clássicas”, organizadas pelo Jardim Universitário de Bela Artes (JUBA) no cinema Tivoli, até 1955. A 10 de dezembro, nasce no Porto Izabel Maria, a primeira filha, que terá Ruy Cinatti como padrinho.

1950 Publica Pedra Filosofal, seu terceiro livro de poesia. A 22 de novembro, nasce no Porto o segundo filho, Pedro Augusto, afilhado de Óscar Lopes.

1951 Co-dirige o IX Congresso Internacional da Estrada, cuja excursão final o leva à Madeira, a 5 de outubro. Co-dirige a 2ª série dos Cadernos de Poesia, redigindo o texto-manifesto de abertura “A Poesia é só uma”. A 7 de junho, faz conferência sobre o “Conceito de Poesia”, no Ateneu Comercial do Porto. Sai em volume O Indesejado (António, Rei), e A Poesia de Camões (Ensaio de Revelação da Dialética Camoniana). A 9 de dezembro, nasce no Porto Maria Joana, afilhada de Adolfo Casais Monteiro.

1952 Co-dirige a 3ª série dos Cadernos de Poesia. Começa a traduzir poemas ingleses de Pessoa. Em outubro, vai pela primeira vez à Inglaterra para estágio na firma de engenharia civil Blackwood Hodge. De 17 de outubro a 28 de novembro lê na BBC uma série de seis crônicas intituladas “Cartas de Londres”. Projeto de mudança para Angola, como engenheiro civil, que não chega a se concretizar. Na revista Tricórnio publica “Ulisseia Adúltera – farsa em 1 acto”.

1953 Em fevereiro é transferido para o Serviço de Pontes da JAE e logo integra a “Comissão para o Estudo das Ligações Rodoviárias e Ferroviárias entre Lisboa e a Margem Sul do Tejo”. A 16 de maio nasce, no Porto, sua filha Maria Manuela, afilhada de Alberto de Lacerda. A 22 de maio, conferência sobre literatura e cultura inglesas no Instituto Britânico do Porto. No Comércio do Porto, de 9 de junho, publica o primeiro texto português sobre o poeta grego Constantino Cavafy, seguido de 5 poemas traduzidos. Publicação, pela JAE, de Algumas Considerações sobre Estatísticas de Trânsito.

1954 Em janeiro, muda-se para o bairro de casas econômicas do Restelo. Em abril viaja à Galiza. A 25 de novembro, em Lisboa, no Restaurante Irmãos Unidos, profere conferência sobre Orpheu, por ocasião do descerramento do quadro “Fernando Pessoa”, de Almada Negreiros. Saem Alguns dos “35 Sonetos” de Fernando Pessoa (São Paulo), em colaboração com Adolfo Casais Monteiro.

1955 Publica o livro As Evidências: Poema em Vinte e Um Sonetos, distribuído em fevereiro, depois de ter sido apreendido pela PIDE, sob acusação de “subversivo” e “pornográfico”. Torna-se “consultor literário” da Editora Livros do Brasil. Publica em fevereiro, na Tetracórnio, o ensaio “Tentativa de um panorama coordenado da Literatura Portuguesa de 1901 a 1950”. Em setembro, viagem à Espanha (Badajoz, Mérida, Córdoba, Granada, Málaga e Sevilha).

1956 A 25 de abril, conferência sobre Manuel Bandeira no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa. É um dos sócios-fundadores da Sociedade Portuguesa de Escritores e, temporariamente, consultor literário da editora Portugália. Mécia de Sena conclui a Licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A 19 de dezembro, nasce em Lisboa sua filha Mariana, afilhada de José Blanc de Portugal.

1957 Sai a tradução de Porgy e Bess, de DuBose Heyward. Em setembro, viaja pela segunda vez à Inglaterra, para novo estágio na área de engenharia. Conhece em Londres Manuel Bandeira. Visita a França e a Bélgica. Traduz Long Day´s Journey into Night, de Eugene O´Neill, para o Teatro Experimental do Porto, com encenação de António Pedro. A 12 de dezembro, em Lisboa, nasce seu sexto filho, Paulo Jorge, batizado pelo Pe. Manuel Antunes, afilhado do casal Fernando Pereira Basto. Ainda em dezembro falece a mãe de Mécia de Sena.

1958 A 15 de janeiro, nova conferência sobre literatura e cultura inglesas no Instituto Britânico do Porto. Colabora na Gazeta Musical e de Todas as Artes, incumbindo-se principalmente da crítica teatral. Em novembro publica Fidelidade, seu quinto livro de poesia, e a antologia Líricas Portuguesas – 3ª série.

1959 Em 11/12 de março participa do frustrado “Golpe da Sé” (seria Ministro das Obras Públicas num almejado governo provisório). Em abril, sai Da poesia portuguesa, seu primeiro livro de ensaios. A 4 de maio, em Lisboa, nasce o sétimo filho, Vasco Manuel (nome em homenagem aos sacerdotes Vasco Miranda e Manuel Antunes, dois grandes amigos da família Sena), afilhado de Francisco de Nascimento Ferreira e Dora Maria da Silva Setao Ferreira. A 27 de junho, começa a colaborar no jornal Estado de S. Paulo.

 

Dados cronológicos ordenados a partir de:
Jorge Fazenda Lourenço, Cronologia de Jorge de Sena, in:—, ed. Jorge de Sena – Antologia Poética. Lisboa, Guimarães, 2010. p. 308-321.

Jorge Fazenda Lourenço & Mécia de Sena, org. Jorge de Sena – a voz e as imagens. Lisboa, IEP/UNL, 2000. (fotobiografia)

Mécia de Sena & Isabel M. de Sena, Jorge de Sena: bio-bibliografia, in: Quaderni Portoghesi 13-14. Pisa, Giardini, 1977 p. 13-22.

1959-1965: Brasil

1959 A 7 de agosto, chega ao Brasil, desembarcando no Recife e seguindo para Salvador, a fim de participar, a convite do governo brasileiro, do IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, que transcorreu, de 10 a 21 de agosto, na Universidade da Bahia. Começa assim, com quase 40 anos de idade, seu exílio voluntário. No Rio de Janeiro, faz conferências na Faculdade Nacional de Filosofia. Em outubro, a convite de António Soares Amora, entra para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (São Paulo), onde rege as cadeiras de “Introdução aos Estudos Literários” e de “Teoria da Literatura”. De 9 de outubro a 13 de novembro, nessa Faculdade, conduz um curso sobre “A criação poética e a crítica de poesia”, que origina o seu “Ensaio de uma tipologia literária”. A 17 de outubro, Mécia e os 7 filhos chegam ao Brasil. Integra o Conselho de Redação (até 1962) do jornal anti-salazarista Portugal Democrático, publicado em São Paulo desde 1956.

1960 Dirige a seção portuguesa da coleção “Nossos Clássicos” da Editora Agir, Rio de Janeiro. Recusa convite de trabalho numa firma de engenharia de São Paulo. De 22 a 24 de janeiro, participa da primeira Conferência Sul-Americana Pró-Anistia dos Presos Políticos Espanhóis e Portugueses, realizada em São Paulo, na Faculdade de Direito. A 30 de abril, conferência sobre “Portugal e a Monarquia”, no Centro Republicano Português de São Paulo. A 1 de junho, em Lisboa, nas comemorações pessoanas do Centro Nacional de Cultura, seu texto “O poeta é um fingidor” é lido por David Mourão-Ferreira. De 7 a 14 de agosto, participa do I Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, na Universidade do Recife, onde apresenta o “Ensaio de uma tipologia literária”. Sai Andanças do Demônio, sua primeira coletânea de contos. Publica o “Ensaio de uma tipologia literária”, no número inaugural da Revista de Letras, de Assis (SP). Sai, em Lisboa, dos Estúdios Cor, a História da Literatura Inglesa de A. C. Ward – “revista, anotada, prefaciada e completada na época contemporânea por Jorge de Sena”.

1961 Em janeiro, sai Poesia-I (com o inédito Post-Scriptum), primeiro volume da obra poética completa. De 24 a 30 de julho participa do II Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, em Assis. Em agosto, muda-se para Araraquara e para a respectiva Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, como professor contratado de Literatura Portuguesa. A 7 de dezembro, em Araraquara, nasce sua filha Maria José, afilhada de Gilda e Antonio Cândido de Mello e Souza. Demite-se, com Adolfo Casais Monteiro e Paulo de Castro, da direção da Unidade Democrática Portuguesa, de que fora co-fundador. O conto “A noite que fora de Natal”, com desenhos de Paulo-Guilherme, é distribuído pelos Estúdios Cor de Lisboa como brinde natalino a seus clientes. Publica O Reino da Estupidez e O poeta é um fingidor (ensaios). Em tradução, saem Palmeiras Bravas, de Faulkner, e Ti Coragem e os seus filhos, de Brecht (co-tradução de Ilse Losa).

1962 Escreve a tese Uma canção de Camões, destinada a provas de livre-docência na Universidade Federal de Minas Gerais, que não chegam a se realizar por questões burocráticas relacionadas com a sua naturalização brasileira e outras. Em Araraquara, além de Literatura Portuguesa e Teoria da Literatura, passa a lecionar Literatura Inglesa no 2º semestre. É ainda professor visitante na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto. No início de junho, palestra sobre a poesia moderna portuguesa na Mostra Internacional de Poesia, em São Paulo. Publica os “Quatros sonetos a Afrodite Anadiómena” no n° 2 da revista Invenção, dos concretistas de São Paulo. Em setembro/outubro, conferências no curso sobre o “Barroco literário”, organizado por Antonio Cândido, na Fundação Armando Álvares Penteado, sob patrocínio da USP. Nasce seu nono e último filho, Nuno Afonso, afilhado de Antonio Soares Amora.

1963 A 31 de janeiro, discursa no Centro Republicano Português, em São Paulo. Em março torna-se oficialmente cidadão brasileiro, o que lhe permite prestar provas de Livre-Docência. Em junho, começa a colaborar no recém-fundado O tempo e o modo. A 14 de agosto, conferência na “Semana euclidiana” de S. José do Rio Pardo. Em setembro, inicia a publicação da série de Estudos de História e de Cultura na revista Ocidente (Lisboa). Publica Metamorfoses, seguidas de Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena (Lisboa); A Literatura Inglesa (São Paulo), Novelas inglesas (São Paulo) e A Sextina e a Sextina de Bernardim Ribeiro (Assis).

1964 Trabalha na edição do Livro do desassossego, de Fernando Pessoa, que abandona em 1969, por impossibilidade de controle dos manuscritos. Em março, escreve as peças em 1 ato A Morte do Papa e O Império do Oriente. Em Araraquara, a 2 de abril, discursa como paraninfo dos formandos. Ainda em abril, nas perseguições políticas subsequentes ao golpe militar de 31 de março, ou 1° de abril, é demitido, por telefone, da Faculdade de São José do Rio Preto. Em maio, escreve a novela O Físico Prodigioso. A 12 de julho, sofre grave acidente de automóvel. Em 28 e 29 de outubro presta provas de Doutoramento em Letras e de Livre-Docência em Literatura Portuguesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, com a tese Os sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular. Inicia o romance Sinais de Fogo.

1965 Na revista O Tempo e o Modo, sai o ensaio “Edith Sitwell e T. S. Eliot” (janeiro) e o estudo sobre “O Sangue de Átis”, de François Mauriac (agosto).

 

Dados cronológicos ordenados a partir de:
Jorge Fazenda Lourenço, Cronologia de Jorge de Sena, in:—, ed. Jorge de Sena – Antologia Poética. Lisboa, Guimarães, 2010. p. 308-321.

Jorge Fazenda Lourenço & Mécia de Sena, org. Jorge de Sena – a voz e as imagens. Lisboa, IEP/UNL, 2000. (fotobiografia)

Mécia de Sena & Isabel M. de Sena, Jorge de Sena: bio-bibliografia, in: Quaderni Portoghesi 13-14. Pisa, Giardini, 1977 p. 13-22

1965-1978: Estados Unidos

1965 A 6 de outubro, parte de S. Paulo e chega a New York no dia seguinte, rumo à University of Wisconsin, Madison, como Visiting Professor, iniciando assim seu segundo exílio. Publica Teixeira de Pascoaes – Poesia (Col. “Nossos Clássicos, da Ed. Agir, Rio de Janeiro).

1966 Sai Uma Canção de Camões. São-lhe diagnosticadas “pedras visiculares”. É eleito membro da Hispanic Society of America, da Modern Language Association of America e da Rennaissance Society of America. Em agosto, sai Novas Andanças do Demônio (com O Físico Prodigioso). De 7 a 13 de setembro, participa do VI Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, em Harvard. O tempo e o modo de setembro publica o conto “Homenagem ao papagaio verde”. A 15 de novembro, conferência sobre literatura brasileira e hispano-americana, na Pennsylvania State University. Primeiras traduções de poemas seus para o inglês, por Jean R. Longland – Selections from Contemporary Portuguese Poetry.

1967 A 21 de março, conferência “Realism and Naturalism in Portugal and Brazil: with reference to French and other western literatures”. A 27 de maio, morre sua mãe. Ainda em maio, muda de casa, dentro de Madison. É impedido pelo governo português de continuar o pagamento de sua casa no Restelo. É nomeado Full Professor with Tenure de Literatura Portuguesa e Brasileira do Departamento de Espanhol e Português da Universidade do Wisconsin. Pede demissão da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara. Em julho, sai o 1°vol. de Estudos de História e de Cultura – 1ª série.

1968 Em abril, O Tempo e o Modo dedica-lhe número especial, onde publica uma breve autobiografia e fragmentos de Sinais de Fogo sobre a “aparição da poesia”. Sai Arte de Música. A partir de 6 de setembro, graças a uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian e à licença de um semestre da Universidade do Wisconsin, regressa pela primeira vez à Europa. Viaja (investigando, fazendo contatos e conferências) extensamente: Inglaterra, Escócia, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Alemanha, França, Áustria, Suíça, Itália, Espanha e Portugal, aonde chega às vésperas do Natal. A 4 e 5 de dezembro, ministra um curso na University of London. Em 22 de dezembro é detido pela PIDE, durante 24 horas, na fronteira espanhola, em Valencia de Alcantara. Após conversações telefônicas, nomeadamente de José Blanc de Portugal com o Chefe do Governo, Marcelo Caetano, é-lhe concedido visto de entrada. A Censura autoriza o relato do sucedido como um “equívoco de fronteira”. Muitos reencontros e entrevistas até seu regresso aos USA.

1969 A 19 de janeiro, é operado à vesícula, em Lisboa. Publica Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular. A 12 de fevereiro, conferência sobre Almada Negreiros, na presença do poeta, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa. A 14 de fevereiro, regressa aos Estados Unidos. Graças à intervenção de amigos, como António Alçada Baptista e Eduardo Lourenço, é-lhe restituída a posse de sua casa no Restelo. Em setembro, sai Peregrinatio ad Loca Infecta, nono livro de poemas. Em setembro e outubro, saem seus prefácios às edições portuguesas dos Manisfestos do Surrealismo, de André Breton e dos Cantos de Maldoror, de Lautréamont. Em outubro e dezembro, participa nos encontros do MLA em St. Louis e Denver.

1970 Simpatiza com a agitação política estudantil contra a guerra do Vietnã, na Universidade do Wisconsin. Em agosto, muda para a University of California, Santa Barbara (UCSB). Em novembro, participa no congresso anual da Pacific Coast Council for Latin American Studies, em Santa Bárbara. Publica A Estrutura de Os Lusíadas e Outros Estudos Camonianos e de Poesia Peninsular do Século XVI. Conferências na University of Illinois, Cincinnati, e na Tulane Univesity. Publica 90 e mais quatro poemas de Constantino Cavafy. O poeta Carlo Vittorio Cattaneo apresenta na Universidade de Roma a primeira tese universitária sobre a sua obra.

1971 Escreve a peça em 1 ato Epimeteu, ou o Homem que Pensava Depois. A 14 de maio, conferência “Antero revisited”, por ocasião das comemorações do centenário da “Geração de 70” na University of Califórnia, Los Angeles (UCLA). A 9 de junho, chega a Londres para nova viagem à Europa e Portugal. A 29 de julho. participa do I Colóquio Internacional sobre o Romanceiro, na Universidade Complutense de Madrid. Chega a Lisboa em 31 de julho. Em 2 e 3 de setembro, participa, em Salamanca, do Congresso da Associação Internacional de Hispanistas. A 21 de setembro, regressa a Santa Barbara, via Londres. Em dezembro sai Poesia de 26 séculos – I (de Arquíloco a Calderón).

1972 Passa a dirigir o Programa de Literatura Comparada da UCSB. A 4 de março, chega à Europa, via Paris, para viagem largamente motivada pelo IV Centenário d’Os Lusíadas. A 9 de março, conferência sobre Camões no Centro Cultural Português da Fundação Gulbenkian, em Paris; a 16 no King’s College (Londres); a 17, na Universidade de Bruxelas. A 15 de março, lê uma crônica na BBC, em Londres, sobre os seiscentos anos da Aliança Inglesa. A 30 de março, regressa a Santa Barbara. De abril a junho, conferências em várias universidades americanas. Em maio, sai Exorcismos, décimo livro de poesia. A 28 de junho, chega a Atenas, dando início ao terceiro périplo camoniano do ano. Em julho e agosto, visita espaços africanos: escreve in loco o poema “Camões na Ilha de Moçambique”; faz palestra na Universidade de Lourenço Marques a convite da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra; revê Luanda. Ainda em julho, sai Poesia de 26 séculos – II (de Bashô a Nietzsche). Em meados de setembro regressa a Santa Barbara, depois de passar por Lisboa e Paris. Em dezembro, sai a antologia Trinta anos de poesia. Saem as edições comemorativas de Os Lusíadas e das Rimas Várias de Luis de Camões comentadas por Manuel Faria e Sousa, com prefácios de Jorge de Sena.

1973 A 8 de janeiro, chega a Lisboa para nova viagem pela Europa (conferências em Madrid, Paris e Londres). A 6 de março, conferência “Literature and Society”, durante a convenção da Universidade do País de Gales. A 31 de março, regressa a Santa Barbara, via Lisboa. A 9 de junho, palestra na Semana Portuguesa de San Jose, California. Entre 26 de julho e 3 de setembro, viaja por Portugal e Espanha. Em dezembro, sai Camões dirige-se aos seus contemporâneos e outros textos e Dialécticas da Literatura. Participa da convenção anual do MLA.

1974 Em janeiro, sai Conheço o sal… e outros poemas. Em maio saem Amparo de Mãe e mais 5 peças em 1 Acto; Maquiavel e outros estudos. Em junho, Francisco de la Torre e D. João de Almeida. A 24 de julho chega a Lisboa, experimentando um Portugal finalmente em liberdade. Entre 6 de agosto e 20 de setembro, viaja por Espanha e França, participando do V Congresso da Associação Internacional de Hispanistas, em Bordeaux (2 a 8 de setembro). Em dezembro, saem os Poemas Ingleses de Fernando Pessoa (com traduções também por Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal).

1975 No trimestre de inverno, ensina Literatura Portuguesa também na UCLA, em virtude do falecimento do professor Machado da Rosa. Em abril, faz o discurso de abertura da IV Convenção Anual das Comunidades Portuguesas, em Sacramento, California. Em julho, na UCSB, passa a dirigir o Departamento de Espanhol e Português e o Programa Interdepartamental de Literatura Comparada. A 8 dezembro, em San Jose, California, palestra comemorativa pelo “1° de dezembro”. A 20 de dezembro, mensagem à comunidade portuguesa nos EUA, transmitida pela rádio.

1976 A 6 de fevereiro, participa do Colloquium on the International Repercussions of the Portuguese Revolution, na California State University de Long Beach. A 25 de março, sofre um ataque cardíaco, sendo-lhe implantado um pace-maker. Em abril, envia comunicação ao Congresso da Associação Internacional dos Críticos Literários, em Lisboa, a que não pode comparecer. Em maio, vem à luz Os Grão-Capitães. Em setembro, viaja a Portugal e Itália, proferindo uma conferência na Universidade de Roma sobre a poesia do século XX. Entre 27 e 29 de dezembro, fala em Nova York, num simpósio sobre Garcilaso de la Vega, durante a convenção anual do MLA.

1977 A 25 de janeiro, morre seu sogro, Armando Leça. A 25 de abril, recebe o Prêmio Internacional de Poesia Etna-Taormina, na Sicília. A 3 de junho, conferência sobre Camões na Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris. A 7 de junho, participa nas comemorações do cinquentenário da revista presença, em Coimbra. A 10 de junho, discursa na Guarda, no “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. Em junho, saem O Físico Prodigioso (1ª edição isolada) e Sobre esta praia… Oito Meditações à beira do Pacífico, o seu “testamento poético”. Em agosto, publica Dialécticas Teóricas da Literatura. A 13 de setembro, conferência sobre Alexandre Herculano, no centenário da sua morte, no Consulado de Portugal, em San Francisco. Em 7 e 8 de outubro, participa do Simpósio Internacional sobre Fernando Pessoa, na Brown University. Ainda em outubro: sai Régio, Casais, a presença e Outros Afins; participa no VI Congresso da Associação Internacional de Hispanistas, em Toronto e na Conferência Inter-americana, em Albuquerque, Novo México. Em novembro, reedita Poesia-I.

1978 A 19 de março, escreve o último poema: “Aviso a cardíacos e outras pessoas atacadas de semelhantes males”. Em março, publica Dialécticas Aplicadas da Literatura. Em abril, envia comunicação ao I Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, no Porto, impedido de comparecer por razões de saúde. A 4 de maio, já muito doente, grava, em vídeo na UCSB, Jorge de Sena reads his poetry¸ entrevista a Frederick G. Willians, seguida de leitura de poemas. A 13 de maio, discursa na cerimônia de despedida de Robert Wilson da UCSB. Em maio, saem Poesia-II, Poesia-III e O Reino da Estupidez-II. A 1 de junho, envia a comunicação de abertura ao I Simpósio sobre as Tradições Portuguesas, na UCLA, a que não comparece por motivo de saúde. Sai Antigas e Novas Andanças do Demônio. A 4 de junho morre vítima de câncer em Santa Barbara, onde fica sepultado, em campa-rasa, no Calvary Cemetery. Aparece, em julho, Poesia do Século XX (de Thomas Hardy a C.V. Cattaneo). É condecorado, postumamente, com a Ordem de Santiago da Espada – concessão que lhe fora anunciada telefonicamente pelo Presidente da República, Ramalho Eanes, na ante-véspera de sua morte.

 

                                                                     * * * * * * * * * * * * *

 

1980 Graças à colaboração da Fundação Calouste Gulbenkian, é inaugurado o Jorge de Sena Center for Portuguese Studies, na University of California, Santa Barbara.

1983 Em setembro, em Araraquara, inauguração do Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP).

1999 Em novembro, no Departamento de Letras Vernáculas da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi inaugurada a Cátedra Jorge de Sena para Estudos Literários Afro-Luso-Brasileiros, com substancial apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Ver http://catedrajorgedesena.letras.ufrj.br/

2009 A 11 de setembro, dá-se a trasladação de seus restos mortais para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, depois de solene homenagem na Basílica da Estrela, à qual compareceram várias autoridades e nomes destacados do cenário cultural português.

2010 A 2 de novembro, lançamento online do site Ler Jorge de Sena.

2010 Instituído pelo CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa), com o patrocínio de mecenas anónimo, o Prêmio Jorge de Sena, assim atribuído:

2010 – Vitor Manuel Aguiar e Silva

2011 – Jorge Vaz de Carvalho

2012 – Jorge Fazenda Lourenço

2013 – Gilda Santos/Ler Jorge de Sena

 

 

 

 

Dados cronológicos ordenados a partir de:
Jorge Fazenda Lourenço, Cronologia de Jorge de Sena, in:—, ed. Jorge de Sena – Antologia Poética. Lisboa, Guimarães, 2010. p. 308-321.

Jorge Fazenda Lourenço & Mécia de Sena, org. Jorge de Sena – a voz e as imagens. Lisboa, IEP/UNL, 2000. (fotobiografia)

Mécia de Sena & Isabel M. de Sena, Jorge de Sena: bio-bibliografia, in: Quaderni Portoghesi 13-14. Pisa, Giardini, 1977 p. 13-22.

Poemas para começar o ano

Talvez por conta dos rescaldos festivos, a primeira semana de cada ano não se revelou muito fértil em poesia para Jorge de Sena. Ainda assim, dentre os poemas datados do reinício do calendário civil, encontramos alguns de grande qualidade, como os quatro a seguir transcritos, repassados da melancolia inerente a questionamentos sobre o escrever, sobre o que vem e o que fica, sobre o "é como se…", sobre a "vita brevis" em espaço e tempo… Enfim, temas marcantes da poesia seniana neles estão exemplificados e aqui os elegemos como "chaves poéticas" para abrir as portas do novo ano e de novas leituras nesta obra inesgotável.

 

 

Tendo lido uma carta acerca de um seu livro de poemas, que oferecera

Por que entristeço ao ler o que de meus
versos escrevem, se não é de mim
que escrevem?
Será que chora em mim o que meus versos foram
antes de ser meus?
Por que pergunto, se já sei por quê?

Escuto longamente, leio, espero,
e o poema é voz de toda a gente, todos eles, que,
não se tendo ouvido, não a sabem sua.
E vêm chorar em mim o coração traído,
a música perdida em distracções urgentes,
umas palavras que ninguém falou.

Não entristeço, pois. Apenas sou pergunta,
e, sendo eu, me esqueço ao perguntar.

05/01/51

 

Mesquita de Córdova

Haviam sido os fustes de pequenos bosques
a recortarem-se no azul do céu,
ao cimo das colinas, ou à beira de água
espelhando-se nelas como a cristalina
de ninfas ondulância. O dardejar do tempo
e da cristandade os fulminou. Jaziam
tombados entre as ervas, como sexos
dormindo na revôlta grenha; ou, inda agudamente,
inúteis penetrando sem desejo
a macieza húmida das nuvens.
                                                    Róseos,
brancos, irisados, foram convocados
para a glória de Alá. De toda a parte vieram,
a rastros, dorso, em carros, convergindo
para a cidade branca, atravessando os rios,
as serranias áridas, as planícies pálidas;
e as chuvas lavavam-nos da poeira do tempo
e dos caminhos.
                              Um a um erguidos,
já de um a outro os arcos se dobravam,
tão curvamente ultrapassados, duplos,
na intensidade tensa de reuni-los
em floresta imensa, erguidos e coroados.
E de bosquetes para, aladas frondes,
serem dos deuses o repouso, ou de
nítidas cercas em triclínios calmos,
vieram concentrar-se na penumbra
em que o mihrab a um lado é uma estridência de ouro.
De novo um tecto é o que sustentam na viril
segurança para que são fustes. Mas um tecto só:
de toda a parte vieram, ruínas fulminadas,
suportes dispersos dos deuses e dos homens,
para alinhar-se múltiplos na escrita
marmórea e colunar da inefável glória
do nome que é um tecto horizontal
sobre o deserto humano, frio como as lages,
macio como a aragem que se enrosca neles,
cruel como a faísca que os derrubaria,
e ardente como o sol que amadurece
os laranjais do páteo.
                                      Vieram e ficaram
floresta exacta.
                          Alá partiu, deixando a branca
cidade às moscas, à poeira, às torres de onde
dura de sinos se tornou a voz
do muezzin cantando à tarde.
              
                                                   Mas
alguém pode partir de uma tão rígida
viril floresta: deuses traduzidos
e congregados para Sua glória?

7-8/1/1963

 

Se

É como se sentisse que a vida me foge. É como se,
das pontas dos dedos, eflúvio inútil, um magnetismo se
escapasse inócuo, sem penetrar as pessoas e as coisas. É como se
eu sentisse em mim um vaso, um lago, um mar, e se
esvaísse o nível dele. É como se um motor em mim se
ralentasse pouco a pouco. É como se
a fala, a minha e a dos outros, soasse com surdina e se
perdesse sem tinido num lençol de neve. É como se
um frio me cobrisse resistindo a tudo, e se
nenhum entusiasmo, nenhum aquecimento, nada, se
mantivesse em mim que os ouço e sinto e me ouço. É como se
nem mesmo a morte ou mesmo a sobrevida se
pudessem demorar mais do que isto. Se
ainda escrevo, estou escrevendo, escreverei, é como se
as palavras juntando-se criassem, mais do que um sentido se-
melhante a outros ou diverso, apenas um silêncio e se
fizessem fuga de que vivo só, alguém que assiste, mas não se
conhece vivo. É como se,
ouvindo e vendo, se
passasse ao longe tudo, e se
ouvisse e visse o que não se
ouve nem vê, Ou se,
em vez de nada, se
criasse nada, e se,
na melancolia de um sono imenso de que se
não adormece,
desse
um sono maior
do que o da morte ou do amor.

2/1/1966

 

 

Vita Brevis

A vida é breve mas que a faz mais breve
não é morrer-se nem morrer quem foi
connosco nela espaço forma e tempo.
Que mais que a morte a humanidade encurta
e torna mais estreita a nossa vida.
Só brevemente e por um breve instante
seu corpo nos concede. E brevemente
é que pensar deseja que existimos.
Antes de mortos, antes de sozinhos
e apenas visitados de memórias,
já todos somos um jornal antigo
deitado fora sem sequer ser lido,
ou somos uma imagem desenhada
na borda do passeio em que se exibem
pisando-a com os pés que desenham
seus mesmos rostos que outros pés já pisam.
A vida é breve, breve, mas mais breve
quanto a quer breve a estupidez humana
fiel ao tempo ainda em que de espaço
o tempo se fazia e o pouco espaço
na terra imensa a todos não chegava.

05/01/1971
 

31 de Dezembro

O último dia do ano não foi particularmente inspirador para Jorge de Sena. Segundo os indispensáveis Índices, organizados por Mécia, escreveu apenas 5, ao longo de toda a vida. Destes, já integram nosso site o fundamental “La Cathédrale Engloutie, de Debussy”, de 1964, e “Não é já de Natal…”, de 1947 (inserido em “Cinco Natais de Guerra”). Aqui trazemos, pois, os demais (de 1961, 1971 e 1975), nesta última edição de 2011 do “Ler Jorge de Sena” — convidando os leitores que nos vêm prestigiando a meditarem, com estes versos, sobre o correr do tempo. E, deste modo bem despojado, que propõe o introspectivo em meio ao alarido circunstante, desejamos a todos um excelente 2012.

 

“Por este anoitecer…”

Por este anoitecer, o ano acaba.
Cinzento e azul no céu por entre as árvores,
acaba o calendário. Muitos crimes dele
serão futuras efemérides nos outros
que, folha a folha, acabarão também.

Como anoitece igual este ano às noites
com que, dia por dia, o ano foi passando
gregorianamente. O mundo ocidental,
cesáreo, atlântico, ex-mediterrâneo,
conta do Cristo. Mas os outros mundos

também contarão dele, quando este ocidente
deixar de fingir dele – os deuses morrem –
para funções de calendário laico.
O tempo passa, os calendários mudam,
na vida e morte as horas se sepultam.

E, no entanto, o tempo vai conosco;
é desta Terra só, e só por haver outros
que de outros astros são por haver este
diverso tanto a cada movimento.
Por este anoitecer, o ano acaba.

31/12/1961

 

“Deste mundo que morre…”

Deste mundo que morre como pedra
a dissolver-se em lama e poeira humana,
destruído de maldade e de mentira,
envenenado de cobiça e raiva,
não me despeço. Morrerei tranquilo,
ciente de que isto acaba de acabar-se,
e uma outra raça há-de nascer na Ibéria
que será minha como esta não:
um povo aguarda e espreita, e sabiamente espera
que os ratos se devorem uns aos outros.

31/12/1971

 

“Os calendários mudam…”

Os calendários mudam, são diversos,
povos contaram o tempo de outra maneira,
mas mais curtos ou mais longos desde sempre,
os anos passam. Como medida em que os dias
morrem agrupados numa série que mais longa
morre. Por eles e com eles somos gerações
uma após outra que desaparecem. Alguns ficam
na memória, nos museus, ou transformados
em ideias, sonhos, pesadelos, as imagens
do que fomos ou não, quisemos ser ou não.
Os anos passam. Este, como os outros,
está já nos últimos minutos que tão longamente
se não contaram quanto agora contam.
Foi como os outros sempre um ano triste
de mortes e massacres, insensatos crimes,
traições e mesquinhez, maldade e vis paixões,
e algumas guerras encobertas, exilados,
e foragidos, gente espoliada, tudo
o que sempre se fez na humanidade que
existe em nós maligna além aquém de quanto
às vezes nos faz grandes: um gesto, amor,
a música, e a bondade, as artes, toda a fé
seja em que for de puro e de profundo,
num só que se dedica, em todos que no dia
a dia vão perdendo o tempo que lhes resta.
Este ano morre, outro virá igual,
melhor, pior, terrível, este horror contínuo
de ser-se humano enquanto o ser-se humano é pouco
um pouco mais apenas que existir-se à sombra
do que nos rouba a liberdade clara
de sermos nós e amor, de sermos só sem ódio.
Vai-te como os outros, ano que terminas.
Outro virá cheio de morte e vida,
feito de tudo o que nos cria mais
tristes e mais velhos quando somos velhos,
raivosos e mais velhos quando somos jovens.
Vai-te e que se vá contigo o fétido clamor
de um ano mais. E que outro venha e traga:
oh nada, nada, nada, que não seja só
o tempo que se esvai neste sonhar da vida
como algo de viver-se dentro em nós e em todos.

31/12/1975