Rimbaud, por Jorge de Sena

Referência em matéria de exílios poéticos, simbólicos e biográficos, Rimbaud foi uma influência forte, assumida e recorrente na obra de Jorge de Sena, fosse como eco em seus versos ou como objeto de seus estudos críticos. Talvez, contudo, o exercício de tradução de sua poesia seja a maior forma de homenagem, e o momento de maior aproximação entre os poetas. Vejamos, então, os poemas de Rimbaud traduzidos por Sena e publicados em seu Poesia de 26 Séculos.

 

 

ORAÇÃO DA TARDE

Vivo abancado como um Anjo no barbeiro,
Da cerveja empunhando as grossas caneluras,
Hipogastro e pescoço arqueando, sobranceiro,
Sob o pesado céu de ténues velaturas.

Tal o excremento quente aquece o galinheiro,
Mil sonhos em mim fazem doces queimaduras.
Meu terno coração escorre como um balseiro
Ensanguentado no ouro das emborcaduras.

E quando os Sonhos meus engoli com cuidado,
Depois que já bebi trinta ou quarenta chopes,
Recolho-me a aliviar seu acre resultado:

Doce como o Senhor do cedro e dos hissopes.
Aponto ao pardo céu meu mijo de alto arqueado
— E acenam-me que sim os grãos heliotrópios.

 

OS LÁBIOS CERRADOS (Visto em Roma)

Há em Roma, na Sistina,
E com emblemas brilhando,
Um relicário em esmaltina
Cheio de ventas secando.

Ventas de antigos ascetas,
Cónegos do Santo Gral,
Quando as noites eram pretas
E o cantochão sepulcral.

Nessa mística secura,
Pelas manhãs introduzem
Dos Cismas a trampa escura
Que a poeira fina reduzem.

 

VÉNUS ANADIÓMENA

Como dum verde esquife, em lata, eis que uma testa
De fêmea, com os cabelos negros e ensebados,
De uma banheira velha emerge, lenta e besta,
Exibindo na face estragos remendados.

O colo gordo e pardo; as longas omoplatas
Salientes; e o costado que se encurva e curva;
E renais redondezas — brotam da água turva.
A banha sob a pel' se espalha em folhas chatas.

O lombo é um pouco roxo. E tudo larga um cheiro
Estranhamente horrível. Coisas singulares
Requerem que uma lente ajude ao olho nu…

CLARA VÉNUS é o nome inscrito no traseiro.
E quando o corpo alastra, e as ancas se dão ares.
Uma hedionda úlcera lhe enflora o eu.

 

GUERRA

Criança, céus houve que a óptica me afinaram, e caracteres que me nuançaram a fisionomia. Os fenómenos emparedam-se.

Agora, a inflexão eterna dos matemáticos momentos do infinito persegue-me pelo mundo onde sofro todos os sucessos civis, respeitado pela infância estranha e as afeições enormes. Sonho com uma guerra, por direito, ou por força, de imprevista lógica.

É tão simples como uma frase musical.

 


CANÇÃO DA MAIS ALTA TORRE


Ociosa juventude
A tudo submetida,
Só por solicitude
E que perdi a vida.
Ah, que outro tempo chegue
E o coração se entregue.


A mim me digo: cessa,
E não te vejam mais:
E sem qualquer promessa
De prazer's ideais.
Custa quanto custa
A retirada augusta.

Tanta paciência tive
Que me esqueço agora.
Nenhuma dor revive
Pelo céu afora.
Só a sede maldita
Minhas veias visita.

Assim a Pradaria
Ao esquecimento vinha,
Mais ampla se floria
De incenso e erva daninha.
Ao zubinar das cujas
cem moscas as mais sujas.

Ah quão viúva agora
Uma pobre alma em viagem
Que não tem mais que a imagem
Desta Nossa Senhora.
Ainda há quem sorria
Para a Virgem Maria?

Ociosa juventude
A tudo submetida,
Só por solicitude
E que perdi a vida.
Ah, que outro tempo chegue
E o coração se entregue.

 

 

"Ô SAISONS, Ô CHATEAUX"

Ó temporadas, castelos,
Mas qual alma é sem farelos?

Ó temporadas, castelos,

Já fiz o mágico estudo
Do prazer que não iludo.

Viva ele, de cada vez
Que canta o galo gaulês.

E não desejo mais nada.
Que a vida me foi levada.

Corpo e alma, oh que encanto,
Dele são por meu quebranto.

Entenderem o que eu digo?
Mas se sopra o meu amigo!

Ó temporadas, castelos!
 

Rimbaud, Revisitado

Publicado originalmente no Suplemento Literário de O Comércio do Porto, em 23/11/54, e incluído em O Poeta é um Fingidor, de 1961, e em O Dogma da Trindade Poética (Rimbaud) e Outros Ensaios, de 1989, o texto que reproduzimos a seguir é uma “revisitação” não só a Rimbaud, pela ocasião de seu centenário, mas também à primeira conferência proferida por Jorge de Sena, aos 22 anos de idade, numa homenagem aos cinquenta anos da morte do poeta francês. Mais que análise crítica, o ensaio é uma espécie de amorosa confissão da “fascinação talvez perniciosa mas decisiva” que a escrita de Rimbaud exerceu sobre Sena.

 

A 20 de Outubro de 1854, em Charleville, nas Ardenas, nasceu Jean-Arthur Rimbaud, morto a 10 de Novembro de 1891. Há muitos anos, a primeira conferência que fiz comemorava o cinquentenário da sua morte; creio que é meu dever revisitá-lo, por ocasião do centenário do seu nascimento. Escrevendo dele neste período simbolicamente curto que, de 20 de Outubro a 10 de Novembro, tão bem representa a sua vida breve e a sua actividade poética brevíssima, não poderei dizer que tenha elucidado grandemente as minhas relações com uma figura e uma obra que exerceram em mim uma fascinação talvez perniciosa mas decisiva. Por certo, porém, não diria hoje coisas que então disse, porque o não vejo agora como via. Também a historiografia e a crítica literária impiedosamente e justiceiramente se abateram, entretanto, com uma persistência feroz que é uma homenagem inconfundível, sobre as lendas piedosas, as «berrichoneries» que inúmeros devotos, menos dele e da verdade que de untuosos motivos, haviam tecido sobre a vida e a obra exemplares de um homem que não podia servir de exemplo a ninguém. De resto, ainda hoje a criação literária, a crítica e o interesse dos leitores não atingiram aquela compreensão, aquela coragem da inteligência e da sensibili-dade necessárias para ver-se que retratos equivalentes à vera efígie de Rimbaud se encontram menos nas sátiras sentimen-tais de Proust que em Notre Dame des Fleurs ou Querelle de Brest, tipos humanos que só Jean Genêt recentemente apresentou às mentalidades virtuosas e descuidadas.

Eu não creio que isto seja um motivo para regressarmos à primeira atitude, a daqueles que, directa ou indirectamente, estiveram perto dele e não foram Verlaine ou Germain Nouveau: a da supressão, pura e simples, do «crapaud pustuleux» de, salvo erro, o ilustre Rémy de Gourmont. Independentemente do valor da sua poesia, hoje universalmente reconhecida como das maiores do mundo e de todos os tempos, e da influência dela, insubstituível na história da liberdade espiritual da criação poética, creio até que a uma tal atitude não se poderá, precisamente agora, regressar mais (como me não parece provável que nenhum outro Claudel se converta ao ler essa poesia), embora aquele mesmo mundo poucas vezes se tenha visto à beira, como hoje, de um tão desenfreadamente hipócrita retorno à tirania da moralidade raivosa. De todos os extremos lados — numa competição ansiosa, numa emulação vertiginosa, só compatível com a oposta anarquia social, e não já política — se considera indecência o desassombro e desavergonhada decadência a aceitação, não apenas já no domínio da caridade estética (aceitação essa, que é decadência efectiva), de todas as verdades. Mas este processo ridículo a que assistimos, no decurso do qual uma burguesia que aristocratizou as suas mercearias por efeito da Revolução Francesa as defende de uma onda que, repetindo-lhe as acusações que ela própria fez ao Ancien Regime, anseia por ser colectivamente a mesma burguesia inicialmente individual, se a não salvar do «demónio da rectidão», de que falava William Blake, uma concreta consciência da vida que só individualmente se extrai dos bens comuns — enfim, esse processo não durará sempre. É bem sig-nificativo que, actualmente, no suado fervor da competição, a uns e a outros o Marquês de Sade apareça como a última e extrema expressão da prepotência aristocrática do Ancien Régime que, no entanto, o encarcerou.

Mas, se o mundo, após os sofrimentos por que tem passado, nao pode, sem uma terrível consciência de culpa, transformar em bem e mal a vida que aceita ou recusa; e, se, portanto, não e possível um simplista retrocesso à tacanhez do jantar de família — não menos é impossível qualquer das duas atitudes em que se compraziam os literatos: a aceitação do homem pelo prestígio convincente da obra, ou a cisão total de ambos os termos, para maior glória do que se sepulta no papel e não na terra ou no jazigo. Da primeira atitude, a da caridade esteticista, que é um dos muitos rostos da hipocrisia, já dissemos. Da segunda, que é indispensável à ciência literária, mas prejudicial à cultura com a qual aquela ciência não deve ser identificada, basta dizer que, se uma obra parece muitas vezes merecer um interesse objectivo, independente do respeito que, na maioria das vezes, o seu autor não merece, é porque a humanidade, por um criminoso hábito de angelização abstracta, prefere contemplar-se a si mesma nas delícias das obras que não sofreu para realizar. A grandeza de uma obra deve tudo a uma capacidade de grandeza que em seu criador havia; mas não se suponha abusivamente que as circunstâncias desagradáveis de uma vida expliquem uma capacidade que, como elas, é expressão exteriorizada, em planos diferentes, de uma mesma existência grandiosa ou miserável, terrífica ou ridícula (que todos o são, em graus diversos, conforme as horas e os homens).

Se após a profanação louvável de que tem sido objecto, há uma obra e um homem exemplares ainda mais de tudo isto, creio que serão Rimbaud e a sua poesia. Deve notar-se que continuo a classificá-los de exemplares, depois de ter dito que ele não serve de exemplo a ninguém. É que os verdadeiros exemplos são dessa ordem pavorosa, que não possibilita a imitação, e apenas a caricatura. Há exemplos e exemplos, segundo o número e a quantidade humana capaz de neles se rever sem sacrifício. A influência de Plutarco e dos Evangelhos são bem típicos dessa vaidade humana por procuração: assiste-se respeitosamente ao sacrifício de alguém por nossa própria grandeza colectiva. O sacrifício de Rimbaud, aquilo que ele definiu na frase: «il ne íít que s’amener à la mort comme à une pudeur terrible et fatale» — esse sacrifício é de outra ordem, ainda quando a França lhe erga estátuas e se honre de contar entre os seus filhos esse «fils prodigue», como o denominou Duhamel, há poucos dias, na cerimónia municipal de Charleville. É o sacrifício de tudo o que releva do convívio, da bondade, do amor, da paixão, do conhecimento, da criação de beleza, à conquista de um «pudor» definitivo. E, pela extirpação da literatura, um sacrifício desse mesmo sacrifício, consumido em palavras, antes de o ser fisicamente em sangue e carne gastos e vencidos. Um sacrifício do escrúpulo, do respeito, da dignidade, daquelas flores últimas da resplandecente podridão humana. Como há treze anos, não posso hoje deixar de repetir as palavras de Rimbaud:

De gloire pudique
Environnez-moi.

Mas desejaria acentuar que Rimbaud, sendo exemplar, não é um exemplo. Foi furiosamente um homem pérfido e um maravilhoso poeta, um ser que traiu na vida e na poesia todo o ilimitado. Não o estou condenando por não ter suportado a humanidade demasiado maternal de Verlaine ou por ter levado às ultimas consequências as literatices sinestésicas de Baudelaire. Isso é com eles ou com a história literária. Mas que ele tenha resumido em si próprio, para quem como tal o queira ver, a aflnidade da aventura humana a caminho da liberdade; que ele tenha esgotado e abandonado as virtualidades últimas da poesia e daquela dignidade derradeira que são a única garantia da nossa existência contra tudo e contra todos — eis o que hoje lhe não perdoo. Não lhe perdoo afinal aquilo mesmo por que o admiro. Devo realmente amá-lo muito.

13. Aspectos da correspondência de Jorge de Sena e José Régio

[LER E RELER JS – 13: Horácio Costa]

Ao longo de vinte e três anos, de 1946 a 1969, José Régio e Jorge de Sena trocaram um extenso e intenso intercâmbio postal. No levantamento de Mécia de Sena, que deu origem ao volume por ela organizado e simplesmente intitulado Correspondência (Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1986) constam cinquenta e seis envios de Sena para Régio, e cinquenta deste para aquele, distribuídas em cartas propriamente ditas — quarenta e nove escritas por Sena e quarenta e sete por Régio, alguns bilhetes postais (seis escritos pelo primeiro e apenas um pelo segundo) e um cartão, também remetido por Sena a Régio. A correspondência de Sena inclui cartas dactilografadas — dez no total; a de Régio é totalmente manuscrita. No volume organizado pela viúva de Jorge de Sena, reproduz-se também uma carta escrita por seu marido em seu auto-exílio brasileiro e não enviada a Régio, que se reveste, por isso mesmo, de especial interesse e à qual voltarei mais adiante, bem como as respostas parciais de Régio a um longo questionário sobre sua obra mandado a si por Sena, e que seria publicado, ou daria as bases para a escritura de um artigo deste sobre ela, jamais concluído; desde já, para essas respostas chamo a atenção dos estudiosos da obra regiana, uma vez que aqui não serão enfocadas.

Como não podia deixar de ser, tal intercâmbio longo e volumoso constitui um lugar privilegiado para a consideração de dois dos mais significativos criadores da literatura portuguesa das décadas intermediárias do século passado, tanto no que revelam sobre as suas personalidades, como pelo que guardam sobre a vida literária da e na época. Além disso, apesar de Régio e Sena serem, obviamente, dois indivíduos com características, gostos e horizontes específicos, a relação postal entre ambos pode assumir por assim dizer um valor referencial, no sentido em que, se lida com um ponto de vista generalizador que privilegie a historiografia da literatura, pode indicar as zonas, de conflito e comunhão entre a geração da presença e a posterior, fortemente marcadas por Régio e Sena, tal e como é do conhecimento geral. Mais além de tudo isso, ainda, a epistolografia Régio/Sena tem interesse para o estado — ou, mais do que isto: para a compreensão da relação entre dois autores com interesses literários e estéticos semelhantes, sob a luz da exemplaridade — positiva ou negativa — que a figura do mais velho pode significar para o mais moço, entre a figura daquele como uma espécie de modelo literário para o bem ou para o mal, o que me leva neste momento a recordar, ainda que en passant, a mecânica da «anxiety of influence», conceito pós-freudiano cunhado por Harold Bloom. Minha preocupação, devo dizer, não é com a petite histoire, um risco sempre presente quando se trata de processar qualquer epistolografia que inclua tanto informações de cunho profissional como pessoal, tanto de referências às perpétuas quezílias literárias quanto as da ordem mais subjectiva. Ao contrário, preocupo-me em estudar como se dá — ou melhor, como se dava — a transmissão de uma certa sensibilidade literária intergeracionalmente. Numa época em que cada vez menos se corresponde através do papel e da carta e luxo supino! — através do manuscrito, e na qual o intercâmbio crescentemente virtual torna-nos proclives à desmemória da falta do documento, é com nostalgia e com relativa inveja que me debruço sobre a relação postal entre José Régio e Jorge de Sena.

Vale dizer que há muitos veios a serem explorados nessa correspondência exemplar. Aqui nos deteremos em apenas três aspectos: primeiro, salientar nela alguns trechos relacionados com a concepção da obra literária e da linguagem poética; segundo, e como não podia deixar de ser em se tratanto de um intercâmbio postal que tem tanto de profissional como de subjectivo, avaliar a imagem evolutiva de cada um deles com relação ao outro; finalmente, e em consonância com este último aspecto, recuperar as críticas de Sena a Régio na carta não enviada, já acima mencionada. Em poucas palavras, aqui se tentará analisar, ainda que sumariamente, a correspondência entre ambos num arco que vai das considerações estéticas às éticas.

Com relação ao primeiro aspecto, Régio, já em carta de 26 de Fevereiro de 1942, busca estabelecer um terreno comum com Sena, considerando a concepção da obra literária. Este havia escrito uma crítica sobre Histórias de Mulheres que impressiona muito favoravelmente o autor delas, porque parece pautar-se pelo que considera «o essencial, o importante, o significativo» no livro, ao contrário de outras críticas «só preocupadas com a superficialidade técnica, e apostadas em julgar livros que são sentidos como se foram exercícios literários» (op. cit.; pgs. 38/9). Vislumbramos aqui um horizonte de imanentismo da «coisa» literária, uma concepção que não a vê redutível a uma crítica «objectiva», um intuito de preservação da «artisticidade» da obra literária; por outro lado, tal concepção parece excluir, nela, qualquer sentido de experimentalismo, seja ele propriamente literário ou literário-crítico. A julgar pelo trecho, para Régio a peça crítica tanto melhor será quanto maior for a sua proximidade, sua empatia para com o texto criticado. Não temos uma resposta directa de Sena a este trecho, nem a esta visão, no âmbito da sua correspondência com Régio.

Temos, sim, um outro trecho de Régio, em carta escrita mais de oito anos depois (24 de Novembro de 1950), na qual ele critica dois livros de Sena (Pedra Filosofal e O Indesejado). Passada quase uma década, já a distância da linguagem literária de ambos autores, e indirectamente, entre ambas gerações, torna-se patente quando Régio aponta a Sena que «o problema que tanto um outro [desses livros] logo põem é o da sua difícil comunicabilidade. Quer-me parecer que nenhum autor, entre nós, atingiu tal intelectualização e tal hermetismo (..,)» (pg. 59). Açulado pela dupla categorização, Sena responde incontinenti (26 de Novembro de 1950), e formula um tanto abruptamente a Régio três questões: «(…) não será um parti-pris demasiado de geração, de época, de formação espiritual, que o leva a considerar-me hermético? Naquele sentido em que achamos hermético ou destituído de valor significativo aquilo que é significação dialeticamente distante de nós?», finalizando o trecho por perguntar-lhe se tal parti-pris «Não será um daqueles (…) que uma pessoa como V é das raras entre nós com obrigação e possibilidade de superar» (pg. 60). A esse trio de perguntas incômodas somam-se várias outras que se apresentam ao leitor actual como uma auto-defesa e auto-definição estética de Sena, em franca contraposição com o que percebe serem as bases crítica e estética do mais velho. Depois de mencionar uma notável corrente de nomes «herméticos» ou «intelectualistas» de duas gerações internacionais, a correspondente à de Régio e à sua própria — entre eles, Eliot e Pound e Auden e Dylan Thomas, no que faz gala de suas leituras inglesas —, Sena procura estabelecer a diferença entre si e Régio, dizendo que «há neles» — isto é, nesses poetas — «toda uma experiência espiritual de post-simbolismo, de surrealismo que homens como V. conhecem como informação cultural, mas não vivem como actividade do espírito poético.» (pg. 61).

Régio não polemiza e não responde aos protestos de Sena, que soam como uma verdadeira interpelação. Prudentemente, havia dito em sua carta que teria gostado de tratar esses tópicos ao vivo e talvez o tenha feito; temos a impressão de que, com o tempo, cada vez se comportava com maior cuidado com Sena, dono de uma particular susceptibilidade, só comparável com sua grande inteligência, que Régio, diga-se de passagem, não perde oportunidade de realçar em suas cartas. Não por falta de matéria restante sobre o tema que viemos trilhando, aqui chegamos ao segundo aspecto que queremos tratar.

Desde a sua primeira carta a Sena (9 de Fevereiro de 1947), Régio manifesta-lhe um tema ao qual voltará algumas vezes ao longo da correspondência e que, antes de vincular-se à esfera do propriamente literário, dá-nos uma pauta de sua abordagem humana, inter-pessoal. Refiro-me à sua chamada de atenção — não encontro melhor termo — a Sena sobre o seu temperamento. Cito a passagem: «Quando conversarmos lhe direi que só me desagrada, às vezes, nos seus escritos, um tom de azedume, desconfiança, não sei quê, que acho impróprios dum rapaz que ainda não vi ter razões de queixa contra a Natureza ou o Destino.» (pg. 30) Moto contínuo, de maneira ou cândida ou ardilosa — prefiro a primeira hipótese —, escreve a Sena algo lapidar: «Em mim, tenha confiança», um enunciado de grande poder se considerado no contexto de qualquer diálogo inter-geracional.

De facto, creio que o apelo causou efeito e que Sena teve confiança em Régio. Num primeiro momento, já uma semana depois de escrita a carta a que nos referimos, responde com uma longa missiva que hoje pode ser lida como uma autobiografia precoce e condensada, tanto se esmiuça o mais jovem em narrar ao mais velho as situações familiares e pessoais íntimas que, infere-se, justificariam o tal seu quê azedo e desconfiado, ou, como dirá depois, de «rangente», nele detectados por Régio. Voltemos um pouco atrás: como lhe corresponde como poeta mais velho, Régio a esta altura da correspondência dá a pauta, e a pauta que estabelece é a da confiabilidade, confiabilidade interpares e, o que é mais quiçá importante, entre gerações.

Não é necessário dizer que esta pauta lhe permite retomar as suas críticas ou os seus conselhos a Sena, dizendo-lhe na carta seguinte que «quereria eu que o ranger de dentes se não ouvisse tanto; e outras suas qualidades mais nobres, mais luminosas que a propensão para o ressentimento e a desconfiança, tomassem a dianteira.» (pg. 38) Mas sim talvez seja necessário dizer que ela — digo, a pauta — só subsiste ao longo do tempo se aquele quê ofeçece a certeza da confiabilidade se mantiver à altura da sua promessa, tanto quanto se aquele a quem esta se destina for capaz de, também ao longo do tempo, relativizar as instâncias da sua expectativa e não degenerá-las em sentimentos de traições; em resumo, tal e como entre quaisquer vínculos inter-subjectivos, tudo funcionando como se um pacto entre aquele que confia – o «confiador» — e aquele que assegura a confiança — o «confiável» — tivesse que desenhar-se e manter-se na relação, independentemente de sua manifestação verbal e, menos, literária.

O facto é que Régio estende desde um início a possibilidade de tal pacto a Sena e que este o aceita. O que quero sublinhar aqui é que me parece que ambos o mantiveram menos pelo interesse supostamente comum de afirmar uma posição semelhante no contexto literário de então, e inclusive menos devido às suas personalidades individuais, mas sim pelo peso simbólico, ético, que o mesmo representava em si. Neste momento, recordemos que este passou por uma prova de fogo à altura em que Sena, já no Brasil, escreve e não manda uma carta a Régio, como apontei antes.

Em 1964, Sena está em Araraquara, Estado de São Paulo, dando aulas de literatura portuguesa na recém — criada universidade estadual. Já antes havia sido professor nà não menos nova estadual de Assis, cidade da qual, note-se, escreve em 1960 uma das mais saborosas cartas a Régio, que versa sobre a sua experiência brasileira. Se na carta de Assis, depois de elogiar a qualidade do teatro brasileiro vis-à-vis o português, e de exaltar o clima de liberdade moral e política vigentes, Sena optimisticamente confessa ter-lhe «valido a pena este salto mortal», para usar as palavras com as quais se refere à sua mudança para o Brasil, na carta não enviada o tom e oposto. Lembremo-nos que no dia 31 de Março daquele ano deu-se o golpe militar no Brasil, que entre outros efeitos teve d de implicar, já em 1966, na mudança de Sena e sua numerosa família para os Estados Unidos, em busca das garantias à actividade intelectual e de cátedra que o regime instaurado passa sistematicamente a perseguir.

Nessa carta, datada de 20 de Abril de 64, Sena insurge-se contra Régio por ter este ignorado o golpe militar e suas possíveis repercussões numa carta escrita uma semana antes, nos seguintes termos: «( … ) Portugal é um país tão espantoso, que Você me escreve a 12 e nem sequer se interroga sobre o que está acontecendo no Brasil, e sobre se os seus amigos serão ou não atingidos pelo que se passa… Será que não lê jornais, ou os jornais aí não bastam para perceber-se?» (pg. 171) Se até aqui tudo soa como uma queixa sobre a desatenção ou mesmo a alienação política de Régio, o caminho pelo qual Sena envereda a seguir é muito mais pessoal e agressivo. Sem alongar-nos demasiado, frisemos apenas que, depois de acusar a indiferença de Régio em responder o questionário sobre ele e sua obra, mencionado no começo desta comunicação, Sena resume com amargura a sua situação face à de Régio: «Você feliz, deliciando-se com o muito trabalho que tem por ser monumento nacional, e eu aqui sem saber o dia de amanhã, ou a liberdade de amanhã… (pg. 172) Evidentemente, o que explicitamente leva Sena a este ex-abrupto é a crise política que o afecta; no horizonte, entretanto, desenha-se a consciência da sua diferença — geracional e estética, está bem, mas também, e extensamente vital —, da qual o seu azaroso nomadismo pode ser visto antes como resultado do que causa.

«( … ) não faço parte do séquito das suas sombras. Não fui -nunca também um jovem poeta a seus pés. Não sou, notoriamente, autor de hagiológios. E você apesar do desprezo que tudo isto lhe merece, é disto (que não deixa de gostar», extravasa mais adiante (pg. 173). E pergunta a seguir: «Quer ou não quer lealmente colaborar comigo?», referindo-se precipuamente à questão do já citado questionário mas também, indirectamente, voltando ao tema que ressaltamos, ao trazer à baila, até nesse momento de azedume total, o pacto pré-existente.

De maneira significativa, a carta de 20 de Abril de 64 ficou sem assinar. Escreveu-a, ao que parece, mesmo para não a mandar; antes do que como um tosco — ou «agreste», como qualifica Mécia de Sena — desabafo, poderíamos dizer: escreveu-a para um destinatário já introjectado, para um destinatário que já se havia tornado tão modelar, para bem ou para mal, que se havia erigido, por isso mesmo, em algo indispensável. Talvez pudéssemos pensar que Sena tenha escrito essa carta para si mesmo. Se tivesse pensado — no futuro e em seu lugar nele, provavelmente a tivesse autografado, crer-se-ia. Como dizem os italianos, chi Io sà: são todas suposições. De minha parte, penso que escreveu-a para respeitar o pacto, para vê-la escrita, e sentir-se incapaz de mandá-la, sequer de assiná-la, e isto não simplesmente, como se dirá, por respeito às condições físicas ou emocionais de Régio à época, numa reserva que pareceria demasiado edulcorada, em se tratando de Sena.

O facto é que não a mandou e, dessa maneira, não arriscou desrespeitar ou romper o limite ético, que era mais importante que as acusações, fundamentadas ou não, sobre a própria atitude ética do destinatário, no que tangia aos seus relacionamentos com outros poetas de menor idade. E tal limite não o poderia traduzir eu melhor do que com a noção e pacto silencioso desconfiança mútua.

Melhor dizendo e para terminar, para afirmá-lo refez a carta em questão de dois meses e a 7 de Junho a manda a Régio prenhe de todos os tópicos que recheavam a não enviada, agora bem menos agrestemente desenvolvidos. Mas aqui já nos afastamos do nosso ponto de interesse. A ameaça de rompimento fora devidamente superada. O poder da palavra de Régio, escrita havia mais de vinte anos, seguia vigente, capaz de neutralizar o peso das fraquezas que Sena passara a identificar não só em sua obra mas em sua pessoa.

15. O Plano do Exílio Seniano, Abordagens Teóricas

[LER E RELER JS – 15: Paula Gândara]

 


(to emigrate) is the same as to correct the plan made by the One Above and to tell him:'You put me over here. Well, I'm going over there because I have the chance.

Miguel Delibe, Diario de un Emigrante apud Ilie, 1980, 65.

 


Tendo em mente que este trabalho apenas aponta os caminhos possíveis de uma análise a que não é possível proceder aqui, gostaríamos, no entanto de observar de um ponto de vista teórico as características desse plano antifatalista, duma rebelião inerente contra o destino que a poesia de Jorge de Sena comporta. Vejamos assim as categorias propostas por Paul Tabori em The Anatomy of Exile (1972) para depois proceder a algumas sugestões de abordagem à obra de Jorge de Sena.

Paul Tabori apresenta uma categorização essencialmente histórica, legal e política, se bem que também nos forneça algumas contribuições para um ponto de vista filológico e filosófico. Divide a sua análise em duas grandes épocas: da antiguidade pré-cristã até ao fim do século XIX e refere-se a algumas situações particularmente ilustrativas do século XX, não esquecendo, em quaisquer dos seus momentos de análise, a diferença essencial entre expatriados e exilados e a atitude dos países de acolhimento face a ambos. Partindo do pressuposto que o país de acolhimento sempre ganha dividendos, tarde ou cedo, do seu papel de anfitrião, parte para o problema da assimilação versus a recusa absoluta do presente do exílio por parte do exilado. Atitude essa, que, curiosamente para o nosso estudo seniano, ele considera como tendo o seu ponto alto no salmo 136 de David, que justamente Sena utiliza como fonte de inspiração para “Super Flumina Babylonys” e onde, de alguma maneira, será lícito apreender uma compreensão de tipo biográfico de Luís de Camões, mas também, de forma oblíqua, do próprio Sena. Mas deixemos este ponto, que Jorge Fazenda Lourenço em A Poesia de Jorge de Sena: Testemunho, Metamorfose, Peregrinação (1998) e Francisco Cota Fagundes no ensaio inédito “Do Sofrimento à Apoteose: Uma Proposta de Leitura de Algumas Obras Poéticas e de Ficção de Jorge de Sena” (2000) já tiveram oportunidade de referir. O que aqui se pretende reforçar é exactamente a ideia que o próprio Tabori avança de que “quite a few have sung this song, drawing from the wellsprings of the past, their national identity” (1972, 18).

No primeiro capítulo, “The Semantics of Exile”, Tabori oferece-nos uma distinção já conhecida entre “exilado”, “expatriado”, “refugiado” e “emigrante”, sendo que os três primeiros termos se prendem com conotações de tipo político e ético e ao voluntarismo do acto ou não. O último estará relacionado com razões mais directamente económicas. De facto, o autor vai ao ponto de nos fornecer definições legais de quaisquer dos termos. Interessa-nos, particularmente, a ideia recorrente de que estas categorias não são estanques, ou seja, de que se pode mudar de categorias, o que permite uma aproximação mais cuidada ao caso de Jorge de Sena. Curiosa ainda é a divisão material e psicológica de cinco categorias de exílio, tal como são propostas por um perito de saúde mental das Nações Unidas:

1. persons who were uprooted by forces from outside, against their will […]. The characteristics of this group, who have lived mainly in camps for years, include great apathy and deep mistrust.

2. people who left their countries to avoid persecution […]. For them integration is almost spontaneous.

3. a percentage of persons who left their country mainly because of personal and irrational considerations. The attempt to escape from a certain place in the belief that by moving the conflicts of the past might be solved.

4. the fourth group has been mainly motivated by economic factors.

5. the expellees who were forced out of their country because of the mere fact of their belonging to an unwanted group. In contrast to all other groups, no active decision is involved here, and consequently one finds a strong feeling of homesickness. Integration is sometimes not desired. (Dr. H. Strotzka, “Report to the European Seminar on the Economic and Social Aspects of Refugee Integration”, Sigtuna, Sweden, 1960 apud TABORI, 1972, 29.)

Assim, o autor estabelece, de certo modo, aquelas que ele considera como sendo as definições essenciais do exílio enquanto categoria da ordem da semântica. A estas juntam-se depois problemas psicológicos específicos oriundos de uma identidade que o indivíduo exilado vê em constante mutação.
Em relação a uma psicologia do exílio o autor começa por nos remeter para o exílio edénico e depois para o exílio interno – no mesmo sentido que Andrew Gurr lhe emprestará quase dez anos depois (1981), isto é, um exilado dentro do seu próprio país. Fala-nos, também, dentro desta última categoria, do exílio temporal, ou seja do facto do exilado se sentir preso a um passado inalterável que muito embora seja a sua maior fonte de inspiração, corre o risco de lhe “tiranizar” o presente – ponto que Andrew Gurr também desenvolverá. Finalmente, o autor levanta ainda a questão de quando é que o exilado deixa de o ser: “when he gives up the intention of returning?” (1972, 34). E a partir daqui já podemos colocar o exemplo individual de Jorge de Sena.

As definições de exílio passarão todas elas a um estado de dinamismo e alteração em que dificilmente se consegue manter uma verdade permanente em relação a algo tão intimamente sujeito às variações dos casos individuais. Comecemos por chamar a atenção para a questão da identidade do exilado que, segundo Tabori, está em constante mutação. Já não será a primeira vez que se insinua que Sena é uma personalidade cuja evolução sofre apenas ligeiras inflexões ao longo do tempo. Resta no entanto anotá-lo. Veja-se assim “Regresso” datado de 1945 (in Poesia I, 1988a, 199-200) e “O Douro preso em Barragens” (in Poesia III, 1989, 171-72) de 1971. De onde ou para onde regressava o poeta em 1945, ainda longe de uma ideia de exílio pátrio? Aparentemente para a “casa onde nasci, cujos degraus não conheço / hoje, nem conhecerei nunca […]”. Que casa é esta num poema que caracterizamos como pertencendo essencialmente à ordem do exílio na linguagem e do exílio interior ? O seu próprio eu? O poema continua numa imagística onírica em que o momento do acordar corresponde ao momento da fala e à consequente ideia de regresso a si próprio. É a verbalização que lhe permite o regresso de um espaço interior de um exílio onde “nunca mais, nunca mais a treva acabará.” “O Douro preso em Barragens” é o primeiro poema escrito depois do seu regresso a Portugal, 12 anos passados de exílio nas Américas. Um poema classificado entre os de exílio pátrio, interno e interior. Ou seja, podemos criar aqui a ponte de um exílio interior consubstanciado na imagem de uma casa desconhecida, em trevas, e que após um regresso efectivo à pátria conhece a sua contraparte na descrição do rio, preso entre as margens, os barcos e o tempo, e onde a escuridão de uma casa que apenas se entrevê entre o luar, as luzes dos automóveis e o breve acender de um fósforo encontra a sua contraparte na mesma escuridão de um verde rio “Tão verde ora de névoa surda” “Que rio se era escuro e já de verdes águas”. Uma água que envolve o poeta na mesma mansidão mais ou menos ameaçadora de uma casa desconhecida. Uma água onde o tempo não passa, repetindo a mesma treva de há 12 anos atrás. A descrição, que evoca a necessidade do olhar e de ultrapassar a escuridão é ainda um momento de inactividade, uma pausa comparável ao sonho, onde o poeta, alheado dos dias, não reconhece um outro tempo, mas apenas o mesmo “desmaio das coisas” (1988a, 200) em que a brisa morre e “não barqueiros remam” (1989, 172), porque não em direcção a um outro exílio primordial, para sempre preso entre as águas de um rio que nem na morte oferece a chegada necessária? Não há regresso possível, por isso Sena jamais deixará de ser o exilado que sempre foi.

E Paul Tabori conclui:

The conflicting demands of establishing a clear dividing line and of accepting the undoubted fact of refugee, emigrant, immigrant, and expatriate blending together into the same or similar categories show the deep dichotomy, the search for a stable identity, that is an integral part of exile itself. (1972, 37).


Concluímos nós que essa busca por uma identidade mais ou menos estável não ultrapassou nunca o carácter dessas águas presas num tempo e num país onde o poeta não cabia. E onde a busca é o único movimento. Mas uma busca que acima de tudo se centrava no domínio interior. É que refugiado, emigrante, imigrante, exilado e expatriado juntam-se a uma outra categoria, despersonalizado, no sentido que esta palavra pode ter ao evocar as experiências poéticas de um Rimbaud, e que nos serve para acentuar o carácter profundamente dicotómico desta realidade.
Como síntese, Paul Tabori deixa-nos as seguintes ideias:


1. Um exilado é alguém que é obrigado a deixar a sua pátria, quaisquer que sejam as razões, por motivos de tipo voluntário ou não.

2. O estatuto do exilado é dinâmico: ou seja há uma alteração a nível psicológico e material quer no que diz respeito aos seus sentimentos para com a pátria quer com o processo de assimilação no país de acolhimento.

3. A contribuição do exilado para com o seu novo país será tanto mais válida quanto maiores forem as suas ligações à sua identidade, nacional e espiritual.

4. A determinação do exilado de regressar à sua terra natal esmorece com o passar dos tempos.

5. Por profundo que seja o seu processo de assimilação cultural o exilado retém o interesse pela pátria.

6. É natural que a influência do exilado se faça sentir mais profundamente no país de acolhimento do que na sua pátria.

De alguma maneira, Jorge de Sena passou por tudo isto: emigrante, por motivos económicos, auto-exilado por motivos políticos, exilado internamente, no seu próprio país ainda antes de partir. Retendo uma profunda ligação à pátria que se apercebe não apenas na utilização da língua-mãe na sua produção literária – facto que indica claramente que Jorge de Sena continuava a dirigir-se a um público português – mas também nas preocupações íntimas do autor: a sua tristeza quase permanente por não se sentir suficientemente querido em Portugal, e que se pode constatar não só na leitura da sua correspondência, mas também das várias entrevistas que deu, tal como se pode apreender na abordagem temática de muitos dos seus poemas. É paradigmático o caso de "Em Creta com o Minotauro". Não é aceitável que a sua participação nas actividades que abraça no país de acolhimento tenham sido alguma vez mais importantes do que o seu estatuto de poeta e escritor que se centram no país de origem. Porque se é impossível negar a importância social e política da actividade educacional que o ocupava no Brasil e nos Estados Unidos é igualmente impossível deixar de constatar a imensidão da sua produção literária e o interesse de que é objecto. Quanto à perda da vontade de voltar a Portugal, crê-se que nunca existiu. Ele sempre terá sonhado com o regresso, mas será igualmente verdade que Sena tinha plena consciência da impossibilidade de voltar. Mesmo após o 25 de Abril, as suas palavras deixam-nos o desejo de voltar e paralelamente dizem sempre da dificuldade que tal retorno acarretaria. Doente, com nove filhos, e com uma escrita que se ligava profundamente a uma situação de exílio, o retorno seria provavelmente não só a criação de uma situação economicamente insustentável como a perda da “manutenção” de um espaço de exílio que os seus poemas, ainda escritos em Portugal, já deixavam transparecer, mas que depois de uma volta de livre e espontânea vontade já não seriam de esperar.

Mas vejamos um pouco mais detalhadamente as ideias de Andrew Gurr, em Writers in Exile, The Identity of Home in Modern Literature (1981).
Andrew Gurr apresenta-nos a noção de exílio criativo, defendendo que a criação se processa essencialmente através de uma energia despoletada por um movimento do escritor que, das comunidades pequenas, de onde é originário, parte para as grandes cidades, onde se instala. Será este um tipo particular do escritor moderno, que se centra numa escrita de prosa de ficção realista já que as suas preocupações são, primeiro, de índole social, e só depois, filosóficas e culturais, sendo ainda que “their alienation is not only psychological and economic in the Freudian and Marxist meanings of the word but also physical – a geographical removal from their origins” (Gurr, 1981, 7). É dentro deste quadro que o escritor tende a procurar a sua identidade social e pessoal, princípio e fim da arte moderna. Andrew Gurr chega ao extremo de utilizar os termos “colónia” e “metrópole”, precisamente por considerar aplicáveis as implicações políticas e sociológicas de ambas as palavras, concluindo que o escritor moderno se exila da colónia para a metrópole e que é nesse processo que se constrói a “home-based identity” – ou seja, é o exílio que possibilita a conceptualização do “lar”. Prossegue Andrew Gurr que este processo é o mais nefasto possível para a liberdade do artista. O passado, que se confirma como a fonte de criação da sua identidade é também a sua história, que Freud considera como uma neurose: “a traumatic experience which needs the therapy of self-analysis and understanding before the mind can free itself from its neurosis and emerge into the clear, sane light of day” (Gurr, 1981, 10). É esta terapia que a escrita deve proporcionar ao artista de molde a que ele se possa libertar da sua própria procura de identidade – no entanto, a separação do passado do presente, que implica a separação da noção de tempo e de espaço, provocará nos escritores precisamente uma noção de “lar” que se centra nesses mesmo conceitos: “the home is set in the past, in memories of childhood, as a recherche for the temps perdu, the home of memory, which is the only basis for a sense of identity which the exiled writer can maintain” (Gurr, 1981, 11). Avançando de seguida com a noção de exílio interno, em que o exilado não terá abandonado as suas raízes, acaba por afirmar que “In varying degrees the normal role for the modern creative writer is to be an exile” (Gurr, 1981, 13). A extirpação, “deracination”, é um pré-requisito para a criatividade.

Temos assim um exílio criativo em que a própria criatividade acaba por ser posta em causa pela própria condição que a origina, “a commitment to create a fresh sense of identity through the record of home” (Gurr, 1981, 15). Por outro lado, este pressuposto, implica que a maior fonte de inspiração do escritor, ou uma das maiores, seja a sua própria memória, remetendo tal facto para os princípios filosóficos subjacentes ao Existencialismo.

De seguida, e considerando que existem graus de exílio tal como existem graus de liberdade, apresenta-nos a distinção entre expatriados e exilados tal como foi proposta por Mary McCarthy (1971), ou seja, os exilados são-no por força e por razões de índole política, enquanto os expatriados são-no de livre vontade. Os exilados tendem a permanecer numa grande cidade enquanto os expatriados migram de cidade em cidade, e continuando com aquilo que o autor sintetiza numa simplificação demasiado geral, os expatriados serão essencialmente poetas enquanto os exilados comunicam através de prosa de ficção realista, um mais interessado em expor um psiquismo interior, o outro em granjear uma audiência que não alcançará – sendo o exílio uma imposição política e querendo o exilado alcançar a pátria que se viu forçado a deixar para trás é decorrente que as mesmas forças políticas impedirão a publicação das suas obras!

“There is another principle which exiles find quite as compulsive as the need to claim the universality of their local experience. This is the essentially static nature of the fictionalized home” (Gurr, 1981, 22). Um princípio que se aplica a ambos os casos; enquanto o expatriado procura reconstituir uma história cultural o exilado procura recriar a sua história pessoal, ambos apoiando-se num passado de natureza estática, baseado em retrospectivas da memória − uma retrospectiva que apesar de tudo ainda poderia ser entendida num sentido positivo se se considerasse que ela implica uma perspectiva distanciada e consequentemente mais precisa, delineada, clara, longe de qualquer tipo de sentimentalismo. Concluindo, porém, o escritor queda-se dividido entre a distância da pátria, que lhe permitiu criar a sua própria individualidade, e a memória dessa pátria que, estática, não se compadece com a evolução necessária à sua libertação absoluta.

Mas ainda resta a palavra, “an essentially dangerous piece of equipment with which to forge an identity” (Gurr, 1981, 91). Gurr fala-nos brevemente do instrumento de trabalho do escritor, a propósito de V.S. Naipaul. Sendo a palavra uma forma possível de fuga da realidade quando conducente a uma fantasia escapista ela carrega uma perigosidade latente: “The words which are the exiled writer’s only weapon are aimed outwards to create that ironic awareness of the world’s complexities which is all that freedom of exile allows him” (Gurr, 1981, 91). E será esta a direcção que a palavra do escritor exilado deveria tomar sempre, mas, paradoxalmente, aquilo que o artista vê lá fora e aquilo que ele descreve será sempre a sua própria imagem reflectida no espelho, a sua alienação reflectida em cada canto.

Andrew Gurr conclui, finalmente, que sendo a indiferença a pose do exilado mais comum (por razões de exigência de uma universalidade da escrita, para evitar a nostalgia e o sentimentalismo e como uma arma de defesa contra a dor da situação, em si) e mais caracteristicamente paradoxal, já que implica a perda e o desejo de voltar à pátria, ela é também o sinal mais óbvio da liberdade absoluta adquirida pelo exilado

it signals freedom from all attachments but the self-created identity of home .[…] Like exile itself is both traumatic and liberating, a compulsion and a freedom, which traps the writer into solitude and defends him against the distractions of the world. That is the paradox within whose bounds the artist works out the term of his exile. (Gurr, 1981, 146).


Qual seria então o quadro de Jorge de Sena dentro desta perspectiva? Um autor que nos brinda com poesia e prosa de ficção de cariz realista curiosamente parece imediatamente subverter as categorias estabelecidas, já não se podendo “catalogar” como um exilado. Não são as forças políticas que provocam directamente a saída de Jorge de Sena do país, ou seja, ele não é expulso de Portugal (muito embora, mais tarde, lhe venha a ser interdita a entrada no país) apesar de sabermos que são motivos de ordem política, entre outros, que o levam a abandonar o país. Ora, ele continua a dedicar-se ao género que, segundo Gurr, é o alvo preferencial dos exilados por oposição aos expatriados que se dedicariam preferencialmente à poesia. É verdade que é de poesia que aqui, por questões de ordem prática, nos ocupamos essencialmente, mas não se pode ignorar a apetência do autor pelos outros géneros, onde se incluem obras de ficção como Os Grão-Capitães (1982b), Antigas e Novas Andanças do Demónio (1982a) e mesmo Sinais de Fogo (1988c). O que talvez se possa considerar é um percurso em muito semelhante ao que Andrew Gurr encontra em Katherine Mansfield, ou seja, a passagem de um estatuto de expatriado para um estatuto de exilado, o que nos permitiria a manutenção das categorias avançadas pelo autor, inclusivé no que toca ao próprio percurso físico-geográfico de Jorge de Sena. De facto, na terminologia de Andrew Gurr, um expatriado caminha de cidade em cidade. Ora Jorge de Sena não só se fixa primeiro no Brasil como depois, ao chegar aos Estados Unidos, se desloca de Madison para a Califórnia, isto para não se mencionar o desejo expresso pelo autor, em datas anteriores à sua saída de Portugal, de ir viver para Inglaterra. Aliás, esta ideia do refúgio exílico na cidade é algo que Gilda Santos indicia em “Nome: Jorge de Sena. Profissão: Exilado” (1997). Teremos então um expatriado que passa à condição de exilado e que no seu percurso tenta construir não só uma história cultural como a sua própria “história” pessoal – um percurso perfeitamente compatível com a noção de testemunho que Jorge de Sena sempre defendeu para a sua própria obra e cuja oportunidade Jorge Fazenda Lourenço já pode expor (1988). Poemas como “Quem muito viu” e “Em Creta com o Minotauro” são poemas que denotam clara e respectivamente a criação de uma “história” pessoal e de uma “pátria” por ele mesmo criada. O mesmo se poderá dizer do conceito avançado por Francisco Cota Fagundes em alguns dos ensaios de Metamorfoses do Amor (1999) quanto ao carácter biográfico de grande número de peças literárias de Jorge de Sena que se confunde com o postulado por Gurr quanto à necessidade do expatriado construir a sua história pessoal através da escrita. Mesmo a indiferença como qualidade de escrita enquanto forma de evitar posições confessionalistas é algo que o próprio Sena teve oportunidade de defender no célebre prefácio a Poesia I (1988a). Quanto à questão da distância da pátria e do dinamismo ou não que Jorge de Sena empresta à imagem da mesma é algo que, dada a complexidade do assunto, gostaríamos de retomar mais tarde quando nos referirmos ao exílio interior, ainda segundo a terminologia de Andrew Gurr e não de Paul Ilie, a quem já tivemos ensejo de nos referir.

Questão ainda de importância fulcral e que se mantém em aberto estará relacionada com a “therapy of self-analysis and understanding” (Gurr, 1981, 10) que a escrita deverá proporcionar de molde a que o seu autor se possa finalmente libertar das imposições causadas pelas razões que motivaram a sua criatividade em primeiro lugar, ou seja, resta-nos saber até que ponto Jorge de Sena se terá libertado da sua própria alienação.

Quase vinte anos depois de Tabori ter sistematizado de forma coerente as várias perspectivas do exílio, Bettina Knapp centrar-se-á nas noções de um exílio exotérico – factual e exterior – e esotérico – empírico e interior, sendo este último algo que ela considera como uma situação quase fulcral para a produção literária, aproveitando o ensejo para estabelecer uma análise de um processo de escrita a partir do interior do sujeito escritor. Ou seja, Bettina parte para um trabalho de natureza essencialmente psicológica, fazendo uma ligação aos estudos jungianos e terminando com a noção negativa que etimologicamente “alienação” representa :

Like God’s self-imposed exile, contraction, or retreat into absoluteness, and return into his depths, the writer’s movement is inward. After his exile into his hidden, impersonal, and unfathomable depths during the precreative period, he liberates himself from outwardly entanglements, thus activating, like God during his withdrawal into himself, the creative process. […] To retreat into the transpersonal inner recesses of the psyche, defined by C. G. Jung, as the collective unconscious […] is to penetrate a world inacessible for the most part to conscious understanding (1991, 13).


É destes pressupostos que partirá para uma explicação do processo de individuação de Jung que, a ser realizado plenamente pelo escritor, culminará numa escrita em que os arquétipos se poderão ligar à condição existencial do leitor. Depois da aplicação prática dos seus pressupostos à análise da obra de dez autores, Bettina Knapp conclui:

Transmuting the explosive factors living inchoate within their psyches into words permitted these individuals to objectify chaos by projecting it outside of themselves. […] Archetypal exile may be viewed as a code; the written work as the decoder of the message. The images projected by the archetype […] could be likened to palimpsests […], the various levels of the mind become visible in multiple ways in the written work (1991, 23).

 

Um trabalho de análise a que gostaríamos de dar continuidade nos textos senianos de forma a comprovar claramente o que aqui expomos, mas que terá de ser efectuado noutra ocasião.

Observe-se agora a obra de Sante Matteo, Textual Exile, The Reader in Sterne and Foscolo, (1985) que nos interessa apenas na medida em que abre perspectivas de trabalho menos óbvias no que diz respeito a um estudo dos possíveis exílios a encontrar na obra de Jorge de Sena, nomeadamente o exílio do leitor e o exílio temporal. Note-se, no entanto, que desde já nos parece possível deturpar o exílio do leitor tal como Sante Matteo o apresenta. Ou seja, o autor fala-nos de uma perspectiva que se centra na concepção de Genette, Frye, Jauss, Eco e Iser, ou seja, em concepções viradas para o estruturalismo e para a estética da recepção. Esta perspectiva é contraposta a teorias de estudo centradas no autor, teorias baseadas em factos de carácter mais ou menos biográfico. E se não é novo que o autor determina o leitor e que o leitor é responsável por grande parte do significado atribuível ao texto, o que nos interessa a nós é até que ponto está o texto de Jorge de Sena virado para um leitor real ou para um leitor abstracto construído quase que em absoluto pelo próprio autor ao longo das suas inúmeras introduções e prefácios que apontam os caminhos de leitura possíveis e inclusivé destroiem outras que o Autor considera inapropriadas ao seu texto. Acabamos por ficar com a questão do exílio do leitor, não perante a obra em si mesma, mas perante o autor dela. Ou seja, o leitor real corre o risco de se sentir semanticamente alienado face ao texto. O que nos leva a outra questão que se prende de forma irrevogável com a primeira: é o leitor a quem se dirige, ou o leitor na obra de Sena, uma construção temporal? Ou existe apenas num tempo sonhado de comunhão física com a pátria que na realidade nunca se consubstancia? Que situação se vive afinal nos textos senianos, de cooperação entre autor e leitor, de coerção entre os dois? Uma mistura de ambas? Ou será ainda que nenhuma destas é verificável sendo que o leitor construído por Sena seja uma construção ideal, e portanto exilada do espaço e do tempo reais?

Insofar as the text, or, to be more precise, the collection of words of which the text is comprised, is produced with a certain reader in mind, that reader plays a constructive role in shaping that collection of words. This does not mean that the empirical reader who shows up at the picnic (i.e. who picks up the text and reads it) is necessarily the same as the imagined reader who is implicitly involved in the production of it. In fact the two readers may be radically different, one a hot-dog lover, the other a hamburger lover. The picnic can still take place; but someone will probably be eating hamburgers on hot-dog buns.

Though author and reader try to anticipate and complement each other’s role by trying to share the same information through commonly shared codes, it is also possible that one or the other depart from the conventionally established codes, thereby obstructing the communication of information between them (1985, 32).

O que parece que acontece com Sena é exactamente o oposto, ou seja, para que nunca se corra o risco de comer hambúrgueres em pão de cachorro quente, e passe-se a americanização da metáfora, o Autor explicita exactamente qual é a comida que ele pretende que se coma e com que acompanhamentos… o que, de facto, deixa muito pouco espaço de manobra à construção de sentido por parte do leitor. E nesse caso, perguntamo–nos, onde é que está o papel do leitor, onde é que está o leitor, senão exilado numa construção mental seniana, em que ou a entidade leitora se conforma exactamente ao perfil proposto ou o texto corre o risco de perder a sua autoria no sentido mais literal do termo.

Nos posfácios, prefácios e notas aos seus poemas Jorge de Sena aproxima-se de uma análise possível de alguns aspectos da sua obra. Ressalte-se especificamente os textos preambulares aos Os Grãos-Capitães, que por razões de economia textual nos abstemos de citar mas que levantam acuidadamente a outra questão, ou seja, a do exílio temporal desse leitor:

More “artistic” texts tend to be written as much against conventions and expectations as in compliance with them […] which would explain why so many ‘classics’ were not well received, or were “misunderstood”, during their own time (1985, 35).

Esta perspectiva poderia explicar parte da situação, ou seja, que Sena, estando consciente desse lapso temporal entre a obra e o seu leitor, procurasse ultrapassá-lo através de um excesso de indicação de caminhos por onde o leitor haveria de seguir, não lhe dando qualquer oportunidade de criar ou escolher o seu próprio caminho na imensidade de leituras possíveis de um texto. É este o leitor modelo de Eco, uma entidade textual, cuja competência é inscrita e prescrita pelo próprio texto. Ora já que ler um texto não é apenas reconhecer o seu significado mas a pluralidade de significados que ele possa ter, uma leitura guiada desta forma pode, de algum modo, auto-invalidá-la. Por outro lado, a criação de um leitor desta natureza pressupõe um texto de algum modo acusatório da sociedade incapaz de o produzir bem como fútil em si mesmo, pois que o protesto não poderá ser apreendido por esse leitor inexistente. Ou dito de outro modo, a ausência da pátria que nega a Jorge de Sena a existência de um público leitor é a condição da própria futilidade do discurso, no sentido em que é a falta que postula o excesso de indicações da escrita do autor que nem por isso, ou que precisamente por isso, se torna ilegível, já que não permite a existência de um público diverso e secular mas de um leitor modelo, exemplar e atemporal.

E passemos a Michael Ugarte, em Shifting Ground, Spanish Civil War Exile Literature, (1989):

one might designate exile as the unknown quantity of X; it is an unidentified person, one who has been something but is no longer, a hypothetical being or thing, something which has no tangible existence, a quantity whose specific value is unascertainable, unreachable through mathematical calculation or linguistic definition. It is the signature of one whose identity has been stripped, whose very existence is, for one political reason or another, no longer verifiable with a name (1989, 3).


A aproximação escolhida pelo autor começa de imediato por colocar o exílio muito próximo de uma definição impossível, como se se localizasse num lugar de ausência. No entanto, o exílio possui dimensões sincrónicas e diacrónicas, sendo uma experiência tanto pessoal como colectiva aberta ao reconhecimento de estruturas semelhantes quer ao nível de comportamento do sujeito exilado quer ao nível literário. E aqui situa-se o exílio tanto ao nível de um fenómeno, portanto de uma coisa que pode ser a literatura − que aliás, o autor considera como sendo sempre um espaço de exílio − e de uma pessoa, o autor, exilado em si, exilado no seu país, exilado fora dele. Conclui-se, porém: “the victims [of exile] share an uncontrollable need to write, to recall, to testify. […] But the very absence of a listener […] seems to kindle the exile’s fiery need to speak, to make use of a disappearing language.” (1989, 4; negrito nosso). Os traços da linguagem em vias de extinção não nos são dados, para já – é aliás o objectivo do autor procurá-los ao longo do seu trabalho − mas o exílio assim enformando um sujeito remete-nos de imediato ao sujeito da nossa análise quando no prefácio de Poesia I nos apresenta a sua concepção de poesia. Segundo Jorge de Sena, poesia é confissão transfigurada e testemunho:

o “testemunho” é, na sua expectação, na sua discrição, na sua vigilância, a mais alta forma de transformação do mundo, porque nele, com ele e através dele, que é antes demais linguagem, se processa a remodelação dos esquemas feitos […]. Como um processo testemunhal sempre entendi a poesia, cuja melhor arte consistirá em dar expressão ao que o mundo (o dentro e o fora) nos vai revelando […]. Testemunhar do que, em nós e através de nós, se transforma, e por isso ser capaz de compreender tudo, de reconhecer a função positiva ou negativa (mas função) de tudo, e de sofrer na consciência ou nos afectos tudo […] (1988a, 26).

Seleccionámos propositadamenta parte da definição proposta pelo autor. Não nos interessa estudar aquilo que exactamente o autor entende por testemunho ao longo da sua obra − trabalho já realizado por Jorge Fazenda Lourenço e que já tivemos oportunidade de referir − mas sim ligar esta definição à de Michael Ugarte. Assim, para este, a literatura é sempre literatura do exílio, e exílio e exilado implicam sempre a noção de testemunho; que por seu lado, Sena liga indissociavelmente à poesia que como linguagem caracterizada pela ambiguidade é o espaço ideal para ligar o exterior ao interior (o mundo de dentro e de fora, que Sena refere na entrevista televisa a Frederick G. Williams) compreensivel e afectivamente. Ficamos com a poesia como linguagem testemunhal que é por outro lado condição absoluta do exílio e com a mesma forma de linguagem como um espaço de transição entre o dentro e o fora, espaço esse que mais uma vez se pode ligar à situação do exilado. O exilado permanentemente entre o país que o acolhe e o país que deixou, o exílio permanentemente entre o fenómeno e a pessoa, sempre na margem de alguma coisa, sempre numa posição limítrofe entre dois espaços, dois tempos, ou, para o crítico, entre duas áreas de estudo (ver Ugarte, 1989, 7). E se no caso de Michael Ugarte ele prefere considerar essa segunda área como sendo a da política − lugar efectivo de um exílio primário − nós preferimos considerar essa segunda área como a da psicologia e psicanálise. Disciplinas essenciais à ligação do dentro e do fora e que nos permitirão entender esse espaço de fronteira que a poesia pode, depois de entendida na sua função explicativa, finalmente representar; e que Sena reclama como fundamental para uma posterior transformação do mundo que faz do poema uma actividade revolucionária. Nas palavras de Sena a poesia “é também, nas relações do poeta com o que transforma em poesia, e com o acto de transformar e com a própria transformação efectuada − o poema −, uma actividade revolucionária.” (1988a, 25-26) E que revolução maior poderá ser essa senão a do refazimento da(s) fronteira(s) dos leitores perante a poesia?

Mas voltemos a Ugarte e à questão dos padrões de escrita exílica, que acaba finalmente por considerar como sendo a propensidade para o testemunho e autobiografia com todas as suas implícitas manifestações problemáticas: “moral discourse, obsession with memory, displacement of the subject, and marginality” (1989, 31) a par com as estruturas próprias de cada autor. Naturalmente, isto resulta numa incapacidade de ligar o tempo e o espaço cronologicamente. Uma situação que mais uma vez facilmente se entende em Sena e na confissão transfigurada que, nele, a poesia também é: mas “tenho para mim […] que ao tempo só escapamos com alguma dignidade, na medida em que, sem subserviência, o tornamos co-responsável dos nossos escritos” (1988a, 27).

Resta-nos referir Lewis Nkosi e Home and Exile, (1983) cuja primeira edição data de 1965. Nkosi lida com a realidade particular do exílio dos negros sul-africanos, e a propósito diz-nos:

People loved quickly, they lived fitfully; so profligate were they with emotion, so wasteful with their vitality, that it was very often difficult for them to pause and reflect on the passing scene. This I think partly explains why so many black South African writers have concentrated on the journalistic prose, more often on the short story but rarely on the long reflective novel. It is not so much the intense suffering (though this helped a great deal) which makes it impossible for black writers to produce long and complex works of literary genius as it is the very absorbing, violent and immediate nature of experience which impinges, upon individual life. (1983, 12).


Este trecho interessa-nos na medida em que Jorge de Sena escreve um único longo romance, Sinais de Fogo, e porque já tivemos oportunidade de comparar a sua escrita à escrita jornalística na análise que fizemos a Inglaterra Revisitada (Gândara, 1992) e, ainda, porque Jorge de Sena não se conforma nunca com uma visão moderada do seu próprio estatuto. Quase que podemos atrever-nos a comparar a violência da sua experiência interna de exilado àquela da condição específica dos escritores negros da África do Sul. As palavras que Nkosi utiliza para nos descrever a sua chegada a Nova Iorque pela primeira vez poderiam ter sido ditas por Sena:

there went up to my throat an insane, childish cry which demanded of this land that it should enfold me, love me more dearly than all the others, as though I deserved any special attention. Wasn’t I one of those who had been hurt more than most people, and didn’t I therefore deserve more affection than anyone else? But I had also assumed, automatically, a guarded stance […] and because I thought America expected every visitor from the smaller countries to pay homage to all this gadgetry – certainly to its magnificent technology – it suddenly became important to refuse to oblige (1983, 53).


Ou melhor, foram ditas por Jorge de Sena em Sequências (1980a) sem dúvida de outro modo, e já analisadas por nós num trabalho intitulado “Jorge de Sena, ou Para o Exílio na Palavra” (in Santos, 1999) Da mesma maneira que já foi analisada essa faceta infantil, esse mundo infantil em que tantas vezes Jorge de Sena se constrói, por Francisco Cota Fagundes no seu trabalho inédito sobre a representação da infância e da criança na poesia de Jorge de Sena, “O Impulso Distópico na Poesia de Jorge de Sena, Textos, Contextos e Intertextos” (2001).

E metade fica por dizer neste texto essencialmente teórico que mais não faz do que indiciar caminhos de análise.
 


Bibliografia consultada:

Corpus Primário

1978 ″Fui sempre um exilado mesmo antes de sair de Portugal″ in Diário Popular, supl. Letras e Artes. 27 Abr. i+.

1980a Sequências. Lisboa, Moraes Edit.

1980b ″Ser-se Imigrante e Como″ in Gávea-Brown, 1,1, Jan-Jun. Providence, R.I. 7-17.

1982a Antigas e Novas Andanças do Demónio,(Contos). Lisboa, Círculo de Leitores. (1978).

1982b Os Grão-Capitães, uma Sequência de Contos. Mécia de Sena, ed..Lisboa, Ed.70. (1976).

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14. Heranças de Nemésio, Sena e Ruy Belo

[LER E RELER JS – 14: Fernando J. B. Martinho]

Embora escrito em 1998, quando se assinalavam os 20 anos de falecimento dos três grandes escritores, este ensaio de Fernando J. B. Martinho (cuja permissão para o reproduzir muito agradecemos) permanece como importante contributo a uma visão de conjunto da poesia portuguesa na 2a. metade do séc. XX, e, ao rastrear o quanto foram eles "fermento activo na cena poética nacional", convida a estudos que estendam ao século XXI essa tão fecunda herança.


À entrada do último livro de Luís Filipe Castro Mendes, Outras Canções (1998), há uma epígrafe de Ruy Belo: «O receio da morte é a fonte da arte». Ela articula-se com uma outra, de Umberto Saba, no fim do volume: «Ed è il pensiero della morte che, in fine, aiuta a vivere». Esta combinação de epígrafes, vinda de um autor inserido num período que tem particularmente insistido na inseparabilidade da poesia e da vida, sublinha a ideia de que o receio, ou o pensamento, da morte é não apenas a fonte da arte, mas também o motor da própria vida.

Num poema da primeira parte do livro (p. 21), Castro Mendes glosa uma epígrafe de Jorge de Sena. E o mesmo poeta se encontra palimpsesticamente presente em dois textos da terceira parte, «Camões na Ilha de Moçambique: uma variação» (1978o, p. 53) e «Gonzaga na Ilha de Moçambique: uma meditação» (ibid., p. 54). No primeiro (dedicado à memória de um outro poeta que também cantou a Ilha, Rui Knopfli), através da citação de um seu título; no segundo, por via da alusão a um celebrado verso de Gonzaga («eu tenho um coração maior que o mundo»), objecto de uma sua homenagem de alguns anos antes. Um e outro monólogos dramáticos, diferentemente do que se verificava nos textos de Sena, os poemas de Castro Mendes ilustram bem a tendência citacionista da sua poesia (e não só; igualmente da actual lírica portuguesa), que, por entre alusões, referências, citações, apela para a cumplicidade de um leitor minimamente capaz de aceder à enciclopédia envolvida. Observe-se, de passagem, como, ao mesmo tempo, eles exemplificam o carácter frequentemente múltiplo do jogo intertextual, pondo em evidência, através do cruzamento de diversas vozes, a infinidade de elos da cadeia que constitui a tradição literária.

Se, como acabamos de ver, a presença de dois dos poetas que aqui homenageamos é facilmente reconhecível na recolha de Luís Filipe Castro Mendes, já a do terceiro, Vitorino Nemésio, não é tão imediatamente perceptível. Se, no entanto, lermos com atenção um dos dois poemas dedicados a Ouro Preto no livro, «Anoitecer de Ouro Preto» (pp. 27-28), não deixaremos de notar nele um eco de Nemésio, ainda que muito diluído. Este é, aliás, um texto que mostra à perfeição como a escrita poética é feita de ecos, reenvios, numa activação permanente da memória literária cujas linhas muitas vezes aparentemente se perdem em disposições capilares ou entrelaçamentos em filigrana dificilmente identificáveis. A memória mais presente no poeta quando da composição do texto, que adopta a forma romancística, é a do «Romance de Ouro Preto» de David Mourão-Ferreira (1988, pp. 398-400). O problema é que na memória deste se recortava com toda a nitidez o Nemésio autor de «romances» e evocador do sortilégio da cidade de Minas Gerais, e, por isso, ele o invocava como um dos espíritos do lugar e o convocava ao espaço do poema para lhe «fazer companhia» (ibid., p. 399). Assim, a memória do texto de Mourão-Ferreira arrasta consigo a dos textos de Nemésio, se é que, como creio, a destes não se impõe, afinal, de modo menos oblíquo do que poderíamos pensar.

Se passarmos a outros livros de muito recente publicação, sem dificuldade nos daremos conta da centralidade dos nossos três poetas nos cânones pessoais dos seus autores. Atentemos, por exemplo, no último livro de Nuno Júdice, A Fonte da Vida, de 1997. Aí encontramos um poema intitulado «Vénus Anadiómena» (p. 42), em que, de imediato, lemos uma alusão à sequência de Jorge de Sena, «Quatro sonetos a Afrodite anadiómena» (1978a, pp. 149-153). O texto de Júdice segue, no entanto, um caminho totalmente diverso, como, logo, parece sugerir a simples mudança de designação da deusa, da mitologia grega para a romana. Com efeito, o poema de A Fonte da Vida, se exceptuarmos o jogo aliterativo presente num dos versos («fruto de fumo no fundo da fonte»), é alheio ao experimentalismo fónico do texto seniano, e prefere dizer o «desejo» em palavras que não «deixem de significar semanticamente» (cfr. Sena, 1978a, p. 164): «e dá-me / a cor de pálpebras sem o peso do / sono!, para que a tua presença se / vista de mármore, os teus braços / ganhem a consistência da eternidade, // e uma onda rebente nas raízes / de uma frase tumultuosa, levantando / o vento da terra, abrindo as nascentes / do amor, e restituindo-te o corpo / que desejo com a queda das folhas, a / nudez dos ramos, a embriaguez do ar». A Vitorino Nemésio, por sua vez, é dada a fala num poema incluído em Não É Certo Este Dizer, de João Miguel Fernandes Jorge, um dos poetas que, nos anos 70, estavam «com o que ele» fazia e lhe compreendiam «a tradição», para usarmos os termos com que Joaquim Manuel Magalhães se referia à identificação de «alguns da nova poesia» com o camarada mais velho numa conhecida nota crítica sobre Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas (p. 80). Ruy Belo, a quem, como há pouco vimos, Luís Filipe Castro Mendes foi buscar a epígrafe liminar de Outras Canções, fora já objecto de uma glosa por parte do mesmo poeta numa sua colectânea anterior, no poema «Nós os vencidos do Surrealismo» (1994, p. 20), em que a transformação operada implicava essencialmente uma mudança do campo religioso para o campo literário. Mas deixemos por ora este texto, a que, oportunamente, havemos de voltar, e passemos a um outro ponto, uma vez que o que nos interessou essencialmente ao referir os textos recentes de Júdice, Fernandes Jorge e Castro Mendes foi chamar, rapidamente, a atenção para a presença viva, actuante de Sena, Nemésio e Ruy Belo na memória literária de três poetas representativos da lírica portuguesa das últimas décadas.

Falecidos por coincidência no mesmo ano, Nemésio, Sena e Ruy Belo correspondem a momentos muito diferentes da nossa poesia novecentista. Sem pretendermos, de modo algum, prendê-los, a nenhum deles, aos ditames de uma periodização limitadora, não nos parece, todavia, possível dissociar Nemésio do Segundo Modernismo, não obstante as profundas mudanças de rumo que se observam ao longo do seu extenso itinerário poético, nem desligar Sena de um momento ulterior dentro da nossa tradição modernista que alguns já têm designado, não sei se convincentemente, de Terceiro Modernismo (cfr. Lopes, 1987, p. 770), apesar da complexa evolução por que também passa a sua abundante produção poética, nem separar Ruy Belo do momento em que, entre os anos 60 e o decénio seguinte, a modernidade, na arguta observação de Eduardo Lourenço, de si mesma se despedia (p. 199). Ao morrer aos 76 anos, Nemésio teve, de alguma forma, ocasião de ver concluído o seu edifício poético, até simbolicamente, como o atesta a publicação em 1972 de Limite de Idade. Já do frenesi criativo de Sena, falecido antes de completar os 60 anos, muito haveria ainda a esperar, tanto mais que entre os últimos textos compostos se encontram alguns dos seus melhores. Quanto a Ruy Belo, é extremamente doloroso fazer contas (que às vezes nos esquecemos de fazer) e verificar, com dura surpresa, que a morte lhe veio com pouco mais de 45 anos. Quando morre, Nemésio é um poeta reconhecido pelos seus pares e pela crítica; a consagração levou algum tempo, mas quando chegou, chegou com força, e o seu lugar no cânone tem-se mantido sem desfalecimentos até hoje. Sena era, ao morrer, uma figura respeitadíssima, e não lhe faltava o reconhecimento dos outros poetas e dos críticos; descrente desse reconhecimento, que sempre lhe pareceu pouco, o que pensará, lá onde estiver, da sua imparável canonização nos últimos vinte anos? A Ruy Belo, desde o princípio que lhe não minguou a consideração dos que, na instituição literária, definem o lugar e a estatura de um escritor, mas a glória, coisa que a sua formação lhe dizia ser efémera, não pareceu preocupá-lo grandemente.

Não obstante o que acima ficou dito acerca de Nemésio e de Sena, é curioso observar que a definição da sua verdadeira estatura enquanto poetas faz deles, enquanto fermento activo na cena poética nacional, fundamentalmente poetas da segunda metade do século, o que, no caso de Ruy Belo, pela simples factualidade cronológica, não há que fazer ressaltar. É certo que Nemésio publicou três títulos importantíssimos na primeira metade da centúria, La Voyelle Promise (1935), O Bicho Harmonioso (1938) e Eu, Comovido a Oeste (1940), mas o seu efeito sobre a poesia da época ou imediatamente posterior parece-nos reduzido, como também nos parece indubitável que, se esses livros não tivessem tido continuidade nos publicados a partir do começo dos anos 50, a estatura literária do poeta não teria atingido as proporções com que hoje a vemos, das de mais vincada presença em todo o período pós-Pessoa. Do mesmo modo, não é possível desconhecer as primeiras colectâneas de Sena, mas também nos parece estar fora de dúvida que é a partir da publicação de As Evidências, de 1955 e de Fidelidade, de 1958, que a grandeza do poeta se torna claramente perceptível. É também, aliás, a partir da década de 50 que podem reconhecer-se em alguns poetas o que poderíamos considerar os primeiros sinais da herança de um e de outro.

Comum aos três poetas, é, como já se terá depreendido do que atrás dissemos, a centralidade da sua posição no cânone dos poetas revelados nas últimas décadas. O reconhecimento dessa relevância, e do exemplo que representaram para as novas gerações, tem mesmo levado algumas vozes a falar de uma aproximação de Nemésio e de Sena ao Pós-Modernismo, o que se nos afigura em qualquer dos casos (cfr., relativamente a Nemésio, Mourão-Ferreira, 1992, p. 4, e, relativamente a Sena, Silvestre) dificilmente defensável. Uma coisa é a presença seminal de um e de outro poeta na memória literária dos poetas enquadráveis no período da nossa lírica que se poderia considerar pós-modernista; outra, muito diferente, é situá-los periodologicamente, por esse motivo, sob o signo do Pós-Modernismo. Que ambos abriram caminhos determinantes a muitos dos poetas revelados a partir dos anos 70, como teremos ocasião de ver, é incontestável, mas isso não autoriza, de modo algum, um deslocamento periodológico, que não tem a sustentá-lo mais do que um ou outro traço avulso sempre passível de se puxar para onde se queira. Nem a complexidade do enquadramento periodológico de um e de outro poeta, adensada pela grande diversidade de pistas e registos que se observa nos seus percursos, permite aquela aproximação. Integram-se os dois, cada um a seu modo, é evidente, e com pontos de partida geracionais muito diferentes, no paradigma modernista, cujo processo evolutivo as suas obras reflectem, ora aproximando-se mais de uma ora da outra das duas vertentes que Sena distinguiu no Modernismo (cfr. 1994, pp. 74-75). Ao longo dos anos, Sena sempre fez questão de acentuar o vector vanguardista do nosso Modernismo, a ponto de num texto de 1967 (cfr. 1988, pp. 107-123), em plena vigência de tendências neovanguardistas na nossa poesia, por um alargamento excessivo do conceito de vanguarda, quase deixar rasurado o carácter duplo do Modernismo que noutros textos não deixou de destacar (e.g. 1994, pp. 13-80). Deixem-se aqui registadas como exemplo dessa quase indistinção entre vanguardismo e Modernismo duas passagens do texto de 1967: uma que se fala do grupo da presença a tomar "a bandeira vanguardista nas suas mãos" (p.114), quando é bem sabido que o Segundo Modernismo se distingue precisamente, embora de alguns dos autores nele enquadráveis não estejam ausentes preocupações vanguardistas, pela clara preponderância do vector modernista (stricto sensu) sobre o vector vanguardista; a outra em que, a propósito da poesia de Reinaldo Ferreira, se diz ser ela «um hábil compêndio de todas as conquistas formais do vanguardismo menor» (p. 122), quando essa poesia é generalizadamente vista na continuidade do que no Primeiro e no Segundo Modernismos passa ao lado da vertente vanguardista. Ora, nada mais longe da fidelidade de Sena ao espírito vanguardista que, a certo passo do mesmo texto, o faz, por exemplo, dizer que «depois de 1915, e sobretudo depois de 1945, quando se dá como que o triunfo definitivo do vanguardismo, nunca mais foi possível em Portugal que um poeta se alheasse de padrões vanguardistas, sem correr o risco de ser medíocre, passadista, inculto, provinciano, de baixo nível de cultura e gosto» (p. 112), do que o olhar lançado por alguns poetas dos últimos decénios sobre «modernismos» e «vanguardas», que, aqui, ilustro pelas palavras de um deles, em texto versificado que serve de posfácio a Gramática do Mundo, de Maria de Lourdes Belchior: «Modernismos e as poses que se lhes seguiram/até há poucos anos atrás acabaram.» (cfr. Magalhães, in Belchior, 1984, p. 117); «Conseguiremos nós reencontrar a paz/ da linguagem que nos reensine um mundo / sem a brutalidade do que nos mostrou / o arruinado pavor das vanguardas?» (ibid., p. 119).

Quanto a Nemésio, frequentemente a sua poesia se insere, como deixei dito noutro lugar, «na linha mais transgressiva do Modernismo», pelo gosto pronunciado que evidencia por «dissonâncias, prosaísmos, ou sinuosidades ou inesperadas mudanças» do discurso, por todo o tipo «de experimentações ou ousadias a nível do trabalho de linguagem» (cfr. Martinho, inédito), que levaram inclusive alguns experimentalistas a ver nele um «precursor» (cfr. Castro, 1985, p. 159). Ruy Belo, que situámos, como estarão lembrados, de acordo com a proposta de Eduardo Lourenço (p. 199), no momento em que a modernidade se despede de si mesma, está ainda do lado dessa modernidade, como pode depreender-se de alguns pontos essenciais da sua poética, que retiro de uma entrevista dada nos anos 60: o entendimento da poesia como «fundamentalmente uma aventura de linguagem» (1984, p. 23), o acentuar da sua «natureza revolucionária – renovação da sensibilidade, da linguagem» (ibid.,p. 24), e a «atenção» prestada aos problemas levantados por duas correntes dominantes nos anos 60, «a do realismo» e «a da vanguarda», embora ele se considere incluído no que considera a terceira corrente, a dos que «se empenham sobretudo em solucionar as questões que a sua própria obra lhes vai pondo», e a que associa também os nomes de António Ramos Rosa e Herberto Helder (ibid,, pp. 24-25).

Debrucemo-nos, finalmente, em respeito pelo título desta comunicação, sobre as heranças de cada um dos poetas, individualmente considerados, se é que tal é possível ou conveniente. E comecemos, como manda a cronologia, pelo mais velho, Nemésio. E pela questão de saber se entre os seus herdeiros estariam os surrealistas. Isto porque se tem posto o problema, e Sena foi um dos que melhor o puseram (cfr. 1988, pp. 247-249), das possíveis relações das três obras publicadas por Nemésio a partir de 1935 com o Surrealismo. Sem descartar a possibilidade de o autor de La Voyelle Promise ser, como diz, «sabedor e consciente de 'ismos' em geral e surrealismos em particular» (p. 248), Sena conclui que nem Nemésio nem Casais, que, nesse ponto, põe a par daquele, «absorveram nem estavam interessados em absorver surrealismo algum […], para lá talvez de uma certa libertação do discurso poético que, todavia, por mais desarticulado […] que fosse, não perdia contacto com a lógica tradicional expositiva de expressão» (p. 248). Do que parece não haver dúvidas é que Nemésio não figurava entre as leituras dos nossos surrealistas dos fins dos anos 40 e princípios de 50, como também, por diferentes razões, que têm a ver com a sua publicação tardia nos anos 60, não constavam os Poemas Surdos de Edmundo de Bettencourt. É certo que, numa piedosa nota a «Para uma cronologia do surrealismo em português», um texto de 1973, de Cesariny, são mencionados os três referidos títulos de Nemésio, o de Bettencourt, a par de outro presencista, o pintor Júlio (p. 264), mas é evidente que os três nomes ali figuram a bem da verdade histórica, que um olhar retrospectivo de alguma forma exige. Será em poetas revelados pouco depois do breve e intenso surto surrealista, na sua primeira fase, que iremos encontrar as que poderíamos entender como as primeiras marcas de uma influência de Nemésio, se descontarmos o caso açoriano, que, pela sua extensão e profundidade, mereceria um estudo à parte e feito por especialista da literatura dos Açores, que eu reconhecidamente não sou. Entre esses poetas, figura seguramente Pedro Tamen, cuja convergência com Nemésio se verifica por dois lados: por uma identidade temática, de signo religioso, especialmente sensível nos seus primeiros livros, e por um comum comprazimento deliciado no jogo verbal que a poesia também é e nunca deixou de ser, como uma das mais nobres manifestações do homo ludens. A herança que recebe de Nemésio um outro poeta que se estreia no mesmo ano de Tamen, Fernando Echevarría, não passa pelo ardente apelo místico patente nas suas primeiras recolhas, inequivocamente com outra proveniência, a da tradição dos grandes místicos espanhóis, mas pelo impulso metafísico que, nos anos 80, percorre dois livros seus de explícita referência filosófica» (cfr. Echevarría, 1993, p. 5), Introdução à Filosofia (1981) e Fenomenologia (1984), nos quais Óscar Lopes certeiramente vislumbrou ecos do Nemésio mais explicitamente heideggeriano (cfr. Saraiva e Lopes, p. 1107). Também não será de pôr de parte a hipótese de o Nemésio dos anos 50 com inquietações metafísico-religiosas ter pesado nas leituras do primeiro Ruy Belo, absorvido por idênticas preocupações, mas, surpreendentemente, são escassas as referências ao autor de Conhecimento de Poesia nos seus escritos críticos. Há, sim, uma referência ao Nemésio de tão grande voga televisiva num passo de um seu poema de Transporte no Tempo, de 1973, à volta do poeta seu amigo João Miguel Fernandes Jorge (19816, pp. 71-72), nojeito muito seu de irónica e deambulatória coloquialidade: «O joão miguei agora quase se pendura / do que o nemésio na televisão nos diz / e o nemésio é certo goza como um preto / pois sobre o cristo que decerto gostariam que falasse / fala do neolítico ou de coisas / como o começo do comércio entre as nações». A obra de Nemésio ocupou, de resto, um lugar de destaque no horizonte de outros poetas nascidos na primeira metade dos anos 30, para além de Tamen e Ruy Belo. Ainda muito recentemente António Osório, que se iniciou nas revistas dos anos 50, mas que só volvidas duas décadas veio a publicar em livro, manifestava, numa entrevista, o seu apreço pelo poeta açoriano (Público, «Leituras», de 28 de Março de 1998). E Herberto Helder reservara-lhe, na antologia Edoi Lelia Doura, de 1985, generoso espaço, quando nela não incluiu nem Sena nem Ruy Belo, não por não os ter na alta conta em que certamente os teve, mas porventura por não os ver «entregues […] a uma comum arte do fogo e da noite» sob cuja égide colocou a sua magnífica e «ferozmente parcialíssima» antologia. A este respeito, é curioso observar a atitude dos organizadores de uma não menos parcialíssima mas não tão convincente antologia, Sião, Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, relativamente aos nossos três poetas. Transcrevo, sem comentários, que me fariam alongar desnecessariamente a exposição, passagens das notas de apresentação, brevíssimas, aliás, a cada um deles. De Nemésio se diz (p. 53), depois de lhe referir o lugar e as datas de nascimento e morte: «Aquilo que dele até o público culto lembra resume-se à caricatura com que sempre a TV maquilha quantos ali vão. Limite de Idade (1972) representa um tour de force na lírica portuguesa». Sobre Sena escrevem os organizadores (p. 63), após a menção ao lugar e anos de nascimento e morte: «Teve inimigos, como tanta gente que demasiado se expõe, mas o seu péssimo estômago nunca digeriu. E foi até ao Pacífico arejar. Tocou muitos burros ao mesmo tempo, o que não abona em virtude: traduções, prefácios, ensaios vários, teatro, prosa… tudo! Retenha-se o romance Sinais de Fogo. Rancor, mau-viver, arrogância, isso acabará poi ser-lhe perdoado neste reino de estupidez; excepto o dossier-Surrealismo». Acerca de Ruy Belo se diz (p. 101), na primeira parte do que se segue à referência ao nascimento e à morte do poeta: «Pelos motivos habituais dessa dialéctica bem portuguesa que se ilude no luxo de fechar portas na cara dos poucos vivos, enquanto refocila em tudo o que feda moribundo, a Ruy Belo iam-no ignorando».

Seja como for, a presença dos três poetas em Sião testemunha o apreço que por eles tinham os organizadores do florilégio, os quais, apesar de haverem, certamente, feito as suas escolhas a título pessoal, não deixavam de representar uma sensibilidade típica do período em que as faziam, e que, genericamente, se identificava com correntes pós-surrealistas da cultura underground. Feita esta prevenção, ela, sim, segundo me parece, necessária, é chegada a altura de identificar aquele que será o momento culminante no reconhecimento da marca deixada por Nemésio na nossa poesia contemporânea. A mais completa identificação com a poesia de Nemésio são alguns poetas da geração de 70 e dos que os continuam que a vão experimentar. E, aqui, torna-se indispensável a referência ao testemu¬nho contido na recensão que sobre Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas Joaquim Manuel Magalhães publicou na Colóquio/Letras em meados de 1977, para não mencionar o retrato que Ruy Belo, como vimos, nos deixou, numa passagem de um poema de Transporte no Tempo, do jovem João Miguel Fernandes Jorge nos inícios da década de 70 suspenso «do que o nemésio [dizia] na televisão» (1981Í), p. 72). Refere Magalhães, no termo do seu texto, que «alguns da nova poesia» lhe andaram com o Andamento Holandês «de casa em casa» (p. 80), não sem, antes, ter deixado de dar a entender por que o leram, ele e os seus companheiros, tão exaltadamente. E, entre as razões aduzidas, destacaria eu: por um lado, a compatibilização da «literatura com o real» (ibid.), e, por outro, a elevação dos «dados do real e pessoais a dados de cultura», sem cair na «poesia erudita» (ibid.). O fascínio sentido pelos que leram o Andamento Holandês quando da sua publicação, nos começos da segunda metade da década de 70, não arrefeceu ao longo dos anos, como se pode depreender das palavras de Gil de Carvalho num texto vindo a lume no dealbar dos anos 90 em As Escadas Não Têm Degraus, em que se aponta a «música do visível» como o contributo maior trazido pela sequência nemesiana de catorze poemas, que, um pouco mais à frente, se dizia ser «uma das mais livres concentrações de cultura, memória e sobretudo corpo da nossa poesia» (pp. 44-45). Mais perto de nós, num poema de Não É Certo Este Dizer, João Miguel Fernandes Jorge, que, desde cedo, soube estar atento àquela e a outras músicas que o verbo livre, errante e meândrico de Nemésio tinha para oferecer, deu-lhe, como no começo deixámos dito, a fala, para o colocar num processo interlocutivo com outro poeta, Mário Cesariny, cuja verosimilhança só as suas próprias afinidades electivas poderiam porventura justificar. Distinguem-se, nessa fala atribuída a Nemésio, alguns dos marcos mais em evidência no seu universo poético, como a «ilha» e a «cabrinha» de Eu, Comovido a Oeste, que se tornou um dos mais referenciados e reverenciados ícones desse universo. Se na genealogia poética de Fernandes Jorge figura em lugar de destaque Nemésio, outro tanto se não poderá dizer de Vasco Graça Moura, apesar das múltiplas declarações de apreço que, ao longo dos anos, este tem produzido acerca da sua obra, do longo ensaio que lhe dedicou (1987, pp. 53-79), dos mais brilhantes que sobre ele se escreveram, e de implícita ou explicitamente o convocar uma ou outra vez à sua poesia. Pode, como o faz na badana de Instrumentos para a Melancolia, de 1980, proclamar enfaticamente a sua preferência pelo autor de O Bicho Harmonioso no despique em que o confronta com Pessoa, ou, num poema da mesma colectânea («carta à mulher amada sobre a morte de Vitorino Nemésio», pp. 53-58), homenageá-lo, como «autor [seu] de tê-lo tido um pouco / sempre ali disponível pra relê-lo» (p. 56), que isso não faz dele automaticamente herdeiro de Nemésio, pertencendo, antes, segundo penso, como teremos ocasião de ver já a seguir, ao número daqueles que melhor se definem em função do legado seniano. Se quisermos apontar um exemplo de inequívoca contaminação pela escrita de Nemésio (cfr. Moura, 1987, p. 56), ou melhor ainda, de plena e desinibida assunção da sua herança, teremos que quebrar a regra que nos impuse-mos de não lidar com a poesia açoriana, e recorrer a um dos seus textos de maior fulgor, que é o poema de Emanuel Félix «Five o'clock tear» (pp. 115-116). Reconhecidamente a reescrita de um dos textos de mais marcada presença no cânone nemesiano, «Five o'clock tea» (1989a, pp. 210-211), todo o seu fascínio resulta das transformações que o simples acrescento de um fonema no título de Nemésio arrasta consigo, e que essencialmente se centram na imediata metamorfose do chá em lágrima e na transformação, por contiguidade metonímica, do registo irónico em elegíaco: "Coisa tão triste aqui esta mulher / com seus dedos pousados no deserto dos joelhos / com seus olhos voando devagar sobre a mesa/ para pousar no talher // Coisa mais triste o seu vaivém macio / p'ra não amachucar uma invisível flora/ que cresce na penumbra/ dos velhos corredores desta cada onde mora // Que triste o seu entrar de novo nesta sala / que triste a sua chávena / e o gesto de pegá-la. // E que triste e que triste a cadeira amarela/ de onde se ergue um sossego um sossego infinito / que é apenas de vê-la/ e por isso esquisito // E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos / seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado / o álbum a mesinha as manchas dos retratos // E que infinitamente triste triste / o selo do silêncio / do silêncio colado ao papel das paredes / da sala digo cela / em que comigo a vedes // Mas que infinitamente ainda mais triste triste / a chávena pousada / e o olhar confortando uma flor já esquecida / do sol / do ar / lá de fora / (da vida) / numa jarra parada".

Como tivemos ocasião de ver, os primeiros sinais de uma recepção activa de Nemésio pela poesia portuguesa subsequente tornam-se perceptíveis nos an08 50, O mesmo se observa relativamente a Jorge de Sena, embora este se tenha apenas estreado em livro no decénio anterior. Com efeito, como já noutro lugar assinalámos (Martinho, 1996, p. 234), os sonetos de As Evidências, de 1955, na conciliação que realizam entre Classicismo e Modernismo, são, em termos de tradição recente, uma das referências maiores de José Terra, nomeadamente em Espelho do Invisível, de 1959. Tal é, de resto, confirmado num texto que Terra dedica a Sena, e que vem incluído na homenagem poética que a revista Nova Renascença (p. 375) prestou ao autor de Metamorfoses por ocasião do décimo aniversário da sua morte – um poema, muito ao gosto dos quinhentistas que aproximam homenageado e homenageante, Camões, autor do verso destacado em epígrafe, Ferreira, Sá de Miranda: «Águas do rio, que o teu nome evoca,/ desta Lutécia amada os anos volvem. / As Parcas vão fiando em sua roca / destino após destino. Já resolvem / em sopro etéreo aqueles altos 'spritos / que davam luz ao mundo e os dissolvem / no seio do inefável. Os aflitos / peitos aí repousam docemente. / Aquele grande Xerxes de olhos fitos / olhava o seu exército esplendente / nos campos da Tessália: – 'Oh gerações / dos homens que passais tão brevemente!…' / – dizia. – A ti, Jorge, outras razões, / à moda do Ferreira ou do bom Sá / (o de Miranda digo), outras lições / eu prometera há tantos anos já! / E agora envio-te estas rimas pecas, / ecos de um tempo infame. Que não há / no meu jardim mais que estas flores secas». Coetâneo de José Terra, e revelado numa das revistas dos anos 50, a Cassiopeia, embora só venha a estrear-se em volume no limiar dos anos 60, João Rui de Sousa, praticante como aquele de uma poesia reflexiva e aberta ao influxo das filosofias da existência, então com forte implantação em Portugal, insere-se igualmente na tradição a que Sena chamava «lírico-especulativa» (cfr. 1978a, pp. 160-161) e a que ele próprio deu renovado alento na nossa poesia contemporânea. Tanto José Terra como João Rui de Sousa figurariam certamente entre os poetas que José-Augusto França tinha em mente quando, num depoimento publicado no citado número da Nova Renascença, lembrava a «larga influência [de Sena] junto da geração seguinte à sua» (p. 357). Não surpreendentemente, pois, o poema com que, em irrecusável impulso identificativo, João Rui de Sousa presta tributo à sua memória na mesma revista, é, na sucessão de frases interrogativas, no dramatismo com que as faz glosar o título («Quantos anos tem a dor?»), uma homenagem ao Sena cantor do sofrimento que distingue sem remédio a condição humana e torturadamente abalado por nunca satisfeitas inquirições. Como não perceber o eco do Sena mais agonicamente atingido pelo «Nada» da nossa condição e do que dela ao longo dos séculos fizemos, nos versos finais tio poema: «Quantas mentiras, traições, infâmias / e tais outros vezos da lorpc/.a humana? / li quantas gargalhadas e balões e prados / apenas a esconder horror a mágoas / pelos meses mais duros e selvagens? // No lamaçal do mundo onde se roja/ o rol das intempéries, sevícias, exílios e opressões /- quantos anos tem a dor? / E quanta dessa dor – cumprida e rasa -/ se acolhe ao sossegar de um grande Nada?»? Já entrada a década de 60, natural seria que os experimentalistas, então em fase de afirmação, se interessassem pelas experiências realizadas por Sena nos «Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena», escritos em 1961 e publicados no ano seguinte na revista Invenção, de São Paulo, ligada aos concretistas. Aí deles terá tomado conhecimento E. M. de Melo e Castro, muito próximo, como 6 sabido, dos vanguardistas brasileiros, e que, logo um ano depois, incluía em Poligonia do Soneto um poema (1990, p. 165) em que era patente a leitura dos sonetos de Sena, pela semelhante ruptura semântica que realizava à custa de um empolamento do nível fónico: «ornipuri palente condurita / parladina sulnata infiliana/ cotronala contuta calacita / oropeta maluna dastriana». Já Gastão Cruz, no termo do decénio, em As Aves, não terá propriamente necessitado da mediação do Sena de«… de passarem aves» e da revisitação feita a este poema, para entrar em interlocução com o famosíssimo soneto de Sá de Miranda – ele que também fez do diálogo com os quinhentistas um dos meios privilegiados de renovação da sua poesia -, o que não significa de modo algum a ausência das glosas de Sena na sua memória literária, e a possibilidade de elas terem intervindo no processo criativo, pelo menos, como diria Eliot (pp. 27-29), enquanto agentes catalíticos: «e movem-se aves // mais do que as folhas que do alto caem/ mas sem sol grande as aves não se movem/ nem já não caem com a calma as aves» (cfr. poemas de Sena e de Gastão Cruz em Garcia, pp. 300-301). A verdade é que, a bem dizer, as glosas de Sena são indissociáveis do soneto mirandino para os poetas que depois delas escreveram e para quem, como deixou dito Ruy Belo num poema de Homem de Palavra(s), de 1970, afinal, «passam as aves em seu voo rasante / desde Sá de Miranda até Jorge de Sena» (ibid., p. 302).

Mas é na poesia portuguesa dos últimos decénios que mais extenso e fundo se torna o influxo de Sena. A voga que nela se observa do Bildgedicht, com mais ou menos vincadas propensões eefrásticas, tem origem nele, no exemplo de Metamorfoses, ou na tradição que, a partir do livro de 1963, se foi constituindo. O mesmo se diga da poesia que entra em diálogo com a música, para a qual foi determinante o livro publicado por Sena volvidos cinco anos sobre a saída de Metamorfoses, Arte de Música. Mas não só: igualmente grande parte da voga culturalista na nossa poesia das três últimas décadas dele deriva, da desinibida assunção da condição de poeta doctus que pratica nos seus versos, assim como é ainda ele que está, especialmente depois de Peregrinatio ad Loca Infecta, de 1969, na base de uma abundante poesia de lugares, de itinerância geográfico-cultural. Não é fácil, neste plano, destacar nomes de herdeiros seus, tão disseminada se encontra a sua herança. Avancemos, no entanto, com o nome, já anteriormente referido, de Vasco Graça Moura, até porque, no seu caso, há outras afinidades a salientar, da avassaladora referência camoniana ao que seria o maneirismo visceral de um e de outro, da condição de poeta-crítico à de infatigável poeta-tradutor de poesia, para não referir o vezo polemizante de um e de outro. Dele se transcreva um poema, «Jorge de Sena na Ilha de Moçambique» (Colóquio/Letras, n.° 67, Maio de 1982, pp. 58–59), cm que se cruzam os destinos de dois poetas (não apenas Sena, mas também o Camões que o autor de Fidelidade cantara no mesmo lugar) que ocupam um lugar central no seu cânone pessoal: «debruçado a esta janela quinhentista sobre a água lilás / do pôr do sol, jorge de sena repousava os olhos, ainda ofuscado / pela brancura da pedra e de tanta memória gastando-se / até onde pobremente o Camões se arrastara// e um d. joão de castro está sepulto, fora uma tarde desmedida / de amargos deslumbramentos, de intimidades fragmentárias, de / coisas a ressoar ('e nunca pude saber dele' / diz-se, na década oitava, de um manuscrito roubado), //jorge de sena andou por aqui enxugando o suor com um enorme lenço / e rugidos na alma, e nem viu as acácias, o seu fogo insolente, as mulheres de máscara branca, / crispado entre os amigos nesta escala da passagem / de nada para parte nenhuma, por ruelas e pátios de má fortuna abandonados, //viu sim os rebocos desfeitos pela traça do tempo, tanta textura de flores esboroadas, / tanto mapa perdido de aventurosos destinos, / e viveu tudo isso como se o próprio orgulho, a prumo, com o seu nobre olhar/ de exilado, fosse uma altiva insensatez. // sentia essa embargada transparência, um tão ágil amor desesperado, / e tinha de ter raiva: nem há neutralidades anódinas, é-se apanhado / por estas evidências a crescerem em nós como o coral insuportável / ramificando-se desta luz, desta água, desta força honrada do lugar. // a tarde foi caindo até ao cinzento escuro / e era parda a vela subitamente içada (ou rósea ainda?) / de algum barco pequeno cuja sombra partia. Como é possível o trabalho / de peregrinar sem vir aqui? possível que isto vá morrer? // «o coração da vida está na lucidez das cicatrizes / que nos povoam» disse-lhe circe na praia transformando-o / no vulto que descia a correr as escadas da prelazia até / à misericórdia, ao palácio do governador, à rua dos arcos, // desprezando a quem implorava, ou não desceria / porque lá esteve antes, mas que interessa?, / se andava por aqui crivado de dívidas e de versos / e lhe haviam tirado o seu parnaso e foi furto notável // e muito mais do que isso é comover-nos / este adobe de lembranças a destempo, esta severa condição / de um jogo limpo em que o real / só é dizível porque algumas palavras o destroem // e algumas palavras lhe resistem. anonimamente /jorge de sena voltou a pagar os duzentos cruzados da dívida: / camões parte amanhã mas continua aqui. / nem é desterro nosso que assim seja».

Não surpreende que Ruy Belo se tenha tornado uma das figuras tutelares para alguns dos mais representativos poetas dos três últimos decénios. A proximidade ao quotidiano (cfr. 1984, p. 17) e a fidelidade ao real (cfr. ibíd., p. 23) na sua poesia, bem como a recuperação que nela efectuou da tradição da coloquialidade colhida, em larga medida, no Nobre que, em termos de modernidade poética, a iniciara entre nós, tudo contribuía para que ele viesse a exercer junto das gerações seguintes, e logo a partir dos anos 70, um poderoso influxo. Toda uma linha da nossa actual lírica que faz, em oposição a algumas orientações da poesia coetânea de Ruy Belo nos anos 60, da discursividade um dos seus valores, e que pratica prosódias mais livres e tem no seu horizonte o ideal de uma poesia conversada, lhe é de alguma forma devedora. Dentro dessa linha, um dos nomes mais em evidência é, sem dúvida, o de João Miguel Fernandes Jorge, que, não obstante o diálogo frequente com o universo da cultura na sua poesia, associaria menos ao culturalismo que parte de Sena (cfr. Lopes, 1990, p. 90). Claro que, no caso particular deste poeta, melhor seria falar num processo interactivo, nos dois sentidos, portanto, no que seria, afinal, antes uma troca estimulante de experiências, como não raramente acontece entre poetas de idades diferentes (veja-se, a este respeito, o que se passara anteriormente com Carlos de Oliveira e Gastão Cruz).

O que, no essencial, permanece de religioso na poesia de Ruy Belo, para lá das crises, das dúvidas, da agónica verificação do falhanço que em tudo espreita, será um dos elos por que a ele se ligam vários dos que vêm depois. Um deles, Manuel António Pina, também ele praticante de uma poesia não distanciada das vivências mais simples do quotidiano e de uma escrita que, por adequação a esse mesmo circunstancialismo, frequentemente fere a nota coloquial, escolhe, para epígrafe do poema inaugural de um seu livro, O Caminho de Casa, de 1989, percorrido por mal disfarçadas inquietações metafísico-religiosas, palavras de Ruy Belo («Somos seres olhados») que, depois, glosa, de modo a deixar suspensa a interrogação sobre a identidade do olhar último no termo da infinidade de olhares de que somos feitos (cfr. 1992, p. 147). A possibilidade de uma poesia religiosa entre nós continua, de resto, a tê-lo no seu horizonte, como pode ver-se num autor revelado na presente década, José Tolentino Mendonça, que parece, até pelo comum metaforismo bíblico, recuperar o primeiro Ruy Belo: «Retomarás o canto / o alvoroço das cítaras / as encantações / ténues ao atravessarmos / os campos // Retomarás o honroso posto de observador / no jardim do príncipe / calcularás o vento pelo levantar do fogo / o ouro dos frutos pelo desenho dos odores / saberás o enunciado dos fenos / a idade exacta das folhas / os húmidos sinais que soletram a cor / arriscarás adivinhações / chegarás aos segredos guardados / da arte das curas / e do presságio // Então pronunciarás os nomes /jubilosos» (p. 53).

No outro extremo, o das fés já irremediavelmente perdidas, ou, pelo menos, do agnóstico cepticismo dos nossos tempos finisseculares, Luís Filipe Castro Mendes, escassos anos antes de José Tolentino Mendonça, pegara no Ruy Belo já abalado por profunda crise religiosa de «Nós os vencidos do catolicismo» (1981a, p. 147) para o glosar, ao jeito da «repetição com diferença» que Linda Hutcheon, em ensaio famoso (p. 32), viu na paródia. Como sempre, a «diferença» é mais importante do que a «repetição», facilmente reconhecível como mandam as regras: não hájá no texto de Castro Mendes (1994, p. 20), com menos um quarteto, a crença na vida em que Ruy Belo teimava e, muito menos ainda, o dramático sentimento de abandono com que o autor de Homem de Palavra(s) repetia as palavras de Cristo na cruz; há sim, num processo de progressiva secularização, a mudança do campo religioso-teológico para o campo literário, para o campo da Poesia, nem ele já visto, em contraste com toda uma tradição da modernidade, como substituto da Religião: «Nós os vencidos do Surrealismo, / a quem a Poesia atraiçoou, / haurimos o perdido vanguardismo / num verso desmedido que sobrou. // Nós, que perdemos mais do que a medida, / fizemos do delírio álibi/ de enredar a poesia com ávida/ rasteira e pobre que se vive aqui. // Não tende contra nós o coração / endurecido, novas gerações: / lutando sempre à beira do sentido, / fizemos da fraqueza tentações». No plano dos textos de homenagem a Ruy Belo, refira-se o poema «R.B.» em Iniciais de José do Carmo Francisco (p. 26).

Restaria, a finalizar, deixar uma nota com certeza desnecessária: nisto de heranças, que raramente se apresentam em estado puro e, antes, como penso ter ficado claro, se cruzam, nada há de negativo, a não ser quando epigonalmente se recebem; pelo contrário, sempre elas foram um dos mais eficazes meios de que os grandes criadores se serviram para afirmar a sua individualidade. Até porque, bem vistas as coisas, elas não se recebem: conquistam-se. Já T. S. Eliot dizia que os poetas maus imitam e os bons roubam (cfr. Guillén, p. 319).
 

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20. Lopes, Óscar, Cifras do Tempo, Lisboa, Caminho, 1990.
21. Lourenço, Eduardo, Tempo e Poesia, Lisboa, Relógio dAgua, 2." ed.,1987.
22. Magalhães, Joaquim Manuel, recensão a Vitorino Nemésio, Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas, in Colóquio/Letras, n.° 38, Julho de 1977, pp. 79-80.
23. Martinho, Fernando J. B., Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50, Lisboa, Colibri, 1996.
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25. Mendes, Luís Filipe Castro, O Jogo de Fazer Versos, Lisboa, Quetzal, 1994.
26. Outras Canções, Lisboa, Quetzal, 1998.
27. Mendonça, José Tolentino, Longe Não Sabia, Lisboa, Presença, 1997.
28. Moura, Vasco Graça, «Nemésio: o lance do verbo», in Várias Vozes, Lisboa, Presença, 1987, pp. 53-79.
29. Instrumentos para a Melancolia, Porto, O Oiro do Dia, 1980.
30. Mourão-Ferreira, David, Obra Poética. 1948-1988, Lisboa, Presença, 1988. Introd. de Eduardo Prado Coelho.
31. — «Editorial», in Boletim Cultural (Vitorino Nemésio. O Poeta e o Ficcionista), Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian, VII Série, n.° 7, Dezembro de 1992, pp. 3-4.
32. Nemésio, Vitorino, Obras Completas, vol. I: Poesia, pref, org. e fixação de texto de Fátima Freitas Morna, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1989a; vol. II: Poesia, 1989b.
33. Nova Renascença (Homenagem a Jorge de Sena), Porto, n.° 32-33, Outono de 1988–Inverno de 1989.
34. Pina, Manuel António, Algo Parecido com Isto, da Mesma Substância. Poesia reunida 1914–1992, Porto, Afrontamento, 1992.
35. Saraiva, António José e Lopes, Óscar, História da Literatura Portuguesa, Porto Editora, 14.a ed., corrigida e actualizada, 1987.
36. Sena, Jorge de, Poesia-I, Lisboa, Moraes Editores, 1977; Poesia-II, 1978a; Poesia-III, 1978b.
37. Estudos de Literatura Portuguesa. III, Lisboa, Edições 70, 1988, pp.107-123.
38. — (antologia, tradução, pref e notas de), Poesia do SéculoXX. De ThomasHardy aC.V. Cattaneo, Coimbra, Fora do Texto, 2." ed., 1994.
39. Silvestre, Osvaldo, «Jorge de Sena, em Creta com Nietzsche», in Sentido que a Vida Faz. Estudos para Óscar Lopes, Porto, Campo das Letras, 1997, pp. 461-476.
40. Tamen, Pedro, Tábua das Matérias. Poesia 1956-1991, Lisboa, Círculo de Leitores, 1995.

Poesia da América Hispânica

Em uma antologia composta pelos dez poemas dos quatro poetas hispano-americanos presentes no volume Poesia do Século XX, podemos ver, através da seleção, tradução e notas de Jorge de Sena, qual era a América Hispânica que lhe interessava particularmente e que melhor dialogava com a sua postura intelectual e artística.

 

César Vallejo:

Vicente Huidobro:

Octávio Paz:

Nicanor Parra:

 

 

CÉSAR VALLEJO
Peru
1892-1938


VII DE "TRILCE"

Rumei sem novidade pela listrada rua
que eu cá sei. Tudo sem novidade,
deveras. Eu fundeei por coisas assim
e fui passado.

Dobrei a rua pela que raras
vezes se passa a bem, saída
heróica para a chaga daquela
esquina viva, nada por metade.

São os grandores,
o grito aquele, a claridade de acarear,
a barreta submersa em seu papel de
                                                           …já!

Quando a rua está olheirenta de portas
e apregoa de descalços atris
adiar para amanhã as salvas pelos dobres.

Agora formigas ponteiros de minutos
adentram-se adoçadas, adormidas, pouco
dispostas, e se encolhem,
queimados os fogos, nos altos andares de em
                                                                           1921.
       

 

X DE "TRILCE"

Pristina e última pedra de infundada
ventura, acaba de morrer
com alma e tudo, Outubro, quarto, e grávida.

De três meses de ausente e dez de doce.
Como o destino,
mitrado monodáctilo, ri.

Como por trás se despejam juntas
de contrários. Como sempre assoma o algarismo
abaixo da linha de todo o avatar.

Como chanfram as baleias a pombas.
Como por sua vez estas deixam o bico
na terceira asa cubicado.
Como cavalgamos, de cara para monótonas ancas.

Reboca-se dez meses para a dezena,
para outro mais além.
Dois quedam pelo menos nas fraldas todavia.

E os três meses de ausência.
E os nove de gestação.

Não há sequer violência.
O paciente encorpora-se,
e sentado empavoa tranquilas misturas.
                                                               

 

PEQUENO RESPONSO POR UM HERÓI DA REPÚBLICA

Um livro quedou à beira da sua cintura morta,
um livro rebentava do seu cadáver morto.
Levaram o herói,
e corpórea e aziaga entrou sua boca em nosso alento; suámos todos, com o umbigo às costas;
caminhantes as luas nos seguiam;
lambem suava de tristeza o morto.

E um livro, na batalha de Toledo,
um livro, atrás um livro, em cima um livro, rebentava do cadáver.
Poesia do pómulo cor de amora, entre o dizê-lo
e o calá-lo,
poesia na carta moral que acompanhara
seu coração.
Quedou-se o livro e nada mais, que não há
insectos na tumba,
e quedou à beira cia sua manga, o ar remolhando-se
e íazendo-se gasoso, infinito.

Todos suámos, com o umbigo às costas,
também suava de tristeza o morto
e um livro, eu vi sentidamente,
um livro, atrás um livro, e em cima um livro,
rebentou do cadáver ex-abrupto.

 

VALLEJO, CÉSAR — Nasceu em Santiago de Chuço, no Peru, em 1892, o mais jovem de uma família de onze filhos. Os seus estudos foram interrompidos por pobreza (trabalhou então num engenho de açúcar), e só os reatou em 1913, quando frequentou o curso de letras em Trujillo, trabalhando ao mesmo tempo num colégio. Daí passa a Lima, e publica um primeiro livro de versos (1919), ainda muito na linha "modernista" (parnasiano-simbolista) de Ruben Darío. E então preso, acusado de "incêndio, assalto, homicídio frustrado, e subversão" (a última palavra era a chave desta lista clássica…), sendo solto ao fim de três meses. Em 1922, publica a colectânea Trilce, que era uma revolução de vanguarda em língua espanhola e antecipava o surrealismo — o livro passou inteiramente despercebido. No ano seguinte, receoso de que uma "revisão" do seu processo o levasse de novo à cadeia, escapou-se para a Europa, para não mais voltar ao Peru. Centrado em Paris, trabalhando como jornalista, viaja largamente até à Rússia, onde esteve três vezes. Expulso pela polícia francesa, por comunista estrangeiro, passou à Espanha da República e, mais tarde, à da guerra civil que lhe deu poemas admiráveis (Espana, aparta de mi este cáliz, 1937). Em 1938, gravemente enfermo, voltou a Paris para morrer. Em Paris, em 1939. saiu a colectânea da sua poesia de 1923-38: Poemas Humanos. Um dos fundadores da Vanguarda hispânica, poeta que prenuncia o surrealismo pela quebra audaciosa dos nexos lógicos da linguagem, poeta político, romancista social da opressão no seu país, Vallejo é, com Pablo Neruda (1904-1973). uma das grandes vozes hispânicas que a crítica "oficial" hispano-americana em vão se esforça por amestrar.
 

 

VICENTE HUIDOBRO
Chile
1893-1948

ARTE POÉTICA

Que o verso seja como chave
que abra mil portas.
Uma folha cai, algo passa voando;
quanto os olhos fitam criado seja,
e a alma do ouvinte fique palpitando.

Inventa novos mundos, cuida da palavra:
o adjectivo quando não dá vida, mata.

Estamos no céu dos nervos.
0 músculo pende,
como recordação, nos museus;
mas nem por isso temos menos força:
o vigor verdadeiro
reside na cabeça.

Porque cantais a rosa, poetas?
fazei-a florir no poema.

Só para nós
vivem sob o sol as coisas todas.

O poeta é um pequeno Deus.
 

MARINHEIRO

Aquele pássaro que voa pela primeira vez
afasta-se do ninho olhando para trás
Com o dedo nos lábios
                                      vos chamei

Inventei jogos de água
no cimo das árvores

Fiz de ti a mais bela das mulheres
tão bela que te avermelhavas na tarde
                     A lua afasta-se de nós
                     e lança uma coroa sobre o pólo

Fiz correr rios
                             que nunca haviam existido

Com um grito ergui uma montanha
e em torno dançámos uma nova dança
                     Cortei todas as rosas
                     das nuvens do Leste

E ensinei a cantar um pássaro de neve
Marchemos sobre os meses desatados
Sou o velho marinheiro
                     que cose os horizontes cortados.

 

HUIDOBRO, VICENTE — Poeta chileno, nascido em 1893, de família aristocrática e abastada. Os seus primeiros livros seguiam a moda do "modernismo" hispano-americano, mas, curioso da Vanguarda, transferiu-se para Paris, em 1916. E, em 1917, é, com Soupault, um dos principais colaboradores da revista "cubista" Nord-Sud dirigida por Réverdy. El espejo de água (1918), aonde figura o seu poema-manifesto Arte Poética, e Tour Eiffel (1918). obra ilustrada por Robert Delaunay, são livros em que o poeta de vanguarda se afirma, e lançador do "Criacionismo" que trazia audácias novas à poesia hispânica. Manifestes (1925) é uma tomada polémica de posição, em favor de Réverdy, contra os surrealistas que. após o terem proclamado, o excomungavam. Em 1927-28, Huidobro está em New York e também no Chile, mas logo regressa a Paris (1928-32). Desde 1932 até à morte, em 1948, será no Chile o homem que se quer o fundador de um vanguardismo que não interessa à maioria dos intelectuais hispano-americanos a não ser como atitude literária, ao mesmo tempo que vai tomando posição cada vez mais revolucionária em política (manifestada em vários romances). Poeta em francês e em espanhol, a sua importância e valor estão muito longe de ser incontestados e reconhecidos.
 

 

OCTÁVIO PAZ
México
1914-1998


HINO ENTRE RUÍNAS

donde espumoso o mar siciliano… (Góngora)


Coroado de sim o dia estende as suas plumas.
Alto grito amarelo,
ardente provedor no centro de um céu
imparcial e benéfico!
As aparências são formosas nesta sua verdade momentânea.
O mar trepa pela costa,
segura-se entre as penhas, deslumbrante aranha;
a ferida cárdena do monte resplandece;
um punhado de cabras é um rebanho de pedras;
o sol põe o ovo de ouro e derrama-se no mar.
Tudo é um deus.
Estátua quebrada,
colunas comidas pela luz,
ruínas vivas num mundo de mortos sem vida!


Cai a noite sobre Teotihuacán.
No alto da pirâmide os rapazes fumam marijuana,
tocam violas ásperas.
Que erva, que água de vida há-de dar-nos vida,
de onde desenterrar a palavra,
a proporção que rege o hino e o discurso,
o baile, a cidade e a balança?
O canto mexicano estala num carago,
estrela de cores que se apaga,
pedra que nos cerra as portas do contacto.
Sabe a terra a terra envelhecida.

Os olhos vêem, as mãos tocam.
Bastam aqui umas quantas coisas:
tuna, espinhoso planeta coral,
figos encapuçados,
uvas com gosto a ressurreição,
amêijoas, virgindades ariscas,
sal, queijo, vinho, pão solar.
Do alto de ser morena uma mulher da ilha fita-me,
esbelta catedral vestida de luz.
Torres de sal, contra os pinheiros verdes da margem
surgem as velas brancas das barcas.
A luz cria templos no mar.


Nova York, Londres, Moscovo.
A sombra cobre o plaino com a sua hera fantasma,
com sua vacilante vegetação de calafrio,
seu ralo véu, seu tropel de ratas.
Por intervalos tirita um sol anémico.
De cotovelos postos nos montes que foram cidades, Polifemo cabeceia
Mais abaixo, entre os fojos, arrasta-se um rebanho de homens
(Bípedes domésticos, a carne deles
apesar de recentes proibições religiosas —
é muito estimada pelas classes ricas.
Até há pouco o vulgo considerava-os animais impuros.)


Ver, tocar formas formosas, diárias.
Zumbe a luz dardos e asas.
Cheira a sangue a nódoa de vinho na toalha.
Como o coral seus ramos dentro de água
estendo os sentidos pela hora viva:
o instante cumpre-se em concordância amarela,
ó meio-dia, espiga cheia de minutos,
taça de eternidade!


Os meus pensamentos bifurcam-se, serpenteiam, enredam-se,
e por fim ficam imóveis, rios que não desaguam,
delta de sangue sob um sol sem crepúsculo.
E tudo há-de acabar neste chapinhar de águas mortas?

Dia, redondo dia,
luminosa laranja de vinte e quatro gomos,
todos atravessados pela mesma doçura amarela!
A inteligência encarna por fim,
reconciliam-se as duas metades inimigas
e a consciência-espelho liquefaz-se,
volve a ser fonte, manancial de fábulas:
Homem, árvore de imagens,
palavras que são flores que são frutos que são actos.

 

PAZ, OCTÁVIO — Nasceu na Cidade do México, em 1914, e é hoje considerado o maior poeta mexicano, tendo sido objecto de uma celebridade internacional que reflecte os seus contactos literários com Paris e a Europa, e as posições de destaque que tem ocupado ao serviço do seu pais (embaixador por vários anos na índia, por exemplo). Recentemente, tem assumido papel de relevo na agitação política mexicana contra a transformação da revolução mexicana em estado burguês autoritário, subordinado aos grandes interesses financeiros. [Nobel em 1990 — Morreu em 1998.]

 

NICANOR PARRA
Chile 1914-1998

RITOS

De cada vez que regresso
ao meu país
depois de uma longa viagem
o que faço primeiro
é perguntar pelos que morreram:
todos os homens são heróis
pelo simples facto de morrerem,
e os heróis são os nossos mestres.

Em segundo lugar,
pelos feridos.
Só depois,
não antes de cumprir
este pequeno rito funerário,
me considero com direito à vida:
cerro os olhos para ver melhor
e canto com rancor
uma canção dos princípios do século.

 

JOVENS

Escrevam o que queiram.
No estilo que lhes pareça melhor.
Passou demasiado sangue sob as pontes
para continuar-se a crer
que possa seguir-se um só caminho.

Em poesia tudo é permitido.

Com a condição expressa
              é evidente
de superar-se o papel em branco.

 

MANCHAS NA PAREDE

Antes que caia a noite total
havemos de estudar as manchas na parede:
umas parecem plantas
outras assemelham-se a animais mitológicos.

Hipogrifos,
                   dragões,
                                  salamandras.

Mas as mais misteriosas de todas
são as que parecem explosões atómicas.

No cinema da parede
a alma vê o que o corpo não vê:
homens ajoelhados
mães com criaturas nos braços
monumentos equestres
sacerdotes erguendo a hóstia:

órgãos genitais que se ajuntam.

Mas as mais extraordinárias de todas
são

             sem dúvida alguma
as que parecem explosões atómicas.
 

"ME RETRACTO DE TODO LO DICHO"

Antes de despedir-me
tenho direito a um último desejo:
Generoso leitor
queima este livro
não representa o que eu quis dizer
apesar de ter sido escrito com sangue
não representa o que eu quis dizer.

A minha situação não pode ser mais triste
fui derrotado pela própria sombra:
as palavras vingaram-se de mim.

Perdoa-me leitor
leitor amigo
que não possa despedir-me de ti
com um abraço fiel:
despeço-me de ti
com um triste sorriso forçado.

Pode ser que eu nao seja mais do que isso
mas escuta a minha última palavra:
retracto-me de tudo o que disse.
Com a maior amargura do mundo
retracto-me de tudo o que disse.

PARRA, NICANOR — Nasceu em 1914, em Chillán. pequena cidade no Sul do Chile, onde seu pai era professor primário. Em 1938, formou-se em Matemáticas e Física em Santiago do Chile, tendo publicado no ano anterior um primeiro livro de poemas. Foi professor do ensino secundário até 1943, quando foi fazer estudos especializados nos Estados Unidos, onde se doutorou em física (1946). Desde 1952, foi catedrático de Física Teórica da Universidade de Santiago. Poemas y antipoemas (1954), seu segundo livro, foi o que o projectou como um dos grandes poetas modernos de Hispano-América. Em 1960, Discursos foi um livro de ensaios de Parra e de Pablo Neruda, que marcou época. Na revolução chilena, Parra, renegando muito dos seu passado, tomou atitudes — segundo parece — discutíveis. Mas, ao fim e ao cabo, não se sentiu bem no seu país, e exilou-se nos Estados Unidos. [Morreu em 1998.]

Sobre o Modernismo na América Hispânica

Dentre os vários textos que Jorge de Sena consagrou a temas hispânicos e/ou hispano-americanos, aqui reproduzimos um excerto da sua monumental Poesia do Século XX no qual traça sucinto “panorama histórico-literário” do que se passa nos tempos do Modernismo entre os poetas hispanófonos da Europa e do “Novo Continente”.

 

 

Se, de uma maneira ou de outra, o modernismo vanguardista teve grande repercussão na Rússia, ou, melhor, este país contribuiu para ele decisivamente (ainda que largamente ignorado no “Ocidente”, por muito tempo, o contributo), foi muito diversa a situação da Espanha e da América Espanhola, que no entanto deram ao Modernismo importantes ou excepcionais figuras. A Espanha emergiu lentamente de um Romantismo muito retórico e superficial, na poesia, e que, na prosa, foi já um realismo cortado pelo pitoresco e a idealização. E costume hoje dizer-se que um tom novo. ainda que diversamente, apareceu em duas personalidades: o sevilhano Bécquer (1836-70) e a galega Rosália de Castro (1837-85), esta última mais conhecida e lida em Espanha e por estudiosos da Espanha nos seus versos castelhanos do que pelos galegos em que é verdadeiramente grande (é notória a antipatia castelhana pelas línguas “estrangeiras” da Espanha ou da Península Ibérica, por imperialismo cultural de Castela). Um e outra representam aspectos muito individuais, a influência que tiveram é muito discutível, e na verdade, é a grandeza deles, em comparação com os poetas que os precederam ou foram seus contemporâneos, o que os projecta. A primeira grande voz a surgir após eles é a do filósofo, ensaísta, novelista, etc, Miguel de Unamuno (1864-1936), cuja poesia intensamente pessoal e densa de pensamento, ao mesmo tempo que recusava o sentimentalismo romântico, é a que melhor reflecte a busca de uma nova poesia. Pertence ele à geração dos romancistas Valle-lnclán (1869-1936) e Baroja (1872-1956), dos ensaístas Ganivet (1865-98) e Azorín (1873-1967), do dramaturgo Benavente (1866-1934), ou sejam aqueles que, com outras personalidades, são ficticiamente chamados a Geração de 98, ou seja os que despertaram ou tentaram fazer despertar a cultura hispânica para as realidades, após o assalto que o império espanhol sofrera, naquele ano, por parte do imperialismo norte-americano. Aposição, muito diversificada, desses homens é em geral dupla: por um lado, contra o provincianismo cultural, uma modernização europeizante da cultura, e, por outro, uma rebusca crítica das tradições espanholas. Note-se que, fora de escolas e movimentos, muitas dessas personalidades escreverão obras de carácter experimental, tendo por isso poderosamente contribuído para a criação de uma atmosfera de modernidade. A grande revolução poética (que na prosa teria enorme impacto também) veio toda da Hispano-América, na pessoa do nicaraguano Ruben Darío (1867-1916), se bem que ao cubano José Marti (1853-95) e ao colombiano Asunción Silva (1865-96) se atribuam também honras de iniciadores que o último, com a sua poesia intimista e sensual, por certo foi (apenas Darío teve de vida mais vinte anos para proclamar-se) [1]. Aquilo que é identificado com Darío é o que, em terminologia hispânica, é chamado “modernismo”, e não pode ser confundido com o que o termo significa para França, Inglaterra, América do Norte, Portugal e Brasil, e os mais países em geral. O que, a par de outras tentativas, foi lançado, em 1888, por aquele poeta, e se propagou à América espanhola e à própria Espanha, era uma fusão do parnasianismo que não penetrara a cultura de língua espanhola, com o simbolismo recentemente proclamado em França, e com as tendências decandentistas que a este haviam precedido. E não é, de modo algum, sem muito restritas qualificações, o Modernismo que desponta por 1905-06 na Europa. Há que reconhecer, todavia, que a grande libertação das estrofes livres, medidas insólitas do verso, que vão até ao verso livre, a rima ocasional, níveis coloquiais ou familiares da linguagem aplicados ao intimismo sentimental, etc, deram àquele “modernismo” hispânico características que foram mais avançadas que muito simbolismo noutras línguas — o que muito contribuiu, abado ao tradicionalismo cultural da hispanidade oligárquica, para diminuir ou atrasar, mais tarde, o impacto ou a penetração do Vanguardísmo, de um ponto de vista do experimentalismo formal, e o diluiu no sentimentalismo retórico de raiz romântica, que usou desse “modernismo” para perpetuar-se. Importantes figuras do modernismo hispano-americano foram também o urugaio Herrera y Reissig (1875-1910), o peruano Santos Chocano (1875-1934), o mexicano Amado Nervo (1870-1919), etc, entre uma multidão de poetas e prosadores que sobrevivem antològicamente pela preocupação de dar a todos os países um lugar no panorama da Hispano-América. A influência pessoal (por acção própria e prestígio literário) de Ruben Darío [2] foi importantíssima e nefasta — superior sensibilidade poética, senhor de todos os recursos técnicos, servido por um internacionalismo cultural e sem qualquer ideia profunda, fascinado pelo exotismo cosmopolita dos simbolistas e fantasistas menores de França, e ocultando sob a sumptuosidade retórica um espírito muito conservador político-socialmente e muito sentimental, abriu à Língua espanhola as portas do vácuo rebrilhante, um pouco como o português Eugénio de Castro que foi seu rival em prestígio internacional, e tido por mestre na Hispano-América [3]. A Espanha sucumbiu ao magnetismo de Darío, e é sob a égide dele que poetas como António Machado (1875-1939) e Juan Ramón Jiménez (1881-1958) iniciam as suas carreiras, ainda quando muito devam — e foi o que os salvou — ao contacto directo com o decadentismo e o simbolismo franceses. E ambos não tardaram a sublimar pessoalmente aquela herança alheia à profundidade que ambos continham, e à austeridade expressiva de que dariam exemplo. Entre eles e o grupo de poetas de língua castelhana que desenvolverão o movimento modernista, ergue-se Ramón Gómez de la Serna (1888-1963), escritor interessante e menor, que teve em Espanha a importância de ter divulgado as vanguardas europeias (em 1909, traduzia ele o manifesto de Marinetti, na sua revista Prometeo). Na continuidade de Machado e de Jiménez, é que aparece em Espanha a chamada Geração de 1927: Pedro Salinas (1891-1951), Jorge Guillén (1893-1984), Garcia Lorca (1898-1936), Dâmaso Alonso (1898-1990), Rafael Alberti (1902-1999), Luís Cernuda (1904-63), Vicente Aleixandre (1898–1984), Miguel Hernández (1910-42), ou sejam os poetas que, com alguns anteriores, são destruídos ou dispersos (salvo dois ou três) pela Guerra Civil de 1936-1939. Ainda que a modernidade de muitos deles tenha aspectos vanguardistas, o impulso de Vanguarda veio de poetas hispano-americanos: Vicente Huidobro (1893-1948) e César Vallejo (1892-1938). O Ultraísmo foi lançado em 1920, e tocou muitas dessas personalidades, tal como presidiu ao início das carreiras do argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) e do chileno Pablo Neruda (1904-73).
Notas:

1. É de notar que, sem prejuízo dos antagonismos e rivalidades ditas nacionais, ou de em cada país ser estudada a literatura própria, as nações da Hispano-América vêem as suas literaturas num plano geral de evolução conjunta. Há várias razões para tal. que não resultam só do facto da língua comum. Por um lado. históricas. Muitos dos países, ainda quando a separação deles uns dos outros e do império espanhol tenha seguido, em vários casos, o que eram áreas de facto dentro do império americano da Espanha, foram criações artificiais das manobras das potências europeias e dos Estados Unidos, interessados em “balcanizar” o continente. Por outro lado, sociais. Países de origem colonial, cm que a estrutura foi mantida pela independência política (que, na maioria dos casos, foi feita por classes dirigentes altamente comprometidas com a Espanha ou com o colonialismo) e pelo imperialismo económico das grandes potências, a literatura tendeu a ser criação de minorias aristocráticas ou de alta burguesia enriquecida, com uma relação senhorial e patriarcal com o ‘”povo”, e com apenas uma reduzida classe média urbana como clientela sua. Assim, certa indiferenciação das culturas resultante dos fenómenos políticos da inde pendência (que separam nações algo fictícias), recebia a sua compensação de uma internacionalização facilitada pela comunidade da língua, e que era também efeito de ser uma classe com possibilidades de contactos e de deslocamentos a que fazia a literatura (situação que, hoje. mesmo com escritores revolucionários não deixa ainda de ser semelhante). Por razões diversas, as literaturas da Hispano-América sentem-se um pouco como as literaturas alemã, austríaca, suíço alemã, ou como a da Bélgica em relação à da França. Um outro factor, de ordem política, tem tido igualmente influência na visão unitária, e é o pan-americanismo. Este, em grande parte dirigido ou instigado pelos Estados Unidos para isolar culturalmente os países das suas raízes europeias, tem todavia facetas contraditórias: ou uma fascinação ambígua ante o potencial norte-americano que aparece às classes aristocráticas e burguesas como o protector c a imagem da riqueza, ou um desejo de unidade contra precisamente esse potencial, e que contribui para uma unificação cultural da Hispano-América (e também em face de outros imensos países de língua diversa como o Brasil ou o Canadá). Assim é que, mesmo dentro da América de origem espanhola, é geral a aceitação do conceito “literatura hispano-americana”. De resto, como seria de esperar, só dois ou três países vieram a criar “literaturas”‘ (Argentina, Chile, México): os outros têm o seu provincianismo e produzem eventualmente figuras de projecção continental. Estas, quando atingem o plano internacional europeu, têm todavia atrás de si não apenas um país, mas muitos…
2. Para uma análise estrutural do estilo de Darío e da ideologia subjacente, veja-se. do presente autor, o estudo “La Dulzura del Ângelus, de Ruben Darío”, no volume colectivo Antologia Comentada del Modernismo, “Explicación de Textos Literários”, ed. Porrata e Santana, Medellín, Colômbia, 1974, que, com todo o respeito devido em língua espanhola ao eminente poeta, é um desmascaramento que a crítica hispânica tem elidido no seu conservantismo tradicional. [O aludido texto de JS encontra-se reproduzido em Dialécticas Aplicadas da Literatura, Lisboa, 1978] 3. Por pouco que se pense — e algo injustamente — de Eugénio de Castro, é lamentável que não haja um estudo português da imensa repercussão que ele teve na Hispano-América.

Sobre a Espanha e sobre a Latino-América

Neste artigo, publicado na página literária do Diário de Notícias, em 21/1/1971, ao refletir sobre a complexidade do diálogo cultural entre Espanha e a “América Espanhola”, Jorge de Sena igualmente reflete sobre as relações entre Portugal e Brasil, propondo caminhos para uma interlocução pluralista e despreconceituosa entre a Ibéria e as Américas hispanófona e lusófona.

 

Ainda há muitos portugueses que pensam que ignorar a Espanha é a melhor maneira de pagar uma tradicional ignorância — que os melhores espanhóis vão reconhecendo como estulta — com que a Espanha por longo tempo só se lembrou ou lembra da cultura portuguesa para a integrar na espanhola ou subordiná-la a ela. Esta atitude é ainda, ao contrário do que a inocência das vaidades lusitanas possa supor, a mais comum entre uma raça extravagante e internacional que dá pelo nome de «hispanistas». Estes senhores e damas não são, em geral, espanhóis ou da América hispânica, mas criaturas que fizeram a sua capelinha, nas universidades deste mundo, à custa da Espanha e dos países da América espanhola, e que, sobretudo nos Estados Unidos da América, onde a ignorância geográfica é muito grande e se não sabe, em consequência, que o Brasil é, em área e em população, como em riqueza literária, tão grande como o resto da América do Sul toda junta, podem mesmo chegar ao requinte imbecil (mas espertalhão para carreira cómoda pela mediocridade triunfante acima) de serem «especialistas do conto do Peru ou do romance da Nicarágua, coisa que qualquer honesto cidadão desses dois países teria vergonha de ser, por evidentemente desejar compreender-se num contexto mais amplo. Tem havido, e há, as chamadas excepções honrosas — e é só a elas que a cultura portuguesa deve alguma coisa. Porque a tradicional atitude dos hispanistas em relação a ela, desde que, no século passado, a filologia e a história literária se criaram em termos modernos, tem sido a de considerarem Portugal um apêndice da Espanha, ou um lamentável equívoco, como diria o famigerado Menéndez Pelayo, ainda hoje mestre de muito espanhol e de muito hispânico, e que foi uma espécie de Teófilo Braga ao contrário. Mas esse apêndice, porque não era nem é parte da Espanha política, embora seja parte das Espanhas históricas e unitárias em face do resto da Europa, merecia-lhes ainda menos atenção do que a Galiza ou a Catalunha com as suas línguas próprias e as suas literaturas autónomas. A sujeição dos hispanistas ao mito imperial da absoluta supremacia castelhana — que sempre foi mais um foco de atracção do que uma entidade única — tem sido quase total, e Portugal era realmente uma desagradável pedra no caminho das especialidades hispânicas. Chegou-se ao ponto, que ainda hoje é comum pelas universidades do mundo em fora, de estudar-se Gil Vicente como um autor castelhano, e de falar-se com seriedade da poesia castelhana de Camões, que é pouca e largamente incerta de autoria. E há, por exemplo, quem continue a pôr em dúvida a autoria portuguesa da Castro de António Ferreira, um dos pontos de partida do teatro espanhol como Gil Vicente, fingindo ignorar que o galego que a traduziu e continuou com outra peça até encorpora nesta última versos de Os Lusíadas… Mas a desvergonha dos chamados doutos nunca teve limites (o que é uma outra questão).

Longamente a América Espanhola foi considerada pelos hispanistas um mero apêndice da Espanha, que ela, a muitos títulos, e na sua diversidade, realmente não podia ser considerada. E o Brasil, esse então, era um apêndice de um apêndice; o que não só era falso como idiota (embora ainda haja portugueses que não tenham devidamente apreciado as diferenças).

A importância política e económica que o Brasil e as repúblicas hispânicas da América assumiram está a modificar vertiginosamente esta situação, à custa de Portugal e da Espanha. Não há como as modas que as vantagens e os interesses dos governos despertam, para os doutos descobrirem logo as minas de ouro. Todos os países estão, desgraçadamente, a contribuir para o equívoco. Para os sul e centro-americanos, como para o México (que é aliás, com a Argentina e o Peru, quiçá dos únicos hispano-americanos a terem literaturas próprias, além do que é criado no entrelaçamento cultural de Hispano-América), este relevo liberta-os de uma sujeição cultural que era realmente indigna e injusta. Mas como será possível estudar as suas literaturas coloniais, ignorando a da Espanha, sobretudo pelo incomparável prestígio universal que foi — há portugueses ditos cultos que o não sabem — e merecidamente é o da Espanha Barroca? Quanto aos estudiosos de «português», limitam-se cada vez mais ao Brasil — o que está perfeitamente certo. E o Brasil sente nisso um orgulho imenso. Apenas este orgulho se engana, e faz o jogo dos seus inimigos, quando insiste em ignorar que a cultura portuguesa, para bem ou para mal, fez o Brasil e dominou nele até aos fins do século XIX (e mesmo os modernistas brasileiros nunca foram tão ignorantes de Portugal quanto se quiseram mostrar para não serem acusados de lusófilos), do mesmo modo, em contrapartida, o Portugal dos séculos XVII e XVIII, como da primeira metade do século XIX, é às vezes incompreensível para os historiadores portugueses de história ou de cultura, pela ignorância, em que continuam, de que o Brasil dominou largamente a vida portuguesa dessas épocas. Quando, para acentuarem a sua justa independência cultural, os brasileiros se embalam na sua irmandade latino-americana, e procuram por sobre Portugal afinidades com a Espanha, ou, por sobre as fronteiras, afinidades que os contactos culturais, raros e acidentais, não justificam, com o resto da América Latina — em lugar de se fazerem mais eles mesmos, reduzem-se a mais uma pequena unidade no mar imenso e confuso da balcanização do continente americano, feita calculadamente e viciosamente, pelas grandes potências. Se portugueses entram no jogo, e incluem o Brasil na América Latina que é realmente sinónimo de América espanhola, cometem uma distracção lamentável, que não serve os profundos interesses de Portugal, do Brasil, e nem sequer… da Latino-América. O que o mundo pretende esquecer é que o Brasil é o maior país das Américas, o de mais recursos, e que a sua cultura se diferencia de raízes diversas na História. E mais: que é natural condutor e líder das outras nações da América Central e do Sul, pelo seu gigantismo e pela profunda unidade interna que os próprios Estados Unidos da América estão muito longe de possuir e que não resistirá ao declínio do seu império.

Que os estudos de Hispano-América se ampliem não é uma desvantagem para a cultura portuguesa. Que eles se façam à custa da Espanha, definitivamente o é, na medida em que um desinteresse pela Península Ibérica no seu elemento mais forte arrasta o retorno do mais fraco ao esquecimento. E, se este processo, paralelamente, é acompanhado por uma exclusiva curiosidade pelo Brasil expressamente dirigida para a eliminação da cultura portuguesa (e raríssimos são os brasileiros de cultura, ou só os de autêntica cultura, que não desejam uma supremacia radical que menos é independência que má consciência de classe, com que a maioria esconde de si mesmos a cumplicidade com a manutenção social e cultural de um «status quo» colonial em que se não pergunta a milhões de brasileiros o que pensam que o Brasil é), o que se está a passar, precisamente quando os intelectuais portugueses andam na flauteação das suas glórias estrangeiras que meio mundo ignora, assemelha-se muito a um desastre ou a uma dança de cegos sobre o abismo.

A cultura portuguesa tem de encontrar o seu caminho político de sobrevivência e de reintegração entre a Espanha de que a fazem parte e o Brasil de que a excluem. Nem para ser simples apêndice de uma, nem para imaginar que a outra é apêndice seu. Não é com larilolés hispânicos ou transatlânticos que isto se faz, nem com a exportação de meia dúzia de professores demasiado jovens, nem com prestigiar constantemente institutos portugueses que não têm alunos, só porque são nos países da velha Europa. Não se fará também com uma ingénua «colonização» do Brasil, que é impossível, absurda, e só daria aos anti-portugueses o pretexto que sempre procuram para os seus clamores de angústia. Não se fará também com a indiscriminada política de mostrar o Portugal dos avós a quantos mais brasileiros melhor, até porque muitos deles não tiveram nunca avós portugueses. Mas com inteligência e planificação supra-política, e, sobretudo, não-provinciana. E por dois caminhos: estudos espanhóis e brasileiros desde o ensino secundário, e uma política cultural que o seja da cultura e não de meia dúzia de caixeiros-viajantes de um produto que sempre venderam tão mal.

Correspondência Inédita entre Mécia e Jorge de Sena: “Vita Nuova” (Período brasileiro, 1959-65), segunda parte

B) Cartas do Brasil
De Assis, a 11 de Jan. de 1960, Mécia escreve a Jorge de Sena uma carta dactilografada (a primeira, do corpus em análise) de 2 páginas com um breve post scriptum manuscrito, a qual merece uma referência especial, designadamente, pelo que denota de um sentimento profundo de expatriamento e exílio e de uma especial sensibilidade feminina para com o homem amado.

Nesta carta muito expressiva, Mécia começa por tranquilizar Jorge de Sena em relação à chegada do seu trabalho sobre Brecht passando depois a transcrever o seguinte poema de Veiga Leitão, poeta português, enviado ao casal:

“ Um – ao cabo da terra / Outro – para além dela/ Ambos – a dimensão do homem/ E de uma estrela”

Seguem-se as notícias do correio chegado, mudando-se o tom informal num desabafo de magoada desilusão e intranquilidade sentidas neste seu novo destino que é comparado a vivências anteriores e expectativas, face aos frequentes afastamentos físicos de Jorge de Sena. “Monólogo”, lhe chama Mécia, que o informa ainda de que está passando a sua tese da Bahia, trabalho denso e demorado. Noutra carta, 4 páginas manuscritas datadas de Assis, 21/1/960, Mécia reconhece o seu anterior pessimismo e retoma, no seu sentido prático, expedito e reflexivo, os comentários críticos, as informações de tudo e sobre tudo. Insiste, a finalizar, no pedido de notícias por carta (demoram 5 /6 dias a chegar) ou telefone.

Numa breve ponderação retrospectiva da correspondência de Mécia de Sena, que ela própria chega a classificar, com algum chiste, de “epocalmente camiliana”, são recorrentes temas tão diversos como a literatura e a tradução, a política, as intensas relações sociais e culturais, a amizade, camaradagem e solidariedade, os constantes contactos com editores portugueses e brasileiros, mas também os atritos, os quotidianos de muito trabalho, agitação e pouca disponibilidade financeira, os desabafos de angústia e sensação de abandono, as saudades e a dor do afastamento físico, tal a intensidade amorosa.

Por entre esta diversidade e abundância de pormenores de sua escrita metódica e sistemática, perpassa um discurso pragmático, elegante e cuidado em que se entrecruzam traços narrativos, diarísticos e descritivos de que emerge, nítida, a singular mulher e intelectual que é Mécia de Sena.

As mais de 100 cartas escritas, por Mécia de Sena a Jorge de Sena, neste período brasileiro, são cartas de uma espontânea sensibilidade literária, estética sensualidade e genuíno erotismo que caracterizam a intimidade do casal e o seu mundo de privacidade sabiamente resguardado da intensa rede de relações sociais em que sempre se moveram. Para além desse traço constante, expressam também, a par da latente narrativa de um viver quotidiano, extremamente rico e variado, as constantes confissões de amor, fortes valores morais, políticos e éticos, suas relações de amizade com escritores, intelectuais e figuras públicas proeminentes do Brasil e de Portugal, insatisfações sociais, preocupações familiares, desejos de afirmação e reconhecimento, lutas pela liberdade política e solidariedades cívicas, literárias e culturais.

2. Cartas de Jorge de Sena: “Minha querida Mécia, meu grande e único amor/…meu imenso amor”

Afere-se das cartas recebidas de Jorge Sena quanto da sua leitura se verte no tom das respostas que merecem a Mécia. A sua análise exaustiva permitiria demonstrá-lo. Tal não se mostrando aqui possível, resta-nos seleccionar para análise algumas cartas de Jorge de Sena e destacar desde já uma delas, por nos parecer mais representativa, sem porém deixar de seguir os traços de leitura-escrita que transparece das cartas analisadas.

Nessa carta de 6 páginas, datada de 24/7/63, e expedida do Rio de Janeiro, Jorge de Sena atento ao desejo repetidamente expresso por Mécia de sempre ter notícias suas, escrutina minuciosamente as últimas cartas recebidas e enviadas, tantas das vezes trocadas através dos amigos e dá-lhe conta da longa demora das ligações telefónicas. E antes mesmo de responder à carta de Mécia, conta longa e pormenorizadamente tudo quanto fez entretanto no Rio, desde os frequentes almoços e encontros com numerosos amigos e conhecidos, como Adolfo Casais Monteiro, António Pedro, Agostinho da Silva, etc. com destaque para uma incompreensível conversa ditada por despeito, com um amigo português, “relatório de raiva feroz” que o deixa amargurado e triste, sentimentos só ultrapassados com o jantar amistoso com outro amigo, brasileiro, as suas idas ao cinema e as críticas à má qualidade dos filmes no Rio, até à descrição minuciosa das longas pesquisas na Biblioteca sobre as várias edições (1616, 1645 e 1666-68, todas cotejadas) das Canções de Camões e outros assuntos candentes do momento, editoriais ou políticos, como a possível edição de trabalhos senianos (ex a Tipologia deixada na Agir por Meyer) ou a notícia de carta confidencial recebida de S. Paulo, por um dos do grupo, sobre reunião de democratas em Praga para preparação dos destinos da Pátria a que Jorge de Sena contrapõe a ida a Argel, Paris e Roma.

“E aqui tens, faltam-me ainda umas leituras na BN e no Gabinete P. de Leitura onde ainda não fui. No Gabinete do Livro apareceu-me o Joel Pontes que me fez grande festa. E agora a carta. Espero que tenhas ao menos conseguido que a encomenda do Parthenon não seja devolvida até eu voltar. Pela minha carta já sabes que vi as provas do Bernardino em S.Paulo.”

Seguem – se as suas opiniões quase sempre indexadas ao que D.Mécia entender sobre assuntos de família e bens próprios, como a sua casa em Portugal. E insiste com a mulher para que vá ao médico.

Ora, se do anterior conjunto de cartas femininas é ilustrativo do que foi e como foi vivido por Mécia de Sena quer o afastamento físico de Jorge de Sena e a curta fase preparatória da decisão da partida definitiva para o Brasil, quer a sua vida em Portugal, com ele longe, já no seguinte sub-conjunto de cartas de Jorge de Sena, podem seguir-se, em traços largos, aspectos dominantes da carreira e biografia literária, cívica e política de Sena, nos anos 1960/65 no país cuja nacionalidade adoptou por razões de natureza académica e onde desenvolveu intensa produção literária e actividade de investigação e docência, como investigador e professor universitário doutorado em Assis (São Paulo) e na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, ou ainda de intervenção política, como co-fundador da Unidade Democrática Portuguesa, membro do conselho de redacção do jornal Portugal Democrático e participante em actividades do Centro Republicano Português, de São Paulo.

A leitura que se faz deseja-se orientada pela advertência que o próprio Jorge de Sena faz em relação ao lugar especial que atribui às cartas de Mécia: “É evidente que convém distinguir entre cartas de “expediente profissional”, cartas de amigos e, neste caso, cartas da Mécia.” bem como pela percepção que tem da intensa correspondência trocada entre ambos: “E nós que podemos estar a fazer uma escrita de felicidade”.

Efectivamente, assim é o diálogo entretecido de cultura e literatura que emerge nítido das cartas de Jorge de Sena agora em foco e que iremos ilustrar com a selecção de alguns fragmentos de 12 cartas do escritor.

Logo em 1959, numa belíssima carta de amor enviada por Jorge de Sena do Recife, em 7/8/59, para Mécia, então ainda em Lisboa, ele colhe fotograficamente e assim regista na memória, o momento inicial do doloroso afastamento da mulher, seguido de uma profunda sensação de liberdade ganha.

“…saudade e amargura de não estares ao meu lado sobrelevam a sensação estranhíssima de respirar o ar livre do Brasil, que logo no avião começou. Revejo o teu “vulto” na porta de embarque…e de tanto sermos um, foi esta a separação mais dolorosa… mas cada vez mais somos um só, vivemos mais um no outro, meu Amor, não é?”

Um mês depois, Jorge de Sena escreveria assim, do Rio de Janeiro em 29/9/1959, como sempre, carinhoso, mas dando então notícia de diligências feitas para tratar de papelada oficial necessária à sua permanência no Brasil e à partida para aí da sua família, em Outubro de 1959:

“Meu amor, minha muito querida Mécia…Para simplificar, e porque fui ao Consulado por causa da licença militar e levar os retratos que me haviam pedido e tirei, fiz a declaração imediatamente, aproveitando a amabilidade deles. Aqui vai ela.Escrevo-te do correio para não perdê-lo. Espero que não haja encrenca com o engano dos dois nn no nome, tanto mais que a assinatura vai reconhecida. Beijos, beijos, beijos, infinitas saudades do teu que te aperta contra o coração. Jorge”

Numa deslocação de Jorge de Sena a S. Paulo, este escreve daí uma longa carta de 4 páginas, datada de “quarta – feira, 20/1/60” e endereçada a “ Meu amor, minha querida Mécia”, que envia “em mão” pelo seu colega brasileiro da Universidade de S. Paulo, o professor emérito de Literatura Portuguesa, António Soares Amora. Começa por indagar do bem-estar da mulher e dos filhos para logo desabafar:

“Que saudades tenho, que desirmanado, que desamparado fico sem ti!”

Pede que lhe envie o correio importante que haja chegado ou lho leve quando for ter com ele, deixando-lhe a decisão do que achar melhor, isto é, entregando-se nas suas mãos.

Descreve-lhe a viagem agradável que fizera com um dos filhos que levara consigo de passagem para a fazenda do amigo Décio, em Orlândia, depois de Ribeirão Preto, a cerca de 400kms de S. Paulo e a quem, diz, não deu dinheiro algum pois era ainda novo e não pareceria bem, não deixando porém de indagar da mãe “Que achas?”. Descreve-lhe em pormenor, tudo o que fez, os assuntos tratados no Instituto de Estudos Portugueses, as reuniões em que participara com amigos e camaradas sobre relações problemáticas no exílio e a participação, por alguns dos envolvidos, no golpe de estado em Lisboa do 11/ 12 de Março de 1959, i.é, a “Revolta da Sé”. Descreve actividades realizadas, políticas, ou de escrita, no jornal do Estado de S.Paulo:

“… No encontro no “Estado” tive de suprimir do artigo as referências, as notícias, a discriminação das obras completas do Sá –Carneiro. Mesmo assim, ainda ficaram de mãos na cabeça com o tamanho do artigo. O Bianchi e o Décio mostraram-me a carta que tinha ido para aí a dizer que eu não me ralasse com ter saído o artigo do Neves sobre o mesmo assunto. O Amora que agora foi lá recebera os 2.000; por isso não vai ser preciso por agora levantar dinheiro. …
A Conferência da Amnistia que afinal foi autorizada…dasabou em cima de mim. Eu pertencia com o Victor e o Sertório à Comissão de Resoluções e sou o redactor de todas as mensagens que serão expedidas. Além disso pediram-me para redigir …os entremeios da prosa do folheto que apresenta a documentação sobre “plenários”, “prisões”, demissões”, etc. Um folheto informativo que será distribuído aos delegados. Nem tempo tive ainda de pegar na crítica ao Nobre que no “Estado” esperam, nem de ir à Biblioteca. Ainda ontem à noite marchei para casa do Vítor onde havia reunião das comissões, com mais sossego do que na União dos Escritores que é uma balbúrdia. O Casais chega amanhã do Rio mas calcula que exigiu que lhe pagassem a viagem. Falarei com o Vítor para que ma paguem também, não te parece?. O trabalho merece alguma compensação , e ele tem dinheiro e nós não temos.”

Nesta carta, para além de outros assuntos seus do dia-a- dia, pede-lhe para ver com o Amora umas correcções a um trabalho seu, indicando-lhe concretamente o local dos livros que usou e a consultar. Sempre preocupado com Mécia, fala das diligências feitas para lhe conseguir um ortopedista e despede-se assim:

“Como vês meu amor nem tempo tenho para me coçar – mas sempre minha querida Mécia para pensar em ti. A pensar em ti mal durmo (hoje pela madrugada sonhei com o major Sequeira que nos ia processar, imagina tu! ), mal ando, mal faço tudo. Sem ti, sabes bem como nada sou e nada valho. Começo a nem saber falar sem ti ao pé de mim, como nem sei dormir sem ter-te a meu lado. E sem os teus braços, a tua boca, o teu corpo, não sei sequer, meu Amor viver. Beijo-te muito, muito, muito, aperto-te os seios com as mãos como tanto gosto – sou inteiramente teu. Dá lembranças à Clara, beijos aos pequenos. Recomenda-me aos amigos daí. Com imensas saudades aperto-te contra mim. Teu do coração. Jorge.”

Em carta de 4 páginas, datada de 6ª feira, 19/7/963, Rio de Janeiro, Jorge de Sena conta pormenorizadamente a sua viagem a partir de São Paulo e chegada ao Rio onde, diz, trabalho e contactos correram bem, com tempo ainda para conviver com os amigos, ir ao cinema e ao calista. Destaque para os seus comentários a aspectos característicos da situação no Rio de Janeiro e em Portugal, e reflexões existenciais:

“Imagina tu que o hotel – e o que me valeu foi ter telefonado de casa do Pimentel a fazer reserva – está custando como todos, a módica quantia de 3700 crzs!! Mais de quatro contos…só para dormir: amanhã vou fazer umas investigações a saber se estão todos assim pois que é uma dor de alma gastar assim o dinheiro.
O Salazar arranjou nova maneira de chatear as pessoas … o Nuno Fidelino de Figueiredo foi à Europa com a mulher e os filhos e tinha a intenção de passar um mês ou dois, primeiro em Lisboa, com os pais. Sabes o que lhe fizeram sendo ele já brasileiro? Declararam-no indesejável no aeroporto e não o deixaram desembarcar. Ele reclamou, entrou o cônsul em acção (o Negrão, não, é claro) e deram-lhe um visto de trânsito para 3 dias, e no 3º dia meteram-no no avião para Paris. A coisa agora é feita com elegância. Não é verdade?… Foste ao médico já?… Não deixes de ir mesmo que te sintas melhor…Não imagines que mesmo o ferro de que somos feitos não se gasta: gasta porque lhe temos dado muito uso.
Que vida a nossa! Como gostaria que estivesses aqui comigo onde inclusivamente com a tua mania de utilidade concreta (como se as pessoas não pudessem ser úteis só de existirem, D. Mécia!) me ajudarias a fazer render mais as pesquisas. Será que alguma vez levantamos a cabeça? Sabes que chego a ter medo de que isso aconteça algum dia? Será que somos daqueles que vivem longamente assim ou morrem quando a vida lhes melhora. Assim tivéssemos para aturarmo-nos a mesma energia que temos no amor e na luta pela vida, mas não se pode ter tudo….
Dá muitos beijos aos pequenos todos. E para ti vai com a minha saudade e o meu amor o grande e apertado beijo do teu Jorge.

Noutra carta de 6 páginas, datada do Rio em 24/7/963, Jorge de Sena escrutina minuciosamente as últimas cartas recebidas e enviadas, através dos amigos, e dá conta da longa demora das ligações telefónicas. Conta demorada e pormenorizadamente tudo quanto fez entretanto no Rio, desde os frequentes almoços e encontros com numerosos amigos e conhecidos: Adolfo Casais Monteiro, António Pedro, Agostinho da Silva, e outros. Refere-se a uma incompreensível conversa com um amigo português marcada pelo despeito, “relatório de raiva feroz” que lhe provoca amargura e tristeza só ultrapassadas em jantar amistoso com um amigo brasileiro. Fala das idas ao cinema, critica a má qualidade dos filmes no Rio e descreve minuciosamente as longas pesquisas na Biblioteca sobre as várias edições das Canções de Camões (edições cotejadas de 1616, 1645 e 1666-68). Aborda ainda outros assuntos candentes, editoriais ou políticos, como a eventual edição de trabalhos seus (ex a Tipologia deixada na Agir por Meyer) ou a notícia de carta confidencial recebida de S. Paulo, por um dos do grupo, para uma reunião de democratas em Praga para preparação dos destinos da Pátria a que por Sena foi contraposta antes a ida a Argel, Paris e Roma:

“E aqui tens, faltam-me ainda umas leituras na BN e no Gabinete P. de Leitura onde ainda não fui. No Gabinete do Livro apareceu-me o Joel Pontes que me fez grande festa. E agora a carta. Espero que tenhas ao menos conseguido que a encomenda do Parthenon não seja devolvida até eu voltar. Pela minha carta já sabes que vi as provas do Bernardino em S.Paulo.”

Seguem–se as suas opiniões sempre indexadas ao que Mécia entenda e insiste com a mulher para que vá ao médico,

“…essa aversão á medicina é pecadilho infantil. Afinal que queres tu? É complexo de auto-destruição? Os médicos também tratam isso e com pílulas. …
Hás-de concordar que não serão os remédios que fôr preciso comprar que desequilibrarão o nosso orçamento em teu favor, prejudicando o papel de anjo isento que só trabalha e não custa dinheiro que te obstinas em representar. Podes continuar a ser anjo e mais eficaz com pílulas angelicais contra os rins e vísceras maléficas. Estou e não estou brincando. Achas – e é verdade – que já não consegues aguentar o trabalho e os filhos? É sem saúde que esperas aguentar melhor?”.

Queixa-se de problemas nos olhos que lhe dificultam o trabalho na biblioteca, para logo passar a outro assunto, de implicações políticas:

“…Quanto à história do Kim [talvez o amigo Timás Kim dos Cadernos de Poesia] a coisa tem de ser considerada cuidadosamente; Um dos meus capitais –nossos – é a política que tenho mantido e o respeito que me têm. Pode ser que o Kim tenha tido uma inspiração nem duvido. E de resto se eu recebesse garantias da PIDE ( e pode-se ou deve-se confiar nela?), quem não pensaria que depois do que tenho dito e feito eu não traí? Um lugar em Lisboa, para educar os filhos, só com 6 ou 7 contos por mês, pelo menos. Quem mos dá? Quando voltar escrever-lhe- ei. E acho a história dos Cadernos muito divertida sobretudo num momento em que se fazem “sondagens” e se dará um golpe que provavelmente porá os comunistas em pânico. Eu estou tão cansado do Brasil como tu…mas a verdade é que sou (talvez até Agosto…) catedrático e vou escrevendo e editando coisas que lá ninguém me editaria…. e sempre vamos educando os nossos filhos… Mas tudo isto é para conversarmos longamente. Claro que se houver o golpe do Lacerda, aí regressamos a toque de caixa… mas ao menos de graça. (…)
Mas estas coisas desde que os livros saiam e eu possa escrever já não me aquentam nem arrefentam. O caso na faculdade envolvendo alunos que são também meus, é outra coisa. Os meus olhos não aguentam mais. Amanhã, telefonar-te-ei, e poderemos falar emocionalmente, já que tudo vai aqui tratado. Beijos muitos aos pequenos. E as saudades e o beijo do teu do coração Jorge.”

Em carta de 4 páginas enviada do Rio de Janeiro, a 31/1/965, iniciada como de costume pelo ponto da situação da correspondência entretanto trocada com Mécia, e seguida do relato comentado de peripécias do quotidiano (custos elevados de hotéis e restaurantes, incómodos vários de óculos e sapatos novos, metereologia de calor húmido comum a S.Paulo e contrastante com as securas de Araraquara …), encontramos, como de costume, a referência a vários temas e assuntos: encontros e conversas com os amigos (Casais, Pimentel, Lemos e outros), a boa recepção que em vários locais tem tido, (ex. Real Gabinete Português de Leitura), frequentes idas ao cinema (caríssimo, 500 e 600 cruzeiros), compras de livros, alguns em tradução brasileira para Mécia poder ler, dinheiros recebidos/a receber, desabafos de cansaço forte e memória fraca. Comenta a desatenção dos filhos que nem dão pela sua falta habituados que estão já às suas viagens, e continua preocupado com a saúde de Mécia com quem comenta ainda Lawrence e Balzac.

Na carta seguinte, mais curta, enviada do Rio em 5/2/965, é o convite recebido de Wisconsin, aceite, mas que como diz preferiria que fosse de Illinois, “menos nos confins do mundo” e as conjecturas da preparação da partida da família para essa nova etapa de vida que é o assunto principal. Não faltam as notícias dos almoços com amigos como Cleonice Berardinelli.

Do Rio de Janeiro, Hotel Nice, a 17/8/965, nova carta de 4 páginas em que retoma o assunto da preparação nos serviços de emigração e embaixada, da próxima partida para os U.S.A, com a notícia de que lhe são ofertadas 5 passagens por Scarabótolo que lhe promete recomendá-lo para director do Centro de Estudos Luso-Brasileiros na nova Universidade de Essex, Inglaterra, e que dele dá as melhores referências a adidos culturais dizendo querer prendê-lo pela gratidão porque o Brasil não pode perder um homem assim.. Comenta intrigas várias em universidades, meios de adidos culturais e outros de que teve conhecimento por diversas fontes, incluindo Maria de Lourdes Belchior com quem falara ao telefone e pede urgentissímamente a Mécia que avise o amigo Borba que está a ser alvo, pelas costas, de traição nos meandros institucionais, fornecendo indicações precisas sobre o que deverá fazer para não perder o lugar de direcção que tem.

Volta a queixar-se do calor insuportável do Rio, refere-se aos contactos feitos com agências de viagens aéreas e diz ter passado na Editora Agir onde mantém colaboração, a tratar de assuntos e também nos Livros do Brasil onde encomenda livros para enviarem ao amigo José Blanc em Portugal. Nesta, como aliás noutras cartas, ainda a referência a pedido/remessa de dinheiro dispendido e necessário para o dia a dia.

Em nova carta, 3 páginas, laconicamente datada de “seg. feira, 14h30m” [Setembro +/- 20, 1965, anotação posterior] diz ter chegado bem a casa de amigos onde se instalou com dois dos filhos e refere ter já o visto permanente, pelo que pede a Mécia que vá ter com ele, com os filhos: “Vem portanto já, já, já. Quem sabe se não poderias tomar um ónibus nocturno?”

Por fim, uma carta de 8 páginas enviada do Rio, numa 6ª feira de muita chuva, sem anotação de qualquer outra data. Como sempre, no Rio, o seu quotidiano é um corropio de afazeres, de manhã à noite, em que nunca está sozinho, sempre em contactos de trabalho, almoços e jantares com os mais diversos amigos, visitas a outros para planear e fazer avançar trabalhos de edição e/ou intervenção política, como desta vez os preparativos por Meyer da publicação das suas “Tipologias” ou o almoço com Sarmento Pimentel e Paulo de Castro em que “tudo ficou maquinado para o nosso corte com os comunas”, as pesquisas na Biblioteca onde o seu amigo Emmanoel lhe facilita os microfilmes – desta vez, “o Camões todo”, o “celebrado sumário dos Reis de Portugal” e outras fontes. A estas notícias, juntam-se ainda as novidades dos sucessos ou problemas dos amigos no Brasil ou em Portugal.

São recorrentes as referências, também aqui, às dificuldades de dinheiro e carestia de vida no Rio : estadia no hotel a 2.000 e refeições a 800 e 1000 cruzeiros. Conta os assuntos que tratara no Instituto e na Cultrix em S. Paulo. Como continuam também mesmo que entre parêntesis, as referências mordazes e críticas à situação de Portugal e aos que de lá trazem “notícias importantes…”:

“Não há nada, ninguém espera que aconteça nada e contam com o …Exterior! Seria de anedota se não fosse trágico”

De novo assoma o cansaço de uma vida errante e cheia de obrigações e responsabilidades várias:

“Estarei na sexta feira em Araraquarara. Nem que vá no trem que chega a desoras. Já não sei andar assim sozinho, vagabundo, metido em quarto de hotel, encontrando pessoas, etc., etc…. Virei animal doméstico. E cada vez mais me exaspero de viajar sem ti. Como seria bom se pudesses estar aqui comigo, só comigo! É uma coisa que quase já não sabemos que seja.”

Refere-se ainda a diligências feitas para tratar de subsídios, fala de outros amigos que encontrara na livraria Leonardo Da Vinci, dos comentários positivos feitos ao seu novo livro de Contos “Andanças”, e das notas históricas que pretende acrescentar a Afonso Henriques em estudos seus em fase de provas quase a terminar:

“Aqui tens, querida, o relatório destes quatro dias vertiginosos e chuvosos…. E as pessoas ficam arrepiadas quando digo que não tenho ninguém para trabalhar comigo!
(…) Minha querida, que saudades tenho de ti da tua presença, do teu amor (senhora saiba – e como sei! que ele está sempre comigo!”

Noticia que um seu plano de nova publicação foi muito elogiado, comenta um filme fraco mas divertido que viu e lembra os filhos: “Muitos beijos para os pequenos a quem espero levar uns fantoches de mão que vi na rua se ainda voltar a encontrá-los.”

Como se pode observar as cartas de Jorge de Sena para Mécia, são no geral, fragmentos de um diário quotidiano amoroso, afectiva e psicologicamente intrincado na estreita e profunda relação com sua mulher, companheira certa de todos os momentos, sincronamente correspondido, mas também uma sequência de relatos de vida mais ou menos circunstanciados, em que se destacam as múltiplas actividades, iniciativas, contactos, relações e projectos literários, académicos e de intervenção cívica, cultural e política, em que constantemente está envolvido no Brasil, com particular destaque em Assis e Araraquara, mas também no Rio e em São Paulo, onde se deslocava frequentemente, por temporadas mais ou menos longas.

Enquanto o registo epistolar revela em Mécia de Sena, a sua capacidade gestionária, proficiência e suporte à actividade criadora e profissional de Jorge Sena – um intenso e regular trabalho d(n)as margens, porém, socioculturalmente activo e influente, qual esteio essencial à constituição de uma formação social moldada por valores culturais; na escrita epistolográfica de Jorge de Sena, são dominantes o mundo do trabalho académico e da intervenção directa literária e cultural, o exercício activo da liberdade cívica e política, com ênfase particular na divulgação da língua e da cultura nacional de origem. Mas tal divisão de trabalho ao nível dos papéis feminino-masculino é subvertida pelo desejo vivo que alimenta um dispositivo maquínico de escrita comummente vivida que veio a revelar-se, sublimado, na tenacidade com que Mécia tomou para si, após o desaparecimento físico de Jorge de Sena, a sobrevida numa obra tecida pela experiência de vida intensamente partilhada.

Nesta correspondência de uma fase fulcral das vidas de Mécia e Jorge de Sena, diário escrito a quatro mãos, como se de execução de uma partitura musical se tratasse, assiste-se à experimentação comum da escrita e à construção de um diálogo cultural e político ininterrupto entre Portugal e Brasil através das impressões e notícias trocadas entre ambos.

A abordagem feita, especialmente suscitada pela figura de Mécia de Sena e seu papel de charneira neste diálogo epistolar inédito, assenta num registo biográfico das cartas, instrumento interpretativo dos contextos histórico-culturais em que Mécia de Sena e Jorge de Sena são protagonistas de especial interesse e relevância.

Relevou-se a vertente documental desta produção epistolar, cuja expressão, simultaneamente, íntima e pública, revela aspectos e meandros importantes para um conhecimento mais pormenorizado da vida-obra seniana, evidenciando-se a grande importância socio-histórica, a vários níveis, desta correspondência, espaço potencialmente rico de pensamento, cultura, história e literatura. Sendo que a mesma convive muito de perto com a marcante experiência dos exílios e a profunda consciência de seu significado político, social e histórico, que a vão impregnar com evidente capacidade de resistência, estas dimensões são igualmente relevadas.

Índice de Correspondência Mécia de Sena /Jorge de Sena (Brasil, 1959-1965)
(cartas invariavelmente precedidas dos invocativos “Meu amor”, ou “Meu muito querido Jorge.”

1. De Mécia de Sena para Jorge de Sena

1. Lisboa, 22/2/59, (1 pág.)
2. Lisboa, 24/2/59, (2 págs)
3. Lisboa, 24/2/59, (2 págs)
4. Lisboa, 7/8/59, (4 págs)
5. Lisboa, 8/9/59 [deve ser 9/8/59], (2 págs)
6. Lisboa, 9/8/59, (3 págs.)
7. Lisboa, 10/8/59, (3 págs)
8. Lisboa, 12/8/59, (2 págs)
9. Lisboa, 12/8/59, (2 págs)
10. Lisboa, 14/8/59, (4 págs A5)
11. Lisboa, 15 e 16 /8/59, (4 págs A5)
12. Lisboa, 17/8/59, (4 págs A5)
13. Lisboa, 17-18/8/959, ( 4 págs A5), seguida de uma cartinha da filha Isabel
14. Lisboa, 19/8/59, (2 págs. A4)
15. Lisboa, 20/8/59 , (4 págs A5)
16. Lisboa, 20/8/69 , ( 4 págs A5)
17. Lisboa, 22/8/59, (4 págs. A5)
18. Lisboa, 23/8/59 , ( 8 págs A5)
19. Lisboa, 27/8/59 , ( 4 págs A5)
20. Lisboa, 28/8/59 , ( 4 págs A5)
21. Lisboa, 29/8/59 , (4 págs A5)
22. Lisboa, 30-31/8/59 , ( 4 págs A5)
23. Lisboa, 31/8/59 , ( 6 págs A5(
24. Lisboa, 2/9/59 , (4 págs A5)
25. Lisboa, 3/9/59 , ( 6 págs A5)
26. Lisboa, 4/9/959 , (2 págs A4)
27. Lisboa, 5/9/59 , ( 2 págsA4)
28. Lisboa, 5 – 6 /9/59 , ( 4 págs A4)
29. Lisboa, 7/9/59 , ( 2 págs A4)
30. Lisboa, 8/9/59 , ( 4 págs A4)
31. Lisboa, 8/9/59 , (1 pág. A4)
32. Lisboa, 9/9/50 – [ sem invocativo e continuação da carta anterior ] (1pág A4)
33. Lisboa, 11/9/59 , ( 3 págs A4)
34. Lisboa, 11-12/9/59, (4 pags A4)
35. Lisboa, 12-13/9/59 , (2 págs A5)
36. Lisboa, 13/9/59 , ( 4 págs A5)
37. Lisboa, 14/9/59 , (2 págs A4)
38. Lisboa, 15/9/59 , ( 3 págs A5)
39. Lisboa, 16/9/59 , ( 4 págs A5)
40. Lisboa, 16/9/59 , ( 4 págs A5)
41. Lisboa, 17/9/59 , (4 págs A5)
42. Lisboa, 18/9/59 , (2 págs A5)
43. Lisboa, 19/9/59 , (2 págs A4)
44. Lisboa, 19/9/59 , ( 2 págs A 4, papel timbrado da Portugália Editora)
45. Lisboa, 20-21/9/59 , ( 2 págs A 4, papel timbrado da Portugália Editora)
46. Lisboa, 21/9/59 , ( 2 págs A 4, papel timbrado da Portugália Editora)
47. Lisboa, 23/9/59 , ( 2 págs A5) acompanhada de uma cartinha do filho Pedro de 23/9
48. Lisboa, 24/9/59, Jorge, meu querido (4 págs A5), acompanhada de um bilhete do amiguinho Pito
49. Lisboa, 25/9/59 , ( 3 págs A4)
50. Lisboa, 25-26/9/59 , (5 págs A5)
51. Lisboa, 26/9/59 , (4 págs A5)
52. Lisboa, 27/9/59 – [sem invocativo] Outro dia sem notícias (2 págs A4)
53. Lisboa, 28/9/59 , (3 págs A5) com anotação “Recebi Assis a 5/10”
54. Lisboa, 29/9/59 – Meu amor, meu querido Jorge (4 págs A5) com anotação em letras grandes na 1ª página “Vita Nuova”
55. Lisboa, 1/10/59, ( 3 pags A4) com anotação “Receb. 7”
56. Lisboa, 2/10/59 , ( 3 págs A4)
57. Lisboa, 2-3/10/59, (4 págs A4) com anotação “Receb. a 14/10”
58. Lisboa, 6-7/10/59, ( 4 págs A5)
59. Lisboa, 8/10/59 , ( 2 págs A4)
60. Lisboa, 9/10/, ( 4 págs A5)
61. Lisboa, 11/10/59 , ( 4 págs A5)
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1. Assis, 18/1/60, (2 págs A4 dactilografada, com post scriptum manuscrito de 19/1)
2. Assis, 2171/60, (4 págs A4)
3. Assis, 10/6/60, (2 pág A4)
4. Assis, 3/7/60, (1 pág A4 , papel timbrado da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis)
5. Assis, 8/11/60, (4 págs A4)
6. Assis, 9/11/60, (3 págs A4)
7. Assis, 11/11/60, (2 págs A4/A5)
8. Assis, 8/2/61, (2 págs A4)
9. [s.l.] 8/7/61, (3págs); a 1ª pág com a seguinte anotação “PS: veio uma linda carta do Veríssimo”
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1. Araraquara, 1/7/62, (1 pág. A4)
2. Araraquara, 18/7/63, (2 págs A4); anotação na 1ª pág “Receb. a 24/7/63”
3. Araraquara, 23/7/63, (2 págs A4)
4. Araraquara, 24/7/63, (2 págs A4)
5. Ararquara, 27/7/63, (3 págs A4)
6. Araraquara, 3/8/63, (3 págs A4)
7. Araraquara, 4/8/63 , (1 pág A4, dactilografada)
8. Araraquara, 13/12/63, (2 pág A4, dactilografada com post scriptum manuscrito)
9. Ararquara, 10/1/64 , (2 págs A4)
10. Araraquara, 11/1/64 , ( 2 págs A4) anotação na 1ª pág. “ Rec. dia 21”
11. Araraquara, 13/1/64 , (2 págs A4)
12. Araraquara , 15/1/64 , (1 págs A4)
13. Araraquara, 28/1/64 , ( 3 págs A4) rasurado o ano e escrito 65; anotação “Resp.”
14. Araraquara, 1/4/64 , ( 2 págs A4)
15. Araraquara, 31/8/64 , (1 pág. A4)
16. Araraquara, 4/9/64 , (2 págs A4)
17. Araraquara, 5/9/64 , (2 págs A4)
18. Araraquara, 2/8/, (2 págs A4)
19. [s.l.] Setembro 1965, (2 págs A4)
20. [s.l., s.d.] – Jorge (1 pág.A4)
2. De Jorge de Sena para Mécia de Sena
(cartas quase sempre precedidas do invocativo “Minha querida Mécia, meu Amor”)

1. Recife, 7/8/959
2. Rio de Janeiro, 29/9/59
3. S. Paulo, 4ª feira, 20/1/959 [rasurado o ano e substituído por 60], ( 4 págs A4)
4. Rio, 6ªf.[s.d.] , (8 págs A4)
5. Rio de Janeiro, 6ª f., 19/7/63 , (4 págs A4)
6. Rio de Janeiro, 24/7/63, (6 págs A4)
7. Rio de Janeiro 31/1/65 , ( 4 págs A4)
8. Rio, 5/2/65, (2 págs A4)
9. Rio de Janeiro, 31/5/65, ( 4 págs A4)
10. Rio, 17/8/65, ( 4 págs A4, papel timbrado do Hotel Nice)
11. 2ªfeira, 14h30m , (3 págs A4; com anotação na 1ª pág. “Setembro.+/- 20 de 1965”)
12. Rio de Janeiro 31/1/65 , ( págs A4)

 

Correspondência Inédita entre Mécia e Jorge de Sena: “Vita Nuova” (Período brasileiro, 1959-65)

Ao propor-me estudar e escrever sobre a produção e recepção epistolares de Mécia de Sena no que sou, aliás, reincidente, não posso ignorar quão dilatado é um desafio que envolve milhares de cartas escritas e recebidas.

A primeira dificuldade será o desconhecimento em mar aberto, por assim dizer, da grande maioria das cartas dessa produção, que permanecem inéditas, com a ressalva devida para “Isto Tudo que nos rodeia (cartas de amor): Mécia de Sena e Jorge de Sena” (edição IN/CM, 1982) e a recente publicação “O Re-descobrimento do Brasil: três cartas inéditas” no site “Ler Jorge de Sena” onde se divulgam as primeiras três cartas escritas do Brasil em 1959, por Jorge de Sena para Mécia.

Seguindo os itinerários dessa produção epistolar com lugar de relevo na tradição da epistolografia portuguesa, de elevado valor literário que, designadamente, na observância da estreita relação entre os interlocutores, permitem também conhecer aspectos sócio-culturais e políticos de espaços-tempos concretos, procura-se avançar no conhecimento do seu significado para o desenvolvimento da investigação em vários domínios da Literatura e da Historia.

Correspondência Mécia de Sena /Jorge de Sena: Do amor e da saudade, da separação e da ausência, da unidade existencial e do vivido

As 158 cartas, na sua maioria manuscritas, aqui em análise: 112 de Mécia remetidas de Lisboa, Assis e Araraquara e 46 cartas de Jorge, enviadas do Recife, do Rio e de S. Paulo, entre 1959 e 1965, são um contributo incontornável para um melhor conhecimento de aspectos essenciais da vida e da obra de Jorge de Sena e informam-nos ainda sobre uma multiplicidade de assuntos relativos a edição e produção literária, e respectivos quotidianos vivenciados e comentados, nesta fase decisiva de suas vidas.

Em ambos se mantém a estrutura formal clássica das cartas, com uma parte mais ou menos curta de desenvolvimento, uma conclusão e um prólogo com invocação nominal sempre acompanhada de expressões muito carinhosas.

Diversamente das cartas de Mécia de Sena, numerosas, diárias e geralmente curtas e muito concretas, escritas a partir de Portugal entre Agosto e Outubro de 1959 e depois, já no Brasil, mais espaçadas, as cartas de Jorge de Sena são em menor número e menos regulares mas em geral mais longas e quase sempre imbuídas de um pendor reflexivo e especulativo sobre a vida e os acontecimentos narrados. Mécia quase nunca se afasta de uma das características principais do género epistolar, a brevidade e mantém-se fiel às outras duas: a clareza e a propriedade.

Entretecidas na esfera do privado, nelas assomam a dor e angústia das saudades, as adversidades e vicissitudes do dia-a-dia, as cumplicidades, a coragem de ousar e mudar de vida, o profundo companheirismo e atenção de Mécia e Jorge de Sena na sua primeira separação física mais prolongada de casados e já pais de 7 filhos.

Estas cartas deverão pois ser objecto de uma leitura capaz de colher e transmitir, com sensibilidade, recato, fiabilidade e imaginação interpretativa, a sua dupla dimensão de história vivida e criatividade literária.

1. Cartas de Mécia : Meu amor/ Meu muito querido Jorge

As primeiras cartas deste período, escritas numa regularidade mais que diária, num curto período de 2/3 meses, são, fundamentalmente, o testemunho impressivo e ininterrupto de uma paixão amorosa feminina exemplarmente resistente a toda e qualquer adversidade.

Configuram-se como pormenorizado e agitado diário de bordo extremamente completo das hesitações, incertezas, motivos, circunstâncias e preparativos da decisão de fundo e partida definitiva do casal Sena para o seu exílio voluntário no Brasil (1959-1965), onde não faltam os registos das impressões de estupefacção e dor provocados pelo mesmo, apesar da vasta rede de amigos em que se contam muitos dos prestigiados intelectuais da cultura portuguesa e brasileira.

A) Cartas de Lisboa para o Brasil
A partida de Jorge de Sena para o Brasil e sua ausência é documentada na torrente de escrita epistolar de Mécia de Sena, a que, para sua ansiosa contrariedade sempre assinalada, Jorge de Sena responde, a espaços mais irregulares.

Em carta de 7/8/59, alusiva ao desembarque de Jorge de Sena no Recife, seguindo daí para Salvador, com vista a participar, a convite do governo brasileiro, no IV Colóquio Internacional de estudos Luso – Brasileiros, entre 10 e 21 de Agosto, na Universidade da Bahia, Mécia regista o que irá ser uma constante nesta correspondência: o recurso a intermediários portadores das cartas, estratégia a que ambos recorrem, presumivelmente, por atrasos de correio, insuportáveis.

“Escrevo-te ao cuidado do Eduardo Lourenço porque não encontro a morada do Casais.
É uma e meia da noite, e a estas horas irás já tu muito longe de todos nós.
Estou ainda atordoada destes últimos dias, e da tua partida com gente a mais, todos, memo os mais íntimos, varados, por ser possível que tanto nos queiramos. Mas sempre fico entristecida quando verifico que como não és nunca franco comigo, como vives enganando-me… e nem sequer em casa ao sair me tinhas dito toda a verdade. É isso que não compreendo em ti, que não me habituo a admitir, que faz que eu viva numa permanente e angustiante expectativa do que aconteça e que ainda hoje aconteceu…Acaba sempre tudo por desabar por sobre a minha cabeça quando precisamente em maiores dificuldades me encontro. (…) Temo que o desejo imenso que tens de, compreensivelmente, saires daqui te faça aceitar qualquer situação que aí te ofereçam. …Talvez o Urbano [Tavares Rodrigues] te possa deixar algum dinheiro e pago-lho aqui quando ele voltar. Mas só se vires que é muito necessário porque tudo é pouco…” [ a escrita da carta é retomada às 9h da noite] De manhã telefonou a Helena Moura avisando que o serviço de correio no Brasil é incrível…e oferecia que o pai te levasse notícias nossas. Como o avião parte à uma da noite irei ao aeroporto a ver se consigo quem leve os restantes exemplares da antologia e entregar a carta.
Vieram provas que vi nada tendo encontrado que me parecesse de te perguntar. (…) Mais nada, meu amor, senão que aguardo o teu regresso e que as horas da tua ausência me são intermináveis. (…)

Carta de 8/9/59 (deve ser 9/8/59) – descrição minuciosa, com grande sentido crítico, de episódios e membros da delegação portuguesa ao Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, na Bahia (designadamente, o historiador Veríssimo Serrão, o director do Arquivo Histórico Ultramarino, Azeredo Perdigão da Fundação Calouste Gulbenkian, escritor Vitorino Nemésio, professores Lopes de Almeida e Costa Pimpão, o diplomata André Gonçalves Pereira, o crítico literário Gaspar Simões, e outros.). Afectuosa e apaixonada, diz o que sente: as saudades e o desejo premente de notícias que dificilmente chegam, a imensa falta provocada pela ausência do companheiro e o temor manifesto de que ele decida ficar no Brasil:

“Meu querido Jorge, temo tanto que te entusiasmes a ficar aí, numa aventura que não temos o direito de tentar! E essa gente aí é tão falível, tão de promessas vãs!…E sobretudo temo que uma resolução tua seja razão de uma longa separação nossa, meu amor, e tu sabes como te quero, como só sei viver junto de ti, palpavelmente junto de ti. (..) E entretanto, meu amor, e como sempre, só da tua vida dependo, só tu preenches a minha. Que saudades dos teus braços, meu querido Jorge! …beijo-te ardentemente.”

Em missiva de 10/8/959, 3 dias após a partida de Jorge de Sena para o Brasil, Mécia regista a emoção sentida com a primeira carta que dele recebe e faz um registo fotográfico do seu quotidiano:

“…Ia eu a sair a porta com o pequeno para casa da Eunice, quando o carteiro chegou com a tua carta. Nem queria acreditar, meu amor. Foi como se finalmente alguma coisa me prendesse à terra, e um pouco de calor teu me chegasse.
Realmente nunca me custou tanto a separar de ti, nem saberei bem explicar porquê. Um temor da travessia do atlântico, um temor de que fiques por aí e eu me veja entre o desejo invencível de ir e a necessidade de ficar, sei lá mas talvez simplesmente e de cada vez mais não suportar estar longe de ti e saber que mesmo uma carta leva dias e pode nem chegar, de modo que sempre trocaremos correspondência de surdos.
Eu sei que não será possível eu ir e só para te fazer a vontade fui tratar do passaporte.
(…) Meu querido Jorge, és tudo quanto na vida desejo e quanto a vida me faz desejar. Compreender-nos-ão um dia os nossos filhos? Bem o desejo porque significará que encontrariam com quem se identificar. Beijo-te, meu amor, com uma infinita ternura, beijo-te sempre.”

Constante, a angústia da separação não impede o sistemático relatório de progressão da publicação da obra de Jorge de Sena, como se pode ver nesta carta de 12/8/959 (recebida a 17/8/59, conforme anotação manuscrita de JS):

“ Por certo ainda hoje não terei notícias tuas da Bahia que o transbordo do avião retarda. Estou ansiosa por saber como achaste o Casais, que tal é esse ambiente, como te pareceu assim em conjunto a heteróclita representação portuguesa. (…)
Vi já a prova da crítica do Monumental que devolverei, hoje mesmo, e mais umas páginas da Literatura que também devolverei, ou melhor, virão buscar hoje mesmo, se quiserem. Nada encontrei que impedisse a devolução imediata.
O Agostinho da Silva mandou o caderninho sobre o Fern. Pessoa. Meu Deus, mas o homem está louco de todo ou é da minha vista?
Veio também a página do Comércio com o teu artigo em grande relevo.(…)
Como estará decorrendo o Colóquio? (…)
A humanidade é vil, é pérfida e aquelas patacoadas do Agost.da Silva ainda me irritaram mais, bem se vê que está longe desta esterqueira há muitos anos para ter esperança de que este povo faça alguma coisa na vida. O paraíso terreal! Mas que gente!!! (…)
PS Os pequenos mandam-te sempre muitos beijinhos, bem como te mandam lembranças os amigos e conhecidos… Maria Lamas, etc, etc, etc. toda a gente com quem achego de falar”

Noutra carta datada do mesmo dia, a referência aos muitos amigos que a procuram e dele pedem notícia – outra regularidade desta correspondência.

“Esteve aqui há pouco e por pouco tempo o Cardoso Pires com a Maria Lamas (são íntimos e até compadres). Ela falara nas “Libertinagens e ele mostrara curiosidade em ver e ela veio cá pedir se eu me importava de lhe mostrar.
Esteve a fazer grandes elogios da tua Antologia. Acha o teu prefácio magnífico. Como toda a gente mostrou o seu pasmo por tanto que consegues produzir. (…)
Precisava de acabar a minha tradução mas não consigo por mais que faça, nem sequer chegar à regularidade que precisava das 12 páginas diárias. (…)
Não haverá um deserto qualquer para onde vamos os dois? Ou será que mesmo aí sairia de debaixo da areia qualquer verme para nos incomodar? Porque aí não há suficientemente longe, ainda há Pimpões que lá cheguem! (…)

Em carta de 14/8/959, o relato minucioso do trabalho de tradução e correcção de provas (ex. Literatura Inglesa), do numeroso correio que chega (recortes de jornais assinados, revista Vértice, Revista do Livro…), dos múltiplos afazeres quotidianos e ainda, apesar do estado de abatimento provocado pela morte da mãe, a convivência social e cultural, sempre presente no seu dia-a-dia:

“À noite, a convite da Maria Lamas, fui ao “Restelo” ver a “Grande Estrada Azul”. Uma coisa italiana bem feita, sem concessões de happy end mas muito lenta de acção, com interpretações boas mas não excepcionais. Uma coisa um pouco deprimente ou o meu estado de espírito é que anda deprimido. (…)”
A 15/8/959, Mécia exprime um contentamento indescritível com a chegada de carta de Jorge de Sena, através de mensageiro pessoal, regularidade também de toda a correspondência deste período, aliás, como a referência a dificuldades económicas resolvidas com empréstimos de amigos e dinheiro de traduções feitas por Mécia e Jorge de Sena, como a do “Hamlet” proposta de Luís de Sousa Rebelo, por 6.000.00, “uma ridicularia” mas “não há mais ninguém para a fazer”.

Em 17/8/959, confessa:

“ (…) finalmente nesta tua carta há já um começo de diálogo, que até agora as nossas cartas têm sido conversa de surdos, perdidos um do outro” e termina: “Meu, amor, vivo das tuas cartas e do teu amor. Beijo-te com muitas saudades…” para logo noutra carta do mesmo dia desabafar: “… isto aqui é atoleiro por todos os lados e ainda por cima é pobre, ao nível dos dez tostões que é a coisa miserável, desconsoladora. Não haverá no mundo uma Parságada qualquer para onde vamos? Meu amor, o mundo é nojento e a humanidade está ao nível do mesmo. E a vida é tão breve e tão poucas as coisas que nos dá meu querido. É-me insuportável estar sem ti, sem te abraçar, sem me sentir nos teus braços com a minha cabeça no teu peito quente, acolhedor, que eu sei pertencer-me como eu te pertenço inteiramente.”

Em carta de 17 e 18/8/959, Mécia de Sena, esgotada, ganha alento nesta confissão de amor:

“Pudesse a minha boca procurar a tua e não mais pensaria em nada… que os teus braços me protejam mesmo à distância e pensando neles eu tenha o repouso que tanto necessito”

No dia seguinte, em nova carta noticia os muitos comentários positivos ao estudo de Jorge de Sena sobre Florbela Espanca saído na Ática e indaga: “ Não percebo que voltas vais dar depois da Baia, mas entretanto o saberei por certo”, terminando por perguntar se as teses do congresso serão publicadas e se haverá hipótese de Sena publicar no Brasil uma antologia poética, lembrando por fim os presentes para os miúdos.

A 20/8/59, Mécia dá notícia da falta de pagamento por parte das editoras portuguesas e adverte Sena sobre as faltas na Junta Autónoma das Estradas (JAE), seu local de trabalho em Portugal.

Entretanto, nem um “torcicolo e problemas de fígado” a impedem de sair sob “um luar lindíssimo e temperatura muito agradável” para assistir a uma palestra, em companhia da escritora feminista Maria Lamas a qual esteve: “falando sempre muito de ti por quem ela tem verdadeira admiração”. Ainda na mesma carta, estranha: “Disseram-me ontem que os jornais brasileiros não entram cá, porque?!”

Em carta de 21/8/959, comenta: “os jornais de cá nem uma só vez, citaram, a propósito do Colóquio, qualquer nome fora do Perdigão, do Marcelo e do Reinaldo como se tivessem sido estes sempre os astros do Colóquio.”

A 22/8/959, manifesta a incerteza sobre o regresso de JS, desejando: “ Que venhas em breve, meu querido Jorge, para minha tranquilidade, que tranquilidade é estarmos juntos mesmo nesta inquietação tremenda que é a nossa vida aqui”; e prevendo ser esta carta a última a escrever-lhe para o Brasil, pergunta-lhe se recebeu uma carta que lhe enviara por Manuel Bandeira quando não sabia ainda que endereço usar.

A 23/8, em carta bem mais longa, em que acusa, com grande alegria, a recepção, através de intermediários, de 2 cartas de Jorge de Sena, com mais de 1 semana de atraso, diz “a Emissora está farta de anunciar uma série de palestras entre as quais a tua no dia 27 …na Baía”, e refere-se à boa recepção que em Portugal tem tido o Colóquio, e às diversas atenções e simpatia que tem recebido da tipografia:

“Entretanto foram para cá tantos os telefonemas, os recados, as idas e vindas nestes últimos três dias que parecia uma fita dos irmãos Marx. (Claro que quase não pude trabalhar na tradução e…só consegui, não sei como, ver as primeiras provas de mais um caderno da Literatura…tive algumas dúvidas, mas como entretanto me tinham mandado o original inglês lá resolvi…”.

E é ainda o amor incólume ao desgaste da vida, do casamento e do cuidado com os filhos, que continua a manifestar-se, como sempre:

“…a carta que me trouxe o Urbano foi para mim como um banho lustral, meu querido Jorge. Fico tão envergonhada quando me dizes coisas como estas, meu amor. Só realmente o amor que tenho por ti, me pode fazer avolumar tanto aos teus olhos. E vê lá eu acho sempre que te dou pouco…Só realmente quando me possuis eu creio não ser possível a ninguém, nem humanamente, uma dádiva mais total. É como se simultaneamente estivesses todo em mim, estando eu dentro de ti, abarcada pelos teus braços e pelo teu corpo, numa envolvência indescritível. E tudo te devo, meu amor. Quanto gostaria neste momento de pôr as minhas mãos na tua cabeça, nos teus olhos, na tua cara, como tanto gosto de fazer deitada a teu lado, às escuras, para ir moldando nas minhas mãos os teus contornos inesquecíveis e sentir aquela felicidade transbordante, sequiosa de ti, e apaziguada por ti, ‘quando deitada à tua beira sei que se rasga eterno o véu da graça’. Só desejo viver o suficiente para dizer um dia aos nossos filhos o que acima de tudo devem querer e como se o obtiverem nada mais contará para eles”

Em carta de 27/8/959 mostra-se preocupada com a demora do regresso e com o bem estar de Jorge de Sena em sua digressão pelo Brasil (Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo…) há cerca de 1 mês, repleta de solicitações e trabalho, mas também de contentamento.

Refere-se à amizade de JS com os Barradas de Carvalho, inteira-se das novidades do Colóquio, conta-lhe do convite do Jacinto Ramos para a estreia da peça “O Catão” de A. Garrett, e informa-o que o Ruy Belo (da Aster) fora buscar os poemas de Malarmé e um estudo sobre o mesmo, despendindo-se assim:

“Meu amor, deixei para o fim o agradecer-te o poema que me mandaste. Achei-o belíssimo, querido, mas como de costume quando a tua poesia me abrange, sinto-me enleada, e não sei como agradecer-te senão beijando-te”.

No dia seguinte, noutra carta, depois de desabafar, prossegue noticiando, com seu sentido crítico:

“ …Depois, isto de não saber nunca ao certo, onde estás ou para onde vais, aumenta a minha própria instabilidade. (…) Meu amor, não creio que o Brasil nos sirva. Está demasiado perto e tem demasiados contactos com esta piolheira. Há-de ter sempre a marca indelével deste povo irremediável que primeiro, lhe pisou descalço, o solo. (…)
Os jornais por cá não deram especial relevo ao Colóquio, salvo no respeitante à delegação oficial que só faltou dizer a que horas S. Exa ia ao WC.
Também esses brasileiros podiam ter sido um bocado menos pródigos em “honoris causas”. Quase já não dá honra nenhuma merecer tal honra depois desta distribuição quase ao domicílio. Mais do que a política de boa vizinhança exigiria não creio que fosse preciso e não há dúvida que se excederam. E afinal o Perdigão deu-lhes mesmo o coice. Tinha de se vingar da classe turística.”

Em carta mais breve de 29/8/59, diz com alguma preocupação, que pediu os ordenados dele a “Livros do Brasil”, conta-lhe dos muitos que a visitaram pedindo-lhe notícias suas, e continua a comentar a recepção na imprensa portuguesa ao Colóquio da Bahia:

“A notícia que correu exactamente nos D. da Manhã e do Notícias põe elogios à delegação oficial e também abrilhantava o Paço D’Arcos e tu…”
Confessando-se “perplexa e estonteada” com recente missiva de Jorge de Sena, de 30/8/959, em que pela primeira vez se refere à hipótese de ficar no Brasil, escreve:

“Antes de mais preocupa-me o estado de cansaço em que dizes estar. Isso não pode ser, Jorge. Como vais enfrentar cá depois um ano inteiro ou começar vida aí se as coisas para isso se proporcionam? Estou aflitíssima meu querido Jorge. Que tal é o Juscelino?
Hoje vem no jornal que houve barulhos em Niteroi. Fico preocupada mais ainda. A vida aí sofreu nova alta. Até onde chegará enquanto durar o sangradoiro de Brazília?
Como vai o Thiers arranjar-te esse dinheiro se não deres a tal lição na Faculdade de Filosofia? Isso em moeda portuguesa são 3 contos e tal?
Amanhã telefonarei ao Lyons de Castro. Também telefonarei ao Serrão e ao Rebelo.
Mas meu Deus, ficas a conhecer toda a gente….”

Sopesa depois as dificuldades e problemas que terão de resolver com a mudança para o Brasil:

“…Isto quer dizer que tens possibilidades de que ainda me não falaste? …
Penso que haveria uma possibilidade de se arranjar uma demora aí tua. Conseguires seres convidado para o Congresso da Estrada …dar-te-ia ensejo a uma demora até fins de Setembro o que seria já um prazo mais largo para resoluções tão graves como a que estarás sopesando.
Como poderíamos nós de repente, plantarmo-nos aí com uma familória como a nossa e sem ninguém que me ajudasse? Como mandaríamos dinheiro para cá? Como poderia eu fazer viagem sozinha com 5 ou 6 crianças e 3 praticamente de colo? Tudo é preciso pensar meu amor, e esta tua carta deixou-me desvairada de problemas e de desejos desencontrados. Como me aguentaria eu aqui, pouco tempo que fosse, sem um chavo de lado nenhum? (…)
Meu amor, contigo estarei sempre bem seja onde for…”

E num post scriptum de 31/8, relata todos os contactos feitos para acompanhar a publicação de trabalhos de Jorge de Sena e tratar de inúmeros assuntos da vida do casal.

Em carta de 31/8/1959 começa por expôr-lhe uma dúvida na tradução de uma frase do livro Expresso – Oriente, pedindo-lhe resposta rápida para devolver o trabalho à gráfica, facto ocorrido outras vezes. Regozija-se com o sucesso de palestra entretanto feita por Sena, pergunta-lhe se irá ainda à Baía e ao Ceará, preocupa-se com a incerteza e o receio de que ele acabe por não encontrar no Brasil possibilidades de ficar e de, mais desesperançado, vir encontrar novos problemas em Portugal, na JAE e no trabalho e relações com as editoras (Portugália, Morais, etc.).

Noutra carta datada de 2/9/59, mais curta, em que não deixa de informá-lo dos trabalhos com as editoras, confessa-se “grega com as provas da Literatura”, e “Estou cansadíssima do sarau das provas”.

Numa segunda missiva datada do mesmo dia, diz-se convencida de que ele “regressará”, consolando-o, se as suas expectativas de ficar se gorarem:

“…’dar o salto’ com tanta coisa cá entre mãos e difícil de realizar. …Sei que te é insuportável viver aqui…Não posso portanto, naõ tenho coragem para poder ser razão, mesmo pequenina, para que não procures por todos os meios sair daqui. Peço-te só que penses com calma e não acredites excessivamente nas pessoas: uma coisa é a afabilidade para quem está de visita, outra para quem está em permanência …”

As muitas incertezas sobre se Sena ficará ou regressará do Brasil que serão constantes nas cartas seguintes de Mécia, manifestam-se também nesta carta:

“Os pequenos andam um pouco pressentindo no ar qualquer alteração. Falam em ir ter contigo, fazem projectos vários e desencontrados. De resto, toda a gente pergunta, toda a gente opina, toda a gente aconselha, toda a gente…e ninguém dentro dos nossos reais problemas”

Em carta de 4/9/59, comenta uma entrevista de Pedro Támen, na rádio, pergunta pelas suas aulas na Faculdade de Filosofia, pelas suas andanças no Brasil (Ouro Preto, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro…) se aí ficará ou não e/ou se virá buscá-los. E em duas cartas do dia seguinte, depois de receber duas cartas do marido, de S. Paulo que lhe falam da sua decisão de ficar no Brasil e estar já a tratar da sua ida e dos filhos, projecta soluções e preparativos para a mudança da família. Recomenda-lhe que escreva a pessoas com quem tém compromissos de trabalho e promete enviar-lhe a tradução de Brecht pelo amigo França e pedir a Ilse Losa para que lhe envie também o que tiver já feito de tradução.

Três dias depois, a 8/9, conta-lhe a sua ida a Sociedade de Escritores onde se encontrou com a família de Jaime Cortesão (historiador exilado no Brasil), e vários autores portugueses: Ferreira de Castro, Vitorino Nemésio, Cardoso Pires, Paulo Quintela, Piteira Santos, Manuel Nascimento. Recomenda-lhe que troque o seu visto por um permanente, no que terá ajuda de amigos, para “evitar mexidas de emigração” aconselhando-o a preferir S. Paulo “onde o clima é muito melhor e a vida, com todos os seus defeitos, muito mais bem organizada”.

Em carta de 9/9/959, Mécia de Sena alvitra a hipótese de, em caso de complicações, Jorge de Sena pedir asilo político na Embaixada, e numa outra carta do mesmo dia, interroga (-se):

“ Mas como vais ter tempo de fazeres tudo com um emprego em full-time? E quando te fica tempo para vivermos e produzires num ritmo finalmente que nunca aqui te foi possível? …mas o mais que estou é assustada com a nossa separação e a ver a minha ida cada vez mais difícil, à medida que penso que terás de arranjar aí casa onde caibamos e de a encher com aquele mínimo indispensável….quem vai pagar a nossa passagem?”

Em carta curta de 11/9, adverte para o pedido de licença ilimitada do marido e inquieta-se sobre se lhe pagarão o ordenado. Seguem-se duas folhas com apontamentos para ele lhos explicar e uma relação de livros com nomes de amigos para a respectiva entrega. Pergunta-lhe o que fazer com obras que aguardam a sua crítica e se deve anular assinaturas de revistas. Noutra carta do mesmo dia faz contas do que espera receber das editoras e diz da satisfação de se lhe reunir, com os filhos:

“Custa-me imenso a deixar isto, mas estou tão contente, meu amor, por te sentir liberto, confiante e contente. Agora só penso em ir o mais depressa possível.”

Entre 12 e 19 de Setembro, sucedem-se as cartas, diárias ou duas por dia, as quais traçam um impressivo e realista painel de uma miríade de assuntos e problemas de suas vidas: os preparativos da partida ao encontro de Sena no Brasil, tudo minuciosamente exposto e organizado por acordo entre ambos, os empréstimos espontâneos de dinheiro pelos amigos, as “cunhas” de uns e de outros para resolver mil e uma burocracias, as influências para obter os vistos de saída, os custos das viagens e os preços dos camarotes, a ida da empregada que conforme prática da época apenas pagaria 2/3 do custo normal da viagem, em 2ª classe, a súbita impossibilidade da sua ida por a fiscalização concluir não ter ela meios e em só autorizarem a saída de “prostitutas ricas” para o norte de Africa e Brasil, a compra das passagens e pagamentos a fazer por Sena a partir do Brasil, já que em cruzados são mais baratos os custos, o envio de trabalhos de Sena para correcção, por avião, através de mensageiros pessoais, como por exemplo “pelo Ferreira de Castro te mandarei mais Teixeira de Pascoaes e Pessoa”, a entrega na JAE da carta de pedido de licença ilimitada e pormenores envolvidos, perguntas sobre o que dele deverá levar, requerimentos a fazer para adicionar os sete filhos ao passaporte de Mécia e para manter a casa em sua posse, referência actualizada aos inúmeros trabalhos de edição e tradução pendentes em várias editoras e aos constantes contactos de escritores, intelectuais, editores, amigos e pessoas de suas relações, como José Saramago ou Mário Chicó, necessidade da declaração de Sena a autorizar a deslocação da mulher e filhos para o estrangeiro (Brasil), relação de amizades e familiares que Ferreira de Castro e outras pessoas das suas relações têm em Assis e São Paulo, documentação que se exige às crianças, nas escolas brasileiras, muita e variada correspondência recebida por exemplo de António Pedro e Maria Lamas, pesarosa e cheia de humanidade, por eles serem mais uns que se vão, etc., etc.

“ Quando irei? Quando assentarás arraiais em Assis? Estou desejosa que me digas que estás instalado…”

Mantém interrogações como esta, em carta de 14/9 que, aliás, noutras se repetirão:

“Parece-me que estás a fazer ondas desnecessárias, Jorge. Hoje recebi carta do Casais para me convencer a ir. Serei eu que estou maluquinha? Mas alguma vez será preciso convencer-me a ir para onde estiveres? …está na tua mão e não na minha que eu vá e eu não ficarei aqui nem uma hora mais que seja mal tenha ordem de seguir.
Relê as minhas cartas, vê o que tens a fazer, faz as coisas com calma e sobretudo escreve-me que estar sem notícias tuas é a pior das torturas…”

Em carta de 26/9/59, avizinha-se já mais seguro e próximo o reencontro, assim amorosa e apaixonadamente antevisto:

“se tudo correr bem espero estar aí daqui a um mês. Assim pensando já os dias começam a descontar e o tempo parece menor. Depois na minha tristeza começo a temer que te deixe de interessar, que meus beijos deixem de satisfazer-te. Que dura prova é a separação quando duas pessoas se amam como nós, meu querido. Quando passarei as minhas mãos pelo teu corpo fresco e macio? Nunca deixarei de te olhar e sentir junto de mim. Desejo ardentemente ser tua, que me possuas com aquela segurança e aquela total ausência de egoísmo em que és perfeito como não concebi nunca que se pudesse ser. “

Numa carta de 29/9/ 959 em que foi anotada e sublinhada a expressão “Vita Nuova”, numa alusão a Dante Alighieri, dá-lhe conta de uma série de telefonemas de amigos entre os quais se conta Sophia de Mello Breyner que se mostram desolados com a saída deles.

E sublinhado também segue o pedido para que ele “pergunte aí a qualquer senhora (a mulher do Lemos por exemplo…) se valerá a pena levar roupas de fazenda e de lã dos miúdos e dela, pois se tal não for necessário, a bagagem ficará bem mais reduzida”.

A 1 de Outubro, ansiosa “nunca mais saio daqui”, diz-se ainda às voltas com a papelada necessária, com a necessidade de arranjar dinheiro e admoesta-o “ porque não me escreves todos os dias ao menos um postal?” ou “vê se assentas, pelas alminhas”.

A carta do dia seguinte inicia-se assim:

“Fui hoje à Panair, tratar de tudo das nossas passagens. Põem-nos em S. Paulo por 50.000$00 com cerca de 200 kg de bagagem. A mulher do Fafe ofereceu-me o dinheiro e entre ela e Setas me arranjam. Vou, portanto logo que tenhas mandado a declaração para a Clara [a empregada] e os papéis estejam prontos. Se aí conseguires rehaver a tua passagem tanto melhor…”

A 3/10 diz estar pronta para partir a 12 de Outubro e que afinal os livros e papéis que ele lhe pediu pesam mais de 70 kgs, só para eles, duas malas. E prossegue:

“ quando eu digo a alguém a uma semana de partida que não tenho di. onde afogar-me as pessoas ficam varadas e o caso não é para menos.
Daqui em diante vou escrever-te apenas nos dias em que tiver carta tua que é para saberes como é agradável estar dias sem saber nada, sequer se as pessoas estão vivas!
É-me insuportável viver como tenho vivido e tu não te apercebeste ainda disso…
A mais do que isto é o amor imenso que tenho por ti e a minha inconsolação de estar longe de ti.
Beijos muitos da tua Mécia
4/10/59
Não veio correio.”

Em carta de 6/10 é logo anotada a “inconcebível” falta de correio dele e, a 7/10, há finalmente a notícia de chegada de carta sua, datada porém de 30/9, depois do que dá conta da iniciativa tomada para angariar novas traduções, de expediente que tratou em seu nome e da entrega e recepção ou retorno de livros no seu vasto círculo de amigos.

“Quantas saudades tenho de ti, meu amor. Estou contigo daqui a 11 dias? Deus queira…”

A 8/10 acusa recepção de telegrama quando tudo já tinha tratado na Panair e a de um telegrama expresso enviado 6 dias antes. A 9/10, Mécia diz ter reunido em sua casa um grupo de amigos em que se contava a Maria Lamas que conversaram até às 2h da madrugada sendo ele o assunto principal. Continua a mantê-lo a par dos trabalhos com as Editoras, como a Portugália, com quem vai tratando assuntos pendentes e novos, prosseguem os comentários ao “surrealismo” dos correios, e diz que finalmente sabe o que ele vai fazer em Assis, coisa que todos lhe perguntavam e ela não sabia explicar.

A 12/ 10, numa carta que será, segundo Mécia, a última antes de partir para o Brasil, temos notícia de “trapalhadas” quanto a marcações das viagens provocadas por desencontros de correio e ainda do aumento do peso das bagagens e dos livros até 100 kgs que o Padre Manuel Antunes e outros amigos a foram ajudar a separar, bem como de almoços e jantares de despedida com a escritora Sophia de Mello Breyner, a actriz Eunice Munoz e outras amizades que permanecerão pela vida fora.

 

Testemunho pessoal sobre viver nos Estados Unidos da América

Encontra-se no livro América, América — o mais recente das Obras Completas de Jorge de Sena editadas pela Guimarães — este depoimento até então inédito, datado de julho de 1968, no qual lemos não só o “testemunho pessoal” que o título anuncia, mas ainda uma ampla análise do american way of life e das peculiaridades que lhe são correlatas.

 

Há quase três anos que vivo na América do Norte, aonde cheguei, menos de visita que para ficar, em Outubro de 1965. Durante esse período, tenho residido sempre em Madison, capital do Estado de Wisconsin, e viajado extensamente por outras regiões, em geral correspondendo a convites para conferências em universidades ou para participar em congressos mais ou menos universitários. Porque detesto viajar de avião, estas viagens têm-me permitido conhecer melhor os Estados Unidos do que muitos americanos os conhecem. De aeroporto em aeroporto, que é como de hoje em dia a classe afluente deste mundo viaja, só se conhecem aeroportos, as estradas que os ligam às grandes cidades, os hotéis todos iguais como os aeroportos e aquelas estradas, e a mesma gente que percorre tudo isso ou nisso pousa. Mas de camioneta (que é na América um transporte tão confortável como um avião) uma pessoa, em 24 horas de viagem contínua, tem oportunidade de ver muita gente entrar em muitas cidades de importância menor e de conhecer a paisagem com uma intimidade que não pode ter quem faça o mesmo percurso ao volante do seu automóvel. Muito americano faz percursos enormes de automóvel e geralmente é de automóvel que o americano médio se muda de um lugar para outro. Mas, na América, as distâncias são apenas uma incomodidade que o condutor de carro procura anular a 100 km à hora, com o fito de chegar, mais a família, a bagagem diminuta, o cão e o gato (se os não deixou, aos animais, abandonados na rua), ao ponto de destino o mais depressa possível. Quer isto dizer que, apesar de radicado num lugar da América, tenho visto muita América, desde Chicago a New York, de Madison ao Novo México ou ao Texas ou à costa leste (a velha América de Massachusetts ou da Pennsylvania). Não conheço o Sul propriamente dito, nem a costa do Pacífico, nem os Estados das Montanhas Rochosas ou dos desertos, ainda. A América do Norte é, com o México, um continente imenso, e não é possível seja a quem for a pretensão de tê-la percorrido extensivamente, mesmo numa vida inteira. Há, porém, dois correctivos, um geográfico e outro de ordem social, que permitem corrigir essa magnitude que, por certo, assusta as mentalidades europeias. De um ponto de vista de conhecê-la, a América do Norte não é tão grande quanto se julga, porque a sua variedade, que é muita, não é maior que a da pequena Europa. Nesta, uma pessoa, se se distrai num passeio a pé, muda de paisagem física e humana. Na América, uma mesma pessoa pode percorrer centenas de quilómetros sem que a paisagem mude. É o correctivo geográfico da magnitude que coloca a América em termos, que são os seus, de escala em relação à Europa, mas não de concentrada diversidade. E, nestas extensões imensas, em que a densidade populacional é diminuta (uns 20 habitantes por quilómetro quadrado contra os 100 que Portugal terá), a civilização americana impôs uma uniformização de costumes, de aspecto urbanístico, etc, que pode levar o turista distraído a supor que, após milhares de quilómetros, está, por piada, no mesmo lugar… É o correctivo social da magnitude da América, embora ela tenha áreas nitidamente distintas umas das outras.

A minha reacção a tais grandezas não foi tipicamente portuguesa, nem mesmo genericamente europeia. Não podia sê-lo, depois de seis anos de vida num Brasil igualmente imenso que também percorri extensamente, desde o Ceará ao Rio Grande do Sul, e que, como a América do Norte, oferece essa esmagadora sensação de mundo ainda desocupado que o europeu não poderá deixar de ter nas Américas como no interior da Africa (a primeira sensação de uma extensão continental tive-a eu há trinta anos, quando fui de comboio do Lobito a Nova Lisboa, em Angola). No entanto, as planuras da Rússia ou da China, velhos países ou velhas áreas de civilização, darão por certo a mesma sensação que as Américas ou a Africa.

Por outro lado, tendo eu, durante muitos anos, lido literatura americana e estudos sobre a América, a vida norte-americana e o passado que até certo ponto a explica não eram para mim um mundo obscuro e ignoto. E eram-no menos ainda, pelo facto de essa actividade não ter sido senão uma extensão da cultura inglesa, cujo conhecimento sempre me ocupou. A Inglaterra não serve de explicação para a América do Norte, do mesmo modo que Portugal não serve de explicação para o Brasil. Mas, sem um ou outro de ambos os países europeus, é impossível compreender realmente as criações que ambos levaram a cabo nas Américas (diga-se de passagem que uma falta de conhecimento de Portugal explica muitas das perplexidades que os brasileiros sentem ante a sua própria consciência nacional, e que essa circunstância se repete, ainda que a menor escala, em paralelo, nos Estados Unidos da América do Norte, em relação à Inglaterra). Porque, em verdade, ainda quando a América do Norte se empenhasse em diferenciar-se da Inglaterra (e essa fase já passou, se é que alguma vez ocupou os norte-americanos com o mesmo carácter de obsessão que, paralelamente, ainda conserva no Brasil quanto a Portugal), não menos há que conhecer-se bem aquilo contra que se é… sob pena de acabarmos sendo contra nós mesmos.

Todavia, se o conhecimento prévio de um país ajuda muitíssimo a compreendê-lo, nem por isso facilita a habituação a viver-se nele. Porque a cultura de um país é muito mais feita de pequenas peculiaridades, constrangimentos, hábitos de vida e de reacção pessoal, que das grandes linhas que a constituem e a definem. É-o, pelo menos, para quem não está a viver turisticamente nele. Nesse plano do convívio quotidiano, muito pouco adianta a gente saber a história e a cultura de um país, às vezes muito mais extensa e profundamente do que a sabem aqueles com quem lidamos: eles estão no seu «meio», e nós não. E essas peculiaridades são precisamente aquilo que transparece na literatura ou nos estudos culturais, por mais específicos que sejam, porque são o que, de tão comum e tão instintivo quotidianamente, não é sentido, nem tornado em consideração como peculiar, quer pelos escritores, quer pelos estudiosos. Em contrapartida, os viajantes apressados — e a América, como todos os países, tem sofrido dessa casta de gente que, numa viagem de quinze dias, viu tudo e até escreve um livro — correm sempre o risco de misturar o profundo e o superficial, e de atribuir excessiva importância ao que na realidade a não terá tão grande.

Sob estes aspectos, eu e a minha família somos imigrantes portugueses na América, embora com seis anos prévios de abra-sileiramento. Todavia, com diferenças substanciais em relação ao imigrante português, tal como largamente o vi no Brasil, ou sei que ele é aqui, nas regiões onde se concentra (Massachusetts e Califórnia). O imigrante português chegou da Madeira, dos Açores, de Trás-os-Montes, não sabendo de Portugal mais que os horizontes da sua aldeia. As Américas (e o Brasil deixou de ser esse Eldorado) oferecem-lhe possibilidades de enriquecimento, de ascensão social, etc, que ele nunca sonhou que existissem. A tal ponto náo sonhou, que uma das características do imigrante português, com raras excepções, é a sua falta de altas ambições, a sua satisfação com uma mediania que lhe parece já uma ascensão infinita. E, se não faz esforço para compreender o mundo que o rodeia e integrar-se plenamente nele, não menos está em condições de aceitar passivamente como maravilhoso esse mesmo mundo. Esta não pode evidentemente ser a situação de quem imigra por cima, como é o meu caso pessoal. Eu não vim ser na América aquilo que não era, ou ter oportunidades que nunca tinha tido — e estou em condi¬ções de sentir agudamente as falácias do sistema americano de vida, que os americanos estão, eles mesmos, a sentir também.

Para um intelectual, a vida na América (seja ele quem for, menos americano) é extremamente difícil. Com efeito, a vida americana não está concebida e preparada para a vida intelectual, para aquela independência das pequenezas quotidianas sem a qual as ocupações espirituais não gozam da ociosidade indispensável ao seu florescimento. O intelectual europeu, quer sonhe com um capitalismo evoluído como o norte-americano, quer com uma socialização plena da sociedade pelo mito soviético, nem sonha, realmente nem sonha, o que arrisca… Não há como viver aqui, para descobrir-se essa terrível verdade. A menos que uma pessoa seja riquíssima (e ninguém, senão raros, o é na América a esse ponto), não há quem nos faça nada. E a tradição rural, campónia, de círculo familiar isolado, que é a da América, está na base dessa tragédia do grande nivelamento social da riqueza, pelo trabalho, ao alcance de todos… Temos de fazer nós mesmos tudo, ou desistir. O americano tem a obsessão da verdura a seu lado. Para mim, criatura urbana da Europa, a relva é uma instituição municipal que tanto me faz que exista como não exista. Se eu, depois de dar aulas, aturar alunos, participar de reuniões administrativas na universidade, ainda volto para casa para estafar-me a cortar a relva à volta da minha casa, que tempo e que forças me restam para ler e para escrever? Nenhumas. Mas isto é precisamente o mais natural para o americano. Se há um jantar, uma reunião, à tarde ou à noite, o europeu deseja naturalmente conversar dos seus interesses, trocar ideias, etc. Será raro o americano, mesmo de cultura, que se entregue a esse jogo com ele. As pessoas não se reúnem para continuar o esforço intelectual que profissionalmente fizeram durante o dia, mas, para de pé com o copo na mão, ou à volta de uma mesa de jantar, conversarem de nada, aliviarem-se do esforço que fizeram. Seria o mesmo que um engenheiro, em Lisboa, incomodar os seus hóspedes com os problemas técnicos dos seus projectos, ou um advogado com as subtilezas das causas que estudou nessa tarde… A diferença entre a profissão e a cultura não é sensível à maioria dos americanos que, contudo, são às vezes muito mais séria e largamente cultos que muito europeu com pretensões de cultura (basta pensar no número e riqueza dos museus cheios de gente ou na intensidade da vida musical nos Estados Unidos, para se poder reconhecer que esta é uma verdade mais funda do que a Europa julga ou o americano ostenta).

Vejamos agora o problema num nível mais íntimo: o das relações humanas, independentemente da solidão intelectual que é pavorosa para a nossa mentalidade, ou da angústia da falta de tempo, quando teoricamente se têm todos os meios para trabalhar intelectualmente (sim… mas é preciso limpar a neve, é preciso ir às compras, é preciso consertar a fechadura, etc, etc). O americano deve ser um dos povos do mundo mais curiosos de estrangeiro: vive num perpétuo fascínio com o exótico, e, para ele, tudo o que não é americano, é estranhamente exótico. Mas deve ser, também, um dos povos do mundo mais impaciente e menos tolerante das dificuldades do exótico em adaptar-se a ele. O sonho do americano médio é que o mundo todo, mantendo algum folclore mesmo fingido, se torne totalmente uniforme, com os mesmos restaurantes e as mesmas estações de serviço, desde a Cochinchina à Patagónia. Os países de imigração têm a obsessão de que as pessoas se integrem neles. Nisso, os americanos levarão a palma a toda a gente: e talvez que em nenhum país o filho de imigrante queira ser tão completamente americano como aqui, pela pressão impiedosa que lhe foi aplicada nos próprios bancos da escola. Na Europa, e em especial em Portugal, o estrangeiro é recebido com condescendência e solicitude. A América faz um grande esforço nesse sentido: mas um esforço inane e até certo ponto hipócrita, porque não está habituada a lidar com o estrangeiro em nível de turismo ou de relações internacionais. Só recentemente, pelos vastos planos que têm trazido à América massas de estudantes e de visitantes estrangeiros, o americano começou a aceitar que a presença de um estrangeiro na América não é necessariamente um quisto a reduzir ou a confinar num gueto. Com todo o seu nacionalismo, o Brasil nunca me perguntou quando eu me naturalizava brasileiro: na América, sabendo-me residente fixado, é raro o dia em que me não perguntam isso… Lembremo-nos de que um dos maiores crimes cometidos por Charlie Chaplin foi o de nunca se ter naturalizado cidadão norte-americano, do mesmo modo que a campanha contra o prestígio de Elizabeth Taylor, como a grande actriz que se tem revelado ser, vem principalmente de se haver naturalizado inglesa… Contaram-me, e não sei se é verdade, que, quando um sujeito aqui se naturaliza, é convidado, à saída, a deitar a sua documentação anterior num cesto de papéis, «porque recebeu uma nacionalidade melhor»… Nada disto acontece, por exemplo, no Brasil, onde a renúncia é formal e legal, mas não implica uma renúncia de consciência e de sentimento.

Mas voltemos às relações humanas. O americano é afável, familiar, com uma grande preocupação de aparente intimidade no trato. Ai de nós, se confundimos isso, mesmo ao fim de anos, com amizade no sentido europeu. O americano não é amigo de ninguém, nem de si mesmo. E é-lhe extremamente impossível compreender que as relações sociais se processem fora do nível dos interesses quotidianos, a menos que para uma orgia tão ébria que ele se não recorde no dia seguinte de haver contactado pessoas que, para ele, profissionalmente, não tinham interesse nenhum. As inibições da educação americana não consentem que uma pessoa abra a sua intimidade a ninguém, nem a si mesmo: de resto, a intimidade profunda arrisca-se a ser uma zona pecaminosa, comprometedora, em que uma pessoa se descubra, com horror, diferente daquela bem banhada e desodorizada que se exige que ela seja. Daí a reacção dos hippies porcos e de barbas, ou o refúgio nas drogas que são uma maneira de uma pessoa libertar a intimidade sem ter a consciência responsável do que sonhou… Daí a medonha solidão humana do convívio, para pessoas apaixonadamente conviventes como eu. Não que eu não seja uma pessoa «pré-americana» sob esse aspecto. Só uma vez na vida me deixei apaixonar eroticamente de verdade, e sempre tive horror de misturar todo o sentimentalismo com o sexo. Mas, no plano da amizade, é diferente. E o americano transporta para esse plano o mesmo receio (neste caso erradamente erótico) de deixar-se comprometer por alguém: ninguém fica mais dolorosamente perplexo que um americano quando descobre que estima uma pessoa, para lá das amabilidades quotidianas ou profissionais. É como que um assalto nosso à sua liberdade que é afinal o triste direito de ser angustiadamente solitário (mesmo no íntimo círculo familiar). E a gentileza do nosso trato amigo é para ele uma fonte de enleio sem limites, ao mesmo tempo que o comove profundamente (mas raro com reciprocidade).

Por natureza de outsider, que sempre tive a consciência de ser em toda a parte e em qualquer meio, ninguém mais do que eu gosta de praticar as artes do convívio fraterno: creio mesmo que a fonte 7 de muitas das minhas aversões está em mo terem recusado aqueles a quem o não neguei. Por isso, a minha vida na América é uma curiosa contradição. Constantemente recebo a lisonjeira referência a que sou uma pessoa de extraordinária adaptabilidade: pareço um americano, como compreendo bem como as coisas e as pessoas funcionam… E sabe Deus quanto quotidianamente sofro de solidão, de fome de convívio, de amizade, etc. Creio mesmo que até as pedras da minha vesícula são o preço psico-somático que eu pago em sorrisos e em compreensão…

Gosto de viver na América? É difícil a resposta, porque eu não gosto de viver em parte nenhuma. Cada vez mais a humanidade me parece monstruosa e bestial, e a vida uma monumental chatice com poucas compensações. Vejo os meus filhos serem sugados por uma gigantesca máquina de desumanização, que não hesitará um momento em esmagá-los, se eles, na sua ingénua adaptação, não cumprirem exactamente alguma das regras do jogo. Creio que estou a passar por aquela fase (que é a dos escritores que ultrapassam a maturidade e ainda não atingiram a velhice), em que o mundo é uma absurda e incongruente ridicularia nojenta, até que resignadamente o aceitemos como tal, numa tranquila preparação para a morte. Eu ainda não escrevi a minha Floresta de Enganos ou a minha Tempest. E não posso realmente culpar nenhuma América inteiramente disso… As pessoas diriam: que ingrato esse sujeito, que mais quer ele… E eu diria, com Manuel Bandeira, que quero a Estrela da Manhã. E quem iria entender-me ou perdoar-me?
Logo, na América, há muita coisa que eu amo: sou incapaz de não amar a humanidade que desprezo, e sou também incapaz de não aceitar até certo ponto quem me permita existir. No fim de contas, a minha situação na vida é esta: a de colaborar lealmente, mas não aceitar definitivamente coisa alguma, senão até ao ponto em que eu seja aceito também. E, todavia, se a América me faz sentir tremendamente europeu, será que alguma vez serei capaz de voltar a viver na Europa?

Madison — Wisconsin — USA — Julho de 1968

Dos primeiros tempos nos USA, em carta a Sophia

Da correspondência editada de Jorge de Sena, é na carta de 21 de maio de 1966, dirigida à amiga Sophia de Mello Breyner Andresen, que encontramos uma primeira avaliação da experiência americana da família Sena, iniciada poucos meses antes. Abaixo, transcrevemos esse trecho.

 

 

Nós estamos bem, e a adaptação necessariamente complexa, até pela dificuldade da língua para a maior parte de uma larga família que a não conhecia, processou-se e continua a processar-se, melhor do que poderia esperar-se de tanta gente, num meio inteiramente novo. A nossa vida não tem ainda o desafogo que poderia ter, com o nível de salário catedrático, que tenho, porque os encargos portugueses e brasileiros, juntamente com as despesas de instalação, ainda pesam bastante. Mas tenho esperança de que tudo melhore em breve. O meu trabalho pessoal, porque a universidade me ocupa e dispersa mais tempo do que ocupava no Brasil, é que tem ficado um pouco para trás: ainda não acertei devidamente o meu tempo (mas isto em parte se deve também ao atraso de meses nos trabalhos, que eu trazia dos últimos meses do Brasil, quando vivi correndo para o Rio e São Paulo, tratando das papeladas e mais dificuldades de conseguir vir para aqui). A universidade já me ofereceu a permanência, não sei se a partir do próximo ano lectivo, se do seguinte (visto que a situação de «visiting professor» pode prolongar-se normalmente por dois anos), que eu aceitarei. Em caso algum isto me prende para o futuro – mas dá-me maior segurança enquanto aqui estiver. E por quanto tempo aqui estarei? Ao Brasil, que amo, não pretendo voltar, porque é-me impossível sustentar lá uma família como a minha. A Portugal só quando for possível, e nunca para que pareça que pretendo pescar uma cátedra que ninguém me dará. No entanto, não creio que a América me prenda – com todo o heróico e devotado liberalismo autêntico que há por aqui muito mais do que oficialmente se faz saber, é outro mundo, ainda que um mundo, no meio em que vivemos, tão refinado como o europeu ou mesmo mais. E a nossa sensação será sempre a dos gregos que eram convidados a ensinar em Roma. Além de que ou isto aqui leva uma grande e clamorosa volta, ou teremos uma espécie de ditadura militar do «big-business», que tornará a vida impossível. Brincando, brincando, já começo a pensar em qual será o meu próximo país. Sonho com a Itália ou a Grécia – mas não dão emprego… Quem sabe se o Japão me dará. Pelo menos entretanto, os meus filhos aprendem o inglês que lhes facilitará a vida em qualquer parte.
 

Primeiros poemas norte-americanos

Os dois poemas que se seguem, escritos em outubro de 1965, são os primeiros escritos por Jorge de Sena em solo norte-americano, aonde chega no dia 7 daquele mês. Trazem já algumas das marcas que se farão presentes na produção do poeta em sua terceira e última pátria: no primeiro, os filhos e a vida cotidiana doméstica; no segundo, a meditação sobre a própria noção de pátria e a solidão do exílio, agora vivido não só em outro país, mas em outro idioma.

 

“Não há nada…” (Visão Perpétua)

“Não posso desesperar da humanidade” (Quarenta Anos de Servidão)

 

“Não há nada…”

Não há nada que canse estas crianças.
Pulam e gritam, de regresso a casa,
após longo passeio, como se
fosse apenas um caso de memória
o cansaço que traziam nas pernas e na noite.

Gritam, pulam, brigam,
já esquecidos de que estavam cansados.

É horrorosa esta energia indomável,
sem graça e sem encanto, que deleita e baba
os que fazem mentalmente os filhos que não querem ter
ou que não podem ter, ou que perderam.

Porque é gratuita, é inhumana, é
dissipação de um passado selvagem
que a cada hora espreita nos tranquilos gestos.

Eu sei que é a vida – a vida, oh sim, a vida –
manifestando-se nesses uivos, neste gosto
da grosseria, da brutalidade, e de andar sujo,
despenteado e descalço, o gosto
fascinante e medonho da degradação.

Não há nada que canse estes animais
que amamos com tédio, e pelos quais tememos
o futuro e a morte, ou mesmo os olhos deles.

Hão-de crescer cansados e viver cansados
da humanidade delicada e terna
que apenas um ou outro, menos bruto,
descobrirá por conta própria apenas.

Belas as crianças? Se o forem.
E porque o hão-de ser por serem minhas?
E porque hei-de fingir que os amo como gente,
se ninguém pensou nelas para serem feitas?
E porque hei-de aceitar que seja amor
este teimoso orgulho de ter crias?

Não há nada que canse estas crianças,
nem mesmo o desespero de que o sejam.

17/10/1965

 

“Não posso desesperar da humanidade…”

Não posso desesperar da humanidade. E como
eu gostaria de! Mas como posso
pensar que há povos maus, há maus costumes?
A América é detestável. Mas deu – americanos –
Walt Whitman e Emily Dickinson. Posso
não confiar neles? A Rússia é
detestável. Mas Tolstoi é tão russo!
São maus os japoneses? Como podem
sê-lo, se têm Kurosawa e o Sr. Roberto
que me vendia hortaliças no Brasil?
E o meu Brasil tão infeliz amor, e tão
ridículo? Mas não são brasileiros Euclides
e o coração dos meus amigos? E
Portugal, como pode ser mau e detestável,
se mesmo eu que amo sobretudo o vário mundo,
o amo – ao mundo – como português?
A humanidade e as pátrias são uma chatice, eu sei.
Mas como posso desesperar delas, desde que
não sejam para mim o gesto ou as sardinhas,
o feijão ou o sirloin, ou a terrível capa
dos usos e costumes, da vaidade,
mas uma forma de ser-se humano e solitário
acompanhadamente?
30/10/1965

 

Leia mais:

Primavera em ensaio: memórias de poemas

Fazemos preceder o texto ensaístico que inicialmente Jorge de Sena destinou à coletânea As Quatro Estações de uma elucidativa nota de Mécia de Sena, fundamental para repor a ordem dos fatos. Substituídas pouco depois pela "prosa poética" que hoje se encontra em Visão Perpétua, estas páginas, só publicadas em 1991 no Jornal do Fundão, constituem peça relativamente rara na obra seniana, não só porque delineiam uma leitura de sua própria poesia a partir de um recorte temático, como vêm demonstrar o quão facilmente o autor tansitava de um tipo de discurso a outro: motivado pelo tema do "ensaio", um poema inédito encerra o texto.

 

Este texto intitulado Primavera, foi escrito com destino a uma publicação da Inova que se intitularia Quatro estacões. Foi enviado a 12 de Outubro de 1974 a Cruz Santos acompanhado de uma pequena carta que dizia: "Aqui lhe mando o texto que finalmente escrevi, e que espero se enquadre no seu plano. Nem é todo poemático, embora inclua um poema escrito para a ocasião, nem autobiográfico, ainda que trate de memórias de poemas. Mas é o que fui capaz de escrever, buscando alguns exemplos de como a primavera me terá tocado." A verdade é que não correspondia ao que Cruz Santos desejara e Jorge de Sena comenta em 29 de Outubro a esse propósito: "Sobre a minha prosa "primaveril", eu não sei que faça nem que diga. V. pensa – e talvez com razão – que é propriamente mais um ensaio do que um texto autobiográfico ou de criação. Na verdade, é. Mas creio que pode dar alguma nota diversa, que não ficará mal aonde os outros falam de vivências (de que eu falo através de poemas, e falar de como se escreveram poemas tem o seu interesse "biográfico" ou de criação). Mas, meu caro, não me mande cópias das prosas alheias, como se dispõe a fazer – eu sei perfeitamente que escrevi o que poderia ter escrito acerca, para mais, de uma estação que não me é particularmente cara (lembre-se de que eu lhe disse, quando me falou do projecto, que por exemplo o Outono apelava mais para mim, e que v. me respondeu que já estava distribuído, o que grande pena foi). Não serei capaz de escrever outra coisa, até porque a minha disposição de ânimo é péssima para fazer seja o que for. Se V. acha que a minha prosa não serve dentro do plano e do tom da publicação, sinta-se livre de deixá-la de lado, e nao pense mais no caso. Outro poderá fazer melhor o que eu não posso."

Apesar disto, em 22 de Dezembro remetia novo texto para uma publicação que, só veio afinal a sair em Dezembro de 1977. A lindíssima edição, tinha a colaboração (além de Jorge de Sena) de Eugénio de Andrade, Almeida Faria e Vergílio Ferreira, e as ilustração são de Ângelo de Sousa, José Rodrigues, António Cruz e Armando Alves.

Mécia de Sena

 

Primavera

Que eu me lembre – e o não lembrar-me será sintomático – a Primavera não tem, na minha obra em verso ou prosa, frequente lugar. Tê-lo-ão talvez muito mais as atmosferas estivais ou do Outono, uma ou outra vivência do Inverno. Não serei, na verdade, um poeta "primaverll", se é que os poetas podem ser classificados segundo uma estacão predilecta. Daí que o escrever sobre a Primavera, que me é solicitado, seja um curioso desafio.

A verdade é que, ainda quando a chamada Natureza desempenhe papel de grande relevo em muito do muito que tenho escrito como literatura de criação, eu não sou, no sentido em que isso se entende, um poeta dela. Ou o sou para além dela. É simples una razão biográfica: nado e criado em Lisboa, homem da cidade e descendente de gerações de citadinos, os ciclos ditos eternos não me tocam da mesma forma directa em que podem existir radicados nos que conservem memórias da infância com campos, flores e árvores: como eu disse em Os Paraísos Artificiais, poema de Pedra Filosofal (1950): "Na minha terra, não há terra, há ruas" , etc., etc., poema que, diga-se de passagem, era um ataque sócio-político à vida portuguesa daqueles tempos. A esta razão biográfica, pode acrescentar-se que, por temperamento e por formação que me dei, sempre tive em horror (e só por disciplina intelectual aceito mesmo em poetas quo muito estimo) a projecção romântica do homem e dos seus estados de alma sobre a paisagem, de que as estações são elemento que as varia. Não que eu seja insensível à paisagem, ao mundo que me cerca que tem para mim uma importância essencial. Mas uma paisagem – o mar, as montanhas, as imensas planuras, o campo humanizado pelo homem, que muito tenho visto por este mundo adiante – só me interessa em si mesma e por si mesma, ou pelo que possa suscitar de meditação sobre o lugar absurdo do homem no chamado universo. Para mais, o homem, para mim, é aquele ser que prolonga e supera a "natureza", criando a sua mesma humanidade, com opor-se a ou libertar-se da indiferença, da crueldade, do acaso que, em termos humanos, precisamente caracterizam a chamada Natureza. A ideia de ser-se "natural", de "viver-se segundo a natureza", de "regressar à natureza", ao solo da madre, etc, etc, é para mim uma falácia romântica de campónios frustrados (que todavia não quereriam, efectivamente, regressar à condição, ancestral de campônios). Além disto, e por muito que se conheça mundo, e eu tenho conhecido, as estações, para um cidadão urbano, cifram-se sobretudo no caracter cômodo ou incômodo com que se apresentam. O Inverno é assim a inoomodldado das chuvas, dos frios e das neves (não as delicias da lareira antiga, quando os trabalhos rurais estão suspensos). O Verão é a do calor insuportável (com fugas à praia para quem pode). E a Primavera lisboeta, com quo me criei, é um prolongamento arrenegado e indeciso das incomodldades invernais, e não o brotar das flores, o renascer da terra, ou outras coisas sumamente arquetípicas e pagãmente divinas.

Quando vivi seis anos no Brasil, o Outono e a Primavera sumlram-se da minha paisagem de estações: o clima repartia-se entre um mais inverno e um mais verão (e para acentuar a confusão, era no inverno que chovia), sem as transições clássicas de primavera e de outono (as quais também não tenho tido agora, em quatro anos de Califórnia). Todavia, o que o grande Inverno ou o tremendo e também subtil estourar da Primavera poderiam ser, conheci-os – como não há em Portugal – no Wisconsin, no norte dos Estados Unidos. Aí sim: mesmo na cidade, árvores e o mais mundo vegetal estavam promissoramente à minha volta, e das últimas neves e gelos que duravam meses, rebentavam e floriam com uma intensidade prodigiosa, a que os mitos primaveris da Antiguidade Clássica e mediterrânica (que tanto pesam na memória tradicional e na literatura) não terão assistido nunca.

A premonição desse momento quase instantâneo, numa paisagem arborizada, à margem de um enorme lago para que davam as minhas janelas, o que gelava solidamente o Inverno todo, foi o que descrevi num poema de Peregrinatio ad loca infecta (1969), intitulado precisamente Primavera no Wisconsin. Interessante é notar que eu tenha sentido ou destacado mais esse momento anterior ao desbordamento primaveril, do que sentiria depois a magnificência pletórica da estação mesma; de resto, como o poema é datado de 1966, isto significa que eu (chegado àquelas paragens no Outuno de 1965) efectivamente senti ou pressenti esse momento, antes mesmo de ter visto o que ele indicava como Primavera esplêndida. Poemas deste tipo, são-me resultado imediato da observação directa. Leia-se:

Primavera no Wisconsin

Na limpidez tranquila da manhã diáfana
em que as despidas árvores imóveis
são como nervos ou expectantes veias
no corpo transparente do azulado ar,
as águas quietas, mas não tanto que
nelas se espelhe mais que a concentrada cor
do ar tranquilo, nem tão menos que
pareçam gelo perto as águas mais distantes,
pousam na margem delicadamente
como na mesma terra infusas se dispersam
dos ramos e dos troncos sombras confundidas.
A terra se amarela de ante-verde
e, sêca, espera, entre a neve que foi
e o ténue estremecer da seiva que desperta.

É um poema estritamente descritivo, em que ritmo e linguagem se aplicam a criar a visão paisagística, com um exacto rigor que não sacrifica a impressionismos, nem autoriza que, na pura paisagem, se intrometa (mais que no olhar que selecciona e na linguagem que fixa) o elemento humano. Este gosto do confinamento à descrição fenomenológica é uma das linhas da minha poesia, creio eu, e poucas vezes terá sido tão perfeitamente realizado como neste poema consagrado ao despertar da Primavera.

Já esta aparece em situação muito diversa, num poema de muitos anos antes, Equinócio da Primavera, coligido em Pedra Filosofal (1950), e que não recordo se foi escrito em Lisboa, se no Porto, ainda que me pareça que ao Porto se referem o "rio", as "luzes da outra margem", as "montanhas", etc. (enquanto aa "glicínias" que existiam na varanda da minha infância lisboeta, passada na casa em que nasci e onde vivi os primeiros trinta e quatro anos da minha vida, sejam por certo reminiscências de Lisboa):

Equinócio da Primavera

Da noite a aragem, tépida refrescando vem
surpreender as luzes, que interiores, se apagam
lentamente, uma após outra, como em madrugada
ao longe as luzes de outra margem – rio 
descido pelas águas tenuemente crespas,
sombras passando, e escorre matutina,
ainda sem brilho, a vibração das águas,
enquanto rósea apenas de uma aurora ausente
a crista das montanhas reverdece.

Por sobre a plácida e pensante aragem física
das violações diurnas, de amarguras,
vilezas vistas e traições sonhadas,
notícias de jornal e desafios,
guerra eminente ou, mais que dolorosa,
cravada nas imagens de uma paz sombria, 
perpassa a noite véus de primavera,
glicínias que amanhã estarão floridas,
e folhas verdes, muito frágeis, tenras,
e o azular-se o mar, o distanciar-se o céu
na crua luz que juvenis sorrisos,
traços ligeiros de alegria funda,
devora lentamente, e as rugas ficam..
– ao longe as luzes de outra margem, rio
onde a noite se esconde até à morte.

O poema tom duas partes evidentes. A primeira é, à primeira vista, uma descrição do mesmo tipo da do pooma anteriormente citado, com uma análoga estrutura de enjambement lógico de verso para verso. Mas a descrição não só não é um ponto de chegada, como no outro poema, e sim um ponto de partida, mas é uma descrição virtual (só ao reler o poema para escrever dele me apercebo) determinada pelo "como" do 3o. verso. Com efeito, esse como interioriza quanto está antes dele, e que será uma visão exterior, por analogia, de uma visão interna (as "luzes interiores"). O 1o. verso da segunda parte introduz explicitamente um outro motivo ou tem, ou atitude que é muito recorrente na minha obra (se não é de facto o cerne dela), e que estava latente no começo: em tudo a presença dolorosa ou intensa das vicissitudes humanas e sociais, vistas não tanto em contraponto que seria uma relação romântica, mas naquela sobreposição contraditória do físico e do psico-moral que a plácida e pensante aragem física representa, o que, na verdade, significa a minha pessoal convicção – sempre poematicamente re-verificada – de que o humano está para além e acima do "natural". A adjectivação atribuída aqui à "aragem" que aparecera no 1o. verso como apenas "tépida" desenvolve através dela o caracter ambíguo do início do poema, propiciando, na descrição objectiva, uma fusão do físico o do psico-moral. A aragem "tépida", que era um anúncio subentendido de "primavera", passa como que ao outro plano, não só por ser agora, além de plácida, pensante, mas por ser de uma série de circunstâncias ou eventos de um mundo maligno e desfeito (os cinco versos seguintes). Sobre tudo isso, "perpassa a noite" (que é o primeiro nome referido logo no início do poema) "véus de primavera", ou sejam diáfanas sequencias de sensações ou representações primaveris, enumeradas até à culminação de uma luz diurna (virtual adentro da virtualidade) que, oposta aos véus primaveris da noite, devora nos rostos, como a vida, os "juvenis sorrisos, / traços ligeiros de alegria funda", deixando em seu lugar as rugas de haver-se existido. O rio, que está presente no 4o verso, reaparece quase no fim do poema, como símbolo de uma paz que resiste e fica, noturna, até à morte. Há, ao longo do poema, parece-me, e na mesma cadência dele, uma. atmosfera de virtualidade primaveril quo o permeia, como contraste contra os horrores de um mundo e de uma sociedade em processo de envilecimento.

Curiosamente, as "glicínias que amanhã estarão floridas" colocam essa primavera alegórica num momento de expectante antecipação, análogo ao da descrição "real" que constitui o poema, antes citado, de muitos anos depois. Só uma pesquisa minuciosa ao longo de uma obra vasta como a minha (o que não me cabe fazer nem importa muito que se faça ou não), poderia dizer se esta atitude em relação à Primavera, que aqui se cifra em dois poemas que ocasionalmente recordei, é realmente característica, ou uma coincidência entre dois poemas em que a Primavera (expressamente referida no título de ambos, mas só mencionada declaradamente no segundo) é mais centralmente conspícua. De qualquer modo, parece-me que a coincidência é algo significativa, e nunca eu na verdade pensara nela, antes de ser convidado a ocupar-me da Primavera.

Para mim, então, segundo estes dois poemas espaçados de mais de quinze anos e de muitas transformações da vida, a Primavera é sobretudo duas coisas que podem ser significadas pelo mesmo momento: ou a antecipação dos esplendores estivais, de uma luz devoradora, ou aquela promessa latente e já brotante que no fim do Inverno se desenha e define. Não é tanto, dir-se-ia, uma estação em si, cuja autêntica existência, enquanto tal, não é aliás universal, já que em vastas regiões do globo ela não se processa ou não é evidente como a tradição europeia a fixou tradicionalmente na literatura dita ocidental. Que esta visão não me foi dada pela experiência de regiões onde a Primavera não existe, nem me foi modificada pela de outras onde ela se manifesta poderosamente, mostra-o o facto de o poema coligido no livro de 1950 ter sido vivido e escrito em Portugal, de onde só saí em 1959. Do segundo poema no tempo, e o do livro de 1969, poderá todavia dizer-se que a precisão descritiva me foi suscitada pela experiência, nos fins de 1965 e princípios de 1966, do longo e gelado Inverno do norte dos Estados Unidos, que torna o momento antecipador da Primavera mais fascinante do que jamais eu pudera antes de tê-lo sentido ou visto. É como se uma nova experiência não fizesse senão reiterar e acentuar uma forma de sentir a Primavera que já antes me seria peculiar.

E não será, de facto, o modo mais justo de senti-la? Para mais, se um poeta tem, como eu, tentado escapar a tudo quanto sejam clichés tradicionais da cultura ou da expressão, que em geral impedem ou distorcem uma renovada experiência da realidade exterior ou interior. Ora a Primavera, talvez mais que nenhuma das outras estações, é um cliché tradicional, perfeitamente simbolizado na famosa pintura de Botticelli, com a dama exibindo-se na sua elegância florida para perpetuar séculos e séculos de vivências mitológicas.

Sou eu contra as mitologias, quando, em tantos dos meus poemas, se faz apelo aos deuses? É este apelo, como a presença deles, uma complacência retórica? Sendo contra as mitologias, creio, porém, eu pretendo crer, realmente neles, ou na existência de forças que eles representam, e a que o cristianismo, com as suas sequências de ateísmo tão primário como ele, veio trazer uma marca de inibição, proibição, negatividade. Assim sendo, como conciliar a minha visão do homem como o ser que nega a natureza, com o desejo, ou quem de que os deuses, ou quem por eles, possam regressar? Como conciliar essa crença, se o é, nos deuses, com um integral ateísmo?

É que os deuses não representam a personificação de forças "naturais", mas o esforço de humanização do homem na sua própria história, o seu anseio de poder e de liberdade, precisamente contra a visão limitadora, em termos sócio-morais, do que a natureza (ampliada pelo homem) seja. Crer neles, ou evocá-los, é refazer uma mitologia mais profunda do que não só as prescrições "naturais" impostas pelo cristianismo, como também do que as próprias proibições de que o paganismo antigo fez as suas sociedades de classes e de escravos. E quem diz o paganismo (pelo qual se entende sempre o greco-romano) diz todas as outras religiões tradicionais em qualquer parte do globo – as quais, como ele e o cristianismo, se inventaram para corresponder ao terror do homem só em face de uma natureza hostil, incerta e caprichosa, e para garantir a estabilidade das classes que instalaram o seu poder sobre uma falsa protecção contra esse terror. Os deuses, usados e transformados pelas instituições religiosas, são instrumentos de dominação. Mas, evocados e invocados contra elas, e contra quanto elas impuseram de moralismo ao ateísmo contemporâneo, são armas de liberdade. Crer neles é uma forma de não crer em nada, superando-se o ateísmo dos que não creem por indiferença ou para se oporem aos que "creem em Deus".

Não somos já as sociedades ou populações agrárias primitivas que iludiam o seu estar no mundo com celebrações propiciatórias do renascer da natureza e da vida, fingindo que a natureza não renasceria sem elas. Nem temos já o direito de sermos as sociedades urbanas recentes que, para compensar-se do seu distanciamento da terra, precisam de reinventar o mito da Primavera. Neste vazio terrível em que só os deuses perpassam como imagens do nada em que existimos, só nos restam os nossos corpos e os alheios, e a angústia (e a aceitação) de sermos sem razão alguma, num mundo em que todas as justificações assumem um ar de falsidade moral.

Tudo o mais, incluindo o falarmos nas estações sem despojá-las dos seus mantos pretéritos, não é senão o desejo que sentimos, contraditório e trágico, de pertencer a algo que se renova, quando nós mesmos, pelo que ainda nos prende à natureza, nos não renovamos no tempo que nos devora; o desejo de sermos um elo de uma cadeia que, na verdade, e absurdamente, nos marca física e psicologicamente com os erros dos nossos antepassados, e, ao mesmo tempo, se interrompe a cada instante na morte dos entes queridos ou na nossa própria; o desejo de sentirmos que tudo quanto sonhamos e fazemos é algo que se insere numa "natureza" de que não somos parte, por dela havermos saído quando nos tornámos humanos.

Se há uma condição de ser-se humanidade (por quanto tempo ainda?), que nos condiciona e limita, esta é, que todas as outras não são senão efeitos das traições sociais. Em vão, por isso, podemos celebrar rituais primaveris, cerimónias estivais, rituais de Outono, cerimoniais de Inverno. E é o que torna mais dolorosa e também mais – como dizer? – ridícula essa ebriedade de recomeço e de renascimento, que a Primavera lendariamente simboliza. No curto espaço entre duas noites que é a nossa vida (declaração que é um cliché clássico…), não há mais que desejar senão que perpasse a noite de véus de primavera, véus que, todavia, sabemos não evitam, nem iludem, que a mesma noite aí se esconda até à morte que é ela. Quando nos damos às tradições ancestrais que conformam até (e é uma luta que cumpre ao poeta moderno lutar estrenuamente) a própria linguagem que nos é dada e que é nosso dever, em cada instante criador, pôr em questão, devemos sempre tratá-los com suspensão irónica ou dramática, por forma a arrancar-lhes os dentes de uma ancestralidade que em nós tenta conservar estruturas obsoletas do viver social. Ou então atermo-nos a uma descrição minuciosa que, por seu lado, também des-mitifica a realidade. Só assim será possível contribuir-se para a criação progressiva de um homem renovado que seja capaz de, sem traição à sua própria existência, contemplar, se tal quisermos, o fluxo das estações, e, entre elas, destacar a que mais carregada vem de símbolos que ansiosamente desejam – possuindo-nos através daqueles desejos desesperados de sobrevivência – manter-se à nossa custa e do que em nós é liberdade. Assim é que para esta caminharemos, a nossa e a dos deuses. E a Primavera poderá então vir – aonde quer que nitidamente venha – simplesmente ela mesma, como um renovado mito que de nada se sustenta a mais do que do seu acontecer, e que nos não prenderá em mágicas malhas de pretensas justificações de ser-se humano neste mundo sem outro.

Enquanto isso não é possível, talvez que um poema novo, saído desta meditação que a Primavera foi chamada a suscitar, diga dela esse fugir do instante que está iniludivelmente ligado ao próprio momento em que ela aparece:

Não flores de primavera ou recorrentes águas
que das montanhas pardas se descendem
aos vales que o horizonte encobre verdes,
eu peço ou espero. Apenas no arvoredo
imagens do que erecto é corpo humano
entre as pedras esparso e soerguido.
Como de acaso é visto o que em desejo
olhando nos buscamos e buscámos,
assim se movam ramos e folhagens
em movimentos leves e contidos.
E o mais não seja quanto em sonho os sonhos
não são de primavera mais que ardor, perdidos.

Santa Barbara, Outubro de 1974

Este ensaio foi editado mais recentemente em Poesia e Cultura (Porto, Caixotim, 2005, p. 189-198) e vem acompanhado da seguinte "Nota do Autor", destinada à edição do texto numa revista que, segundo Mécia de Sena, jamais se fez:
Este texto tem uma breve história que vale a pena contar. Para um belo projecto gráfico que era sonho seu editorial da Inova, Quatro Estações, pediu-me`há anos Cruz Santos que escrevesse sobre a Primavera. Objectei que não me considerava poeta "primaveril" — mas ele já tinha as outras estações todas mais ou menos comprometidas, e não desistia de que eu efectivamente escrevesse sobre uma e era aquela. Cedendo à insistência amiga, escrevi este texto mais ensaístico que "poético" (e que termina todavia com um poema escrito na ocasião, o qual, diga-se de passagem, não me parece nada mau), em que de certa maneira mostrava como a Primavera e coisas semelhantes tinham, ao que penso — pouco que ver comigo. Ao mandá-lo, dizia ao Cruz Santos que ele deveria sentir-se livre de rejeitá-lo, se o não achasse tão poético como o seu projeto requeria, mas ele não desistia de um texto meu. E o caso é que — embora muito mais à minha maneira que "primaveril" — dois meses depois me saiu o texto poético que acabei por escrever e é parte desse projecto Quatro Estações. Mas Cruz Santos pediu-me agora para publicar o primeiro texto nesta revista — pois seja. E os leitores interessados nas minhas reaccções primaveris (se os há) que comparem os dois textos.
Abril de 1976

 

Primavera em prosa poética

“Humanamente verde” é a primavera de Jorge de Sena, numa meditação poética que, além de evocar os parágrafos iniciais da sua novela O Físico Prodigioso, traz excelentes aportes aos estudos sobre paisagem/texto literário, agora tão em voga.

 

I

Neste anseio desenhado em claros píncaros de montanha, ao longe o mar que perto é de águas frias se espraiando em lâminas de metal opaco, a luz se faz tão plácida, tão ténue escurecendo, que é de silêncio memorado o vácuo espaço sob o céu de branco azul, em que perpassam fímbrias de manhãs, farrapos de floridas tardes coloridas, e um de ouro ardente crucial meio-dia em halos purpurinos. Além da muita idade acumulada em minuciosa angústia solitária, o que se irrompe inominado como os contornos de preciosa alvura é de expectante insónia transdiurna a persistência aguda. Que mais se desejar neste indomável tempo repetido vibra em sacudido intermitente veio, em seiva se concentra e liquefaz, e vai e volta sobre as amplas faces do crepúsculo. Desabrochar fluindo em de escorridos passes, concêntrico de círculos e de ecos, por rochas de água entretecida em verdes não ainda o verde mas lembrança, música sem fio de harmonia, só cadência e pulsação que pelo corpo vai de longos cílios.

Uma claridade se insinua pelo que é noite adentro, enquanto em lentidão tenteante mas irresistível se aproximam saudosas imagens sem feitio, que se desdobram em leves duplas sombras de outros dias. Que foram ou não foram alastra suspendido entre névoas matutinas de imaginar-se visões de luz aberta, desenhando acessos interiores de expectativa. Ao longo do fluir de espaços repetidos, que de Outono e Inverno se vão continuando, vem devagar a presença viva de explosões sangíneas. É como se houvera veias por toda a parte. E humanas formas assumem tons silvestres, e os gestos das árvores e arbustos parecem de animais.

Vozes não há até que pelos campos e as encostas se ouçam vindos do interior das coisas dispersos gritos como cortes no silêncio das crostas e cascas que se animam. Goteja lenta seiva sob as rugas áridas da dormência hibernal; e os ramos, que estremecem como as mãos se aquietam, distendem-se de internas contorsões que pela superfície apenas são os nódulos de folhas invisíveis.

Nos ares que mesmo em tempestade conservam por detrás uma frieza tranquila, começam a formar-se estrias de trémula transparência, sopros de brisas tão ligeiras, que é como alheio, longínquo e sem futuro, o leve ardor que nelas se acalenta. Nas águas reclina-se em murmúrios um frescor que vai perdendo o gélido crispar-se de ainda há pouco, mas não se esvai de estagnação estival. E o térreo de entre as pedras amolece friável, sem que nenhuma poeira se levante.
II

Não há que pressentir ou que fitar. Tudo se coordena para além do sentir-se, como um movimento que, por incerto, não menos se destaca em passo inexorável. Isto sucede sempre com todas as mutações. Mas nesta é como se as outras viessem porque esta veio, e dela ascendessem e declinassem no ciclo repetido. Espera-se da vida humana que renasça mas ela não renasce senão em outrem, fugindo pouco a pouco ou de repente num outro plano mais ou menos fundo, que não coincide com este tremor prenunciado. Todavia, por ele se conhece que o despertar se situa nesse espaço temporal entre o movimento da Terra que provoca o circular repetir-se, e o esvair-se da vida em cada corpo único. De um e de outro lado deste espaço, em margens que ora avançam ora se retraem, cada corpo enfrenta a visão de um movimento em que vai mas não é o seu. De um lado e de outro deste tempo (como intervalo e não como diferença), as margens multlpllcam-se e refluem som se tocarem nunca, e cada corpo adquire a consciência física de não ser um outro, recorta a sua imagem e a sua semelhança, mas também a sua superfície intransponível.

Ill

Desde dentro ou como do que é fora do existir-se, assim se desenham no ardor as coisas e os seres. Um leve ardor que é rapidez, ou intermitência que prossegue, ou lentidão que é uma certeza de tensões seguras. E um dia, sem que da noite se adivinhem mais que por estalidos indistintos os contornos, a madrugada acende o seu clarão alheado sobre o que já era um transformar contínuo. Como que vapores nimbam as formas, como que fosforescências brilham por sobre elas. Do negro ou claro e cor de terra de que montes e campos se constroem, emerge como musgo um verde esparso e tenro. Aqui e ali as hastes se levantam, esguias e flexíveis, tal como em ramos brota desenroladamente o que será folhas ou flores. Os animais se movem com gestos de quietude ou de instantânea graça, qual o suspendido imóvel do arvoredo. E os ramos entrecruzam-se na imobilidade de uma brisa que apenas os rodeia, e quedam-se no ar com a mesma curiosidade do animal que estaca, erguido em suas patas rápidas.

IV

Humanamente verde, como puro imaginar do acontecido, o corpo humano agita-se iludido, arrastado na fusão de coisas e paisagem, esquecido já, no curto instante do estourar das seivas, de que o seu tempo e o seu espaço são outros e um só, no intervalo que não é tempo do mundo nem tão-pouco espaço da Terra. Esquecido de que para ele as estações coexistem num longo Inverno do nascer à morte, engana-se a si mesmo, crendo-se uma coisa, ou então um ser vivo apenas entregue ao fluxo de ser-se. E, por suas mãos que se contraem, seus olhos que fitam persistentes, seu anseio que o faz erguer-se abrupto e vertical, sente em si mesmo o tudo que não sente, e pensa que renasce como a terra em que pisa.

Assim a Primavera chega em desenlace e espuma de humida-des ao homem que imagina a primavera que vê. Ao animal humano separado de todos os ciclos menos o de ser mortal. Humano porque se separou e viu as coisas e lhe deu os nomes da sua voz aprendida. Animal porque conserva em si mesmo o jogo de existir. Mas animal humano abandonado a si mesmo, que estende as mãos para pro¬messas de flores e frutos que lhe são exteriores, que contempla embevecido o mover-se da vida pelos seres adiante para além dele, e que se levanta diverso de tudo o mais para contender com o perigo de não ser como eles.

É como se, nesse encontro imaginado com a Primavera, houvesse para o homem um retorno que não há ao espaço sem tempo mas só ciclos, em que não era ainda o ser que se tornou; é como se, deixando-se penetrar, pelas ondas que atravessam os mais entes vivos, ele regressasse ao tempo sem espaço em que tudo fluía como se não houvesse distâncias, nem as formas estivessem fechadas nos seus mesmos contornos. É como se, neste anseio desenhado em claros píncaros de montanha, ao longe o mar que perto é de águas frias, a luz se fizesse tão plácida, tão ténue escurecendo, que no céu de branco azul perpassassem fímbrias de outras manhãs, farrapos de tardes coloridas, e halos purpurinos de crucial meio-dia. De além de muita idade — acumulada em minuciosa angústia solitária — irrompe a persistência aguda de uma expectante insónia trans-diurna. Que desejar-se neste indomável tempo repetido vibra em sacudido intermitente veio, concentra-se de seiva e liquefaz-se, e vai e volta sobre as amplas faces do crepúsculo, quando, só cadência e pulsação de longos cílios que pelo corpo vai, a música sem fio de harmonia, concêntrica de círculos e de ecos, desabrocha por rochas de água entretecida em verdes não verdes mas lembrança.

Humanamente verde, a Primavera chega.

Santa Barbara, Dezembro de 1974.

 

Primavera em verso

Embora no texto ensaístico dedicado à Primavera Jorge de Sena só associe três poemas seus ao tema, entendemos que, pelo menos, mais três, com novas modulações, deveriam ser listados nesta antologia…
 

angelo_de_sousa.jpg
Desenho de Ângelo de Sousa para “Primavera”, no livro As Quatro Estações (Porto, Inova, 1977)

 

 

 

 

Equinócio da Primavera

Da noite a aragem, tépida refrescando vem
surpreender as luzes, que interiores, se apagam
lentamente, uma após outra, como em madrugada
ao longe as luzes de outra margem – rio
descido pelas águas tenuemente crespas,
sombras passando, e escorre matutina,
ainda sem brilho, a vibração das águas,
enquanto rósea apenas de uma aurora ausente
a crista das montanhas reverdece.

Por sobre a plácida e pensante aragem física
das violações diurnas, de amarguras,
vilezas vistas e traições sonhadas,
notícias de jornal e desafios,
guerra eminente ou, mais que dolorosa,
cravada nas imagens de uma paz sombria,
perpassa a noite véus de primavera,
glicínias que amanhã estarão floridas,
e folhas verdes, muito frágeis, tenras,
e o azular-se o mar, o distanciar-se o céu
na crua luz que juvenis sorrisos,
traços ligeiros de alegria funda,
devora lentamente, e as rugas ficam..
– ao longe as luzes de outra margem, rio
onde a noite se esconde até à morte.

15/03/1947

 

Primavera no Wisconsin

Na limpidez tranquila da manhã diáfana
em que as despidas árvores imóveis
são como nervos ou expectantes veias
no corpo transparente do azulado ar,
as águas quietas, mas não tanto que
nelas se espelhe mais que a concentrada cor
do ar tranquilo, nem tão menos que
pareçam gelo perto as águas mais distantes,
pousam na margem delicadamente
como na mesma terra infusas se dispersam
dos ramos e dos troncos sombras confundidas.
A terra se amarela de ante-verde
e, sêca, espera, entre a neve que foi
e o ténue estremecer da seiva que desperta.

15/03/1966
 

Não flores de primavera ou recorrentes águas
que das montanhas pardas se descendem
aos vales que o horizonte encobre verdes,
eu peço ou espero. Apenas no arvoredo
imagens do que erecto é corpo humano
entre as pedras esparso e soerguido.
Como de acaso é visto o que em desejo
olhando nos buscamos e buscámos,
assim se movam ramos e folhagens
em movimentos leves e contidos.
E o mais não seja quanto em sonho os sonhos
não são de primavera mais que ardor, perdidos.

10/1974

 

Variações sobre Cantares de D. Dinis

Ramo verde florido,
florido de bela flor,
do meu amor tão querido,
onde está o meu amor?

Diz-me aonde ele está,
aonde está o meu amor,
p’ra que eu buscá-lo vá
florido de bela flor.

Ramo verde tão querido
tão querido do meu amor,
de belas flores florido,
florido de bela flor…

… Diz-me aonde ele está,
florido de bela flor,
p’ra que eu buscá-lo vá
aonde ele está, o meu amor.

Ramo verde florido,
florido de bela flor,
do meu amor tão querido,
tão querido do meu amor.

17/5/1938
 

As Quatro Estações Eram Cinco
O verão passa e o estio se anuncia
que o outono se há-de ser e logo inverno
de que virá nascida a primavera.
Mais breve ou longo se renova o dia
sempre da noite em repetir-se, eterno.
Só o homem morre de não ser quem era.

8/7/1970

 
Entranhas de Água

Vento de primavera que assobia
nas árvores e esquinas recortadas
de azul tão pálido no céu varrido,
ao sol sacode as folhas e os cabelos.

O namorado par se alonga em relva
de sexo verde aceso na friagem
que os corpos une em paralela forma.
E no calor menos da luz que seu

se agita imóvel no ranger do vento.
Assim se tocam ramos como dedos
e as voses se penetram ciciadas.

Não entardece ainda. Está-se o instante
em que declina o sol sem descair-se
ao leito fluido das entranhas de água.

19/4/1974

Carta a um jovem poeta

 

Datada de 29 de agosto de 1966, esta 'carta' foi enviada ao poeta Walmir Ayala (1933-1991), para uma antologia temática que permanece inédita (Cartas aos jovens poetas brasileiros).

O texto foi publicado pela primeira vez no JL-Jornal de Letras, Artes e Idéias, de Lisboa, a 10 de novembro de 1981, p. 5

A Correspondência entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena (3. ed, Lisboa, Guerra & Paz, 2010) nos traz alguns dados sobre o texto, a seguir transcritos.

De Lisboa, a 27 de junho de 1966, escreve Sophia: "Do Brasil vim com a incumbência de reunir colaboração portuguesa para o volume organizado pelo Walmir Ayala. O Walmir Ayala vai incluir "uma carta a um jovem poeta" que a Cecília Meireles deixou inédita. Encarecidamente lhe peço para este volume a "sua carta a um jovem poeta". Creio que é a primeira vez que no Brasil se publica um livro escrito simultaneamente por portugueses e brasileiros. A ideia parece-me óptima." (p.99)

Do Wisconsin, a 30 de agosto de 1966, responde Sena: "Só agora me foi possível compor a carta que me é solicitada pelo seu convite e do Walmir Ayala. Aqui lha mando — é uma coisa muito amarga e muito rude, mas por certo temperará o conjunto. Espero que lhe agrade como sincera coisa minha" (p.102)

 

 

 


Meu caro jovem poeta

Pedem-me que lhe escreva, como se o amigo tivesse começado por enviar-me poemas seus, solicitando a minha opinião. Pedem-me também que o considere o jovem poeta ideal, aquele que imaginamos o certo para escutar-nos. Pedem-me enfim — embora isso não seja dito — que eu me suponha o Rilke escrevendo a um jovem que não seja o medíocre a quem ele dizia tão belas coisas. Creio que é pedir demasiado.

De um modo geral, os poetas de reputação firmada, ou que se julgam ou são julgados tais (ninguém tem a sua reputação firmada em literatura, nem depois de séculos de ninguém nos ler e de todos repetirem que somos génios, a não ser que isso importe aos interesses ou desinteresses de alguns professores e críticos), costumam receber poemas ou poetas jovens que solicitam opinião. O poeta "velho" toma tal facto como uma vénia, um reconhecimento, que ele teme perder, por parte da juventude. Mas o que o poeta jovem na verdade procura não é bem uma opinião de alguém mais experiente (qual o poeta jovem que, no fundo, se não sente superior a qualquer mesmo admirado poeta "velho"?), mas sim uma oportunidade de entrar, pela mão de alguém, naquele mundo maravilhoso dos poetas vivos, da poesia pessoalmente, etc., que ele descobrirá ser um sórdido e torpe mundo, inteiramente igual, se não pior (porque se sustenta de uma importância que realmente não tem), àquele, tão comum e familiar, que, nas suas frustrações juvenis, o poeta jovem julga que detesta. Instintivamente, ele sabe que, se não pedir a bênção de alguém, dificilmente fará sem amarguras o seu caminho. Porque a vida literária é uma maçonaria como qualquer outra, onde é escusado imaginar-se que alguém entra forçando as portas. Tudo, na vida, funciona por camarilhas que oferecem a seus membros a tranquilidade de se imaginarem importantes ou, mais ainda, a ilusão de que estão vivos.

Se um conselho, ab initio, se pode e deve dar a um jovem poeta, é o de que perca a inocência juvenil, se venda, se prostitua (o próprio corpo, se necessário for, porque às vezes lho cobiçarão), se dedique à adulação da mediocridade triunfante, ouça respeitosamente as opiniões dos críticos mais influentes porque mais cretinos, e receba em troca a paz triunfal dos sucessos mundanos e literários. Se, depois disto, puder continuar a ser o poeta que havia nele ou que ele sonhava que seria, é um outro caso — mas, por esse segredo, poderá estar certo que ninguém perguntará. Forçar as portas, com um livro, dois livros, uma crítica, duas, muitas, dirigidas contra a infecta pesporrência dos estabelecidos; pedir justiça, em vez de amabilidade; exigir inteligência, em lugar de um comércio de retribuições; procurar a camaradagem limpa, e não aceitar os gestos dúbios; enfim, tudo o que diz respeito à dignidade humana e da poesia, em vez da complacência com tudo e todos — não rende. Nem em vida, nem na morte. Porque as histórias literárias, com raras excepções arquivo de tudo o que a mediocridade alguma vez disse sem ter lido, guardarão longamente, em benefício da posteridade, todo o veneno que os contemporâneos lançaram sobre aquele que, por pretender ser uma pessoa, e um poeta, lhes ameaçava, só por isso, a segurança. Ao jovem poeta, é preciso dizer-se que desconfie do grande poeta vivo que receba consagração geral. Se a recebe, é porque algo está podre naquele reino da Dinamarca.

Quanto aos seus poemas, meu caro poeta, como V. é um poeta inexistente, cujos poemas são imaginários, e como eu não acredito na Poesia, com maiúscula, preexistente aos poemas em que ela exista, que lhe direi? Eu não faço ideia alguma da espécie de poeta que o meu amigo é. Cultiva as imagens e as metáforas, no seu anseio juvenil de seguir uma das modas, e de parecer que diz coisas extremamente profundas, sem na verdade dizer nada? Ou prefere as palavras despedaçadas, uma letra para cada canto, ou os graciosos joguinhos do pata, peta, pita, pota, etc? Isso também se usa muito, e granjeia grande prestígio. Acaso faz ou não faz sonetos, pelo melhor modelo (que é o que funda a tradição parnasiana, um pouco erótica, para a masturbação em família, com os ornamentos do mais safado mas sempre brilhante gongorismo)? Ou está preocupado com os destinos do mundo ou os da pátria, e confunde-os com aquela inacabável tradição que manda os poetas imitar os Nerudas & C.a? Ou a sua poesia é extremamente vaga e diáfana, confortavelmente distante de qualquer afirmação excessiva, neste duvidoso mundo? Ou, pelo contrário, é amplamente discursiva, transbordante de riqueza (termo este muito usado pelos críticos em petição de matéria substantiva)? Como vê, meu amigo, não posso mais que aventar hipóteses, segundo as linhagens mais ilustres do momento. Oh, mas esquecia-me de outra: acaso será herdeiro do surrealismo, com alguma tintura de beatniks e de psiquedélicos da Califórnia e arredores, e compraz-se em insultar o mundo, insinuando perversões horríveis, e despejando sobre ele os palavrões sagrados, por extenso? Não? Não?! Então, meu caro amigo, das duas uma: ou a sua poesia é um regresso aos velhos padrões arcádico-românticos, e sem dúvida terá êxito ainda nos salões de uma profunda província, ou, na verdade, o senhor é um poeta. E, sendo poeta, é-o de tal modo, que a sua poesia não pode ser reconhecida, nem o senhor tem o direito de esperar que ela o seja. Daqui a vinte ou trinta anos, quando estiver alquebrado, exausto, esgotado, descrente da poesia a que sacrificou a sua vida e a de quantos tiveram a desgraça de depender de si, talvez então comecem a reconhecer que o senhor existe. Claro que muito a contragosto, muito de má vontade, com muita reticência… Eles, meu caro, serão sempre os génios; o senhor será também um génio, um génio imenso, um génio enorme, mas um génio mas, um génio adversativo. E pode ter a certeza de que assim ficará nas histórias literárias: sempre com um mas tanto maior, quanto pior seja o génio que não possam negar-lhe.

A poesia, querido amigo, não é o que pensa, não. Ela não lhe pode trazer, se verdadeira for, essa satisfação que transparece da sua tão trémula confiança em si mesmo. Isso, se me permite que lhe diga, é uma ilusão da sua juventude. A poesia não é essa alegria de fazer alguma coisa que nem todos os outros fazem, e que eles aliás desprezam. Não é também esse prazer enganoso de que possui com palavras o amor que lhe escapa, as coisas que não consegue, as ideias que perpassam na sua cabeça, antes ou depois da solidão. A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa. Já pensou no que isso é? Por ela, o senhor será egoísta, sendo altruísta; será mesquinho, sendo nobre; trairá tudo, para ser fiel a si mesmo. Por ela, o senhor ficará completamente só. E, quando, de horror, penetrar lá onde supõe que o "si mesmo" está para lhe fazer companhia, verificará, em pânico, a que ponto ele não existe, ou já não existe, ou nunca existiu senão como uma miragem, ou existiu, sim, mas também ele o senhor vendeu à poesia, a isso que não tem qualquer realidade senão como abstracção do que o senhor pensa e escreve, e que, por sua vez, é já uma abstracção do que o senhor viveu ou não. Medite um pouco no significado terrível deste ou não, e nunca mais escreva versos ou prosa poética, ou lá que é que escreve para se julgar poeta.

Se for um poeta de verdade, meu caro, o melhor é com efeito não escrevê-los, e deixar de o ser. Porque a única alternativa é pavorosa: ou prostituta, dando à cauda, entre as madamas; ou monstro solitário, rangendo os dentes na treva, ainda quando só tenha visões de anjos tocando flauta, numa apoteose (ou epifania, que é mais elegante, e era o que o Joyce dizia). Guarde os versos, rasgue os versos, esmague os versos, arrase com eles. É isso o que pretende: ranger os dentes, mesmo postiços, pelo resto da vida? Se é, meu caro amigo, então não mande os seus versos a ninguém, não peça opiniões que ninguém pode dar-lhe, não espere conselhos de uma experiência que é pessoal e intransmissível, não solicite uma atenção que não haverá quem lha conceda. A menos que, para fim de festa, pretenda tirar, para seu uso, a contraprova de que a humanidade como humanidade, os povos como povos, as nações como nações, as classes como classes, os grupos como grupos são sempre colecções mais ou menos numerosas de infames bestas. Ou a contraprova de que, individualmente, ninguém vale para além do orgasmo, ou do olhar de simpatia, ou do gesto de ternura. Ainda quando sejam poetas, meu caro, ainda quando o sejam.

Não lhe estou dizendo que não publique os versos, uma vez que tenha ânimo e força para aguentar-se no equilíbrio instável entre a condição de prostituta e a condição de monstro. Na verdade, se a tentação que sente é irresistível de escrevê-los, se não procura a fama ou o proveito, se a dor de escrevê-los só se cura com a dor maior de escrever outros, se se sente vazio e triste quando eles estão escritos, e sofre de sentir-se vazio quando vai escrevê-los, e não sabe nunca o que vai escrever, e acha horrível tudo o que escreveu mas não é capaz de destruí-lo, então publique-os, publique-os sempre. E mande-os a toda a gente. Toda. Mas não peça opiniões ou conselhos a ninguém. Deixe que eles todos fiquem amarrados, para sempre, à culpa de o não terem lido, de o não terem sentido, de o não terem admirado. Dê-lhes, se a glória tiver de ser sua, o castigo da sua glória, implacavelmente. No fim das contas, lá onde nas trevas os dentes lhe rangem furiosamente, que isto lhe sirva de alguma consolação: todos eles passarão, como os ratos passam. Mas alguma coisa não passará, por mais que na morte, no silêncio, na paz dos túmulos ou das histórias literárias, se desfaçam em tranquila cinza: essa culpa que, dentro de alguns anos, será tudo o que se recordará deles todos tão poetas, tão aplaudidos, tão queridos das damas e/ou dos efebos, e tão estudados, tão bibliografados, tão comemorados, tão tudo o que lhe terão recusado entre dois abraços e dois sorrisos. Outros ratos virão — mas a culpa fica. Bem sei, meu caro, que não adianta muito, sobretudo se a gente não acredita na imortalidade, ou mesmo que acredite. Consola porém alguma coisa. E dá coragem à gente até ao poema seguinte. É quanto basta. Ou tem de bastar, porque não há mais nada.

Sempre seu (que o manda para o Inferno que é nossa província)

Jorge de Sena