O Maneirismo de Camões

Um dos primeiros textos de Sena sobre o Maneirismo, datado de 1961.

José Augusto Bernardes destaca o Maneirismo como ponto de consonância entre Jorge de Sena e Vítor Manuel de Aguiar e Silva nas leituras que traçam de Camões. Sob esse mote, abaixo transcrevemos um dos primeiros textos de Sena a abordar a questão.

 

Só muito tardiamente, nos estudos literários, o termo Maneirismo começou a surgir, à semelhança do que vinha sucedendo há décadas para as Artes plásticas, como algo correspondendo, na literatura, a características específicas, comuns ao período extremamente importante, entre o Renascimento e o Barroco, que é o da arte da 2a metade do séc. XVI. Para a cultura portuguesa, julgo decisiva esta conceituação que vai contra a mistificação longamente repetida de um Renascimento eminente (ou fruste, conforme os historiadores são liberais ou, mais recentes, da esquerda) e de um Barroquismo, também há pouco emergindo do desprezo em que o tiveram os iluministas (seus descendentes directos), o romantismo libertário (que tanto dominou nos países latinos), os naturalistas, e outros.


A conceituação de maneirismo foi lenta, e está longe de ter adquirido aquela divulgação que o garanta das pretensas hesitações críticas que são obediência a hábitos de pensamento, esquemas herdados, ou primários preconceitos políticos. Para as artes plásticas, só as pessoas mal informadas não reconhecem o maneirismo como um período típico, autónomo por direito próprio, depois dos sucessivos trabalhos de críticos como Goldschmidt, Weibasch, Voss, Friedländer, Pevsner, Hoffmann, que, desde o início da segunda década deste século, o foram impondo, até a eles mesmos. Para a literatura, a conceituação foi praticamente inexistente, e só há poucos anos ela emergiu das confusões idealísticas e eruditas.


Em sentido genérico, maneirismo foi longamente sinónimo de amaneiramento, de petulância cultista ou conceptista da forma, de exagero despropositado e oposto à sobriedade e à elegância «clássica», quando não indício de extravagâncias mórbidas e suspeitas. Sem preconceitos classicizantes, Ernst Robert Curtius ainda, em 1953 fala, como John Addington Symonds, oitenta anos antes falava do «maneirismo em que mergulhava a poesia grega no tempo de Píndaro», no «maneirismo afectado da literatura romana do fim da Antiguidade, comum aos pagãos e aos cristãos». Mas Curtius, no seu afã monumental de provar a unidade essencialmente latina da literatura ocidental até quase aos nossos dias, não só adopta para maneirismo, embora desprovidas de conteúdo pejorativo, as conotações, acima referidas, como, na confusão imensa de caracterizações em que mergulhou no nosso tempo a ressurreição do Barroco, propõe que maneirismo, «denominador comum a todas as tendências opostas ao classicismo», e «constante da literatura europeia», e «fenómeno complementar do classicismo de todas as épocas», substitua o termo Barroco, já que este é mais pesado de sujeições históricas, e já que, diz ele, «o binómio Classicismo-Romantismo é de alcance muito relativo». O Barroco não seria senão um aspecto de outra entidade mais ampla: o Maneirismo. E toda a literatura europeia não seria mais do que a coexistência, às vezes pouco pacífica, de uma tendência clássica e de uma tendência maneirista, na medida em que toda ela derivaria da integração cultural, operada pelos «maneiristas dos sécs. V e VI, do paganismo no cristianismo». E Curtius esmaga o leitor, exemplificando com copiosa erudição de Baixo Império ou de Alta Idade Média, como o hipérbato, a perífrase, a paronomasia, o metaforismo amaneirado — características tão ridicularizadas no Barroco escolar — são constantes maneiristas da literatura europeia, embora apetecesse perguntar-lhe, se ele não estivesse morto e se, vivo, não fosse tão malcriado, porque razão os comparativismos são quase sempre feitos entre os autores da decadência latina e aqueles da segunda metade do séc. XVI e primeira do séc. XVII que tendemos a considerar como especificamente maneiristas. Numa breve nota ao fim deste precioso capítulo sobre o maneirismo, de Literatura Europeia e Idade Média Latina, o criador da análise tópica declara: «O maneirismo dos metaphysical poets, de Marino e dos marinistas, e da segunda escola silesiana, deveria ser estudado novamente na base do espanhol». Curtius que, mesmo a propósito de Gôngora, só cita Dâmaso Alonso para reforço de duas ou três minudências eruditas, não podia contudo saber que dois anos o separavam da definição dos «metafísicos» como maneiristas, proposta por Sypher numa tentativa de amalgamar as artes plásticas e a literatura, mas não podia ignorar que a aproximação de metafísicos e de Marinistas já estava feita por Mário Praz, desde 1925, porque cita de passagem, para depreciá-los, alguns estudos posteriores desse mesmo autor. Mas o próprio Mário Praz, em The Flaming Hearth (1938), ao republicar um estudo de 1931, sobre Donne, remete timidamente para Sypher o leitor que queira informar-se sobre o «carácter maneirista da poesia de Donne».


Que o Renascimento era uma coisa mais ampla, mais contraditória e mais complexa do que primariamente ainda se pensa, já o sabiam autores tão importantes na conceituação dele, como Burckhardt em 1860 e Walter Paten na mesma data em que Symonds fala de «maneirismo». Que o Barroco se caracteriza, logo no seu início histórico, por um anti-maneirismo (ao contrário das generalizações apressadas de uns, ou «tópicas» de Curtius», ficou caracterizada por Friedländer, em 1929, precisamente na época em que ele, Pevsner e Weisbach ressuscitavam o Barroco artístico.


O que se passa com Curtius, tão integrado no idealismo filosófico que é o incipiente ou digerido substracto intelectual dos romancistas alemães, é um misto de horror da História (substituída pela conotação erudita das transmissões culturais através dos tempos), de ignorância das Artes Plásticas (ainda hoje tão comum na cultura dos universitários de letras), e do gosto germânico da tipificação abstracta em tão vastas unidades que o sentido delas se perde. Que será, através da História, e a não ser simplismo nebuloso, um binómio Classicismo-Maneirismo, que substitua o Classicismo-Romantismo, por este ser confuso de mais?


A confusão entre a tipificação é vasta de caracterizações idealisticamente aplicadas, por analogia, a autores ou obras aparentadas estilisticamente, mas situadas em diversos contextos espaciais e temporais (e temos essa confusão nos estudos históricos, levada ao máximo requinte com os paralelos de Toynbe), e a tipificação restrita, igualmente idealística na sua simplificação, que reduz os períodos culturais à identidade com escolas ou grupos, só pode ser resolvida por uma tipologia que, segundo planos diversos de análise, discrimine e identifique, como virtualidades sempre possíveis, as atitudes estéticas, recorrentes civilizacionalmente. O que permite falar de uma recorrência que nada tem das perenidades idealísticas, sem a confundir com a sucessão histórica de escolas literárias ou artísticas em que uma determinada atitude assumiu, na realidade concreta das obras ou nas intenções polémicas dos autores, uma importância nominalista e predominante. À luz dessa tipologia que enfim defini e propus em 1960, o maneirismo de, por exemplo, um Camões resulta de uma emoção clássica e de uma expressão barroca; e, neste sentido, é possível falar-se, como atitude estética, do maneirismo de autores dispersos no tempo e no espaço, na Grécia e em Roma, em épocas diversas dessas duas civilizações, ou em épocas diversas das artes e das letras europeias, sem cairmos na generalização de tudo vermos em termos de um classicismo ideal para que tudo tende, quer os clássicos normais, como bem conceitua Curtius ao falar de classicismo, quer os maneiristas «anormais» mas persistentes.


Acontece, porém, que o maneirismo, primeiro valorizado na obra de pintores italianos que se afastavam decadentemente das premissas classicizantes de Rafael (que, sob certos aspectos, é um maneirista), como Pontorno, Bronzino, Parmigianino, e eram vistos como enlanguescimento dos ideais clássicos, transitou desses estreitos e locais limites históricos para limites mais vastos, sem perder — e antes apurando — as suas características periodológicas. E, enquanto se processava na Inglaterra, desde 1921, a ressurreição crítica dos poetas metafísicos e do drama isabelino e jacobita de segunda ordem, e o centenário de Gôngora propiciava em Espanha uma revisão total do seu prestígio e da sua importância, tudo se preparava para a conceituação do Maneirismo como uma das mais decisivas épocas da cultura europeia, algo que se destacava do Renascimento, e não era por forma alguma um pré-barroco. Sem prejuízo, é claro, da continuidade fundamental da cultura europeia, muito pouco compassiva de periodizações rígidas, na sua sobreposição de tendências que se sobrevivem, e de atitudes que subterraneamente preparam a acessão ao nominalismo escolar.

Em Portugal, o Renascimento é algo que, iniciado com a laicização cortesã-administrativa da cultura, e com as navegações e conquistas, vinha processando-se desde o início do séc. XV. Se o medievalismo subsiste tanto, ele não subsistirá mais do que na Alemanha onde foi possível feudalisticamente a Reforma protestante, ou que na Itália, onde as revoluções populares levam ao poder camarilhas esclarecidas como as de D. João I ou de seu filho o infante D. Pedro. Esse movimento, que culmina no estabelecimento de um Império em que a religião deve submeter-se aos interesses do Estado (e, com Frederico II, de Hohenstauffen, é, no séc. XIII, isto mesmo o princípio do fim da Europa feudal e teocrática), exauriu-se nas contradições económicas patentes em meados do séc. XVI. Mas, na Inglaterra desse tempo, a centralização dos Tudors conduzira o país à beira de um barroquismo como o da Espanha dos Habsburgos, e, na Itália, Miguel Ângelo duvidava, em pedra e em soneto, da capacidade humana para ser-se o David que ele esculpira antes. A segunda geração dos tidos em Portugal por «renascentes» oficiais (nas histórias literárias), que é a de Camões e de António Ferreira, já se cinde entre uma extremada recusa à tradição medieval, recusa que caracteriza o afã clássico da agonia do Renascimento (e Ferreira comporá a mais bela peça do classicismo europeu), e uma desesperada nostalgia do medievalismo ecuménico que (como em Spencer e em Tasso, mais jovens do que ele trinta e vinte anos, respectivamente) será a obsessão épica de Camões. Por volta de 1620, o maneirismo que se inicia com Camões e os tão mal conhecidos poetas confundidos com ele ou tidos por servis imitadores seus, entrou em declínio. Rodrigues Lobo e Manuel da Veiga Tagarro, este mais tardio, serão os últimos expoentes delicados desse período que, no espírito de Francisco Manuel de Melo lutará ainda com o Barroco. O Concílio de Trento iniciado em 1545 e cujas decisões são promulgadas em 1564, e que dividiu demoradamente os teólogos e a hierarquia da Igreja, a ponto de supor-se impossível levá-lo a bom termo (e o bom termo foram soluções de compromisso), coincide exactamente com a primeira metade do período maneirista, cujas angústias o inspiram, e a arte barroca, que ele por sua vez inspira, irá florir até ao neo-classicismo da segunda metade do séc. XVIII, só depois de ter lutado, pela supremacia, contra a dialéctica da fluidez e da firmeza do traço, nas artes plásticas, e a dialéctica do espírito em perseguição de si próprio, nas letras, que são típicas do maneirismo. Quando a fluidez da voluta se geometriza, e a firmeza do traço se torna tridimensional; quando a dialéctica de um Camões, fugidia e visio¬nária como a de Giordano Bruno, perde o sentimento heróico-trágico da vida — então, sim, a Idade Barroca triunfou. Mas sobre as ilusões humanísticas do Renascimento já o maneirismo havia, muito antes, agonicamente triunfado. Não sem razão o grande poema épico do Maneirismo, que são «Os Lusíadas», tem sido interpretado como quintessência do Renascimento. Este já era uma quintessência optimística do pessimismo medieval. E quintessência de quintessência é o que dialecticamente é possível, quando uma inteligência como a de Camões não poderia senão ver, como viu, na sua própria vida e na da sua pátria, o desastre expiatório do Renascimento inteiro.


Em 1948, muito antes de falar-se de maneirismo literário, no nobre sentido periodológico de que só agora (o livro de Sypher é de 1955) começava a falar-se, eu apontei o maneirismo camoneano. Ele o é de dois modos: tipologicamente e na sua periodização histórica. E, nesse estudo, eu descrevia como tal maneirismo se processava, dizendo: «É preciso ter em consideração que o petrarquismo renascentista, revivescência cultura-lista daquela intelectualização conceptual do formalismo cavalheiresco das «cortes de amor», que a poesia de Petrarca por sua vez já fora, é, como acontece sempre, mais do que uma escola literária, um modo de expressão. E também sempre as escolas literárias literatizam, o que, nos criadores autênticos, é um método da consciência criadora, um sistema convencional de representação da realidade como o intelecto a apreende. Mas o curioso é que, nos epígonos dessas escolas, naqueles em que já a «literatura» se decompõe sob o influxo de novos modos de expressão, esse método pode vir a ser precisamente a consciência criadora». E por aí adiante.


Neste trecho, creio que está definida, exactamente, a transmutação daquele maneirismo final que parece ser o dos Bronzinos e Parmigianinos em relação aos Rafaéis, em Maneirismo por direito próprio, de que Camões é o mais alto expoente lírico, naqueles seus poemas em que, como nesse mesmo estudo eu dizia, «reduz sempre as emoções a conceitos, conceitos que não são ideias, mas a vivência intelectual delas.


Maneirista como o Miguel Ângelo e o Ticiano do fim das suas vidas, como Montaigne, como John Donne, como Bruno, e como o serão Shakespeare e Cervantes no fim do ciclo, Camões é uma chave da literatura portuguesa que para ele reverteu e dele descende até nós. E parece que, para compreendermos uma e outro, indispensável será saber — depois de saber-se o que é Renascimento e o que é Barroco — o que seja Maneirismo.

 

Nota:

As obras ou autores referidos, cuja leitura mais imediatamente importa, são: Ernst Rober Curtius, Literatura Europeia e Idade Média Latina, Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1957 (trad. port. da edição alemã, original, de 1953); Wylie Sypher, Four Stages of Renaissance Style, Anchor Books, Nova Iorque, 1955; Mário Praz, The Flamming Heart, Anchor Books, Nova Iorque, 1958; Jorge de Sena, Da Poesia Portuguesa, Ática editora, Lisboa, 1959; Jorge de Sena, Ensaio de Tipologia Literária, Faculdade de Filosofia de Assis" 1960 (Publicado em Dialécticas Teóricas de Literatura, 1977).

 

Os Amantes

De Antigas e Novas Andanças do Demónio

TheKiss_AugusteRodinSobre este conto, dirá Antonio Candido: “em Assis, Jorge de Sena escreveu muito […]. De alguns de seus escritos fui o primeiro leitor, depois de dona Mécia, é claro. […] E lembro a profunda impressão que tive com o admirável conto “Os amantes”, composto segundo uma técnica de reciprocidade de perspectivas, graças à qual o mesmo ato é praticado e visto em termos de duas subjetividades que se equivalem, funcionando ambas como focos da narrativa” *

 

 

A natureza de todas as outras criaturas é definida e restringida pelas leis que Nós fixámos; tu, pelo contrário, isento de tais restrições, podes, por teu livre arbítrio, cuja custódia Nós te atribuímos, traçar por ti mesmo as linhas da tua própria natureza (…) Fizemos de ti uma criatura nem do céu, nem da terra, nem mortal, nem imortal, para que possas, como livre e altivo escultor do teu próprio ser, modelar-te na forma que preferires.

Pico della Mirandola – De Hominis Dignitate

 

I
Num ímpeto brusco, que o despegou do corpo dela, rolou e parou deitado ao lado, com a mão esquerda estendida por cima dos cabelos soltos dela, que roçava, e a mão direita pousada entre os dois seios, sentindo, menos que o coração batendo, a tremura ténue que a ficara percorrendo. De olhos fechados, ela trouxe as mãos sobre a dele, segurando-a, sem força, contra o peito. Então, a mão, sob as outras, deslizou um pouco e, entre o polegar e os dedos estendidos, tomou a curva da inserção do seio, que, com um jeito oscilante do pulso, ia contornando cariciosamente. As mãos dela apertaram a sua, e ela, descaindo a cabeça, fitou-o.

Olhou-o docemente, num olhar húmido e quebrado em que as feições dele evoluíam incertas, ao sabor das sombras e do encantamento que ainda perdurava nela, e tomando aspectos diversos, ora confundidos, ora sucessivos, em que havia traços dos retratos dele em criança e em adolescente, quando o não conhecera, e recordações de ângulos em que surpreendera a cabeça dele e lhe haviam ficado pela sobressaliência, que destacara então, de um pormenor qualquer, uma comissura dos lábios, um recanto de pálpebra, uma nódoa da barba, um delicado contorno da orelha.

Sempre a espantava como gostara dele, como se lhe dera, como ele a despertara para um amor em que não havia lugar para mais nada, nem ideias, nem sentimentos, e que se renovava a cada vez que, numa posse exasperantemente consumada em ternura e lucidez que não deixavam desvão dela sem o roçar palpitante de uma ardência que as suas pernas não se cansavam de apertar, toda a contenção apaixonada, de que era tão ciosa, se diluía numa imensa ondulação em que rangia os dentes, e os seus braços,. num desespero que era vontade de arrancá-lo para que ele voltasse com uma brutalidade que lhe justificasse o abandono, o empurravam para um longe que se fazia mais perto e para uma expectativa que contagiava todas as suas vísceras que, tensas, se contraíam derradeiramente. Muitas vezes se interrogava, e a interrogação nestas ocasiões fazia-se risonha e repousada, se, quando o vira pela primeira vez, quando cedera a conversar com ele em mais intimidade, quando aceitara juntar ao dele o seu destino, ela soubera sempre que seria assim, que assim seriam os momentos de cujos intervalos a sua vida quotidiana era dormência paciente, ansiedade de todas as horas, silêncio em que o seu corpo se fechava; ou se, pelo contrário, tudo lhe fora transmitido, imposto, insinuado, sugerido, gravado por uma presença que punha, em tocá-la e em repeli-la, em ignorá-la e em possuí-la, um capricho implacável e inescrupuloso, um alheamento descuidado e, no entanto, exigentemente cioso, um desapego que a entontecia, a inquietava, a fechava à sua própria consciência.

Sorriu ligeiramente, para aquele rosto em que pairava, junta com uma suavidade de pele, que a fascinava, uma ironia subtil e gratuita.

O rosto, que se deixara contemplar, ensombrou-se repentinamente, para abrir-se, logo depois, num sorriso, em que a mão se retirou do seio para, dando uma volta no ar, como que ter feito que o corpo rolasse sobre si mesmo, para ficar então deitado de costas. E os olhos fecharam-se-Ihe.

Ela esperou, e ergueu-se sobre um cotovelo, como lhe era irresistível quando a nudez dele se alongava assim sobre a cama, branquejando, num halo que as suas narinas aspiravam, enquanto os olhos iam percorrendo o corpo todo, que mantinha ainda, apesar dos anos, uma imprecisão adolescente e uma fragilidade enganadora, cuja força ela gostava de ir reconhecendo sob a penugem suave que só no peito e no baixo-ventre era um brilho negro, e na inocência do sexo, ainda entumescido mas tombado.

A mão esquerda dela, como que a ocultas da sua própria vontade que a reteria se não estivesse a distrair-se quase voluntariamente com a decisão de retê-la, veio vindo até junto do braço esquerdo dele, que os dedos subiram, em pontas, por altura da axila. Aí, sem pousar-se, a mão parou, expectante, porque a consciência de estar ali temeu, entre divertida e receosa, um alongado e sacudido gesto, que a fizesse cair. Mas o braço continuou imóvel. A mão, então, depois de, na ponta dos dedos, ter esfiado os pêlos que despontavam entalados entre o braço e o tronco, saltou para este e, com o indicador, afagou o mamilo escuro e áspero. O peito respirava pausadamente, envolto numa ténue humidade fria que a palma da mão já conhecia e era quase uma secura assetinada.

Não saberia dizer se aquela frialdade contraditória lhe repugnava ou não, uma vez que sempre ela fizera parte da sua surpresa, ainda que a conhecesse e a esperasse. Era talvez, até, um dos aspectos peculiares que a destacavam de tudo o que jamais imaginasse e se consubstanciava nele. Mas, ao mesmo tempo, era um dos outros aspectos que, como a ironia e a distância calculadas, formavam uma rede inextricável e finíssima, ante a qual o seu espírito sentia uma espécie de paralisia e de mudez, um medo de perder-se e de aniquilar-se.

A mão, espalmando-se no peito, esfregou os pêlos ao arrepio deles, que não eram crespos, mas, salvo num ou noutro redemoinho, dirigidos no sentido do ventre, a cujo umbigo pareciam apontar. Senti-los assim correr na sua palma revirados, e poder repô-los depois com repetida carícia, era uma forma de exorcismo, uma maneira de afugentar a apreensão que a pele dele, atraindo-a, lhe causava. Foi descendo depois com a mão, prolongando pelo tronco abaixo as carícias com que repunha os pêlos. Numa aspiração entrecortada e dupla, como um indistinto soluço, ele suspirou.

Então, a mão ficou retida no umbigo. E os olhos perscrutaram o rosto dele, que continuava imóvel, pálpebras cerradas, sobrancelhas soerguidas, boca ligeiramente entreaberta. Só o nariz parecia palpitar. A mão levantou-se e pairou hesitante: pousaria quieta, afagaria um pouco, regressaria, avançaria, ou retirar-se-ia?

Embora conhecesse por experiência as reacções que a tudo, diversas, ele poderia ter, não sabia, na solidão que começava a invadi-la, qual das reacções preferia, para estilhaçar-Ihe o vidro que se interporia nela, entre o ardor sequioso, latejando no pescoço e no ventre, e a coragem de provocar um gesto decisivo que poderia ofendê-la, ou humilhá-la, ou magoá-la mesmo, ou dominá-la apenas.

A mão pousou, porque ela sentiu que não desejava nada; e, porque, repentinamente, uma imensa tranquilidade grata era o que latejava afinal em compassado ardor, a mão foi avançando e penetrou os dedos na massa crespa em que os enleou. O cotovelo afrouxou, dormente, no que o corpo se apoiava. E a cabeça, descaindo para a frente, pousou suavemente, acomodando-se, no peito dele.

Entre ambos ficou o braço dele, que ela sentiu esgueirar-se e envolvê-la depois, sem a tocar, de que ficou esperando, contraída e desagradada, que ele fizesse o que fez, percorrer-lhe com as pontas dos dedos a espinha até às ancas, onde a mão se espalmou, aberta, para apertar-lhe logo com força a carne. Então a mão dela avançou mais, roçou com as costas ao longo do sexo, que deu um lento salto, mergulhou nas virilhas, e demorou-se sentindo, nas costas, os movimentos interiores, ora lentos, ora súbitos, dos testículos.

Repentinamente, a mão que, apertada a carne das ancas, ficara pousada e como lá esquecida, levantou-se e, agarrando-a no pescoço, por detrás, fê-la levantar-se e cair deitada, enquanto o tronco e o outro braço vinham sobre ela, e os dentes a mordiam no lábio inferior com uma violência que tentou repelir. Mas logo a sua própria língua lhe embateu nos dentes, que descerrou para que ela viesse encostar-se à outra que, abrindo-lhe os lábios, a buscava.
II

Num Ímpeto brusco, que o despegou do corpo dela, rolou e parou deitado ao lado, com a mão esquerda estendida por cima dos cabelos soltos dela, que roçava, e a mão direita pousada entre os dois seios, sentindo, menos que o coração batendo, a tremura ténue que a ficara percorrendo. De olhos fechados, ela trouxe as mãos sobre a dele, segurando-a sem força contra o peito. Então a mão, sob as outras, deslizou um pouco e, entre o polegar e os dedos estendidos, tomou a curva da inserção do seio que, com um jeito oscilante do pulso, ia contornando cariciosamente. As mãos dela apertaram a sua, e ela, descaindo a cabeça, fitou-o.

Quando ela o fitava assim com aquele olhar húmido e quebrado, que ao mesmo tempo lhe perscrutava as feições e abstraía delas em transfigurações imaginosas da ternura, o que ele como que via no flutuar difuso em que o próprio olhar vagava atento para além dele, apetecia-lhe torcer nos dedos duros os seios entre os quais a mão pousava. Sentir a tremura ténue que a ficava percorrendo não era uma carícia, nem uma metamorfose do desejo em estima, nem mesmo, em atenção de pele contra a pele, o prolongar em táctil sensação as vibrações da posse. Era, antes, reter na carne o que tendia a repercutir, em concêntricas ondas, na imaginação e na memória. Para ele, nunca recordar ou imaginar acrescentava nada ao, seu amor, pois que este não existia fora de uma sensualidade que se dispunha abruptamente a aceder às solicitações tímidas em que ela punha uma paixão humilde, ou a violar essa mesma humildade para possuir não um corpo que lhe pertencia a todos os instantes como se sempre estivesse a penetrá-lo, mas os recantos em que o espírito dela se comprazia em, solitariamente, adorar uma sua imagem compósita e perene, na qual, ainda que ignorando-a, se não reconhecia. Fora de tal sensualidade, as pequenas coisas da vida assumiam para ele uma importância enorme, eram uma insistência teimosa e metódica, a propósito de tudo, com que o amor se defendia de tornar-se um hábito, ou de transformar-se em algo mais que aquela segurança inquieta e cínica, a que um jeito hábil e oscilante do pulso dava o preciso sentido de domínio precário, de incerteza, de renovada investigação e, sem que o confessasse, adolescente apelo.

Sempre se espantara de como gostara dela, como ela se lhe dera, como ele a despertara para um amor em que não havia lugar para mais nada, nem ideias nem sentimentos, e que se renovava a cada vez que, numa posse que era sua vaidade fosse exasperantemente consumada em solicitude e em lucidez, de que o seu prazer se acrescia, e na arte das quais não havia desvão dela que não sentisse arder e que não acusasse, no corpo que abraçava, todo o toque, a contenção apaixonada e dolorosa, ao fundo da qual ela lhe parecia sempre um pequeno animal acossado e aflito, se abria num ranger de dentes e num empurrá-lo, que, erguendo o tronco sobre os pulsos, primeiro, e agarrando os dela, logo após, ele transformava numa calculada imobilidade, de que então caía sobre ela na contracção em que coincidiam ambos, graças à tensa expectativa com que, contendo-se, precipitava a mesma coincidência. Muitas vezes se interrogava, e a interrogação, nestas ocasiões, fazia-se carinhosa e displicente, se, quando a vira pela primeira vez, quando tentara conversar com ela em mais intimidade (intimidade, que palavra absurda!), quando aceitara juntar ao dela o seu destino, ela tinha em si mesma, virtuais, aqueles momentos de cujos intervalos a vida quotidiana de ambos era uma vigilância azeda, uma serenidade extravagante, um silêncio em que o corpo dele simulava desinteresse; ou se, pelo contrário, tudo ele transmitira, impusera, insinuara, sugerira, gravara, com uma presença que punha, em tocá-la e repeli-la, em ignorá-la e possuí-la, um capricho implacável e inescrupuloso, um alheamento descuidado e no entanto exigentemente cioso, um desapego com que a entontecia, a inquietava, a fecharia à própria consciência.

A perplexidade, um pouco angustiada mas também confiada, com que vacilava nestas conjecturas, fê-lo afivelar no rosto um ar de ironia, vago e indeciso. Ela sorria-lhe, sem dúvida menos pela carícia no cimo dos cabelos soltos, que pela curiosidade ante o falso mistério das suas feições suspensas. Esta contemplação sorridente acabava sempre por irritá-lo, porque lhe parecia que ela se sugestionava de imaginações a seu respeito, para justificar-se de amá-lo como amava, numa atracção que ele próprio explorara e não podia ter outra causa. Para ele, era quase inconcebível que o amor fosse aquela preferência exclusiva que nela cultivara, e de que a virgindade que ela lhe oferecera diminuía o alcance. Como podia amá-lo tanto, e dar-se tanto, achando-o único, se único mesmo é que ele fora? Com alguma ostensividade, ensombrou repentinamente o rosto, retirou as mãos, deitou-se de costas. Este deitar-se de costas era um prazer contraditório, já que também, pelas mesmas razões, detestava a contemplação embeveci da que, nela, ao seu corpo se transferia, enquanto não deixava de haver certo exibicionismo, que reconhecia adolescente, naquele expor-se e a uma virilidade que não se cansava de confirmar e de descobrir. Fechou os olhos. Quando assim os fechava, estendido ao comprido, com os braços ao longo do corpo, sabia que mão dela não tardaria em vir extraí-lo da sonolência expectante em que, por instantes, deixava de, no fundo, interrogar-se sobre o que se passaria nela, a que ponto continuava a dominá-la e a possuí-la, mesmo quando lhe era evidente a desistência dela em retrair-se.

Quase sentia a indecisão da mão que avançava como uma aranha, pé ante outros pés, para o seu braço. Os dedos tocaram-no, subiram e hesitaram. Subiam eles, e foi-lhe preciso conter conscientemente o sacão do braço que os sacudiria, fazendo-os cair voltados, como um insecto infeliz, sobre a cama. Teria de abrir os olhos, executar gestos de ternura, restabelecer artificiosamente uma confiança que, natural, não seria crível. A mão, então, apertou entre os dedos os pêlos do sovaco, que ele sentiu repuxados e entrecruzados, e saltou para o tronco. A isto, que era uma manifestação da travessura infantil que nela, em raros instantes, se revelava intacta, e era também uma carícia de íntima confiança que o lisonjeava, nada oporia que a contivesse. Além de que lhe dava um prazer inconfessado que a mão dela, como agora estava acontecendo, tocasse no mamilo. As mãos por pouco se não levantaram, direitas novamente aos seios dela, para macerarem, sem aquela delicadeza coceguenta, as pontas grossas e carnudas. A mão espalmou-se-lhe no peito.

Não saberia dizer como aquela tepidez da palma, em que os seus pêlos se ajustavam às linhas da pele, era uma forma de comunicação. A húmida friagem que entre as duas peles sentia interpor-se, exercia um papel de amaciante do carácter, era uma espécie de pomada que, isolando uma da outra as duas carnes recobertas, permitia que a sua respiração, o bater do coração, e um fluxo que o percorria todo num fluir ondulante, se conjugassem num silêncio benevolente e receptivo, que se abria afável e desprevenido para receber a vida dela.

A mão esfregou então, ao arrepio deles, os seus pêlos do peito. E voltava a alisá-los, numa sedosidade em que, sentindo-a na palma da mão dela, se diluía a compreensão tácita que ele concentrava na mesma palma aberta e repousada. A mão foi descendo, prolongando pelo tronco abaixo as carícias com que repunha os pêlos. À medida que a compreensão se diluía, o desejo começava a encaminhar-se de todo ele para o sexo, num palpitar que era como um cortejo de luzinhas deslizantes ao longo dos seus tecidos, das veias, da consciência, e que substituía por um movimento dirigido aquele fluir ondulante e disperso, de que a compreensão se suspendera. A perda de contacto, que o entendimento da carne iria consagrar, constrangeu-lhe a respiração, fê-lo suspirar. Um breve instante, a procissão de luzes hesitou num redemoinho lento.

A mão ficou retida no umbigo. E a respiração dele tornou-se de uma suavidade indistinta, contida, que em nada influísse nas decisões transmitidas àquela mão, que, repentinamente, lhe apeteceu agarrar e calcar contra o sexo. O gesto apenas se efectivou num tremer das narinas. A mão levantou-se e pairou. Que iria fazer? Pousaria quieta? Afagaria um pouco? Regressaria? Avançaria? Retirar-se-ia?

O que ele faria ou não dependia afinal tão-pouco do que a mão fizesse! Ou, antes, não dependia apenas disso, e não havia, portanto, uma correspondência exacta que para ele era imprevisível, entre o gesto e a reacção dela. Se a mão pousasse quieta, poderia pegar nela e levá-la ao sexo; mas também poderia levá-la, precipitando o gesto dela, se a mão avançasse. Se a mão pousada o afagasse no ventre, poderia acontecer que, como quando regressasse ao peito, ele se voltasse e quisesse retribuir, com uma raiva maldosa que apertaria o ventre dela ou a cintura em dedos que a magoassem, a solidão acompanhada que o afago retido ou recuado mais sublinharia. Se a mão se retirasse, desistindo, era bem possível que – e também o era, se a mão pousasse quieta – ele, calculadamente, voltasse as costas, simulando uma indiferença que acabaria por tornar-se real, forçando-o então a voltar-se a seguir para ela e a acusá-la, num gesto brusco, da indiferença que só ele estabelecera. Na espontaneidade marginal que o amor mal permitia, ele não sabia qual das reacções preferia, qual a mais directa ou mais certeira para elidir os meandros de uma decisão que, solitária, se transformava, pouco a pouco, num esquecimento dos corpos, ou numa lembrança dos corpos em que as sensações latiam tranquilas, confundidas, inlocalizadas.

A mão, afinal, pousou. E ele, sentindo, na tepidez tranquila da palma que assentava, que a mão ia avançar, foi invadido, num tumulto suave, por uma piedade enorme, uma doçura terna, uma camaradagem leal e condescendente por aquela fragilidade infantil e tímida, cujos dedos acabavam de penetrar, enleados, na suada e crespa cabeleira do seu sexo. Quando a cabeça dela, como esperava, se deixou pousar, acomodando-se, no peito dele, imperceptivelmente as coxas se afastaram para que a mão se aninhasse, sem que tivesse de forçar o pudor que, ao longo do braço dela, era a própria delicadeza do gesto.

Retirou, esgueirando-o, o braço que entre os corpos ficaria mais preso, e imobilizado, se o não retirasse antes de ela ficar à espera do afago que a outra mão viria fazer-lhe no rosto. A liberdade do braço, que era também a liberdade de, tocando-a, forçá-la a despertar de um encanto inocente que, continuado, o entristecia, manifestou-se em percorrer-lhe a espinha, em apertar-lhe a nádega. E a mão dela pôde, no domínio que a distraiu, avançar mais, roçar as costas ao longo do sexo, cuja contracção ele supôs ter decidido, e demorar-se de maneira a que ele sentisse, contra ela, os movimentos interiores, ora lentos, ora súbitos, dos testículos.

Repentinamente, com a mão que ficara pousada e como que esquecida, após ter apertado a carne das ancas dela, agarrou-a no pescoço por detrás, o que era um modo de carinho para com o animal acossado e assustadiço que havia dentro dela. Fê-la, assim, levantar-se do peito dele e cair deitada, numa espécie de surpresa em que o susto se tornava confiança na carne reconhecida e reconhecendo-se. E o tronco e o outro braço foram sobre ela, dando-lhe em peso e em sufocação a imobilidade com que tentaria repeli-lo, quando lhe mordesse, como estava mordendo, na fúria com que a língua rebuscando a língua dela se antecipava a penetração em que, fazendo-a possuí-lo até ao âmago, a inundava de uma demora torturada e feroz que era a raiva de um amor que só existia nela, por ela e para ela, cuja posse o projectava ante si próprio, em cada recanto em que, penetrando-a ou mordendo-a ou apertando-a nos braços, encontrava uma marca de si mesmo.
III

Ali deitados ambos, separados já, quem são? Será que o sabem? Será que voltarão a ser o que antes eram? De nada vale que perguntemos; de nada adianta que, nos gestos de um e de outro, tentemos ler o que eles por si mesmos tentam ler.

Seria um erro, porém, supô-los imortais, fora do tempo e do espaço, vivendo apenas de tortura e de gozo, ou tortura-gozo, em que seriam natureza humana. Outro erro, porém, e não menor, seria supô-los mortais, isto é, confinados a si mesmos, entregues a si mesmos.

Não são então a natureza humana, livre e responsável, que, mesmo morrendo, ou porque morre, da morte se liberta? Nem são esse limite, esse confinamento, em que ficará preso e aniquilado o ser admirável que não mais se repete?

Não, não são. A vida de ambos, ambos a conhecem. Como a pobreza os constrangeu, como quereriam ter filhos, querem tê-los, e vão dolorosamente sofrer por esta hora que passou agora. Como estes instantes são raros, mesmo na comunhão em que os repitam muito. As apreensões, as preocupações, o trabalho, o mundo em que vivem, tudo isso pesa. Mas pesam também essas famílias que os geraram e os criaram; pesam os amigos e os inimigos que lhes revelarão tanta malícia da vida; e pesa sobretudo esta obrigação diurna de viver, em que os braços ficam na curva inútil de um corpo que, mais tarde, não encontrará neles a sua forma em que os modelou.

Podemos deles e para eles inventar tudo. A alegria. A dor. A amargura. Uma casa. Móveis. O emprego. Os passos repetidos. A inquietação ante um colarinho que se esfia. O gosto dos alimentos que comem. As doenças súbitas. As palavras cortantes. Os sorrisos. Os olhos que se fecham para não compreender. Os olhos que se fecham para compreenderem melhor. E a cidade, e o bairro. E o país. E a época. E a janela que se abre para a madrugada. Ou a que fica aberta ao ar nocturno. As pancadas na porta. As escadas. Os domingos sonolentos. O mar em que se banham. Os transportes em que outros os apertam.

E tudo o que inventássemos era a mesma, a minuciosa, a concreta, a exacta, a rigorosa vida deles, tal como é de facto, no dia a dia, noite a noite, hora a hora, em que eles 8. vivem ou são por ela vividos.

Mas inventar para quê? Se vão separar-se para sempre, se alguém se interporá entre eles, se o amor morrerá de súbito, tão arbitrariamente como é, agora, a própria essência _ tão frágil, tão incerta – da vida de ambos; tudo isso será que nos importa? Será que nos diz respeito?

Sem dúvida que importa e que nos diz respeito. E até bem mais do que reconhecemos na nossa curiosidade, no nosso prazer de aferirmos por alheias as nossas vidas, na nossa amargura de referirmos a nós mesmos as vidas dos outros. A sorte deles não pode, por forma alguma, ser-nos indiferente. É fundamental que saibamos avaliá-la, saibamos distingui-la, possamos resumi-la num caso, num problema, numa situação, para intervirmos, ao menos uma vez, a tempo e no lugar mais próprio. Apertaríamos a mão dele, com simpatia. Beijaríamos – será que beijaríamos? – a mão dela com ternura e carinho. Faríamos tudo que estivesse ao nosso alcance para salvá-los (ou para perdê-los).

Estarão então em perigo? Perigo de quê? De crueldade? De luxúria? De egoísmo? De frieza? De amor em excesso?

Possivelmente, sim, estão em perigo. Mas é difícil, muito difícil, dizermos em que perigo. Perigo de serem criaturas vivas que se tornam personagens. Perigo de serem personagens que se transformem em criaturas vivas. Estes dois perigos juntos para ambos, ou um dos perigos para cada um deles. São perigos imensos.

Mas, se não soubermos como são personagens ou criaturas vivas, o perigo que eles correm é maior. Se errarmos de socorro, que será das suas vidas?

Não, o melhor é olharmos, em silêncio, contendo a respiração, como eles dormem. Porque, entretanto, estão dormindo ambos, enlaçados. E nem sequer sabemos se é dia, ou se é noite. Dormem serenamente, saciados, felizes. Felizes? Não foi que um deles contraiu o rosto? Apenas num reflexo? Ou sonho inquietante? Dormem. Estão dormindo. Mas dormirão por muito tempo ainda? E se estivermos aqui, tão perto deles, quando eles acordarem? Que pensarão de nós?
Assis, 12 de Setembro de 1960.

 

* Gobbi, M.V.Z. et alii, org. Intelectuais portugueses e a cultura brasileira: depoimentos e estudos. São Paulo/Bauru: UNESP/EDUSC, 2002. p. 30

Um imenso inédito semi-camoniano, e o menos que adiante se verá (parte 2)

Estabelecida a identidade do autor das Quibíricas, resta perguntar: como foi que tão importante obra se viu em condições de sair à luz em Moçambique? Nada mais simples de responder. Nos Anais do Instituto Histórico e Topográfico do Monomotapa, vol IX, 1884, pp.37-48, hoje reeditados pela diligência do Instituto Internacional de Moçambicologia em edição anastática, imprime-se um inventário de uma família Grabato Dias da Silva e Quadros, feito em 1778, por questão de partilha de terras na zona do Mossuril, no qual pode ser lido, entre outros itens de grande valor histórico-social, que aquela família possuía então um manuscrito assim mencionado: um grosso caderno cozido de estâncias à maneira de Camões em que há falas del-Rei D. Sebastião. É óbvio que se trata do manuscrito original das Quibíricas ou de uma cópia (quiçá a que veio a servir de base para a presente e sensacional 1a. edição). Os Grabatos Dias eram descendentes directos do nosso frade, diga-se em abono da sua virtude e em desconto das suas devassidões, através de um seu filho gerado e nado em Moçambique, aonde não sabemos como o frade teria passado ou quando, ainda que se saiba de fonte segura deste efeito de sua passagem – vide a Tábua LXXIX do Corpo Genealógico das Terras do Oriente, e a nota 57 que se lhe refere [24]. Esta nota é aliás decisiva, já que contribui para explicar o compadrio – termo mais que exacto – entre o Épico ou Camões, e o seu alter-ego. Segundo ela, eram efectivamente compadres, do que não soubera Luís Franco Correia. De facto, Camões fora padrinho na Ilha de Moçambique, de um menino a que puseram o nome de Vasco Grabato, filho de João Grabato e de Sherazada da Cunha Dias, ex-sultana de 2a. classe de Melinde, por ter sido uma das esposas do rei Abd-el-Karim-el-Jamir, filho ou neto daquele que ouvira a Vasco da Gama, segundo Os Lusíadas, nada menos que três cantos dos mesmos [25]. Parece que João Grabato, em circunstâncias não explicadas, a raptara de Melinde e levara para aquela Ilha, provocando com esse acto graves retaliações entre portugueses e os seus aliados melindanos [26]. No manuscrito de Diogo de Couto, largamente referido pelos camonistas e cuja autenticidade côutica é por alguns coutólogos posta em dúvida [27], existe uma nota no verso de pp.148 [28], na qual se declara constar que D. Sherazada – cujo nome esta nota não refere – partilhava os seus favores com os amigos do seu companheiro [29], entre eles o próprio Camões! Isto é, convenhamos, de certo modo extrapolar de uma nota brevíssima e quasi ilegível, mas extrapolação sumamente legítima em Camonologia e garantida pelas mais pertinazes tradições dela, pois que – ó suprema ironia – pode ser que aponte quiçá para que Camões haja dado um poema em troca de um filho que não convinha em absoluto à sua condição de génio celibatário e estéril no que à propagação genética de portugueses respeita [30]. É de admitir que João Grabato tenha trazido [31] consigo o filho para Portugal, e que, mais tarde, este haja regressado à Ilha de Moçambique, aonde ou nas vizinhanças sua ilustre mãe vivia [32]. Os Grabatos prosperaram largamente com fornecimentos às armadas e outras actividades correlatas [33], até que aquelas partilhas que foram uma longa demanda [34] os reduziram a uma mediania mais do que modesta, de que se não recuperaram para cima do anonimato do vulgo [35]. O manuscrito, muito deteriorado, reaparece, porém, mais tarde. Com efeito, numa carta de 17 de Abril de 1893, Mousinho de Albuquerque [36] diz tê-lo notado entre os cartapácios de uma das mesquitas da Cabeceira Pequena, povoação da Terra Firme fronteira à Ilha de Moçambique [37], sem todavia se aperceber do valor excepcional do que manuseara: é o mais que poderia esperar-se de um grande herói que, reflectindo a decadência dos tempos, se suicidou, não com Vergílio ou Horácio nas mãos, mas um romance francês de capa amarela [38]. Recentemente, por certo recolhido e assim salvo para a posteridade por algum eventual habitante daquelas paragens, que suspeitou nele valor superior ao do simples papel velho, quando buscaria móveis luso-indianos para rendosa exportação e difusão da arte portuguesa de origem oriental [39], o manuscrito apareceu em Lourenço Marques (sem rosto, frontispício, ou outras páginas identificatórias), e, por feliz acaso de livraria, tombou nas mãos dos amantes das letras pátrias que ora o editam.

Não é verdade que outro manuscrito exista, como já alguém insinuou, nos arquivos familiares de certa família lisboeta ainda aparentada com aqueles Grabatos. O que terá criado a confusão, ou servido de base a tão aleivosa insinuação, é a existência aí certa e segura de algumas novelas de cavalaria, muito marcadas de erotismo, mas infelizmente ainda inéditas, compostas por D. Joana de Menezes da Gama e Castro, que, nos princípios do século XVII, foi notória abadessa do Convento de Santa Clara de Arrabais, mais tarde dissolvido por uma visitação do Santo Ofício, sendo a abadessa e as suas freiras consignadas às respectivas famílias da alta nobreza a que pertenciam, por “dadas a labores mais carnais que espirituais nos outeiros que promoviam”[40]. A abadessa compunha – o que é de extraordinária originalidade – as suas novelas em verso livre, agrupando-os todavia em oitavas assim irregulares [41]. Há porém alguma desculpa para aquele lapso acima citado. De facto D. Joana de Menezes da Gama e Castro, depois de revertida ao lar paterno (o dos Senhores da Torre das Coiras, em termo de Resende), teve os seus dares e tomares – finalmente mais práticos que teóricos – com um certo Manuel Grabato, cujo nome aparece entrelaçado com o seu no manuscrito das oitavadas novelas, não só no rosto mas em várias das páginas. Um filho que ambos tiveram e se chamou – coincidência ou parentesco? – João Grabato, assinou o seu nome por cima do da mãe, nos rostos dos manuscritos [42]. Mas deste João Grabato nada mais se sabe, senão que, havendo-se partido para o Brasil como secretário do Governador Furtado de Mendonça, aí foi devorado pelos índios aimorés [43]. Se, antes de transformado em churrasco e digerido, também compusera oitavas de verso regular e irregular, conforme os modelos respectivamente do seu homónimo e de sua mãe, eis do que não encontrámos notícia alguma.

Nada disto tem que ver com As Quibíricas, e apenas é aqui mencionado, com o respectivo aparato erudito que nos foi possível acumular, para desfazer-se à nascença um erro literário que poderá proliferar acerca de manuscritos conhecidos da importante obra que honrosamente prefaciamos.

É o momento de declarar, agora que finalizamos estas modestas considerações introdutórias de uma publicação a tão variados títulos estrondosa, que a precipitação em editá-la quanto antes, neste ano do centenário de Os Lusíadas, não nos deu tempo – esmagados ao peso das nossas obrigações de camonólogo não-oficial – para ler atentamente, de uma ponta à outra, As Quibíricas. O que faremos na primeira oportunidade. Mas desde quando é tradição em Portugal, ou em Portugal se exige, que um prefaciador tenha lido a obra que prefacia? Pelo que as circunstâncias até nisto nos fizeram obedecer às mais lídimas tradições da cultura portuguesa.

Ide Quibíricas, ide por esse mundo da lusitanidade e adjacências, e que o vosso vigor, o vosso desbordamento tão sabiamente calculado, a vossa inventiva, o vosso sentimento tão actual e tão vetusto, encontrem, como o vosso autor, aquele centenário e centenarial reconhecimento a que fazeis jus, sem que as armas e a inveja, ominosamente a primeira e a última palavra de Os Lusíadas, ou os altos fados e neste passo, as primeiras e as últimas de que sois compostas, se identifiquem entre si mais do que a duplicidade amplamente demonstrada do vosso autor requer, para mal dos nossos pecados e dos de Camões, quando tentou transformar numa reconquista do Paraíso Perdido – ai quanto sonha a poesia! – a história de “onde se acaba a terra e o mar começa”. Ide, e cantai! E que o Velho do Restelo e o Adamastor, assim como Téthys, Vénus e os outros deuses incluindo o Padre Baco, nos perdoem a todos, e sejam para tanto estas Quibíricas o ramo de louro e mais tempêros tão necessários ao bom gosto da vida e das palavras em torrente, nesta era de pílulas de poesia e outras [44].

 

Santa Bárbara (aposentada da Corte Celeste), 1 de Outubro de 1972.

 

Notas:

24 – Este Corpo Genealógico, citado aliás por Alão de Morais na sua Pedatura Lusitana que faz a mais absoluta fé para os genealogistas da nossa praça, existe – precioso manuscrito – na sevilhana biblioteca do Duque de Medina Sidónia, havendo dele uma cópia muito imperfeita e incompleta na do Escurial. Tão aparentados com a grande e a pequena nobreza de Portugal e suas partes ocidentais e orientais, compreende-se como tal obra tenha em algum tempo sido recolhida à biblioteca daqueles Duques aparentados com o próprio Camões.
25 – Não seria excessivo fazer algumas conjecturas acerca de como e porque se chamava de nome português esta D. Sherazada por quem os Dias vieram aos Grabatos. Mas sublinhemos apenas a curiosa coincidência de ela (e o marido) haverem posto ao filho o nome de VASCO, se não foi o padrinho quem lho deu. Vasco da Gama passara em Melinde, e talvez que não tenha apenas conversado com o rei, conforme rezam as crónicas e Os Lusíadas. Semelhante explicação teria o nome Cunha Dias que era o daquela senhora, já que outros portugueses, noutras gerações, também lançavam a âncora em Melinde.
26 – Estas retaliações são confirmadas pela História Geral das Guerras Moçambicanas, do jesuíta Martim da Câmara Silveira (1570?-1693), hoje belissimamente editada pelas publicações do Instituto Ultramarino de Pesquisas Histórico-Sociais, na série dedicada às Comunicações da Academia Regional da Junqueira, Lisboa, 1971. O jesuíta não faz, porém, alusão àquele rapto, mas, curiosamente, atribui o incidente aos melindanos que teriam assaltado e violado a esposa de um traficante português.
27 – A mais recente publicação sobre esta questão é a de Charles S. Fighter, The Manuscripts of Couto’s Décadas and their Roots in African Legends, Nairobi, 1968, obra publicada sob os auspícios da Hakluyt Society, e a todos os títulos notável.
28 – A nota é de outra letra, ainda que a tinta e o cursivo pareçam da mesma época.
29 – Companheiro é o termo constante do manuscrito, e não marido. Mas isso não nos autoriza a que pensemos que Couto, ou quem por ele, ignorasse ou pretendesse ignorar os sacros laços que ligavam o Grabato e sua esposa legítima, ou esteja mesmo a desmentir a existência deles. Tais imprecisões eram infinitamente comuns em obras do tempo, e aliás reflectiam as cautelas em não servir de fonte para fabricações genealógicas, que os autores tomavam.
30 – Não esqueçamos que, com raras excepções, é sabido ser esta uma condição sine qua non para aspirar-se à mais alta categoria poética na literatura portuguesa, igualmente válida de resto para machos e fêmeas. Havendo já antecedentes conhecidos, e tendo-se Camões por um culminante génio, é perfeitamente aceitável que tomasse as suas precauções, menos para salvaguardar-se de responsabilidades que para guardar-se como génio por excelência. Se alguém não devia, pelo menos publicamente, casar ou ter filhos, era ele.
31 – Trazer e levar são muito curiosamente permutáveis na linguagem literária portuguesa, de longa data, nestas matérias de deslocação geográfica. Notável reflexo de ambiguidade topológica da nação em suas partes dispersas pelo mundo.
32 – Ao que é de crer, dirigia ela, com superior proficiência e recatada dignidade, a contento absoluto das mais altas autoridades civis, militares e eclesiásticas, uma espécie de harém – seria impróprio dizer “bordel” – mantido por várias daquelas entidades em convénio colectivo segundo as tradições do Oriente, aonde, de acordo com as mesmas tradições, eram recebidos eventualmente os visitantes ilustres que cruzavam de e para as Índias. É pelo menos o que consta das Memórias Curiosas sobre a Ilha de Moçambique e Seu Termo, ms. infelizmente inédito do Arquivo Histórico da Beira, composto pelo capitão Álvaro da Costa Perestrelo (parente daquele Pero de iguais apelidos, tido como amigo de Camões?) que ainda chegou a conhecer pessoalmente a ilustre dama, bem como as instalações a que ela presidia “com real benignidade”, diz ele. Parece, todavia, que o Capitão ignorava as circunstâncias do casamento dela, que não refere.
33 – Cf. alguns contratos que pertencem ao fundo do Arquivo Histórico Ultramarino, março 420, e também o que é dito por Fr. Joaquim Lucideno de Ataíde do Patriarca São José, em Tesouro Espiritual de Várias Flores Humanas e Divinas, Chaves, 1742, aonde alguns Grabatos, que por certo são estes, aparecem encomiasticamente louvados “por suma Humanidade com que se haviam no tráfico de escravos para o Brasil, sem jamais separar famílias e antes unindo-as pelos laços sagrados antes de embarcá-las”. É certo que o mesmo autor alude, com repulsa, mas também desmentindo os factos, a outro tráfego, a que eles se entregariam, de jovens negras para os haréns da Arábia que hoje diríamos Saudita. Acerca desta corrente comercial que, ao que temos ouvido, ainda persiste clandestinamente (já não em mãos de Grabatos, é óbvio), cumpre-nos acentuar que tais costumes orientais deveriam ser protegidos e animados pelas autoridades e investidores financeiros, não só por respeitarem uma respeitável tradição antiquíssima, como por contribuírem decisivamente para o intercâmbio cultural, ao nível em que melhor se realiza em carácter de mais sólida radicação, entre a África e a Arábia. Igualmente nos consta que os Emires do Golfo Pérsico ainda patrocinam expedições deste tipo às costas orientais do continente africano – e isto deveriam ter em mente todos quantos dependam daquele prestimoso petróleo que em tão largas quantidades aqueles mesmos emires controlam. Iríamos mesmo até propor que escolas secretas para a educação político-económica de candidatas rigorosamente seleccionadas pelos seus atractivos físicos, e a sua inteligência não só sexual mas intelectual, fossem organizadas por quem de direito, a fim de elas poderem influir decisivamente nos acordos que com esses homens de grande poder viessem a ser negociados. Mas isto é um simples aparte. Todavia, algo nos Grabatos e suas artes o autoriza. É tradição oral que eles – ainda que o nome se ouça corrompido em Garibatas no que é hoje a Tanzânia e o Quénia (Cf. Yogolu Ben Iramit, The Erotic Schools of the Garibats, Dar-es-Salam, 1963) – não se limitavam a uma descuidada e indiscriminada exportação. O material era intensivamente educado em todas as técnicas eróticas, e repartido em duas categorias de diversa escala de preço, para corresponder aos gostos da clientela: as que eram mantidas virgens, e as que o não eram. Estas últimas, por sua vez, compunham-se de dois grupos, as que iam desvirgadas e fortemente usadas, e as que levavam a virgindade reconstituída artificialmente. Os “garibats”, segundo a douta obra acima citada, eram eles mesmos quem, de pais a filhos, rigidamente educados desde a adolescência, executavam pessoalmente estes preparos e arranjos. Para as escolas acima sugeridas, não há mais que restaurar esta tradição.
34 – Os pormenores da demanda, ainda que necessariamente tediosos, podem ser conhecidos pelos documentos publicados no Corpus Historicus et Juridicus ad Mozambique cognatus, à meritória ordem do Conselho Superior das Ordens de Mérito Agrícola, pelo Prof. Doutor Antoniano Divarsá de Mello, Lisboa, 1970.
35 – Não se pense que os Grabatos eram originariamente “vulgo”. Muito pelo contrário. Aparecem já mencionados no Nobiliário do Conde D. Pedro de Barcelos, aparentados nada menos que com os Haros, os Castros e os Guzmáns, e deveria ser melhor conhecida a anedota recolhida por aquele autor muito mais irónico do que os medievalistas têm reconhecido nas suas obsessões filológicas, e em que um Fernão Grabato é referido em muito pitorescas circunstâncias. Oriundos da Biscaia e transferidos depois à Galiza e a Portugal (na pessoa de um bisavô daquele Fernão, o qual havia sido companheiro de Afonso-o-Casto, e parece que havia contribuído para que este fosse menos merecedor do cognome que lhe ficou como soberano hispânico), tiveram naquele Fernão grande fama. Com efeito, primo que ele era de D. Mécia López de Haro, a famosa esposa ou amante do rei D. Sancho II de Portugal, regista o Conde, maliciosamente, que aquela dama, sabedora da curiosidade aterrada que às senhoras e mais fêmeas do tempo ele causava, por ser lendária a gigantesca dimensão dos seus adornos viris (razão pela qual nenhuma queria casar com ele, nem com ele ter mais que superficiais relações de física cortesania), o fez exibir-se na sua câmara ante a corte reunida, e na presença do próprio rei, ordenando-lhe que a máxima dimensão fosse por ele patenteada. E porque tal ele não conseguia ante o gáudio geral (ainda que a amostra fosse suficiente para confirmar a lenda), e rindo-se ela mais do que ninguém, ele comentara que tudo nele era conforme com a grandeza das pessoas a quem de perto e a sós cortejasse, e que apenas em leitos reais era digno dos mais altos estados. Irritou-se o rei com o comentário que tomou por desrespeitoso, e ali mesmo ordenou que D. Mécia levantasse as saias, para ver-se que efeito os seus primores teriam nele. Como não tivessem nenhum, e Fernão ficasse como corrido, saiu-se muito airosamente alegando que, súbdito e vassalo dedicado respeitosamente ao seu rei que o seu membro mais do que ele era, não podia este erguer a cabeça mais alto do que a do próprio rei, mormente quando as dimensões fossem maiores que as do mesmo rei com quem em caso algum deveria competir. E riu-se muito D. Sancho daquela graciosa saída. Mas o mesmo Conde de Barcelos mais adiante insinua que D. Mécia, depois de separada do rei, não resistiu a chamar Fernão ao seu leito, ao que ele, que tomara partido do deposto D. Sancho, virtuosamente se recusou.
36 – Cartas Inéditas, publicadas pelo Comte. Alípio Cárdenas da Silveira, Lisboa, 1959.
37 – Cremos que seria excessivo deduzir daqui, como de certos aspectos da vida dos Grabatos anteriormente referidos, que eles, ou algum ramo deles, houvesse em contradição com a sua extrema e biscaínha origem de cristãos-velhos, abraçado a religião muçulmana. O facto de essa cristandade velha poder ser suposta manchada de algum sangue de cristãos-novos não colhe (vide a este respeito José Delmano Sortelha, O Velho e o Novo nos Cristãos Portugueses, Lisboa, 1942, com copiosas genealogias e muita documentação). Tratar-se-á antes, daquela interpenetração de culturas tão inteligentemente estudada sem descabidos preconceitos por Maria Isabel de Lemos Picollino, em Miscegenação cultural e Miscegenação antropológica: alguns dados para o seu entendimento geográfico nas áreas de incerteza lusíada, tese policopiada de licenciatura em Ciências Sociais, defendida na Secção de História da Faculdade Católica de Teologia de Bragança, em 1971.
38 – Cf. Júlio Dantas, Pátria Portuguesa, Lisboa, s/d.
39 – O que este esforço tenha sido, em favor de um prestígio e reconhecimento, pelos mercados internacionais de arte, do valor de peças raras do antigo império português, eis o que ainda é cedo para avaliar em toda a sua extensão e profundidade. Mas louve-se, desde já, o afã patriótico a que, nesse sentido, se têm entregado pessoas de todas as condições sociais, desde as mais altamente colocadas até àquelas que especiais isenções não protegem. E isto apesar das respectivas medidas que absurdamente existem para contrariar o que, nestes tempos de emigração em massa, não deveria distinguir arbitrariamente entre as pessoas que são autorizadas a sair, e os objectos que o não são mercê de uma antiquada concepção do que património artístico seja. Se tal liberdade de movimentos não existisse apesar de tudo, como teríamos hoje Quibíricas?
40 – Cf. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, gaveta 98, maço 441. A devassa – delicada e eufemisticamente conduzida – é um primor de estilo ou de cândidas revelações por parte das declarantes e que os escrivães tudo fazem para ornar de inócua ingenuidade.
41 – Segundo D. Tomás de Noronha, o conhecido satírico cujas poesias nem sempre pecam pelo melhor gosto, em soneto inédito acerca do caso – vide Miscelânea no. 69 do já citado Fundo Pombalino – as oitavas simbolizariam oito variações eróticas que a abadessa e as freiras propunham como mote aos seus amorosos de locutório, e a irregularidade de extensão métrica referir-se à variabilidade (que elas haviam inocentemente descoberto nas glosas) do membro viril. Num soneto inédito do ms. da Biblioteca do Itamaraty, Gregório de Matos Guerra, o celebrado “Boca do Inferno” da Bahia Colonial, também alude verrinosamente ao caso, mas de modo mais consentâneo com a clausura. No que parece ser uma resposta à hipótese anterior, atribui ele a irregularidade métrica dos versos oitavados das novelas da abadessa apenas ao modesto equivalente feminino que aquelas senhoras por certo, apesar do que possa depreender-se da devassa, conheceriam melhor. Em outro soneto, também do século XVII (códice CCCLX/2-21 do Arquivo Distrital e Biblioteca Pública de Évora), mas anónimo (ainda que, por certas analogias de estilo, a sua autoria possa ser tida como de Fernão Correia de Lacerda, aliás antepassado de famílias moçambicanas), uma outra maligna hipótese é desenvolvida e mesmo anotada com a fonte erudita e devota: O Tratado sobre a Circuncisão de Cristo, da autoria de Fr. Estácio dos Santos, capelão que foi do Cardeal Gasparini, secretário de Estado de Papa Paulo III.
Tratar-se-ia, para as oitavas, de oito objectos fálicos de oito combinações de medidas, de que as freiras dispunham para os seus exercícios místicos. A que vinha aquele tratado? Tivemos ocasião de compulsar, na Biblioteca Vaticana, Secção de Super-Reservados, e graças à gentileza de um dos seus conservadores cujo nome nos cumpre não revelar, esse extraordinário manuscrito, que o é tanto pela matéria gravemente exposta, como pelas esplêndidas ilustrações expressamente desenhadas para ele por Bronzino e Vasari, e que fazem do códice uma das mais raras preciosidades daquela Biblioteca que tantas concentra. No Tratado, discute-se seriamente de como esses objectos, necessariamente circuncisos, correspondiam muito mais exactamente à indução de uma vivência espiritual com um ser divino que fora circuncidado, do que qualquer contacto, impossível de admitir com povos circuncisos, ou com cristãos que só espiritual mas não fisicamente o podiam ser, o que tudo era aliás vedado pelos votos de castidade absoluta. Compreende-se que tão maravilhoso códice não possa nem deva, pela tipografia, ser exposto a olhos maliciosos e teologicamente incompetentes. Mas que o autor do soneto acima referido o conheceu (directamente ou por cópia), não há dúvida.
42 – Cf. Memórias do Termo e Comarca de Resende, por Fr. Apolinário de Santa Rita de Cássia, Viseu, 1803.
43 – Cf. História dos Bispos do Brasil, ms. anónimo da colecção Barbosa Machado da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
44 – Cf. declarações do Papa sobre a pílula e a numerosa bibliografia sobre ela, assim como os manifestos e outras declarações de princípios de poetas mais ou menos concretos ou tendendo a tal, que tudo, por notório, desnecessário é mencionar aqui por extenso.
 

Poesia Carnavalizante II

Ainda em ritmo carnavalesco e carnavalizante, mais alguns exemplos na poesia seniana:

 

Goya, "O Enterro da Sardinha"
Goya, “O Enterro da Sardinha”

* Vigília Cívica (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)

* Homenagem a Tristan Tzara (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)

* La dame à la licorne (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)

* “O Beco sem saída, ou em resumo…” (de Exorcismos, Poesia III)
 

Vigília Cívica

No planalto da Pérsia,
enquanto Quetzalcoatl se espaneja, arrasta a cauda,
eles votam pela adopção da ementa parlamentarista.
A ementa é:
sopa de nabos, feijão guisado, arroz com carne seca.
Seca? Sim, minha senhora,
é na secura que os dentes encontram, exploram
e desenvolvem
as mais lídimas virtudes mastigativas.
Acredita V. Exa., senador, na selecção natural,
ou prefere, peito de rola, o outro mundo como
vontade e representação?
Eu sei, Excelência, que a resposta é impossível,
que o vento sopra no altiplano irânico
por uma forma que a serpente pode –
– o quê? Minha senhora, que entende de serpentes,
a senhora, emplumadas? Não
interrompa as meditações patrióticas dos sábios da Grécia
que eram sete e não houve, que se saiba,
outros.
Sirva-se V. Exa., senador, e a madame
também,
deste precioso guisado. O nabo é,
como diria Freud, um símbolo.
Acreditam V. Exas. no inconsciente coletivo? –
– pode a serpente levantar voo,
com as penas adejando e a cauda pendurada.
Nem sempre, eu sei, minha Senhora; mas,
em sopa cozinhada a fogo lento,
esse legume simbólico reage
como pode. Recorda-se, pai da pátria,
da sua juventude no planalto da Pérsia?
E de Édipo (o complexo), e de Jasão (o velo),
e de Ulisses (as sereias), naquela madrugada em que,
com ligeiro atraso, almoçámos juntos?
A cotação do café firmava-se nos astros
que Zaratustra lia apaixonadamente.
Foi nesse almoço que, na mesa ao lado, o cardeal falou,
citando CIF New York o Tigre de Bengala.
Creia, minha senhora, que de Ganimedes
nunca mais se soube, tranquilize
o coração maior que o mundo. Sobremesa?!
Mas como, senador, esta madama,
quando as serpentes passam exibindo as plumas,
deseja ainda pêssego em calda?!
O seu voto, senador, e o delas,
nesse altiplano irânico, Pamir, tecto do mundo,
são a derradeira garantia das instituições.
Mas pêssego, madame, com feijão
guisado e arroz com carne seca,
não é possível. Lembre-se de Ísis.
Repita a sopa. De nabo. Eu sei,
minha senhora, mas, a fogo lento,
esse legume simbólico reage
como pode.

4/9/1961
 

Homenagem a Tristan Tzara

Que mundo este. Morre a Princesa do Traseiro-ao-Léu,
Bacoreca Sinfrásia d’Aldipopes. Morre o tribilinto asfásico
dourada pluma de popotássicos futebóis tintáceos.
Ascende no ar um cheiro a Presidente. E a Imprensa
cai em delíquio de pernoca e bunda. Ou pavelitches
mandam cantar missas de Requiem. Ou tam tam tam tam tam
pum. Mas tu, Tzara, morreste há ano e meio,
e é no acaso de um jornal que o sei “des poètes” o
jornal. Il y a des poètes, voyez-vous? Et ils ont
un journal. Oui, mais ma tente, elle tricote. Método Berlitz. Comme] il y a tantes, honni soit qui mal y pense.
Eras romeno e de monóculo. A România ou Roménia,
como sabem todos os jornalistas cultos, é
um país latino embora eslavo, oh coisa estranha.
Mas em francês é que escrevias das aventuras celestes
do Senhor Antipirina, por aquele tempo em que,
abrindo um dicionário, encontraste DADA.
As palavras ao acaso, os recortes de jornal num chapéu
(como a imprensa se tornou dada, não é verdade, e sem chapéu),
e o mundo então estourando dia a dia em lama da Flandes ou
dos Lagos Masúrios. Mas tu, em Zurique, na montanha mágica
que havia entre os montes sem magia mais que a das vaquinhas
(que todas são suiças), transformaste em loucura calculada
a tua nostalgia de romântico reclinado “onde bebem os lobos”,
e o teu sangue de “homem aproximativo”, como todos os homens
que se prezam de ser DADA, com chapéu, a única coisa sensata
de um mundo em petição de miséria. Depois
foi o surrealismo com o papa Breton, o sacristão Péret, o politiquelho Aragon,] Éluard-anjo-do-lar, Artud-a-fúria, o mártil Crevel, o bigodes
pré-franquistas Salvador Dali. E tu – poeta dadaísta, ali em francês
enquanto os outros estavam cavando a sepultura das Academias para] a fundação da grande Academia parisiense da poesie Frrrrrrrrçaise,] nouveau langage pour les prochains siècles: ó Racine: ó
pipoca saponácea de ceboso antraz. E haveria depois
o existencialismo (oh não de Malraux, não de Jean-Paul Sartre, mas] do bela letra pied noir si digne Albert Camus). E depois o
nouveau roman nouveau roman tão bem escrito oh nouveau roman.] Morreste há ano e meio, ou coisa assim. Ridiculamete,
como diz a notícia no melado tom do necrologio hipotético,
“quando o pai Natal enche de brinquedos as meias das crianças”.
Só te faltava esta para seres completo. Adieu, Tzara,
e que os antipirinas comovidos movidos vidos mu
te soltem sobre a tumba (Père Lachaise?) a gota militar
de um épico anúncio de jornal, como este:
“O armário de várias utilidades para o lar, solucionando
as medidas de espaço e de ambiente – 36 variações
à escolha” (CLIPPER dixit). Só 36? O Kamasutra! Adieu, Tzara.

1965
 

La dame à la licorne
Dona Semifofa erguendo o dedo
mindinho arqueado em asa sobre a asa da
chávena (ou xícara) disse: –
– Eu sempre soube que poetas não
são gente em quem confie uma senhora –
e num sorvinho delicado rematou
a mágoa de cinquenta primaveras.
O licorne, num doce balançar do chifre esguio,
gravemente assentiu,
um pouco perturbado
pela insistência obnóxia e recatada
com que a discreta dama confundia,
ou mais que a dama os olhos vagos dela,
o chifre legendário e o metafórico
que de entre as pernas longo lhe descia
ou já de perturbado não pendia.

Torcendo as ancas disfarçadamente
para encobrir das vistas semifofas
essa homenagem à inocência delas
(como o cavalheiro que pousando a mão
assim se esconde em pudicícia o quanto
não esconda muito mais que a discrição obriga),
D. Gil cofiou a capriforme pêra
e de soslaio viu que Dona Semifofa
do branco em ferro assento resvalava
para a verdura em que as florinhas eram
de cores variegadas, salpicantes.
D. Gil era o licorne, e disse com voz cava:
– Mas eu também, minha senhora, nunca
acreditei que de confiança eles fossem.
Se acreditasse, como não teria
a mágoa imensa de não ser centauro? –

No chão, erguendo as pernas, Semifofa uivou:
– Centauro, para quê? Não há centauros.
Licornes, sim, D. Gil, vinde a meus braços.

18/06/1967
 

“O Beco sem saída, ou em resumo…”

I
As mulheres são visceralmente burras.
Os homens são espiritualmente sacanas.
Os velhos são cronologicamente surdos.
As crianças são intemporalmente parvas.
Claro que há as excepções honrosas.

II
As pedras não são humanas.
Os animais não são humanos.
As plantas não são humanas.
Os humanos é que têm algo deles todos:
o que não justifica o panteísmo,
nem a chamada «Criação».

III
Humanamente feitas são as coisas,
e as ideias, as obras de arte, etc.
mas que diferença há entre ser-se uma besta na Ilíada
ou no Viet-Nam?

IV
Há por certo os poetas, os santos, e gente semelhante
(os heróis, que os leve o diabo)
– mas desde sempre, em qualquer língua,
qualquer das religiões (ilustres ou do manipanso),
fizeram o mesmo, disseram o mesmo, morreram igual,
e os outros que nascem e vivem e morrem
continuam a ser a mesma maioria triunfal
de filhos da mãe.

V
Que haja Deus ou não
e a humanidade venha a ser ou não
e os astros sejam conquistados (ou não)
apenas terá como resultado o que tem tido:
uma expansão gloriosa do cretino humano
até ao mais limite.

VI
A vida é bela, sem dúvida:
sobretudo por não termos outra,
e sempre supormos que amanhã se entrega
o corpo que já ontem desejávamos.

VII
O poeta Rimbaud anunciava o tempo dos assassinos.
Sempre foi o tempo dos assassinos
– e mesmo um deles é o que ele era.

VIII
Gloriosos, virtuosos, geniais,
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Ignorados, viciosos ou medíocres,
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Do primeiro, do segundo, do terceiro ou quarto sexo:
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Em Neanderthal, Atenas, ou em Júpiter
– burros, sacanas, surdos, parvos.

IX
Canção, se te culparem
de infame e malcriada,
subversiva ou não,
ou de, mais que imoral, desesperada;
se te disserem má, mal inventada,
responde que te orgulhas:
humano é mais que pulhas
e mais que humanidade mal lavada.

15/10/1970

 

Leia mais:

Poesia Carnavalizante I

Tempo de carnaval: tempo do mundo às avessas, tempo de brincar com o sério, tempo de satirizar o instituído, tempo de dessacralizar mitos, tempo de desfazer limites e misturar opostos… Atrás de máscaras e fantasias, os cortejos liberam o interdito impondo a ordem da desordem… E o discurso poético, camaleônico em essência, poderia abdicar de sua potencialidade carnavalizante? Alguns exemplos na poesia de Jorge de Sena…

 

* Ode ao Surrealismo por conta alheia (de Pedra Filosofal, Poesia I)

* “Pot-Pourri” Final (de Arte de Música, Poesia II)

* “Dona Urraca tem um físico” (de O Físico Prodigioso)

* Hino dos Cocos (de Sequências)

 

 

Ode ao Surrealismo por conta alheia

Que levas ao colo, embrulhado em sarrafaçais transcritos mau olhado

abomináveis trutas e outros preconceitos?

Um sacerdote? Um gato? A timidez?

Que transportas silencioso, imóvel, como dormindo, no xaile

pespontado a verde com que limpas o suor, o sêmen, as fezes,

tudo o que abandonas, ofereces, vendes, expulsas, injetas,

convocas, reprovas, descreves, etc.?

Embalas e não respondes.

Temes a polícia, os tapetes, o capacho, o telefone, as campainhas

de porta, as pessoas paradas pelas esquinas reparando

em por de baixo das roupas das outras que passam?

Temes as palavras?

Temes que saiam versos, lágrimas, casamentos,

satisfações apressadas em campos de arrabalde?

Temes os partidos, os artigos de fundo, os banqueiros, os capelistas,

a inflação, as úlceras do estômago ou sociais?

Que transportas ao colo

em silêncio e num xaile?

É a vida? Anúncios luminosos? Casas económicas? O mar? Irmãos?

Reivindicações? Um livro?

Embalas e não respondes.

É a vida? A noite que cai? As luzes distantes? Um gesto? Um olhar?

Um quadro? Uma poesia lírica?

(Oportunamente interrompida pela chegada de uma pessoa conhecida)

 

24/09/1948

 

 

“Pot-Pourri” Final

Chegou e disse: – Caríssimo! –

Carissimus, carissimi, compositor de opereta

para violoncelo de igreja. Ergui

– oh – os olhos da persiana, e respondi:

– Cameta adinomata apropicterón –,

Sorriu e, lentamente, começou a despir-se.

Não direi que falámos. Nem que me despisse

eu. Para quê? Porquê? Adinomata.

Quando tudo acabou, para ganharmos tempo

era mister que falássemos. De quê?

Trifles, trifles. Bagatelles. Como

se conta assim a infância que não tivemos,

as estreias amorosas – tantas desde o bico do peito –

que não foram assim, os sonhos e amarguras

mais condizentes com o físico – não o nosso –

ao nosso lado. Nosso?… Meu, talvez.

De resto, a posse, ó cara, a posse,

não sei que seja: um gorgolejo interno?

Quem de nós dois se possuiu? Tolice.

Adinomata – e sussurrei, atento

aos dedos que avançavam, música.

Trifles, trifles, estou velho, meu amor,

para recomeçar. Amanhã. Ou antes,

dentro de uma hora ou duas. Conversar?

De quê? Porquê? Carissimus, carissimi.

Para quê Mozart? E Palestrina?

Missa do Papa Marcelo. Apropicterón.

Quão bagatelle! Avia-te. Cameta.

Sempre caro mi fu quest’ermo colle…

Ah, ritrovata, adonimata, adinimata!

Pff… Piazza d’Espagna.

Ave Caesar, morituri te salutant. Que bonito.

Andrócles, então, escuta, escuta,

converteu o leão ao catolicismo.

Romano? Pois se foi em Roma.

Tal como numa aurora que se estraça,

os homens mijam no recanto da praça,

avec l’assentiment des grands héliotropes.

Abre a boca e fecha os olhos. Isso.

Se o heliotrópio é cucurbitácea? Bissexuado?

Francamente, não sei. Engole. Esqueci a botânica,

pela mesma época em que – la plaza tiene una torre –

descri por completo das noções de posse.

Nil humani (ou vice-versa) a me alienum puto.

Não, não é palavra feia, é só latim.

Acredita. Compreendo. É melhor que tu saias

primeiro. Ou que eu saia,

primeiro. Não, combinar, para quê?

Não há como este acaso que jamais

repetirásse. Ass? Que jamais, repito,

se repetirá. Pensemos gloriosamente:

como éramos bem um para o outro,

como éramos bem um para o outro,

como éramos, não éramos, e bem,

a surpresa agradável de não sermos.

Undo this button. Thank you, adinomata.

Amanhã… se eu morresse amanhã…

O botão. São mais cómodos aqueles fechos

de correr. Mas arrepelam. Guarda esse botão,

contigo.

Addio! O “Mayflower” apita.

Ouvem-se as fanfarras do Novo Mundo (a sinfonia,

feita com temas do Velho). Vai, não percas

a passagem, as estribeiras, a cabeça:

as pradarias esperam-te.

Pasta nelas.

E, para mim mesmo, murmurei: Carissimi!…

29/2/1962

 

 

D. Urraca tem um físico

Dona Urraca tem um físico

que cura toda maleita.

Quando Dona Urraca geme,

logo o físico se deita.

Dona Urraca é boa dama

para as donzelas que tem.

Quando elas adoecem

logo o físico ali vem.

Dona Urraca tem um físico

que cura toda maleita.

Quando Dona Urraca geme,

logo o físico se deita.

Põe o gorro na cabeça,

não se vê como está nu.

Mas ao dar a medicina

é como tutano cru.

Dona Urraca tem um físico

que cura toda maleita.

Quando Dona Urraca geme,

logo o físico se deita.

Físico prodigioso,

que tudo cura por bem.

Mas doenças de donzela

el’cura como ninguém.

Dona Urraca tem um físico

que cura toda maleita.

Quando Dona Urraca geme,

logo o físico se deita.

E dor’s de mal maridada,

Dona Urraca que o diga.

Pois antes que el’apareça

aqui se acaba a cantiga.

Dona Urraca tem um físico…

 

Hino dos Cocos

Nós os Cocos

estreptococos

gonococos

pneumococos

estafilo –

cocos somos

não queremos

outra terra

Viva a América!

penicilinas

estreptomicinas

cloromicetinas

tetraciclinas

só nos são dadas

em doses pequenas

que vamos comendo

dançando e bebendo

felizes contentes.

Enquanto duramos

doentes pioram

drogas se gastam

doentes se operam

drogas se injectam

e nós prosperando

e os hospitais

e os médicos idem.

Somos amigos,

somos consócios,

somos con-cocos,

viva a América!

12/08/1969

 

Leia mais:

Sena: Alguns Sinais

Centro Cultural de Belém, 1/11/2009


Trinta anos depois da publicação póstuma do seu extraordinário romance Sinais de Fogo, e no momento em que se fosse vivo Jorge de Sena completaria 90 anos, o CCB propõe um dia de evocação do autor de Arte de Música. Agente de uma certa ideia do amor (“só não é belo o que se não deseja ou o que ao nosso desejo mal responde”) e da liberdade (“o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos”), Jorge de Sena foi acima de tudo um agitador das ideias feitas, um corsário das palavras, um salteador de tesouros escondidos na nossa alma. Foi um fora-da-lei da consciência portuguesa do século XX, e é no desassossego que essa posição conota que se revela mais português e mais contemporâneo. Por isso, desde 1948 viu em Fernando Pessoa “um indisciplinador de almas”; por isso fez de Camões, o “seu” Camões, o mediador da aventura que é o seu constante diálogo com a pátria. Poeta acima de tudo, mas também ensaísta, tradutor, ficcionista e investigador, Jorge de Sena fez do exílio uma razão acrescida de amar mais dolorosamente o país que era o seu. O seu regresso póstumo, já este ano, assinala uma espécie de reconciliação com Portugal.
Neste dia de evocação, haverá leituras de poemas e contos seus e de alguns dos seus ensaios sobre cinema e literatura, uma apresentação do romance que deixou incompleto e a projecção do filme que sobre ele foi realizado: Sinais de Fogo, de Luís Filipe Rocha.

Fundação Centro Cultural de Belém

PROGRAMA:
LEITURAS . 14h30 > 17h

Fernando Luís Sampaio:
De Sobre esta Praia… , 5 das 8 Meditações à beira do Pacífico
De O Reino da Estupidez -1, "A Inflação Literária do Mundo Ocidental"

Luísa Cruz
De Arte de Música, "La cathédrale engloutie de Debussy", "Bach: Variações Goldberg", "Requiem de Mozart", "Chopin: um inventário", "Noite Transfigurada de Schoenberg"

Mafalda Lopes da Costa
De Visão Perpétua, "Sentemo-nos nas coisas…", "Dona Urraca tem um Físico"
De 40 Anos de Servidão, "Quem Fala de Partir"
De Sobre Cinema, "Rio Sagrado (Jean Renoir)", "Os Trovadores Malditos (Les Visiteurs du Soir – Marcel Carné)", "Otelo – (Orson Welles)"

Jacinto Lucas Pires
Poemas "Advertência", "Os paraísos artificiais", "Ode para o futuro", "Balada das coisas e não", "Quando penso".
Páginas iniciais do conto "O comboio das onze".

Helena Barbas
De Antigas e Novas Andanças do Demónio, "Um Conto Brevíssimo"
De Poesia III, "Em Creta com o Minotauro"
 

PROJECÇÃO DO FILME . 17h15
Sinais de Fogo (1995)
Antecedida por conversa com Jorge Vaz de Carvalho sobre o livro e com Luís Filipe Rocha sobre o filme
Duração do filme: 101 minutos. M/12 anos
Sinopse do filme: Portugal, Julho de 1936. A ditadura de Salazar está consolidada e controla totalmente o país. Um grupo de adolescentes passa as suas férias de Verão na Figueira da Foz. No outro lado da fronteira começou a Guerra Civil de Espanha e, apesar da distância, a sua violência vai repercutir-se na vida destes jovens, lançando-os num turbilhão de intrigas políticas e paixões desencontradas que marcará tragicamente a sua passagem à idade adulta.

Tino Navarro apresenta: Diogo Infante – Ruth Gabriel em Sinais de Fogo, um filme de Luís Filipe Rocha
Com: Marcantónio del Carlo – José Airosa – Rogério Samora – Henrique Viana – Caroline Berg – Glicínia Quartin
Fotografia: Edgar Moura
Som: Carlos Alberto Lopes
Direcção de arte: Rafael Palmero
Montagem: António Perez Reina
Música: Enrique X. Macias
Adaptação do romance Sinais de Fogo de Jorge de Sena
Argumento e diálogos: Izaías Almada e Luís Filipe Rocha
Uma co-produção MGN Filmes (Portugal) – Igeldo (Espanha) – AB Films (França)
Com o apoio Fundo Eurimages do Conselho da Europa – Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual – Centre National de la Cinematographie – Instituto de la Cinematografia y de las Artes Audiovisuales – Fundação Calouste Gulbenkian – Câmara Municipal da Figueira da Foz
Produção Tino Navarro
Realização Luís Filipe Rocha

 

Mais sobre o evento em http://www.ccb.pt/sites/ccb/pt-PT/CCB/Documents/FS%20SENA.pdf

Os Dois Cadáveres

Editorial do Portugal Democrático, abril de 1960

Coube a Jorge de Sena o editorial do jornal Portugal Democrático de abril de 1960, evocando o cadáver do Capitão Almeida Santos, um dos líderes da abortada “Conspiração da Sé” (da qual participara o próprio Sena), encontrado na praia do Guincho – caso que também forneceu mote a José Cardoso Pires para o seu Balada da Praia dos Cães.

 
 
Noticiaram os jornais a 2 de abril, em telegrama da AFP, que “as investigações para identificação de um cadáver descoberto anteontem na praia do Guincho, perto de Lisboa, permitem suspeitar de que se trata do capitão Almeida Santos, um dos evadidos da prisão militar de Elvas, em Dezembro último, onde estava encarcerado por actividades políticas contra o regime”. Tão sinistro, hipócrita e cobarde é o espírito da ditadura salazarista, que até o teor deste telegrama o retrata. É possível que o cadáver seja… Suspeita-se de que seja… Porquê? O cadáver está mutilado, irreconhecível, podre, como o próprio cadáver da Pátria que simboliza? Foi estrangulado, baleado, afogado, atropelado, atirado de uma janela alta, como todos os que “se” estrangularam, balearam, afogaram, atropelaram, atiraram – depois de caídos nas garras da PIDE? Fica-se na dúvida, a dúvida alimentada pela incerteza. Não há responsáveis de coisa alguma, ninguém é responsável de nada… Nada se passou – a não ser a satisfação dada ao registro civil de um óbito, um modesto óbito incerto que permite enterrar o sujeito em silêncio mais definitivo que uma desaparição inexplicável.
Isto é Salazar inteiro, isto é Portugal ensangüentado e trágico, que nem sequer nos cobre de vergonha com a sua atrocidade, porque permite (suspeitar…) todas as complacências, todas as cumplicidades, todas as mesuras da diplomacia covarde e interesseira. NEM SEQUER podemos ter vergonha disto, aos olhos do mundo, porque o mundo a não tem, antes de nós, de pactuar com os crimes de Salazar.
Que cadáver submisso! Que cadáver silencioso! Quantos meses levou a percorrer a escassa largura de Portugal, desde Elvas até àquele Atlântico que é o mesmo que banha as costas do Brasil! Numa praia deserta, aparece o cadáver hipotético de um homem que foi um dos chefes militares do 12 de março. Cadáver que poderia ser o de qualquer outro da enorme quantidade de civis e militares de todas as opiniões políticas que tentaram o “12 de Março” com uma extensão e uma profundidade que o Estado Novo teme esclarecer! Fazer aparecer o seu cadáver é mostrar a sorte que poderia ser a de cada um, mas é também roubar à vítima e aos outros o galardão do martírio, do sacrifício, do escândalo nacional e mundial, a que não resistiria um governo de assassinos mais vis que a vileza, porque nem mesmo tem a ombridade de estadear a sua profissão verdadeira.
Onde está o “glorioso Exército português”? Porque o capitão Almeida Santos era um dos seus membros mais brilhantes. Onde está a consciência dos pais de família. Porque o capitão Almeida Santos era um pai de família. Onde está o povo português? Porque o capitão Almeida Santos era um português. Onde está Portugal?
Tu, Salazar, nunca fizeste serviço militar. Nunca foste – que tenhas tido a dignidade de o confessar – pai de família. Nunca foste português, porque os portugueses sempre se vangloriaram de tudo, até dos crimes. Mas serás um cadáver, hás-de ser um cadáver, terás de ser um cadáver. Não um cadáver hipotético – como o da Pátria ensangüentada – abandonado, tão ocasionalmente, numa praia deserta. Mas um cadáver – consola-te – que não terá tempo de apodrecer, como o da Pátria em trinta anos de governo teu. Um cadáver que a terra portuguesa se recusará a comer. Um cadáver que os mares de Portugal – e todos são – se recusarão a engolir.
“PORTUGAL DEMOCRÁTICO” concita a consciência do mundo a que compare e escolha – entre o cadáver hipotético do Cap. Almeida Santos, um homem de bem que tentou honestamente salvar a sua Pátria, e o cadáver inadiável do tirano, um homem de mal que tenta cavilosamente destruí-la consigo. “PORTUGAL DEMOCRÁTICO” pergunta de uma vez para sempre ao glorioso Exército português: a qual dos cadáveres ele acha que deve honras militares.

A Comunidade de Estados Portugueses

No Portugal Democrático, em agosto de 1960, uma proposta para discussão

Publicada no jornal Portugal Democrático de agosto de 1960 (mas escrita há mais tempo, conforme se lê na nota que a precede), ou seja, bem antes da eclosão "oficial" da guerra em África, esta proposta objetiva e pragmática de uma "Comunidade de Estados Portugueses" que Jorge de Sena submete à discussão dos oposicionistas a Salazar, teria merecido críticas da ala filiada ao PCP, por ser considerada “neocolonial” (e talvez por este motivo Sena não tenha levado avante o "comentário filosófico-político" anunciado no fim). Contudo, ela se coaduna perfeitamente com o ideário de uma “Comunidade Luso-Afro-Brasileira” defendida pelo assumido comunista Joaquim Barradas de Carvalho, que virá para o Brasil em 1964, como professor contratado da USP, atuando igualmente no Portugal Democrático. E será que Jorge de Sena e Barradas de Carvalho — ambos defensores de uma comunidade a unir países com a Língua Portuguesa em comum — teriam sido lembrados nos alvores da CPLP?

 

O artigo que a seguir inserimos, de autoria do nosso companheiro de Redacção, Dr. Jorge de Sena, encontrava-se em poder do PORTUGAL DEMOCRÁTICO desde os primeiros dias de Maio, antes, portanto, de se terem precipitado os últimos acontecimentos em África, mas, por lamentáveis extravios e equívocos, não foi logo publicado.

Pelo atraso na divulgação de um assunto de tão grande relevância como este, P.D. cumpre o dever de pedir todas as desculpas a Jorge de Sena e aos seus leitores.

 

Há muito é minha convicção que se impõe, por parte dos democratas portugueses, uma clara formulação de propostas concretas acerca do futuro político, económico, social, etc., de Portugal e dos territórios que da nossa pátria dependem. Se é essencial e primacial declarar exigências básicas do convívio – restauração das liberdades e garantias –; e se é muito delicado discutir soluções de problemas, pelo que essa discussão pode acarretar de divisionismo das oposições democráticas e anti-salazaristas – a verdade é que os democratas não podem, pelo silêncio, pactuar com cegueiras ou vaidades históricas que culminarão num desastre incalculável (cujas responsabilidades lhes não cabem e podem ser chamados a liquidar), nem exercem a sua consciência democrática, ao eximirem-se, em nome de uma unidade tática, à formulação estratégica de propostas concretas, cuja discussão, alteração e adaptação, ao sabor das oportunidades, dos interêsses e das opiniões políticas, é a própria natureza da democracia.

A oposição democrática tem-se confinado e deixado confinar neste dilema, acarretando assim, além da pesada cruz das liberdades que não tem e do contacto com a realidade nacional que lhe é subtraído, a mais pesada que é a acusação constante de que a nada se propõe senão a tirar o que está.

Sem dúvida que, para aquêles liberais da velha escola, cuja posição política está ultrapassada, é isso apenas que importa. No dia em que o Exército reforme definitivamente o velho e jubilado (no Govêrno) professor de Coimbra e afaste a camarilha de tubarões que dele se serve servindo-o, e garanta eleições livres e as liberdades públicas, como por encanto a vida portuguesa reverdecerá, viçosa e progressiva, sem qualquer necessidade de formular-se seja o que for! Bastaria dissolver a organização corporativa para o nosso comércio externo deficitário e agonizante, a nossa indústria tôda monopolista e irracional, a nossa agricultura arcaizante, o nosso nível de vida, conhecerem um surto prodigioso, como o boneco de molas, que salta da caixinha de surpresas, uma vez levantada a tampa que o oprime. Infelizmente, não é, nem será assim. Da mesma forma se supõe – ou há quem suponha – que, eliminada a opressão nas suas formas mais ostensivas – censura, polícia política, tribunais plenários, leis de segurança, etc., isto é, todo o aparato repressivo de um Estado totalitário – também como por encanto os portugueses de todas as côres e feitios cairão, chorando de alegria, nos braços uns dos outros, e dando vivas à pátria comum. Infelizmente, já não pode ser assim, precisamente pelo reverso real daquelas cegueiras e vaidades historicistas referidas.

No que se refere aos territórios portugueses, sem dúvida que a unidade deles, a ideia de que Timor, lá nos confins da Insulíndia, é tão Portugal como o Ribatejo, seria uma coisa bonita, comovente, titiladora do patriotismo de entre Minho e Guadiana, uma maravilhosa realidade para sonharmos acordados, se correspondesse aos problemas que o mundo hoje defronta, se tivesse fôrça suficiente para se contrapor a êles, e se não fosse, como é, um hediondo disfarce de uma mentalidade colonialista que quer associar um povo inteiro ao seu mêdo das responsabilidades e ao seu desejo de “aguentar-se” no poder… até à hora de fugir para Inglaterra ou algures, e de clamar, à sombra das “burras” bem cheias, pelo espírito dos Gamas e dos Albuquerques, e de chorar a infâmia dos democratas ao terem de perder o que essa mentalidade nada fizera para ganhar. E é isto exactamente o que se prepara.

É uma loucura supor que Portugal possa, pela fôrça de um paternalismo colonialista que deixou de praticar, pela fôrça de armas que países mais poderosos reconheceram não ser tempo de usar, pela fôrça de um prestígio político que só uma democracia legitimamente possui, manter unido e submisso o imenso mundo português, disperso pela Terra, para que meia dúzia de tradicionalistas insensatos continuem a falar nos “nossos” territórios com a lágrima ao canto dos olhos, e meia dúzia de especuladores e exactorers do património nacional continuem a praticar uma política (?) desastrosa em relação a êsses territórios que tratam como “seus”. Mas há mais: Portugal não pode, materialmente, arcar com a emprêsa de uma “guerra da Argélia” repetida em Angola, nem com a ocupação indefinida da Índia Portuguesa, ou da Guiné, ou seja do que for. A fôrça das armas nunca resolveu coisa alguma; e é triste imaginar-se que o Exército Português considere como sua suprema missão patriótica a manutenção desvairada de um statu quo, em que o aventureirismo mais sórdido e a opressão mais desumana fazem as vêzes de heroísmo e de exercício magnânimo dos direitos e deveres da soberania. O Exército deveria ter por sua missão mais alta garantir, quanto antes, dentro de uma estrutura totalmente democrática, a formação urgentíssima da Comunidade dos Estados Portugueses.

 

Para isso, sucessivamente:
1o. – Estabelecida a Liberdade, uma Junta Governativa, com plenos poderes de estado de emergência, proclama a Comunidade dos Estados Portugueses, e reconhece ou organiza Comissões Revolucionárias ao nível da Freguesia, da Câmara Municipal, do distrito e dos Conselhos de Govêrno em cada Estado da Comunidade, garantindo a todos os portugueses, sem distinção de raça, religião, credo político ou nível social, as liberdades fundamentais.

2o. – Eleições livres para as Juntas de Freguesia, em todos os Estados, e supressão das respectivas Comissões Revolucionárias.

3o. – Eleições Municipais em todos os Estados, e supressão das respectivas C.R.

4o. – Eleições das Assembléias Legislativas em todos os Estados, que continuarão provisòriamente, até fixada a total estrutura da Comunidade, a ser governados pela Junta Governativa Metropolitana.

5o. – Convocação de uma Assembléia Constituinte, formada pela reunião conjunta de tôdas as Assembléias Legislativas dos Estados.

6o. – Eleição do Presidente da República da Comunidade.

7o. – Eleições das Câmaras Altas.

8o. – Dissolução da Junta Governativa e nomeação dos Governos Estaduais.

9o. Eleição do Conselho da Comunidade.

Estes nove pontos sucessivos de reestruturação progressiva e democrática da organização política da Comunidade corresponderiam às seguintes bases constitucionais:
1o. – as eleições municipais elegeriam o Presidente da Câmara, o delegado do Município à Câmara Alta e os vereadores.

2o. – A Câmara Alta será, em cada país da Comunidade, constituída em partes iguais pelos delegados dos Municípios e por senadores designados por sufrágio universal, além dos senadores vitalícios que serão os que tenham sido eleitos por três períodos legislativos consecutivos.

3o. – Cada país terá, portanto, uma arquitectura administrativa e legislativa assim graduada: Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais, Assembléia Legislativa, Câmara Alta.

4o. – Das Assembléias Legislativas, com a confirmação das Câmaras Altas, emanarão os Conselhos de Governo ou de Ministros cujos chefes serão escolhidos pelo Presidente da Comunidade dos Estados Portugueses.

5o. – O Presidente da Comunidade é eleito por sufrágio universal e directo em todos os países da Comunidade. Este Presidente é também o Presidente nato do Conselho da Comunidade.

6o. – O Conselho da Comunidade é o supremo órgão da Administração pública, e é integrado pelos Governadores de cada Estado, pelos Presidentes das Assembléias Legislativas da Comunidade (ou seus delegados aprovados pelas respectivas assembléias), por delegados eleitos pelas minorias de cada Assembléia Legislativa, pelos ex-presidentes da República (que serão membros natos do Conselho) e por membros de direito adquirido (que serão todos os que tenham sido membros do Conselho, ainda que intermitentemente, por prazo superior a vinte anos), e além do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça da Comunidade, que ao Conselho preside nos impedimentos do Presidente da República ou durante interregnos presidenciais.

7o. – Os Governadores de cada Estado são nomeados pelo Presidente da República, sob proposta do Chefe do Govêrno Nacional, aprovada préviamente pelas Assembléias Legislativa e Câmara Alta do Estado respectivo e sancionada pelo Conselho da Comunidade.

8o. – O Presidente do Govêrno Nacional, ou seja do Território Metropolitano, preside a um Conselho de Ministros que incluirá, além dos Ministérios Metropolitanos, o Ministério da Defesa da Comunidade, o Ministério da Coordenação Econômica Inter-Estadual, o Ministério da Educação da Comunidade, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Comunidade, um ministro representante de cada Estado da Comunidade, um mimstro dos Territórios Administrados, e o Presidente do Banco de Portugal (único banco emissor da Comunidade).

9o. – Os ministros representantes de cada Estado no Govêrno Nacional serão eleitos em sessão conjunta da Câmara Alta e Assembléia Legislativa do Estado respectivo, e a vigência deles é a do período legislativo, e independente da queda, portanto, do Govêrno Nacional.

10o. – O Presidente do Conselho Nacional não poderá negociar acordos internacionais sem a presença dos Governadores da Comunidade (ou de seus delegados), que podem sempre que queiram ou as circunstâncias o exijam, participar das reuniões e deliberações do Conselho Nacional de Ministros.

11o. – Os Municípios serão agrupados em distritos (por seu comum acôrdo) em cada Estado, e os distritos governados por um govêrno civil designado pelo Chefe do Govêrno e apenas sancionado por votação dos Conselhos Municipais do Distrito, cada qual designará por sua vez, como assessor junto dêle, um representante.

12o. – O Presidente da República, além de presidir normalmente ao Conselho da Comunidade, presidirá, pelo menos uma vez por ano, a uma reunião, que convocará, de Governos da Comunidade, que se apresentarão na sua totalidade, para informação e coordenação da rotina administrativa. Em qualquer situação de emergência (e convocado por um dos países em reunião conjunta da Câmara Alta e da Assembléia Legislativa, ou por votação do Conselho da Comunidade), o Presidente da República poderá presidir ao Conselho de Govêrno dêsse país da Comunidade. Presidi-lo-á, sempre que, em viagem de soberania, visitar um país da Comunidade.

13o. – Em cada país, com o consenso das respectivas Assembléias, poderá haver territórios sob a administração do Govêrno Nacional, para o que êste possui um ministério especial, ao orçamento do qual enviarão contribuição financeira os respectivos países. Esta contribuição é fixada pelo Conselho da Comunidade, que tem direitos de fiscalização nesse território.

14o. – Igualmente êsse Conselho designa a contribuição de cada Estado para a defesa comum e outras despesas dos Ministérios Inter-Estaduais. Neste sentido é que o Ministro Nacional da Coordenação Económica terá de ser aprovado pelo Conselho da Comunidade, e cairá sempre que esta lhe retire a sua confiança. O mesmo sucede com todos os outros Ministros Inter-Estaduais e com o Presidente do Conselho Nacional

15o. – O Conselho da Comunidade, em decisões por maioria, terá direito de adiamento (até nova legislatura do País interessado) sôbre decisões parlamentares de qualquer país da Comunidade.

16o. – As decisões parlamentares de cada país têm força de lei interna, se não houver adiamento por parte do Conselho da Comunidade. Da mesma forma, as decisões parlamentares do Território Metropolitano só para êle são leis.

17o. – Os Estados da Comunidade serão:
a) – Portugal (com os arquipélagos da Madeira, Açores e Cabo Verde, que gozarão de autonomia administrativa e de assembléias legislativas provinciais, cujas decisões terão de ser referendadas pelo Governador de cada arquipélago – designado pelo Govêrno Nacional –, mas de cujo veto haverá recurso das assembléias, primeiro para o Govêrno Nacional e depois para o Conselho das Comunidades, ao qual pertencerá também um delegado eleito por cada uma das assembléias dos arquipélagos).
b) – Guiné.
c) – Angola (com o arquipélago de S. Tomé e Príncipe, que gozará, dentro dêsse Estado, de estatuto análogo ao dos arquipélagos do Portugal Metropolitano).
d) – Moçambique
e) – Índia Portuguesa
f) – Macau
g) – Timor

18o. – Todos os Estados da Comunidade têm, após constituídos dentro da Comunidade, o direito de secessão e de regerem então inteiramente os seus próprios destinos, inclusive o de se unirem a outros Estados. Só a Mãe Pátria nunca o poderá fazer, salvo ao Brasil. Em caso algum se entenderá por secessão o voto de união com o Brasil em regime de Comunidade, por parte de qualquer Estado, pois que ao Presidente da República, ao Conselho da Comunidade, ao Govêrno Nacional, à iniciativa de cada Estado, compete como dever essencial promovê-lo e efectivá-lo, no sentido de apressar-se a realização da Comunidade Luso-Brasileira.

19o. – O direito de secessão dos diversos países é assegurado pelas Assembléias Legislativas que podem votá-lo, mas, antes de referendado ou adiado pelo Conselho da Comunidade, terá de ser plebiscitado por sufrágio universal da população interessada, em maioria absoluta. E só se efectivará depois de o Conselho da Comunidade verificar que ficam devidamente garantidos os direitos e reclamações da minoria que votou contra.

20o. – A nacionalidade portuguesa é comum a todos os Estados, e os naturais de qualquer país da Comunidade podem transitar de um país para outro, e, apenas com as restrições de ordem económica ou financeira que tiverem sido votadas pelas respectivas Assembléias Legislativas (e referendadas pelo Conselho da Comunidade), exercer neles a sua actividade. Mas, desde que residentes no território de qualquer dos países há mais de cinco anos, têm direito de voto, são elegíveis e podem exercer qualquer lugar de Govêrno.

21o. – A organização da justiça, em cada país, é independente do legislativo e do executivo, e integrada pela 1a. e pela 2a. instâncias e por um Tribunal de Apêlo. O Supremo Tribunal de Justiça, sediado na Mãe-Pátria, é a última instância para a qual qualquer entidade individual ou colectiva, pública ou privada, poderá sempre apelar. Como zelador da constitucionalidade de qualquer decisão judicial ou legislativa de qualquer dos países, pode chamar a si uma questão para se pronunciar sôbre a sua constitucionalidade, ou é obrigado a pronunciar-se, nos casos públicos, desde que, em cada país, um têrço do eleitorado (e não dos municípios ou das assembléias) o solicite. Os seus acórdãos têm fôrça de lei, e serão imediatamente promulgados pelo Presidente da República.

22o. – É o Presidente da República quem, ouvido o Conselho das Comunidades, sob proposta de qualquer dos Governos (votado em reunião conjunta das duas Câmaras), declara a Paz ou a Guerra, e assina os acordos internacionais que as mesmas Câmaras terão de ratificar. O ataque exterior de qualquer potência estrangeira à Comunidade, a qualquer dos Estados dela, implica, imediatamente, por parte dos outros Estados, a guerra com a potência atacante.

23o. – A verificação, pelo Conselho das Comunidades, de que, em qualquer dos países, corre risco a legalidade democrática ou estão em perigo os direitos fundamentais consignados na Constituição, implica a intervenção imediata da Comunidade nos negócios internos dêsse país. O mesmo se dará se a verificação for solicitada por um têrço do eleitorado do próprio país. No entanto, essa intervenção imediata terá de ser sancionada, ponto por ponto, quanto aos casos de opressão surgidos, pelos Parlamentares de tôda a Comunidade, menos o do país em causa, o qual se considera dissolvido por não mais defender os interêsses do povo que representa.

24o. – Desde o Restabelecimento das Liberdades Fundamentais até à promulgação de uma lei eleitoral (que, depois de organizados e soberanos, os diversos Estados aceitarão ou modificarão através da estrutura constitucional da Comunidade) são eleitores: todos os cidadãos do sexo masculino ou feminino, maiores de idade ou emancipados, no gôzo dos seus direitos cívicos, sem cadastro criminal, não aguardando julgamento em processo-crime, nem interditados judicialmente.

25o. – Nas circunstâncias do artigo anterior, não são elegíveis, nem eleitores, nem podem exercer cargos públicos:
a) – os cidadãos privados pelos tribunais dos seus direitos cívicos, por crimes contra a humanidade, contra a democracia, contra a pátria, contra a honestidade eleitoral;
b) – os cidadãos com cadastro criminal;
c) – os que aguardam julgamento em processo-crime;
d) – os interditados judicialmente:
e) – todos os que, até dez anos antes da queda da Ditadura Salazarista, tenham exercido postos administrativos-políticos no Govêrno, nas chamadas Assembléias Nacional e Câmara Corporativa, nas chefias de Governos Civis, Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia, ou tenham sido delegados do Govêrno junto de emprêsas, bancos ou companhias;
f) – tenham pertencido, sendo maiores de idade ou emancipados, à Legião Portuguesa ou à Mocidade Portuguesa;
g) – tenham exercido cargos de nomeação governamental nos chamados organismos corporativos: corporações, federações, grémios e sindicatos;

26o. – É reconhecido o livre direito de agremiação dos cidadãos, em todos os tipos de partido, grémio, sindicato, etc., tendo por sua vez essas agremiações o direito de se federarem como entenderem. No período de transição até à legalidade constitucional, e paralelamente com as eleições para as Juntas de Freguesia, proceder-se-á a eleições livres em tôdas as estruturas corporativas, como estádio transformador delas em organismos democráticos de orientação económica e de representação profissional.

27o. – A concorrência às eleições será sempre feita, em qualquer escalão, a título individual, sem que, para inscrição da candidatura, se exija mais que as condições de elegibilidade.

Êstes princípios, que proponho à consideração e discussão do povo português, parecem garantir a criação de uma sólida estrutura constitucional, em que a fiscalização mútua de todos os órgãos e do eleitorado assegura o exercício das liberdades, e no interior da qual tôdas as opiniões, raças e credos são senhores da sua dignidade e representabilidade cívica; e que, criando uma comunidade livre, a organizam por forma a que a máxima liberdade, a qualquer escalão, impõe a máxima responsabilidade.

No momento em que, por todo o mundo, novos rumos políticos varrem as velhas estruturas e Portugal não está defendido – política, económica e financeiramente – para resistir-lhes senão por meios obsoletos que a consciência democrática condena, a urgência em que todos os responsáveis e os que se querem responsáveis exige a meditação concreta sôbre o futuro. Êste plano pretende ser – para todos os povos portugueses – um ponto de partida para uma situação que, aliada a Comunidade Portuguesa ao Brasil, permitirá que, à beira do desastre, Portugal se erga ao plano de grande potência universal que lhe incumbe na História, não pelo que foi ou julga que é, mas pelo que é de facto e pode vir a ser.

 

Nota: Em ulterior estudo se fará o comentário filosófico-político das normas expressas nesta comunicação.
 

First Letter From London

The 17 th. of October, 1952

This is the first of the six letters Jorge de Sena wrote over his first visit to London. They were broadcast weekly, by the BBC during the Portuguese Language Program, from October 17 to November 28, 1952, and despite the unfortunate loss of the original recordings, the text was preserved and published in the book England Revisited (Calouste Gulbenkian, 1986). In this letter, the poet describes the joy of arriving at London as the realization of "one of the greatest dreams" of his life. It's a softer, lighter Jorge de Sena, a happy traveller, years before the travels of his exile. 


Even if it be for just a few days, and during those days for just a few scant hours that I am free, entirely free, to walk here at my leisure, I have now realized one of the greatest dreams of my life: to step on English soil and see London with my own eyes. For years on end, while others have dreamed of the “spiritual capital” or the “city of lights”, I have dreamed about this somber and brilliant, severe and pompous, black and red, dirty and foggy city where so many people I admire have lived and so many figures of novels whom I love (the latter living more intensely in me than the former). My first contact with England did not occur in Dover nor in Southampton nor in London’s airport where, in fact, the plane was destined to land. I contacted England for the first time in a BOAC plane, then in Lisbon, and touched down on English soil in Hurn – I believe it to be a tiny city on the southern coast of Great Britain in whose airport the plane was forced to land at about four in the morning in the fog and cold because… but how could it be? – fog in London!… Bournemouth seemed like a summer residence to me, pleasant, large and tree-lined, with a big hotel that reminded me of a modernized 1900 that nowadays springs up serenely all over the globe. Here I had may breakfast together with several companions of this aeronautical adventure.

From Bournemouth to London I had the chance to catch a glimpse (as much as is possible from the train window), of English country-side and its provincial cities. The fog was thick, but charmingly lit from within by a morning sun that looked like a rose-colored balloon. We passed too by calmly ondulating fields where trees rise and grow like loved-ones looking more secure in life than they would in a public garden in Portugal. We passed by urban centers, all alike, with the same chimneys – a sameness of indifference in which the houses turned from the outside inwardly to where the people lived their lives. In the middle of fields next to delicately plowed plots, small, smokey industrial sites rose in number and in size from time to time only to dissolve afterwards into fields of pasturing cows that looked more like pets. And, at last, came Waterloo Station – vast and stretching into the distance – where the train entered as if on muffled feet, exactly how it had so speedily crossed on noiseless lines that seemed cushioned and subreptitious. The train brought me from Bournemouth to Waterloo station and I entered London as if I had come by boat heading from Southampton. And then I crossed – with a ridiculous feeling perhaps – the Westminster Bridge and there, just like in photography, rose before me Big Ben and the Houses of Parliament. As a matter of fact, something rather strange happened to me. Anything that resembles architectonic “pastiche” affects me badly and the more gothic it is, the more sick I get. In London, however, the atmosphere, the dirtiness, the light give everything from the most absurd and imitative monument to the most delicate master-piece, such as Henry the Seventh’s Chapel in Westminster Abbey, the same look of solemn and discrete charm. All in such a way that if, on the one hand, a certain taste of the old is lost, which, nevertheless, London provides at any given moment (to the point of there being small plaques that announce on any given wall that there once stood on that site an inn that disappeared in 1666!…), on the other hand a curious mix of unity and dignity is gained in which gothic, neo-classical, modern-pure-1900-bad taste and Downing Street styles blend in the most unusual harmony so that we move about these streets exactly as if at home: preoccupied, absorbed, almost distracted. And yet this here is so different! From the appearance of the houses to the measured, affable assurance of the most humble passer-by, one senses the reserved and insular humanity of this people that placed on the Royal Exchange the following ironic epigraph: “The earth is the Lord’s an the fullness thereof”. I traipsed through some streets of the city between bank-like colonnades and narrow, ancient buildings with steep stairways and solicitor’s offices – leftovers from some of Dickens’ scenes. In the evening I went to Waterloo Bridge. I saw Cleopatra’s Needle as well as the memorials of numerous people almost all from Queen Victoria’s era. I saw the solitary and grandiose St. Paul’s Cathedral in the middle of an area devastated by the last war. An aesthete could almost say that so much destruction was meant to unearth the perspective of a giant cupola for the purpose of rivalling St. Peter’s in Rome. There are still many signs in London of the tragic years of the war: isolated main walls, nebulous places in the middle of densely built-up zones, since the construction of residential neighborhoods was chosen over the reconstruction of buildings for commercial enterprises. Yet so many signs of the war are not so markedly visible as they are discrete with the same modest reserve of the man on the bus who lowered his eyes while informing that “Yes”, those were indeed bombarded areas. I passed Buckingham Palace with its guilded railings freshly painted in preparation for the coronation ceremonies and I saw the eternal, small crowd waiting to catch a glimpse of the Changing of the Guard; I saw Oxford Street, Picadilly, the Strand, and Regent Street: all so promenadishly wide and winding; streets upon streets, passages upon passages leading out from everywhere and all with the same look of being the most natural thing in the world; the victorian bric-a-brac look that has taken over the façades of this land of poets and bankers: and façades ten times the size of the Parthenon. I also walked through Lincoln’s Inn where the lawn is reserved for members but charges nothing to enter, and of course, I had the indispensable pleasure of going through the red and black brick of winding Portugal Street that ends in Kingsway and begins at Dickens’ Old Curiosity Shop. Furthermore, all these streets and all these squares share an urbanistic freedom that characterizes so well the coordinated individualism that made and continues to make England’s noble spirit. The squares are not regular and the circuses are elliptical; in Trafalgar Square can be seen Nelson’s magnificent perch in the middle of a number of bronze gentlemen either sitting or standing and doing the most unexpected things amidst the lakes and balustrades. Although the roads wind about and the squares don’t center there is nevertheless a coordination like that of a delicate puzzle for which the London fire certainly contributed by designing a few of its pieces. It is a centuries-old puzzle dating from the time of Queen Elizabeth, Sir Walter Raleigh and Shakespeare or the days of Charles the Second and his wife: the Portuguese queen who must have been overwhelmingly respectable here during the era of St. James’ Court. Because there is in this land a very natural, civilized simplicity that observes nothing that other people do since no one does anything thinking that others are watching. Yet it is a mistake to believe that people, in fact, don’t notice. Sometimes they are doing nothing but watching. London, however, is so large, one can be so quickly so far away in a rhythmic procession of vehicles going at and not exceeding 40 kilometers per hour (and with lanes for pedestrians armed with the right to sovereignly halt traffic with a gesture!) that nothing really matters. Or rather, for the distracted and self-conscious continental, there are things that matter very much: the traffic, for example, which goes absolutely the opposite way, on the left, with extremely comfortable taxis that are so old-fashioned that no self-respecting pedant in Lisbon would be caught dead coming out of one of them by the Chiado. Also, for example, the delicate way the English have of thanking one another for any and everything: the one who pays for something and the one who receives the money thank each other; the one who offers something and the one who accepts it thank each other; the one who steps on someone and the one who is stepped on thank each other. I saw all this immediately at the airport when the customs officer thanked me for the information I gave him that he had requested of me. And all the passengers, fatigued after a comfortable trip, though interrupted by stops, waited at four in the morning for an hour for this cerimony of simple exchange of graciousness to begin. And because this was a case of an emergency, of course the passengers accepted it as such. Naturally, the installations – and these gave me my first introduction to England – had from the very beginning been meant to be temporary. They were no doubt an aerodrome dating from the last war. The hut however, was so well arranged, so simply comfortable, so unaffectedly natural and decorated with paintings that revealed a provincial taste, that nothing would stand in the way of someone remaining there and waiting no matter how long he would inevitably have to wait anyway. I felt there both alive and in force an unfailing dignity which are the hall-mark of England. And what happened to me next was an extraordinary and consoling experience for me. We were all headed on our way for Bournemouth on the roads with the night and the fog before us. A rabb
i and his wife were asleep with ages of expectation, he with his black, curly beard, she with her travel-worn shawl. Suddenly, at a curve in the road, some red lights and a sign appeared. A very large sign read: “PLEASE SLOW. MEN WORKING”. What this implies is that the driver is not warned of the danger of falling into a ditch. He is rather politely requested to watch for what is more precious and worthy of respect: men working. Could there be a nobler example of the greatness of a country and its people, an extreme, intransmissable greatness which nonetheless pervades, overwhelms and makes us irresistibly their own?
 

Terceira Carta de Londres

De 07/11/1952

Inglaterra Revisitada é o título do volume em que se reúnem as seis cartas escritas por Jorge de Sena por ocasião de sua primeira visita a Londres, transmitidas pela BBC no Programa de Língua Portuguesa semanalmente, de 17 de Outubro a 28 de Novembro de 1952. As cartas dão a ver o fascínio do viajante pelo país que sonhara conhecer, e são um registro do primeiro encontro de Sena com muitas das obras que mais tarde viriam a ser transformadas em poemas em Metamorfoses. Como exemplo, apresentamos aqui a terceira carta do ciclo, em que, entre digressões bem-humoradas e comparações entre Inglaterra e Portugal, Sena descreve sua primeira visita ao Museu Britânico e seu encontro com o jovem Artemidoro.


É minha intenção falar-vos de alguns museus de Londres. Mas intenções como esta podem, numa carta como esta, ir parar muito longe – quem sabe, pois, em que acabarei por vos falar? Decerto que da Inglaterra, decerto que de uma Inglaterra vista simultaneamente de Londres e de Northampton, onde tenho habitado alternadamente, e de mim próprio, onde, por mais que faça, cada vez mais habito, à medida que o tempo passa e, com ele, muitas ilusões que a gente alimenta a ver se não fica sozinho. Porém, uma “Carta de Londres” não é lugar para expansões pessoais, desde que essas expansões se alarguem, do domínio restrito das impressões de viagem e estadia, para o domínio, tão vasto e desinteressante, que são as preocupações de cada um. De resto, para quem lê os periódicos ingleses, há neste momento em Inglaterra três preocupações gerais: as perturbações no Quénia (provocadas por uma sociedade secreta que dá pelo nome absurdo de Mau-Mau: mas, sejamos compreensivos, que em inglês o Terreiro do Paço chama-se, como toda a gente sabe, “Praça do Cavalo Preto”); a proibição de ser transmitida pela televisão o momento culminante da próxima coroação de mais uma rainha Isabel; e, last but not least, a discussão à volta de se devem ou não ser chicoteados os culpados de assalto à mão armada. Se digo que estas preocupações são tidas por enormes pelos periódicos todos, é porque não falei ainda com ninguém que se preocupasse real e efectivamente com qualquer destas três coisas. O inglês médio, desde o tempo da Companhia das Índias, está ainda habituado a que estas coisas nas colónias digam respeito apenas a grandes interesses privados – e abstém-se, uma vez que nem é mau-mau patriota, nem é colono europeu patrioticamente assassinado, para, com todo o empirismo da City, poder julgar. Quanto à televisão, a cópia de argumentos nos jornais tem sido vastíssima e facilitado a vida de todos os jornalistas com falta de assunto. Chegou mesmo a escrever-se que a televisão permitia que a rainha fosse coroada perante todo o seu povo, e não apenas, como até aqui, perante aquele reduzido número de pares do reino que, de um lugar marcado na Abadia de Westminster, consiga ver alguma coisa por entre as decorações, os grandes dignatários, etc., que tudo isso acabará de encher o espaço que na Abadia resta disponível a uma vista de olhos. Eu acho isto de coroações uma nobilíssima, grandiosa e utilíssima coisa; e sou partidário de que a cena seja totalmente televisada, que ainda é essa uma maneira de a televisão ter algum sentido superiormente sagrado, por um momento que seja. Se todo o Império pode estar presente – ou mais exactamente, se a coroação pode repetir-se em toda a parte exactamente como Deus Nosso Senhor –, televise-se toda a coroação. Mas não há dúvida de que os jornais me contagiaram, pois que estou a preocupar-me com um problema deles, do Parlamento, do Governo, etc., quando eu não pertenço a esta aldeia, e não tenho o direito de tratar como espectáculo o que poderá ser para um povo, a que não pertenço, um grave problema de protocolo hertziano. A última preocupação, essa sim, diz respeito a toda a gente, mesmo a estrangeiros residentes aqui. Não é o mesmo ser-se assaltado por um ladrão que pode ser chicoteado, ou sê-lo por um ladrão que sabe que o não será. Os assaltos, ao que dizem os jornais, aumentaram medonhamente nos últimos tempos. Diga-se de passagem que esta Inglaterra seria, sem chicote, o paraíso dos gatunos portugueses. Habituados às janelas com portadas de pau, às portas da rua em duplicado e com fechaduras muito Yale em quadruplicado, que diriam a estas correntezas de casinhas e de cottages, com janelas de guilhotina sem fechos e sem portadas, e com a front door sempre no trinco ou apenas encostada? O pior é que, em Inglaterra, ninguém tem dinheiro em casa, ou na algibeira traz mais do que umas moedas. E roubar bancos demanda uma organização à americana, disciplinada e liberalmente conduzida. Assim, um roubo de quatro libras, uma miséria, tem aqui honras de primeira página. Realmente, arrombar uma pasta que se calhar estava aberta, assarapantar ou mesmo assassinar uma pessoa que se calhar passava a vida a ler romances policiais ou a ouvir os programas também policiais de rádio, e acabar roubando o que um gatuno português desdenharia – eis o que, de facto, é uma coisa tão ridícula, tão mesquinha, tão falta de imaginação, que só a chicote. O chicote é uma espécie de pena de Talião para consolação da sociedade; não é propriamente a pena de Talião, porque nesse caso, deveria ser ministrada pela própria vítima – o que, por vezes, seria difícil. Para esses casos difíceis é que as leis são sempre previstas. E, assim, discute-se acaloradamente o chicote. Eu, francamente não tenho pela legalidade maior respeito que pelo contrário dela. Acho que a consciência tem obrigação de valer sempre mais que as normas ou o desobedecer a elas. Mas, também francamente, admiro imenso a franqueza destas discussões, e, se não sou pelo chicote, sou com certeza pela sua legalização. Tanto mais que não pertenço ao número dos que roubam, mas ao dos que são roubados.

E agora reparo que estou a roubar-vos e a roubar-me tempo. Passei da promessa de museus e espectáculos para as preocupações pessoais. Para fugir a estas, embrenhei-me em preocupações do momento britânico. E era tão fácil ter-me agarrado àquela permanência que são os museus. Já Bernard Shaw dizia que era neles e nas bibliotecas que se guardava a civilização, e em nenhuma outra parte. Inclino-me cada vez mais para esta visão satírica. Visitemos, pois, o Museu Britânico.

O Museu Britânico não é coisa que se veja de uma vez. Mas, ainda que a correr o desejásseis ver assim: é impossível. Os museus ingleses andam em maré de economia. E as economias são, naturalmente, feitas à maneira inglesa. Expliquemos. Os horários aqui são uma coisa caótica, dado que não estamos, cada qual, dentro do rigoroso cumprimento que cada um mete no seu próprio horário. Há horas a que uma loja fecha, porque o patrão foi tomar o seu chá. Não admira, pois, que a economia nos museus se faça fechando metade das salas e abrindo a outra metade, alternadamente, para guarnecê-las com os mesmos funcionários. Não sei muito bem, porque não pensei nisso, qual seria outra maneira de resolver o problema, mas deve haver, com certeza, uma maneira muito melhor, portuguesa, de o não resolver.

Seria ridículo dizer que não pasmei diante dos frizos emétopes do Parténon, que em inglês se chamam “The Elgin Marbles”. Que não estremeci, docemente, com uma sensação de ansiedade mista de segurança, perante a Deméter de Cnico. Que me não encantou a nobre e já barroquizante majestade da estátua de Mausolo (o do Mausoléu, nome que se tornou comum a qualquer amontoado de pedras funerárias). Tudo isto serão sinceras emoções que toda a gente terá. Mas talvez nem toda a gente tenha a sinceridade de ficar frio, desiludido e indiferente perante a escultura egípcia: aquela escultura monumental, arquitectónica, ali perdida, catalogada, alinhada dentro de uma sala ainda que imensa! Um faraó de pedra, ou se vê no lugar em que há milhares de anos o puseram, ou se admira a qualidade e a beleza do retrato numa fotografia. É difícil concebê-lo num museu, sem um fundo que o isole, lhe garanta alguma parcela da majestade hierática que aquelas estátuas contêm. E, todavia, como em contrapartida é imediata, mais imediata que com toda a escultura grega, a comunicação com os caixões das múmias ou a infinidade de pequenos objectos que foram familiares a esses mortos. Em tudo isso, em tão minúsculos objectos, desde os selos aos enfeites e berloques, palpita uma vida intensa, gozada cauta e sabiamente, com uma satisfação e uma estima pelo próprio acto de viver, que, por exótica e distante, nem por isso menos nos toca e fala. E tanto quanto as estátuas gregas sem olhos são uma presença da forma que se nos impõe e comove como arte, como representação de uma forma aberta em si própria, assim aqueles olhos ingénuos das tampas dos caixões egípcios nos olham, senão com arte consumada, com uma penetrante e imediata vida. E é ingénuo esse olhar, porque, a milhares de anos de nós, tem já milhares de anos de sabedoria, uma sabedoria mais vivida que meditada. Eu, por anos que viva, nunca esquecerei o olhar de Artemidoro, jovem egípcio já do período helenístico, em cuja melancolia e serena expressão se funde todo o mundo antigo que o Mediterrâneo banhou. Um fervor discreto, como o de uma pequena lâmpada. Naquele olhar está tudo o que Roma vai herdar e perder. Tudo o que nós, filhos de Roma e da cristandade que Roma tornou possível, sonhamos de Grécia e de Oriente. A harmonia das civilizações amalgamando-se para morrerem, como fénix, num clarão de suprema dignidade. Esse momento para nós o mais precioso. E que renasce e rebrilha, com tamanha singeleza, ao passarmos diante de uma vitrina de museu! À vista disto, que são os manuscritos de Leonardo da Vinci, escritos de trás para diante e como num espelho? Ou uma carta de Ticiano reclamando que lhe paguem um quadro? Ou um papiro, aproximadamente contemporâneo do jovem Artemidoro, em que um contribuinte se queixa, com nomes e tudo, da forma como é feita escandalosamente a coleta dos impostos? Pouca ou nenhuma coisa – aquela pouca ou nenhuma coisa de que são feitas as nossas arrelias quotidianas, a ponto de quase parecer que disso a própria vida é feita.

Não quisera despedir-me de vós neste tom quase solene. Falei de coroações, de civilizações que morrem, de chicotes, enfim de inúmeras coisas sérias como o Museu Britânico, cuja colunata pseudo-grega tem uma imponente monumentalidade. Quando de lá saía, a passarada chilreava por entre as colunas, acomodando-se no frisos e entablamentos, como em Lisboa o faz nas árvores do Chiado ou da Avenida. Os pássaros aqui, como as pombas de Trafalgar Square, ostentam preferências artísticas. Tive, noutro fim de tarde, de entrar e sair a correr da National Gallery, dado que a chilreada por cima e os resultados no chão aconselhavam movimentos rápidos… Quem diria que em Londres, no meio daquela cidade imensa, havia lugar para pássaros que não fossem de Jardim Zoológico! Mas há. E até com um comércio organizado creio que de alpista ou milho ou qualquer coisa conhecida e que a gente aqui não reconhece. E muitas pessoas satisfazendo a fome dos bichinhos e os seus próprios complexos de bondade. É um passatempo dominical como qualquer outro. Como por exemplo: estar parado em Picaddilly Circus, à noite, contemplando os anúncios luminosos e a lenta multidão que se acotovela, enquanto no meio da rotunda, há inúmeras pessoas empoleiradas (porquê) na bela estátua de Eros que ironicamente sublinha a reputação de Piccadilly. Fiquemos por aqui. Ir mais além seria atentar contra a discrição dos microfones e a reconhecida pacatez da vida inglesa.
 

A Bomba atómica e a cultura

Considerações irônicas em 1946

Que o Carnaval existe mesmo fora do tempo de Carnaval, todos sabemos. E que é possível tratar todos os temas sob um olhar carnavalizante, também o sabemos. Eis uma crônica de Jorge de Sena a comprová-lo.


Fizeram os americanos rebentar algumas bombas atómicas, e cuidaram tão bem de que o estrondo soasse jornalisticamente pelo mundo, que as bombas políticas do Pacífico fizeram nos espíritos “cultos” mais estragos que as suas congéneres bélicas no corpo dos japoneses experimentais. O abalo, nesses espíritos, foi de tal ordem, que alguns, conhecidos pela indestrutibilidade do seu silêncio, desceram à fragilidade do artigo, do artigo de jornal – da meditação destinada a emprestar o tom conveniente de filosofância melancólica, à “suma patológica” que é sempre o aniversário de um periódico.

Os jornais portugueses comemoram o Natal, a Páscoa, o Ano Novo, o aniversário de Camões e o seu próprio, com muitas páginas de anúncios e algumas páginas de locubrações literárias, captadas nas nascentes mais gratas ou ingratas à direcção do jornal. É, então, nos tempos que correm, o momento oportuno para o desabafo público da angústia atómica.

E é curioso verificar que os “amantes insaciáveis” do espírito, e para os quais o espírito, por contradição demoníaca, é esse espírito pairando sobre as águas do nada, com o qual, segundo as revelações que devem respeitar, Deus não quis contentar-se – é curioso verificar que são esses os mais perseguidos pelo pesadelo atómico, os que mais temem pela integridade de uma matéria que, afinal, não veneram, e pela existência de uma vida que, afinal, não entendem.

Falar do absoluto com lágrimas na voz, e puerilmente supor que a confiança do espírito humano se garantiu, alguma vez, na noção da indestrutibilidade do mundo, é desvirtuar a dignidade das mais altas actividades do homem. Nenhuma religião, nenhuma filosofia e nenhuma arte, quer destruindo para criar, quer criando para destruir, nenhuma levou a sua possível incoerência ao ponto de confundir a eternidade com o destino do universo, a imaterialidade com as essências, as ideias gerais com as descobertas da física, e a história humana com a certeza consoladora do “valer a pena”. O espírito humano nunca recuou cobardemente perante as certezas negativas. E mesmo que a filosofia da história viesse afirmar, como já tem afirmado, que o homem é de certo modo impotente para dirigir a história, nem por isso o espírito deixaria de, heroicamente, recusar uma metafísica de refúgio, uma metafísica porto de abrigo, contra as tempestades dos factos. Apresentar a metafísica, querendo enaltecê-la, como uma entidade em si mesma, é amesquinhá-la e ridicularizá-la, porque só genericamente se pode dizer “a metafísica”, à semelhança de quem diz “a baleia”. E, depois disto, fugir para a metafísica como quem foge para os Mares do Sul – perdão, para os do Norte, que aqueles são os da bomba! – e fugir sem indagar, primeiro, se a metafísica está pelos ajustes, se a metafísica tolera quem só a conhece de vista: é, além de uma grande imprudência, um sinal certo de desintegração muito mais atómica do que seria razoável imaginar.

Contemple-se o quadro: o mundo some-se, mas fica pronto a desdobrar-se panoramicamente, porque, por hipótese, se supõe que se salva uma biblioteca. Livros e livros voando pelo espaço, obedecendo às leis da atracção universal. Bastará folheá-los – e o mundo, qual Egipto dos Faraós, revela-se. Mas quem os folheará, quem? Certamente que o aterrado atómico, salvo, por milagre, juntamente com a hipótese. E esse, ao folheá-los, dirá, como o homem subterrâneo de Dostoievski: – “Que o mundo acabe, mas que o meu chá me não falte…”.
 

Paraíso Perdido

Primeiro conto de Génesis

Primeiro conto do jovem Sena, de 17/18 anos, demonstrando tal força e concisão que já traz em si o germe da grande obra que virá…

 

 

Adão sentia-se satisfeito. Não entrava com ele o mais pequeno cansaço. O Paraíso em eterna primavera oferecia-lhe a vida nos seus frutos loiros, na sua floresta virgem, na água límpida que agora lhe corria aos pés. O céu muito azul, sempre sereno, olhava-o com benevolência; e até o Sol o acordava carinhosamente de manhã quando se levantava detrás da montanha do Éden, transformando o Paraíso numa roseira de luz – O Sol tão lindo! Que ele adoraria se não soubesse que Jeová o vigiava a cada instante. Tudo o que pedira lhe fora dado: o pensamento, a fala e Eva.

Ali estava a sua companheira – bem sua, não era uma daquelas coisas duras que tinha dentro dele?

Devia ser meio-dia. Deitados à sombra duma árvore descansavam das brincadeiras da manhã: correr, jogar às escondidas e pôr pedrinhas no regato para o desviar.

Caído o silêncio no jardim divino Adão adormeceu. Vendo-o a dormir, Eva levantou-se pé ante pé – não fosse Jeová ouvi-la –, atravessou o ribeirinho e encaminhou-se para o interior da floresta; as folhas secas estalavam alegremente sob os seus pés.

Chegou junto duma árvore pequena mas tão atraente, tão linda, tão proibida…

Lembrava-se daquele dia em que Jeová, pegando na mão dela e na de Adão, os levara diante da árvore e tendo reunido também os animais, dissera a todos:
– Esta árvore chama-se do Bem e do Mal. Só pode saber o que são o Bem e o Mal quem comer daqueles frutos. Ai de quem o fizer! Persegui-lo-ei p’ra fora do Paraíso! Vós não imaginais o que vai por fora disto! Quem para lá for há-de amargar o doce desta fruta!

Os animais e Adão bem depressa se tinham esquecido da árvore proibida, mas ela que nunca reparara dantes passava horas esquecidas a mirá-la.

A que saberia a fruta? O que seria o Bem e o Mal? E se tirasse um pomo? E se Deus via? Expulsava do Paraíso. Ora! O Paraíso era tão aborrecido, todos os dias o mesmo: brincar com a água, com pedrinhas, com os animais, brincadeiras onde de dia para dia não aparecia novidade.

Naquele momento hesitou ainda. Por fim chegou-se à árvore e estendeu o braço. Tornou a deixá-lo cair – E se Deus vê? Agora não vê – e tirou um fruto.

Contemplou-o longamente – tão redondinho, tão dourado! Cheirou-o! Que perfume! E era do Bem e do Mal!

Um estalido se ouviu na floresta. Eva deixou cair o proibido, abaixou-se, tapou-o com folhas secas e esperou com o ruído do peito a bater mais depressa.
Não veio nada. Talvez um galho. Apanhou o fruto e rapidamente deu-lhe uma dentada, e outra e outra e outra.

Começou então a sentir-se mais leve, mais alta, mais diferente. Um arrepio quente passou-lhe a pele. Gemendo de alegria estranha, apeteceu-lhe rebolar-se no chão.
Pensou no companheiro. Vou-lhe dar um para ver como é bom! Arrancou-o e voltou correndo para junto de Adão.

Sacudiu-o e contou-lhe tudo; mostrava-lhe o fruto e ria-se sem saber o que tinha. Abraçava-o, chegava a boca à dele.
– Ó Eva! O que foste fazer! E agora?

Ela esfregava-se contra ele, enlouquecida de desejo novo.

– Que é que tu tens? Deixa-me!

Uma boca quente e húmida abafou-lhe as palavras. Repeliu-a.

Ela agarrou-se e meteu-lhe o fruto proibido na boca. – Come, Adão! P’ra sentires o que eu sinto…

Ele trincou uma, duas vezes e logo lhe pareceu ter acordado em si mesmo. Um calor fulgurante percorreu-o todo e inconscientemente enlaçou-a. Ofegantes no novo mistério torceram-se e rebolaram nas folhas amarelecidas.

Uma serpente que se aquecia ao Sol viu tudo. A nova correu todo o Paraíso e os animais do céu e da terra assaltaram a árvore.
– Adão e Eva comeram e são felizes! gritavam uns aos outros.

Um elefante derrubou-a e por cima, por baixo, por todos os lados, sugaram-na, rasgaram-na, despedaçaram-na.

Os peixes do rio e do mar suplicavam um pedacinho. O leão atirou-lhes um ramo e a disputa estendeu-se às águas.

Devorada a árvore do Bem e do Mal todos fizeram como Adão e Eva e um ruído imenso levantando-se do Paraíso chegou ao céu.

Jeová, rodeado duma multidão de anjos, espreitou do alto e viu aquela bacanal fantástica enchendo a sua obra. Ficou boquiaberto e voltado a si gritou.
– Vamos castigar aquilo tudo! e voltou-se para os anjos.

Só meia dúzia de velhos anjos lhe restavam e lá muito ao longe viu asas brancas que irresistivelmente atraídas voavam para o Éden.
Era de mais! Passava além do Paraíso!

– Fóra! e o seu brado fez tremer a terra inteira.

E como um furacão, cabelos arrepiados na corrida, auréola tombada sobre uma das orelhas, barba desgrenhada, olhos gritando fogo, túnica a esvoaçar, Jeová desceu ao Paraíso.
– Fóra! Fóra! Fóra já!

A criação entreolhava-se envergonhada. Os anjos pecadores fitavam o chão e sentiam um peso enorme nas asas agora manchadas.

O ente supremo atacou primeiro os seus antigos companheiros:
– Ó anjos miseráveis que eu criei! Ó vis! A vossa culpa é maior! e calou-se por momentos embebido em cólera. Depois estrondeou de novo: Todos p’ro inferno! Ide p’ra diabos! Desapareçam! Infames! e num arranco de superioridade: Algum se atreve a olhar p’ra mim!? Dentre eles uns olhos verdes se levantaram insolentes: – Eu!
– Tu, Lúcifer! berrou Jeová no auge do furor. Pois ficas Satanás! Ficas chefe do grupo! Vai p’ro inferno!

Lúcifer começou lentamente a mergulhar no solo. Os outros anjos ficaram imóveis.
– Que é que esperam?! Já atrás dele! Sumam-se da minha vista!

Os daí por diante ex-anjos desapareceram cabisbaixos pela terra dentro.

Arrumados os imortais Jeová voltou o rosto trémulo de ameaças para os mortais.

Adão que conservava na mão um bocadinho de fruto proibido levou-a maquinalmente à boca.

– Patife! Diante de mim! Fóra! Fóra tudo! Esperem no mundo que escolheram a minha condenação! Saiam!

O primeiro homem atemorizado engasgou-se para todo o sempre.

Os animais começaram lentamente a desfilar diante de Deus em direcção à porta que os anjos fiéis tinham aberto na muralha do Éden.

Então resoluta e medrosa, linda como nunca, o peito arfando, o cabelo desgrenhado docemente pela volúpia, tapando o corpo com um braçado de folhas de parra, Eva procurou o mais terno sorriso que lhe ensinara a árvore do Bem e do Mal e disse gorjeando as palavras, ébria ainda:
– Não sejas muito severo, meu Senhor!

Jeová sentiu dentro dele uma sensação melodiosa, espantou-se de não ter gritado e disse de si para si enquanto a via afastar-se ao lado de Adão no meio da turbamulta:
– Esta Eva!

Foi por isso que anos mais tarde Deus se fez homem e habitou entre nós. Mas o Mundo era mais sabido – tinha comido a árvore do Bem e do Mal – e Deus que a guardara sem lhe tocar e a quem não restara nem uma folhinha seca tinha ficado bondoso para sempre – era de esperar que fosse enganado.

7/9/37
revisto – 15 e 16/4/38

 

* In: Génesis (2a.ed. Lisboa: Edições 70, 1986). Sobre o conto, leia “Génesis: o Jogo dos Textos”, de Cleonice Berardinelli, texto que inaugura nossa seção de estudos “JS lido na UFRJ”

Bajazeto e a Revolução

Um fragmento teatral

A 11 de março de 1959, Jorge de Sena assistiu em Lisboa à peça Bajazet, de Racine, representada no Liceu Francês Charles Lepierre, e sobre ela escreveu uma crítica publicada em abril na Gazeta Musical e de Todas as Artes (reproduzida em Do Teatro em Portugal, Lisboa, Ed. 70, 1989). Mas, segundo depoimento de Mécia de Sena, ir ao teatro nessa noite significava ver e ser visto, e ter um álibi em relação ao "Golpe da Sé", cuja eclosão estava marcada para essa madrugada. Do fragmento — simples aide-mémoire telegráfico — encontrado no espólio, o título e palavras como "Sé", "Quartel do Carmo" etc. fazem-nos suspeitar de uma projetada peça (ou talvez um conto, como sugere Eugénia Vasques) em que as vivências do autor mais uma vez seriam testemunhadas.

 


 

Quoique le sujet de cette tragédie ne soit encore dans aucune histoire imprimée, il est pourtant très véritable. (…) Quelques lecteurs pourront s’étonner qu’on ait osé mettre sur la scène une histoire si récente (…). On peut dire que le respect que l’on a pour les héros augmente à mesure qu’ils s’éloigent de nous.

Racine – prefácios de Bajazet

 


                                                    

                                                    BAJAZET

 

Racine – viagem para o apartamento


conversa no apartamento  enquanto a conversa se desenrola
                                           ele recorda:
                                           reuniões, etc. compromisso, etc.

                                           narração paralela (dado como a
                                                                        correspondência
                                                                        horária dos cál-
                                                                        culos que eles
                                                                        estão fazendo)
                                          Jantar do A.
                                          Sé
                                          Ataq. de Alcântara
                                                                       – caso de Belém
                                          Quartel do Carmo

                                          manhã no serviço, viagem de
                                          automóvel para casa


O cartaz dizia:
                       Grande Circo Imperial Luso
                                    Leões, Navegações, Naufrágios e Con-
                                    quistas. Mártires e Heróis, todos os dias.
                                    A descoberta do caminho marítimo para
                                    a Índia, com o Infante D. Henrique e
                                    Camões nas caravelas, ao domingo. São
                                    Francisco Xavier, às quintas. Aljubar-
                                    rota, à sexta, em matinée infantil. Palha-
                                    ços, equilibristas, domadores, trapezistas.
                                    Voos à Gago Coutinho. O grande
                                    sketch, ao sábado, por toda a compa-
                                    nhia: Oito Séculos e meio de História
                                    Universal, com grande figuração de
                                    negros, mouros, e indianos autênticos.
                                    Nu artístico por indígenas do Brasil (em
                                    sessão reservada aos homens e a mulhe-
                                    res casadas acompanhadas pelos mari-
                                    dos). Orquestra sinfónica, coros e baila-
                                    rinas(os) do Estado Português, sob a
                                    regência de vários maestros de categoria
                                    internacional. Hinos patrióticos e fun-
                                    ções folclóricas. Uma Pátria em Armas
                                    exposta aos olhos do Futuro.

Auto-apresentação

Das Líricas Portuguesas, 1969

Ao organizar a antologia Líricas Portuguesas, incluindo-se no volume I, assim se apresenta este polifacetado escritor, que, segundo costumava dizer, acima de tudo considerava-se poeta:

 

Nasceu em Lisboa, a 2 de novembro de 1919, onde viveu exercendo a profissão de engenheiro civil em que se formara na Faculdade de Engenharia do Porto. Esteve então em África, no Brasil, nas ilhas do Atlântico e em alguns países da Europa. Ensaísta, dramaturgo, contista, crítico e historiador da cultura, etc., tem várias obras publicadas em volume e larga colaboração dispersa por jornais e revistas, sendo de destacar: Seara Nova, onde exerceu a crítica teatral, O Comércio do Porto, Portucale, Mundo Literário, O Primeiro de Janeiro, Árvore, etc. Um dos fiéis colaboradores de Unicórnio e números subsequentes, foi o animador e co-director das 2ª. 3ª. séries de Cadernos de Poesia, em cuja 1ª série já colaborara. Dedicou-se largamente a traduções de poesia e de romance. Tendo partido em 1959 para o Brasil, onde foi catedrático de Teoria da Literatura e de Literatura Portuguesa, e se doutorou em Letras, vive desde 1965 nos Estados Unidos da América, onde foi catedrático de Literatura Portuguesa e de Literatura Brasileira, e também de Literatura Comparada, na Universidade de Wisconsin, e o é actualmente na Universidade da California. Segundo declarou uma vez numa entrevista, a sua poesia “representa: um desejo de independência partidária da poesia social; um desejo de comprometimento humano da poesia pura; um desejo de expressão lapidar, clássica, da libertação surrealista; um desejo de destruir pelo tumulto insólito das imagens qualquer disciplina ultrapassada (e assim: a lógica hegeliana deve sobrepor-se à aristotélica; uma moral sociologicamente esclarecida à moral das proibições legalistas); e sobretudo, um desejo de exprimir o que entende ser a dignidade humana – uma fidelidade integral à responsabilidade de estarmos no mundo”.

Como pode constatar qualquer leitor que se aproxime das páginas de Sena, as características essenciais que aí aponta em sua poesia estendem-se ao restante de sua vastíssima obra, numa interna coerência conceptual rara de ser encontrada.
Mas, de 1969 – ano em que a nota foi escrita – até 4 de junho de 1978 – data de seu falecimento em Santa Barbara, California, USA – muito ainda produziu esse “escritor português, cidadão brasileiro e professor norte-americano”, ou esse intelectual que “já se sentia exilado mesmo antes de deixar Portugal”, como também costumava apresentar-se. Produção que se materializa nos livros que ainda viu editados, nos póstumos que Mécia de Sena, sua viúva, organizou e publicou e ainda numa boa soma de inéditos que repousam no seu espólio.

Conto Brevíssimo

De Antigas e Novas Andanças do Demónio

 A tale must be brief.
   (Vários autores) 

Este é um conto breve. É mesmo brevíssimo. De resto, se não fosse breve, muitíssimo breve, correria o risco de não ser um conto. A obrigação principal dos contos, mais que dos homens, é conhecerem os seus limites.

Propondo-me escrever um conto breve, tão breve como este, é-me impossível dizer qualquer coisa de mim. A brevidade não permite essas expansões, quase sempre vaidade, em que sacrificamos uma narrativa a nós próprios. Ora, se há coisa que não goste de sacrificar, ainda que a mim próprio, é uma narrativa. Claro que narrar não é, como todos sabem, o suficiente para escrever um conto. Mas também não é, como todos reconhecerão, uma coisa absolutamente necessária: mais, se o conto é breve, brevíssimo, o lugar para a narrativa estreita-se de tal modo, que ela quase não cabe; e, se a forçássemos, ela, como a intromissão das nossas pessoas o faria, ampliava os limites – aqueles limites que é preciso conhecer – para além do razoável num conto breve.

Porque, reconheçamo-lo, a brevidade é tudo. A brevidade permite contenção, prudência, reticência, pudor. O pudor é essencialmente uma virtude breve.

Sem dúvida, porém, que as virtudes, mesmo breves, não são comportadas pela brevidade de um conto brevíssimo. Além de que é ponto assente e demonstrado que as virtudes são inteiramente alheias, como virtudes, à estética literária. E um conto breve é, acima de tudo, uma obra de arte, de arte literária, onde tudo se reduz ao efeito artístico.

Contudo, na brevidade de um conto é extremamente difícil, senão impossível, preparar um efeito. Se não queremos, e eu não quero, apenas contar uma anedota, os limites razoáveis não dão azo a tais preparativos. Estes, à semelhança da perda das virtudes, requerem preparação, embora a perda propriamente dita possa ser praticamente instantânea, quer seja sentida no momento em que se perde (a virtude), quer seja uma descoberta mais tardia, quando alguém descobre que lhe fazia falta alguma coisa («coisa» é um modo de dizer) que afinal perdera. Num conto breve é tão duvidoso caberem as virtudes, quanto é duvidoso que se percam.

Lembro-me que, uma vez, em Londres, eu procurava com os olhos, parado numa esquina, a estação de correio, que era por ali perto. Eu tinha-me informado, e era por ali perto. Então uma senhora de idade, com óculos de aro de aço e uma couve repolhuda esticando uma saca de malha, parou ao meu lado, voltou-se para mim, afastou os cabelos grisalhos e sujos que apareciam caídos do chapéu de feltro preto, sem forma mas pontudo, e perguntou-me onde era a estação de correio. Imediatamente o meu olhar, depois de ter fitado o casacão cinzento e os sapatos rasos com fivela grande, que eram o resto da imagem dela, percorreu os prédios – todos georgianos com janelas brancas nas paredes de outro branco – e viu a estação de correio. Apontei-lha, e a senhora agradeceu com efusão, e atravessou a rua. Quando ela atravessava, dei passos pelo passeio, e vi, numa montra que era uma janela, um chinês de porcelana, coberto de pó. E, repentinamente, voltei atrás, porque não tinha – verifiquei – nenhuma carta para deitar no correio (havia um marco de correio ao pé de mim) e não queria comprar selos (tinha selos no bolso).

Não posso esquecer a brevidade deste episódio, não por ser episódio, que o não é, nem sequer por eu saber ou não saber a razão de não poder esquecê-lo. Já pensei que isto se relaciona com o retrato de uma velha, que vi no jornal, não sei se no dia seguinte, assassinada numa estação de correio. Mas, se bem me lembro, a estação de correio era noutro bairro. É provável, todavia, que a razão (de eu saber ou não) resida apenas na brevidade, uma brevidade insignificante, insignificada, sem conteúdo algum, como o pudor, tão breve essencialmente.

Mas, reflectindo melhor, talvez que a brevidade não desculpe a ausência de atenção com que jamais aproveitei um acidente. A não ser que seja a hesitação natural (e já reflectida) em ver, neste acidente, um incidente. É uma diferença da maior importância para o conhecimento dos limites. E os limites, que é tão imperioso conhecer, eles só, e mais nada, nos autorizam as definições. Sem definições, a brevidade não existe, não se realiza, da mesma maneira que, com elas, não tem essência própria nem estrutura virtual. E um conto breve, brevíssimo, que seja a própria desistência de narrar (e narrar implica, reparemos, interpretar ou, pelo menos, escolher), e em que passemos incógnitos (embora não fora do tempo e do espaço), não sendo mais nada, será por certo a brevidade impreparada, a brevidade captada, a brevidade em si, tanto mais que, no caso presente, eu nunca mais tornei a ver aquela velha, mesmo que (a não ser que ela fosse a do retrato) outras vezes me tenha cruzado com ela na rua. Não muitas, nessa hipótese, porque parti pouco depois (exactamente pouco, não garanto que tenha sido) para a Bélgica. A brevidade, porém, isenta-nos de quaisquer perigos. Ora os perigos são, quase sempre, muito breves. Pelo que poderemos concordar em que este conto é brevíssimo.

      
Assis, 6/5/61       

 

* in: Antigas e Novas Andanças do Demónio (4a.ed. Lisboa: Edições 70, 1984), teve sua primeira publicação no "Suplemento Literário" do jornal O Estado de São Paulo, a 15 de julho de 1961.                                                                                                   

O Grande Segredo

De Antigas e Novas Andanças do Demónio

Alli me mostrarias
aquello que mi alma pretendia (…)

(Juan de la Cruz – Cantico Espiritual)

 

Fechou a porta da cela atrás de si, e ficou parada, encostada à porta, sentindo a madeira dura na nuca, através do véu. A luz da lamparina no oratório, bruxuleava lenta, às vezes crepitante, e espalhava uma claridade a que ela reconhecia, mais que via, a mesa junto da janela com os livros pousados, e o genuflexório, e o catre de tábuas, e as lajes carcomidas. Sabia perfeitamente o que a esperava. Sentira nitidamente, ao levantar-se da ceia, e depois, na igreja, durante as orações, que mais uma vez ia sofrer a visita… Como o corpo se recusava a despegar-se da porta, para ficar desamparado na cela, assim também, mentalmente, as palavras se recusavam a nomear o horror que a esperava. Tremia: a pele, como a memória, retraía-se num palpitar ansioso, de que as mãos já se levantavam num gesto de repulsa. Era superior às suas forças tudo aquilo; não suportava mais. Apetecia-lhe gritar por socorro, rebolar no chão, fugir pelos corredores e pelo campo fora. Tudo seria preferível. Mil vezes ser assaltada por mendigos e leprosos, mil vezes ser violada brutalmente por soldados e bandidos, mil vezes ser vendida como escrava. Mil vezes a repetição de tudo isso que, na sua pregressa vida, conhecera. Mil vezes viver a desgraça que essa vida fôra, antes de, como um refúgio enfim conseguido à custa de tanta miséria, se abrirem na sua frente, e se fecharem sobre ela, as portas do mosteiro. Quando, enfim, entrara nele, também como agora se encostara à porta, não a despedir-se do mundo, mas a sentir que tudo ficara lá fora, e ela renasceria, teria finalmente a ressurreição da sua vida que o peso de uma pedra imensa, que era o seu destino, não permitia que surgisse e caminhasse. Mas, ali dentro, e dentro da ressurreição, esperava-a o horror inonimável de ser eleita, de ser visitada, de ser mais do que é possível.

Abanou a um lado e outro a cabeça. Não. Não. Por piedade, não. As dores medonhas que sofrera ao ser possuída com violência por um monstro de dimensões incríveis, nada eram a comparar com o que nestes momentos, sucedia no seu espírito. E, no entanto, a semelhança era muita, era tanta, era demais.

Quando o clarão começou a surgir entre a janela e o oratório, cerrou os olhos, escorregou ao longo da porta, agarrou no rosário e percorreu as contas que lhe fugiram. Não era uma tentação que repelia assim; mas era, como bem sabia, um esforço para que o céu se contentasse com as relações espirituais de uma oração. Todavia, tudo no seu corpo aflito lhe afirmava que seria inútil. O clarão aumentou, como sempre, e, como sempre, mesmo de olhos fechados ela via o perfume da imensidade luminosa que suprimia as paredes da cela e a envolvia numa ternura tépida que lhe doía na medula dos ossos. Também a música, suavíssima, lhe doía assim; e, no entanto, essa música, que, sem ouvir, sentia, não se misturava à claridade, era antes um acompanhamento, um fundo sobre que a luz se tornava mais aberta e mais imensa. Não tardariam as vozes que lhe apertariam todos os recantos do corpo, como tenazes ardentes, ou como lábios, ventosas, línguas.

Num esforço doloroso, abriu os olhos. A claridade enchia a cela toda, e o catre, o oratório, os livros, o genuflexório, a mesa, as portadas da janela, a própria lamparina, tudo flutuava numa ondulação cadenciada, num torvelinho sem peso, e navegava como de velas pandas, e esteiras rebrilhantes sussurravam de todas as coisas como ao longo do casco de um navio.

Agora eram o hábito e o véu, o cilício que trazia à cinta, e o rosário, que, devagarinho, levantavam voo e entravam na sarabanda macia. A brutalidade sufocante e dilacerante penetrava-a já, enquanto o desfalecimento lhe triturava as vísceras e os ossos, Tudo nela se abria e despedaçava, eram milhares de agulhas que a picavam, facas que a rasgavam, colunas que a enchiam, cataratas que a afogavam, chamas que ardiam sobre águas luminosas, cantantes, e pousavam como fogos-fátuos pelo corpo dela.

Crispando-se numa última recusa, mas ao mesmo tempo cedendo para que aquilo acabasse, inundou-se de uma ardência cristalina, que se esvaía no seu âmago, lá onde a Presença, enchendo-a, martelava os limites dissolvidos da carne. A luz atingiu um brilho insuportável, a música atroava tudo, sentiu-se viscosamente banhada de clamores e apelos que lhe mordiam… E, na treva e no silêncio súbitos, sentiu, nas costas, na nuca e nas pernas, a dureza violenta e fria das lajes em que, do ar, caíra.

Abriu os olhos na escuridão. O corpo dorido e descomposto, o frio e a lamparina que ardia bruxuleante, recordaram-lhe que entrara na cela, mas, com veemência, horror, revoltada humildade, não recordou mais nada. Deixou-se ficar estendida, saboreando uma incomodidade que era exaurido repouso. E começou a ouvir o murmúrio das rezas, a voz da madre abadessa, sussurros que se destacavam e reconhecia.

Leves pancadas soaram na porta, o fecho estalou, e a madre e mais duas entraram recortadas no clarão difuso que vinha do corredor, onde as rezas continuavam. Viu-lhes os hábitos junto do rosto, e as pregas subiam a sumir-se no escuro. Tinham vindo, como sempre, escutar, enciumentas dos favores que acumulavam, apiedadas do sofrimento que lhe cabia em sorte, atraídas e atemorizadas, rezando para a ajudarem e também para participarem daquele clarão sonoro que extravasava pelas frinchas da porta. Quando assim se curvavam para ela, e a levantavam, e carinhosamente a deitavam no catre, e ficavam de joelhos, enchendo a cela e o corredor, rezando com ela, não imaginariam a vergonha imensa que a torturava, ora diversa, ora igual à que sentira quando o emir, no meio da tenda, mandara que a despissem e os soldados, uns após outros, a possuíssem em público. Ela recusara fazer parte, como primeira esposa, do harém, e ele, que a estimava e preferia, e a comprara aos piratas e a trouxera com requintes de delicadeza, mandara que os eunucos a estendessem no divã e a segurassem.

Deitada no catre, de olhos fechados, apagou da memória todas as recordações. Sentia-se descer lentamente, num poço sombrio e húmido, sem fundo. Nem a presença delas, nem as vozes delas, nada podiam contra a solidão e o silêncio. Era este o momento que, afinal, mais temia. Era nestes momentos que, bem sabia, ela consentia na visita próxima, cedia antecipadamente ao apelo e à luz, quando viessem. No dia seguinte, pela madrugada, após um sono pétreo, tudo teria passado. As outras irmãs cruzariam por ela, saudando-a com deferência, trocando ou tentando trocar um olhar comovido, um sorriso amável. A abadessa chamá-la-ia para conversar de coisas correntes, de notícias dos exércitos e dos parentes, dos combates em Jerusalém, e do Santo Sepulcro. E subitamente, na cela, no claustro, no jardim, na adega, quando estivesse só, amanhã mesmo, daqui a um mês, de dia ou de noite, tudo se repetia e recomeçava. É certo que, por mais que fizesse, ocasiões havia em que se afastavam dela as outras, a deixavam só, como se a propiciarem a repetição de acontecimentos que eram honra do convento. E grandes senhores ou pobres mendigos vinham para tentar vê-Ia, através das grades do coro, ou pediam para que ela os tocasse. A abadessa arrastá-la-ia, de olhos fechados, pegar-lhe-ia na mão, que enfiaria pelas grades, e ela sentiria que lhe choravam nela e lha babavam de beijos. A própria abadessa, trazendo-a em silêncio de volta ao claustro, lhe limparia a mão.

Recolheu sobre o seio a mão que pendia para fora do catre, e agora lhe beijavam. Suspirou. Dentro dos olhos fechados, viu o crucifixo que havia na igreja da sua terra natal, lá longe, há tanto tempo, nos confins da Europa. Foi uma surpresa esquisita que a percorreu trémula da cabeça aos pés. Nunca mais o revira, nem o recordara sem o rever, nem sequer no espírito lhe passara a lembrança, não reconhecida de lembrar-se dele. A imagem sorria para ela, e então ela, menina olhando em volta para verificar se estava só, erguera a mão para o cendal que o cingia, e tentara levantá-lo para espreitar. Porque ele não podia deixar de ser como os outros homens. Mas o cendal, que parecia de tão fina e leve seda, era esculpido na madeira, e ela baixara tristemente a mão, sentindo que a curiosidade lhe fora castigada.

Abriu os olhos, e viu que estava só. Uma paz, uma tranquilidade, uma saciedade que não estava nela, mas no ar que a rodeava, deslaçavam-lhe as derradeiras crispações do corpo contuso. Ainda, mas muito distantes, sentia dores dispersas, ou localizadas onde a violência fora maior. Mas o bem-estar era enorme e contraiu-lhe os lábios num sorriso. O grande segredo, agora sabia o grande segredo. E adormeceu. O clarão recomeçou a encher a cela, mas não aumentou mais, nem ressoava. Antes ficou em torno dela, como um dossel, uma atenta e vigilante ternura, que, debruçada sobre ela, a contemplasse, tão dorida e apagada, a respirar tranquila.

 

Araraquara, 2 de Setembro de 1961
 

Razão de o Pai Natal ter barbas brancas

De Antigas e Novas Andanças do Demónio

Para os filósofos, como meditação demonológica acerca do VIII poema de “O Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro.
Para as crianças grandes, como apólogo humorístico.
Para os meninos pequenos, como verdadeiro conto de Natal.


I

Como toda a gente sabe, e os meninos melhor que ninguém, o Natal é uma coisa muito velha. O que nem toda a gente sabe é que, no princípio, ele não era pai; nem era velho, e não tinha, portanto, barbas brancas. Assim, quando o menino Jesus nasceu, já todos os meninos punham o sapato na chaminé.

A única diferença era que a chaminé não tinha, como hoje, fogão de gás ou fogareiro. Depois, com o menino Jesus, veio outra diferença: também ele punha o sapatinho, que, por acaso, era uma sandália.

Isso durou pouco? Não, porque o menino Jesus só cresce e se faz homem quando os outros meninos crescem e julgam que se fazem homens. O que, e lá isso é verdade, não acontece a toda a gente, como os meninos terão muito tempo para ver. Mas isso é já outra história, que os meninos aprenderão, sem que ninguém lha conte.

A que vou contar começa quando o menino Jesus ia fazer sete anos, idade que é muito importante, visto que são sete as maravilhas do mundo. O menino Jesus, como os outros meninos, tinha vontade de crescer e não acreditava no Natal. Ele bem sabia quem punha os brinquedos na sandália (era a Mãe), e, por não haver então lojas de brinquedos, e, mesmo que houvesse, não terem os pais do menino Jesus dinheiro para os comprar (os brinquedos já eram muito caros), ele bem vira S. José estar a fazer uma carrocinha, às escondidas. Por isso, naquela tardinha, sempre muito comprida, que há antes da noite de Natal, noite que, por sua vez, é a mais comprida do ano, o que lhe valeu ser ela a Noite de Natal; por isso, como ia dizendo, o menino Jesus, que estava à espera de lhe darem a carroça, fingia que se não importava, fingia, até, não esperar coisa alguma. A tarde estava muito bonita, segundo me disseram, e é natural que estivesse: o Natal ia ser pai e, o que é muito mais, ganhar as suas barbas brancas. O céu fazia-se verde e amarelo e cor-de-rosa, que são cores que as pessoas grandes não gostam de ver no céu, e que todos os meninos sabem que lá se vêem muito bem. O menino Jesus, é claro, via-as melhor que ninguém. E, então, para disfarçar, começou a contar as nuvenzinhas soltas, que estavam todas paradas, muito quietas de propósito para ele contar – mal imaginavam o que lhes ia acontecer. O menino Jesus sentara-se numa pedra (pedra que ainda lá está na terra dele, embora ninguém saiba qual é), à beira do caminho, e, com uma varinha (que não era de condão, pois só as fadas precisam desses objectos), fazia riscos na poeira. A poeira, coitada, era mais lama que qualquer outra coisa, porque chovera de manhã, e o sol não tivera tempo de a secar. Ora, o menino Jesus, umas vezes olhava para o céu, outras olhava para o chão, e qualquer pessoa com dois dedos de testa logo perceberia que ele estava a desenhar as nuvens. Mas parece que estas coisas são muito difíceis de perceber, como os meninos sabem pelas perguntas parvas que muitas pessoas crescidas costumam fazer.

– Que estás tu para aí a riscar, pequeno?
O menino Jesus voltou-se (quando nos fazem perguntas destas, a gente está sempre de costas), e viu um homem muito bem vestido que até parecia mentira. O menino não se deixou enganar, porque a pergunta estragara o fato do homem, e era como se estivesse todo rasgado e com a fralda de fora.

– Estou a fazer riscos.
– Isso vejo eu. Que riscos?
– Só riscos.

O homem mostrou uma cara muito má, e o menino Jesus foi pondo os pés a jeito, para o caso de ser preciso levantar-se de repente e fugir a correr.

– Estás a armar em esperto, mas a mim não enganas.

O menino Jesus, estava farto de enganar imensa gente, riu-se, mas só por dentro, por causa da má cara do homem.

– É mau fazer riscos? – perguntou.
– Se é! Ora experimenta lá.

O menino Jesus ficou desconfiado, e traçou um risco, um muito pequenino. E qual não foi o seu espanto ao ver a varinha ficar presa ao chão! Ver não viu, mas quis tirá-la e não pôde.

Claro que, dessa feita, quem se riu foi o homem. Ora é sabido que o diabo não se pode rir muito alto, porque lhe sai enxofre pelos intervalos do riso. E assim aconteceu. O menino Jesus sentiu o cheiro, viu o fumozinho sair da boca do homem, era quase noite (anoitecera quase de repente), não passava ninguém na estrada, ele estava um bocado longe de casa, e, apesar de ser quem era, teve medo, um medo enorme, um medo ainda maior que o diabo.

Estão a ver o menino Jesus nestes assados. Que faria qualquer menino? Evidentemente, não mostrava medo, que é a melhor maneira de assarapantar o demónio. Foi o que ele fez. Fingiu que não queria a vara para nada (e queria porque era uma bela vara, muito direita), e disse:
– Bem, são horas de voltar para casa.
– Ah, sim? E porquê? – (o diabo a ver se ele caía).
– Tenho lá o Natal à minha espera.

O diabo sentiu vontade de rir; mas, aflito com o fiasco do fumo pelos intervalos do riso, mordeu os lábios e perguntou:
– O Natal? Mas que Natal é esse?
– Se calhar não sabe o que é! – exclamou o menino Jesus, e tentou levantar-se. Aí é que foram elas! Estava pregado à pedra, como a vara à lama! Um caso sério! Se ao menos passasse alguém! Mas qual! Nem vivalma, que o diabo não conta, não é gente. E como nessa altura ainda não havia santos por quem chamar, a Nossa Senhora estava em casa, e o menino Jesus, apesar de saber que era menino Jesus, não sabia que era filho de Deus, não havia salvação possível. Não havia!… Nisto, porque era um menino igual aos outros meninos, teve uma idéia muito luminosa. Era perigoso, mas o único remédio.

– Dá-me a sua mão? Ajuda-me a levantar daqui?

Mesmo o que o diabo queria! E com os olhos a luzir de gozo, o diabo estendeu-lhe a mão. O pior foi esquecer-se – e o diabo nestas alturas é muitíssimo esquecido – de firmar-se bem nos pés. O menino, mal lhe deu a mão, pôde levantar-se… e zás: meteu uma perna entre as do diabo e deu-lhe um encontrão. O diabo desamparado (é como ele está sempre, não se esqueçam), esbracejou e estatelou-se na lama, que, naquele sítio, estava muito bem amassada pelas rodas dos carros, mesmo destinada a traseiros do diabo. E quando se ergueu, furioso, todo sujo, o menino Jesus já ia longe, e até parecia que levava asas nos pés. Ao entrar em casa, ofegante, o menino Jesus voltou-se para trás e ainda viu, na noite escura, um clarão de raiva.

II

O menino Jesus não disse nada a ninguém. Sentia-se tão contente por ter feito o diabo estatelar-se em plena estrada! Mas uma coisa o preocupava: o diabo ficara sabendo que ele estava à espera do Natal, porque lhe tinha dito que o Natal estava à sua espera – ora o diabo percebe tudo ao contrário, e ficara portanto a saber a verdade. Era inevitável que apareceria, pela calada da noite, e vestido de outra maneira, para não ser conhecido. Viria com toda a certeza. E agora? Agora…

III

Alta noite, o menino Jesus, que se fora deitar a dormir com um olho aberto e outro fechado, ouviu os pais levantarem-se, e irem, pé ante pé, para a lareira, onde ele, é claro, antes de deitar-se, pusera a sandália do pé direito. Como se sabe esta sandália é sempre melhor que a outra, e deve preferir-se em tudo: chaminés, pontapés, etc., a menos que se seja canhoto dos pés, o que é muito raro.

O menino Jesus estava de costas voltadas à lareira, porque fazia frio, e porque, também, se estivesse de frente, logo se veria que não dormia e espreitava. É evidente que a casa era muito pequena e pobre, e os quartos eram um só, dividido em dois, por cortinas muito velhas, que Nossa Senhora se cansava a remendar e o menino Jesus a esburacar. Ora, o menino Jesus, mal os pais se recolheram, sentou-se na cama, que, pela mesma razão de a casa ser pequena, era um colchão no chão, com pouca roupa, tão pouca, que o menino raras vezes se despia, muito menos no Inverno. Era, sem dúvida, um mau costume, mas também o Inverno é um mau costume, que, além de ser preciso para a terra descansar, se repete invariavelmente todos os anos: e o menino Jesus apesar de ter só sete, já muito bem sabia que, quando tinha frio, era mesmo frio o que tinha. Sentou-se, pois, na cama. O lume, na chaminé, apagava-se pouco a pouco; viam-se as faúlhas correndo pela madeira, umas atrás das outras, enquanto as pontas dos troncos iam ficando brancas. O diabo não tardava aí. Um estalido. O menino Jesus olhou para a porta. Não era nada. Depois sentiu passos na terra batida. Olhou: era um rato. O rato andou de um lado para o outro (e se o rato fosse o diabo disfarçado?), até se convencer que tais pobretões nem na noite de Natal deixavam cair migalhas. Passou muito tempo – ao menino Jesus parecia imenso quando – … vinha alguém pela chaminé abaixo. Oh se vinha! Com o lume assim a apagar-se, não se via nada; mas, para quem entrasse pela chaminé, ainda era luz que chegasse. E chegava: apareceram umas sandálias, umas pernas, uma fímbria de túnica vermelha (é o diabo, pensou o menino Jesus), mais túnica vermelha, ainda mais túnica vermelha, até que uma figura ficou de pé, ao lado do fogo, e deu uns passos para dentro de casa. Trazia um saco às costas. Era o diabo! O menino Jesus ficou… calculem como ele ficou, porque, no fundo, muito lá no fundo, não esperava que o diabo voltasse. E ali estava ele, com saco e tudo. Viu o diabo abaixar-se e pegar na carrocinha, que estava mesmo em cima da sandália. É preciso dizer-se que a carroça não era muito grande, mas também não era muito pequena, e mais caberia a sandália na carroça, do que a carroça na sandália. Não, lá isso não! Nunca tinha um brinquedo senão os que inventava e fazia, e aquele, tão bonito, o diabo vinha buscá-lo! E mesmo que não fosse bonito, não lho dava. Brinquedos a diabos! Toda a gente sabe que o diabo não brinca e, por isso, faz asneiras! Não, lá isso não! E saltou da cama, correu para a chaminé… e tirou a carrocinha da mão do diabo, que, já a abrir o saco, nem dera por ele.

– Boa noite! – disse o diabo, com voz maviosa.
– Boa noite… Por que é que não entrou pela porta? Era só bater, que eu abria – perguntou o menino Jesus, pondo a carroça debaixo do braço.
– Para não acordar ninguém…
– Eu estava acordado.

E o diabo, muito ingenuamente, como se não fosse ele: – Ai que linda carroça! Quem lha deu?
– Tem alguma coisa com isso?! Que é que o senhor quer?
– Eu só queria brincar com a carroça. Deixa-me brincar um bocadinho?
– Não tem vergonha de ser tão grande e querer brincar ainda? – (era o que a mãe lhe dizia, quando ele andava pela casa a fazer das suas).
– Eu? Vergonha? – e o diabo ia rir-se, mas tornou a lembrar-se do fiasco do enxofre pelos intervalos do riso. – Então não me deixas brincar?

O menino Jesus dava voltas à cabeça, e não achava maneira de livrar-se dele. Só se fosse…

– Sempre quer? Mas só um bocadinho.
– Como? Como? – (O diabo todo satisfeito).
– Eu faço de carroceiro e o senhor faz de cavalo.
– Vamos a isso! Vamos a isso! – e o diabo logo de gatas, para ele o atrelar à carroça.

A carroça estava muito bem feita; não lhe faltava nada, até arreios tinha. Foi nessa altura que o menino Jesus, ao reparar nas barbas brancas que o diabo trazia (barbas, aliás, de uma brancura imaculada), viu bem o que lhe convinha fazer. Muita gente julga que o diabo pode esconder tudo o que é e tem, menos os pés de cabra; manifestamente isso não é verdade, como se depreende desta história, em que ele aparece de sandálias, com a perna à vela. Se as pernas eram dele ou emprestadas, o menino Jesus tinha muito mais em que pensar. E pensou e disse:
– Não te posso pôr a cabeçada (como o diabo fazia de cavalo, tratava-o por tu – não era por ser o diabo), as tuas barbas são tão compridas! E tão bonitas, que se estragam!

E o inimigo, muito convencido, a cofiá-las:
– São bonitas, não são? Bem me custaram a arranjar.

O menino Jesus então ficou logo a saber o que queria. E tornou a dizer: – Não te posso pôr a cabeçada; e, se não ponho, como hás-de puxar a carroça?

O diabo, que não tem paciência nenhuma (e por isso é tão fácil de reparar, quando começa a estorcer-se), o que queria era acabar com aquela paródia, tanto mais que lhe parecia o menino Jesus já ter dado por ele (e só parecia, porque o diabo nunca tem a certeza). E, por isso, propôs: – Mas eu levanto as barbas, e tu passas a cabeçada…

Assim se fez, e o menino Jesus, quando ele as levantou, viu a barba de chibo, pêra retorcida, que o diabo nunca pode tirar, como se está a ver. As barbas brancas, tão imaculadas, é claro que eram postiças.

Mal o atrelou bem atrelado, o menino Jesus, convencido de que o diabo desapareceria e deixaria a carroça, disse uma palavra secreta que sabia (todos os meninos sabem palavras dessas, só não sabem qual serve). O diabo ficou na mesma. O menino Jesus então disse outra. O diabo, nada. Ia o menino Jesus então disse outra. O diabo, nada. Ia o menino Jesus a dizer a terceira, pergunta o diabo, já aborrecido, como era de calcular:
– Que raio de brincadeira é esta que nunca mais começa?

O menino Jesus puxou-lhe pelas barbas e gritou a terceira palavra, a mais forte de todas… O diabo deu um estoiro, como os automóveis quando querem arrancar, e saiu pela porta fora, com tanta força, tanta, tanta, tanta, que a atravessaram ele e a carroça, de uma vez – e a porta ficou inteirinha no mesmo sítio.

O menino Jesus, com as barbas postiças na mão, abriu cautelosamente a porta. Não se via um palmo adiante do nariz, mas não se viam também, nem o diabo nem a carroça… Nisto, as barbas soltaram-se da mão do menino, e começaram a subir ao céu, e a crescer, a crescer, a crescer, e, quando chegaram lá acima, já chovia a cântaros. Está-se mesmo a ver que as barbas eram as nuvens que o menino Jesus contara.

O menino voltou para dentro e fechou a porta bem fechada; em casa não se via nada, porque o lume se apagara de todo. O menino Jesus, muito devagarinho, meteu-se na cama. Estava ele a pensar na carroça, ouviu S. José dizer: – Não ouviste um estoiro? E a voz de Nossa Senhora a responder: – Ouvi. Dorme descansado. São coisas do diabo.

Sua mãe sabia! O menino Jesus ainda ficou, se é possível, com maior admiração por sua mãe.

IV

Como a noite de Natal é muitíssimo comprida, a história não acaba aqui; tanto mais que ainda não se ficou a saber a razão de o pai Natal ser pai e ter enormes barbas brancas.

O menino, se, quando se deitara a primeira vez, ficara com um olho aberto outro fechado, agora, sem a sua carroça, não conseguia fechar nenhum deles. E estava nessa aflição… começou a ouvir barulho dentro da chaminé. Um barulho de nada, pela chaminé abaixo. Era de mais: aquele descarado já levara a carroça, e ainda voltava!

O menino Jesus levantou-se, foi para o pé da chaminé, e pegou num ferro muito grande que lá havia para arrumar as achas. Vinha pela chaminé abaixo uma claridade esquisita. E vinham umas sandálias… e umas pernas… e uma fímbria vermelha… (é ele, pensou o menino Jesus) e mais túnica vermelha… e ainda mais túnica vermelha… até que uma figura ficou, ali mesmo, ao lado das cinzas. O menino Jesus levantou o ferro… e o homem (parecia um homem) disse: – Assim tu me recebes? Assim te ensinaram a receber o Natal?

Foi então que o menino reparou que ele não tinha barbas, nem brancas, nem pretas, ou só assim uma coisa muito rala que nem barba parecia. Não era, portanto, o diabo. Em todo o caso, não largou o ferro.

– Mas tu és verdade? E sempre vens? – (não o tratava por tu por ser ele o Natal, mas pela alegria de ele não ser o diabo).
– Eu, em pessoa. E venho, como vês.
– Essa é boa! E trazes-me alguma coisa?
– Nunca trago nada… Eu troco os brinquedos por outros. E esses é que eu trago comigo.
– Então, este ano, fico sem nada, porque tinha aqui uma carroça e o diabo levou-ma.
– O diabo?!
– Sim. Veio vestido como tu, só trazia barbas brancas, e levou-me a carroça.
– E deixaste?
– Que remédio tive! Ele estava atrelado, e não se ia embora…
– E agora, como há-de ser? Eu trazia uma carroça para trocar.
– Tu não dás brinquedos aos meninos que não têm brinquedos?
– Não posso dar.
– Por quê?
– Porque só troco.
– Por quê?
– Porque não posso dar.

O menino Jesus não perguntou mais; logo viu quais eram as respostas, e que o Natal não tinha outras, pelo menos para dar. Ali estava um, que não dava nada a ninguém. Mas ficar sem carroça não ficava.

– Tu tens a minha carroça.
– Tenho? Aonde?
– Anda por aí, atrás do diabo.
– Lá isso é verdade.
– Então, dá-me a que trazes.
– E a outra?
– A outra, quando encontrares o diabo, dizes que é tua, e pronto.
– E se não o encontro?
– Ora tens tanto tempo! Eu é que não tenho outra carroça!
– Bem… Parece que me convenceste.

E o Natal – pois era ele – pousou no chão o saco que trazia às costas (como se vê, o patife do diabo até um saco arranjara) e tirou de dentro uma carroça exatamente igual à outra. Mas igual, igual, nem a cabeçada faltava. E deu-lha. O menino ficou – imagina-se – contentíssimo. Tão contente, que se lembrou logo de uma coisa.

– E se o diabo, agora, anda a fingir de ti pelo mundo fora?
– É fácil. Custa um bocado mas é fácil.
– O que é que é fácil? Como te vais arranjar?

O menino Jesus bem via o Natal atrapalhado, sem saber como se havia de arranjar. Teve pena dele, que lhe dera a carroça, e, em troca, deu-lhe uma idéia, que é muito mais de dar do que uma carroça.

– Deixas crescer as barbas brancas. Das duas uma: ou o diabo anda com a barba dele, e toda a gente o conhece; ou põe outras barbas postiças, e basta puxar por elas para se ver se são de verdade.
– Bela ideia, sim senhor, que bela ideia! – Mas depois de pensar um bocado, o Natal acrescentou:
– Não chega. Tenho de ser o Pai Natal.
– Porquê?
– Porque o diabo não pode ser pai.
– Não?
– Não. Os filhos do diabo são sempre filhos de outras pessoas.
– Então passas a ser o Pai Natal e a ter barbas brancas.

Palavras não eram ditas, e o Natal logo Pai e com umas barbas quase a chegarem aos pés, tão brancas, tão brancas, que a claridade agora era das barbas.

Depois deste milagre (foi um milagre, evidentemente), o menino Jesus sentiu-se com imenso sono, o sono da noite toda e mais algum. O Pai Natal percebeu, sorriu, ajudou-o a deitar-se… E o menino Jesus nem chegou a ver como ele saiu, porque, apesar da curiosidade, adormeceu logo. Com a carroça debaixo do braço, é claro, não voltasse o diabo… (e é a razão de os meninos dormirem agarrados ao brinquedo de que gostam mais).

V

No dia seguinte, dia de Natal, era feriado, tal qual como hoje. Andava muita gente a passear nos campos, e o menino Jesus andava na estrada, a brincar com a carroça. Claro que olhava, com desconfiança, para todas as carroças que passavam, a ver se alguma delas era igual à sua. Mas nenhuma era. Foi brincando, brincando, e já se esquecia desta história toda, quando viu um homem, lá ao longe, num sítio onde andava menos gente, sentado numa pedra e a fazer riscos no chão, com uma varinha. O menino Jesus teve pena dele, quis avisá-lo e aproximou-se.

Ora, o menino Jesus falava uma língua esquisita – o aramaico – que muitos dos judeus não entendiam, e ainda hoje, segundo parece, não entendem. Mas ele não tinha culpa; era a que lhe ensinaram em pequeno, mal começara a estender os braços… Os meninos ainda se lembram de querer agarrar nas coisas que estão longe? É isso.

Aconteceu, então, que o homem não só não percebeu o que o menino lhe dizia, como se zangou e o enxotou, ameaçando-o com a vara. É claro que o menino Jesus deitou a fugir. Quando já estava suficientemente longe quis ver… E o que viu?

Ao lado do homem, parara uma carroça exactamente igual à sua, puxada por um tipo que já metera conversa com o outro sentado. E parecia que a conversa era engraçada, porque ambos se riam muito. Só da boca do que fazia de cavalo saía um fumozinho branco, que o menino Jesus muito bem conhecia.
… … … … … … … … … … … … … … … … … …… … … … … … … … … … … … … … … … … …

Por tudo isto é que o Natal é pai e tem barbas brancas, para se distinguir do outro, que traz brinquedos do inferno, brinquedos que, como os meninos também sabem, são feitos neste mundo, tal qual como os outros brinquedos.

Ora como se vê por esta história, e ao contrário do que até eu próprio julgava quando comecei a escrevê-la, houve, não uma só, mas inúmeras razões, para o Natal ser pai e ter barbas brancas. Para acabar, não me perguntem de quem ele é pai. Não façam perguntas tolas, como as pessoas crescidas. Muito em segredo, sempre digo que não sei ao certo, o que sei não posso dizer… e, de resto, talvez os meninos venham a saber mais do que eu.

1944.

 

Poemas Angolanos

Da visita de Jorge de Sena a Angola, 1972

* Aves na baía de Luanda

* Café cheio de militares em Luanda

* Foi há cem anos, em Angola

* Senhora da Nazaré em Luanda

* Na Igreja dos Jesuítas em Luanda

 

AVES NA BAÍA DE LUANDA

Cegonhas? São marinhas e se pousam
ora nas águas baixas, ou telhados
de cumeeira embranquecidas a pensamentos
de uma ave que medita intestinal
sobre as alfândegas da terra firme.

Pescoço curvo atrás de um longo bico
pairam-se lentas entre os seus dois pousos.
Água de espelho estanho sem reflexo.
Não creio que de imagens tão pernaltas
se adense por tranquila neste céu de névoas
que se concentram amarelas sobre
uma cidade agora boçalmente nova
onde não há lugar para cegonhas.
Cegonhas que não sejam – como podem
ficar nesta poeira de bancárias
e militares empresas que se espetam
em doze andares na névoa, em vez das casas
baixas e velhas, ao chão presas por
portas iguais de armazenar negócios
do patrão que por cima co’a família
tinha andar de sacadas em que recostar-se?

Cegonhas? São marinhas, e se pousam.
Luanda, 4/8/1972

 

CAFÉ CHEIO DE MILITARES EM LUANDA

O jovem Don Juan de braço ao peito
(por um dedo entrapado)
debruça as barbas para a mesa ao lado
numa insistência pública de macho
que teima em conversar a rapariga
(no dedo aliança, azul em torno dos olhos)
a escrever cartas e a enxotá-lo em fúria.

Um outro chega e senta-se de longe.
Cara rapada, pêlo curto, ombros erguidos,
é dos que o queixo pousam sobre as mãos,
e de entre o fumo lento do cigarro,
dardejam olhar fito para a presa
– é dele, é dele, os olhos dizem tesos.
Numa outra mesa, três outras fardas miram
de esguelha, enquanto falam vagamente atentos,
e os olhos ínvios de soslaio despem
a pouca roupa da que escreve à mesa.

Feito já seu papel para que conste,
oh ares de cavalão… outras à espera…
o Don Juan comenta pró criado a vítima,
saída num repente. Riem-se ambos.

Quando ela se ia embora, dois empatas
entraram e sentaram-se na mesa
do que ficara olhando o espaço aberto
pela partida dela. Conversam que ele não ouve.

Gingando a barba mais o braço ao peito,
vai-se o vencido (pagará uma puta,
para amanhã contar como dormiu com esta).

Os outros três, mais tarde, em casa, na retrete,
vão masturbar-se a pensar nela (e voltarão
amanhã ao café para contarem
de uma grande conquista que fizeram todos).

E aquele que – quem sabe – era a quem ela
acaso se daria (ou será que ele
é dos que só penetra com o olhar suspenso?)
foi quem não teve nada. Olhou demais,
e não saiu a tempo de escapar
à companhia idiota dos seus dois amigos.
Luanda, 4/8/1972

 

FOI HÁ CEM ANOS, EM ANGOLA

Minha avó subia de tipóia
de Mossâmedes para o planalto.
Dias e dias pela serra acima,
de acampamento a outro acampamento,
o esposo e os filhos dela noutras
tipóias pelos negros carregadas.
Ao lado dela, o chefe caminhava
de lança em punho. Conversavam ambos.
Uma figura estranha perpassou (quadrúpede?)
no mato poeirento e verdejante.
O que era aquilo? E o chefe respondeu
sorrindo levemente: – Aquilo é o diabo,
mas eu não tenho medo que não sou cristão – .
Enfim chegaram, professora régia
Como rainha se instalou. E o chefe,
tão agradado dela, não voltou
a comandar comboios de tipóias,
ficou vivendo co’a “senhora grande”,
Padre José da régia cardinala.
Caía a tarde um dia em rubros sóis
redondos no céu pardo. Minha avó,
sentada na varanda, conversava
com o chefe cachimbando acocorado.
Porque tão preguiçosos eram todos
os negros por ali? E o chefe disse:
– Senhora sabe que diferença que há
entre macaco e negro? Não? No tempo
em que chegou aqui primeiro branco,
macaco não falou, ficou calado.
Por isso não trabalha. Entende agora?
Sorriram-se entendidos um e outro.
Luanda, 5/8/1972

 

SENHORA DA NAZARÉ EM LUANDA

Em 1664, o governador destes reinos,
André Vidal de Negreiros (que nome,
ao fim de dois séculos do negócio
em vão visível no seu escudo de armas)
fundou esta capela. Os azulejos
representam a patada de D. Fuas
à beira do penhasco a que o demónio
pensava que o levava pra o deitar ao mar.
Ou do cavalo que estacou de espanto
e não se sabe se de susto ao ver
o cervo a despenhar-se das alturas,
se porque viu suspenso de entre as nuvens
o virginal clarão da mãe por obra e graça
do Santo Sprito em Roma agora banco.
Era devoto dela André Vidal,
embora este outro nome cheire a esturro
ardido noutros lumes.
Branca e de arcos,
pousou-a aqui à beira da Baía.

Luanda, 5/8/1972

 

NA IGREJA DOS JESUÍTAS EM LUANDA

Conversa a negra no recanto em sombra
da igreja tão de limpa restaurada.
No chão sentada e velha, se abre os braços
em frases de silêncio para o Cristo
que pende morto acima dela, imóvel
e silencioso. Que dirão os dois?
Qual a confusa indecisão que passa
angustia intimidade de sem línguas
nessa cabeça antiga de outra raça
e sobretudo de outros deuses que
falavam por sinais mas claras frases
como as sibilas feiticeiros sabem?
Na solidão vazia de seu espaço
em que de brancos Roma escureceu a luz
embranquecida de cacimbo e ardor
de longos rios, praias sinuosas,
e de planaltos as ravinas duras,
que deus pode inventar-se que não seja
dor de miséria de não ser-se, de não ter
de país a filhos a linguagem livre?
Que liberdade pede? Que morrer deseja?
Será que em frente do altar-mór não tremem
dentro da simples laje os ossos de
um Paulo Dias de Novais? Que de imbondeiros
os frutos como ratos suspendidos
ainda lhe roem um tutano seco
no fogo de queimadas e de incêndios
em que de povos só as cinzas ficam?
Porto, 24/8/1972