O Indesejado – um posfácio (Parte I)

Desejado por Jorge de Sena como prefácio à peça, o posfácio a O Indesejado, de que apresentamos aqui a primeira parte, é uma espécie de estudo explicativo do autor sobre a obra.

Esta peça, como se vê pela data, estava pronta em fins de 1945. Tentei, sem resultado, editá-la; não tentei, e disso não tenho pois razão de queixa, fazê-la representar, por me parecer que uma peça, a menos que seja encomendada por uma empresa, deve ser publicada, para que se apresente quem se abalance a pô-la em cena, sem que seja o autor a mendigar o que de direito lhe cabe: a encarnação do drama, a comunidade com o público.


Estou infinitamente grato à PORTVCALE por esta oportunidade de letra impressa, que, pelo menos à leitura, a aproxima do público, do público português a que, pela natureza profunda da inspiração dramática, primacialmente ela se destina. Também à leitura, que várias vezes e em várias casas amáveis fiz, não é ela inteiramente desconhecida de alguns dos melhores espíritos contemporâneos; em nota final, se encontrará descrição dessas leituras, com a indicação dos nomes de pessoas que a elas assistiram. Se essas pessoas são responsáveis, pela categoria cultural ou pela actividade intelectual que exercem, não me parece abuso da minha parte responsabilizá-las aqui pela presença curiosa com que, então, quiseram honrar-me.

Quanto à minha pretensão de fazer seguir o texto por um post-fácio, devo explicar que só os azares de uma bem-aventurada publicação precipitadamente iniciada impediram que este post fosse um prefácio, que julgo necessário, não para a compreensão da peça — sector reservado a ela própria e ao público, que, se disso se não desempenharem a contento mútuo e meu, não serão prosas explicativas que adiantarão alguma coisa — mas para compreensão das intenções artísticas que ela concretiza e da situação que pretendo que ela ocupe em dois panoramas portugueses: o panorama dramático e o dramático panorama. Não sei se me entendem.

 

I

Esta peça é uma tragédia. Uma tragédia histórica. Uma tragédia em verso. Tudo isto é medonho, rebarbativo e audacioso, bem sei. Não vejo, todavia, inconveniente algum em apelidá-la de tragédia. Poderia, por falta de modéstia, que não tenho, ou até por autêntica modéstia, que infelizmente também não tenho, limitar-me a chamar-lhe peça, visto a tragédia ser qualquer coisa tida como de outros tempos mais conspicuamente «clássicos» do que os nossos. A verdade é que, em todas as épocas, houve quem escrevesse peças boas ou más, e lhes chamasse tragédias. E o facto de haver tragédias boas ou más e boas ou más peças impropriamente classificadas de tragédia não será talvez razão suficiente para, em qualquer dos tipos, não haver, por minha audácia, minha ingenuidade ou minha lucidez (como queiram), mais uma.


Não é, evidentemente, por ser histórica, que chamo tragédia a esta peça. Há muitas tragédias que não são históricas, e muitas peças históricas que não são tragédias. Também não será a forma versificada mais ou menos regular que lhe confere o título. Muitas peças em verso são excelentes comédias, e a natureza da tragédia não exige obrigatoriamente que o discurso seja versificado. Exige, sim, que a peça tenha categoria poética, isto é: visão unificante, densidade de pensamento, equilíbrio rítmico das partes em relação ao todo e da expressão em relação à intenção. Sendo a tragédia a representação simbólica de uma crise dialéctica, não pode dispensar-se — além de, como teatro, possuir acção exterior ou interior — de possuir também aqueles atributos da máxima categoria de criação, sem a qual se não exibe, condigna e excepcionalmente, a crise inspiradora.

* * * * * * * * * *

De muito longa data me apaixonou a figura infeliz, estranha e maltratada, do Prior do Crato. Quando principiei a escrever esta peça, não estava ainda em moda a reabilitação dessa figura, embora houvesse meritórias obras, que com muito proveito consultei, para inventar a complexa personalidade de um rei que terá encarnado, senão o destino contraditório da sua pátria, pelo menos pode imaginar-se que a lucidez desse mesmo destino. Foi exactamente por aí que comecei. As primeiras linhas compostas foram todo o último acto, desde o início do grande monólogo final. Sobre isso se ergueu o resto pela seguinte ordem: 1.° acto, início do 4.° acto, 2.° acto, 3.° acto. Entre o 1.° e o 2.° acto actuais, cheguei a desenvolver o que seria o 2.° acto (a peça teria então cinco), que fica inédito. Esse acto, passado na nau almirante castelhana, depois da derrota naval dos Açores, se, por um lado documentava várias circunstâncias da acção, por outro apartava a atenção do tema principal, que é a decomposição gradual da personalidade do protagonista, por nele se consciencializarem os contrários da condição humana, em geral, e da condição política nacional, em particular.


Gostaria de, a propósito, falar em tragédias sobrepostas. Porque assim é. Nunca as tragédias chegam sós; e, conforme o plano do conhecimento em que nos colocamos, assim nos surge uma, que é como que a particularização concreta de outra situação trágica mais vasta. O Prior do Crato, que, erguido sobre o que dele dispersamente se conhece, eu quis ver em carne e osso, sofre as consequências do seu nascimento, da legitimidade duvidosa da sua pretensão, do apoio escasso das classes dominantes, da quase apatia das classes dominadas. Sofre, ainda, a sua natureza donjuanesca e, por cima de tudo, o anti-sebastianismo que a sua pessoa representa. Por cima de tudo, não — que, mais acima, sofre, como homem e como português, uma crise de independência e de liberdade do espírito. Figura trágica e crítica, aceitar-se-á que, na sua consciência, se consubstanciem os problemas humanos, representados pela crise de 1580. A tragédia de uma consciência nacional lutando contra a abstracção (e sujeição) crescente do seu próprio destino é a sua mesma tragédia. E, todavia, O Indesejado é uma peça histórica, no sentido menos corrente, de rigor histórico das personagens e das situações (não, é claro, todas as situações dramáticas). De acto para acto se concentram, porém, aquelas tragédias sobrepostas, e, mesmo formalmente, se operará a transfiguração dialéctica da História espectacular em História significativa. [1]


Por este dualismo do rigor histórico e da evocação interpretativa, e não só por ser uma peça de um escritor de hoje escrevendo para o seu tempo, é que a mentalidade das personagens e a linguagem que usam, procurei que fossem um discreto compromisso das épocas a aproximar. Melhor: o meu espírito é que tal procurou. Não que me repugne o anacronismo que tanto pano para graciosas mangas permitiu a um Shaw, um Claudel, um Giraudoux. Apenas senti que a dignidade trágica, que aliás, nas obras visadas, estes autores não procuraram (mas sim uma dignidade só intelectual), será prejudicada, na plena repercussão teatral, por uma «cocasserie» demasiado presa a insignificâncias do nosso tempo para servir a própria resolução dialéctica que a tragédia busca. Intemporal como a tragédia parece, é, já por si só, a expressão poética mais amarrada às condições da época em que surge. De sempre, surgiu até para enfrentar as perplexidades críticas por tais condições suscitadas. E, ao escrever O Indesejado, desejei ardentemente penetrar a experiência que, de nós, como portugueses e cidadãos à margem ou nas margens do mundo, nos é dado ter.


Tudo isto, é claro, pode não estar na peça, estar e ninguém ver, ninguém ver por culpa minha ou da leitura que fizer. Sob esse ponto, deve um autor reservar-se. E devem os leitores aguardar ou exigir a representação, o corpo e a voz dos actores, para certificarem-se do que, acaso, a leitura lhes deu ou não deu. Por má que seja uma peça, é no palco e como teatro que se apresenta a juízo. Antes disso, se for boa, o que ficará na memória do leitor, além da inteligência do sentido: um pequeno palco, uma série de gestos e movimentos, um saudoso amor da imaginação pelo tablado autêntico que a peça merece.


É verdade: ainda não falei do Coro. Lá para trás, oportunamente, não cheguei a dizer que nunca supus que a peça seria uma tragédia, rotulada e garantida, só porque a acção era sublinhada pelas intervenções oratórias de um Coro. Não me perguntem, contudo, se o coro é a consciência de D. António, se a divindade, se a consciência colectiva, etc, etc. Será tudo isso ou nada — sobrenatural é que ele não é. Ao longo da peça, em boa verdade, só os espectadores o ouvem; D. António ouvi-lo-á na medida em que morre vivendo, e o que ele já não ouve bastará como justificação do que, afinal, não está lá para sublinhar a acção, nem sequer como um recurso, mas como autêntica exigência desta efabulação dramática.


É que o teatro, a realidade teatral, como imagem humana universal que pretende ser, justapõe à vida a convenção. A convenção possibilita e completa não só a expressão da vida como a própria vida. Neste sentido, a vida humana é teatro. Apenas não representamos um papel que a fatalidade nos haja ab initio imposto e distribuído, mas aquele que, regidos pelas circunstâncias, nós próprios escolhemos e assumimos. Este subtil e doloroso equilíbrio entre o desejo de não representar e a consciência do sacrifício exigido por uma representação necessária, que é possivelmente a essência do chamado pecado original, está na base mais íntima da razão de ser do teatro, e é a garantia da sua imortalidade.


Não há nisto qualquer mistério transcendente. O que se oculta misteriosamente nos meandros da lucidez ingénua ou do saber culto — a profunda consciência de uma representação necessária em cuja humilde aceitação reside a liberdade — só por profundidade será misterioso. Ou porque, nem todos sendo capazes de enfrentar a verdade, e ninguém sendo capaz de a enfrentar, em cada momento, na sua nudez final — os graus de verdade se desenvolvem como tragédias sobrepostas, até um último sem sentido algum, perante o qual o homem ou recua e persiste, ou avança e se aniquila.


Perdoem-me que a seguir recorde que é da boca daquele por cujas mãos se «coroou», daquele que lhe foi, ao longo da vida, aquela estima irracional, que é suporte da personalidade, e que ele próprio por si mesmo não tivera: é dessa boca que D. António já não chega a ouvir o decreto final da sua dissolução, ao mesmo tempo fixação irremediável na vida que viveu. Tudo isto, porém, é teatro, é poesia, e é, consequentemente, a vida. Se apenas for o pensamento que tive ou tenho agora — enfim, sempre será alguma coisa.

Nota:

1. Diversos temas, ressurgentes ao longo dos actos, conduzem estas várias tragédias: o tema do anel, o tema da invenção do sebastianismo (Duarte de Castro), etc.
 

Vilancetes

Forma poética comum no Renascimento Ibérico, o vilancete é um poema construído em medida velha e a partir de um mote de dois ou três versos. Quando o último verso do mote é repetido no último verso do poema, temos um vilancete perfeito.

Homem de vocação renascentista, ainda que em pleno século XX, Jorge de Sena experimentou a forma algumas vezes. Todos com o mesmo título (roubado à forma, à guisa de rótulo), dois perfeitos e um imperfeito, eis os vilancetes senianos:

 

Vilancete

No instante da partida
há sempre uma demora
não do tempo – da vida.

Na verdade, não chora
quem sabe o espaço e o casto
abraço dessa hora:
instante só mas vasto
e ausência concebida.
Se ninguém deixa rasto
de verdade perdida,
tenuemente se cora
o escasso perfil gasto:
não do tempo – da vida.

13/7/46

(Pedra Filosofal, Poesia I)

 

Vilancete

Teus olhos deste: não queiras
outra esp’rança, outras maneiras
do amor buscado e perdido.

Olhando os corpos que passam,
olhando os olhos num lance
em busca de outro relance
da mesma sede… Não queiras
prender-te aos gestos que façam.
Teus olhos deste: não queiras.

Logo depois e mais tarde,
na sede sempre mais louca,
nenhuma imagem não arde,
todas se esfumam ligeiras,
nada lembras… E é tão pouca
outra esp’rança… outras maneiras!

Olhando os olhos num lance,
a vida entregas, vencido,
em busca de outro relance
do amor buscado e perdido.

23/8/47

(Post-Scriptum, Poesia I)

 

Vilancete

– Meu corpo, que mais receias?
– Receio quem não escolhi.


– Na treva que as mãos repelem
os corpos crescem trementes.
Ao toque leve e ligeiro
o corpo torna-se inteiro,
todos os outros ausentes.

Os olhos olham no vago
das luzes brandas e alheias;
joelhos, dentes e dedos
se cravam por sobre os medos…
Meu corpo, que mais receias?

– Receio quem não escolhi,
quem pela escolha afastei.
De longe, os corpos que vi
me lembram quantos perdi
por este outro que terei.

23/12/49

(Pedra Filosofal, Poesia I)
 

A Bordo da Sagres: o cadete Jorge de Sena e a viagem do Navio-Escola

Um diário da viagem, feito das cartas enviadas aos pais

Bastante atípica, não faltaram peripécias na viagem do navio-escola Sagres que se estendeu de outubro de 1937 a março de 1938, na qual se encontrava o cadete Jorge de Sena. As cartas enviadas a seus pais na altura (lidas por seus superiores antes da postagem?), a par do registro factual, mostram o cuidado do jovem de 18 anos em prevenir a família sobre o pior que poderia acontecer — e infelizmente aconteceu. Complementando o conteúdo dessas cartas, escritas na viagem que mudou o rumo da vida de Jorge de Sena, Mécia nos traz algumas achegas, ouvidas de seu marido.

 

 

 

 

“Sagres”, 10 de Outubro de 1937
S. Vicente de Cabo Verde, 11 de Outubro de 1937

Minha querida Mãe

Escrevo-lhe hoje porque amanhã de manhã chegamos a S. Vicente de Cabo Verde depois de 10 dias de viagem que dá muito trabalho mas passa depressa. Vamos fazer um cruzeiro enorme – o maior que a “Sagres” até hoje fez – Cabo Verde, Brasil, ilha de S.ta Helena, Angola, S. Tomé, Dakar, Madeira (tudo pouco mais ou menos) e entretanto em Lisboa vão andando daqui para ali ou percorrendo o corredor para trás e para diante. Espero que a Mamã e o Papá tenham passado bem de saúde e de paz assim como todos na casa desde a Cassilda ao canário passando pelo papagaio e as baratas; a propósito de baratas – cá a bordo começam a aparecer em grande número mas de tipo muito simpático: castanhas e pequenas.

A Avozinha e o Padrinho e a mais família têm passado bem como espero? O Padrinho sempre faz a operação que estava marcada para este mês? Estou convencido que nada acontecerá. Parece que vamos estar até 2 ou 3 de Novembro no dito arquipélago de que me têm dito coisas medonhas: uma terra seca e escalvada onde nem a fruta se deve comer. Agora que estou a escrever tenho a impressão que embarquei ontem, quando não parece-me que foi há muito e por vezes esquece-me a extensão do tempo. O que lhe digo é que a bordo de um navio não se tem a noção exacta da distância a que se está da terra donde se partiu – parece que está próximo e ninguém nos pode tirar a sensação dessa pouca distância nem mesmo ver num mapa ou num contador as milhas andadas; quem pode pensar numa casca de noz, que em relação ao horizonte parece estar sempre no mesmo sítio, ter já andado cerca de 1500 milhas? Temos andado umas vezes à vela outras a motor. O calor a bordo é grande mas quando os motores vão a funcionar, os nossos alojamentos são destilações perfeitas. Não se pode imaginar a temperatura espantosa que existe dentro do navio. É de encharcar toda a roupa. Bem entendido agora – isto é para o Papá também – que se não me engano nesta altura já está a ruminar a minha “má educação” por não ter dedicado o frontispício da carta à sua pessoa. Feitas estas considerações gerais passo a falar de mim e da minha vida aqui. Tenho bastante maçada. O horário é o que vou dizer: levantar às 6; tomar café e lavar até às 7; às 7 vamos fazer a baldeação com escovas, vassouras e baldes – isto até às 8 (a baldeação puxa um bocado mas tem graça e sabe bem porque é cedinho); às 8 toma-se banho e vestimo-nos para a 1a. instrução, às 8 h 45 m e que acaba às 10; toca então a mudar de fato para embandeirar em arco com o fato de passeio para o almoço às 10 h 30 m; às 12 h instruções até às 3 h menos ¼ para lancharmos às três; depois temos outro tempo de instrução até às 5; descansamos até ao jantar (6 horas e meia) e depois deitamo-nos cerca das 9 horas – tudo isto acompanhado sempre da mudança de fatiota respectiva. Este horário foi só até hoje – amanhã entra outro mais apertado em que o levantar é às 5 h 30 m. Em todo caso gosto disto; é uma vida muito interessante e segundo me disse outro dia um oficial: “o pior tempo é o de cadete e esta viagem”. Mas tudo passa rapidamente. Sinto-me bem graças a Deus e até me dizem que estou mais gordo, no que não creio. Não sei se sabe o digníssimo Ministro da Marinha veio despedir-se de nós, ofereceu-nos a Vida de Nun’Álvares de Oliveira Martins e tirou connosco um retrato que deve ter vindo nos jornais. Procurem obtê-lo porque sempre tem interesse.

A propósito de jornal: cá a bordo quase todos os dias afixam um noticiário que se obtém pela telegrafia – talvez conseguíssemos ouvir telefonia se a tivéssemos em termos – mas os oficiais é que a possuem e na nossa câmara há só um alto-falante ligado à sala deles e que por tal sinal funciona negativamente. Quando saiu do navio o tenente Paiva foi falar ao automóvel. Que tal o achou a Mamã? Vou agora dizer para o Papá saber as instruções que temos tido: infantaria, nomenclatura de armas portáteis, prumo e barca, embarcações miúdas, marinharia, nomenclatura do navio e agora que vamos chegar a Cabo Verde começarão as instruções de remo e vela. Além destas ainda há sinais e deveres militares. A natação não começa por causa dalgum tubarão distraído do caminho e segundo parece o delegado da Escola Naval – o tenente Norberto que é o nosso principal instrutor, tem intenção de ensinar em Cabo Verde a jogar o ténis a quem não sabe. Agora vou falar um pouco dos acontecimentos mais notáveis da navegação. No dia 4 passaram por nós duas tartarugas – nunca tinha visto coisa assim como sabe e achei muita graça em vê-las a nadar muito descansadamente. Ia eu a entrar pelo diário dentro e esquecia-me de descrever a partida propriamente dita. Quando saímos da doca como viu tirei algumas fotografias e como aqui a bordo não se pode revelar desconfio muito da minha perícia nessas e nos três rolos de películas que já gastei até à data. Os rapazes estavam na ponta da ponte giratória quando a “Sagres” passou. Fomos rebocados até ao meio do rio e daí andamos a motor até S. José da Ribamar onde fundeámos. Devem a Mamã e o Papá saber tudo isto pelos jornais que com certeza falaram disto. Chegámos a S. José às 15 h e partimos no dia seguinte às 15 h depois do Ministro ter partido. Passámos diante das diversas praias conhecidas, diante de Sto. Amaro e saímos a barra. Estava, não sei se também em Lisboa, um vento fortíssimo e à saída tivemos um bocado de balanço; descemos do convés, viemos lanchar e eis senão quando o navio dá um balanço tão grande que toda a louça se vira na mesa, a chávena que eu tinha segura na mão entorna o chá por cima de mim e um de nós vai de escantilhão até à extremidade do alojamento e volta de rastos pelo chão para debaixo da mesa – e isto em baixo; em cima um oficial caiu no convés e andou de rebolão juntamente com outras pessoas e coisas. Foi um assombro que rasgou a vela grande, partiu frascos de tinta, remédios, etc. O balanço grande manteve-se e tornou a manter-se até perdermos de vista o cabo Espichel e de noite continuou; depois foi diminuindo progressivamente até que no dia 5 o mar já estava calmo e agora quase chão. No balanço grande o navio deu a sua inclinação máxima – 46o – e nunca balançou tanto na opinião de velhos marinheiros a bordo. Eu não enjoei – não é próprio de mim, de ascendência tão aquática o enjoar – mas no dia 2 vomitei três vezes sem mais nem menos: uma ao ver vomitar outro, a segunda logo a seguir e a terceira depois do jantar, ao deitar: vi o alojamento cheio de gente deitada, um balanço que fazia andar os baldes dos enjoados e botas e tudo num fandango desenfreado que não podia deixar de ser. O mar indispôs toda a gente, o que não podia deixar de ser dada a altura dos vagalhões. Eu nem tive medo, embora tivesse calculado que o mar não devia ser sempre assim. De então para cá temos tido as nossas instruções e baldeações. Tem passado por nós vários barcos uns ao longe, outros perto e destes uns delicados e outros malcriados – quer dizer que uns cumprimentam e outros fazem como um possivelmente inglês mas que se calhar era socapa que passou chegado a nós sem se ver viva alma a bordo.

Passámos no dia 6 à vista da ilha de Palma das Canárias e por nós têm passado bandos e bandos de peixes voadores que têm uma graça enorme.

Estou a escrever-lhe a umas linhas para cá de S. Vicente de Cabo Verde onde chegámos depois de termos passado o canal entre esta ilha e Sto. Antão. Nunca vi na minha vida coisa tão escalvada como estas aprazíveis ilhas. Nem se faz ideia. Ontem topamos com um bando de baleotes que o navio cercou para o Comandante dar uns tirinhos. E é tudo. As noites têm sido lindíssimas como nunca se vêem em terra assim como o pôr do Sol e eu gosto desta vida de ar livre que levamos aqui. Escrevi agora uma das maiores cartas da minha curta vida e nela vai além destas rápidas impressões, porque o tempo urge, um mar enorme de saudades em troca daquelas que eu sei vegetam aí em casa.
Peço que dêem notícias minhas a todas as pessoas porque hoje não devo escrever a mais ninguém e não o fazendo esta carta chega primeiro.
Saudades a todos e um grande abraço do vosso filho muito amigo que nunca os esquece e vos pede a benção querida,

Jorge

 


S. Vicente de Cabo Verde, 1 de Novembro de 1937

Minha querida Mãe

Esta carta de hoje é resposta a uma resposta. Fiquei muito satisfeito por ver que o Papá e a Mamã tinham gostado da carta que receberam. Estiveram então a ver a “Sagres” ao longe e gostaram das linhas, hein? Quando receberem esta carta já sabem por telegrama que vou amanhã para Santos. O Comandante chegou ontem num navio da “Blue Itao Line” que à tarde fomos ver. Fomos buscar o Comandante com um cerimonial medonho: canoa para ele, gasolina onde iam os oficiais, 2 baleeiras connosco e 2 escaleres com guarnição. Tive de entrar logo no navio para apresentar cumprimentos ao Comandante em nome dos cadetes. À volta os barcos formaram cortejo e cá na “Sagres” houve “Portos de Honra” ao comandante oferecidos pelos sargentos e por nós. Tanto num como noutro tive de fazer discurso. Imaginem! Temos ido a uma hipótese de carreira de tiro que existe em terra e classifiquei-me regularmente. Para quem nunca tinha apanhado coice de maior não é nada mau. Agora que já fiz um relatório é muito difícil dizer alguma coisa de novo em todo o caso… Temos tido instrução de vela; 2 lições e uma passeata duma tarde inteira na baía. Num dos 1.os dias vi a bandeirola dum tubarão e no passeio vi nitidamente passar alguns metros abaixo do barco um peixe-martelo.

Dêem notícias minhas às mais variadas pessoas: Sr. Mota, Sr. Faria, aí no r/c., etc. porque eu não posso escrever a toda a gente.

Recebi outra carta da Avozinha e outra do Padrinho a que vou responder agora.

Saudades, beijos e um grande abraço do vosso filho muito amigo que vos pede a bênção;

Jorge

 


Santos, 25 de Nov. de 1937

Meus queridos Pais

Cheguei a Santos no dia 22 mas hoje há, como vêem, correio rápido e aproveitei para mandar mais notícias do que as míseras e mesquinhas dum telegrama. A viagem decorreu menos mal e passámos pertíssimo do Rio que achei uma cidade fantástica e onde não nos deixam ir nem de avião. Contudo os oficias vão lá. Cá, meus queridos Pais, ao contrário do que eu pensava, existe uma extraordinária disciplina de funil.

Santos é uma cidade pouco bonita, onde tivemos uma desconsolada recepção ao contrário do que podem por aí vir a saber. Devo ir a S. Paulo um dia destes e segundo me dizem esta cidade é boa.

Demoramo-nos cá até ao dia 1 de Dezembro. Espero que aí em casa tenham passado bem de saúde e em boa paz. A Mamã dê notícias minhas à Avozinha e mais família e pessoas conhecidas. À Avozinha escreverei no próximo avião. Neste não pude.

Tive aqui no dia da chegada 24 h de serviço de guarda – uma maçada que me fez andar no virote (o 1o. dia é o das visitas oficiais) e que me fez dormir vestido e mal a noite toda. Não recebi notícias ainda, facto que estranhei muito. Na passagem do Equador tomei banho por ordem do Rei dos Mares. Uma patetice a que se acha piada à falta de melhor.

Procurarei no próximo avião escrever ao Padrinho. Espero que o Padrinho tenha passado melhor e que a Família toda esteja bem.

Muitas saudades e beijos do vosso filho muito amigo que os abraça e lhes pede a bênção,

Jorge

P. S. Parto no dia 1 para Angola.

 


Dakar, 12 de Fevereiro de 1938

Minha querida Mãe

Escrevo-lhe de Dakar onde o navio veio em lugar de voltar a Cabo Verde.

Vamos daqui directos para Lisboa e poucos dias faltam para nos tornarmos a ver. Depois de Luanda onde visitei a Sra. D. Castorina, o navio arribou a S. Tomé onde estivemos poucas horas e donde não escrevi. Mesmo que de lá tivesse escrito esta carta chega primeiro, e mais, chega primeiro que eu.

Tenho andado bem de saúde e espero continuar do mesmo modo até Lisboa. O fim que motiva a rapidez que desejo imprimir a esta carta é bem outro e passo a expô-lo. Agora no fim da viagem reúne cá a bordo o conselho de oficiais para de nós informar a escola. Isto fez-se sempre e dentro de certos limites nunca prejudicou ninguém. Mas agora há aqui o tenente Norberto que veio connosco. Tem a mania que é muito recto, etc., e é uma pessoa terrível. Não pode a Mamã imaginar certas coisas que ele faz. É totalmente diverso de todas as informações que possa haver dele. Diz ele que eu sou incontestavelmente superior a todos os outros em inteligência, não possuo contudo espírito militar; quer baseado nisto alterar a classificação do curso e até já disse que proporia ao conselho a minha exclusão para eu concorrer outra vez e poder assim fazer mais uma viagem de 5 meses.

Ora estes factos não vêm no Regulamento. Ele quer propô-los ao Ministro à chegada de Lisboa. Não é de modo algum justo o que ele quer fazer. Faço isto de comunicar para aí isto para que, sem alarmes e sem dizer nada a ninguém, se acautelem e preparem o terreno para estes golpes lhe falharem. Quer aplicar aqui – numa viagem em que nada sabemos do ofício – o critério dos tirocínios dos guarda-marinhas. Dar uma nota na prova de mar e tirar a média sem a nota que temos de média das cadeiras da Faculdade. A viagem é essencialmente diferente e a aplicação do critério agora em que nenhum deu provas escolares levá-lo-ia a pôr em primeiros lugares certas pessoas que ele lá entende. Que a classificação seja alterada depois de um ano de escola está certo mas já é uma injustiça. Para bem observarem conto um dos últimos feitos: deu a cada um de nós uma lista do curso para cada um ordenar os camaradas segundo o conceito que fazemos uns dos outros. É a maior infâmia e falta de camaradagem que se pode imaginar. Todos ficámos indignados mas não tivemos senão remédio de o fazer.

Ficam pois aí em Lisboa prevenidos e com tempo para agir.

Recomendo que não se aflijam e encarem a situação com calma mexendo os cordéis que forem necessários. Eu gosto desta vida. Somente com este oficial junto é que não se pode fazer nada.

Espero que estejam bem e recebam muitas saudades e um grande abraço do filho muito amigo que espera beijá-los e pessoalmente pedir-lhes a bênção dentro em pouco,

Jorge

P.S. Não se apoquentem como é vosso costume. Vejam a quem dizem e a quem mostram esta carta se é que venha a haver necessidade disso. Para verem bem como o tenente é fiquem sabendo que na Escola Naval antes de ele embarcar lhe chamavam Zuca.

Muitos beijos e abraços do
Jorge.
 

 

Sobre a viagem e a exclusão, alguns dados que, segundo Mécia de Sena, devem ser considerados:

=> Meu marido era o aluno mais jovem do curso (fez 18 anos a bordo) e era, de longe, o mais classificado. Após as provas de ingresso, meus sogros foram chamados à Escola Naval, para lhes ser dito que as provas indicavam que aquele candidato tinha a capacidade de "génio". E no mesmo nível de classificação se manteve até o fim.

=> A viagem foi uma das mais longas e mais tormentosas da Sagres, atingida que foi por um temporal que a fez dirigir-se para o Lobito onde o navio ancorou para ser devidamente reparado dos tremendos danos que sofrera, enquanto os alunos foram de comboio para Luanda, onde depois reembarcaram.

=> O Instrutor fora treinado na Alemanha, de onde regressara um ou dois anos antes.
=> Os serviços de bordo, como lavar o convés, não eram trabalhos que fizessem parte da instrução dos cadetes — foi uma das maneiras de humilhação que o Instrutor usou. Assim, por exemplo, os cadetes não tinham funções determinadas quando o navio estava fundeado, mas meu marido e outros não viram Santos no primeiro dia em que chegaram, porque o Instrutor os pôs a fazer serviço de sentinela.

=> O Instrutor aplicava-se a fazer os mais perigosos exercícios sempre que havia balanço ou temporal. Num desses exercícios, meu marido escorregou do mastro grande e salvou-se porque um marinheiro o apanhou no trajeto e com ele agarrado desceu até ao convés, onde o colocou. Os marinheiros fizeram nesse dia um "levantamento de rancho" em protesto pelo tratamento que estava sendo dado aos cadetes.

=> O outro "levantamento de rancho" ocorreu quando um marinheiro foi levado do convés para o mar por uma enorme vaga e nunca mais apareceu — o que foi tomado como descaso pela vida dos marinheiros.

=> De resto, leia-se a conversa que está transcrita no conto colocado em Cabo Verde [ "Duas medalhas imperiais com Atlântico"- ANAD], e que meu marido ouviu, e ficará claro de que gente se tratava.

=> A demissão de quatro cadetes, no final, foi caso inaudito — nunca tinha acontecido e creio não voltou a acontecer. O Instrutor… fez apenas uma viagem mais, em que, salvo erro, morreu um cadete, ao que se dizia, por deficiente tratamento.

=> Curioso será de notar que, pondo de lado o meu marido, cujo pai não o deixou ingressar na Marinha Mercante (embora ele dela fosse comandante, na altura já aposentado por invalidez — tinha perdido uma perna, em virtude de um pequeno acidente complicado com o facto de ser diabético) por entender que era "descer" de categoria, outro foi para o Exército, carreira que lhe durou toda a vida; um outro foi para a Marinha Mercante, onde foi imensamente conceituado; e um outro passou para o Exército nas mesmas funções… Como se vê… eram todos muito subversivos…

=> Tanto quanto sei, o ambiente da viagem era péssimo — infelizmente meu marido não viveu o suficiente para escrever as páginas de memórias que sempre tencionou escrever.

Clube de Leitura: Jorge de Sena, o escritor da casa

Para celebrar o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, a Biblioteca da FEUP irá destacar a obra e a vida do antigo estudante de Engenharia Civil desta Escola, Jorge de Sena. Numa acção conjunta que envolve a Biblioteca e o Comissariado Cultural da FEUP. serão promovidas várias actividades em torno desta figura notável da cultura portuguesa.

A sessão terá lugar na Sala Nobre do Departamento de Engenharia Civil, no dia 28 de Abril, pelas 13 horas. Serão oradores dois convidados que conheceram de perto o escritor enquanto estudante: o Professor Doutor Joaquim Sarmento e o Engenheiro João Lamas. A moderação da sessão estará a cargo do Professor Doutor Manuel Matos Fernandes.

 

Mais informações: agora@fe.up.pt

Alguma toponímia

Um reconhecimento topográfico…

 

Jorge de Sena empresta seu nome a vários endereços portugueses, espalhados por cidades diversas. Em geral, tem como vizinhos, em ruas transversais ou paralelas, outros escritores: Almada Negreiros e Bocage em Sintra, Vitorino Nemésio em Beja, Gil Vicente em Oeiras, Fernando Pessoa em Odivelas, José Régio em Seixal, Florbela Espanca em Setúbal, etc. Mas talvez o poeta ficasse mais satisfeito com a companhia que lhe deram na toponímia de Amadora, afinal, como se vê no mapa inserido abaixo, este é o lugar em que a rua Jorge de Sena faz esquina com a rua da Liberdade.

 

Listagem Google Maps (endereços localizados na internet com links para os mapas):

  1. Largo Jorge de Sena, Sintra
  2. R. Jorge de Sena, Sintra
  3. R. Jorge de Sena, Lisboa
  4. R. Jorge de Sena, Charneca de Caparica, Setúbal
  5. R. Jorge de Sena, Quinta do Torrão, Guarda
  6. R. Jorge de Sena, Salvador, Beja
  7. R. Jorge de Sena, Estoril, Cascais
  8. R. Jorge de Sena, Montijo, Setúbal
  9. R. Jorge de Sena, Oeiras, Lisboa
  10. R. Jorge de Sena, Odivelas
  11. R. Jorge de Sena, Arrentela, Seixal
  12. R. Jorge de Sena, Pinhal Novo, Palmela
  13. R. Jorge de Sena, São Lourenço, Setúbal
  14. R. Jorge de Sena, Rio Tinto, Gondomar
  15. R. Jorge de Sena, Amadora
  16. R. Poeta Jorge de Sena, Bougado-São Martinho, Trofa

 

Listagem por Códigos Postais:

2005          Santarém (Rua Dr.)
2635          Sintra (rua)
2635          Sintra /Rio de Mouro (rua)
2650          Amadora
2675-392  Odivelas (rua e praceta)
2745-135  Sintra/Queluz (largo)
2765         Cascais/Estoril (rua e praceta)
2780         Oeiras
2820-085  Charneca de Caparica/Almada (rua)
2820-086  Charneca de Caparica/Almada (travessa)
2855         Corroios/Seixal
2870         Setúbal/Montijo
2955-201  Setúbal/Palmela
2925-173  Setubal/Azeitão (brejos dos clericos)
3700         Lisboa/Aveiro-Santa Maria da Feira
4405         Vila Nova de Gaia (praceta)
4435-045 Gondomar-Rio Tinto/Porto
4460         Matosinhos
4510         Gondomar/Porto
4560         Penafiel/Porto
4745-265  Guidoes/Trofa
4745-409  Coronado-Sao Mamede/Trofa
4785-134  Bougado-Sao Martinho/Trofa (rua poeta)
4785-598  Castelo/Trofa (rua poeta)
6300         Guarda
7800         Beja
7900         Ferreira do Alentejo
8200         Monte Choro/Albufeira (Travessa)

 


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O Re-descobrimento do Brasil: três cartas inéditas

Recife, 7/8/1959 e Bahia, 13 e 19/08/1959

As três cartas inéditas a seguir publicadas são das primeiras que Sena escreveu numa nova "descoberta do Brasil", em 1959, logo depois de aportar no Recife e de seguir para Salvador, onde participou do Colóquio que justificava sua vinda. A par das reiteradas saudades de Mécia e da família, as observações rápidas e mescladas sobre a liberdade respirada, a paisagem, o calor tropical, o custo de vida, as desorganizações institucionais (particularmente os aflitivos correios que dificultavam sua comunicação com a destinatária) e mesmo as desconfianças quanto ao modo escorregadio de alguns nativos, permitem-nos perceber, apesar de tudo, a paulatina adesão do signatário ao novo espaço — a ponto de, em pouco tempo, pensar em permanecer…

* Recife, 7/8/959

* Bahia, 5ªfeira, 13/8/959

* Bahia, 19/8/959

 

 

Recife, 7/8/959

Minha querida Mécia, meu Amor


A saudade imensa que sinto de ti, a amargure de não estares ao meu lado, sobrelevam a sensação estranhíssima de respirar o ar livre do Brasil, que logo no avião começou. Revejo o teu vulto na porta do "embarque" no aeroporto, a dizer-me adeus, e de tantas vezes que nos temos separado e de tanto sermos um, foi esta a separação mais dolorosa. Creio que poucas vezes terei sofrido tanto, e sei também que cada vez mais somos um só, vivemos um no outro, meu Amor, não é?


Chegámos ao Recife, depois de uma excelente viagem, mas com duas horas de atraso. 0 avião cheio não permitia grande liberdade de movimentos, e apenas só de quando em vez dormitei alguma coisa. Isto me parece uma mistura heteróclita de Luanda, Braga, Setúbal, Aveiro (pelos canais à beira do rio) e pretensões novayorquinas sem arranha-céus. Não encontrei ainda o Alfredo Pereira Gomes [1]. O Alvaro Lins [2] foi para o Rio.


Os cruzeiros não valem nada. Um taxi – eu, o Urbano [3], a Maria de Lourdes [4] e o Luis Albuquerque [5], de Coimbra, viemos ver as praias celebradas – 160 cruzeiros (uma distância como da nossa casa a S.to Amaro). Comprei a camisa de nylon. Garantiram-me que aqui é tudo mais barato e melhor que na Bahia. Custou a dita 800 cruzeiros, o que me dizem ser bom. Que te parece. 160 esc. não é ? Não comprei ainda, prudentemente, as cuecas.


O inverno aqui é um calor equatorial, que aqui na praia nem do mar vindo, onde estou sentado na praia a escrever-te, uma brisa corta. Mas não ter-te aqui a meu lado é um desgosto infinito. Respirar esta sensação de distância dessa piolheira ignóbil, ouvir falar português à nossa volta – e não estares comigo, oh meu Amor, como é possível? Como estarás? Por certo amanhã terei notícias tuas trazidas pelo avião seguinte. Como estarão os pequenos? Sinto-me só, querida; eu não sei viver sem te saber perto, sem ter-te ao meu lado, sem falar contigo, sem ouvir contigo. E cada vez menos o sei. E quanto eu queria que viesses ainda! Amanhã, mexerei o céu e a terra, embora o Urbano na viagem me tenha descrito os esforços que fez. Receber-te nos meus braços no aeroporto, como te tive nos meus à despedida, será possível?


Partimos de facto amanhã às 6 horas para a Bahia. A vida no Recife é às 6 da manhã que começa: gente na rua, tudo aberto – não é cedo senão para nós. Vamos a ver como o Adolfo [6] reage à confissão geral do João Paulo [7], que aliás só pela rama e directamente lhe transmitirei.


Meu amor, queria ter-te comigo a meu lado, nesta paz que o não é por me faltares aqui. Abraço-te, minha vida, de todo o coração. Beija por mim os pequenos todos. A toda a gente transmite lembranças. E para ti, querida, meu Amor, minha vida, o meu coração inteiro num grande beijo, tudo o que valha e não valha e tu me dás a graça de amar. Teu

Jorge

 

 

Bahia, 5ªfeira, 13/8/959


Minha querida Mécia, meu Amor


Faz hoje uma semana que parti, e curiosamente (acabo de olhar para o relógio) pego da caneta para te escrever quando, com as 4 horas de diferença (são 6 da tarde), a semana se cumpre exactamente. Semana vertiginosa de despaisamento, de tropicalismo, de trabalho insano desde que à Bahia cheguei (passei a tarde inteira fechado no quarto a preparar o relato da tese do Casais, para amanhã pela manhã, que tinha de ser feito agora, pois logo à noite vou ver a Cacilda Becker na Maria Stuart). É noite. Por entre nuvens, um crepúsculo vermelho que sumiu rápido atrás da imensa ilha de Itaparica que está aqui defronte dentro desta baía sem limites de que a cidade é uma parte mínima. A minha tristeza é imensa. As únicas notícias tuas que até hoje recebi são as que a mulher do Cidade me deu. Só quando estou totalmente exausto te não tenho escrito todos os dias as cartas ou partes de cartas que terás recebido, meu amor. O Urbano levará esta, e por isso nela nada conto de especial senão o ar livre que se respira aqui e sem ti respiro, a amargura de não ter-te a meu lado nesta paz sem limites de uma noite quente e serena, em que saberia bem suarmos juntos. Isto é muito belo, de uma força tropical que se intromete nas ruas, e creio que poderíamos ser aqui, meu amor e minha Vida, incrivelmente felizes. Assim, nem sei que possa dizer-te, roído de saudades, sem ouvir nas tuas cartas a tua voz e o teu conselho que são o meu arrimo e a minha consciência, inquieta a todo o instante por uma falta de notícias, que, comunicada, não aflige ninguém, de habituados que estão à fantasia destes correios de cá, em que um telegrama a avisar de uma chegada 3 dias antes, chega depois do avião em que o sujeito vem (aconteceu ao Pedro de Andrade, ao ir daqui ao Rio, antes de eu chegar). Depois, com a ida dos Lourenços [8] para a Europa, estou a ver que a minha tortura só terá alivio no Rio, se entretanto carte tua tiver chegado às mãos do António Pedro Rodrigues [9] (aí, como o correio é directo, levará menos tempo a chegar, presumo). O Casais tem sido muito amigo, e abriu-se comigo, e creio que fui injusto na alucinação dos primeiros dias que não comunicarás a ninguém, de perigosa que é. Mas nada disto importa, senão o silêncio que me rodeia. Eu sei que estás sempre comigo, não só porque és a minha própria alma, como por teres o dom de invisível estares a meu lado sempre em toda a parte. Esse invisível, porém, me assusta. A tua presença, o teu calor, o teu afecto, o teu infinito amor de que os nossos filhos são, graças a Deus, a expressão viva, preciso de tudo isso agarrado a mim, colado a mim, na tua boca, nos teus olhos, no teu corpo que é o mais belo poço de ternura que jamais houve no mundo. Como se é injusto humanamente! Como pode ignorar-se e como só é de um e não poderia ser de mais ninguém (pois não seria assim, nem seria sequer) um tesouro maravilhoso como é a tua pessoa, meu Amor! Eu não tenho desejo senão de ti, e tudo o mais não conta, nem importa. Querida Mécia – é incrível que estejamos separados!


Até ao Rio, não desisto de resolver este problema – o da glória infinita do teu coração batendo ao pé de mim, em mim, e para mim, dos olhos às pontas dos dedos. Meu Amor, estou tão cansado da vida, tão cansado de ver-te sem paz, acabrunhada de trabalho e de aflições, num buraco sem horizontes como é a nossa vida. Mas nela brilha "uma pequenina luz", a luz do teu amor – como ninguém entendeu que não há mais luzes, que toda a minha "fidelidade" é a ti? Beijo-te com uma profunda saudade, abraço-te com uma dorida ternura, e não me distraio um só momento da tua imagem tutelar, que beijo, beijo, beijo.


Teu do coração


Jorge

 

 

Bahia, 19/8/959


Minha querida Mécia, meu Amor

Recebi ontem das mãos do Lourenço (que hoje parte com a mulher para uma viagem de regresso, via Rio, Bolívia, Paris, México, França) duas cartas tuas: a de 9, em que não receberas notícias minhas, e a de 10, em que acabavas de enfim as receberes da Bahia. Ontem, relatei [10] pela manhã numa tempestade de meninotes que me chamavam "velho", a tese sobre a "poesia concreta" que aliás não ataquei. Ao almoço, no Hotel, o M. Caetano [11] veio a mim para agradecer-me o cartão com que eu declinara, "sobrecarregado de trabalho", a recepção dele, e felicitar-me pela brilhante actuação na secção de "literatura", onde de facto pareço um boneco de sabugo, sempre em pé, a meter a colherada. Após o almoço, o Thiers [12] veio muito doce trazer-me o bilhete de avião para o Rio (no sábado). A seguir fui com a Belchior ao Banco trocar 300$00 (o Casais pagar-me-á os artigos de S.Paulo adiantados e fará contas com eles depois, o que lá esclarecerei), dei uma volta pela Cidade com ela, voltei ao Colóquio, onde precisava de ir, fui jantar de despedida (com o Barradas de Carvalho, o Agostinho da Silva, a M. de Lourdes, o Victor Ramos, o Fafe, o Luis de Albuquerque) [13] ao Lourenço e à mulher (440 cruzeiros…), perdemos com a jantarada o espectáculo do Gil Vicente, vim para o Hospital [14] escrever o relatório da tese do Eudoro até às tantas, deitei-me, e aqui estou, às 8 da manhã (hora já tardia!), a responder-te. É extraordinário como recebo uma carta tua em que lamentas a conversa de surdos que o correio nos impõe, quando vai a caminho uma carta minha em que me queixo do mesmo. Mas é tão natural, da maneira que estamos afinados, meu Amor!


Espero que tenhas escrito ao Teu Pai [15] e ao Oscar [16] , pondo tudo bem claro, sem animosidades que complicam mais as situações. Não te arrelies, querida, demasiado – lembra-te daquele provérbio cínico: "nunca digas tanto mal de alguém, que não possas um dia dizer bem."… Será grave a coisa da Helena [17] ?


Querida, não temas que, impensadamente, eu me entusiasme a ficar aqui. Só se, preto no branco, nos aparecesse uma situação definidamente mais desafogada que a que temos. A minha experiência desta gente fugidia e vaga e irresponsável já é muita… Até agora, se a gente do Ceará tem projectos mais definidos, não financeiramente é certo, e mesmo isso… Lá irei ver, se a ida se concretiza. Mas só no Rio eu saberei as voltas que dou. Espero que escrevas sempre para o António Pedro Rodrigues, como te recomendei que fizesses.
 

Ainda bem que esteve agradável a tarde na Eunice [18]. Também eu não disse ao Adolfo tudo o que o João Paulo me disse, não era possível sem ofender e quase pactuar com uma violência que não temos de partilhar.


O Alexandre Eulálio "parece" que me arranjará o apartamento no Rio, mas mal o vejo no "flirt" um tanto estranho em que anda – ao que noto – com um jovem americano. É possível que eu me engane, e de resto nada tenho com isso. O Veríssimo é que tem sido amigo; envia-me americanos, escreve-me cartas – e eu ainda não tive tempo de escrever-lhe um postal. Nem sequer preparei o palestrório carioca (que aplicarei igual nas outras partes). Vamos a ver se hoje assento com o Amora a questão da ida a S.Paulo.


Vou começar a mandar pelo correio pacotes de papelada do Colóquio, para não ter de carregar com ela. Quero diminuir ao máximo o meu peso (já aliviado de alguns livros e dos que trazia para o Casais), para não dificultar a facilidade de movimentos. De S.Paulo, volto ao Rio, depois é que não sei a ordem das andanças na viagem de regresso, que pode meter Brasília, Minas, Amazónia, Ceará, etc. Informar-te-ei sempre de tudo, meu Amor.


Que infinitas saudades tenho de ti e da tua presença junto de mim. Toda a gente, de resto, sente isso. Ainda ontem, o Lourenço me dizia que a nossa correspondência é a contraprova das Evidências[19] … Minha muito querida Mécia, meu Amor: se não fosse estupidez perder as oportunidades que, dentro dos limites razoáveis de tempo, me aparecerem de ver o Brasil, eu chegava ao Rio e metia-me no avião, para Lisboa. Preciso de ti a todo o instante, nada sei ver sem ti, sem a tua presença comigo e em mim. Dá muitas lembranças aos nossos filhos e beijos muitos e que penso sempre neles. Dá lembranças a toda a gente a que nem tempo tive de escrever um postal. E para ti, meu Amor e minha Vida, as saudades, os beijos e os abraços do teu do coração


Jorge

Notas:

1. Matemático e professor português, então radicado no Recife. Oposicionista ao regime, foi expulso da universidade em 1947. Irmão dos escritores Alice Gomes e Soeiro Pereira Gomes, nasceu em 1919 e faleceu em 2005.
2. Diplomata e escritor brasileiro. Era Embaixador em Lisboa em 1959, quando deu abrigo político a Humberto Delgado, contrariando Salazar.
3. Urbano Tavares Rodrigues (1923), escritor português também participante do IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, que transcorreu, de 10 a 21 de agosto, na Universidade da Bahia em Salvador.
4. Maria de Lourdes Belchior Pontes (1923-1998) professora de Literatura Portuguesa e ensaísta, também participante do referido Colóquio na Bahia.
5. Matemático e historiador da Universidade de Coimbra, também participante do mesmo Colóquio. (Nasceu em 1917 e faleceu em 1992)
6. Adolfo Casais Monteiro (1908-1972) foi poeta, professor e crítico literário. Oposicionista, exilou-se no Brasil em 1954, passando a ensinar aqui em várias universidades. Além de participante, colaborou na organização do Colóquio baiano.
7. João Paulo Monteiro, filho de Adolfo Casais Monteiro.
8. Eduardo Lourenço era então professor na Universidade da Bahia – responsável direto pelo convite para que JS participasse do IV Colóquio. Durante o ano que passou na Bahia, esteve acompanhado por sua mulher, Annie de Faria.
9. Proprietário da livraria carioca Livros de Portugal, que também patrocinou várias publicações.
10. Todas as conferências do colóquio na Bahia tinham o seu “Relator”. JS foi designado para “relatar” várias.
11. Marcelo Caetano chefiava a delegação “oficial” portuguesa do IV Colóquio, e, no período de sua realização, costumava convidar os participantes para jantar (inclusive JS e outros que não integravam sua comitiva. Nosso escritor, como se vê, declarou sua indisponibilidade.)
12. Thiers Martins Moreira, professor de Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro, convidou JS para palestras no Rio, logo após o congresso baiano.
13. Todos participantes do IV Colóquio
14. Em carta de 8/8/1959 JS advertia sua mulher: “Não te assustes com o endereço: o Hospital Português é onde veio parar uma parte do grupo de viagem, como outro foi parar ao Retiro dos Franciscanos. Aqui, que (com camas articuladas de hospital, é claro) é um hotel com apartamentos, estamos…”
15. O pai de Mécia de Sena era o folclorista Armando Leça.
16. Óscar Lopes, professor e ensaísta, irmão de Mécia.
17. Maria Helena é a esposa de Óscar Lopes.
18. Possivelmente a atriz Eunice Muñoz, de longa data amiga da família Sena.
19. Livro de poemas de JS.

 

O Descobrimento do Brasil

Da Sagres, 21/11/1937

Ainda que em forma de sucinto relatório, são marcantes as impressões de uma primeira e pessoal descoberta do Brasil, pelo olhar do atento cadete Sena

 

Na madrugada de 21 fomos acordados por ordem do oficial do quarto. Estava terra do Brasil à vista: era o cabo Frio. A costa brasileira apresentava relevos arredondados cobertos de verduras e o horizonte terrestre que além se observava era todo verde. O mar manteve-se toda a manhã com calema e como navegávamos paralelos à costa sofríamos consequentemente um forte balanço bombordo-estibordo. Chegámos finalmente em frente do Rio de Janeiro. Entrámos na baía de Guanabara. Lá ao fundo a cidade com alguns edifícios altos destacando-se na brancura – o dia não está muito claro – um arranha-céus que deve ser o edifício da Noite. Vê-se um couraçado, o "S. Paulo" ou o "Minas Gerais", fundeado no interior da baía. O cimo do Pão de Açúcar comunica com o resto da cidade por meio de um transportador aéreo. Desenrola-se agora uma avenida junto a uma praia e nessa avenida há vários prédios enormes: a praia é Copacabana. Um forte fecha o extremo da baía. Lá longe no extremo interior vê-se o edifício longo da Escola Naval. Dominando tudo está o Corcovado com o seu Cristo gigantesco aparecendo por entre as nuvens. A baía é lindíssima. Os ilhéus da entrada arredondados e verdes são bonitos também. São cerca de 4 horas da tarde. Tivemos uma visão da capital do Brasil, na opinião de muita gente, o mais belo porto do mundo; cidade que para os brasileiros representa todo o seu Brasil, e que eles adoram acima de tudo e desejam mostrar a todos os estrangeiros. O navio continua o seu caminho porque o seu porto de destino não é o Rio. Outros lá foram. Nós vamos a Santos, um dos maiores entrepostos comerciais do Brasil, porto de descarga do seu Estado mais rico e onde trabalham milhões de portugueses.

Carta inédita a José Saramago

Assis, 18/05/1961

Dirigida ao amigo José Saramago (que, na altura era “diretor literário” da Editorial Estúdios Cor, responsável pela publicação do livro de contos Andanças do Demónio, e na expectativa de vir a publicar as Metamorfoses), esta carta de Sena constitui documento precioso sob vários ângulos:
1- ao comentar os meandros de um prêmio literário, avalia em traços largos um certo contexto intelectual português;
2- ao lamentar o prêmio perdido, revela sem pudor grandes aflições financeiras – uma constante em sua vida;
3- no apreço às cartas de seu interlocutor, a certeza de amizade recíproca com Saramago;
4- a partir de sumária retrospectiva biográfica, as marcas de muitos desencantos, particularmente os relacionados às questões universitárias vividas na altura;
5- carta escrita num mês particularmente fértil, registra sua produção, detendo-se sobretudo nos contos (só nesse mês de maio, Sena já escrevera “Os Salteadores” [4/5], “Conto Brevíssimo” [6/5], “Defesa e Justificação de um Ex-Criminoso de Guerra” [7/5] e “A Grã-Canária” [16/5]);
6- texto de exílio, avalia perdas e ganhos – portugueses e brasileiros –, e questiona um hipotético regresso a Portugal.

 

Assis, 18/5/961

Meu caríssimo Saramago

A sua carta de 10, que levou cinco dias (!) a chegar cá, não me acusa ainda a recepção do original de Metamorfoses, que lhe enviei. Mas, embora não recorde ao certo a data, não há provavelmente demora ou extravio, mas apenas desencontro.

Ontem, os jornais brasileiros noticiavam a concessão do prémio CCB [1] à Fernanda Botelho, o que eu esperava, desde que, junto, no mesmo correio, com aquela sua carta, me veio um recorte do D. de Lisboa [2] (ou coisa parecida), em que havia uma longa lista indiscreta com os nomes dos mais eminentes concorredores. Quero crer que meu cunhado [3] e o Dionísio [4] terão votado em mim; e que o espírito de corpo, em mistura, da Faculdade de Letras e da velha “Távola”[5], tenha, nas pessoas do David [6] (do qual o mesmo correio me trouxe uma obrinha sobre o Teixeira Gomes, com maviosíssima dedicatória) e do Jacinto [7], votado na Botelho que, se bem me lembro, já haviam querido premiar contra o Migueis [8]. Claro que os interesses da Bertrand, a que todos mais ou menos se encontram ligados, fez o resto, já que o Simões [9] votaria no diabo, e não no demónio em andanças [10]… Agradam-me, porém, duas ou três coisas: 1o – eu não concorri, mas a editorial…; 2o havia, na lista, o Régio, e outros (que eu não considero muito, mas são “eminentes”) como o Redol, o Abelaira, o Urbano, também premiáveis; 3o – a concessão do prémio à Botelho, notoriamente neutra ou fascistoide, mas pelo menos autora de uma literatura castrada do ponto de vista ético-político, é manifestamente uma “prudência”, uma subserviência, não digo à ordem estabelecida, mas ao não incomodarem-na. Enfim, não me lamento, porque o prémio sempre eu achei que o não ganhava; e não vos culpo: porque achei legítimo concorrer e não me opuz. Do ponto de vista financeiro, os cincoenta contos, para quem devia em Lisboa, ainda, mais do que isso e em requerência de pagamento urgente, sem saber onde há-de ir buscá-lo, esses trinta (cincoenta, não é?) contos, assim passados por diante do nariz, são um rude golpe. Do ponto de vista da minha situação aqui também o são, porque eram – embora eu não acredite em prémios – um acréscimo de prestígio entre os que acreditam neles; e, para os meus inimigos, é um farto motivo de goso. Mas não cuidemos mais desta história toda, ainda que eu fique, curiosamente, à espera dos seus comentários póstumos. E, se não fosse poder parecer uma “chantagem” moral, eu pediria a VV., sobre as Metamorfoses, um adiantamento; e quem diz sobre estas diz sobre uma tradução que VV poderiam dar (do francês) para minha Mulher fazer, que eu não tenho tempo. O que são as traduções dela pode ver-se nos livros que traduziu (assinando Freitas Leça): O Crime dos Justos e Adeline Venicien, do Chamson – por exemplo (Livros do Brasil), – e também Le Grand Ecart, do Cocteau, e O Ouro, do Cendrars, cujas traduções acho, com serem difíceis, perfeitas. E Os Nossos avós Gauleses (Portugália) – cujas provas, no nosso mútuo acordo, eu li, como ela lê as daquilo que eu publico.

Gostei muitíssimo da sua carta (e obrigado pela diligência junto desse imarcessível Amaro [11]), das melhores que tenho consoladamente recebido de V. Como sempre são aquela discreta amizade, uma desencantada e sã amargura, o humor de quem sabe que o riso nem todos o merecem; e, por trás de tudo, um bom senso e um equilíbrio que lhe invejo sinceramente, quando os meus me custam (e a V. também, quem sabe) olímpicos, tanto ranger de dentes… Quanto à imodéstia, meu caro, eu sempre achei, e acho, a modéstia a menos legítima das virtudes.

Se eu for, como pretendo, e insisto, para Araraquara (apesar da “côrte” contraditória e interesseira que parece esboçar-se aqui, e foi ao ponto de o meu Director rebaixar-se a pedir-me para vir jantar a minha casa, aonde não o convidáramos mais, para conversar comigo, o que será na próxima semana), não me parece que as coisas possam repetir-se, além do normal que V. tão bem descreve. Eu sou, humanamente, a mais desencantada das pessoas (quase sempre, é certo, sem a amargura acima referida) – e não impunemente se é demitido aos 18 anos do mais alto sonho da sua vida [12], já descrente então da vida de família, para percorrer depois os submundos da miséria, e ter sido, durante anos, tropa, funcionário público, político, homem de letras, na aquisição de uma experiência que me dará contos e poemas até ao fim da vida. A cátedra e, além da cátedra, a ilusão de renovação pedagógica autêntica que era Assis, foram, suponho eu, uma última metamorfose minha, em que era natural que eu entrasse impante e acreditando. Ter um “status” universitário e uma posição preponderante nesse outro mundo – eis sonhos que eu não realizara ainda. Naturais, pois, a ilusão e a desilusão, que não poderão repetir-se já para Araraquara nenhuma. Aí, como nas mais cátedras que eu venha a aquecer ou não, terei os desgostos e as arrelias que temos em tudo, maiores ou menores. Mas, como sou incorrigível no afecto desinteressado com que me dedico a tudo (e 15 anos de funcionalismo [13] não puderam corrigir-me), é possível que eu, no fundo de ingenuidades que me salva do tanto de horrível (e também de bom) que a vida tem me dado, ainda venha a ter, mais que arrelias, dores. Neste momento, meu caro, desconfiado com o longo silêncio do Conselho Universitário do Rio [14], eu já espero, naquela divisão entre indignação reservada e resignação risonha, que é a minha, eu já espero mais uma derrota: a de encalhar, num recife burocrático qualquer, o meu processo de doutoramento. Consolo-me, já pensando que, afinal, as derrotas, como a rude franqueza com que tenho incansavelmente denunciado tantas pessoas e coisas (aqueles pavões e perus, de que V. fala), cortando-me acessos e integrações “corporativas”, pondo-me à margem, me libertam, na medida em que me livram de silêncios, de concessões tácitas, de arregimentações quaisquer. Sempre assim foi. A esse último respeito, embora às vezes sonhe com o mundo a meus pés, nunca tive ilusões impróprias: desde que me conheci (e levei algum tempo, porque tinha muito que conhecer), sempre soube que sou daqueles que os Arcanjos da Estrada (que não é metáfora do Pessoa, mas termo das iniciações) têm por obrigação deixar em pelota. E não podem os ditos cujos queixar-se de que eu não tenha, às vezes com precipitada generosidade, facilitado, e justificado até, o trabalho deles.

A minha produção de contos – o que, há tantos anos, aguardava, dentro de mim, tempo que a poesia nunca me requereu – prossegue num ritmo exaustivo. Acabei ante-ontem um, muito longo, que creio, pela amplidão, a complexidade, a violência, das coisas melhores que já escrevi [15]. Mas também nisso flutuo numa libertação total que, neste por exemplo, deixa a perder de vista, mero exercício, Os Amantes, no que se refere à descrição e análise da experiência sexual. Escrevo-os como para um mundo ideal onde fosse possível publicar tudo. Além de Os Amantes e de Um Conto Brevíssimo (uma pequena brincadeira séria que vai sair no Estado de São Paulo) tenho já mais cinco contos mais ou menos longos que dariam um volume. Tecnicamente, e o que não é possível ainda, Os Amantes e Um C.B.[16] pertencem a uma reedição das Andanças. Por isso mesmo, de Os Amantes tirei cópias “mimeografadas” para distribuição restrita às pessoas que receberam oferta do volume (claro que lhe vou mandar uma). Os outros contos, com mais dois ou três, serão um volume terrífico, em que a “pátria”, o Exército, a Armada, a Justiça, a Moral, etc. etc. ouvirão o que nunca ouviram. É possível que eu tire, para já e para amostra, cópia de um deles, que lhe mandarei também. Esse volume será, não sei se lhe disse, Os Grão-Capitães. Com ele farei o seguinte: tentarei publicá-lo aqui, o que pode talvez conseguir-se, embora me desagrade, pelo escândalo político e “moral”. Em jornais e revistas… as dimensões e os “contextos” são proibitivos. Mas, em qualquer caso, reservarei os direitos de uma edição vossa, a publicar tão logo seja possível… Para tanto, oportunamente, receberão organizado um original. Tudo isto sem prejuízo de um volume que venha – se esta fornalha de ficção se demorar acesa – a coligir-se de contos publicáveis aí.

Recebi de Nova York e do Migueis, a Escola do Paraiso e o Passageiro. Este li e achei fraco; o romance não tive ainda tempo de o ler, mas emprestei-o, por exemplo, ao Victor Ramos, que o achou uma obra-prima. Não sei se VV mandam ao Migueis as vossas edições, eu, desorientado entre as ofertas de tanta obra sucessiva, creio que lho não ofereci. Poderia V. mandar-lhe, com a dedicatória que junto envio, um exemplar das Andanças? Muito obrigado, desde já.

Quanto ao Sr. Crippa [17], manda-se o livro desta vez, e logo vemos se também eu devo, como o Miguéis, cortar-lhe a coleta.

E, para a colecção de ensaios, e ainda bem que lhe agradou a ideia, cá estou gratamente às ordens.

Esta já vai longuíssima, mas ainda quero comentar essa de eu me guardar para o regresso… Será que eu regressarei alguma vez? Sem dúvida que, aqui entre nós, o Brasil, com todas as suas vantagens, é pior que Portugal, com todos os seus defeitos. Quando e se as coisas mudarem, as saudades que tenho da minha casa e dos meus amigos (e também o patriotismo de lágrima ao canto do olho) funcionarão activamente. Mas, meu caro, dentro das premissas que V. lucidamente expôs, de as cátedras e os lugares serem para os outros (que terão sobre mim a vantagem da minha ausência), com que hei-de dar de comer aos meus filhos? Muito provavelmente, eles voltarão, e eu gostaria que voltassem… Mas V. vê-me, a mim, depois destas aventuras catedralícias, voltado a engenheiro de 3ª da Junta Autónoma das Estradas? Com, para mais, uma viagem vertiginosa a quase-ministro [18]?… E, no Portugal que se avizinha, mesmo que eu fosse um glorioso mixto de Victor Hugo e Balzac, ninguém vai poder viver das letras… – que, aliás, não viveram delas. Talvez eu acabe na China.

Dê as minhas melhores lembranças ao Canhão e ao Correia [19]. Mande-me notícias do Nataniel [20]. E receba o grande, saudoso e grato abraço do seu muito amigo

Jorge de Sena

 

Notas:

1. Prêmio Camilo Castelo Branco – foi criado pela extinta Sociedade Portuguesa de Escritores. Não confundir com o ainda hoje existente "Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco", instituído em 1991 pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e APE-Associação Portuguesa de Escritores.
2. Jornal Diário de Lisboa
3. Óscar Lopes, membro do júri
4. Mário Dionísio, membro do júri
5. Távola Redonda, revista literária surgida em janeiro de 1950, durou até julho de 1954. David Mourão-Ferreira foi um de seus fundadores.
6. David Mourão-Ferreira, membro do júri
7. Jacinto do Prado Coelho, membro do júri
8. José Rodrigues Miguéis, vencedor do Prêmio Camilo Castelo Branco de 1959, com o livro Léah e outras histórias (Contos e Novelas), editado em 1958 pela mesma Editorial Estúdios Cor onde atuava Saramago.
9. João Gaspar Simões, membro do júri
10. Andanças do Demónio era o livro de contos de Sena que concorria ao mencionado prêmio
11. Luís Amaro, intelectual modestíssimo, amigo de Sena e de Saramago, foi co-fundador da revista de poesia Árvore (1951) e veio a ter papel decisivo no alto padrão alcançado pela revista Colóquio/Letras (Fund. Calouste Gulbenkian), onde trabalhou anos a fio.
12. Exclusão da Armada em 1938 – ver Cronologia
13. Referência a seu trabalho na JAE-Junta Autónoma das Estradas – vide Cronologia
14. Universidade do Brasil, hoje UFRJ, onde pleiteara seu Doutoramento.
15. Referência ao conto “A Grã-Canária”, de Os Grão-Capitães, datado de 16/5/61.
16.Um Conto Brevíssimo”, que na publicação em livro perdeu o artigo inicial desse título.
17. Bernardo Crippa – professor italiano que pedira “o volume de contos para criticá-lo na imprensa italiana, e anotá-lo no Dicionário da Literatura Contemporânea” (cf. carta de Sena a Saramago de 30/4/1961)
18. Sena seria o Ministro das Obras Públicas se o “Golpe da Sé” fosse vitorioso – vide Cronologia (1959)
19. Co-diretores, com Saramago, da Editorial Estúdios Cor
20. Nataniel Costa – professor, tradutor, escritor e diplomata – convidou Saramago a ocupar seu lugar de “diretor literário” na Editorial Estúdios Cor quando teve de se ausentar devido à carreira diplomática.
 

Cartas Inéditas a Eduardo Lourenço

Lisboa, 3/5/1953, 15/6/1953 e 6/7/1959

As cartas a seguir, enviadas por Jorge de Sena a Eduardo Lourenço, e só recentemente encontradas por João Nuno Alçada no acervo do ensaísta, vêm a público pela primeira vez, graças à generosidade do destinatário, que autorizou sua divulgação. Assim, das 8 cartas extraviadas (mencionadas no volume da IN-CM), apenas 5 faltam ser localizadas.

 


 

Lisboa, 3/5/953


Meu caro Eduardo Lourenço


É mais de um mês depois que à sua carta respondo. Entretanto, o José-Augusto França, com quem logo falei, lhe terá escrito a desfazer o que afinal era, felizmente, um seu lapso de interpretação. E desculpe-me que, por tanto trabalho e estadias fora em serviço, lhe não tenha, apesar disso, escrito mais cedo.

Por certo que já recebeu o caderno do Pascoaes, que o França ficara também de mandar. Agora os “sonnets” do Pessoa… esses é que só apelando eu… para mais um inglês célebre… quando voltar a casa da família – mas não me esquecerei, esteja certo.

Eu colaboro, pois, ou tenciono colaborar ou o França tenciona que eu colabore no próximo “córnio” que, diz ele, se atrasou para depois do regresso dele dos turismos italianos, por minha e sua causa.

Simplesmente a minha vida é isto: uma profissão cada vez mais absorvente por dever de ofício (que não pelos proventos, que são os que o Estado dá e nada mais), uma oposição última de todo o meu ser intelectual a essa absorção, e uma necessidade financeira premente de ir realizando aqueles trabalhos literários (traduções, ensaios sobre isto e aquilo) que eu desejaria só escrever ad libitum ou depois de morto. São estes a ilusão de que continuo a realizar-me no que me é mais caro, e ao mesmo tempo a única ilusão que “vende” alguma coisa, comparada com a outra de aumentar o património operático. Uma poesia de quando em vez, que é ao que me vejo reduzido, mas era tudo o que eu sentia e sinto em mim. Por isso, cada vez mais detesto a crítica corrente, que fujo de fazer e nem leio dos outros. Por isso, cada vez mais mergulho em mim mesmo, na atenção ao mundo que me rodeia ainda que distante e através do jornal, e nos livros que me interessam. Dos contemporâneos, é um mero acaso eu conseguir ler com gosto meia dúzia de versos, que se me eternizam em cima da mesa. De tudo isto resulta que me é difícil – e subconscientemente protelo – escrever aqueles ensaios que me peçam… e é o caso do França, ao pedir-me um ensaio sobre os vário escritores à margem de escolas neste 1o. meio século da pátria novecentista. Foi isto o que o França terá intuído e V. farejou em carta dele. A eternização, em cima da mesa, das cartas dos amigos, daqueles cujo convívio é, de raro, o que mais vale ou só vale a pena aqui e agora – isso releva de outro aspecto. Uma carta dessas em cima da mesa é uma presença, uma forma de convívio, uma conversa que todos os dias prossigo: sou um mau correspondente na medida em que os que estimo estão para mim sempre comigo; fui melhor, quando me importava mais comigo que com eles.

Ao princípio que presidiu à criação dos “Córnios” continuo e continuarei a dar a minha adesão, embora pense que um vago “surrealismo” de intenção seja, pelos falsos profetas que já abundam medíocres e aclamados, uma confusão mais a acrescentar à tão confusa e charra vida nacional. Sempre pensei, e disse-o uma vez directamente na “Seara” (e em quantos outros sítios), que falar dos Rimbauds e Lautréamonts é mais do que literatura, ou deve sê-lo. Se assim se não fizer, para apenas opor um “dégout” superior à literatice e ao burguesismo pascácio, é literatura que se faz, e da pior, visto que se principia por declarações “anti-literárias”. A propósito de tudo isto, penso escrever para o outro “córnio” seguinte um ensaio sobre o Jean Genêt, que acho um admirável escritor, muito superior às pretensiosas considerações sartrianas ou bataillescas, que se me vão tornando também o tipo do ensaísmo insuportável, de mera ficção intelectual.

Cadernos” – nem mais realizações nem mais projectos: apenas o compromisso de uma colectánea de poemas do António Pedro. Os “Cadernos” enfermam de várias coisas: o desinteresse total do Portugal, que não dá um passo para eles; de minha impossibilidade em tempo de os fazer eu; de, no espírito do França, os “Cadernos” virem naturalmente depois daquilo que é só dele; e de eu, um pouco triste com tudo isto e com tudo o mais que lhe expus, andar desiludido tanto de “Cadernos” como de toda e qualquer vida intelectual autêntica.

Se leu o meu Sacheverell Sitwell, terá lido também o meu Pascoaes violento mas creio que justo, em que pus o que há muito acerca da questão me ia na alma e cabia num artigo de jornal. Eu penso, de facto, em realizar um volume de ensaios e traduções dos ingleses, que suponho (ó presunção!) interessante e útil. Viu, na Árvore, o terrível Auden que traduzi? E diga-me, se puder, alguma coisa do prefácio que fiz – e é para mim muito importante – para a minha tradução de O fim da aventura do Graham Greene. Ao fim e ao cabo, quando eu tiver setenta anos (se lá chegar, o que espero ardentemente não suceda), o Governo de Sua Majestade Britânica deve-me uma condecoração… O raio que os parta – mas não calcula V. que imagem de terra de promissão me deixou o mês e meio de Inglaterra que auferi! Enfim, de promissão o que ainda se pode arranjar (nunca fui a Paris – mas, com a admiração que nutro por tantos franceses desde o Villon até hoje, porque detesto “l’esprit français" não me daria bem com a mediania que sempre nos envolve e que é onde se alimentam, já dizia o Thibaudet, essas virtudes de Presidente da República).

Para V. ver, a seguir transcrevo um dos meus poemas recentes – ele lhe dirá mais que esta carta que já vai comprida.

Epitáfio

De mim não buscareis, que em vão vivi
de outro mais alto que em mim próprio havia.
Se em meus lugares, porém, me procurardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.

Essas palavras que em meu nome passam
nem minhas nem de altura são verdade.
Verdade foi que de alto as desejei
e que de mim só maldições cobriam.
Debaixo delas a traição se esconde,
porque demais me conheci distante
de alturas que de perto não existem.

Fui livre, como as águas, que não sobem.
Pensei ser livre, como as pedras caem.
O nada contemplei sem êxtase nem pasmo,
que o dia a dia
em que me via
ele mesmo apenas era e nada mais.

Por isso fui amado em lágrimas e prantos
do muito amor que ao nada se dedica.
Nada que fui, de mim não fica nada.
E quanto não mereço é o que me fica.

Se em meus lugares, portanto, me buscardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.


Aqui tem. Dê notícias. Abraça-o com muita estima o seu camarada
                                      
Jorge de Sena

 


Lisboa, 15/6/953


Meu caro Eduardo Lourenço


Por não me ter sido possível ir ao passeio (que sei ter redundado em excelente êxito – e perdoa-me V. que lhe diga da simpatia e consideração por V. que ressumam dos comentários que ontem ouvi?), não chegámos a conversar, quando eu nem sequer chegara a devidamente lhe agradecer a sua bela carta.

O que me diz da tradução – eu limitei-me estrita e esforçadamente a recriar em português o estilo do Greene, mesmo por vezes com sacrifício de uma clareza imediata, cuja subtil falta respeitei sempre que a encontrei por fazer ela parte da própria estrutura do romance.

Do prefácio: há muito, e cada vez mais, eu escrevo com a noção absoluta de pregar no deserto. Sei que uns entendem e não aceitam, e que outros, que aceitariam, não entendem. Mas a única justificação de uma existência que escreve para testemunhar de todas as verdades é persistir mesmo assim, e escrever da compreensão que era possível no nosso tempo. É provável também que me canse – mas isso nada prova senão contra mim, pois que sempre poderá haver, expressa ou não, uma compreensão profunda e amplificadora como a sua. A tristeza, porém, é muita; e não sei se, ainda que (quem sabe?) alegremente, não acabaremos por nos convencer definitivamente de que só nós estamos errados… e certos todos os outros. Eu não ando, de resto, muito longe disto: simplesmente as razões acima ainda se inserem no quadro de uma – como direi? – nada fatalista visão do mundo. Nem de outro modo poderia eu explicar o ter chegado a escrever o poema que lhe mandei e faz parte de toda uma sequência (pela unidade de ocasião no tempo e de inspiração) de igual ou análogo sentido.

Mais uma vez, pois, muito obrigado. Abraça-o com muito estima o camarada amigo
                                      
 Jorge de Sena
 

P.S.- Não deixe de ler os poemas do grego Cavafy que traduzi do inglês e publiquei no “Comércio”, no passado dia 9. Não me lembro se chegámos a falar nisto.

 

 

Lisboa, 6/7/959


 Meu caro Eduardo Lourenço

Não demorei tanto a responder à sua carta de 18, quanto V. possa julgar, porque me chegou às mãos atrasada. E escrevo-lhe hoje, porque só ontem soube, confirmada indirectamente pela Maria de Lourdes Belchior e pelos jornais que publicaram a lista dos convidados, cá a notícia que V. me dava. Mas agora passa-se o seguinte. Eu não recebi nem receberei comunicação alguma, que nem a Comissão Portuguesa ma manda, nem a Alta Cultura para onde a ilustre comissão enviou a lista se digna. Ora sem um papel que ninguém me dá não posso pedir licença ao meu Ministro para sair do País. Veja V. como os “maquiaveis” de bolso funcionam bem. Não será possível, só para achatar estes gajos, V. arranjar-me aí uma cópia autenticada, com o sêlo branco da Universidade, da lista? Por seu lado, a Panair do Brasil telefonou cá para casa a dizer que eu já tinha a passagem marcada e paga (por quem? – mistério).

De modo que, precisando de tratar de milhentas licenças – ministerial, militar, passaporte, visto, etc. – estou a um mês, sem poder fazer nada. E são tantos os trabalhos em mãos que ficam suspensos e que tenho de dispor para largar isto por cerca de 20 dias (pois não hei-de ir ao Rio?) que não posso dispor a minha vida nem des-dispô-la!

A lista, como veio publicada nos jornais (com todo o ar de provir da Comissão), varia muito de jornal para jornal. O Saraiva e o Joel não figuram nela (de resto, parece que o Joel não está numa lista dos que teriam passagem), e na do Diário de Notícias, que é a que o Prado Coelho viu, figura a Natércia Freire! Tudo uma macacada, que será devidamente orientada pelos Marcelos, como se verá.

Dê as minhas melhores lembranças e saudades ao Casais – e espero firmemente poder abraçar-vos em breve.

 Um grande abraço amigo do

  Jorge de Sena

Carnaval a Bordo: a travessia do Equador

Da Sagres, 10/11/1937

Da viagem na Sagres, um registro de momentos descontraídos, graças à tradicional celebração da passagem do Equador. Compondo o clima "carnavalesco", eis aí a fantasia em torno de Netuno, a quebra de limites hierárquicos e as disputas brincalhonas do velho entrudo…

 


 

Nesta tirada muita gente da guarnição e os cadetes iriam atravessar a linha do Equador pela 1a. vez e dentro da velha brincadeira não se poderia fazer isso sem licença do Rei dos Mares. Por isso na véspera da passagem (9) entrou a bordo para transmitir as ordens de Sua Majestade um almirante que à partida foi saudado com as salvas do estilo. No dia 10 às 3 horas passou-se o Equador por 27oW (GW) dando-se então início às festas. O Rei dos Mares entrou a bordo seguido do seu séquito e tribunal; este arrumou-se junto do cadafalso composto por uma tina de lona, cheia de água, na beira da qual os acusados se sentavam para fazer a barba, cortar o cabelo e rezar. As penas impostas aos réus eram "pesadas" e pagas de maneira a permitir o bom funcionamento futuro das goelas da corte do Rei dos Mares. O tribunal compunha-se do juiz, advogado de acusação, advogado de defesa e escrivão. Foram julgados S. Ex.cia o Senhor Comandante, o Snr. Oficial Imediato ambos por terem comandado o navio sem licença; o Snr. Engenheiro e os Snrs. Guardas-marinhas por passarem pela 1a. vez a linha. Do mesmo crime foram acusados todos os cadetes e os alunos. As primeiras execuções decorreram em boa ordem mas depois teve de ser em massa para acabar rapidamente. No fim a festa degenerou numa luta geral em que cada qual procurou molhar o próximo o mais possível. 

Carta a Antonio Candido

Madison, 27/04/1968

No seu notável depoimento “Intelectuais portugueses e a cultura brasileira” *, Antonio Candido registra: “Sena escrevia cartas longas, vibrantes, de uma qualidade que as tornava vrdadeiros textos literários, abrindo-se nelas frequentemente com a veemência que o caracterizava”. Pois aqui temos uma carta de Sena, então já nos Estados Unidos, a este seu compadre, acertando os detalhes de uma conferência e de um passeio a Chicago.

Sobre a conferência, dirá adiante Antonio Candido: “[Sena] tinha ido trabalhar na Universidade de Wisconsin, onde nos encontramos em 1968. Eu estava na Universidade de Yale e ele me convidou para fazer lá um conferência, que foi sobre Machado de Assis. Ao me apresentar, manifestou publicamente uma convicção nossa, convicção que debatemos várias vezes: que Machado de Assis e Eça de Queirós eram romancistas do mesmo nível que os maiores da Europa no século XIX. Foi a última vez que o vi.”

 

27 de Abril de 1968

Meu caro Antônio Cândido

Recebi a sua boa carta de 20, e não respondi logo, porque procurei contactar o Aldrich [1] – e soube que ele entretanto lhe escrevera uma que se cruzara com a sua. E ontem chegou a que V. me escreveu a 23, e que confirmava que o convite fôra realmente remetido (a bagunça americana, que se distingue da nossa apenas pela organização, dá sempre para desconfiar).

Virá então V. no dia 9, quinta-feira, para fazer a sua palestra pública, em vernáculo da região, nesse mesmo dia, às 4 da tarde. É preferível a quinta, por que as sextas se caracterizam pela fuga de gente para o fim de semana (que pode ser passado no backyard mas é sagrado por estas bandas, como já terá visto). Para tal, convirá que V. arranje maneira de chegar aqui cedo, na quinta-feira, para ter tempo de se repousar um pouco e fazer a sua concentração espiritual e ensaiar-se ao espelho que será o do Madison Inn, muito perto do “campus”, onde tem aposentos reservados para quinta e sexta. No sábado, a Mécia e eu iremos consigo a Chicago, onde lhe mostraremos o Art Institute e as colecções da Newberry Library (cujo conservador, o Frederick Hall é muito nosso amigo e brasileiro honorário). À noite desse dia, viajaremos de volta, e ficará V. para fazer as suas visitas. E, no domingo, poderá efectuá-las e regressar calmamente ao “haven” de New Haven [2]. Concorda com este programa? Se sim, marcar-lhe-ei reserva em hotel bom e módico em Chicago (ou V. pode hospedar-se com os seus parentes? – diga).

Uma vez que V. tem afinal as notas para, digamos, duas aulas (como eu tinha entendido – e não se classifique de velho cororoca, antes de ver como eu estou…) temos assim confortável material para os meus dois cursos – o da literatura brasileira (advanced survey, em que estou esta semana que entra a concluir o Machado de Assis), e o seminário sobre o romance do Modernismo (com ênfase nos aspectos urbanos, para combater o excesso de Nordeste, que já enjoa). Este é às quartas-feiras, mas usarei a minha aula de literatura portuguesa contemporânea (curso só deste semestre), ou o seminário do António Salles [3]. Aquilo que der para conversa mais longa com os alunos, sem esforço excessivo da sua parte, é o que V. pode programar para o tempo mais comprido (diga-me qual é, para eu anunciar já). Na 5a ou na 6a terá banqueteação magna aqui em casa, como é de tradição deste consul honorário escoucinhado oficialmente, e com maioria de razão para VExcia, ilustre compadre.[4]

Tivemos esta semana aqui os irmãos Campos [5] e concretistas, que se houveram com sucesso (embora não o de escândalo vanguardista que eu desejava que abalasse o “campus” dormente) e partiram hoje para Indiana. Foi aliás a razão de lhe não ter escrito ontem mesmo sobre todos estes assuntos de decisão urgente.

Tivemos muita pena de não ver Gilda [6]. Mas folgamos com a ideia de que VV. se espanejaram devidamente em New York, cidade da minha especial predilecção (como todas as cidades grandes).

O que temos para conversar não acaba mais – e os dias daqui não vão chegar. Mas, precisamente para aproveitarmos da sua companhia o mais possível, e conversarmos à vontade, é que fazemos questão, eu e a Mécia, de passear a Chicago consigo (cidade de que gostamos muito, ao contrário da maioria dos americanos que ainda vêem gangsters, nela, em cada esquina e bêco). Isso poderá aliás ser feito no domingo – mas parece-me que, para V. ter tempo de ver o museu e a biblioteca que grave falta seria que não visse (no museu está o que falta em Paris…), e ver quem quer ver, é melhor como ficou programado acima. A ida a Chicago faz-se confortàvelmente de ónibus (duas horas e meia, a três horas, conforme os horários, e poderíamos sair de Madison às oito e meia da manhã, boa hora), pelo que não vale a pena V. comprar bilhete de avião para esse percurso. E eu, meu caro, avião só de emergência ou entre os continentes… – até ao Texas vou de ônibus, pelo que vou conhecendo este país melhor que muita gente americana que só conhece aeroportos todos iguais.

Esperamos que Ana Luísa [7] não tenha sido envolvida – pelo menos mais do que o conveniente – naquelas confusões guanabarinas [8]. Também acêrca de tudo isto quero conversar consigo. Tenho a impressão de que a juventude brasileira (apertada entre a classe dirigente ou profitente, a que a maioria pertence, e uma consciência nacional sempre traída pelos donos do poder) está reagindo em termos de revolta pela revolta, ou numa cegueira de paixão de extrema frustração – o que, para o futuro, do ponto de vista de um renascimento político em relação à derrocada das estruturas, se me afigura um situação trágica: na medida em que pode ajudar a perpetuar o conservantismo egoísta das classes médias, sempre patriòticamente cobardes (ou vice-versa). Por mim, meu caro, estou cada vez mais marxista e mais triste. E cheio de curiosidade de ver o que vai sair desta situação em que a nossa matriz norte-americana se encontra (e de que depende a das filiais da emprêsa).[9]

 

Notas:

1. Personagem não localizada, mas, possivelmente, seria o Chairman do Departamento ao qual Sena estava vinculado na Univ. de Wisconsin.
2. Campus da Univ. de Yale, onde A. C. lecionou em 1968, como Professor Visitante.
3. Antônio Salles Filho, professor brasileiro que lecionava na Univ. de Wisconsin na mesma altura de JS. Retornou ao Brasil na década de 70, vinculando-se à Univ. de Brasília, da qual se aposentou em 1988.
4. A. C. e sua esposa Gilda de Mello e Souza foram padrinhos de batismo de Maria José, filha de J.S. e Mécia, nascida em Araraquara, em 1961.
5. Augusto e Haroldo de Campos, expoentes da Poesia Concretista brasileira.
6. Esposa de A. C., Professora de Estética no Depto. de Filosofia da FFLCH da USP. Faleceu em 2005.
7. Ana Luísa Escorel, filha de A.C. e Gilda.
8. Referência à forte repressão aos movimentos estudantis contra o Regime Militar em vigor no Brasil, sobretudo em 1968 no Rio de Janeiro (antigo “Estado da Guanabara”).
9. O fim abrupto é apenas da página datilografada (a que nos foi cedida por Mécia). As palavras de despedida foram manuscritas.

Um imenso inédito semi-camoniano, e o menos que adiante se verá (parte 1)

O irônico prefácio seniano para As Quybyrycas, de Antonio Quadros

Em tempo de Carnaval, convém lembrar que, no campo literário, “carnavalizar” não é verbo aplicável somente à poesia ou à ficção… Neste prefácio que Jorge de Sena escreveu para As Quybyrycas, de António Quadros (aliás, livro extraordinário que ainda está à espera de leitores), dá-nos excelente exemplo das piruetas paródicas (e divertidíssimas) que é possível fazer com o ensaio de feição erudita. Repare-se, particularmente, no autoparodiar-se do Sena-camonista, obcecado pelos números d’Os Lusíadas

Neste ano da graça de 1972, em que todos os patriotas – os de direito, os de facto, os honorários, os de ocasião, os sócios correspondentes, e os que pelo mundo adiante, mesmo sem saberem português nem que Camões existiu, trazem, por obra dele, Portugal no coração (e não incluímos os que, por mercê das suas posições políticas, académicas ou outras, celebram ou promovem a celebração do 4o. centenário adiante referido) – celebram, aqueles, por pensamentos, palavras e acções públicas, nas cidades, vilas e aldeias, pelos campos e praias e cidades, e usando de todos os meios da imobilidade ou de transporte individual ou colectivo, o centenário quadratíssimo de Os Lusíadas, os quais, como é sabido dos menos ignorantes, foram obra do eminente Luís Vaz de Camões (ou só Luís de Camões como ele terá feito que figurasse na portada do seu mimoso poema) – que mais sensacional participação nesta geral romaria que agita os corações mais doutos do universo directa ou indirectamente afecto à gloriosa lusitanidade, do que a publicação destas Quybyrycas atribuídas ao conhecido e estimado poeta por certo quinhentista Fr. João Grabato, ou Grabatus, ou Garabatus, como ele, na melhor tradição dos nunca assaz louvados humanistas, macarronicamente latinizou?

Quibíricas é, assim em modernizada grafia, e como se vê imediatamente exercitando as faculdades do olho filológico [1], um vocábulo derivado de Quibir, ou Kibir, ou Kebir, ou ainda Kbr, conforme o grau de arabismo originário que imprimirmos à transcrição do nome de um lugar tão famoso nos fastos sebastianistas [2] da ínclita grei. E é de notar, antes de mais, que este poema, o qual devemos classificar, quanto ao género [3], em epopeia (ou, se quisermos, para melhor nos afinarmos pela actualizada terminologia da crítica contemporânea, anti-epopeia) [4], é em onze cantos. Dez cantos – e foi Faria e Sousa, o respeitado pai da camonologia, quem primeiro terá apontado, nos seus valiosos comentários ao poema de Camões, como, de todos os então modernos fora o mesmo Camões quem primeiro chamara às divisões da sua produção narrativa cantos, colocando-se assim sob a égide da tradição dantesca[5] – tinha e ainda tem o poema camoniano.

Está na memória das gentes ilustradas e patrióticas deste século quantos esforços meritórios foram feitos, por poetas que a crítica nunca reconheceu nem louvou com o requerido patriotismo, para realizar o que Camões não fizera e deveria obviamente ter feito, dados os seus dons mais ou menos proféticos: trazer até às magnificentes alturas da história portuguesa neste século a que nos reportamos, e é por coincidência o nosso, o que, historicamente considerado, não podia ser tomado senão como um prólogo. Com efeito, Os Lusíadas, com a as suas 1102 estâncias, eram e são – como não dizê-lo? – um prólogo. Sem dúvida brilhante, grandioso, ilustre, imorredouro, celebrável com as maiores honras e clamores devotos, mas prólogo de quanto veio depois: Alcácer-Quibir, o respeitável Cardeal D. Henrique (essa tão incompreendida e trágica figura simbólica das hesitações do patriotismo dos governantes mais responsáveis), os sessenta anos de união hispânica (cativeiro de Babilónia, segundo as analogias bíblicas, mas, como elas, não aludindo às tendas de secos e molhados adentro do império espanhol, rendosamente exploradas pela aristocracia patriótica), uma guerra de independência que preciso foi animar com sermões, discursos, demonstrações copiosas dos direitos brigantinos, alguns cadafalsos e até atentados à mão armada, para não citarmos impostos forçosamente cobrados, etc.[6], uma virtuosa rainha, celebrada epicedicamente pelo Padre António Vieira e que foi casada com dois reis sucessivos e irmãos, as minas do Brasil e o convento de Mafra, o Terramoto de 1755 (essa glória que ninguém pode disputar em magnitude a Portugal), as invasões francesas, a ocupação inglesa, as guerras civis, a Regeneração tão decantada pelos homens ditos de 70, pouco lidos em Camões segundo as melhores informações[7], a queda da Monarquia, o tem-te-não-caias da República, e o meio século ulterior que colocou Portugal enfim na vanguarda das nações não apenas ocidentais mas de outros pontos cardeais e colaterais geralmente incluídos na Rosa dos Ventos[8]. Foi assim que várias tentativas foram levadas a cabo[9] para criar-se o Canto Undécimo que faltava à plena integridade de um prodigioso país que atingiu finalmente aquele superior centro de imóvel estabilidade na vertigem dos mundos e no desabar dos impérios, em que o movimento se identifica com a inércia, e a vida pública e privada adquire, entre gravatas (note-se a semelhança deste vocábulo com Grabato), brilhantinas e inaugurações de fontenários, a rigidez perene da morte que a imortalidade isenta daquela putrefacção a que os cadáveres, por falta de consciência nacional e cívica, soem entregar-se[10]. Pressentia-se com justo e atilado juízo, se bem que nem sempre com o respectivo e adequado voo do que é costume chamar-se “inspiração poética”[11], o “incompleto” de Os Lusíadas, e tentava-se obviar tão grave inconveniente para uma obra de tão alto valor histórico-educativo, e para mais considerada perene e permanente por excelência. Mas o pressentimento era-o mais e menos que tal: pois não prometera o próprio Camões ao rei D. Sebastião, uma continuação do poema? Pois não é com essa promessa, em aberto e em suspenso, que o poema termina, num amplo admitir de futuros cantos? E aqui – quem o diria – se encontrava oculta, como tudo em Os Lusíadas, uma chave do acontecimento que, alacremente, aceitámos prefaciar.

Aos 10 cantos de Os Lusíadas, com as suas 1102 estâncias, aparecem agora, de continuação, os 11 cantos das Quibíricas, com as suas 1180 estâncias. Observe-se a correlação:
10            1102
11            1180
que dá ao segundo poema não só um canto a mais mas mais 78 estâncias. Transcendental cálculo: porque 78 era o ano (no século de 1500 em que Os Lusíadas e a especial batalha se distanciam, note-se, de seis anos) – de quê? Quem ignora que de Alcácer Kibir ou Quibir? Onze cantos como um Undécimo Canto, mais 78 estâncias para símbolo daquela data crucial em que se centra o segundo poema. Mas que é 78 dividido por aquela diferença de 6, senão o temível 13? E há mais: 11×10 é 110 que, enquadrado a 10, é 1100, ou sejam menos 2 estâncias que as de Os Lusíadas – mas menos 2 que, somadas àqueles seis anos de diferença entre as duas datas, são o valor 8, número que faz parte de 78 (a batalha) e de 80 (a morte de Camões e a perda da independência)[12]. Mas que não nos escape maior transcendência ainda: qual a razão de 1180 estâncias, além das já expostas e aritmosoficamente justificadas? Nem mais nem menos do que ser 1180 o ano de 1580 subtraído dos 400 anos que nos separam da 1a. edição de Os Lusíadas! 400 era para Camões um valor altamente significativo: um dia, este quarto centenário seria celebrado em circunstâncias precípuas de grandeza nacional, e era o valor que, descontado o “milénio” da Graça, sendo subtraído ao ano do seu próprio nascimento, dava a data em que, criança irresponsável que não sabia que, com o seu gesto, fundava uma nação, Afonso Henriques cuspira na sopa diante de sua mãe, D. Tareja, no castelo de Guimarães![13]

Que estas curiosidades tão assustadoras para os críticos do inefável [14] nos não desviem e antes conduzam, como efectivamente conduzem, aos centrais intento e dever deste texto [15] prefacial [16]. E quais são eles? Meramente apresentar a obra? Analisar o estudo do autor? Ora [17]. Identificá-lo, acima de tudo. E entremos quanto antes na palpitante matéria.

Fr. João Grabato é ou devia ser conhecido de quantos se consideram eruditos do nosso século XVI. Afinal, ele é registado por Nicolau António, na Biblioteca Hispanica Vetus, e por Barbosa Machado, Garcia Peres (por uns versos castelhanos que lhe são atribuídos num ms. da Biblioteca de Palácio, em Madrid, referido por Gallardo) e mesmo Inocêncio. Versos seus e algumas cartas figuram, no estado de ineditismo comum à maior parte da literatura portuguesa não-contemporânea, no Fundo Pombalino da Biblioteca Nacional de Lisboa, bem como em códices da Biblioteca da Ajuda. Também a sua vida pode ser do conhecimento geral, nas suas grandes linhas, sem aqueles pormenores que dão sabor peculiar a tais indiscrições: além das notícias bio-bibliográficas acima citadas, que lha resumem, uma biografia sua (evidentemente ignorada por aqueles bibliógrafos) está inserida na magnificente obra de Fr. António da Purificação, História Apologética e Gloriosa da Aparição e Milagres da Nossa Senhora dos Remédios da Lapa, de Aguiar da Beira, ou Repositório Cronológico, Crítico, Didascálico, Filosófico, Ético, Político, etc., dos Varões Ilustres de Ambos os Sexos que Honraram por Feitos e Virtudes a Seráfica Ordem dos Defensores da Virgindade de Maria, fundada naquela Igreja pelo Insígne Antistite Episcopal de Castelo-Branco, D. Agostinho de Azevedo e Mello de Castro Surrupita, no Ano da Graça de Nosso Senhor, de 1576, Obra Moral e Espiritual, Dedicada ao Ínclito Talento e mais Partes do Excelentíssimo Senhor D. Alexandre da Cunha e Silva Sampaio Villasboas, Eminente Marquêz de Alcabideche, 3o. do Seu Título, 18o. Senhor da Tábua de Ferreiros, Comendador de Castrim na Ordem de Santiago, etc., e do Conselho de Sua Majestade Fidelíssima, Fundão, na Oficina de Luís Craesbeeck da Costa, 1669. É no 7o. tomo desta ponderosa colectânea das mais variadas, inesperadas e interessantes notícias, que o nosso frade aparece como varão que, passado do pecado à virtude, e das armas ao cilício, veio a ser recebido solenemente (corria o ano de 1587) no capítulo da Ordem, tendo depois celebrado missa que foi assistida por todos os notáveis da região e mais membros daquela Ordem a todos os títulos seráfica, e proferido sermão em que – citamos o douto Fr. António – “incluiu não sem escândalo de alguns dos presentes menos versados no sentido divino de algumas letras humanas, versos de um poema que andava compondo sobre o chorado desastre em plagas de Marrocos aonde se teria perdido” (o sebastianismo de Fr. António espreita muitas vezes dos interstícios da sua elegante prosa) “mais o reino que o rei” (p. 154-verso).

Queremos crer que este passo de Fr. António escapou a quantos críticos se ocuparam de Fr. João Grabato, como aliás de outros notáveis autores e personalidades de relevo na História Portuguesa, a que aquele deu lugar no seu vasto “repositório”. Por certo que o facto se deverá à extrema raridade da própria obra que só incompleta existe nas poucas bibliotecas que a possuem [18] – e desnecessário é sublinhar a importância do citado passo, em que evidentemente o diligente autor se refere às Quibíricas.

Mas isto nada é, a comparar com o que segue. Jamais encontrámos a mínima referência, directa ou indirecta, ao extraordinário (é o termo) manuscrito de Luís Franco Correia, não o sempre inédito e conhecido cancioneiro camoniano [19] mas as longas e prodigiosas memórias em prosa, sem título, incluídas na Miscelânea no. 4038, Gaveta 849, do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Esse escrito (decisivo para os estudos camonianos, e tão grave em suas afirmações e registos, que cumpre não publicá-lo nunca, nem permitir o seu manuseamento a nacionais ou estrangeiros)[20], a fls. 68-verso (numeração moderna da “miscelânea” que abre por uma série de cartas de várias individualidades seiscentistas, que nada tem de comum com o manuscrito cuja existência agora revelamos) diz o que adiante transcrevemos a respeito de Camões (de quem as ditas memórias se ocupam primacialmente):

“Havia entre os seus amigos ao tempo que voltara da Índia e publicara já o seu famoso poema que eu cheguei a copiar no meu cancioneiro [21] e tão aclamado foi pelos mais delicados amantes das Musas que então viviam nas Espanhas, como tão denegrido por outros que viram no poema liberdades e atrevimentos impróprios de tão nobre poesia, gente mui diversa em nobreza da que se honrava com protegê-lo como o Senhor D. Rui Dias da Câmara que lhe pedira os salmos postos em vulgar, e mui distante da piedade que ele mesmo todo largava de si como suor de arrependimento por seus anos perdidos quando, desque aportara a Lisboa, ele se fizera muito dos frades de São Domingos, para lhe deixarem passar o poema por limpo e santo, e não suspeitarem dele Camões até que Deus fosse servido chamá-lo à Sua Divina Presença por morte dizia ele que não de pena ou penúria, nem de pátria em competição de doença com as suas partes baixas também marcadas pelos erros e o mau exercício das faculdades viris, mas de puro fazer-se o que não era, por amor mais de seu poema que de sua vida ou salvação. Era gente dada a opiniões mui suspeitas contra a nossa Santa Fé Católica, e outros vícios e pecados que não são de dizer, e que ele tinha por companhia sua em uma taberna que havia ao fundo da rua em que morava e o visitei muitas vezes, ali levado por nossa antiga amizade e pela muita e rendida admiração que o seu génio criara em mim, logo de aquando o conhecera em outros tempos mais felizes mas de menos ou nenhuma fama sua como a que fruía agora. Nunca porém me achegava quando o via rindo ou falando e ouvindo dizeduras indignas de homem bem nascido e cumpridor dos deveres de bom católico e fiel súbdito dos reis de Portugal que ele cantara com tão discreto primor. Dizendo-lhe eu do perigo de tais companhias e de que se murmurava assaz de sua pessoa a ponto que podia o arruído chegar mui asinha aos ouvidos tão longos da Santa Inquisição que nos guarde, respondia-me ele que os frades bem sabiam daquela matalotagem, que ele estava ali para os converter à boa doutrina e para mais acrisolar-se em sua virtude, ao ter tão junto de si os calores do pecado e das más palavras. E eram esses homens alguma gente baixa com que privara na Índia e outros mais moços da cidade que por ali assentavam seus arraiais de blasfémia e desatino, e até alguns velhos sem vergonha nem piedade como um Mendes Pinto que vivia para as bandas de além-rio e andara pelas partes mais extremas do Oriente e diziam eles que compunha uma obra de sua vida andeja que era tudo dito pelo contrário em fingidos louvores de Chinas e Japões e outras terras bárbaras e ignorantes da lei de Cristo. Dos outros me lembro que eram Gaspar da Silva, Martim de Crasto, Luís da Costa, e mais uns quantos que eu tinha todos por cristãos-novos ou pior, além de um que diziam frade, e se chamava João Gravato. Com este me parece que acertou aquele tão grande poeta e meu amigo de escrever a continuação que a D. Sebastião, El-Rei Nosso Senhor cuja alma e corpo tenha Deus em Sua Suma Caridade e Descanso, ele prometera das suas Lusíadas e a que, como diz, o Rei se esquivara sumindo naquelas areias de África aonde ele só perdera um olho e o Rei perdera um reino. E era parte da combinação entre tão grande poeta e frade tão desavergonhado que nem de frade usava o hábito, que o poema havia de ir em nome do frade e não dele, porque assim como o rei não cumprira com o poeta, o poeta não cumpriria com o rei em cantá-lo de seu mesmo nome.

Isto me pareceu coisa em todos modos repreensível e já efeito daquelas obnubilações que o Inimigo lança nos espritos quando sabe que a morte anda por perto. Mas ele uma vez me dissera que o Inimigo não havia que não fôra a nossa mesma mortalidade maligna, o que tomei como daquelas liberdades poéticas de que ele era tão pronto dizedor. Mas terá sido aquele poema obra jocosa que se não fez ou não vi nunca, nem se encontrou nos papéis do Camões por sua morte que não tardou a homem que tanto vivera de tristezas e misérias como não conheci outro. Ou o dito frade a tomou de efeito para si. Quero crer que não foi escrita nem eu do frade mais soube nem curei de saber. E por morte do poeta aquela gente me consta que desaparecera como se foram moscas que só a luz daquela grande alma convocava com o pior de si que é como o fumo de que as grandes almas ardem. Não fôra o meu amor da verdade maior que a amizade sempre fiel que lhe tive e mesmo por me saber honrado da sua, como já noutro tempo declarou o famoso Platão, e isto não escreveria em risco de alguém me ler que não entenda pela verdade que é.”

Não comentemos, senão com um respeitoso silêncio, este espantoso documento. É todavia curioso notar que daquelas más companhias no fim da vida – e dos murmúrios que elas suscitavam – se faz eco pessoa tão devota de Camões como o foi Faria e Sousa. Conhecera ele este manuscrito? Conjectura desnecessária, e que é colateral ao que mais nos importa de momento: Camões é, à fé de Luís Franco Correia, o autor das Quibíricas, de que o frade recitou algumas estrofes no seu sermão da Virgem, não por lhe ter roubado o poema, mas porque o poema lhe havia sido transferido pelo próprio glorioso autor. Assim se pode justamente parafrasear a frase célebre, e afirmar que cada época tem Os Lusíadas que merece.

Que o poema é “camoniano” – isto é, no dizer dos mais abalizados camonistas, possui “o selo e o perfume” de Camões – não sofre a menor dúvida: basta lê-lo e sentir que assim o é [22]. Que o estilo patenteia a intenção de escrever numa linguagem semelhante à das cartas de Camões um poema que não fosse dele, é evidente. Que o frade terá, aqui e ali, posto muito de sua lavra, para melhor cumprir a promessa feita ao amigo e desvirtuar alguma camonidade excessiva e não consentânea com a intenção originária, é patente [23]. Que o poema ressuma amargor satírico e espírito anti-épico, eis o que não só atesta mais fundamente a sua autenticidade, como faz dele, tanto ou mais que Os Lusíadas, uma obra para os leitores esclarecidos do nosso tempo: aqueles portugueses que deixaram de acreditar em si mesmos enquanto tais, ou porque os não deixam ser portugueses, ou porque os não deixam ser eles mesmos, ou porque lhes não deixam fé que para todos sirva. Mais tarde ou mais cedo, veria a luz do dia aquela celebração de Alcácer-Quibir, que não puderam fazer, por falta de talento e de perspectiva, os poetas então contratados para isso mesmo, em vez daquele que deixaria à posteridade a epopeia e a anti-epopeia, o prólogo e o epílogo.

 

Notas:
1- Cf. Aristóteles, DeO culis, e também Carolina Michaelis da Silva, Bases para o Estudo Oftalmológico da Filologia, Coimbra, 1917. Esta autora não deve ser confundida com a sua quase homónima, filóloga também.
2 – Vide o ms. inédito do sábio Leite de Vasconcelos, precioso tesouro oculto da biblioteca, ao que consta, da Faculdade de Letras de Lisboa, intitulado singelamente Palavras Obscenas da Língua Portuguesa, sua Etimologia e Persistência.
3 – Cumpre mencionar, a propósito da teoria dos géneros, a obra excepcional de Karl Steigersson, Os Géneros na Teoria e na Prática, ensaio psico-sexual sobre as origens e sentido actual de um velho conceito poético-retórico. Desta obra, a todos os títulos revolucionária, há uma edição brasileira, traduzida e utilmente prefaciada por Oto Maria de Carpos, S. Paulo, 1967, sob o título acima citado. O ilustre professor de Friburgo discute a aplicação dos sexos (primeiro, segundo, terceiro e quarto), bem como da tradicional classificação dos “géneros” gramaticais (masculino, feminino e neutro), à teoria clássica do “lírico”, “épico” e “dramático”, mostrando como, na verdade, para os estudos psico-literários e estruturais a nível fisiológico-cultural, estes três últimos géneros são trinta e seis. Inestimável descoberta que permite, por exemplo, dizer iluminantemente que certa composição, sendo lírica, se coloca gramaticalmente no género neutro, se bem que estilisticamente o seu autor seja macho, e assim por diante. Abstemo-nos de aplicar ao caso presente estas distinções para não desviar as atenções da crítica e dos estudiosos, nesta apresentação inicial de um importante poema.
4 – Ver o prestimoso ensaio de Jean Carriel des Oursins, L’Anti-Tout comme Clé des Structures Modernes, Paris, 1972, que insere a decisiva questão do antiherói, como anti-romance, anti-teatro, etc., no mais amplo e fundamental contexto da ideação abstracta das estruturas insignificantes.
5 – De Dante, e não como poderia supor-se, de Júlio Dantas, aquele célebre autor de A Ceia dos Cardeais, A Severa e outros clássicos, e que tem sido injustamente mais conhecido como quem presidiu por longos anos às poucas letras da Academia das Ciências de Lisboa.
6 – Cf. Fernando Aldeia, A Literatura de Incitamento à Restauração, antes, durante e depois dos Filipes, Lisboa, 1941 (Publicações do Centro Nacional de Bibliografia Nacionalista, no. 11).
7 – Cf. Pe. Pilírio dos Reis Leitão do Prado, Os Apátridas de 70 e a Conspiração Anti-Camoniana, Braga, 1927, e o notável estudo do Professor Doutor Serapião dos Santos Moscoso de Aragão Herédia da Costa, “Sobre algumas lacunas da chamada Geração de 70, a propósito de um verso de Teófilo Braga na Visão dos Tempos e da crítica de António Feliciano de Castilho, com uma carta inédita de Camilo Castelo Branco”, in Brotoeja, vol. CCXVII, 1940, número especial dedicado às Comemorações do Duplo Centenário, pp. 37-39.
8 – É indispensável para este ponto, a consulta do importante ensaio histórico-geográfico e arqueológico de J. Montachado Malvão, A Rosa dos Ventos no Promontório de Sagres, e o seu Significado para a História de Portugal, Lisboa, 1967.
9 – Vejam-se Sebastião da Costa Dias, O Cabo Espichel no Sentimento Religioso dos Séculos XVII a XX, 4 vols., Coimbra, 1965, e Comte. Júlio Fontes de Alarcão, Cabos e Cabos, Notas sobre o papel histórico do Cabo da Roca, Lisboa, 1969. É também importante consultar Herculano Girino Salgueiro, Glotologia Geográfica de Portugal, Abrantes, 1935, em especial o capítulo sobre “Cabos e os seus homógrafos”.
10 – Cf. Anthropos Calistidines, The Inertia of Perfection, Chapel Hill, 1897, obra que tanta influência exerceu na poesia moderna, segundo Anna Balandrau, The Genesis of Modernism and its Genetics, New York, 1970. Sobre a putrefacção e as suas correlações cívicas, continua a ser clássico o monumental estudo de Andrew Harikari, L’Education Civique dans ses Relations avec l’Entrainement Moral des Cadavres, Publications de l’Académie Anatomique et Pathologique de la France du Sud-Ouest, vol.XCI, 1887.
11 – Cf. Parmesano Triocchi, Pilosa crura, un tema sessuale del Medioevo, Saggi sulla motivazioni della inspirazione poetica, Bari, 1969.
12 – Sobre a questão de se Camões morreu em 1579 como diziam os primeiros biógrafos, ou em 1580 como querem alguns documentos e o romantismo patriótico, veja-se o magistral estudo do Prof. Doutor Fernando Faria Osório de Castilho e Vasconcelos de Menezes Horta Pimentel, O Museu Etnológico de Belém e a Sepultura de Camões, Notas para o Estabelecimento do ano exacto do falecimento do Épico à luz da Arqueologia do Concelho de Vinhais, separata factícia dos Anais da Academia Portuguesa de Ginecologia e Obstetrícia, vol. LII, 1947, p. 28, tão valioso pela lucidez como pela concisão. É igualmente indispensável consultar, ainda que com menos proveito, o ensaio de Orlandino de Mascarenhas Gondim, inserto no 28o. vol. das suas Obras Completas, Lisboa, 1967 –. De interesse, é o trabalho do genealogista B. Acha de Farol, 79 ou 80, um Enigma Histórico, Leiria, 1958, premiado pela Academia de História.
13 – Para a lenda das distâncias entre mãe e filho, nesta emergência originária, e a consequente criação do complexo lusitano-histórico de Édipo, consultem-se, além dos cronistas de 500, o decisivo estudo do Prof. Viegas Mariz, A Sexualidade Portuguesa – Investigações sobre o Incesto e a Desobediência, Porto, 1925, e a comunicação do académico Joaquim Cerdo, “D. Tareja ou o respeito devido às mães portuguesas”, constante do vol. 77 dos Anais da Academia Portuguesa da Língua, 1939. É ainda útil ver, como informação básica, o profundo trabalho de C. G. Jung, “Eros, Anteros und Antiteros” in Gespräche mit Freud, Lepzig, 1915, ainda não recolhido às suas obras completas, e o estudo de Caligule Abraham Strauss, Structures de la Maternité, Paris, 1966.
14 – Cf. James Parrot, What cannot be said is really Pornography? University of South Pennsylvania, Alamo Gordo, 1968, Publications for the Advancement of Interdisciplinary Matters, no. 31.
15 – Sobre as conotações, denotações, transnotações, etc., semanticamente e semiologicamente inerentes ao conceito de Texto, concorrentemente com inter-texto, intratexto, etc., ver Renée D’Arbuès, L’Intra-Texte: Méditations sur le Sens des Ouvertures au dessus et au dessous des Œuvres dites Littéraires, Paris, 1971.
16 – Acerca da noção contemporânea de “prefácio”, ver Enid Geistlich, Das Schwert de Avant-Propos, Heidelberg, 1965, ou preferivelmente, Amos Siddharta Kalasidahrahrti, Seisianisanitsam, Benares, 1962, bem como o artigo respectivo da Great Encyclopedia of Western and Eastern Commonplaces, vol. 28, 1947, publicada sob a égide da Unesco, delegação de Khartoum, e o anuário da mesma enciclopédia, referente a 1971 (o último publicado).
17 – Sob o mais actualizado significado de “ora”, no que à cultura portuguesa respeita, leiam-se Sancho Castrinho, Suplemento Literário do Diário de Lisboa, de 18 de Maio de 1971, Natalino Bermudes, idem da República, de 21 do mesmo mês e ano, e Zeferino Décimo, idem do Diário de Notícias, 20 dos dois idem, os três importantes artigos todos intitulados precisamente Ora Bolas.
18 – O Tomo que geralmente falta é precisamente este sétimo de que citamos. Mas existe ele na Biblioteca Nacional de Paris, onde o compulsámos. É de notar que, no exemplar, se observa que em algum tempo terá sido ele vítima de tentativa de arrancamento deste passo: suporemos que houve intenção de suprimir-lhe a referência às Quibíricas? Não queremos ir mais além nesta conjectura.
19 – Tão conhecido é este “cancioneiro”, que já doutos historiadores da literatura a ele se têm referido como se tivesse sido obra alguma vez impressa. À data do presente prefácio, não foi ainda, que saibamos. Em data ulterior, foi-o em singelo facsimile.
20 – É esta uma sã política. O bom nome da cultura pátria e dos grandes que a fizeram ou impediram, não pode ficar publicamente à mercê do que acaso se tenham lembrado de escrever contemporâneos menos discretos do que lhes cumpria ser. Do mesmo modo, há que ter presente que manuscritos e cancioneiros antigos são propriedade privada e não pública da Nação, e não foram consignados à guarda severa de arquivos e bibliotecas, para consulta e muito menos publicação, mas para serem conservados no mesmo estado de inexistência a que os seus autores ou compiladores os consignaram não os imprimindo em devido tempo. Tudo o que seja uma política de publicação sistemática de tais escritos, independentemente da séria questão da boa imagem que se deve manter da fachada que a pátria a si mesma se pintou ou pinta, corresponde sem dúvida a um grave depauperamento do que é a justificação mesma de arquivo ou tombo: o que ali se guarda para ser guardado por quem recebe a missão de guardar não teria sentido nem valor se fosse de todos conhecido e a todos acessível. Sempre a verdade foi património de raros apenas, aliás – e esses raros há que limitá-los aos que não sintam pela verdade excessivo e exclusivo amor, um dos piores vícios de que possa depender a saudável apatia das nações e dos povos, e a intocabilidade das tradições nacionais tal como a mentira social as criou para o bem comum. Por isso mesmo se deve compreender a aversão dos melhores espíritos por qualquer renovação dos estudos camonianos – pois que a obstinação em empreendê-los é seguro indício de calculada malignidade, dirigida manifestamente contra o papel que a moral e os bons costumes, tradicionalmente, consignaram que Camões representasse para o povo e para as escolas. Pela mesma razão não deve ser encorajado que estudiosos estrangeiros dele se ocupem: parte que ele é do património nacional, não pode este, nem deve, ser libertariamente esbanjado por curiosidades não morigeradas pelo mais acendrado patriotismo lusíada.
21- Note-se a imprecisão: L. F. C. apenas copiara o Canto I, declarando que mais não copiava por se ter imprimido entretanto a obra. Cremos, todavia, que esta reserva que não podíamos deixar de consignar nada retira ao prodigioso valor das memórias cuja transcrição limitamos ao trecho que nos importa aqui pela sua relação com o suposto autor das Quibíricas.
22- Não quisemos, em tão decisivo passo deste escrito, ir além da melhor tradição impressionista da camonologia, a que assim prestamos homenagem.
23- No mesmo espírito de que se faz consignação devida na nota anterior, também nos circunscrevemos adentro do método circular da tradição camonológica, o que simbolizámos na repetição patenteia-patente. Acerca do valor de tais repetições, veja-se Suzanne de Malvoir, La Répetition, ou de la technique du point-en-croix en littérature (tese policopiada de Doutorado de Estudos na Sorbonne defendida em Julho de 1972, e a ser publicada pelas Presses Universitaires de France).

Sobre Shakespeare

Um adendo de 1964

Escrito como uma espécie de adendo ao capítulo dedicado a Shakespeare em A Literatura Inglesa, o artigo que aqui transcrevemos, e que de certa forma resume a leitura de Jorge de Sena sobre a dramaturgia do Bardo, foi originalmente publicado no Suplemento Literário de O Estado de São Paulo, a 18 de Abril de 1964, e no Diário de Notícias, Lisboa, a 30 de Abril de 1964. Hoje, integra o volume Maquiavel, Marx e outros estudos.


No capítulo IX da minha História da Literatura Inglesa [A Literatura Inglesa, São Paulo, 1963; 2a. ed., Lisboa, 1990.], inteiramente dedicado ao estudo de Shakespeare, e quase a concluir, eu dizia o seguinte: “E Shakespeare, quem era ele? Um autor, um dramaturgo, um poeta, vivendo numa época em que as circunstâncias, ao declinar o sonho de libertação do Renascimento, colocavam o homem perante as contradições dramáticas da sua liberdade. O Mundo era um palco onde tudo seria possível, se a solidão não fosse o preço a pagar pelo papel na peça. Shakespeare pagou, pela sua humanidade, o mais caro preço: a despersonalização completa. Não importa saber quem era Shakespeare, porque ele é as suas criações, ele é a demonstração de que o homem pode, despersonalizando-se, acrescentar ao mundo natural o mundo humano”.

No esforço para meter em 470 páginas uma literatura inteira, sem nada sacrificar de minuciosas referências ao maior número de obras e de autores, é bem possível que aquelas belas frases tenham resultado algo sintéticas de mais. No momento em que se comemora o 4o. centenário do nascimento desse homem que, se não foi o maior dramaturgo que a humanidade produziu, talvez valha a pena desenvolver um pouco aquelas elipses e meditar no sentido que terá, para nós, essa despersonalização teatral a que Shakespeare tão gloriosamente se aplicou.

Por despersonalização teatral devemos entender a capacidade de criar figuras autónomas que, no palco, não falam em nome das ideias e dos sentimentos do autor, mas sim em função das situações em que são colocadas e do carácter que lhes é atribuído. Nós só podemos saber o que Shakespeare pensava e sentia de determinadas situações humanas se, ao que as suas personagens dizem e fazem, subtrairmos a personalidade delas, e se, complementarmente e reciprocamente, subtrairmos as situações em que elas se encontram e que, em grande medida, são criadas por aquelas falas e aquelas acções. Porque a maior parte da obra de Shakespeare é teatral (e não há certeza de que a sua obra lírica, por exemplo os sonetos, o não sejam também), não haverá outro modo de, através da obra, atingirmos a personalidade de um autor acerca do qual escasseiam os depoimentos, directos ou indirectos, ou as referências biográficas. Mas, precisamente no mesmo grau em que Shakespeare é um criador de teatro, e se despersonaliza para a realização daquelas situações e das suas personagens, as subtracções que apontamos como imprescindíveis ao seu conhecimento individual e profundo são impossíveis sem que precisamente fique destruído e desprovido de significação aquilo mesmo que seria a nossa base de pesquisa: as suas criações teatrais. Que isto é assim, eis o que é comprovado por anos e anos de esforços infrutíferos e contraditórios da crítica, para sob essas criações descobrir o cerne motor que as justificaria. Shakespeare continua ignoto como animal pensante e sentiente; e, se não fora o extraordinário génio que se revela no seu comando da linguagem e na transfiguração dramática que imprimiu às histórias conhecidas de que partiu para criar as suas peças, seríamos tentados a supor que ele não só teve a vida vulgar, mediana e tranquila que os documentos manifestam (e a crítica romântica, com a sua concepção do génio como um sujeito anormal e oposto às regras do mundo, recusava esta visão tão natural de um homem que tinha imaginação), mas era pessoalmente, além disso, um vulgaríssimo homem, nas suas ideias e nos seus sentimentos. E o caso é que, paradoxalmente, ele o é, repetindo convictamente, sobre os mais variados assuntos e temas, os mais banais “clichés” do seu tempo. Uma das mais paradoxais coisas que se verificam em Shakespeare é, sob tão terríficas e tão grandiosas situações e falas, ou sob tão subtis e tão graciosas cenas, ele ser de uma perturbante banalidade. É maravilhoso e espantoso tudo o que se passa ou é dito nas suas peças. Mas o mais maravilhoso é que nada se passe que não disfarce no terrível uma vulgaridade total; e o mais espantoso é que nada seja dito de tão poeticamente extraordinário que não faça parte das mais comuns experiências humanas. É óbvio que nem todos os homens viveram as tragédias do Rei Lear ou de Ricardo II, sofreram as alegrias e os contratempos dos amantes de Verona, mataram por ciúmes as esposas, como Otelo, viram fugir-lhes o poder nas asas do crime que lho dera, como Macbeth e sua mulher, ou meditaram sobre o que fazer para vingar um pai assassinado, cujo assassino casara com sua mãe, como Hamlet. Do mesmo modo, nem todos os homens foram mágicos como Próspero, usurários como Shylock, ou passaram a vida apaixonados trocadamente por travestis, como sucede em grande parte das comédias de Shakespeare. Tudo isto é monstruoso e excepcional, tudo isto está muito longe da vida quotidiana e dos juízos da experiência que acerca dela emitimos. E sobretudo o está na grandiloquência avassaladora com que as situações teatrais são apresentadas por Shakespeare e com que as suas personagens jamais se distraem de falar. Mas será que essa distância existe realmente? Será que a nossa vulgaridade quotidiana não é aquela monstruosidade toda?

E é este, provavelmente, o cerne das criações shakespearianas e da sua personalidade de dramaturgo. Quando o dramaturgo realista, pelos padrões do teatro burguês da segunda metade do século passado, coloca perante nós situações plausíveis e personagens comuns, e estas, falando a linguagem corrente, vivem dramas que podiam acontecer a qualquer dos espectadores, ele, quanto mais realista for, mais se afasta da realidade profunda da humanidade. E, ao criar personagens verosímeis e situações (ainda que violentas) vulgares, inibe qualquer espectador de identificar-se intimamente com criaturas que, de tão verdadeiras, tanto podem ser ele como o vizinho do lado. O dramaturgo não realista, na concepção das figuras e das situações, na linguagem cénica, esse, ao criar monstros, cria hipóteses da monstruosidade que se oculta na banalidade de toda a gente; e todo o espectador sente um arrepio terrificante de identificação, ainda que repulsiva (e catártica), com o que, para ele, é um abismo pessoal e intransmissível. Se esses abismos são, na verdade, bastante idênticos em toda a gente, porque assentam nos mesmos substractos do inconsciente coletivo, é uma outra questão, que não só em nada altera aqueles efeitos, como precisamente contribui decisivamente para a profundidade que eles atingem. Porque, se os abismos são mais ou menos comuns na sua infinita variabilidade e na sua diversa intensidade, o que neles é pessoal e intransmissível é a incomunicabilidade directa e confessional, o facto de serem demasiado profundos para serem autorizados a quebrar as barreiras repressivas para ascenderem à consciência. Esta ascensão, porém, dá-se, e simultaneamente não se dá, na criação artística: do mesmo passo que os abismos ascendem à superfície e são exibidos a olhos públicos (e o exibicionismo é das tendências profundas mais radicadas e mais reprimidas na vida adulta), são-no transfigurados, transformados noutras formas e noutros seres, que, não sendo nós, têm tudo de nós mesmos, ao mesmo tempo que, nada tendo de nós, nos personificam num duplo. Isto, evidentemente, em que vemos a catarse explicar-se a si mesma, não é apanágio exclusivo do teatro de Shakespeare; e nem sequer o é das grandes obras de arte. Pelo contrário, isto é o que as grandes obras de arte têm em comum com as mais medíocres, as mais vulgares, as aparentemente mais destituídas de categoria, e só próprias para o consumo de atrasados mentais. Extremadas na excepcionalidade artística de uma estrutura admirável, ou patinhando na mais primária das imaginações desconexas, umas e outras são as que apelam para o que de mais profundo torna a humanidade algo de uno, culturalmente, no tempo e no espaço. E, se para lá de alusões que perderam o sentido, de costumes que estão obsoletos e de fantasias que são elementares de charra banalidade, umas e outras continuam vivas (as grandes obras, em si mesmas; e as de consumo, nas sucessivas formas com que se adaptam à realidade ambiente), é porque, ao contrário do que sucede às dignas obras de mediana categoria, de que se faz a história literária, elas correspondem aos sentimentos e às concepções profundas e instintivas de uma humanidade que ainda mal saiu da noite da pré-história, aterrada com o seu poder e com a sua liberdade.

Isto o teatro de Shakespeare realiza-o com uma eficácia extraordinária. Os enredos são de dramalhões de faca e de alguidar; as personagens não têm verosimilhança alguma; as falas são muitas vezes pirotecnia verbal sem correspondência correcta com a situação em que surgem; certas situações, o menos que delas pode dizer-se é que são absurdas. É um erro total admirar a complexidade psicológica das personagens de Shakespeare; e é esse erro que nos impede de compreendermos Hamlet ou Falstaff. A complexidade psicológica delas, nos contextos cénicos em que são chamadas a revelar-se, nada tem que ver com o analitismo de Dostoievski senão na medida em que este romancista faz, nos seus romances, o mesmo que Shakespeare faz com seu teatro. As personagens de Shakespeare, mesmo o tão analítico Hamlet, não se analisam a si e aos outros como o Marcel que escreve o monumental romance de Marcel Proust. E também este romancista não recuou perante as mais extravagantes incoerências de comportamento das suas personagens, e foi precisamente o descobridor das “intermitências do coração”. O que é complexo na psicologia das personagens de Shakespeare (e que não seja devido a uma técnica teatral que exigia uma acção rápida e uma linguagem grandiloquente, com um palco nu, quase rodeado pelos espectadores) resulta da acuidade fulgurante com que elas são conscientes, a cada momento, das circunstâncias do seu destino. Este, muitas vezes, excede-as de muito, é-lhes infinitamente superior (como é o caso de Otelo ou o de Ângelo, de Measure for Measure). Mas as personagens shakespearianas, mesmo entregues à obnubilação apaixonada que há de levá-las à perdição, ou a uma hipocrisia em que acabam hipócritas para si mesmas (como é o caso de Ricardo III também), não deixam nunca de ser agudamente sensíveis e veementemente articuladoras verbais de uma consciência em situação, por mais irrelevante que, do ponto de vista da verosimilhança, esta situação seja. Se há disto exemplo clamoroso no teatro de Shakespeare, é o Rei Lear, cuja loucura é uma forma de suprema lucidez, no seio de uma história de horrores elementares que não serviriam para ninguém, nem o público, ser lúcido de coisa alguma.

É esta noção de que o homem não é uma unidade moral e psíquica senão no que o irmana aos outros homens pelo inconsciente profundo e pela identidade biológica, e nas consequências inexoráveis dos seus actos mais incongruentes, que torna único, como criação estética, o teatro de Shakespeare. É a noção de que o homem é banal, é comum, é vulgar, não tem grandeza alguma (e, por isso, Shakespeare se criava monstros exemplares, escreveu uma tão tremenda e arrepiante sátira dos heróis homéricos, como é Troilus and Cressida). E que a sua grandeza resulta, paradoxalmente, de ser responsável por um destino que não controla senão pela magnificência dos seus discursos ou pela incisividade dos seus lamentos.

Importa muito pouco o discutir-se se Shakespeare tinha pessoalmente consciência de todas as implicações desta visão do mundo, tão audaciosamente vulgar que todas as instituições tremem perante ela. Criador teatral e poeta de imensos recursos rítmico-semânticos, a discussão passa ao lado da verdadeira questão. Porque um poeta como Shakespeare não é um filósofo, e não precisa de ter essa consciência: as suas personagens que a tenham por ele. Se acaso a tivesse, com igual agudeza, e observasse a vida humana, teria escrito os ensaios de Montaigne, e não as peças de teatro. Ou estas seriam ensaios filosóficos postos em cena, como o são, no teatro moderno, as de Ibsen ou de Pirandello, com toda a comovente humanidade de muitas delas. As peças de Shakespeare não são peças de tese, não são discussões de problemas. Se Bruto medita no seu crime, se Coriolano se opõe orgulhosamente a todos, se António e Cleópatra são o amor que pretende dominar o mundo, se Romeu e Julieta são a paixão juvenil e espontânea que a nossa ancestralidade social sempre mata em nós, e se todos sabem os riscos que correm, isso não pretende demonstrar nada no palco, e nem sequer, como as moralidades teatrais, visa a tornar-nos “melhores” e mais virtuosos ou prudentes. Visa, sim, curiosamente, a divertir-nos, mesmo com lágrimas e terrores ou com a doce e cruciante melancolia das últimas peças. Nada mais. Mas note-se que não visa a distrair-nos de uma consciência última da nossa portentosa inanidade. Pelo contrário, se nos diverte com ela, é porque, apresentando-nos os desastres e os crimes daqueles monstros, ou transformando a vida no ballet de sexos e de ironias que são as comédias, nos liberta, pela inverosimilhança exemplar, da tirania do nosso próprio quotidiano, do desespero da nossa impotências, da amargura das nossas culpas. Afinal, impotentes, criminosos, prisioneiros dos seus actos vis ou nobres, não somos nós, mas aquelas criaturas que, assumindo tudo isso, não podem ser identificadas connosco, e a quem nos identificamos salvaguardados pelo facto de não haver entre nós e eles identificação possível.

Nascido quando o Renascimento italiano morrera havia umas três décadas; escrevendo e apresentando as primeiras obras quando Camões já morreu; contemporâneo de Góngora e de Marino – Shakespeare não é já um homem da Renascença. O seu mundo, mesmo a Inglaterra tão orgulhosa do imperialismo que ascendia, e de haver derrotado as pretensões de Filipe II de Espanha, era o das religiões de Estado e das oligarquias autocráticas à escala nacional e não o dos príncipes italianos do Renascimento, rodeados de artistas e de eruditos. A literatura era cortesã, e só pelas cortes reais a vida pública existia, ou pelas furiosas ou contemplativas obras de apologia religiosa. O teatro era, nesse contexto, uma subliteratura a que se assistia para matar o tempo e para purgar as paixões malsãs, sem perigo de ser-se perturbado por questões político-religiosas que os dramaturgos estavam proibidos de aflorar. O teatro sério representava-se em latim nas escolas e universidades. O outro teatro, se os reis e os príncipes o encomendavam ou a ele assistiam, ou se meramente estendiam a sua protecção às companhias teatrais (para que elas não fossem tidas como compostas de vagabundos sem profissão, e serem nominalmente de servidores de uma casa), era para se divertirem como os seus súbditos, e não para pactuarem no atrevimento de críticas cujo tempo havia passado. E, escravizado às restrições do seu tempo, e às exigências de um público que queria ver grandes coisas espantosas em cena (e os dramaturgos rivalizavam em fazê-las hórridas), foi que o teatro de Shakespeare ficou inteiramente livre para mergulhar nas realidades profundas, à custa de banalidades e de extravagâncias. E jamais teria mergulhado tão fundo, e trazido esses lodos ancestrais à superfície, envoltos em tão esplêndida roupagem de palavras, se não houvesse partido de uma despersonalização total, que é, ao mesmo tempo, uma inocência absoluta. Esta inocência não deve iludir-nos quanto à sua essência, porque é feita de toda a malícia inescrupulosa dos grandes artistas. Feita de artifícios cénicos, de enganadoras frases, de calculadas situações, de incongruentes personagens, e de irrisórios enredos. Tem, assim, a malícia e a falta de escrúpulos da própria vida. E a vida é o que há de mais banal e comum, e também de mais extraordinário. Há milhões de anos que a possuímos e transmitimos, e ainda pasmamos de a termos; e nas frustrações medonhas de que ela continua feita, somos, perante a morte, os mesmos animais apavorados.

Está novamente em moda falar-se do cristianismo de Shakespeare, cuja religião nos parece tão conspicuamente ausente do seu teatro, em termos que possam ser seus. Provavelmente (e outra coisa não seria de esperar de um homem tão enquadrado na vida comum do seu tempo quanto se adivinha biograficamente que ele foi), poderemos com exactidão aplicar-lhe a frase de um romancista moderno: era um cristão que escrevia peças, e não um dramaturgo cristão. De resto, no tempo de Shakespeare, esta última alternativa não tinha sentido algum: os autores, ou as pessoas, só começam a sentir-se assim alguma coisa, quando aparecem outras que se consideram anti dessa coisa. As oposições entre os diversos ramos cristãos, nesse tempo, haviam cindido apenas a autoridade unitária da cristandade, mas não esta mesma, da qual todos se consideravam os mais legítimos herdeiros e intérpretes. O pouco carinho com que Shakespeare põe puritanos em cena pode fazer-nos crer que era um convicto anglicano. Não é muito crível: troçar dos puritanos era o mot d’ordre na Inglaterra do tempo; e, aqui entre nós, anglicanos convictos só o foram, desde sempre, uns quantos teólogos, bispos, e poetas líricos. O anglicanismo era, e ainda é, uma maneira de, antes de ser-se religioso, ser-se inglês. Inglês, com todos os lugares-comuns do patrioteirismo bélico e cívico e todas as vulgaridades milenárias do embevecimento idiota com o carácter incomparável da paisagem da pátria, isso foi Shakespeare, sem dúvida. E as selectas escolares da Grã-Bretanha ainda hoje exploram esse filão de filáucias pomposas. Mas, se cristianismo há na tão hábil abstenção ideológica de Shakespeare (porque nele nem tudo, a este respeito, é sublime despersonalização), é um cristianismo subtilíssimo, que afinal brota dos mesmos abismos em que falamos: a consciência de que o destino é a expressão externa e lógica de um pecado original que haja no nosso carácter, e da nossa incapacidade para, por nós mesmos, sem uma graça que nos transcenda, nos libertarmos do círculo inexorável das suas consequências. Como homem vulgar do seu tempo, Shakespeare terá pensado que essa graça transcendente era a Inglaterra e falava inglês. Hoje, nós sabemos que ela apenas falou inglês pela pena dele, um homem da Inglaterra isabelina, possuidor de pouco latim e de menos grego, que foi baptizado na sua cidade natal de Stratford-on-Avon, há exactamente quatro séculos, e que nela morreu cinquenta e dois anos depois, legando ao mundo um conjunto de obras-primas de autoria incerta, de que não possuímos um único texto autógrafo, já que, ao que parece, apenas existe “autógrafa” uma peça que não será sua. Fora disso, os seus autógrafos estão em documentos de compra e venda de propriedades, e coisas semelhantes, como o seu testamento. Este poderia ser o de qualquer outra pessoa, e não do poeta dramático que ele foi e que nem sequer preparou as obras para publicação. Para que havia de fazê-lo? Se todo o mundo é teatro, e mal temos tempo de representar o nosso papel na peça, para que fixar o texto, quando nós mesmos o escrevemos? Se tudo é possível no palco, como afinal na vida, para quê perpetuarmos a solidão de o termos descoberto? E, depois, as obras-primas não se perdem nunca, já que, para os outros homens é sempre cómodo que um outro tenha havido para divertir-nos com as verdades terríveis que são feitas da monstruosa banalidade da vida que tanto amamos.

 

Miguel Ângelo, Shakespeare e Galileu

Os três gênios repensados em 1964

História, Literatura, Cultura… Neste entrelaçamento de saberes, um exemplo da mestria ensaística de Jorge de Sena.

 

Neste ano de 1964, celebram-se três centenários de três dos maiores génios que a humanidade produziu: Miguel Angelo, Shakespeare, e Galileu. Como que a simbolizar o que há de final e há de origem em homens como esses, do primeiro se comemora a morte, e dos dois outros o nascimento; e, curiosamente, isto passa-se às vésperas de um outro centenário de nascimento, o de Dante, que se dirá simbolizar, na cultura europeia, a transmutação da máxima estruturação estética que a Idade Média atingiu, em cultura moderna. Ponderemos, daqueles três homens, por ora, os dois primeiros.


Como que em alegoria de quanto os homens não coincidem, e há sempre que os separe mesmo quanto os une no tempo, temos que Miguel Angelo morreu a 11 de Fevereiro, e que Shakespeare nasceu só, ao que tradicionalmente se supõe, a 23 de Abril. Um viveu sempre na Itália, onde nasceu; o outro não consta que tenha saído alguma vez da sua Inglaterra natal. E, na idade, entre ambos, não há só a diferença de 70 dias, durante os quais não estava qualquer deles na Terra: há também os quase noventa anos com que um morria, quando o outro ia nascer para viver apenas pouco mais de meio século.


Escultor, poeta, pintor, arquitecto, a vida activa de Miguel Ângelo, cujos produtos chegaram até nós, corresponde a três quartos de século. A do poeta e dramaturgo, que o saibamos, coube em vinte e poucos anos de actividade conhecida. A vida de Miguel Ângelo foi agitada e sombria, animada por lampejos de lirismo de um génio violento e misantropo. A de Shakespeare, não sabemos que o tenha sido mais do que poderia sê-lo a de qualquer homem comum, como ele foi ou procurou ser na vida. A evolução estética de um parte quase de uma optimística visão renascentístico-medieval, para o dramatismo agónico ou esfíngico das últimas obras, e para a aflição e a dúvida sobre a legitimidade da arte, a que chega, simbolizando em si tudo o que o Renascimento foi, e o que ao Renascimento sucedeu quando este espírito morria. O outro, descrevendo uma curva, ascendeu às maiores violências sobre a inanidade trágica de tudo, para despedir-se do mundo com um sorriso de paz, de complacência, de infinita resignação ante a mesquinhes da vida. De um sabemos que as ansiedades religiosas o assaltaram; do outro parece que a devoção hebdomadária do então recente anglicanismo bastou para deixar as angústias humanas confinadas à despersonalização teatral.


Pode parecer que tudo os separa, menos o génio, ou seja, aquela categoria excepcional que ambos possuem como artistas, e que não irmana afinal ninguém, senão na medida em que, aos possuidores, afasta daquilo que se considera, por exclusão, a mediania da humanidade. Mas a segregação sublime dos «faróis», como dizia Baudelaire, não é, por si só, uma afinidade entre génios.


Todavia, um lato critério do que seja Renascimento — considerado como uma revolução individualista no gosto e no estilo de vida, nas formas e nas ideias — inclui Miguel Angelo e Shakespeare num mesmo período da cultura europeia: aquele que vai desde os fins do século XIV até aos fins do século XVII. Este critério implica a inclusão, num mesmo período, da Renascença, do Maneirismo, do Barroquismo, e do Neo-Classicismo que houve após este último: tudo o que, na cultura europeia, vai desde as primeiras manifestações de interesse laico pela Antiguidade Clássica até à depuração extrema de Racine, que seria a quintessência final desses três séculos. Ou seja, tudo o que vai desde os primeiros ataques do racionalismo à teocracia medieval, até às primeiras dúvidas acerca da representatividade política das monarquias tradicionais.


Mas este lato critério, indo mais longe, pode devorar-se a si mesmo, e incluir aqueles três séculos na própria Idade Média, contra a qual se achava que eles se haviam rebelado. E, vindo então a Idade Média, desde as supostas invasões de bárbaros que, convencionalmente, destruíram um Império Romano que já era «bárbaro», até às Revoluções Americana e Francesa que proclamam o princípio da supremacia política da representividade democrática, Miguel Angelo e Shakespeare, para os historiadores que tão generosamente ampliam, por espírito polémico, a «idade das trevas», serão medievais os dois.


Se o respeito pelos cânones ideais da clássica beleza serena e abstracta é padrão do Renascentismo, nem Miguel Ângelo, nem Shakespeare são deste período. Também o não serão, se o padrão for apenas uma hedonística alegria de viver e criar segundo o capricho de cada um. E muito menos hão-de sê-lo, se o Renascimento for a afirmação titânica de uma rebeldia do Homem sobre a Natureza, contra Deus e o Destino, porque ambos lutaram titanicamente com as suas figuras e personagens, para atingirem precisamente o alvo contrário de uma conformidade que, num, agonicamente abdica da legitimidade da arte, enquanto, no outro, reconhece que a visão do mundo é uma pura convenção teatral que tenta dar forma e sentido ao sonho inane de que somos feitos.


Mas, se ser-se medieval é reconhecer a força do pecado e um equivalente poder da expiação ou da Graça, para resgatá-lo; se ser-se medieval é admitir que o homem não assume, mesmo negativamente, as responsabilidades de um destino individual (mas só as que, como ente humano genérico, lhe cabem); se ser-se medieval é reconhecer a supremacia da representatividade harmónica da teocracia política, sobre o isolamento trágico de cada homem ante a vida e a morte; se ser-se medieval é o uso de formas tradicionais como concretização do eterno no efémero, e não a criação de formas autónomas como a projecção do efémero no eterno — então nem Miguel Ângelo nem Shakespeare são medievais.


A História cultural, como a sócio-política, tem quase sempre vivido amarrada nos seus próprios esquemas, muitas vezes demasiado amplos para significarem algo de característico ou de criticamente válido, outras vezes demasiado resultantes dos preconceitos culturais e nacionais, transferidos por extrapolação, para escalas que não são as suas. Os casos de Miguel Angelo e de Shakespeare (e, como veremos, também o de Galileu) são, a este respeito, altamente significativos. Pelo que ficou dito, estamos vendo a que ponto eles se diferenciam um do outro, naquilo mesmo que possa irmaná-los, e como se irmanam por aquilo mesmo que os diferencia. Enleada nas malhas das suas próprias contradições, a História sócio-cultural responder-nos-á que isso resulta das irresolutas contradições de uma época. Mas será que as contradições de uma época são, ou foram, aquelas que as nossas contradições culturais vêem nela? E não será que as que aparecem no choque das realidades passadas, com o simplismo dos esquemas, apenas denunciam que, naturalmente, em todas as situações, a humanidade é mais complexa e contraditória do que as contradições que queiramos ver nela? Ou melhor: que uma coisa são as contradições pessoais de um temperamento, outra as que uma época tem em si e de que é feita, e muito outra as que resultam de querermos ajustar esquemas preconcebidos (e muitas vezes sobrevivência de um conhecimento desactualizado das questões que nos ocupam) a épocas que não se regiam por eles?


A longa vida de Miguel Ângelo assistiu à desagregação final da Itália, e à sua queda secular sob o império das hegemonias estrangeiras. A vida mais breve de Shakespeare decorreu nas primeiras décadas do grande imperialismo britânico. Quase um século — essa longa vida do escultor e poeta — separa o nascimento dos dois génios; e, nesses anos, a Europa viu o triunfo e a derrocada intelectual da Renascença italiana, o desencadeamento da Reforma protestante, o dilacerar dos povos nas lutas religiosas e na intolerância, a constituição da França, da Inglaterra e da Espanha aproximadamente nos limites modernos, a formação da monarquia austríaca, as descobertas das Américas e do caminho marítimo para a índia, o estabelecimento e o início da queda dos imperialismos português e espanhol, as colonizações transatlânticas, o Concílio de Trento, a difusão da imprensa. Tudo isto aconteceu em vida de Miguel Angelo, e terminou, ou está em vias de terminar, na juventude de Shakespeare, quando, após um século de violentas lutas pelas centralizações territoriais, a Europa saiu da pulverização medieval para as grandes unidades das monarquias absolutas apoiadas na intolerância política das religiões oficiais. Será que ambos pertencem à mesma época histórica? Ou será que um está a cavalo sobre duas (e a morte da primeira nele mesmo se processa exemplarmente), enquanto o outro está integrado na segunda? Porque Miguel Angelo teve trinta anos da sua vida, para assistir à subversão da atmosfera de optimista agitação intelectual, nos abismos do despotismo.


Uma sucinta cronologia é muito esclarecedora. Cerca de 1450, terá surgido a imprensa de caracteres móveis, quando Afonso V de Aragão conquistava o reino de Nápoles. Em 1474, o casamento dos Reis Católicos une Aragão-Barcelona (com o seu império mediterrânico) a Leão-Castela. Em 1477, a morte desastrosa do duque de Borgonha, Carlos-o-Temerário, permite a encorporação de parte dos seus estados à França que, em 1481, encorpora o reino da Provença e, em 1488, o ducado de Bretanha. Em 1492, quando Portugal já descobriu toda a costa ocidental da África e as ilhas do Atlântico, Colombo chega à América. Em 1494, dá-se a primeira invasão francesa da Itália, no mesmo ano em que a Inglaterra obtém a submissão definitiva da Irlanda. Em 1497, no mesmo ano em que os Reis Católicos conquistam Granada, Vasco da Gama parte à descoberta do caminho marítimo para a índia, onde chega em 1498. Em 1500, Cabral descobre oficialmente o Brasil. Em 1513, o Rei Católico Fernando de Aragão encorpora a Navarra espanhola à coroa unida da Espanha. O reino de Navarra, reduzido à parte francesa, une-se à França em 1589. Em 1519, Carlos de Espanha, que já interviera nas guerras de Itália, assume o título de imperador alemão, quando a Alemanha começa a agitar-se na rebelião de Lutero. As guerras da França com o império alemão, e depois com a Espanha, complicadas com as guerras civis de religião, estalam em 1521, e prolongar-se-ão, com intermitências, até 1598. Entretanto, Calvino propusera as suas teses (1535), e Henrique VIII de Inglaterra, já separado de Roma, promulga os Seis Artigos (1539); o império austríaco absorvera a Boémia (1526) e a Hungria (1527); e os soberanos russos tomavam o título imperial (1534). O Concílio de Trento, reunido em 1545, prossegue até 1563, sendo as suas decisões promulgadas no ano seguinte que é aquele em que nascem Shakespeare e Galileu. Em 1580, o império português é, por sessenta anos, encorporado à coroa hispânica. Em 1603, a Escócia e a Inglaterra unem as suas coroas.

E Shakespeare nasceu na atmosfera da «pax anglicana», e assistiu à união das coroas inglesa e escocesa, que consagrava a ambição britânica de realizar-se a Grã-Bretanha. Socialmente, Miguel Angelo é um homem de cultura, que convive de igual para igual com papas, cardeais e príncipes. Shakespeare é um burguês aristocratizado de província, com uma profissão desqualificada — a de actor —, e cujas letras são as da mediania cultural do seu tempo, no seu país. Nem um nem outro são, é certo, «scholars»; e também Miguel Angelo não é um aristocrata de sangue, como grande parte das figuras celebradas do Renascimento o são. Ambos representam, em esferas diversas, o triunfo cultural das classes artesanais da burguesia urbana, que anteriormente se processava dentro dos quadros da Igreja Católica, ou com os instrumentos da cultura, que ela controlava. Mas ambos dependem estritamente de um mecenato garantido pelos grandes próceres da nova aristocracia terratenente e financeira, que havia assumido o poder na Europa, desde os fins do século XIV, propiciando, com Petrarca, Boccaccio, Fernão Lopes e Chaucer, a eclosão de uma cultura laica que acabaria pondo a Igreja ao seu serviço, mediante a imposição das religiões de Estado.


A poesia de ambos é muito diversa. Miguel Ângelo é um artista plástico que escreve versos líricos. Shakespeare é um poeta dramático, que igualmente soube ser um grande lírico, mas em quem não se vê que as outras artes desempenhassem, para seu alimento espiritual, grande papel. O escultor e arquitecto é um dos propugnadores do classicismo contra a «barbárie gótica», e abandonou-o progressivamente, nas ondulações da barroquização da geometria. O dramaturgo viveu na atmosfera de um goticismo humanístico, tão propiciado pelas pretensões do anglicanismo à pureza primitiva e à representatividade de um catolicismo medievalizante, e que, na Inglaterra, só cedeu o passo à imitação classicista, quando ele havia morrido meio século antes. Tudo isto nos coloca Miguel Ângelo como figura exponencial do Renascimento e do Maneirismo italianos; e Shakespeare como o grande Maneirista de um país que não teve Renascença, senão no sentido genérico do movimento cultural humanístico, classicizante na literatura e bíblico em religião, que se desenvolve em toda a Europa desde o século XIV. E, quando, no mesmo ano de 1623, dos prelos de Stratford sai o «First Folio», e de prelos de Florença a primeira edição dos poemas de Miguel Angelo, e a Inglaterra está às vésperas da Revolução Puritana e a Itália dorme um sono austríaco e espanhol, é como se, das sombras de um passado morto, se erguessem a perturbar as magnificências barrocas dois fantasmas vetustos, cujas visões imprudentes a Inquisição queimara, em 1600, na pessoa de Giordano Bruno, esse aventureiro italiano da filosofia, que tanto impregnara, em turbulentos convívios, a cultura britânica.


Como poucos dos muitos grandes, Miguel Ângelo e Shakespeare são o princípio e o fim: aquele viveu o Renascimento inteiro, e sepultou-o no seu «Juízo Final» e na sua «Pietà» final, como Ticiano, outro longevo, fez nas sombras rubras do seu «Martírio de S. Lourenço»; este, no esplendor da Inglaterra isabelina, levou às últimas consequências a angústia que o Renascimento começou sentindo, quando tudo entrou a desfazer-se sob os pés humanos, para reestruturar-se na ordem física e mecânica de um universo autoritário. Ambos criaram monstros: o Hamlet, o David, a Basílica de S. Pedro, Macbeth, as pinturas da Capela Sistina, Ricardo II, os escravos encadeados, Measure for Mensure; e os sonetos de um e do outro são a expressão galante ou dramaticamente dolorosa de um amor que, às vezes, se temia aterradamente a si próprio. Tornara-se humanamente temível aquele amor que, no dealbar das aventuras espirituais, Dante vira regendo «o Sol e as mais estrelas». E foi precisamente Galileu quem transformou esse humano medo, na ordem abstracta de uma ciência superior à insegurança do Homem e ao arbítrio de Deus.


Que ele tenha nascido quando Miguel Ângelo morria, no mesmo ano de Shakespeare, e que a este tenha sobrevivido vinte e seis anos (um quarto de século), eis o que, nestes transes comemorativos, nos cumpre interpretar. A obra científica de Galileu Galilei, muito mais que as artísticas de Miguel Ângelo ou de Shakespeare, tem sido polemicamente interpretada pelos historiadores da cultura, que, em geral e infelizmente, não são historiadores da ciência. E o famoso processo de 1632-33 transformou Galileu num mártir da liberdade da ciência, em nome do sistema heliocêntrico, cuja responsabilidade, nos tempos modernos, cabia muito mais a Copérnico, Bruno, Tycho Brahe, e Kepler, cujos trabalhos e investigações estavam publicados havia muito, quando o cientista italiano confrontou num diálogo pelo modelo platónico, e sem demonstrações matemáticas (a sua confiança nas medidas de Brahe e nas leis de Kepler era muito relativa), os sistemas de Ptolomeu e de Copérnico. Muito mais graves para a sobrevivência do aristotelismo escolástico, a que davam o golpe de morte da ciência experimental, do que os diálogos de 1632, são os de 1638, publicados sem escândalo, quando Galileu fora confinado à aposentadoria vigiada, mas honrosa, da sua casa de campo nos arredores de Florença. De resto, a crença absoluta no sistema de Copérnico (que este expusera no De revolutionibus orbium celestium, aparecido poucos dias antes de ele morrer, em 1543) fora sempre muito incerta, e colocada no plano da mera especulação intelectual. O prodigioso observador astronómico que Brahe havia sido, e cujos valores foram decisivos para o estabelecimento da teoria heliocêntrica, advogara um sistema misto, em que os planetas giravam em torno do Sol, enquanto este, arrastando-os, girava em torno da Terra, numa órbita mais ampla que a da Lua… Deste sistema misto, é que, na obra simultaneamente ocultístico-metafórica e de crítica de observações, que é a de Kepler (trabalhos sucessivos desde os fins do século XVI até ao fim do primeiro quartel do século XVII, surgiram as órbitas elípticas dos planetas. Mas Galileu, nos seus disputados diálogos, que lhe valeram a condenação, revertia às órbitas circulares, apenas por considerações intelectualístico-racionais, em contradição com o espírito do excepcional experimentador que ele, como grande mecanicista, sobretudo foi. E é nisto, como na atitude dele perante o Santo Ofício, que Galileu, bem mais que na questão do heliocentrismo, é, ao mesmo tempo, uma figura decisiva da história da ciência e um homem representativo do mundo novo que sucedia ao de Miguel Angelo e Shakespeare. Contra a razão intelectualista, ele expõe o orgulho (que é, no fundo, humildade mecanicista) da observação e da experimentação. Contra a autoridade do dogma e dos preconceitos, ele afirma a superioridade da ciência; e esta ciência, porque, na sua concepção já barroca, é mecânica, regida por leis imutáveis da matéria reconhecidas pela razão experimental, não exige mártires para subsistir. Na época anterior, Giordano Bruno tinha de deixar-se queimar vivo, para salvaguardar a dignidade da pluralidade dos mundos. Para Galileu, que ele se desmentisse, em nada alterava a dignidade e superioridade de uma ciência que já não era vida humana, mas uma mecânica universal a que obedeciam, com as suas razões ou sem-razões, ele e os seus juízes. A ciência e a vida já se não confundem; e a experiência da vida já não é, para Galileu, como fora para os renascentistas e os maneiristas, garantia de ciência. Esta cria-se da observação e da experimentação, articuladas pela razão humana. E, assim, ele, desdizendo-se do heliocentrismo e abandonando as investigações astronómicas, pode, anos depois e em paz, lançar discretamente a bomba terrível: e, não sem ironia, num tratado sobre o movimento dos projécteis… A ciência desistia de filosofar sobre as grandes coisas perigosas do Universo; e, em monografias especializadas e técnicas, preparava a derrocada delas. E isto é a época barroca.


Estes três centenários de 1564, de três génios cujas vidas cobrem pouco mais do mesmo século e meio (desde o nascimento de Miguel Ângelo à morte de Galileu), são exemplares para meditarmos nas três épocas sucessivas que eles representam na cultura europeia: Renascimento, Maneirismo, Barroquismo. A primeira deu-nos a dignidade do homem em face de si mesmo; a segunda, a agonia existencial; a terceira, a confiança na ciência como a grande libertadora. È dessas três dádivas que se faz o melhor da consciência do nosso tempo. E, por isso, homens como Miguel Ângelo, Shakespeare e Galileu, com as suas demissões trágicas ou irónicas, continuam, no meio de nós, tão poderosamente vivos. Se eles o não estivessem, seria porque nós o não estávamos. A grandeza humana tem destas contradições: são exemplos de dignidade extrema, um artista que descreu da sua arte, outro que reduziu o mundo às dimensões da que era a sua, e um sábio que se renegou. E, no entanto, um ensina-nos que a arte é válida, outro prova-nos que o mundo dos homens é imenso, e o último aponta-nos que, como dizia um dos seus grandes continuadores em nosso tempo, o físico Max Planck: "Uma verdade não triunfa nunca, mas os seus adversários acabam por morrer".
 

 

Camilo Pessanha

O poeta simbolista revisitado em 1954

Neste 2010 em que se comemoram 90 anos de publicação da Clepsidra, assinalamos a data transcrevendo algumas reflexões de Sena sobre Camilo Pessanha, que, como se pode constatar, tanto admirava. Sob o título de "Camilo Pessanha e António Patrício", o artigo foi publicado no Suplemento Literário de O Comércio do Porto, de 9 de fevereiro de 1954.

 

Camilo Pessanha morreu em Macau, em 1926, na China que tanto amou e da qual tão limpidamente escreveu algumas das melhores páginas da nossa literatura de “viagens”, como soe dizer-se. (…)

Camilo Pessanha pertence cronologicamente à geração que, em Portugal, aparece como introdutora oficial do simbolismo que seria mais correcto e mais lato chamar de esteticismo, pois que tal precisão verbal permitiria observar o panorama todo, sem dele separar a eclosão da poesia chamada “modernista”. A geração de Pessanha é a de António Nobre e de Raul Brandão, nascidos no mesmo ano que ele (ano áureo, diria o Acácio, com o meu desvanecido assentimento), aos quais não podemos, por infelicidade histórica e cronológica, juntar o nome do poeta singular, tão estranhamente parnasiano já, que foi António Feijó e tem, sob certos ocultos aspectos, algo de comum com Pessanha.

(…) Mas Camilo Pessanha que, como os poetas do Renascimento, circulou manuscrito, de amigo para amigo, e é publicado em volume em 1920 apenas, já no âmbito da revolução “modernista”, não se limita a ser um parnasiano atardado que o simbolismo afinou ou um esteticista para quem o exotismo tenha sido uma sua profunda virtualidade da alma: é o mais puro (senão o único, com algum Gomes Leal) simbolista da poesia portuguesa e um dos mais extraordinários artistas que em nossa língua haja escrito. Longe de procurar envolver em numerosos e rendilhados versos a expressão de indefiníveis ou vagos estados de alma – que foi a pedra do esteticismo e de certos aspectos saudosistas que tomou –, a sua natureza reticente e delicadíssima e o seu gosto seguro de poeta verdadeiramente culto enclausuraram-se em sugeri-los obliquamente, pela transposição quase mallarmeana dos factos, aliada a uma quebrada melancolia do dizer, que só tem paralelo em Verlaine. A sua poesia não representa, porém, nunca um inaudito esforço verbal para fixar o que quer que seja, como ela veio a ser no génio de Sá-Carneiro. Antes a selecção dos elementos imagísticos representativos de diferentes planos – a circunstância anotada, a situação espiritual a definir, e a emoção peculiar com que, para contrastá-la, o poeta se dá a definir uma e anotar outra –, antes essa selecção e o variável jogo da interpenetração dos planos (que, em Sá-Carneiro, se fundirão completamente, e em Carlos Queiroz, com pessoal humour, se cindirão ainda mais) produzem, numa linguagem quase sempre singela ou de ironicamente amaneirado pré-rafaelismo, e em ritmos regulares em que a subtil hesitação métrica se contraponha com versos inexoravelmente cadenciados, um puro milagre de murmúrio rigorosamente verbal, cuja alada forma a língua portuguesa nunca tivera e não tornou ainda a ter.

O que epocalmente representará a atitude mental de Camilo Pessanha, ao reencontrar no Oriente o seu “país perdido”, como o significado (já post-simbolista, que o aproxima de Yeats e de Rilke, também morto em 1926, “abandonado nas alturas do coração”) da sua clássica aceitação da fuga do tempo e da sua naturalística aceitação da realidade convivente da morte, e ainda o seu tão simbolisticamente exacto desdém do sentimentalismo – importará muito esclarecê-los. Mas, com admirável lucidez, não disse Camilo Pessanha – e, lucidamente, como o não diria de si próprio um poeta liberto “das falsas e convencionais emoções”? –: “Arte essencialmente subjectiva, a poesia (…) impossível é dar-se a conhecer indirectamente o valor estético das (…) obras, como é fazer-se compreender a beleza de uma sinfonia ou de uma romança, por outra maneira que não seja fazendo-a ouvir.”

Porque, na verdade, e é essa a sua qualidade de puro simbolista, para Camilo Pessanha a poesia foi criação, não apenas de formas originais e de sensações inéditas, mas e sobretudo de poemas (isto é, pessoal expressão e não expressão de uma personalidade que se tem por original). Os seus sonetos e mais versos não podem viajar como as tabatières à musique dos parnasianos, de que falou Claudel. Imponderáveis como são em sugestividade e ambiguidade magistrais, pesa neles a sua própria existência objectiva, e é preciso, pois, ouvi-los. E quem ouve, ou ouve subjectivamente, ou não ouve nada.
 

Estudos de História e de Cultura

Introdução, reproduzida na íntegra, da obra algo esquecida

Sob o signo da História, oferecemos a nossos leitores a introdução desta obra de pequena circulação mas da maior importância na trajetória ensaística de Jorge de Sena. Como poderá constatar o leitor, aí encontramos inúmeras pistas para caminhar com mais segurança por muitas das suas páginas ficcionais.

 

Que o homem possa fazer ou não fazer uma coisa tem sua importância para valorar o que realmente se faz
Antônio Gramsci ('Introdução ao estudo da filosofia')


Dos cinco estudos que se reúnem neste volume, um é histórico-genealógico («A Família de D. Afonso Henriques»), outro é sucinta análise da, compreensão anacrônica de uma figura («O Vitorianismo de Dona Filipa de Lancaster»), outro um contributo em que alguma História, alguma análise literária e um pouco de análise artística procuram lançar água — ou lenha — na questão dos Painéis («Os Painéis ditos de Nuno Gonçalves»); e, no último desta série, o mais vasto e ambicioso de todos, Inês de Castro é o pretexto para o exame das condições histórico-sociológicas que a criaram como mito literário, e para a análise estrutural das obras que o seu drama inspirou, desde as supostas referências de romanceiro perdido até aos Lusíadas de Camões, em que ela atinge o significado máximo de um dos símbolos constitutivos de uma filosofia da História de Portugal (tal como estruturalmente a epopéia de Camões pretende defini-la). Poderia dizer-se que o primeiro estudo, com a sua multidão de personagens, é como que o prólogo europeu a um Portugal que está nitidamente individualizado nos fins do século XIII, e cujo século XIV é a preparação para a grande época formada pelos séculos XV e XVI, de que se ocupam primacialmente os estudos seguintes.


Outros estudos mais ou menos monográficos, que há muito igualmente interessam o autor — como uma análise européia do reinado de Sancho II, o internacionalismo ancestral da Rainha Santa, a obra poética e a personalidade do rei D. Dinis, a vida e a obra (provável) do conde D. Pedro de Barcelos, a política internacional de D. Fernando (como precursora da revolução de 1383), a tomada de Ceuta à luz da política mediterrânica das potências européias, a personalidade e a obra do Regente D. Pedro, as vicissitudes dramáticas da sua descendência (esses príncipes tão europeus e que todos morreram jovens e foram sobrevividos por uma irmã que foi personalidade de destaque, em Portugal, e se chamava de seu nome o nome e o apelido de sua avó: Filipa de Lencastre), as conspirações do reinado de D. João II compreendidas como reflexo do que podemos chamar a «era dos duques» por toda a Europa do tempo, uma 'análise literário-sociológica do Cancioneiro Geral', um estudo da repercussão européia do mito de D. Sebasitião, etc. —, estes estudos poderiam também ter sido incluídos aqui. Mas, além de o conjunto resultar de dimensões desproporcionadas, que criavam graves problemas de edição, para quem, como o autor, só dispôs da gentileza da revista 'Ocidente', e não das capacidades de outras entidades para a publicação de calhamaços que não são de êxito popular (e nem sequer literato, que é a única forma portuguesa de um melhor êxito), aconteceria que se perderia, na massa compacta de estudos que vão contra idéias feitas que gozam dos favores de muita gente que passa por esclarecida, o impacto possível das análises, dos comentários, dos esquemas, e até de algumas informações menos conhecidas ou até ignoradas, que os presentes trabalhos concentram para interpretação e revisão da cultura do século XV e do século XVI em Portugal. Optou-se, assim, pela organização de séries sucessivas, das quais esta é a primeira; e incluiu-se nela o estudo sobre Inês, que pretende cobrir dois séculos da vida portuguesa, e que implica a referência à maior parte da problemática dos outros estudos acima enumerados e aqui não incluídos.


Poderá parecer estranho a várias pessoas que o autor de uma larga obra de criação e de crítica literárias apareça agora interessando-se pelos estudos mais especificamente históricos. E não faltará quem diga que, avançando na quarentena, que não é, todavia, uma idade provecta, começa ele a tomar as suas precauções para envelhecer; e é sabido que as minudências historicistas são o melhor refúgio para a velhice que perdeu as ilusões da criação e da crítica literárias… O autor preparar-se-ia para ser o Alfredo Pimenta das vanguardas literárias e políticas… Antes isso, do que ser o Pinheiro Chagas delas, a que alguns se têm candidatado, com reconhecidas vantagens para o historicismo enciclopédico, e algumas desvantagens para a investigação renovadora. E não faltará também quem avente a hipótese de que a distância e o exílio são favoráveis a um romanesco interesse pelo passado histórico. Puro engano tudo isso. Para um crítico que sempre pensou a visão sociológica como fundamental à compreensão dos fenômenos culturais, a História é necessariamente indispensável; e sê-lo-á tanto mais, quanto se não contente ele com esquematismos de ordem apaixonadamente política, que habitualmente têm feito as vezes, na cultura portuguesa, de interpretações sociológicas. Como se fosse possível, mesmo por novos métodos e critérios, reinterpretar validamente os dados de uma erudição, que não tenham sido, à luz desses novos métodos e critérios, previamente revistos! E é precisamente o que tem sucedido com um culturalismo que apenas troca o sinal dos dados acumulados pela imensa investigação levada a cabo pelo século XIX, sem retornar às fontes que esta investigação interpretou com diversa filosofia da História (quando a tinha), e não só interpretou como seleccionou e coordenou em obediência a concepções da vida, que não são já, nem poderiam ser, as nossas.


Por outro lado, e entrando em explicações de natureza pessoal, nada haverá de estranho em que, em 1963, apareça interessado por estudos históricos, um escritor que notoriamente se tem ocupado da literatura do século XVI; e que, como poeta e dramaturgo, publicou, mais de quinze anos atrás, uma tragédia que não só pretendeu ser uma meditação sobre o destino histórico de Portugal, como assenta, ao contrário do que costuma ser feito nesse gênero de teatro, numa investigação rigorosamente documentada. E não será imodéstia afirmar que essa peça marcou, na reabilitação histórica do infeliz Prior do Crato, data decisiva. A crítica literária, quando se ocupou dela, foi demasiado literata (ou demasiado «filosófica», se lhe prestou justiça — e não pode esquecer-se como houve quem a prestasse) para relevar este aspecto; e dir-se-ia que deliberadamente esqueceu, ao criticá-la, por ocasião da. publicação em volume (1951), que ela, escrita durante o ano de 1945, havia sido lida completa, em princípios de 1946, àqueles mesmos que, cinco anos depois, a criticaram como se a não tivessem conhecido antes. E, depois dessa leitura quase pública, a peça fora aparecendo, acto a acto, nas páginas da revista Portvcale de 1949 a 1951. Estas datas mostram a importância das cronologias para a crítica, pois que a publicação de várias obras eruditas sobre o Prior do Crato é posterior não só à redacção, como à primeira apresentação global da dita peça… Insistindo, porém, nas explicações de ordem pessoal: desde que me lembro de mim mesmo, a História sempre fez parte dos meus interesses; e uma das primeiras coisas que escrevi, ainda na adolescência, foi uma novela histórica sobre D. Fuas Roupinho. Este sujeito reapareceu-me muito mais tarde, numa pecinha surrealista que creio melhor que a incipiente e inconclusa novela. Mas talvez a esta eu a rescreva melhor algum dia.


Estes estudos agora reunidos não são, porém, ficção; e pouco importou ao autor que fossem elegantes ensaios literários sobre temas históricos. Foi sempre, e é cada vez mais a sua opinião, que a cultura portuguesa peca por odiosamente literária, mesmo quando alardeia níveis interpretativos ou amontoa os dados eruditos. De um ponto de vista científico, a maior parte dos estudos sobre a cultura portuguesa, que se é forçado a consultar, se quisermos escaparmos ao ensaísmo jornalístico e irresponsável, é de uma lamentável inanidade metodológica, exasperantemente vagos e difusos, quando, para afirmarem, não extrapolam dos limites certos. E nunca ou quase nunca — para lá de pomposas referências eruditas que as bibliografias estrangeiras fornecem muito facilmente — ultrapassam, sempre que se impõem os cotejos interpretativos com as culturas de outras épocas e lugares, um conhecimento destas culturas ao nível do manual elementar, perfeitamente insuficiente para que a cultura portuguesa não fique reduzida à escala da ignorância provinciana de quem se ocupa dela. De resto, quase ninguém está interessado em investigar a verdade que tem sido, pró ou contra, sistematicamente falsificada pelos preconceitos ideológicos; e sem dúvida que é muito mais sedutor, e até mais cômodo, acreditar e fazer os outros acreditar, nas facções que julgamos pragmaticamente mais úteis. E nisto reside um dos maiores castigos que a História reserva a quem se dá ao perigoso jogo de brincar com ela.


Porque, na medida em que interpretarmos o passado com os preconceitos do presente, ficarão escondidos e intactos dentro deste os elementos político-sociais que não denunciámos no passado. A este respeito, a confusão — bem ou mal intencionada — tem sido clamorosa. A historiografia portuguesa, e quem diz historiografia diz qualquer tipo de ensaísmo que aflore implicações históricas, pareceria extremamente saudável, porquanto as acusações retrospectivas se acumulam nela: não haverá português que não tenha, perfidamente escondido nas brumas do nosso tempo histórico, um inimigo pessoal. Isto, porém, nada tem que ver com revisão do passado; e é, pelo contrário, uma forma de evasão às responsabilidades do presente. Mais fácil que exorcismar aquilo que nos impede de sermos de hoje, será por certo acusar um passado que nos autoriza a sermos de ontem. E é por isso que, na primeira oportunidade, o passado ressurge monstruoso para apoderar-se de nós. Precisamente em Portugal o estudo da História deveria demonstrar como isto é uma verdade terrível; e deveria servir de escarmento àqueles que da História se servem, julgam eles que para salvar a pátria, e afinal contribuindo para que ela se perca e com ela os sonhos mais generosos que os levaram a convencer-se de que a História só é sociologia (ou anti-sociologia…) a partir do momento em que a imaginaram tal.


Seja qual for a posição política de portugueses de hoje, a todos se impõe um responsável exame de consciência. E nenhum exame será eficaz e autêntico, se não for haurido na meditação desapaixonada de um passado cujas glórias, tanto como os desastres, pesam no nosso destino. De nada adianta diminuir as glórias (ou aumentá-las), e amplificar os desastres (ou diminuí-los). E muito menos adianta reexaminá-los como se os actores deles pudessem ou devessem prever, sem erros, o futuro que nos envolveria o nosso presente. Esse tipo de retaliação retrospectiva, por muito nobre que seja nos seus propósitos, é sempre uma perigosa falsificação da verdade possível. E, se a política é feita de falsificações conscientes e oportunas, ou tidas como tal, não menos elas constituem um atentado contra a independência de um povo que tem, na sua superestrutura pensante, os responsáveis imediatos pela definição do seu destino. Em História, que é Vida, o grande mal é podermos ser filhos dos pais que não escolhemos; mas o grande bem é podermos, pela liberdade da consciência, assumir a paternidade que o acaso pretendeu impor-nos. A bem dizer, este mesmo acaso só existe, quando um povo, ou a parte responsável dele, abdica desse inalienável direito da humanidade.


Não alimenta o autor quaisquer pressupostos idealistas a este respeito. Sabe e acredita que aquela definição não é válida, se não decorrer da própria experiência social de uma população empenhada em conquistar, nacional e internacionalmente, o respeito que lhe é devido, não apenas por uma História gloriosa (todos afinal têm História gloriosa para si mesmos, e isso nunca impediu que lhas faltassem ao respeito), mas por uma existência secular que, com História ou sem ela, exige o reconhecimento de que desfrutou noutras eras. Mas honestamente pensa, e não tem pejo de dizê-lo, que, até hoje, nenhuma filosofia da História, nem mesmo aquela a que pessoalmente adere, resolveu o problema da responsabilidade historiográfica, por modo a ilibar individualmente aquele que se dá aos estudos históricos.


Não que a História deva ser — e corre absurdamente o risco de voltar a sê-lo, numa Europa burguesa desesperadamente consciente de que a sua supremacia tem de ser traduzida em novos termos — uma escola de heroísmos e de virtudes; nem que deva, paralelamente a isso, tornar-se uma apologia (ou, inversamente, um processo feroz). Uma das grandes comédias do historicismo consiste precisamente em fazer supor que, em História, alguma coisa necessita de desculpa, ou serve de desculpa. A História não é, como nenhuma ciência é, um capítulo da ética. E o princípio da causalidade, se existe, não ultrapassa o domínio da justificação lógica. Nós é que somos animais éticos e políticos.


Se há maneira de superar estes dilemas, ante os quais a objectividade pode constituir a maior das falsificações, ela consiste em nunca afirmar como se a verdade fosse qualquer coisa independente de nós mesmos. A fria e nua publicação de documentos pode ser uma forma superior de iludir o próximo… — porque até a ordenação deles encerrará uma sub-reptícia tentativa de aliciamento para determinada visão dos factos. Mas consiste igualmente, aquela maneira, em não confundirmos a possível verdade com o fascínio ou a repulsa que ela exerce sobre nós.


A verdade histórica existe até ao ponto em que se não escamoteia intencionalmente nenhum dado que chegou até nós; daí em diante, ela depende essencialmente da peculiar compreensão que ideologicamente tivermos dela. Ora, mesmo progressista, uma concepção do mundo será sempre viciosamente ideológica, se não for referida filosòficamente ao ser que a aplica. Isto é, se não implicar uma vigilante e conscienciosa crítica dos postulados teoréticos de que decorre. Tudo o que não é consciência em nós, jamais poderá sê-lo nos outros. E há ainda uma outra razão, essa muito humana, que de nós exige uma tal transformação da ideologia em filosofia. É o respeito que, como indivíduos que a morte silenciará, temos o direito de esperar dos nossos vindouros. Automaticamente abdicamos desse direito de que é feita a dignidade do Homem, se não tivermos tratado com igual respeito os indivíduos que nos precederam. Se o presente quase nunca ou nunca é aquilo que desejaríamos ele fosse, reflitamos que talvez, nas horas silenciosas e amargas da confrontação consigo mesmos, isso tenha sucedido aos nossos antepassados. A consciência infeliz não é afinal apanágio nosso. Foi sempre o preço pago, no mundo, por alguém que tenha desejado meditar sobre ele. E, se as sociedades e os tipos de relações humanas mudaram muito, no tempo e no espaço, a historioidade fundamental do gênero humano nunca deixou de compor-se das dores e das amarguras daqueles que, através dos tempos, possibilitaram a existência dessa abstracção.


Ao ressuscitar a história genealógica, para reunir a multidão de personagens que seria necessariamente a família européia do nosso primeiro rei, não foi outro o propósito do autor, senão o de chamar a atenção para um contexto humano que as abstracções históricas têm feito esquecer. A historiografia portuguesa tem enfermado, a este respeito, de graves erros de visão, que deveria ter sido fito da minha geração corrigir. De época para época, foi-se perdendo a medida comum com o resto do mundo. Mas o que seria compreensível e explicável noutras eras, é indesculpável hoje, quando, retornando a historiografia a um contacto fecundo com a investigação histórica prosseguida noutros países, a fecundidade possível se dilui na integração de uma História que não revimos, nas revisões a que os outros procedem. Foi assim que não tem sido entendido o sentido da historiografia portuguesa pretérita.

 

É evidente que, e o mesmo sucede em todos os outros países da Europa, os nobiliários, os cronicões, os anais, etc, que os primeiros séculos da nossa História nos legaram — e que tão longe estão de repostos ao alcance dois estudiosos —, não eram escritos com critério historiográfico, porque ou visavam a servir determinados interesses concretos, ou a ser muito apenas memorandos de efemérides para as quais não era necessário grande rigor. Não podem ser condenados por não serem aquilo que não pretendiam ser. As crônicas oficiais — que o são — dos séculos XV e XVI, tão diversamente e tão preconceituosamente julgadas, com a mais absoluta confusão de critérios, têm de ser lidas como o que realmente eram: registo oficial dos acontecimentos do reino. Quer os nobiliários, quer as crônicas, não podiam ter, por razões diversas, uma visão universal ou ao menos européia desses acontecimentos. Não por não a terem… Mas os primeiros, porque tratavam de gente que se sentia integrada na Europa (ou, o que era o mesmo, na cristandade), e que, não sendo sensível a diferenças que socialmente não existiam entre os membros do feudalismo europeu a que todos pertenciam, não sublinhava uma unidade que não necessitava de demonstração — esses primeiros não alimentam ostensivamente uma visão extrínseca de tal unidade. As crônicas, por sua própria natureza, não transcendem o âmbito nacional a que visam, embora por vezes sejam bem mais conscientes das conexões estrangeiras do que muitos historiadores que se servem delas. Quando, mais tarde, a sociedade portuguesa se volta para os descobrimentos e conquistas, do mesmo modo a História era, para os homens que a faziam com as armas ou com a pena, algo que prolongava a civilização européia tão implicitamente, que a própria História da metrópole portuguesa se apaga ante a projecção imperial de que a historiografia oficial não pode deixar de ser a justificação. Após a humilhação de 1580-1640, e já durante ela, os historiadores estavam, necessariamente, muito mais empenhados em demonstrarem a si mesmos a anterioridade histórica do país como entidade legítima, do que em, sem dúvidas nesse ponto, verem-no como um país entre os outros (no que, aliás, herdavam, mas de modo paradoxalmente negativo, a convicção de missão histórica, que culminara n'Os Lusíadas de Camões). A historiografia dos séculos XVIl e XVIII, que vai tender, através do aulicismo, para uma visão «esclarecida» da História, não estava em condições de corrigir estes erros de visão, que iam deformando cada vez mais o entendimento da historiografia pretérita e, consequentemente, a compreensão da própria história portuguesa. O esforço de correcção erudita, que, nos fins do século XVIII, foi feito (e a historiografia romântica prosseguiu), teve o grande mérito de pôr os estudos históricos em bases científicas que, por precárias que fossem, não menos procuravam ser documentais. Mas os documentos, se não são transpostos para um contexto mais lato, confinam a História em pulverizações regionais. Não seria a historiografia liberal e romântica a que poderia dedicar-se a europeizar a História portuguesa. Demasiado assentava nos preconceitos do nacionalismo burguês e na fascinação de um medievalismo romanesco, para estar interessada em superar o provincianismo que cada vez mais anquilosava a nossa historiografia. Um dos erros maiores do progressivismo historicista dos nossos dias está em não dissociar, por renitente prejuízo liberalístico, num Alexandre Herculano, o investigador, e o ideólogo, que ele foi, de certa fase da democracia liberal. E as visões fantásticas de um Oliveira Martins, muito menos superam aquele complexo de inferioridade perante a Europa, que vinha consolidando-se desde o século XVII, o resolvem em romanesco trágico as incompreensões anacrônicas do passado português. Não deixa de ser curioso e sintomático que os maiores historiadores portugueses dos finais do século XIX — Costa Lobo, Gama Barros, Alberto Sampaio — sejam, ao mesmo tempo, homens sem estilo e sem horizontes. A reacção antiliberalística, por vinculada ao patriotismo de campanário, herdou e acentuou as limitações do nacionalismo liberalista, do qual era, de resto, e sociologicamente, a decorrência inevitável. E os historiadores progressistas, ao combaterem a miopia patriótica, em termos de reivindicação de um liberalismo já superado, seriam arrastados, como foram, a desvalorizar no plano da História internacional aquilo que tão ridiculamenite era nacionalmente magnificado. Uns e outros, no afã de salvarem Portugal por conta própria, mais o afundaram num isolamento historicista em que todas as perspectivas universais se perdiam. Quando, nas últimas décadas, e sobretudo por influência da moderna historiografia francesa, os estudiosos começaram a procurar novos rumos de pesquisa, ficaram entre eles coexistindo duas linhas que mutuamente deveriam excluir-se. A dos culturalistas que nada renovam da investigação oitocentista, senão com interpretá-la ao gosto das vanguardas políticas (no que tipicamente fazem historiografia pequeno-burguesa, quando julgam estar fazendo obra de esclarecimento). E a dos investigadores monográficos, que se afastem de interpretar em termos que envolveriam uma filosofia da História, disciplina que têm em ascético horror. Os culturalistas prolongam, sem no fundo renová-la, a historiografia romântica. E os monografistas, porque faltam em Portugal os estudos monográficos que abundam lá fora, ficam necessariamente subordinados, para justificarem a própria existência, a esses estudos que, para serem aplicados comparativamente a Portugal, exigiriam uma colecta de elementos pelos quais fossem aferidos.


Transposto tudo isto para a história da cultura portuguesa, os culturalistas disfarçam a falta de conhecimento concreto das épocas de que se ocupam, envolvendo uma análise de obras e autores tomados isoladamente, em vagas interpretações bebidas no Hauser da 'História Social da Arte', que não é obra erudita, mas comspecto muito geral (e nem sequer filosofioamente garantido para os fins a que o aplicam). E os monografistas inspiram-se nos monumentos publicados pelas Presses Universitaires de France para ilustração dos bárbaros. Nada disto tem que ver, senão muito tangencialmenite, com Portugal como país da Europa, há oito séculos, desde quando ser rei de França ou da Inglaterra valia tanto como ser rei de Portugal. Se é certo que não podemos aguardar a magna revisão que se impõe, e que aliás excede a capacidade individual de investigação (para exigir um esforço colectivo e imenso, devidamente coordenado), também é certo que nos cumpre igualmente evitar os erros do culturalismo e do monografismo, quando eles, tentando meritòriamente sair do impasse em que se encontra a historiografia portuguesa, iludem a dificuldade que é reformular em conjunto a velha erudição nacional e a nova erudição estrangeira. Essa fuga à reformulação necessária é o pior dos impressionismos críticos e o mais irresponsável, porque se acoberta 'atrás do prestígio científico de investigações que não foram revistas, para nós, por nós e para o nosso tempo.


Mas o estudo da história cultural, envolvendo o exame de obras de arte, não pode contentar-se com rever os dados da erudição, ou os panoramas das instituições e do comércio europeus. Precisa entrar resolutamente pela análise estrutural dessas mesmas obras. Todos estamos fartos de ouvir brilhantes opiniões (nem sempre…) sobre as obras literárias ou outras, que são patrimônio da nossa cultura. Mas, por incrível que pareça, não se passou nunca à observação concreta do que essas obras são. Figuras como Fernão Lopes, Gil Vicente, Antônio Ferreira ou Camões, continuam a ser interpretadas caprichosamente, aparecendo como precursores ou como obstáculos, no caminho que se pretende a nossa cultura siga. Jamais tão insignes mestres e letrados, como os que se ocupam destes escritores, se detiveram a dizer-nos quais as partes em que uma obra deles poderá estar composta, que função a linguagem é chamada a desempenhar nela, o que distingue essa linguagem das suas contemporâneas, etc., e outras insignificânoias hoje tidas, em todo o mundo (ocidental ou oriental…), como indispensáveis ao entendimento de uma obra de arte e da personalidade que a criou (e, consequentemente, ó culturalistas, da época que as viu surgir, e daquilo que torna essa época algo que nos diz respeito). Por isso, no estudo aqui incluído sobre Inês de Castro, se procede à análise exaustiva de, por exemplo, a 'Castro' de Ferreira, não apenas para podar-se compreender a obra em si, mas também a cultura tão incompreendida que a suscitou.


Esta nota prefaciai vai longa, e talvez iluda os leitores de prefácios (que o não sejam dos escritos que eles precedem) acerca de um caracter polêmico que os estudos agora reunidos não possuem. Eles procuram sobretudo elucidar, corrigir, desmentir, analisar, e sempre num contexto de história e de literatura comparadas. Porque a comparação é muito útil para sairmos de vez do provincianismo satisfeito ou indignado em que há tanto se debate inanemente a cultura portuguesa. Seria estulto que o autor pensasse, ou que se lhe atribuísse que pensasse, estar à espera dos seus estudos para reformar-se culturalmente. De modo algum. Passou já para ele o tempo de julgar-se indispensável à sua própria pátria, seja para o que for, se é que alguma vez, no fundo do seu coração, chegou a pensar nisso senão como ilusão amena. E, se hoje, no isolamento que lhe tem permitido realizar tantos trabalhos que tinha em mãos há muitos anos (e não pode, a este respeito, deixar de consignar aqui a sua gratidão ao Brasil, que lhe concedeu os meios de ser, em plena ocupação, o estudioso que agora é), continua a preocupar-se com os destinos dela e com a integridade da cultura que ela representa, tem plena consciência de que o faz como o outsider que sempre foi e se honra de ter sido em tudo. E que, portanto, não pode esperar para os seus estudos a repercussão que mesmo inimigos políticos sempre mutuamente se reservam, desde que uns e outros tenham freqüentado idênticas escolas de ciência já feita. Em história ou em crítica literária, sabe o autor perfeitamente que qualquer estudo seu, por importante que seja, sempre valerá menos que um mísero artigo de qualquer licenciado em letras, que ele não é; enquanto fora desses círculos, nos meios em que o jornalismo oportunista e o ensaísmo de apressada cultura dão o tom, um qualquer estudo seu trata de uma cultura nacional que não interessa a ninguém, parque faz apelo a um passado que todos temem demasiado para conhecerem-no e amarem-no. Um quarto de século servindo à cultura dos outros ensinou ao autor alguma coisa. Mas ensinou-lhe igualmente que só o outsider está em condições de pertencer à comunidade dos mortos que estão vivos, e não à dos vivos que estão mortos. Quem está de dentro como o bicho da fruta, morre com a podridão que provoca.
 

Jorge de Sena e o Dinheiro

Por Beatriz Helena Souza

Considerando que falamos do poeta que se colocou a serviço do testemunho, poderíamos nos perguntar qual o espaço que ocupa, bem como o papel que desempenha, o dinheiro na obra seniana.


Dinheiro é tema que perpassa a obra de Jorge de Sena, evidenciando diversos modos de relações entre as pessoas. Comparece como medida de valor, frequentemente para marcar a desvalorização do ser humano. É o caso, por exemplo, do poema “Rendimento”, datado de 1946 e publicado em Post-scriptum, de 1961, no qual temos demonstrada a necessidade de pedir esmolas por parte de um adulto, que “No regaço, e protegido pelos joelhos agudos,/ tinha um boné no qual/ esmolavam os transeuntes.” (SENA, 1961, p.183). A essa esmola chamarei de dinheiro-humilhação, que aponta para a importância do dinheiro na nossa sociedade. Podemos observar na cena a inscrição de um desconhecido, do qual também se indicia a falta de saúde, fator cuja principal consequência — tema central no poema — é o impedimento para o trabalho, o que inviabiliza o atendimento das necessidades básicas para a manutenção da vida em condição minimamente digna.

O fato de se estar empregado, como o taxista de “Lisboa, 1971”, por sua vez, não traz a solução para a questão do sustento, visto que pelo trabalho não se obtém a quantidade de dinheiro suficiente para atingir tal objetivo. Como um bom capitalista, “(…) o patrão conta/ que ele se arranje do a mais com as gorjetas.” (SENA, 1989, p. 173/4) Apropriadamente, este poema aparece num livro intitulado Exorcismos. Aqui temos um dinheiro problemático, visto que, embora de origem lícita, não implica obrigatoriedade por parte do cliente, e torna-se, pois, necessária a denúncia. Considerando o fato de que o poema é localizado num tempo específico, já desde o título demarcado, e posteriormente reforçado por uma cifra específica num verso, constitui um importante testemunho das mazelas do sistema então vigente.

O chamado “vil metal” presta-se, por outro lado, aos seus usos habituais, como a aquisição de objetos e a contratação de serviços. Por exemplo, as noitadas com prostitutas que podemos ler no romance inacabado Sinais de Fogo, assim como, neste mesmo romance, o custeio do deslocamento e dos mantimentos, já que é necessário conseguir dinheiro para financiar a fuga dos dois espanhóis escondidos na casa do tio do protagonista Jorge, por ocasião do início da Guerra Civil Espanhola.

A produção poética de Jorge de Sena abarca um longo período, em que acontecem inúmeras transformações no mundo. Isto nos permite encontrar o dinheiro indiretamente relacionado ao trabalho, mesmo em profissões não convencionais, como os “não actores” que “se alugam para filmes/ da mais brutal pornografia crua”, no poema “Filmes Pornográficos” (SENA, 1989b, p.210) — testemunho do surgimento da indústria do cinema pornô, a explorar um nicho de mercado. Estes funcionários “(…) só fazem/ tudo o que possa imaginar e a sério/ com a máquina espreitando bem de perto”, e aqui o que causa espanto é a transformação da observação do ato sexual num produto, num bem monetariamente mensurável e, portanto, passível de comércio; sem falar na mais-valia gerada por esta atividade, na qual seres humanos são transformados em espetáculo, não sua atuação. Outros trabalham na filmagem, outros ainda na bilheteria das salas onde o filme deve ser exibido, e o direito de assistir a uma mesma fita será vendido a diversos espectadores, gerando assim lucro, inúmeras vezes.

Convoco para esta questão Bertolt Brecht, quando nos lembra de que vivemos sob certas construções humanas, particularmente modelos econômicos, que não são naturais. O advento do dinheiro, enquanto elemento que permitiu maior mobilidade aos indivíduos, já que não precisavam, por exemplo, de ficar presos à terra para usufruir de suas posses, constitui-se também num fator de transformação profunda nas relações sociais. Voltando a “Filmes Pornográficos” (SENA, 1989b, p.210), temos o surgimento de novas relações profissionais para a obtenção de tão inusitado produto, simplesmente pelo inegável fato de que, no capitalismo, pretende-se que o dinheiro possa comprar tudo. Isto nos remete aos versos finais de “Tudo é tão caro”, pois, de fato, considerando que nem tudo esteja à venda, “nem mesmo com possuir/ eu poderei pagar-te.” (SENA, 1989, p. 69).

Temos, ainda, uma das formas iniciais de dinheiro, no sentido de instrumento de medida social de valor: o sal, de onde surgiu o vocábulo salário, como é de conhecimento geral. Jorge de Sena, em “Conheço o sal”, de 1973, soube expressar a idéia do valor de um relacionamento entre um casal, a marca daquela convivência entre os “amantes enlaçados” (SENA, 1989, p.232) do verso final, definidora do conhecimento de ambos sobre cada um, ao longo de muito tempo. Algo que não tem preço e, por isso mesmo, vale mais ainda.

Num sistema baseado na propriedade privada dos meios de produção e acumulação de bens materiais, no qual autor e obra estão inseridos, o dinheiro opera tal como a chave que abre todas as portas. Sua ausência cumpre, assim, o papel de instalar o espaço da pobreza material ou denunciar a desigualdade social em que se estrutura uma sociedade. Sena o desmascara, no entanto, em “Ode aos livros que não posso comprar”, a partir de uma (não) metáfora, conforme escreve Luis Maffei, “Simples como isso:” e cita os versos iniciais do poema: “Hoje fiz uma lista de livros,/ e não tenho dinheiro para os poder comprar.”, e completa: “uma afirmação que poderia estar fora de um poema. Mas não está.”(MAFFEI, 2009, p. 157). Aqui não se lamenta a impossibilidade da atitude consumista, mas “(…) preciso de comprar alguns livros,/ Uns que ninguém lê, (…)/ Para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles”, sinalizando que o caminho para a suplantar a “minha vida difícil” (SENA, 1989, P. 143) extrapola o que o dinheiro possa comprar. Para tal existe a a arte, aquilo que pode haver de mais humano feito por nós.

“Jorge de Sena nunca escreveu nada em que não se escrevesse.” (LOURENÇO,1999, p. 44), escreveu Eduardo Lourenço, e aqui comparece o “Lamento de um pai de família”, cujo início cito: “Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna alguma/ ser poeta …”. É interessante notar que, embora o vocábulo não apareça em momento algum neste poema, a falta de dinheiro é o que se está lamentando, notadamente pela “(…) miséria que me dão e querem dar a meus filhos,(…)” o que, para além de um possível dado biográfico, compõe um forte testemunho da angústia de viver entre aquela parcela de excluídos do sistema, “o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria (…) à penúria absoluta, para produzir um rico” de que falava Almeida Garrett. (GARRETT, 2008, p. 25).

O capitalismo, como sabemos, não inventou a exploração do homem pelo homem. Sena, leitor de Camões também, o sabia. Além de sua obra poética, Jorge de Sena dedicou-se anos a fio à obra de Camões, revolucionando a leitura do vate quinhentista, sobretudo por demonstrar que “Camões não é o pastelão patriótico-clássico que durante anos tem sido.” (SENA, 1970, p. 11), segundo suas próprias palavras. Sena atribui um novo valor àquele que, em sua obra maior, refletia sobre o significado e consequências do audacioso projeto expansionista e mercantilista, projeto que, assim como no capitalismo, poderia enriquecer muito poucos em detrimento da miséria da maioria.

Assim, chegamos a “Camões dirige-se aos seus contemporâneos”, escrito em 1961, poema no qual o poeta dá voz a um Camões que amaldiçoa, em versos como “Não importa nada: que o castigo/ será terrível.” (SENA, 1978, p. 99), aqueles dos quais não obteve recompensa de espécie alguma em vida, assim como aqueles que virão a roubá-lo. Recompensa e roubo têm relação com dinheiro, pois somente algo de valor pode funcionar como prêmio, bem como ser atrativo para ladrões. Do pouco que sabemos sobre Luis de Camões, é certo que nada lucrou com seus escritos. No conto “Super Flumina Babylonis”, o maior escritor da língua portuguesa é apresentado por sua mãe como o “filho envelhecido e doente” (SENA, 1966, p. 155), e ele a ouve dizer que “isso de poesias nunca dava nada a ninguém” (SENA, 1966, p. 164). Camões está na miséria, com a tença atrasada, e eis aqui novamente a falta de dinheiro marcando o espaço da pobreza.

Jorge de Sena, num de seus famosos prefácios, diz o que considera ser tarefa dos escritores: “num mundo onde as vidas se tornaram tão baratas que podem ser gastas por milhões, aos escritores cumpre resistir.” (SENA, 1988, p. 22). Em sua obra, Sena abordou o dinheiro visando à resistência e à supremacia do humano sobre a “vã cobiça” (Lus, IV, 95, 1), que ainda anda pelo mundo, onde “tudo é tão caro”.

 


Bibliografia

CAMÕES, Luis de. Os Lusíadas. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora; 1980.

GARRETT, Almeida. Viagens na minha terra. São Paulo: Martin Claret; 2008.

LOURENÇO, Eduardo. Viagem no imaginário crítico de Jorge de Sena in SANTOS, Gilda (org.). Jorge de Sena em rotas entrecruzadas. Lisboa: Edições Cosmos, 1999, p. 43-50.

MAFFEI, Luis. O dinheiro como metáfora ou a (não) metáfora do dinheiro em dois poemas de Jorge de Sena. Gragoatá n.26. Publicação do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal Fluminense – Niterói: EdUFF; 2009, p. 155-170.

SANTOS, Gilda (org.). Jorge de Sena em rotas entrecruzadas. Lisboa: Edições Cosmos, 1999.

SENA, Jorge de. A estrutura de “Os Lusíadas” e outros estudos camonianos e de poesia peninsular do século XVI. Lisboa: Portugália Editora;1970.

_____. 40 anos de servidão. Lisboa: Edições 70, 1989.

_____. Novas andanças do demônio. Lisboa: Editora Círculo de Leitores, 1966.

_____. Poesia I. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1961.

_____. Poesia II. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1978.

_____. Poesia III. Lisboa: Edições 70, 1989.

_____. Sinais de Fogo. Lisboa: Edições 70, 1984.

Notas sobre regressos a Portugal: Cartas inéditas de Sarmento Pimentel e Jorge de Sena

por Gilda Santos e Mécia de Sena

Em fins dos anos 90, ao preparar um dossiê* sobre a presença de personalidades portuguesas no Brasil, o nome de Sarmento Pimentel logo se me impôs. Participante do fracassado movimento revolucionário do "7 de fevereiro de 1927" contra a Ditadura militar, implantada pelo golpe de maio de 1926, antecipa com seu longo exílio no Brasil uma série de incontáveis exílios que o salazarismo motivaria. Personalidade íntegra e generosa a mais não poder, tornou-se logo, nas palavras de Jorge de Sena, "um símbolo da resistência ao fascismo", uma "figura tutelar" da "atividade dos oposicionistas no Brasil, capítulo de alguma importância na longa cadeia de ações que culminou no 25 de Abril." Homem de ação e de cultura, soube congregar em torno do jornal Portugal Democrático, de que foi feito "Presidente de Honra", um extraordinário grupo de colaboradores, capaz de imprimir ao periódico tal nível de qualidade como raras vezes se terá visto em publicações assim politicamente comprometidas.

Como foi Jorge de Sena o prefaciador, por duas vezes (1963 e 1974), de seu originalíssimo livro Memórias do Capitão, e como os laços afetivos entre o casal Sena e o Capitão eram dos mais estreitos, ocorreu-me pedir a Mécia de Sena que se incumbisse de o relembrar. Assoberbada de trabalho, mas, ao mesmo tempo, desejosa de homenagear o querido amigo, da conversa entabulada vingou uma sugestão sua: escolheria algumas cartas trocadas entre ambos, inéditas, e brevemente apresentá-las-ia. Como, graças à sua inacreditável capacidade de trabalho, a correspondência entre os dois encontra-se já preparada para publicação, não foi difícil a Mécia atender com rapidez a meu pedido. Poucos dias depois, chegaram-me pelo correio algumas páginas, numa inconfundível datilografia, precedidas da seguinte nota, datada de 25 de março de 1999:

Projectava eu, com o apoio de Vasco Graça Moura, então presidindo à publicação na Imprensa Nacional/Casa da Moeda, ir publicando, lenta mas regularmente, a rede imensa de correspondência que Jorge de Sena mantivera com as mais variadas pessoas, às vezes praticamente toda a sua vida de adulto. Mas as condições alteraram-se, e o projecto não foi além de quatro "diálogos" publicados: Guilherme de Castilho, José Régio, Vergílio Ferreira e Eduardo Lourenço, além de uma pequena selecção da larga correspondência que comigo mantivera.

Entre as muitas pessoas a quem me dirigi, no sentido de me darem acesso às cartas, sobretudo anteriores a 1963, quando Jorge de Sena começou a dactilografar as suas cartas e a escrever com cópia, já que as cartas que se "perdiam" entre o Brasil ou Estados Unidos, e Portugal eram muitas, contactei o nosso queridíssimo "Comandante" João Sarmento Pimentel, com quem prolonguei até o fim da sua vida, não muito frequente mas imensamente amiga (quase diria carinhosa) essa correspondência. Sarmento Pimentel, não só logo me enviou cópias, como ampliando a sua generosidade à altura que sempre lhe tínhamos conhecido, me mandou todos os originais, que guardo como coisa preciosa.

São mais de duas centenas as cartas, mensagens e postais trocadas, entre os dois amigos que se estimavam e admiravam mutuamente, com um imenso respeito que não estorvava a familiaridade.

Dado o limite imposto pelas dimensões da revista onde a matéria se publicava, acordamos, Mécia e eu, na seleção das cartas que se seguem (transcritas na íntegra), que têm como elo temático o relato de regressos a Portugal dos dois amigos — em tempos e circunstâncias bem distintas. Pensamos ser interessante observar, para lá do estilo de cada autor, os comentários feitos sobre a terra natal revisitada depois de longo afastamento, depois do constante compartilhar da vivência do exílio.


São Paulo, 05 de abril de 1969

Meu Caro Dr. Jorge de Sena

A última notícia da sua passagem por Portugal li-a hoje no Comércio vindo pelo correio marítimo, mais moroso que as naus dos quintos. As outras eram reportagens das suas entrevistas, conferências, triunfos literários, êxito da operação que lhe extraiu os calhaus encrustados no fígado e que certamente haviam tido origem nas malfeitorias dum exílio sem fim e de mil dificuldades que houve de vencer para atingir aquela fama de notável professor universitário, além do árduo e absorvente trabalho cotidiano que garantiu sustento à sua numerosa e encantadora família.

Eu imagino o carinho e a alegria dos nossos amigos portugueses por poderem abraçar o grande escritor, o poeta, o humanista que universalmente se projectou com os seus livros, sua inteligência, sabedoria, portuguesismo fidalgo um pouco quixotesco, mas victorioso, exemplar, pleno daquela nobreza de carácter que dignifica o homem e o clerc.

Nessas andanças, celebradas pelas gazetas ainda mais que as "andanças do Demónio", Você deve ter perdido alguns kilos e também aquele mau humor com que via a vida de lutas, de invejas mesquinhas, feiosas ingratidões. Suponho-o feliz e contente nesse meio de infinitas possibilidades e rodeado da mocidade alegre, inquieta, cheia de esperança, que são os seus discípulos. Adivinho também o seu lar encantador, ruidoso, quando não atento às "Fantasias de Mozart, para tecla" que Você refere na página 31 da sua Arte de Música. Eu recebi em novembro de 1968 este precioso feixe de poemas que tanto me encantou como surpreendeu, pois nunca havia dado pelo seu genial entendimento nessa divina arte. Poeta, e do mais alto gabarito, está ali o Jorge de Sena de sempre, mas o mestre, o conhecedor de tantos e tão diversos e famosos compositores dá uma ideia dum ilimitado poder de conhecimentos que me trazem à lembrança Leonardo da Vinci: — "Toute la curiosité intellectuel de la Renaissance, ses rêves de gloire et de progrés indéfini, son enthousiasme pour la beauté et la science, furent reunis, avec d'autres qualités de génie, en Leonard." Livro de cabeceira agora é para mim Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular, assunto já conhecido da leitura da tese que vi e ouvi defender em 1964 e à qual faço referência no 2° volume das Memórias. Mas é agradável reler as doutas e concludentes investigações e sábios comentários do mestre camonista. Este livro devia trazer a edição diplomática da Lírica de Camões e ficava assim o mais valioso e autorizado tratado do mais notável poeta lírico da língua portuguesa. Neste exemplar, que recebi há dias vem a autografá-lo as generosas palavras da sua amizade e que logo mostrei aos meus filhos e aos netos mais crescidos que já podem compreender a valoração bibliográfica dada pelo meu amigo às raridades da minha biblioteca.

Fico ansioso pelas impressões de ordem política da "Formosa Estribaria". Ando desanimado com a atitude dos sucessores e continuadores do fradalhão de Sta. Comba. Quando o Caetano falou pela primeira vez e consertou a perna no Mário Soares nós aqui tivemos a infeliz ilusão de que ia começar o fim do reinado pidesco. E telegrafamos-lhe em termos dignos, sem abdicarmos da nossa posição de democratas, evidentemente. "Que crédito que dá tão facilmente/ o coração àquilo que deseja" já dizia o Camões. Dura lição e eu, ao contrário do poeta, não fiquei contente por me haver enganado.
D. Mécia teve a gentileza de me escrever dando as suas notícias quando andava acompanhando de longe, como nós aqui, essa triunfal caminhada pela Europa universitária. Dê-lhe os meus melhores agradecimentos. Esta prosinha vai assim mesmo atabalhoada, emendada, e malfeita. Desculpe-a, é preguiça de velho amigo admirador e muito grato.

João Sarmento Pimentel

 


Madison, Wis., USA, 8 de maio de 1969

Meu querido Comandante,

Já não sei há quanto tempo lhe devo notícias, enquanto vou sempre recebendo sinais da sua amiga generosidade e gentileza. Não passa de hoje (em que um dos seus bilhetes me chegou e também o recorte das demissões e aposentadorias e mais belezas). E vivo tão exausto de trabalho (e mal recuperado da operação em Lisboa), que nem lembro claro se já lhe dei conta da minha viajem, ou não, e impressões de Portugal. Na dúvida (porque eu já perdi o controle da minha correspondência e de tudo o que não seja o trabalho contínuo que me mata), aqui vai. Há dois meses e meio que cheguei da Europa — e a viagem fez-me muito bem e muito mal. Bem, porque foi um prazer deambular pela Europa adiante como fiz, apesar da correria frenética que foi a minha (sempre quero ver o mais, não vá tudo acabar amanhã), e porque foi comovente o triunfal "regresso." Mal, porque trouxe saudades concretas e insuportáveis, quando as tinha já transcendidas e abstratas em dez anos de ausência. Os menos de três meses quase me parecem os dez anos anteriores — para o que contribui a agonia que é viver-se nesta América dilacerada pela estupidez, a maldade, a cobiça, a mais colossal mentira do que seja democracia política. E tornei-me dolorosamente sensível, já sem capacidade de irónico encaixe, à sorrateira ou agressiva hostilidade contra o que seja Portugal ou português, que é apanágio deste hemisfério — e mais repugnante aqui que no Brasil, por à sorrelfa, como tudo o que se faz ou diz neste país. E o espectáculo do Brasil é desolador — dá-me vontade de escrever uma carta aberta a esse Costa e Silva, declinando a nacionalidade, ou pedindo para ser "suspenso" por solidariedade… Mas de que adianta? Nenhum brasileiro entenderia, nessa ilusão de que ainda não saíram e que põe o sentimento pátrio acima dos governos que o não representam (tu és primo do tio do cunhado etc, — só setenta milhões de desgraçados, nesse país, não têm parentes pistolões).

De Portugal, que lhe direi? A decadência do país, por falta de braços e dinheiro, é manifesta. Lisboa suja, as estradas esburacadas, um ar de decadência que, se não fosse mesquinho e acabrunhador, seria saudável, por o país perder aquele ar lavado e penteado por decreto, que o tornava arrebicado e ridículo. Apesar de as possibilidades de informação serem hoje muito maiores e atingirem maior número, a sensação de irrealidade persiste. Mas o alívio geral pela desaparição do Fradalhão é evidente em tudo, ou era: até, se pode dizer-se, mais divertidamente indisfarçável nos próprios estado-novistas, tirando uns quantos ultras ferozes que clamam contra a traição que lhes desfaz o castelo. Creio cruamente que, se o Marcelo liberalizasse efectivamente a vida política (o que não fez por medo à reacção, e também por ser-lhe mentalmente impensável — essa gente acabou por acreditar na legalidade deles mesmos), teria o apoio tácito de praticamente toda a gente, ainda que muitos, por princípio, continuassem a bradar. E ele não o fará, porque a grande massa da população se apolitizou… pela guerra da África. Esta é inteiramente impopular como guerra — mas não como memória imperial (que é uma realidade, quer a gente goste, quer não), nem, tristemente, como possibilidade de ganhar mais dinheiro durante algum tempo. Sob este aspecto, as classes populares e as altas classes estão felizes… Se a guerra puder continuar a ser uma "drôle de guerre" em que se ganha dinheiro e se combate o menos possível (a este respeito, o cinismo é quase público). Por outro lado, a Oposição não pode, pela sua divisão, a sua senilidade etc, assumir quaisquer responsabilidades — e quem quer tomar a de acabar com a guerra? … E a massa geral até, por certa inflação e alguma desordem (greves, estudantadas etc) que habilmente o Marcelo tem permitido, fala, com estúpida saudade dos bons temos — e teme qualquer agitação, qualquer sacão brusco. O descontentamento é porém geral quanto à situação económica — e não levará tempo que o Salazar seja acusado de tudo (como o Estaline foi), sobretudo do atraso que coloca o país em situação dificílima em face de uma Europa integrada. O sentimento de frustração é geral também — toda a gente sente que perdeu a sua vida, e só o Salazar viveu regaladamente quarenta anos da sua. Mas basta isso? Parece-me só haver juventude. Mas esta, com gente muito boa, é ainda, como sempre, do ponto de vista de futuros dirigentes, muito reduzida. Fala-se muito de reformas universitárias — mas quem altera aqueles fósseis, e os filhos espirituais de 40 anos deles? Calcule que a decisão secreta das duas universidades maiores (a do Porto pouco conta) é que … no pânico da data de gente que se doutorou ou está a doutorar no estrangeiro (é o que a maior da rapaziada está a fazer em Paris ou Londres, graças às facilidades que foram dadas para isso), a universidade portuguesa não reconhece qualquer doutoramento estrangeiro: há que repeti-lo em Portugal! Por isso, insistentemente, nunca fui tão chamado respeitosamente de Engenheiro — e só os do contra me tratavam de Professor Doutor. Em Lisboa, só o Cintra, a Belchior e o Nemésio me cumprimentaram; e em Coimbra, só o Maios e Sá que me apresentou publicamente na Associação Académica, e o brasileiro Guilhermino César que me foi cumprimentar quase escondido. Havia porém uma multidão de um milhar de pessoas nas Belas Artes para aclamar-me de pé, e o mesmo aconteceu no Porto e em Coimbra. Chorei, meu caro — para mais doente como vinha. Em resumo. A atmosfera purificou-se um pouco: a polícia está mais discreta e contida na "legalidade", a censura algo acéfala corta e descorta — e a maior parte das pressões e denúncias vem de baluartes menos de opinião política que de comedoria, que controlam a Emissora, a TV, e a censura (porque o Salazar os pôs nessa posição). Não poucas partidas ao Marcelo, em quem vêem um "traidor" (porque, mais hábil, e necessitado de base de sustentação faz de bonzinho e talvez não seja mau de todo), lhes vi fazerem. Comigo ele foi de uma elegância e de uma correcção absolutas, como o Salazar não cuidaria de ser. Também o fui com ele; e é claro que, sem abdicar de nenhuma afirmação clara, não permiti que as minhas aparições se transformassem em comícios — o que me valeu a vaia da extrema esquerda chinesa (também lá há disso, o que prova a total irrealidade por absurdo) nas Belas Artes, e o aplauso das outras forças coligadas… Vim muito triste, no fim de tudo. Mas creio que, se uma pessoa desistir de salvar uma pátria irrecuperável, e for cultivar as suas couves desiludidas poderá lá fazê-lo em paz — vindo a amnistia geral que ainda não saiu (se ela sair, é claro, e se a situação subitamente não azedar para uma luz verde da CIA e do Pentágono a alguns generais… única forma de governo que lhes interessa em qualquer parte). Sei que o Marcelo mandou que fossem revistos todos os processos pendentes para serem arrumados de uma maneira ou de outra. Se isto terá andamento ou não, não sei.

Da Europa gostei muito — ah que saudades. Toda. Mas especialmente a Inglaterra, a Dinamarca, a Holanda, a Suíça, a Áustria, a Itália, até a Espanha. A França, como sempre, achei encantadora e detestável, como a Alemanha. Mas Londres, Amsterdam, Copenhague, Roma, Florença, Zurique, mesmo Colónia. E Viena. Enfim, estive em 60 terras diferentes, o que parece incrível. E não penso senão em voltar de qualquer maneira, a qualquer pretexto, para esquecer-me desta opressão americana, em que tudo se falsifica em nome de pretensa garantia das liberdades que não há senão de ser preso e andar nas bolandas dos tribunais que fazem e desfazem acórdãos como o Juiz da Beira.

A saúde não anda boa. Mas tenho trabalhado muito — e comecei depois de três semanas de operado, em estado já grave (a inflamação começara séria em Paris, onde cheguei sem poder dar um passo — e logo que me vi melhor fui para a Itália), e cansado de tanto correr. Em breve, sairão mais estudos camonianos, um novo livro de poemas, outro de traduções de poesia, outro de ensaios vários.

Tudo receberá a seu tempo. E a tensão que na América está agora em tudo, também chegou ao meu Departamento, onde os "estrangeiros" (eu, espanhóis, professores de espanhol que não são americanos) começam a ser vítimas da xenofobia conservantística e conformista que acabará por destruir estas universidades que os estudantes já assaltam à mão armada (e fazem muito bem).

Tenho muitas saudades de todos os amigos daí — do Brasil não, pois que acho que já não encontraria lá sequer o pouco ar que ainda se respirava quando parti. Vamos ver quando posso dar aí um salto. Recomende-me a todos.

E para si vai oferto o grande abraço do sempre seu muito amigo,

Jorge de Sena

 


Lisboa, 18 de outubro de 1974

Meu caro Dr. Jorge de Sena,

Aqui tenho permanecido, vai para um mês e cumprindo aquela promessa de assistir às comemorações do " cinco de outubro de 1970…"
Houve festa emocionante na Câmara Municipal. Eu, como o mais velho dos combatentes, tive ali grande honraria, hasteei a bandeira nacional e discursei agradecendo por mim e pelos outros dois remanescentes dos acontecimentos políticos de 64 anos passados. Esses meus dois companheiros foram-se abaixo das pernas, MacBride com uma paralisia geral, César de Almeida a fingir de vivo…

Disseram as gazetas e os circunstantes que a minha prosa esteve a calhar. A multidão confirmou, deu muitas palmas, muitos vivas e quando eu saí da Câmara levou-me em charola do Largo do Município até à Rua do Ouro, com beijos e flores as raparigas, os moços aos abraços, tantos e tão apertados que corri sério risco de sufocar! Valeu-me o Coronel Varela Gomes, soldados e homens mais calmos que puderam formar um cordão em volta do pobre de mim. Mas o entusiasmo deste bom povo de Lisboa gritando: Sarmento Pimentel, Sarmento Pimentel!, não foi inferior ao carinho e alegria ruidosa com que me receberam os portuenses em Campanhã.

Almoções de arromba (e cada vinho!), falas letradas simpáticas, os jornalistas, a TV, Rádio uma praga, até que fui parar no Instituto de Altos Estudos do Estado Maior do Exército para uma conferência que teve a parte escrita obrigatória e outra parte oral a modos de exame universitário com um júri de alto lá com ele!: dois almirantes, dois generais, um Ministro (o da Defesa). A escrita era para o arquivo, a fala de 20 minutos ouvida em silêncio disciplinar já que a assistência era só tropa desde os alunos cadetes da Escola do Exército, até senhores de galões largos e veneras por dezenas que nem montra de boteco armarinho!

Agradou a hierática palestra àquela gente de guerra hoje aplaudida de "Forças Armadas." Querem agora que eu vá a um regimento da guarnição de Lisboa para pregar aos soldados. Se calhar ainda me nomeiam capitão do E.M.!… Toda esta cativante camaradagem é testemunha de certa gratidão, compensadora dos 47 anos de exílio.

A Política andou por aqui meia embrulhada. Atirou de pernas ao ar com o Spínola, levou à cadeia alguns lorpas saudosistas, mas está voltando, ou indo, para uma posição mais estável e de rumo mais certo.

Regresso ao Brasil dentro de 20 dias e vou confiado que chegaremos às Eleições de Março sem empeno. Há ainda, (e havê-la-á até ao fim do mundo) uma burocracia desgraçada, capaz de atrasar a marcha do sol, que muito impede solução rápida e urgente de situações clamorosas, injustas, perigosas. A remodelação e actualização dos quadros faz-se lentamente, adiam problemas, perde-se um tempão.

Mas os males duraram meio século e temos de reconhecer que não se curam em seis meses. Os partidos começam a concentrar-se sendo que o P.C. não tem, como pensava, a posição cimeira. Penso que só 15% dos votos serão seus nas eleições. O Partido Socialista tem-se firmado e deve ser majoritário, ou ombro a ombro com os Democráticos centristas.

Lá vou amanhã para o Porto presidir um comício onde estão presentes os chefes socialistas da França, Alemanha, e um leader inglês trabalhista. Mário Soares é hábil, popular, inteligente. Veio almoçar comigo ontem (16) o José Augusto França e deu-me a agradável notícia das suas próximas conferências na Universidade de Lisboa. Estarei aqui quando o meu amigo vier abrir os olhos a esta mocidade ansiosa de ouvir a palavra eloquente e erudita do famoso humanista e grande Mestre Jorge de Sena? A minha nova volta ao Brasil talvez seja em 10 de dezembro para o Congresso do Partido Socialista.

Na ida de amanhã ao Porto aproveitarei uns dias a visitar os meus parentes transmontanos. O tempo do Outono é lindo e saudoso. O frio ainda se suporta e o cair da folha tem mutações de rara beleza na cor, na luz do sol, no crepúsculo silencioso e triste. Há assim um ambiente de despedida que diz um pouco com o doloroso sentimento da velhice.

Lembre a D. Mécia e a essa prole numerosa e inquieta que tem a salutar alegria de viver e traz no coração aquela esperança triunfante dum melhor futuro.

Um abraço de seu amigo muito grato e admirador

João Sarmento Pimentel
 

Breve notícia sobre cartas inéditas: Um “justo diálogo”, a correspondência de Jorge de Sena e João Sarmento Pimentel.

por Otília Lage

“…as cartas daquela preciosa correspondência que o [João Sarmento Pimentel] tornarão o vulto nobre que muita gente desconhece.”

Assim se pronuncia Mécia de Sena, em carta enviada de Londres, a 28/5/1981, para o Capitão João Sarmento Pimentel, onde considera um “justo diálogo” a correspondência trocada entre este e Jorge de Sena [1959-1977] [1], cuja publicação continua porém por fazer, apesar da intenção, cedo manifestada, e dos esforços entretanto desenvolvidos por Mécia de Sena, para a reunir, compilar, organizar, anotar e editar [2].

Infelizmente ainda inédita, a correspondência entre Jorge de Sena e Sarmento Pimentel configura-se como um trabalho de enorme importância cultural, social, histórica e literária, que muito explicará sobre o contexto e significado mais amplos dessas cartas, da amizade e cumplicidades entre seus autores, acontecimentos, projectos e exílios vividos por ambos, destacados opositores políticos à ditadura salazarista.

Por isso, vale a pena observar uma simples ilustração dessa correspondência e os matizes político-culturais e de profunda estima pessoal que marcaram o diálogo entre essas duas grandes figuras da cultura contemporânea portuguesa tão fortemente ligadas à história do Brasil. Diálogo que seria, na mesma linha e com idênticas características, continuado, ininterruptamente, por Mécia de Sena, desde a morte de seu marido até à de seu amigo[3].

Em 11/6/1961, 2 anos depois de seu exílio voluntário no Brasil, Jorge de Sena envia de Assis, São Paulo, a J. Sarmento Pimentel uma carta que termina assim “Copiado a seu pedido, com a mais grata estima para o Com.te J. Sarmento Pimentel, amigo de Camões…” em que apenas faz a transcrição integral deste seu poema:

“ Podereis roubar-me tudo:/ as ideias, as palavras, as imagens, / e também as metáforas, os temas, os motivos, /os símbolos, e a primazia/ nas dores sofridas de uma língua nova/ […]Nada tereis, mas nada: nem os ossos,/ que em vosso esqueleto há-de ser buscado, /para passar por meu. E para outros ladrões, /iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo”.

Passados 10 anos, já Jorge de Sena residindo em Santa Bárbara, Califórnia, USA, recebe uma curta e amargurada carta datada de São Paulo, 25/7/72, do “seu amigo e muito grato e dedicado João Sarmento Pimentel” (fórmula final da missiva). Dá-lhe conta, com profundo pesar, da morte e funeral do amigo comum, o poeta português Adolfo Casais Monteiro, também exilado no Brasil, terminando assim:

“ O exílio é um drama sem fim. Vejo os mais queridos e os melhores dos companheiros morrerem e aquela esperança de regresso a Portugal cada vez mais retardada. Vou ficando mais só e mais velho e mais inútil. A alegria de viver, a inutilidade de existir, confrontam-se e levam a um desespero lamentável”.

Três meses depois, a 29 de Outubro de 1972, Sena escreve de Santa Bárbara, a J. Sarmento Pimentel uma longa carta de 4 páginas com um poema seu, recente, dedicado “Ao Comandante João Sarmento Pimentel”. Aí se evidencia a profunda admiração do poeta pelo magno exemplo de homem, cidadão, exilado e patriota, do destinatário, cujas virtudes louva e enaltece, numa forma clássica de missiva, que é mais um diálogo e solilóquio em reverencial epístola poética:

“Tão tarde vai, senhor, esta missiva/ em termos de outros tempos em que epístolas/ serviam a saudar heróis e sábios/ como também quantos na vida exemplo/ dariam de inteireza e hombridade/ que às vezes sábios ou heróis não têm /(…)./Para destino, capitão, a pátria/ não dela mas quão dela é o que devera/erguê-la de si mesma, vos criou:/como isso dói e queima vós sabeis, /e quanto é magia de distante ausência./ (…)./Assim, senhor, em vós saúdo e digo/ de como em vida me vivi honrado/com conhecer-vos e por vós ter tido/por digno de amigo e amarada/nas horas duras de se amar a pátria/(…).”

Acompanhava este poema um outro dedicado à memória de Adolfo Casais Monteiro e destinado a ser publicado, no jornal Estadão, “ com o competente relevo e dignidade – o jornal deve-lhe isso e a mim também… e fio da sua influência a publicação do poema”.

Prática comum que, com Mécia de Sena se prolongará, depois da morte de Jorge de Sena, era também o constante envio para Jorge de Sena por Sarmento Pimentel de “remessas de jornais e de recortes de interesse”, a partir do Brasil, país que merece de Jorge de Sena esta consideração no fim de sua carta:

“Lembre-me a todos os amigos aí, com saudosos abraços. Quando irei ao Brasil? Hesito muito – o Brasil tem sido sumamente ingrato comigo, e ser-me-ia muito duro ser tratado de desconhecido depois de quanto tenho feito por ele em anos de dedicação a toda a prova, que só me têm merecido o silêncio ou os rosnidos malignos dessa raça que teria de ser danada por descender de quem descende. Aqui vai o grande abraço muito amigo do sempre dedicado e grato Jorge de Sena”

Esta carta de Sena termina com um extenso post scriptum em que critica a nomeação de um antigo ministro fascista do governo de Marcelo Caetano, para embaixador português no Brasil, dá notícia da publicação de seus “Estudos de História da Cultura” e pronuncia-se sobre aspectos da situação política da Àfrica do Sul, Angola e Moçambique, então em luta armada contra o colonialismo português:

“(…) De Moçambique – terra que me fascina e comoveu, e onde falei com gente de todas as cores e feitios, e a extrema-direita e os “maoistas” a soldo dela me silenciaram ou atacaram violentamente ( e continuam com torpezas nos jornais portugueses) – teríamos muito que conversar, bem como do que vi e senti e ouvi em Luanda, ou da longa conversa que em Lisboa tive com o Luandino Vieira (agora livre e só de residência fixa). É tudo uma questão diabólica e complexa em que ninguém, senão raras criaturas de bom senso e outras de paz, diz toda a verdade: uma tragédia agora, e talvez que em breve tragédias maiores, quando ainda seria possível evitar a catástrofe – branca ou negra – que, no fundo, só alguns loucos ou irresponsáveis desejam como independência, em face do que as Africas estão sendo. Johannesburg, como imagem da Rep. da Africa do Sul e o seu “apartheid”, linda cidade e repulsiva em estado policial como não se imagina que possa existir ( a não ser como o que vi na Grécia, em termos diversos.)

Como se pode ver, há entre ambos um clima de profunda e mútua estima e admiração, o qual vai ser assumido também por Mécia de Sena, na sua correspondência assídua com Sarmento Pimentel, até este falecer, nonagenário, e a quem sempre se dirige, tal como Jorge de Sena, carinhosa e respeitosamente como seu “queridíssimo comandante”.

Observe-se que, para além da recorrência dos interesses literários mútuos, também o carácter pessoal, político e literário vão perdurar nas cartas de Mécia de Sena para o Capitão J. Sarmento Pimentel, espaço de exercício do seu papel de cidadã crítica e reflexiva, que, à semelhança de seu marido, nunca se coíbe de fazer comentários amargos e perspicazes ao deficit de democracia e justiça social e política que minam a sua “pátria” e a sociedade portuguesa da época.
Cartas de Jorge de Sena para João Sarmento Pimentel [95 ítens]

Assis – 11/10/959
———————–Evocação de Jorge de Sena por Sarmento Pimentel
Assis – 27/11/59
Assis – memorando assinado por Jorge de Sena e Victor Ramos (28/11/59)?
Assis – carta oficial – 13/12/59
Assis – 27/12/959

Assis – 5/1/960
Assis –12/1/960
Assis – 5/4/960
Assis –20/4/960
Assis –14/5/960
Assis –18/5/960
Assis –20/5/960
Assis –26/9/960
Assis –24/11/960
Assis –13/12/960
Assis –17/12/960

Assis – 2/4/61
Assis – 27/4/61
Assis –9/5/61
Assis –19/6/61

Rio – 5/1/62
Araraquara – 15/1/62 – carta oficial
S.Paulo – 20/3/62 (*)
Araraquara – 18/5/62
Araraquara –22/6/62
Araraquara – 10/9/62

Araraquara – 6/1/63 (*)
Araraquara –24/3/63
Araraquara –29/3/63
Araraquara –10/7/63
Araraquara –20/7/63
Araraquara –13/8/63
Araraquara –22/8/63
Araraquara –10/9/63
Araraquara –5/12/63
Araraquara –23/12/63

Araraquara – 9/5/64
Araraquara –11/5/64 (no original,12/5/64)
Araraquara – 2/6/64
Araraquara –21/6/64
Araraquara –13/7/64
Araraquara – 19/7/64
Araraquara –25/7/64
Araraquara –7/8/64
—————- cópia de carta para o Barradas de Carvalho – 6/8/64 ?
Araraquara –23/12/64
Cartão de Natal – 1964

Araraquara –23/2/65
Araraquara – 9/4/64 ( no original 9/4/65)
Araraquara –27/4/65
Araraquara –13/6/65
Araraquara –4/7/65
Araraquara –21/7/65
Madison – 14/12/65

Madison – 9/4/66
Madison –19/8/66

Madison –23/3/67
Madison –15/7/67
Madison –24/11/67

Madison –2/9/68
Londres – postal ilustrado -22/9/68
Rotterdam – postal ilustrado – 17/10/68
Barcelona – 16/12/68

Madison – 7/1/69 (de Mécia de Sena)
Madison – 8/5/69

Madison – 23/6/70
Santa Bárbara – 15/11/70

Santa Bárbara – 3/1/72
Lisboa – 17/8/72
Santa Bárbara – 29/10/72 (com cópia do poema: “Ao Comandante…”)

Londres – postal ilustrado – 18/2/73
Santa Bárbara -23/2/73 (Mécia)
Londres – 10/3/73
Santa Bárbara – 4/7/73

Santa Bárbara – 9/1/74
Santa Bárbara –1/4/74
Santa Bárbara –7/5/74
Santa Bárbara –16/5/74
Santa Bárbara –28/6/74
Santa Bárbara –24/9/74 (Mécia)

Santa Bárbara – 2/6/75
Santa Bárbara –13/6/75
Santa Bárbara –14/7/75
Santa Bárbara – 29/7/75
Santa Bárbara –8/10/75
Santa Bárbara – 20/12/75

Santa Bárbara –3/1/76
Santa Bárbara –8/3/76 (remetida cópia a Norberto Lopes de carta de Sena a A.Amorim)
Santa Bárbara –21/4/76 (Mécia)
Santa Bárbara –22/4/76 (dedicatória ao poema “À Memória de Adolfo…)
Santa Bárbara –20/7/76
Santa Bárbara –31/8/76 (Mécia)

Santa Bárbara –23/3/77 (conjunta: Jorge e Mécia)
Lisboa – 14/5/77
Santa Bárbara – 12/11/77
Dedicatória aposta ao “speach” da AIH, em Toronto (Agosto de 1977)

 

[(*) estas duas mandou-mas há tempos o Comandante Sarmento Pimentel; mandei originais a Mécia a 10/12/84]

 

Notas:

1. Incluímos em anexo a relação dessa correspondência, gentilmente cedida por Mécia de Sena a quem agradecemos a confiança demonstrada e a generosa colaboração.
2. Sabe-se por correspondência trocada entre Mécia de Sena e João Sarmento Pimentel que os originais das cartas de Jorge de Sena foram generosamente cedidos por Sarmento Pimentel, na década de 1980 a Mécia de Sena que os dactilografou e anotou, tendo-os remetido posteriormente para o espólio literário de Jorge de Sena, à guarda da Fundação Calouste Gulbenkian até 2009, ano em que foi entregue à Biblioteca Nacional de Portugal onde actualmente se encontra, com o restante espólio seniano.
3. A correspondência aqui referida e comentada foi consultada no espólio literário de João Sarmento Pimentel, à guarda na Biblioteca Municipal de Mirandela, Biblioteca João Sarmento Pimentel.

 

Depois do 25 de Abril

Cidadão brasileiro vivendo nos Estados Unidos, Jorge de Sena recebeu a notícia do 25 de Abril como o intelectual português que era: com euforia no primeiro momento, logo substituída pelas dúvidas do espírito crítico. Da feliz utopia de uma nação livre, à constatação de que muito trabalho restava por fazer, a poesia de Sena conclui: “quem te amar, ó liberdade, tem de amar com paciência”.

 

* “Nunca pensei viver…

* “Com que então libertos, hein?…

* Poema de 28 de Maio ao contrário

* Cantiga de Maio

* Cantiga de Junho

 

Nunca Pensei Viver

Nunca pensei viver para ver isto: a liberdade — (e as

promessas de liberdade) restauradas. Nâo, na verdade,

eu não pensava — no negro desespero sem esperança

viva — que isto acontecesse realmente. Aconteceu. E

agora, meu general?

Tantos morreram de opressão ou de amargura, tantos se

exilaram ou foram exilados, tantos viveram um dia-a-

dia cínico e magoado, tantos se calaram, tantos

deixaram de escrever, tantos desaprenderam que a

liberdade existe — E agora, povo português?

Essas promessas — há que fazer depressa

que o povo as entenda, creia mais em si mesmo

do que nelas, porque elas só nele se realizam

e por ele. Há que, por todos os meios,

abrir as portas e as janelas cerradas quase cinquenta anos

E agora, meu general?

E tu povo, em nome de quem sempre se falou, ouvir-se-á a

tua voz firme por sobre os clamores com que saúdas as

promessas de liberdade? Tomarás nas tuas mãos, com

serenidade e coragem, aquilo que, numa hora única, te

prometem? E agora, povo português?

SB. 27/4/1974

 

Com que então libertos, hein?

Com que então libertos, hein? Falemos de política,

discutamos de política, escrevamos de política,

vivamos quotidianamente o regressar da política à posse de cada um,

essa coisa de cada um que era tratada como propriedade do paizinho.

Tenhamos sempre presente que, em política, os paizinhos

tendem sempre a durar quase cinquenta anos pelo menos.

E aprendamos que, em política, a arte maior é a de exigir a lua

não para tê-la ou ficar numa fúria por não tê-la,

mas como ponto de partida para ganhar-se, do compromisso,

um boa lâmpada de sala, que ilumine a todos.

Com o país dividido quase meio século entre os donos da verdade e do poder,

para um lado, os réprobos para o outro só porque não aceitavam que

não houvesse liberdade, e o povo todo no meio abandonado à sua solidão

silenciosa, sem poder falar nem poder ouvir mais que discursos de salamaleque,

há que aprender, re-aprender a falar política e a ouvir política.

Não apenas pelo prazer tão grande de poder falar livremente

e poder ouvir em liberdade o que os outros nos dizem,

mas para o trabalho mais duro e mais difícil de — parece incrível —

refazer Portugal sem que se dissipe ou se perca uma parcela só

da energia represa há tanto tempo. Porque é belo e é magnífico

o entusiasmo e é sinal esplêndido de estar viva uma nação inteira.

Mas a vida não é só correria e gritos de entusiasmo, é também

o desafio terrível do ter-se de repente nas mãos

os destinos de uma pátria e de um povo, suspensos sobre o abismo

em que se afundam os povos e as nações que deixaram fugir

a hora miraculosa que uma revolução lhes marcou. Há que caminhar

com cuidado, como quem leva ao colo uma criança:

uma pátria que renasce é como uma criança dormindo,

para quem preparamos tudo, sonhamos tudo, fazemos tudo,

até que ela possa em segurança ensaiar os primeiros passos.

De todo o coração, gritemos o nosso júbilo, aclamemos gratos

os que o fizeram possível. Mas, com toda a inteligência

que se deve exigir do amadurecimento doloroso desta liberdade

tão longamente esperada e desejada, trabalhemos cautelosamente,

politicamente, para conduzir a porto de salvamento esta pátria

por entre a floresta de armas e de interesses medonhos

que, de todos os cantos do mundo, nos espreitam e a ela.

SB, 2/5/1974

 

Poema de 28 de Maio ao contrário

Gigante foi a luz que acesa se estendeu por sobre as

trevas de um povo prisioneiro.

Ninguém esperava que no primeiro impulso

de um movimento militar se abrissem todas as janelas

e todas as portas. Mas abriram-se e por elas a luz e

as vozes foram restituídas.

Todos agora, exército e povo, os militares e os politicos, e

quantos nunca pensaram que a política é coisa

de todos os dias ter de aprender-se a ver, a falar

e a ouvir, lá onde na caverna

só sombras de fantasmas existiam.

Todos têm de aprender a governar e a governar-se n’alma

e a fazer governo a liberdade e as vozes e o

direito de existir-se à luz do dia

como gente viva num país que é ela.

Todos têm de aprender que a liberdade não existe

apenas porque é dada, pois pode ser tirada, ou

apenas porque é conquistada, pois pode ser

licença em que não reste senão ela perder-se. Têm de

aprender que não pode ter-se num só dia

o que se perdeu em décadas. E que a Justiça

é a Liberdade que pensa mais nos outros que em si mesma.

Santa Bárbara, 28/5/1974

 

Cantiga de Maio

Da prisão negra em que estavas a

porta abriu-se p’ra rua. Já sem

algemas escravas, igual à cor que

sonhavas, vais vestida de estar nua.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Na rua passas cantando, e o

povo canta contigo. Por onde

tu vais passando mais gente se

vai juntando, porque o povo é

teu amigo.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Entre o povo que te aclama,

contente de poder ver-te, há gente

que por ti chama para arrastar-te na

lama em que outros irão prender-te.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Muitos correndo apressados

querem ter-te só p’ra si; e gritam

tão de esganados só por tachos

cobiçados, e não por amor de ti.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Na sombra dos seus salões de

mandar em companhias,

poderosos figurões

afiam já os facões

com que matar alegrias.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

E além do mar oceano o maligno

grão poder já se apresta p’ra teu

dano, todo violência e engano,

para deitar-te a perder.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Com desordens, falsidade,

economia desfeita; com

calculada maldade, promessas de

felicidade e a miséria mais

estreita.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Que muito povo se assuste,

julgando que és culpada, eis o

terrível embuste por qualquer

preço que custe com que te

armam a cilada.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Tens de saber que o inimigo

quer matar-te à falsa-fé. Ah tem

cuidado contigo; quem te

respeita é um amigo, quem não

respeita não é.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Santa Bárbara, 4/6/1974

 

Cantiga de Junho

Quem te amar, ó liberdade, tem

de amar com paciência.

Sonhou-se tanto contigo sem saber

como saber-te, que é muito grande o

perigo de não ver o sonho antigo nos

braços em que hão-de ter-te.

Quem te amar, ó liberdade, tem

de amar com paciência.

Alguns tão livres te querem que

só desordem restava. Outros tal

ordem preferem que de tanto que

a referem o velho tempo voltava.

Quem te amar, ó liberdade, tem

de amar com paciência.

Tantos, tantos se proclamam teus

amantes confessados, que os que em

verdade te amam mal se ouvem

quando te aclamam, nem por teus

serão contados.

Quem te amar, ó liberdade, tem

de amar com paciência.

Riqueza querem de ti, sem pensar

como fazê-la. Mas muitos que

sempre vi engordando por aí são

quem contínua a tê-la.

Quem te amar, ó liberdade, tem

de amar com paciência.

E a paz? Contaram contigo para

assiná-la num instante. Mas quem é

mais teu amigo sabia-a duro castigo

que só o tempo garante.

Quem te amar, ó liberdade, tem

de amar com paciência.

Independência, há que dá-la às

colónias de ultramar. Mas uma

coisa é falá-la e muito outra o

prepará-la já tendo que governar.

Quem te amar, õ liberdade, tem

de amar com paciência.

Amem-te quantos não pedem que

sejas mais que teu ser. Amem-te

quantos te medem pelo que eles

mesmos concedem à tua força de

viver.

Quem te amar, ó liberdade, tem

de amar com paciência.

Cada dia há que fazer-te contra os

costumes de outrora. Cada dia há

que entender-te, que perder-te e

reaver-te numa luta a toda a hora.

Quem te amar, ô liberdade,

tem de amar com paciência.

Para a nação reformar,

trabalhem governo e povo. E

que ajunta militar lhes proteja

o caminhar: liberdade, país

novo.

Santa Bárbara, 29/6/1974