Some-te rato!

Portugal Democrático, novembro de 1959

portugal_democratico_2Em novembro de 1959 estreia-se Jorge de Sena como colaborador do jornal Portugal Democrático, editado em São Paulo desde 1956 por um ativo grupo de oposicionistas portugueses. O texto abaixo (prudentemente anônimo), além de mencionar as comemorações do “5 de outubro”, justifica e adensa de significado os desenhos satíricos de Fernando Lemos – ratos a figurarem o arqui-inimigo Salazar –, que vinham pontuando as páginas do jornal e deliciando os leitores
 

Tratam-te os que te lambem e legitimam, por Sr. Presidente do Conselho. Chamam-te os que ainda acreditam nas Universidades que degradaste, por Professor Doutor. No tempo em que eras fascista sem vergonha passavas por ser o Chefe, e os leonardos, teus chacais, escutavam a tua Palavra. Depois, quando inventaste a “democracia orgânica”, gostavas que te apelidassem de Chefe… do Governo. Mas, no isolamento e no silêncio e na treva, que é o sítio vago onde estaria a alma que te fugiu aterrada com o cheiro de arganaz podre a que o teu cérebro e o teu coração fedem, tu sabes que não és nada disso. Presidente de quê? De um Conselho de lacaios? Chefe de quê e de quem? Dos assassinos e ladrões impunes que proteges, para que eles te protejam o couro ressequido que nunca terá conhecido para que dignidade e que alegrias serve a carne humana? Professor de quê? Doutor em quê? Professor de desmoralização, de ceticismo, de corrupção, de crueldade, de hipocrisia, de blasfêmia, de infâmia? Doutor em quê? Em técnicas de Censura e de Polícia, que são toda a tua política, toda a tua filosofia, toda a tua religião?
Some-te, rato! Mergulha de uma vez no esgoto de oito séculos de erros que te criaram e engordaram, como excremento que és, venenoso, estéril, impotente. Rato, apenas, rato.
As comemorações brilhantíssimas do 5 de Outubro em São Paulo, o que elas significam de unidade na luta democrática, o que elas projetam no futuro como esperança de dissolução sulfúrica da tua presença pestilenta, nada disso chegará aos teus ouvidos surdos, às tuas unhas negras da pele dos mártires que esfolaste, à tua cauda imunda, com que fustigas um dos mais gloriosos e heróicos povos da terra. Não lerás, também porque és analfabeto e nunca leste nada, o telegrama em que os democratas reunidos para comemorar a Revolução que hoje simboliza a unidade de todos os portugueses, sem distinção de raça, religião ou credo político, na luta contra a tua baba peçonhenta, com que tens envenenado tanto patriota ingênuo que no Brasil honra o trabalho português, pedem a tua demissão.
E fazes bem, fazes bem. Tu não podes demitir-te, porque nunca foste nomeado. Tu és o símbolo da ilegalidade, da arbitrariedade, da injustiça, da opressão. Não te demitas, some-te! Some-te, rasteiro como nasceste, como subiste, como governaste, como imitaste nos teus discursos, laboriosamente vomitados, uma língua admirável que, rato que és, nunca soubeste falar. Some-te tal como viveste, com a mesma covardia com que mandaste assassinar, roubar, violentar. Some-te rato, com a tua bota de elástico, a tua pena de pato, a tua ceroula de fita, as tuas letras gordas, a tua finança de chácara, a tua economia de campônio, a tua política de traidores à Pátria. Some-te assim, rasteiro e mesquinho, como vieste! Some-te, rato! E que o ódio de um Povo, e o desprezo de todos os amantes da liberdade e da justiça, saibam esquecer o momento de nojo e de vergonha e castração que tu longamente foste, em mais de trinta anos de horror e reles mesquinhez. Que nem a tua pele piolhosa fique apodrecendo na memória das gentes, mais que como imagem da peste política e moral! Some-te rato!

Jorge de Sena: Na comemoração paulistana do cinquentenário da implantação da República Portuguesa

Texto do Portugal Democrático

Impossibilitado, por inadiáveis afazeres, de comparecer* ao banquete em que os democratas portugueses de São Paulo comemoram o cinquentenário da República Portuguesa, não posso deixar de estar presente em espírito a uma cerimônia do mais alto e transcendente significado – a mais importante celebração do aniversário da data histórica de 5 de Outubro de 1910, porque, em São Paulo, se comemora neste banquete, em liberdade, meio século de vida portuguesa, desde esse dia em que o povo da nossa pátria num entusiasmo de renovação autêntica, derrubou o antigo regime e proclamou a República.


Que vida portuguesa se comemora? Os dezesseis anos escassos que a República viveu? Os trinta e quatro anos de privação das liberdades essenciais que se lhes seguiram? Nem uns, nem outros. Sem dúvida que a nossa comovida homenagem vai para aqueles que, dedicadamente, abnegadamente, apaixonadamente, tudo fizeram para criar uma República que fosse, em verdade, um governo do povo, pelo povo e para o povo. Sem dúvida que o nosso mais rendido preito vai para quantos, ao longo destes anos, indefectivelmente pugnaram por uma pátria para todos os portugueses, em que lhes não fosse perguntado o que pensavam e apenas se lhes exigisse que pensassem, bem alto e livremente, a bem de Portugal. Mas não é tudo isso o que comemoramos: nem as lutas nem as dissensões, nem os triunfos fugazes, nem as derrotas duradouras. Não: nada disso é mais que uma lição terrível, que se aprende ou deve aprender, mas não se comemora. Nós comemoramos o sonho de 1910, que cinquenta anos não consumiram, não desgastaram, não destruíram, e antes acendraram mais. O sonho de uma República que virá, pela coragem dos homens e o imperativo dos tempos, e que distribua por todos nós, equitativamente, imparcialmente, a dignidade de sermos portugueses. Uma República que dê a todos o que nem todos têm: a consciência responsável de que uma Pátria não se faz só de glórias passadas nem de futuros hipotéticos, nem de um presente amarrado ao dia a dia de enriquecer ou de ganhar duramente o pão cotidiano: a consciência de que uma Pátria se faz não apenas com o amor dos seus filhos, mas com a liberdade deles, não com a liberdade de alguns, ou da maioria, mas com a liberdade de todos. Uma República que saiba, de uma vez por todas, que a liberdade não é só de palavras, ou de reunião, ou de associação, porque não há liberdades possíveis e verdadeiramente exercidas, onde não houver libertação do homem, onde um homem só que seja não estiver liberto da sujeição, do temor , da insegurança.

Eis, companheiros e amigos o que eu penso que comemoramos: cinquenta anos que são oito séculos de uma história gloriosa e dolorosa também, cinquenta anos de República indefectivelmente proclamada na nossa inteligência e nos nos nossos corações.

Viva a República!
Viva Portugal!
 

Jorge de Sena reads his poems (Entrevista a Frederick G. Williams).

Gravação em vídeo, em Santa Barbara, 04/05/1978

 

Graças à providencial iniciativa do Prof. Frederick Williams dispomos hoje deste precioso documento audiovisual sobre Jorge de Sena: breve apresentação biográfica, seguida de uma entrevista e da leitura de poemas, em português (pelo autor) e traduzidos em inglês (por F.W.). A sessão, integralmente concebida e conduzida por esse colega, ex-aluno e amigo de Sena, foi gravada em videotape na Universidade da Califórnia (Santa Barbara) a 4 de maio de 1978, um mês exato antes do falecimento do escritor. A transcrição da entrevista, reproduzida neste site (Entrevista a Frederick G Williams, 04/05/78), foi originalmente publicada pelo JL (“Jornal de Letras, Artes e Ideias” – nº 149, 14/20 de maio de 1985, p. 18), com tradução do inglês por Mécia de Sena.
Agradecemos imensamente a Frederick Williams a autorização para aqui reproduzirmos o programa na íntegra.

 

Thanks to the providential iniciative of Prof. Frederick Williams, today we have this precious audiovisual document on Jorge de Sena: a brief biographical presentation, followed by an interview and poetry reading in Portuguese (by the author) and translated to English (by F. W.). The session was fully designed and conducted by this colleague, former student and friend of Sena’s, and recorded on videotape at the University of California (Santa Barbara) on May 4, 1978, exactly one month before the death of the writer. The transcript of the interview, reproduced on this website (Entrevista a Frederick G Williams, 04/05/78), was originally published by JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias – nº 149, 14/20 May 1985, p. 18 ), with translation from English to Portuguese by Mécia Sena.
We greatly appreciate Frederick Williams’s permission to reproduce here the program in its entirety.

 

 

 

 

 

Entrevista a Frederick G. Williams, 04/05/1978

Transcrição em Português

entrev._JLA presente entrevista foi organizada e realizada por Frederick G. Williams, e gravada em videotape na Universidade da Califórnia (Santa Barbara) em 4 de maio de 1978. Sua transcrição integral, aqui reproduzida, foi originalmente publicada pelo JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias – nº 149, 14/20 de maio de 1985, p. 18), com tradução do inglês por Mécia de Sena (datada de 2/5/1984).
Frederick G. Williams – Dr. Sena, o que o fez deixar Portugal para ir ao Brasil, em 1959, e depois, em 1965, deixar o Brasil e vir para os Estados Unidos?

Jorge de Sena – Em 1959 eu tinha já vivido anos e anos de ditadura portuguesa que não mais podia suportar e tinha-me envolvido em muita actividade política da oposição. Além disso buscava uma transformação da minha vida, uma vez que eu não podia continuar a ser o administrador e técnico que era e o escritor e conferencista, etc., que também era. Por isso, quando em 1959 fui convidado para um congresso (um congresso internacional), no Brasil, convidado pelo governo brasileiro e pela Universidade da Bahia, decidi ir. Uma vez lá, fui convidado (e já tivera alguns contactos para aceitar uma posição de catedrático – como eles dizem – em diferentes lugares) acabei por escolher São Paulo. Lá fiquei e tive bons momentos, muito bons, no Brasil. Fiz-me cidadão brasileiro, por sinal.

P. – Deixe-me fazer-lhe uma pergunta: Por que diz que deixou Portugal em 1959 por causa de certas actividades? Foi por causa de poesia que tinha escrito?

R. – Não, claro que não. Não teve nada que ver com literatura.Tem que ver com actividades políticas impróprias que não eram do gosto do dr. Salazar. Depois, no Brasil, onde vivi de 59 a 65, houve a revolução militar de 1964 e, se bem que eu não tenha sido perseguido directamente ou coisa parecida, senti que tinha escapado uma vez, mas que não era do meu gosto viver numa segunda coisa semelhante. O caso é que dos Estados Unidos me tinham vindo convites perguntando se eu queria vir para ensinar aqui, o que finalmente aceitei. Esta é, pois, a razão pela qual me mudei do Brasil para o Wisconsin. Mais tarde, como acontece na vida universitária americana, mudei do Wisconsin, onde estive seis anos, para a Califórnia, onde estou.

P. – Foi cidadão português até 1963, tornou-se brasileiro, hoje a sua casa é aqui, nos Estados Unidos. Encontrou aqui o que não teve ou lhe foi negado em Portugal ou no Brasil? Tenciona tornar-se cidadão americano?

R. – Bem… não sei… pode ser. É possível realmente porque uma das razões pelas quais conservei a minha cidadania brasileira, foi não só porque amo o Brasil, mas porque nascido português, os brasileiros não gostam muito disso, e, uma vez que nasci português, os portugueses também não gostam disso. Por isso, e só para irritar os dois, conservo a cidadania. Esta é a principal razão pela qual eu não virei a ser cidadão americano, uma vez que alguns dos meus filhos o são já.

P. – Foi alguma vez impedido de escrever o que queria escrever em algum destes países, ou impedido de publicar o que queria publicar?

R. – Bem… nunca no Brasil durante o tempo que lá vivi, sobretudo entre 59 e 64. Mas mesmo depois, de certo modo, não fui impedido de escrever. Em Portugal foi diferente porque tínhamos aprendido a escrever por entrelinhas. Era uma arte especial que todos os escritores tinham desenvolvido por si próprios e que fez com que muitas coisas não tivessem sido escritas desde então. E foi o que se viu quando a revolução chegou a Portugal em 74. Toda a gente aguardava belas obras primas guardadas na gaveta. E, pode parecer vaidade mas há quem diga que a única pessoa que tinha algo na gaveta era eu, com uma tremenda colecção de contos que tinham sido escritos no Brasil, pensando que jamais os publicaria uma vez que Salazar nunca mais morria. Finalmente morreu, como sabe, porque uma cadeira patriótica colapsou por baixo dele.

P. – Muito bem, uma vez que outras pessoas se sentiram impedidas de escrever por causa da censura etc., mas aqueles que têm grande talento como o Senhor foram capazes de escrever entrelinhas, como diz, foi então a censura uma espécie de ajuda para os escritores?

R. – Não, não acho. A sorte que tivemos foi que por muito tempo desde o começo do golpe de estado que pôs Salazar praticamente no poder, a censura esteve nas mãos de oficiais militares, muitos deles de cavalaria, o que foi grande vantagem porque eles tinham dois pés e os cavalos têm quatro. Ora este facto ajudou-nos imenso durante muitos anos uma vez que eles não podiam entender a maioria das coisas que tínhamos aprendido a escrever para benefício deles. Claro, isto não evitou que eles cortassem coisas. Eu tive muitas e muitas vezes artigos inteiramente cortados ou, em dois dos meus contos, tive de cortar dois pedaços agora restaurados nas novas edições desses livros.

P. – O Senhor é na verdade um homem da Renascença, interessado em tudo, especialmente em coisas de criatividade e erudição. Foi reconhecido e bem sucedido em diversos géneros de escrita. Mas, por que escreve poesia? O que o leva a escrever poesia?

R. – Ora bem, deixe-me dizer-lhe, poesia foi o que em primeiro lugar comecei por escrever. E por alguns anos apenas escrevi poesia. E o meu primeiro poema foi publicado em 1938 – há quarenta anos exactos. E sempre achei que poesia é a minha principal criação, mesmo quando estou fazendo coisas inteiramente diferentes de poesia. Penso que o sentimento poético está sempre por detrás de tudo o que escrevo. Por isso considero-me realmente um poeta, mesmo quando escrevo estudos eruditos.

P. – Sente-se motivado por algo de fora ou algo vindo de dentro?

R. – Penso que posso sentir-me motivado… é uma espécie de dialéctica sempre entre dentro e fora. E nunca sei como é que as coisas me vêm. Olhe, quando eu era ainda jovem, pelo fim dos anos trinta e começos dos anos quarenta, treinei-me sozinho em algumas técnicas surrealistas. Mas comecei a assustar-me porque descobri que não era graça nenhuma – era até muito perigoso e que deveria afastar-me ainda que mantivesse o contacto com alguns dos poderes de liberdade que as técnicas surrealistas nos podem dar. Mas ao fazê-lo e tendo começado desta maneira, isto me ensinou uma muito curiosa lição que ainda recordo: quando sinto que estou para escrever um poema recuso-me a saber ou pensar sobre o que o poema vai ser, porque quero que o poema seja inteiramente livre de se desenvolver… de dentro e por si próprio sem que eu me intrometa. Acontece que muitas vezes estou esperando uma coisa que não sei o que é e que finalmente vem. Mas é muito curioso que quer com poesia quer com outra qualquer espécie de trabalho em que deixo o meu subconsciente construir ou quando estudo alguma coisa e tenho de tomar notas e elas se organizam por elas mesmas na minha cabeça, sempre quando escrevo escrevo, e raras vezes tenho paciência para copiar seja o que for de novo ou fazer mais do que uma correcção aqui ou ali. É assim que eu escrevo. Penso que escrevemos para o futuro, evidentemente, mas escrevemos para o nosso tempo. E o que escrevemos tem de ser o momento que escrevemos.

P. – Deixe-me fazer-lhe uma última pergunta. O Senhor escreveu sobre os mais variados temas, alguns de política, alguns acerca do amor, alguns sobre cultura e música. Qual destas coisas diria que melhor caracteriza a sua poesia?

R. – Bem, penso que todas elas. Até mesmo a veia satírica que vai de par com a maneira irónica com muitos poemas deste tipo. Quanto a cultura ou seja o que for, sempre fui contra a ideia de que um poeta para ser importante deve ser estúpido ou analfabeto. Eu considero que se eles não são estúpidos ou analfabetos (o que muitos deles são) temos de aceitar que como parte do ser, do viver, da experiência e contacto com os seres humanos, o que é essencial para mim, tudo quanto é humano me interessa. Eu diria – mesmo que isto choque algumas pessoas -, a natureza interessa-me se os seres humanos ou marcas humanas estão nela. De outro modo, não estou interessado nada na natureza.
Notas:

Na realidade J. de S. começou a registar (o que não quer dizer fazer ou escrever, evidentemente) escrita em prosa quase simultaneamente à poesia, já que a primeira poesia tem a data de 11/6/36 e a primeira prosa é de Agosto desse mesmo ano. Quanto à primeira publicação de poesia, este foi um persistente engano de J. de S., visto que a primeira vez que se publicou foi em Movimento, em 1939, com “Nevoeiro” (v. nota deste poema em Quarenta Anos de Servidão). – Mécia de Sena.

Jorge de Sena: Entrevista (22/12/1968)

No Diário de Lisboa

Para o investigador social do mundo contemporâneo, as entrevistas, incluindo as jornalísticas, são importantes fontes de informação, de modo algum negligenciáveis.
Tal se passa, por exemplo, com os estudos sobre a vida e obra de Jorge de Sena, a quem e sobre quem, inúmeras entrevistas realizadas permitem iluminar, de modo mais íntimo e directo, facetas menos conhecidas de seu pensamento e individualidade sempre aberta ao diálogo.


A longa entrevista feita a Jorge de Sena, em 1968, na Sorbonne, por Abílio Diniz Silva, ao tempo, leitor de Português nessa universidade de Paris, aqui transcrita, ilustra múltiplas e facetadas dimensões de Sena escritor, intelectual crítico, investigador e professor universitário no Brasil e EUA. A sua leitura permite, desocultar práticas e representações da sua actividade docente, num período de marcantes utopias da juventude, conhecer melhor traços de sua personalidade e dimensão humana, intuir aspectos da sua relação com a pátria natal, de que foi emigrante e exilado e, ainda, percepcionar facetas dos contextos de recepção de sua obra prismática e acção literária e ensaística, à época, em Portugal [1].
Publicada no Diário de Lisboa em 22/12/1968 (p.1 e 21), com os títulos “O Ensino é das formas mais completas de realização pessoal na opinião de Jorge de Sena que esta tarde chega a Lisboa” e “Jorge de Sena fala ao “Diário de Lisboa”, esta entrevista não passou despercebida à Policia Política do governo salazarista, PIDE-DGS, em cujos arquivos se encontra cópia [2]. Aliás, este regresso a Portugal de Jorge de Sena, após quase 10 anos de exílio, não deixou de ser marcado por incidentes de controlo político-policial, na fronteira, onde o foram receber amigos de velha data, como a escritora e poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen e seu marido, o jornalista e escritor Sousa Tavares. Disso mesmo dá conta extensa matéria publicada no dia seguinte, no mesmo jornal, sobre Jorge de Sena que transcreve importantes declarações do escritor e que oportunamente aqui se divulgará.

 

“O ENSINO É DAS FORMAS MAIS COMPLETAS DE REALIZAÇÃO PESSOAL NA OPINIÃO DE JORGE DE SENA QUE ESTA TARDE CHEGA A LISBOA”

(JORGE DE SENA FALA AO “DIÁRIO DE LISBOA”)

 

Jorge de Sena dispensa apresentação. O público português que acompanha a vida literária e cultural conhece-o sobejamente como poeta de rara dimensão e como ensaísta sagaz, erudito e dotado de invulgar senso estético. As suas exegeses da obra lírica de Camões e da de António Gedeão são verdadeiro exemplo da tentativa de fundação de uma crítica literária com carácter científico. Engenheiro de profissão, professor de História da Literatura Portuguesa em Universidades do Brasil e dos Estados Unidos, Jorge de Sena publicou, ultimamente, duas séries de contos e novelas reunidos sob o título de “Andanças do Demónio”, obra que pelas surpreendentes e bem conseguidas inovações no domínio da perspectiva e da escrita, pela riqueza das vivências e das reflexões, se coloca no plano da melhor literatura de língua portuguesa, se é que não a transcende. Com estes seus dois volumes de ficção, Jorge de Sena poderia, a nosso ver, ser apresentado sem exagero como candidato ao “Prémio Nobel” da Literatura.
Polémico, iconoclasta irredutível, infatigável trabalhador, Jorge de Sena tem posto muito da sua vida ao serviço não só da arte de comunicar pela palavra e de pela palavra compreender, o que são afinal a literatura e a ensaística, mas também ao serviço da verdade, da justiça nas relações entre os homens.

“Tivemos a sorte de entrevistar Jorge de Sena, em Paris, quando o grande poeta e ensaísta (que hoje chega a Lisboa), depois de larga viagem pela Europa, veio dirigir, no Instituto de Estudos Portugueses e Brasileiros da Sorbonne, dois seminários – um sobre o modernismo literário português, outro sobre a literatura brasileira contemporânea. E, é claro, não resistimos à tentação de lhe fazer umas perguntas. Estabeleceu-se o diálogo, tão interessante como proveitoso pelo que nos é dado ouvir de Jorge de Sena:

 

ENTREVISTA DE ABÍLIO DINIZ SILVA
(Leitor de Português na Sorbonne)

[A.D.S.]- Soubemos que queria ir a Portugal. Perguntamos-lhe: É certa essa sua afirmação? E quais as razões por que pensa ir a Portugal?
[J.S.] – Razões para ir a Portugal, há várias, inclusivamente as de voltar lá após tantos anos de ausência – responde o escritor – E a razão principal é uma série de pesquisas que quero fazer em Portugal, e, ao mesmo tempo, ter oportunidade de ver os meus amigos e de estar outra vez no meu País. Aliás, é uma viagem que eu já tenho planeado há muitíssimo tempo, que já foi anunciada há muitos meses numa entrevista.

 

E a conversa prossegue, com interesse crescente:

A.S. – Há um assunto, Jorge de Sena, que é, para muitos, um pouco desconhecido: – Quais foram as razões da sua partida para o Brasil, em 1959, portanto há quase dez anos?
J.S. – A saída operou-se de maneira extremamente simples: Eu fui convidado pelo Governo brasileiro e pela Universidade da Baía a tomar parte no Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros que ia decorrer na Baía. Embarquei para o Brasil, no Brasil fui convidado a ensinar em Universidades e fiquei.
A.S. – No fundo, foi a sua preocupação docente, de poder ensinar, que o levou a ficar?
J.S. – Sim: foi de optar definitivamente para a resolução de um problema da minha vida! Eu era engenheiro, e trabalhava como tal: era um escritor também, era director literário de editoras, era diversas coisas para poder sustentar a família e a mim mesmo. Isso criava um problema que junto com muitos outros que existiam naqueles anos, anos muito confusos e agitados como é sabido, me tornava a vida insustentável. Eu era quase um escritor de domingo, sem tempo para coisa nenhuma, e as oportunidades que, nessa altura, eu recebi no Brasil permitiram-me desenvolver uma série de obras que tinha em mãos, mas sem condições para concluir, visto que nunca tive nem procurei as boas graças das instituições que editam obras que os editores não publicam. Eu nunca tive prémios, nem bolsas, nem viagens que não fossem pagas por mim mesmo. Aliás, a primeira viagem grande que eu tenho na minha vida é esta que eu estou a fazer agora, e é a minha universidade quem paga.
A.S. – Isso, de certa maneira, é um bom sinal.
J.S. – Eu acho que sim, porque creio que as pessoas se dividem em duas classes: umas as que nasceram para viajar à custa dos outros, e não fazerem nada; e as outras são aquelas que viajam quando podem ou quando conseguem uma oportunidade, porque precisam do tempo para trabalhar.
A.S. – Após a sua partida para o Brasil, motivada pelo referido colóquio, a razão que o reteve lá foi a possibilidade de ensinar?
J.S. – Exacto! E, também, ter com a docência o tempo livre para me entregar ao trabalho de escrever a minha obra e poder fazer pesquisas.
[A.S.] – Mas em relação ao ensino, como encara a actividade de ensinar?
Jorge de Sena responde:
– Como uma das formas mais completas de realização pessoal! Para mim, é um prazer tão grande dar uma aula ou conversar com um aluno sobre um ponto que acho importante, ou esclarecer o aluno sobre um ponto que eu não considero importante, mas que ele acha que é importante. Esta actividade é tanto ou mais relevante como qualquer outra obra que a gente faça. E, sobretudo, uma maneira de transmitir muito de nós mesmos aos outros; é a maneira de formar outros que serão professores depois de nós, e, de certo modo influir na formação da cultura ulterior. Podem perguntar-me por que é que isso me aconteceu com o Brasil, com os estados Unidos da América do Norte e não aconteceu em Portugal? Contudo, a resposta não me compete a mim. O Brasil fez-me professor universitário, os Estados Unidos elevaram-me ao mais alto grau universitário, Portugal nunca se preocupou com isso. Creio que agora já seria fora de horas.
 

A imagem do Brasil

A.S. – A perda, é claro, foi para Portugal. Mas, Jorge de Sena, o que foi para si a experiência brasileira, como homem e como português?
J.S. – A experiência de viver no Brasil é inestimável, e penso que a maioria dos portugueses de cultura a deveriam fazer. Um dos grandes erros de Portugal é ter do Brasil uma imagem falsa, porque ou é dada por brasileiros que estão só de visita, ou então é uma imagem mitológica, cheia de lacunas e de ignorâncias da complexidade e da enormidade do Brasil. Por outro lado, a minha experiência no Brasil não serve, de certo modo, de paradigma para o que seja a experiência de um português viver no Brasil, embora tenha os seus aspectos paralelos.
 

O escritor prossegue:

– Veja: o pequeno português que emigra para o Brasil é, às vezes, um homem que nunca viu uma cidade grande, que não conhece o seu próprio País; é um homem que não tem qualquer noção do que Portugal seja; tem a noção da aldeia donde partiu. Numa noite de trovões, embarcou no Porto ou em Lisboa para o Brasil, e o primeiro mundo que ele viu, não foi o do seu País, foi o do Brasil. Esse homem chega ao Brasil em condições de querer trabalhar, de querer elevar-se socialmente, e portanto tem a tendência dupla de, por um lado, adaptar-se, e por outro, ser extremamente renitente a uma adaptação ou a uma compreensão do mundo em que vive, que ele não procura compreender, nem tem categoria para compreender. E esse mundo paga-lhe, de certo modo, na mesma moeda: também não o compreende e, em grande parte, não o aceita, o que é uma verdade muito dura, mas que é a pura verdade, para lá de todas as circunstâncias oficiais. Os brasileiros, de uma maneira geral, imaginam que os portugueses se riem deles, e os portugueses nunca se riram dos brasileiros como s brasileiros se riem dos portugueses.
A.S. – Esse paradoxo é, aliás, facilmente verificável por qualquer português que vai ao Brasil. Mas já que viemos para este campo, nós verificamos que, no fundo, o português no Brasil não empresta o seu nome às suas indústrias que se formam, continuando a ser o dono da “padaria”.
J.S. – Não, não é certo, pois há velhos nomes portugueses na gente d indústria, e há muitos portugueses que têm posições preponderantes no Brasil!
Jorge de Sena prossegue:
– Eu penso que uma pessoa não pode ou não deve viver num país estrangeiro longamente, se aí se radica, sem fazer um esforço para se integrar nele como tal. Isso é como uma pessoa manter mentalmente uma dupla nacionalidade; quer dizer, uma pessoa ser fiel à sua própria cultura, à sua própria maneira de ver, já que uma pessoa não se transforma facilmente. Mas, por outro lado, procurar ser também daquele lugar onde está. E isso foi o que grande parte das outras colónias souberam fazer no Brasil, e que os portugueses, até certo ponto, não souberam fazer, por responsabilidade que cabe às administrações portuguesas, de longa data, de décadas e décadas, talvez de um século, que nunca fizeram nada para estabelecer os portugueses no Brasil em condições de eles poderem ser um pouco mais do que a imagem que os brasileiros têm deles.
A.S.– No fundo isso vem a rebater o mito de que o português é um ser facilmente adaptável ao meio estrangeiro.
J.S. – Eu acho que isso é um dos mitos mais ridículos da nossa história e da nossa cultura! O português é quase radicalmente inadaptável a tudo. A arte do português consiste em viver nos diferentes países, mas, no fundo, continuando a ser português, a julgar as coisas em função de uma certa visão do mundo. E isto é tão verdade para as pessoas de alta cultura como para as pessoas sem ela. Aquilo que se considera ser a grande adaptabilidade do português resultou, no passado, de uma expansão imperial em que o português pôde marcar a sua presença. Se essa presença pôde ser marcada, e ainda hoje subsiste em diversos lugares, acho que é uma prova da incapacidade do português para se adaptar.

 

A experiência brasileira

[A.S.] – Como sentiu a sua experiência universitária brasileira – inquirimos de Jorge de Sena.
[J.S.] – Foi – responde o escritor – uma experiência muito rica. Fui convidado por diversas Universidades do Estado de S. Paulo – e guardo disso as melhores recordações. O contacto humano com os estudantes, o entusiasmo da juventude na ideia de criar um novo Brasil, é das coisas mais emocionantes e mais comoventes em que tive a honra de participar.
A.S. – No campo da investigação, creio que foi no Brasil que fez a Canção de Camões!
J.S. – Não: os estudos camonianos já os fazia há muito tempo. A Canção de Camões foi um livro que eu ampliei, completei e realizei no Brasil, e que, aliás, não podia ter realizado sem as bolsas de estudo que recebi para isso.
A.S. – Concluindo: que experiência e que laços contraiu no Brasil?
J.S. – A experiência, acho que foi eu ter ficado brasileiro!… E tê-lo ficado do coração. De cultura, eu já era muito ligado ao Brasil e o Brasil não foi uma inteira descoberta para mim. Durante anos e anos, eu estudei e liguei-me à sua literatura e à sua cultura. De modo que não foi para mim uma novidade.
“Mas não deixou de ser uma surpresa em numerosos aspectos, porque é sempre diferente o conhecer um país e viver nele. O Brasil é um país tão complicado que acho que todos nós teremos a desculpa de o não entendermos quando os próprios Brasileiros também o não entendem às vezes. Por outro lado, a sua própria grandeza faz com que, às vezes, ele seja melhor entendido por estrangeiros que o amem do que pelos próprios Brasileiros, na medida em que estes estão demasiado integrados, por vezes, dentro de um determinado sistema social, dentro de uma determinada classe, e tomam as fronteiras do seu grupo pelas fronteiras do Brasil.”
A.S. – No fundo, isso põe o problema dos “Brasis”!
J.S. – Que são muitos … Sociologicamente, no sentido horizontal e no sentido vertical.
A.S. – Uma pequena curiosidade: como sente em si a nacionalidade brasileira?
J.S. – Eu devo dizer o seguinte: para mim, as nacionalidades não têm o mínimo significado nem o mínimo valor. Nós pertencemos àquilo a que culturalmente pertencemos. Pertencemos a um país em que nascemos irremediavelmente se vivemos nele e nos formámos nele, até aos 10 anos, o que foi o meu caso, e isso não tem conserto. Herdámos as virtudes e os defeitos de nossos avós, e não há nada a fazer. Quando uma pessoa se transfere para um outro país e se integra sinceramente nele adquire, evidentemente, determinadas vivências que fazem parte de sua personalidade. “Nesse sentido e com certas reservas, agora sinto certos aspectos de mim serem de americano, porque não é impunemente que vivo há três anos na América, no meio de Americanos. E sobretudo porque há isto: eu sou um homem visceralmente de exílio, que se sente mal em toda a parte, mas que chegou à conclusão que se sente mal no Mundo, embora ache que não há outro. E daí eu ter concluído que devemos ser sempre de todos os lugares que nos acolhem”.
A.S. – E isso põe a questão…
J.S. – Sem que isso ponha a questão, desculpe, da nossa nacionalidade profunda que é aquela da cultura a que nós pertencemos. Tudo o mais, acho que são questões de passaporte…
A.S. – No fundo estar num passaporte de capa azul ou capa verde…
J.S. – É-me perfeitamente indiferente, mas tem determinadas consequências de ordem moral: obriga pelo menos moralmente a uma lealdade para com os países a quem a gente pertence!
A.S. – Existe no fundo para si essa ideia de exílio?
J.S. – Veja que é uma ideia muito contraditória, porque eu sou uma espécie de exilado profissional. Eu acho que já o era em Portugal, antes de lá sair, visto que tantos acharam que eu era uma pessoa horrorosa, altamente incómoda, desagradável, etc., etc. – e apesar dos muitos amigos, eu tinha criado à minha volta um grande isolamento. Mas devo dizer que nunca senti este isolamento, inteiramente porque o meu isolamento foi sempre o isolar-me dos medíocres, procurar não ter contacto com essa classe humana que é necessariamente numerosa…Aliás foram sempre eles as pessoas que menos gostaram de mim.
A.S. – É por isso que o número dos seus inimigos é tão grande.
J.S. – Não acho! Acho que não tenho a mínima razão de queixa, e que tenho mais amigos do que inimigos, ao contrário do que pode parecer. Acho, mesmo, que os meus inimigos são pessoas que me querem muito bem…Eles é que não sabem.
 

A ida para os Estados Unidos da América do Norte

[A.S. ] – Porque foi para a América do Norte? – perguntámos a Jorge de Sena
Eis a resposta:
[J.S.] – Porque me convidaram, e porque em 1965, achei que a vida no Brasil era insuportável, e sobre certos aspectos queria sair do Brasil, nessa altura, porque me era muito difícil assistir a determinadas coisas a que assisti. Quando, nessa oportunidade, recebi convites para ensinar em Universidades norte-americanas, aceitei um deles, e fui para os Estados Unidos apenas por achar que, momentaneamente, a vida no Brasil não era possível para mim, e eu precisava de paz de espírito para poder trabalhar. É certo que recebi uma lição curiosa e, ao mesmo tempo, notável, que foi a ter mudado para um país em plena crise, o que me ensinou muitas coisas no aspecto social, político, humano – porque a América é um país extremamente complexo, que não se conforma com os estereótipos com que habitualmente é vista.
A.S. – Qual foi a sua reacção ao quotidiano norte-americano?
J.S. – Sabe: é curioso que, no fundo, a América também não me era inteiramente desconhecida, porque paralelamente com a literatura inglesa, eu me tinha interessado pela literatura e pelas coisas norte-americanas. Simultaneamente, nunca tinha estado lá nem nunca tinha pensado em ir para lá. Mas hoje que vivo lá, sinto-me relativamente bem, como me poderia sentir em qualquer outra parte onde tivesse condições de trabalho semelhantes.
A.S. – Essas condições serão fabulosas no aspecto material, ou será um mito?
J.S. – Não são! Os professores universitários não são as pessoas mais bem pagas.É um problema semelhante ao que sucede no resto do Mundo.
 

Problema da juventude

Outra pergunta cuja resposta se reveste do maior interesse.

[A.S.] – Qual foi para si o resultado dos contactos com a juventude universitária americana?
Ouvimos a resposta de Jorge de Sena
[J.S.] – Foi uma surpresa muito agradável. Os estudantes, de uma maneira geral, são extremamente honestos, conscienciosos e trabalhadores – e interessados naquilo a que se dedicam. Sob o ponto de vista humano, estão numa transformação sócio-moral extraordinária, na medida em que tudo isto está a ser posto em causa – é certo que por vezes com um anarquismo que acho extremamente primário – mas com aspectos positivos para o futuro. Basta pensar que daqui a alguns anos mais de metade da América terá menos de vinte e cinco anos.
A.S. – Como entende a contestação dessa juventude em relação aos Estados Unidos e à posição que eles assumem no Mundo?
J.S. – Acho que é um problema difícil de se entender fora da América. A América é um daqueles países que não nasceu de um mito nacional: formou-se de ym mito institucional. E esse mito institucional é constituído pelos escritores dos Founding Fathers. É a Constituição dos Estados Unidos da América do Norte; é a “Declaração dos Direitos do Homem” que apareceram antes da Revolução Francesa, e foram uma das fontes próximas da mesma Revolução, e que, embora fossem feitas para a criação de uma República aristocrática de grandes senhores, no fundo tinham em si o germe do que seja uma noção de liberdade, de justiça social, de democracia integral.
“Sob este aspecto, a revolta da juventude norte-americana é apenas o desenvolvimento amplíssimo de um fenómeno que sempre foi permanente nos Estados Unidos, que derivou do mito institucional e que se traduz na existência de um padrão moral e ideal do que a América deve ser, e em nome do qual sempre se criticaram certas atitudes dos governos ou determinados hábitos de vida americana. O que hoje acontece, é uma rebelião gigantesca, que não se verifica só na juventude, mas em todas as camadas sociais, contra o facto de a América não ter realizado as suas promessas institucionais no momento em que atinge o máximo da sua prosperidade económica. Assim a crise moral pré-existe à crise social”.

Entretanto eram horas de sair da Sorbonne. Jorge de Sena ainda nos confiou alguns dos seus projectos literários, e concluiu por nos dizer:
[J.S.] – Sabe: a tarefa de desmistificação da cultura portuguesa é tão imensa, que eu acabei por adquirir uma grande humildade, e a certeza de que o que fiz e farei é muito pouco diante do muito que há por fazer!
• Chegada a Lisboa de Jorge de Sena
O escritor Jorge de Sena, figura proeminente no panorama intelectual no mundo de língua portuguesa, com larga projecção, [regressa ] após uma ausência de dez anos, durante a qual muito prestigiou o País, como professor universitário no Brasil e na América do Norte e pelas suas actividades a elevado nível intelectual. Vindo de Madrid, chega, às 19 e 30, à estação de Santa Apolónia, após larga digressão pelos principais centros intelectuais europeus.
 

Notas:

1. Ver texto de caixa do jornal, inserto no corpo do texto da entrevista.
2. IANTT – Arquivos PIDE-DGS, Processo Jorge de Sena, cota 15-C1 (2)

Transformações e Metamorfoses do Sexo

A partir dos desenhos de José Rodrigues

Transformações e Metamorfoses do Sexo é o título de uma série de 20 desenhos de José Rodrigues, reproduzidos num álbum, em especial edição da O oiro do dia (Porto, 1980). Precedendo as imagens, um ensaio sem título de Jorge de Sena (p.9-18), reproduzido por Jorge Fazenda Lourenço em A Arte de Jorge de Sena – uma antologia (Lisboa, Relógio d'Água, 2004 p. 363-8), de onde extraímos os fragmentos aqui transcritos.

(…) Que os pintores e/ou artistas gráficos se tenham dado a transformações ou metamorfoses de um tema visual ou de uma forma, é velho como o mundo. Quando, nas paredes das cavernas, uma manada de animais era perseguida por vários caçadores, os animais eram variações uns dos outros e da estilização do animal verdadeiro, tal como as figuras humanas o eram da imagem do guerreiro e do próprio homem. Ao pintarem mais do que uma vez o mesmo quadro, porque os compradores lhos pediram idênticos, nunca os pintores grandes pintaram a mesma coisa: mas variações e metamorfoses daquele “modelo” que o comprador desejara. (…) Em gravuras, os artistas podem apresentar-nos estádios diversos da mesma. Mas, tanto nelas como em desenhos ou pinturas, muitas vezes, como desde sempre, praticaram transformações de forma (e portanto de sentido, no sentido de que o que se vê é para ser sentido de outra maneira), suprimindo, acrescentando, alterando a disposição das partes, jogando com todas as distâncias da representação formal, desde a sugestão mais abstracta até a figuração mais concreta. (…)


(…) os puritanos de todos os tempos, em séculos mais recentes, sempre fizeram por esquecer que existe uma dialéctica sexual do ocultamento e da exibição, e sempre pretenderam suprimir o segundo termo, sobrepondo-lhe as cuecas do primeiro. Há razões profundas para isso que não têm que ver com o que se chama decência, e têm que ver, sobretudo, com o carácter sagrado de todo o sexual, que séculos de cristianismo pervertido, actualmente traduzidos na reversão ateísta que não supere a perversão daquele cristianismo traído (e portanto procede e reage da mesma maneira) traíram. O pudor não é horror do natural que os órgão sexuais e os actos sexuais são: é apenas horror e vergonha do uso maligno deles, isto é, de eles serem sugeridos, convidados, mostrados, ou usados para satisfações mórbidas, desprovidas daquela inocência que, por outro lado, não tem nada a ver com a ideia de estar-se ou não marcado por um Pecado Original. Esta inocência é apenas a alegria legítima de um prazer que foi dado ao animal – humano ou não – em relação ao sexual. Legítima, uma vez que é parte da satisfação do acto sexual concluso, ou da consciência de que os órgãos lá estão (e, mesmo para o velho, a que eles não servem de quase nada às vezes, lá estão para a memória contente de terem servido) no seu lugar, como a anatomia os colocou. (…)


Se a Divina Providência, a supormos que é providência e que é divina, duas qualidades que não vão necessariamente juntas, ao contrário do que, por hábito automático, se pensa (mesmo quem não acredita), quisesse assegurar garantidamente a propagação das espécies, teria, na sua infinita sabedoria, muitas maneiras de resolver o problema sem prazer que as fizesse, sendo humanas, incorrer em pecado de luxúria, como é sabido, um dos pecados mortais. A evolução humana permite, e a constituição psicofisiológica do ser humano sempre permitiu, o prazer sexual, na mais absoluta inocência: e não haverá maior inocência do que usar-se ou pensar-se sexualmente, sem a ideia de que teremos ou não teremos consequências reprodutórias. Só assim, na verdade, se conquista por instantes aquela imortalidade aqui e agora, em que existimos por nós e para nós, e para o corpo que se faz um com o nosso, sem que esse momento de liberdade suprema interfira com a liberdade de ninguém. Porque todos nós somos únicos, desde os mais sabidos e ilustres e refinados, até aos mais ignorantes, anónimos e grosseiros (e o que nós queremos, aqueles que sabem querer, é que todos cheguem àquela aristocracia psicossexual de que a liberdade do sexo é parte inalienável), por existirmos: mas ninguém é mais único – e ao mesmo tempo mais anónimo – do que praticando ou contemplando o acto do amor ou aquilo com que ele se faz e é o corpo. (…)


A correlação íntima e profunda que identifica o divino e o sexual está manifesta nos arcanos de todas as religiões, e explícita em muitas delas que sexualmente representam o divino e vice-versa (será necessário recordar exemplos tão distantes e separados como os relevos eróticos dos templos da Índia e os da América pré-colombiana? Os símbolos fálicos ou femininos dos povos primitivos, ou dos primitivos que nos precederam? A magnificência sexual dos mitos greco-romanos? A necessidade absoluta que o cristianismo sentiu, ao defender-se dos seus castradores mais furiosos, de afirmar como Cristo era um homem completo, dotado de órgãos sexuais como qualquer homem que Ele não poderia ter sido sem eles?). Mas é mais, na verdade, do que correlação. Na medida em que as religiões recolheram e sistematizaram o mais essencial do humano de que viviam ou a quem ajudavam a viver em mundos aterradoramente desconhecidos (mas em que a vida podia ser tão esplendidamente imaginada como os velhos clássicos nos deixaram em versos que são exemplo de inteira e liberta imaginação), elas são já um superstrato socialmente constituído (e por isso tão rígidas de normas – menos morais que sociais – o são entre os primitivos, passe esta palavra que não pode aplicar-se a ninguém, que não às populações, mesmo entre as mais ocidentais, despojadas dos seus costumes e hábitos tradicionais, sem que estes tenham sido transformados dialecticamente por integração moderna). Ao princípio não era o Verbo, não era a Acção, não era nada do que tem sido dito. Ao princípio, e daí nasceram todas as divindades (mesmo que acreditemos que existiam antes de nascerem humanamente para nós), era o Sexo, quando o Homem (ou seja, a espécie humana) o descobriu enquanto tal. Poderíamos e deveríamos dizer que foi esta descoberta, rememorada nos símbolos fálicos mais arcaicos, como nos grafitos das paredes de hoje e sempre (visto que a criança e o jovem de hoje também descobrem em si mesmos, individualmente, o que a humanidade, para ser, descobriu uma vez), o que criou isso a que se chama humanidade, o Homem. O momento em que o sexo passou a ser conhecido como algo em si mesmo, e não como uma função animalmente inconsciente, obedecendo aos impulsos dos ciclos naturais do cio.


(…) Dir-se-á que a ênfase no sexo, ou no sexual, esquece ou suprime aquela palavra mágica (que o é) que tem servido para traduzir em reles vulgaridade a dignidade do que ela significa. Porque o Amor não é senão o desejo sexual elevado à fixação mais ou menos longa (e isso é com cada um, e ninguém tem nada com tal), e à complexa mistura dele com uma outra coisa que existe no sexo, mas pode repetir-se no acto sexual e passar à vida em comum (momentânea ou inteira dos indivíduos), e que, também animal, constitui outra invenção humana como o Sexo, e é a Ternura. Ser isto já não é pouco. Mas, como pensavam os Antigos, o Amor é o Eros supremo, anterior a tudo, e ao qual mesmo os deuses estão submetidos, e é também o Eros-Tânato, em que Amor e Morte se unem (porque morrer é ressuscitar, como sempre se disse do acto sexual, ou voltar ao ventre materno, como os túmulos dos povos arcaicos representavam com segura anatomia feminina). Mas é também o amor que move o Sol e as mais estrelas, como disse o Dante no último verso da sua Commedia. Porque ele é não a paixão, a dor de corno ou de cotovelo, etc., tudo coisas legítimas e inescapáveis do humano. Ele é a vera essência de nós no mundo, através do Sexo e do Divino indistinguíveis precisamente por Amor existir humanamente. Não há deuses sem sexo, e não há amor de Deus que, sem pecado, possa não ser sexual. Porque o maior pecado, se há pecados (e há, dos homens uns para os outros), é castrar o ser humano, o que, para o crente, deveria significar a castração do próprio Deus. Os místicos sempre falaram a linguagem do sexo, não por lhes faltar a língua e serem forçados a analogias desagradáveis, mas porque diziam as coisas como eles não podiam deixar de senti-las (creia-se ou não na experiência deles, sempre válida para quem creia nas metamorfoses do Sexo e do Amor). E, nos próprios místicos, ou nos mais fundos poemas de amor, como nas mais belas representações eróticas, sempre perpassa uma última coisa que nos cumpre referir (…): um sentido do humor, a Ironia. A derradeira ironia de quem sabe que o Sim e o Não são a mesma coisa, e que tudo, em transformação, é e não é ao mesmo tempo. E que, como desde sempre se soube e se representou ou disse, há um lado gracioso e irónico com que o Sexo nos atrai e engana (e às vezes até nos humilha), com as suas imagens fugidias, as suas satisfações apressadas, as suas coincidências gloriosas de prazer. É falso que se diga que depois do coito o animal é triste… À luz do que antes dissemos, o animal poderá sentir-se triste. Mas o homem só pode sentir que, uma vez mais, exerceu a sua liberdade. Por certo que a liberdade é – como o Eros referido – uma coisa terrível, que mete medo a muita gente. Mas o único medo legítimo foi sempre o de não enfrentarmos aquilo que, na realidade que temos e não há outra, é mais do que nós mesmos, tal como o falo cresce para o ato sexual, a vulva se concentra em segurá-lo, e o sémen salta, voltando tudo ao como era antes, ao que parece. E não volta. (…) tudo se modifica constantemente, num combinar e recombinar eterno que é o tempo total da nossa vida.

Santa Bárbara, Setembro de 1977
 

Na contramão do grandioso: o centenário esquecido

A efeméride que faltava

Uma bem-humorada e irônica crônica de Jorge de Sena, recordando efeméride esquecida no mesmo ano em que sobejaram celebrações do 4º centenário da publicação de Os Lusíadas. Com cortes feitos pela Censura, o texto foi publicado originalmente no Diário Popular, de Lisboa, a 8 de março de 1973.

 

“Um centenário lamentavelmente esquecido”

                                                      
 

Passou o ano de 1972, sem que tenhamos visto mencionado, aonde quer que fosse, um importantíssimo e extremamente relevante centenário, altamente apropriado para celebrações do mais universal caráter. A menos que o facto haja sido referido, discretamente, em algum periódico científico, ou técnico, ou de divulgação de uma outra destas duas naturezas, cremos que escapou inteiramente à consideração da humanidade actual. E quanto ela lhe deve – ao que se comemoraria – quer no sentido físico, quer no sentido moral! Com efeito, aonde quer que seja difícil que um corpo aceite algo superior à sua medida, aonde quer que a pele humana solicite especiais cuidados, aonde quer que a moralidade determine que se engula o impossível – e a que ponto isso é requerido no nosso tempo! – lá está, em pessoa ou em metáfora nascida da grata memória dos humanos, precisamente aquilo cujo centenário se esqueceu. É certo que não era, ou não seria em número de séculos, um desses centenários tremendos, impressionantes, carregados de anos, como por exemplo o celebrar-se a fundação de Roma por Eneias, ou a de Lisboa por Ulisses, acontecimentos que, por lendários, não são menos de celebrar. Certo igualmente é que não se trataria de celebrar uma pessoa, uma obra, uma conquista militar, cujos efeitos através dos tempos se pretende que continuem a fazer efeito, como sucede àqueles remédios e semelhantes produtos de que o organismo se cansa ou a que se habitua. E, neste último caso, Portugal, celebrando o 4º centenário da publicação de Os Lusíadas, tem, em relação a outros países do globo terráqueo (incluindo a Lua aonde já humanos puseram os pés), uma desculpa que os mais não possuem de todo em todo. Como, pensando-se em Camões, se penaria no que, todavia, foi e é muito mais popular do que ele? Menos desculpa, e é mesmo quem a não tem, possui a América do Norte, local de nascimento há cem anos (cumpridos em 1972), do notabilíssimo entre cujo centenário passou despercebido. Todavia, cumpre-nos reconhecer que foi ano de eleição (no sentido não de alta escolha, mas no de “eleições”), e a população ouvindo ou não ouvindo os candidatos, estes dirigindo-se à mesma população, e a alta finança e a grande indústria, através dos meios de comunicação de massa, subvencionando um grande silêncio que servisse os melhores interesses da pátria (já lá dizia o famoso dictum que o que é bom para a General Motors é bom para os Estados Unidos), todos tinham, por igual, ocasião de não se lembrarem de tão importante centenário. De resto, a América prepara-se para celebrar o seu 2º centenário como nação em 1976, e não tardará a ter de iniciar, com a colaboração de outras superpotências, o centenário das Guerras do Vietnam. E, no entanto, em tudo isto, quanto consumo tem sido feito, por metáfora, do modesto e prestimoso entre criado pela inventiva humana, e cujo nome é, para mais, na sua etimologia bastarda, um perfeito símbolo da estupidez linguística neste mundo! Imerecido nome para tão nobre entidade! Mas é o que ela tem, e com ele recebeu a celebridade metafórica e simbólica que é condignamente a sua.

Historiemos. Há mais de um século, existia nos Estados Unidos uma empresa industrial de produtos químicos, dirigida por certo Senhor Robert A. Chesebrough (este apelido, em português corrente, é muito interessante apontar que se diria, com ressalva das ortografias abstrusas que as etimologias impõem aos nomes de família, Queijoburgo). Não há muitos anos (à fé do crítico e linguista Mencken, na 4ª. edição do seu monumental estudo The American Language) ainda existia a companhia que levava o nome do Snr. Queijo (cortemos a Cidade, para simplificar). Não nos foi possível investigar se ainda existe, mas é pormenor secundário em relação à entidade que nos ocupa, cuja celebridade e popularidade se tornou independente da empresa que lhe deve o ser. Pois o caso é que em 1872, a companhia do Senhor Queijo descobriu um produto que não era sólido nem líquído, era aquoso e não era, era oleoso e não era, e que se extraía dos petróleos.

Como naqueles tempos, sobretudo nos países anglo-saxões, quanto fosse Química era necessariamente conexo com as grandezas germânicas – os alemães eram, lendariamente, os técnicos por excelência de quanto havia –, o nome do produto tinha de reflectir a germanidade sem que não havia dignidade química. Mas como, por outro lado, as tradições científicas sempre exigiram que os nomes das coisas tenham alguma coisa de grego, já que, por definição de Civilização Ocidental, a Grécia foi aonde começou tudo, o nome tinha de ter étimo helênico. E foi assim que, há cem anos, cumpridos em 1972 e lamentavelmente esquecidos, nasceu, para conforto, alívio, alegria e paciência da humanidade… Recuemos um pouco. Os empregados do Senhor Queijo, ou ele mesmo, lembraram-se de que água, em alemão, se dizia (e ainda diz) wasser; e procurando activamente num dicionário, encontraram que óleo, em grego, se dizia elaion – do que, num golpe de génio, e de barbarismo linguístico, nasceu aquela coisa suave e emoliente, deslizante e macia, que se chama, e toda a gente sabe – VASELINA.

Recordados de tudo o que a vaselina lhes recorda, gratos de quanto lhe terão devido em momentos ansiosos ou difíceis da vida, todos os leitores concordarão com o nosso comovido exórdio. Como foi que se deixou passar em silêncio tão grandiosa efeméride? Como foi que as Nações Unidas, a Unesco, a Organização Mundial de Saúde, as Academias de Ciências e mesmo as de Letras, ou das duas coisas, as Câmaras de Comércio, as Associações Industriais, as drogarias, as farmácias, etc., etc., não tomaram a iniciativa de tão magna celebração e tão justa? A ela se teriam associado entusiasticamente todos os sexos reconhecidos (à vaselina), todas as almas dulcificadas por ela. Teria sido uma das maiores e mais grandiosas manifestações que a humanidade já organizou. E, estamos certos, teria sido espontânea. Se tal não sucedeu, perdeu-se uma colossal oportunidade de celebrar em uníssono as grandes invenções humanas, simbolizadas na útil e humilde vaselina.

Ter-se esquecido tão emocionante centenário só poderá atribuir-se, tristemente, menos à ingratidão que tanto prejudica centenários (como promove outros), do que a uma lamentável ignorância acerca da data de nascimento de tão serviçal produto. Pois que pomos longe de nós a ideia de que foram a hipocrisia ou a falsa pudicícia o que privou o público em geral de saber a tempo que centenário tinha nas suas mãos, no momento em que nelas tivesse um tubo de vaselina ou de qualquer produto em que ela esconda a timidez mas não a sua utilidade. Ou no momento em que, abaixando a grimpa, aceita o que se está mesmo a ver que não cabe na verdade. O ano de 1972 passou. Mas, antes que esfrie no cemitério dos calendários, recolhamos os nossos espíritos, e dediquemos uma lágrima votiva (de vaselina) à gloriosa e centenária filha de um industrial para quem a Grécia antiga e a Alemanha moderna se uniam fraternalmente nas suas superstições de laborioso americano. E gratamente, mas com o orgulho devido aos progressos das ciências, pensemos com horror em como só há cem anos é que a humanidade dispõe de vaselina para as suas necessidades e urgências.

Santa Bárbara (demitida da Corte Celeste) Ano Novo de 1973

As aventuras onomásticas e brasilienses

Um pai às voltas com o nome do filho

A propósito de um dos assuntos que mais têm circulado na mídia nos últimos dias — a proibição de dar nomes estrangeiros a crianças brasileiras — recordamos aqui a palavra de Jorge de Sena sobre o tema, em crônica muitíssimo bem-humorada que vai das origens histórico-culturais da polêmica ao depoimento pessoal do indivíduo "nascido em Portugal, de pais portugueses / e pai de brasileiros no Brasil" às voltas com a dificuldade em registrar o filho sob nome "estrangeiro".

 

 


Durante a época colonial no Brasil, e não porque a opressão lusitana impedisse a liberdade onomástica, mas sim porque nenhum padre brasileiro admitiria baptizar alguém como nome que não fosse “cristão” (o que, para esses padres, significaria por certo um nome português ou aceito como tal), as pessoas chamavam-se Joaquinas ou Antónios, como em Portugal, sem que isso fosse vergonha para qualquer. Vinda a Independência, certo anti-portuguesismo era inevitável que se desenvolvesse, mesmo que não existisse já. Mas, quando veio a Época Romântica – que no Brasil foi proclamada em Paris, tal como sucedeu a Portugal com Garrett, e catorze anos depois do Grito de Ipiranga soltado pelo Senhor D. Pedro (o qual, como é sabido mas não igualmente em ambas as margens do Atlântico que ambas fazem os seus possíveis para deixarem de falar e escrever português, o qual, repito, foi Imperador Pedro I do Brasil e Rei Pedro IV de Portugal, sem ter acumulado os dois empregos, ao contrário dos tradicionais costumes luso-brasileiros) –, vieram também os Índios logo a seguir. Não, é claro, os propriamente ditos, em carne e osso: esses, sempre que a ocasião se proporcionava (e segundo a habitual bondade da raça lusitana e seus prolongamentos), eram reduzidos a osso, sem mais, para pasto das feras, ou dos vermes subterráqueos, a bem da expansão da civilização, e da propriedade privada dos que a expandiam e queriam a terra (que os índios, cretinos, não lhes davam) ou os desejavam para escravos, com o que eles não estavam de acordo. Mas, ao tempo do Romantismo, os índios eram já coisa longínqua, de que havia séculos se havia desistido de fazer escravos, de teimosos que eram. Os escravos eram todos africanos, importados sem lhes perguntar a opinião. De modo que os índios românticos tinham a enormíssima vantagem de poder ser antepassados mitológicos que não vinham pedir contas da herança, de terem simbolicamente resistido aos opressores da colonização (sem que se pergunte se estes tinham nascido todos em Portugal), e de serem o nobre selvagem de tão elegantes tradições literárias europeias, sem deixarem de ser, ali mesmo, americaníssimos, como a Europa não tivera nunca. Escreveram-se poemas e romances em que os índios são belos, bonzinhos, falam como os clássicos de Quinhentos (património comum da Língua que se não ama) – e muitos desses romances e poemas sucede que são obras-primas. É claro que os nomes dos índios, vindo dessas obras literárias de grande popularidade, entraram numa onomástica que se queria nacionalista no mais burguês sentido da palavra. E as cidades e vilas começaram a mudar de nome, ou, quando fundadas por algum desbravador, a recebê-lo tão guarani quanto possível, já que a esmagadora maioria das pessoas não sabia, nem hoje sabe, uma palavra de tupi-guarani (que, ainda por cima, não é bem a língua dos índios, que as tinham muitas, mas a que os jesuítas haviam inventado no século mais ou menos XVI e XVII como “língua geral” que permitisse a comunicação, sem imposição da língua portuguesa em absoluto e exclusivo, sabidos que eram de linguísticas e outras coisas que não havia naquele tempo, estes jesuítas que queriam os índios livres para os administrarem nas suas, deles jesuítas, aldeias (ad majorem Dei gloriam, que é o lema da Companhia). O que sucedia às cidades sucedeu também com nomes de família de muita gente: ser Silva ou Costa ou Coutinho era uma portuguiçe sem graça, e muito mais engraçado era a gente chamar-se Capivara, Aricolicora, etc., etc.


Passado o Romantismo, esta mania indiófilo-literária passou também. Mas, quando caiu o Império em 1889, e veio a República, o filósofo Augusto Comte, criador do positivismo francês, já se implantara ideologicamente no Brasil, com igrejas da Religião da Humanidade e tudo. Durante o Império, o clero baptizador não queria que o achassem anti-patriota, e aliás passara o seu mau-bocado em brigas com o Imperador (mais com o II do que com o I, digamos, ambos Pedros, pai e filho, e Braganças inteiros). A Religião da Humanidade do ilustre Comte tinha um calendário em que os santos da Igreja Católica estavam substituídos por homens ilustres, merecedores de veneração e de uso onomástico (tal qual como acontecera por séculos com o cristianismo, quando, salvo se o nome do santo era uma coisa impossível a cair de velha e esquecida, as pessoas recebiam o nome do santo do dia em que tinham tido a sorte, muita ou pouca, de nascer). Assim, a Ubirajaras e Iracemas, vieram juntar-se todos os Péricles e Aristóteles ao alcance das listas positivistas de grandeza humana de antiguidade e valor garantidos. E assim passaram a aparecer os Aristóteles da Silva, os Péricles Tucunduva, as Ubirajaras Agripinas (embora estas senhoras, lá em Roma, não fossem gente de decência para nenhuma lista de meninas honestas) [*]. Mas, por esse tempo, começara a magna migração da Europa para o Brasil. E também das Ásias. O que, necessariamente, trouxe uma hoste de nomes de todos os lados, desde o judeu da Alemanha ao árabe da Síria (dos “sírios” se diz maldosamente no Brasil “que nasceram turcos, vivem sírios e morrem libaneses”…), cujos sacerdotes não hesitavam em pôr às crianças, obviamente, sem que o Estado ou Governo Central se importassem. Mas a coisa não ficou por aqui, quanto a fantasias onomásticas. Este povo miúdo, ou a burguesia enriquecida dele, não tinha raízes culturais brasileiras (sobretudo nos Estados do Brasil de grande massa migratória), e em grande parte perdera (para lá dos costumes mais quotidianos e de alguma língua que mantinham da pátria de origem), a menos que em raros casos de pessoas de alto nível cultural, aquela cultura originária que na verdade não possuía – tal como os comendadores do Rio de Janeiro, pelo menos alguns, nunca souberam de Portugal mais que o bacalhau com batatas (a pátria, ao exportá-los, não lhes dera outra bagagem cultural, a mais de um conservantismo de quem foi fazer pé-de-meia e não deixar de admirar o Salazar à distância no tempo e no espaço). Assim sendo, e porque é da antropologia saber-se que a identidade ÚNICA de um indivíduo que se perdeu de um clã ou de uma tribo, sem ser integrado numa nação, está ligada à unicidade do nome, passou-se para um grau mais avançado em onomástica de novos-ricos sem mais fortuna que a existência, ou com uma fortuna sem raízes no fazer-se de um país. Um avô querido chamava-se Peri; a mãe chama-se Agripina (desculpem a repetição). Claro que uma criança do sexo feminino, nesta família, se poderia chamar, como ninguém, PERIPINA. As possibilidades combinatórias iriam por este caminho ao infinito, se lhes acrescentarmos o fascínio dos pobres já feitos, mas “raros”… E foi assim que, uma vez, em São Paulo, uma senhora 100% brasileira estava a contratar uma criada, ou empregada como já então se dizia no Brasil aonde a mudança de nome não significava nenhuma mudança de status social ou segurança no trabalho, e conversa vai conversa vem, acordavam o preço, etc. E foi quando a dita senhora – daquelas super-grã-finas de São Paulo, ricas, fundadoras do Brasil, quatrocentonas em suma – perguntou à “empregada” pelo nome dela. Não era possível, não ouvira bem, tremeu. E pediu à pobre mocinha que repetisse melhor o nome. Ela, num cândido sorriso, repetiu: – Sífilis –. Ante o aristocrático pasmo enojado da grande dama, ela explicou: – Quando meu pai estava para se casar e andava muito doente ele foi no médico e o médico disse para ele o diagnóstico é sífilis mas eu ponho você bom para o casamento e meu pai fez promessa à Senhora Aparecida que se tivesse filha, depois de bom e casado, a filha se chamava Sífilis –. A senhora ficou ainda mais sem fala, mas ainda faltava mais – com um novo sorriso a moça acrescentou: – E meu irmão se chama Diagnóstico…


Esta história é autêntica, não uma piada inventada. E é claro que fenómenos como este levaram o Ministério da Justiça a publicar um livrinho com a lista dos nomes aceitáveis pelo Registro Civil (o qual, é claro, aqui ou ali, como no Brasil se diz, facilitava). Não sei se o livro – com o qual voltaremos a encontrar-nos no perfeito epílogo desta digressão filológico-cultural – é anterior ou posterior àquele grande senhor de Minas Gerais que não há muitas décadas se divertia a “numerar” os filhos e filhas que ia fazendo na esposa paciente e tão pouco estéril como ele, ao que adiante se verá. E assim é que as infelizes crianças iam sendo Primeiro, Segunda, Terceiro, etc., até que o dito senhor decidiu que já eram suficientemente numerosas: e o gajo que veio foi baptizado de Último. Mas, como se sabe, e para mais naqueles tempos deficientes de anticonceptivos, o Homem põe-se, e Deus dispõe-se, para tratarmos o velho ditado com o adequado acerto. O caso é que, como dizia um amigo meu, de cada enxadada saía minhoca… e, apesar das mais rigorosas contas, avolumou-se, e nasceu o que era um rapaz. Ah sim? O pai vingou-se, e chamou-lhe Epílogo. Mas Deus Nosso Senhor vingou-se de ele não ir exercer as suas actividades algures, e deu-lhe uma filha. Ah… À altura do desafio, chamou à desgraçadinha Errata, e aí sim, ponto final. De facto, depois da Errata, que nome tinha ele para mais um produto genital?


Consideremos agora o importante epílogo deste estudo. Deu-se que também eu, prolífico tanto (ainda que não católico, como aquele Senhor mineiro) e que já não tinha poucos filhos, tive mais um par deles, anos passados, no Brasil, e que são, portanto, brasileiros-natos como o não era D. Pedro, o gritador de Ipiranga, e cujos ossos Portugal exportou há anos, com gosto de absolutistas para o Brasil que pedira os restos do sujeito que cometera o extravagante acto de, sendo português de nascimento, proclamar a Independência ele (já setenta anos antes outro português, o eminente poeta Gonzaga, se sonhara presidente de uma República inteira… – os portugueses são assim, ao contrário da má-fama de teimosamente metropolitanos que se lhes criou e só os que vivem a mamar na teta da magra vaca europeia e ibérica, ou pelo menos muitos deles, na verdade merecem). Quando fui, acompanhado por testemunhas de brasílica idoneidade nacional, registar a primeira não houve problema algum: Maria José, com aquilo de a pequena não ser Josefa, como a concordância gramatical exigiria, por certo agradou ao oficial do Registo Civil. Mas no ano seguinte o caso foi seriíssimo. Indo eu mais as idóneas testemunhas ao sacrossanto lugar da separação da Igreja e do Estado, o funcionário – com o seu sotaque de “italianinho”, o que não é piada à Itália que amo mesmo no desenvolvimento de São Paulo que os filhos dela fizeram como ninguém, mas é indício de um anti-portuguesismo mais ou menos comum – perguntou-me: – E como o menino vai se chamar? –. E eu, despreocupado ainda, declarei: – Nuno Afonso –. O homem franziu o sobrolho, fitou-me com visão de verruma demolidora (para mais eu era professor da universidade, um desses terríveis vermelhos e viciosos que estavam ali na cidade para perverter a juventude indefesa… a qual, sem ajuda da universidade, e só a da natureza, ia fazer porcarias – ou o contrário, conforme as opiniões – na sombra densamente arborizada e nocturna da minha avenida, pelo que, certa manhã, um dos meus filhos pequenos, brincando na rua, veio triunfante para casa com um achado que fizera, e discretamente descreverei como uma túnica de Afrodite, servida), e disse secamente: – Não posso pôr a ninguém nomes que não existem no Brasil –. Era com Nuno que ele embirrava (talvez pensando que era brincadeira minha por nono que ele notoriamente era na lista dos meus filhos, e ignorando tão velho e respeitável nome da língua). Insisti que o nome existia, as minhas testemunhas apoiaram-me com a sua reconhecida brasilidade nata, etc. – mas o homem continuou inabalável. Eu então tive uma ideia luminosa: vi um livrinho salvador, como tem acontecido a vários santos que, parece, até os engoliram, pelo menos na visão que tiveram, e exclamei: – Vá o senhor buscar a lista de nomes, e vamos a ver se há ou não há esse nome no Brasil –. Ele tentou resistir, mas submeteu-se e trouxe o livro que folheou com desesperadora lentidão. Mas eu, por cima da mesa dele, ia vendo, e ele não podia evidentemente, ante o nome impresso, continuar a recusar-lhe a existência. Então, furioso mas dominando-se, perguntou sem mais comentários: – Afonso, não? Com um F ou com dois FF?… – ao que eu respondi que com um só como mandava a ortografia oficial. Assinámos o registo, recebemos o breve certificado do acto, viemo-nos embora, e não pensei mais no caso, a não ser se vinha o talho de conversa para digressão socio-linguística. Passado tempo, foi quando tive de tratar das papeladas para nos transferirmos, a tribo toda, do Brasil para os Estados Unidos, o que requeria certidão completa, ou de teor, do nascimento de toda a gente. Pedi as daqueles meus dois filhos na conservatória aonde os registara e recebi-as… E passando nelas os olhos, que vejo eu? Na do Nuno Afonso, o homem tivera a última palavra para a eternidade de tais documentos. Depois de nós termos assinado e saído, ele apusera uma apostilha: “Em tempo se declara que a criança recebeu o nome de Nuno, por insistência do pai, embora este nome não exista no Brasil”.


Isto é, um Nuno, de velha cepa portuguesa, não podia existir; uma Peripina, por certo que sim. Não se pense que todo o Brasil é assim, mas é triste observar como liberais ou gente de esquerda – talvez por serem, muitos deles, membros das burguesias irreparáveis – colaboram neste anti-portuguesismo que não é criação de Brasil nenhum, mas o despir do Brasil, por dentro e por fora, do que lhe resta de vísceras originárias, para o estufar dos imperialismos que o comem às carradas que arrasam montanhas. Porque um país adulto, desenvolvido, e capaz de enfrentar os complexos de culpa, que possui, por pouco ou nada ter feito por milhões de brasileiros todos tão pitorescos para favela (ao longe) e mulata (ao perto), um país de alta cultura e velha tradição nacional de séculos de “América Portuguesa”, bem pode voltar a chamar aos seus filhos Martim, Diogo, Duarte, Tomé, etc. (e não apenas António, que é afinal tão português como italiano), segundo os nomes dignos e respeitáveis daqueles primeiros portugueses que puseram pés no Brasil (e não menciono Pedro, porque o malandro do Cabral não nos deixou certeza de não haver lá chegado por acaso, ainda que o nome dele, o do Príncipe dos Apóstolos, deva, em terra tão católica como o Brasil, sobrepor-se ao som português e cabralesco que possua), para o criarem como ele veio a ser, no fundo da sua natureza enriquecida de todas as raças, e mais empobrecida por uma delas do que nunca os quintos do Rei de Portugal, pobretana e sem autoridade, jamais fizeram. E tudo o mais são desculpas que o pobre povo de milhões, no Brasil, nem pede, porque não sabe ler; e, quando souber, já não vai a tempo de que ainda haja a terra que é a sua. Como me dizia o Snr. Vivaldo, meu carpinteiro em São Paulo, a cair de tuberculose mas imortal de verve de sertão bahiano, numa hora em que viu desvanecer-se uma vaga luz que ele nem bem sabia o que era: – Vê, está vendo? É como eu sempre disse que pobre não tem vez… –. Já deve ter morrido, por certo, mais a fabulosa riqueza linguística e de “estórias” que era a sua, quando começava a contar por horas… Ele que, um dia, filosofando sobre as diferenças que havia entre a Bahia (que ele não via há aníssimos) e o São Paulo a que viera trabalhar, inocentemente me patenteou que, geografica e nacionalmente, ainda vivia, onomasticamente, no século XVII da visão popular do seu país: – O senhor sabe? Aqui em São Paulo é assim. Mas lá no Brasil é outra coisa –. Para ele, o Brasil ainda não ia da Amazónia ao Rio Grande do Sul, de Mato Grosso à costa aonde por tanto tempo tanto caranguejaram os habitantes, como disse um vetusto e admirável cronista do Brasil que os portugueses nunca leram. Para mais, esses cronistas venerandos eram quase todos uma catrefa de funcionários, de padralhada, etc. Eram, sim. Mas tinham uma dignidade que, para onomásticas patrióticas, faz bem comparar com as cobardias, as desvergonhas, e a vacuidade moral do nosso tempo de aquém e de além-mar.
 

Santa Bárbara, algures no tempo da amargura difícil de amar mais de um país com amor infeliz, à beira de um Oceano que não banha Brasis ou Portugais.
 

 

[*] Para elucidação dos mais veementes anti-colonialistas, no que se refere a passado, presente e futuro, quer em Portugal, quer no Brasil, quer noutros lugares aonde a língua portuguesa vá manquejando como a deixam que vá, cumpre informar que Agripina não é só o nome da mãe de Nero, uma desavergonhada. É também o nome de uma colonialista, visto que esta mesma mãe do Nero (que, segundo parece, foi um excelente sujeito, igualmente vilipendiado pelos interesses da aristocracia e da alta burguesia romanas, e dos primeiros cristãos, escravos daquelas) fundou Colónia. Sim senhor, Colónia, a cidade alemã, imagine-se. E que as inocentes Agripinas me perdoem (e aos pais que lhes deram um nome que afinal não é feio).

Angola e Moçambique

Das crônicas de viagem, 1972

Das quatro “Crônicas de viagem” publicadas no Diário Popular, entre 4 e 20 de agosto de 1972, transcrevemos a última — não só por resumir as “andanças africanas” de Sena numa data tão camoniana; como ainda pelas achegas que nos dá aos poemas que aí escreveu, como ainda pela sua veemente conclusão, em nítido diálogo com a conhecidíssima frase pessoana “minha pátria é a língua portuguesa”.

 
Estive por Angola há trinta e quatro anos, nos meus tempos de rapaz e marinheiro. Em Moçambique não estivera nunca. A minha visita a este oriente das Áfricas durou cerca de um mês; e em três dias foi que revi Luanda, ou antes procurei pela cidade baixa o que lembrava dela, além de revisitar os monumentos – as igrejas e os fortes – que continuam ainda no mesmo sítio onde estavam, apenas mais pintados de fresco do que os lembrava ou mais restaurados da ruína em que se desfaziam. Entre Angola e Moçambique passei, na viagem de ida, horas e horas encalhado no aeroporto de Joanesburgo (por falta do “visto” que me haviam dito não ser necessário para sair-se dele, estando em trânsito), cidade que visitei, à volta, em dia e meio. Não se conhecem nem se julgam assim países, ainda quando a gente tenha anteriormente lido muito sobre eles, e neles depois converse com pessoas que longamente os tenham vivido e meditado.

É certo que as Áfricas já eram e continuaram a ser uma presença viva na minha família, quando eu nasci – desde que, há cerca de um século, minha avó materna, Isabel dos Anjos Alves Rodrigues Teles Grilo, a “Senhora Grande” para os indígenas do Sul de Angola, a esta aportou para lá viver décadas de orgulhosa “Professora Régia”, que o rei D. Carlos nomeara e a República reconduziu em pitorescas circunstâncias.

Desde a Madeira a Moçambique se espalha, como na metrópole, a sua numerosa descendência que ela, mais tarde aposentada em Lisboa onde morreu tão de pé como sempre vivera, continuou a chefiar com mão de ferro, contas correntes a partidas dobradas, e altissonantes cartas pastorais e encíclicas a que a dúzia de filhos, as dezenas de netos, e o inefável belo homem de barbas que o meu avô foi, todos se curvavam num calafriado terror que era também respeito perante um ardente coração. Alguém que pisasse o risco em dois continentes, ou fizesse o que ela considerasse menos digno – e lá seguia, por cópia, para todos, a carta de excomunhão, que isolava o pária, castigadoramente do convívio da tribo matrilinear. E quem não cumprisse o édito, levava outra. Não poderei esquecer nunca essa mulher espantosa que foi, na sua esclarecida velhice, a primeira pessoa a compreender e animar a minha poesia modernista. Guardo, no meu primeiro livro de poemas, há trinta anos publicado, o exemplar que foi o dela.

Eu mesmo, na verdade, vim a nascer destas Áfricas – sem elas, minha mãe, voltando dos metropolitanos estudos para Angola, menina e moça e ruiva, não teria conhecido a paixão romântica e brutal do capitão de navios, jovem e de bigodes retorcidos, que foi o meu pai. E por estas navegações que duraram a minha infância e adolescência (e evoquei num conto, “Homenagem ao Papagaio Verde”, publicado em “O Tempo e o Modo”), a África continuou presente na minha formação, par a par com as memórias e as idas e vindas de uma família inteira, extremamente tribal até nas suas rivalidades e intrigas. De modo que as Áfricas me não são, somado tudo, menos estranhas do que a muita gente, e certamente do que aos “reinóis” (como o Brasil dizia) que lá vão sacudir, altos funcionários, comerciantes de aventura, ou as duas coisas, a árvore das patacas.
Posto isto, que dizer em resumo do que vi e ouvi agora? Antes de mais, os arrepios que a África do Sul me deu, e se distinguem do quanto possa, em Angola e Moçambique, angustiar a gente. Com paternalismo ou sem ele, aquele “apartheid” grotesco não é comigo: e não serão a hospitalidade de sul-africanos gentis e cultos, ou o esplendor moderno de Joanesburgo, o que me fará esquecê-lo. Como foi possível que um povo com o passado cosmopolita da Flandres e da Holanda inventasse aquilo, tomando dos ingleses o pior deles, e o justifique com a Bíblia, que não há dúvida poder servir para tudo, eis o que ultrapassa não só o sentimento humano mas mesmo o senso comum aos homens e aos animais. Tudo o que pode desejar-se – e deve impedir-se, por todos os meios – é que uma imagem, mesmo pálida, de tal monstruosidade, tente repetir-se em Angola ou em Moçambique, em quaisquer circunstâncias. Ou que as lições, senão da humanidade, ao menos do comércio internacional (que na África do Sul, faz que os japoneses sejam legalmente “brancos”, como os chineses ainda não…), desfaçam aquela mitologia trágica, antes que seja tarde para toda gente.

Depois, cumpre dizer e acentuar que Angola e Moçambique são radicalmente diferentes. Não só se formaram em colonizações diversas e com diverso passado histórico, como o actual resultado foi duas sociedades de complexidade inteiramente divergente. Em Angola há brancos, mulatos e pretos, educados ou deseducados na tradição católica, ou inseridos nas tradições gentílicas do seu passado negro. Em Moçambique, uma variedade de raças e de religiões, uma mistura de Ocidente e de Oriente, em que os mulatos não chegam a constituir grupo social, formaram uma vasta complicação em que as áreas negras, ètnicamente regionais, se variam das camadas culturais que a História pousou sobre elas.

Paradoxalmente, poderia afirmar-se que Moçambique, cujo papel histórico ocidental se define logo no princípio do século XVI, na ilha do mesmo nome mas cuja colonização efectiva não tem muito mais de um século, será, nas suas contradições, talvez mais estável do que Angola que, entrada para a História quase um século depois (independentemente das descobertas do século XV), teve mais cedo e mais amplamente colónias de fixação, e conheceu, recentemente, uma expansão económico-demográfica de atracção europeia, muito maior que a de Moçambique. É talvez isto o que dá a Lourenço Marques (onde velhos monumentos são realmente inexistentes, dado que a cidade não é muito antiga) um ar de grande capital aristocrática e cosmopolita e a Luanda, hoje muito maior, a atmosfera curiosíssima de uma gigantesca cidade aventureira, aonde a maioria da gente parece ter chegado ontem para enriquecer depressa, na tradição dos Brasis além defronte, do outro lado do Atlântico. E isto, à face dos fortes e das igrejas do século XVII (quão belas a da Sra. da Nazaré e a dos jesuítas – e nesta última vi uma negra velha, sentada no chão, em animada conversa particular com o Cristo crucificado), e nas barbas consideradas respeitáveis do Paulo Dias de Novais, do André Vidal de Negreiros e do Salvador Correia de Sá e Benevides, que por ali andaram à ordem dos interesses brasílicos (deles mesmos ou da Coroa portuguesa), e já me inspiraram poemas publicados ou inéditos.

Não quero que me entendam mal. O direito à promoção social e à riqueza, considero-o inalienável e merece-me o maior respeito. E, sejamos francos, nunca grande parte dos portugueses, em séculos de História, nobres ou plebeus, saiu da sua mesquinharia lusitana para ser herói ou santo, que alguns foram, mas para encher a burra, se possível honestamente. E os outros povos que atirem a primeira pedra, porque nunca foram melhores. O que eu quero dizer é que se sente em Luanda um frenesi de crescimento – sùbitamente suspenso pelo problema das transferências que é, aliás, mais agudo ainda em Moçambique –, o qual se existe também na costa oriental, não é análogo por não ser lá um fenómeno de massas populares e da pequena burguesia metropolitana, acorridas à cavação do Eldorado. Mas há muitas maneiras de os grandes países se fazerem, como se diz que as há de matar pulgas. Tudo está em não confundir os seres humanos, cujos direitos devem ser resguardados ou promovidos em perfeita igualdade, com aqueles desagradáveis animais. Quanto digo é, porém, um misto de informação e impressionismo; e não pretende ser um daqueles juízos ponderosamente definitivos que aliás, na situação actual, tão extremamente fluida, prudente será que ninguém faça.
Em Moçambique, estive em Lourenço Marques e arredores, na Beira, em Nampula, e na ilha de Moçambique, essa miraculosa fusão de civilizações. Conheci ou revi, ou interroguei, pessoas de todos os grupos e categorias sociais – e até tive a honra de conversar, na Cabaceira Pequena, em frente à ilha, com um negro centenário, mendigo de óculos na ponta do nariz, que vive das memórias de haver conhecido o Mouzinho e o príncipe D. Luís Filipe. Foi, para mim, comoventíssimo encontrar amigos de juventude, que não via há décadas, e que vieram abraçar-me carregados dos seus anos de África. Falei em público quatro vezes em Lourenço Marques, duas na Universidade que considero, se lhe não faltarem o apoio e a autonomia necessários à sua tão especial função num país muito mais complexo do que a metrópole e as suas tradições administrativas são capazes de imaginar, uma esplêndida e promissora aventura africana.

Fiz, além disso, uma conferência na Beira; e fui várias vezes e em vários lugares entrevistado para programas de rádio (a televisão não existe ainda em Moçambique, pelo que me vi poupado às maldições encomendadas por uns cafés lisboetas). A minha última conferência – na Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, entidade que tomara a iniciativa de convidar-me e a minha Mulher para darmos meia volta ao mundo (vão 160 graus de longitude, de Santa Bárbara, na Califórnia, a Lourenço Marques) – e a despedida, na manhã seguinte, no aeroporto, ficarão ambas como instantes inesquecíveis da minha vida. Não me envergonho de dizer que, em lágrimas de emoção (só os cavalos empedernidos da má vida e as vacas sagradas da politicagem literária se envergonham de as chorar, até porque as não têm senão de crocodilo), foi que eu afirmei que partia com Moçambique no coração.

 

Em Angola passei alguns dias de incógnito repouso e calmo turismo solitário por Luanda e um pouco dos arredores, e só no último dia encontrei um agradável convívio e tive oportunidade de, como em Moçambique, trocar as queixas que a portugalhada (ou sejam os filhos de uma cultura madrasta) sempre troca, quando se encontra nas voltas do mundo. As ruas, os velhos monumentos, o museu dito de Angola (notáveis algumas peças antigas ou gentílicas, e excelente a colecção de pintura moderna) preencheram em maior exclusividade o nosso tempo que sempre acabava nos cafés da Arcada, a observar os manejos da juventude ociosa. Claro que apresentei os meus cumprimentos a Paulo Dias de Novais, André Vidal de Negreiros, etc., ou àquele Álvaro de Carvalho Matozo, cavaleiro professo da Ordem de Cristo, que, no ano de 1787, fundou, numa colina discretamente dominando a beleza de baías e de ilhas ao sul de Luanda, uma capela que a gente desconfia que lhe servia de capa para traficâncias impróprias, senão da Ordem que tinha nisso antecedentes gloriosamente henriquinos qual Zurara descreve com humanística piedade, pelo menos indignas daqueles tempos esclarecidos. Tudo isto próceres felizmente falecidos há séculos. Cumprimentara, antes, na ilha de Moçambique, os meus amigos Camões e Gonzaga, infelizmente defuntos; e, em Lourenço Marques e na Beira, convivi com escritores e críticos que chegam, pela cultura, a informação e a qualidade literárias para meter no saco os carapaus de corrida lisboeta (ou de outras partes mais africanas), esses noveis salvadores da pátria e da cultura católica e anticatólica em doce conúbio, que não tardaremos a ver, aquietados e felizes, nas administrações de bancos e companhias, pela mesma razão que faz o sr. Nixon e o sr. Chu-En-Lai abraçarem-se alegremente em cima das sepulturas, ou nem isso, de tantos milhões.

Conhecer pessoalmente em Moçambique José Craveirinha, Rui Knopfli, Eugénio Lisboa, Rui Nougar, Glória de Santana, Sebastião Alba, o pintor António Quadros, que é também o poeta João Grabato Dias, uma das mais notáveis revelações dos últimos anos, e tantos outros que não nomeio por menos estima e consideração, é coisa que não acontece todos os dias, na língua portuguesa. Mas estou em crer que, com umas semanas de Angola me teria acontecido algo de semelhante – da mesma forma que trinta e cinco anos não apagaram da minha memória afectiva as ilhas de Cabo Verde, de cuja autónoma literatura fui dos primeiros a falar em Portugal, há trinta anos.

 

Não quero encerrar estas breves notas sem acrescentar-lhes mais duas. A minha estada em Moçambique foi, de certa altura em diante, marcada por um desgosto profundo, daqueles que ficam connosco para sempre: a súbita notícia (ainda que esperada a qualquer momento) do falecimento em São Paulo, Brasil, de um dos meus maiores e mais velhos amigos (de exactamente trinta e três anos), essa grande figura de homem e de poeta português que foi Adolfo Casais Monteiro. Tomei já a iniciativa de fazer ressuscitar, eventualmente, os “Cadernos de Poesia”, para homenagear a memória honrada de uma das glórias da cultura portuguesa neste século.

A outra nota é esta: não sei o que o futuro reserva a Portugal e aos territórios africanos, nestas horas cruciais em que a história do mundo é feita na mais sinistra e cínica das irresponsabilidades, à custa da pele de populações inteiras, ou da alma desesperada dos melhores humanos. Mas quero supor que esse futuro não deixará morrer longe das pátrias em que nasceram e cuja cultura ampliaram e honraram, ou cuja história fizeram quando outros a desfaziam, muitos mais dos seus filhos ilustres ou anónimos. A diáspora lusitana já deixa na sombra a do povo judaico, de que tanto sangue nos corre nas veias de vagamundos. Daquele número me excluo: primeiro, porque não sou ilustre nem anónimo; e, segundo, porque, como o grande poeta latino, prefiro pensar que “non possidebis ossa mea” que o mesmo é dizer: não roereis os meus ossos, depois de tanto me haverdes esfolado para várias obras literárias e não literárias. A minha pátria são a literatura portuguesa e as culturas de língua portuguesa, seja onde e como forem. Quanto ao mais, eu não me quero dessa aldeia entalada entre o Terreiro do Paço e o Bairro Alto, enquanto ela persistir em ignorar-se à escala universal e não aprender a rever-se na grandeza do Brasil, de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, etc., como dos milhões de portugueses e descendentes de portugueses de todas as cores que povoam (e repovoam) o largo mundo. E este, eu entendo que ele pertence efectivamente a quem o faz, e não a quem vive nele como um parasita.

Caim

Segundo conto de Génesis

Segundo conto do jovem Sena, de 17/18 anos, demonstrando tal força e concisão que já traz em si o germe da grande obra que virá…

 

Já as cigarras cantavam a morte da luz do dia quando Caim voltou para casa. Uma extensa calma alojava-se no prado cuja planura era cortada, aqui e ali, por um ou outro cabeço. O Sol poente animava, na sua despedida, o colorido de todas as cousas.

Caim caminhava devagar. O sossego circunjacente penetrava-lhe no coração levando-o a pensar na vida e na família. Em paz viviam uns dos outros: a mãe cuidava da choupana e das peles com que se cobriam, ele Caim lavrava a terra, o irmão Abel pastoreava os rebanhos que Deus ensinara a amansar. Quando o pensamento lhe passou pelo irmão à sombra do dia findo somou-se no seu rosto a sombra da sua tristeza. Divisou ao longe um fumozinho que lentamente e muito calmo subia para o céu; e esse fumo do lar desanuviou um pouco a sua apreensão.

Numa volta do caminho, que os seus pés tinham traçado dia a dia, apareceu a casa paterna. Duas figuras solenes no entardecer estavam sentadas à entrada. Caim aproximou-se e beijou-as – primeiro o pai, depois a mãe.

Muitas, muitas vezes se tinham alternado o Sol e a Lua depois que Adão e Eva tinham saído do Paraíso. A princípio a vida custara, depois nascera Caim e por causa dele habituaram-se a trabalhar; mais tarde apareceu Abel, e Jeová que se conservara afastado foi tomando interesse pelas crianças e delas passou à vida dos pais. Ensinara-lhes a domar o gado, a lavrar e a fazer o fogo. Agora, os filhos crescidos, declinavam felizes e fios brancos começavam a nascer e a multiplicar-se entre os cabelos escuros.

Adão e Caim falaram das colheitas. Não iam mal; os trigais muito louros adoravam já o Senhor com as espigas felizes pendidas para o chão.

Ao longe começaram a ouvir-se exclamações de mistura com balidos; Abel recolhia com o rebanho.

Depois de fechados os animais no redil veio juntar-se aos pais e ao irmão.

Tal como já fizera com as searas, Adão perguntou pelos carneiros.

– Andavam magros, não medravam, não pareciam os mesmos de tempo atrás.

O pai recomendou mudança de pasto e Eva lembrou que se matassem os piores para ela fazer fatos novos – os que traziam já estavam velhos e gastos.

Abel declarou à mãe que faria isso no dia seguinte mas que agora tinha fome.

Quando acabaram de comer foram deitar-se enquanto cá fora corria uma aragem fresca a quem as estrelas no alto faziam companhia.

………………………………………………………………………..

Sobre as peles Caim não dormia; pensava. Em tudo o Senhor preferia o irmão. A última vez que tinham feito oferendas à Jeová, este agradara-se mais do anho gordo de Abel que das suas frutas e verduras. Agora tinha porém ocasião de se vingar. Os animais estavam tão magros quanto as suas culturas estavam gordas e Deus, desta vez, gostaria mais do que ele lhe levasse.
Voltou-se para Abel que jazia junto dele.
– Abel!
O irmão mexeu-se: – Que é?
– Ainda não dormes?
– Não.
– Ouve!
– Que é que queres?
– Se fôssemos amanhã levar dos nossos produtos ao Senhor Deus?
Abel pensou – quer vexar-me porque sabe que nada tenho de bom, por outro lado se não vou é ele que ganha com certeza – e respondeu: Vamos! e esperou mais algum dito do irmão mas Caim calara-se e adormecia agora no descanso da sua vitória.

………………………………………………………………….
No dia seguinte eles a saírem de casa e o Sol a sair da terra.

Caim colhera da seara as melhores espigas e das árvores os melhores frutos; Abel procurara o animal mais gordo mas mesmo assim de pele tão caída…

Andaram muito sem dizer palavra até chegarem ao sítio onde o Senhor lhes vinha falar.

A planície era aí interrompida por uma torrente que gemia em baixo entre as pedras. Nas margens escarpadas pedregulhos debruçavam-se curiosos sobre a água. O ar cinzento e retraído era embaciado pela ausência de ervas alegres; só plantas daninhas, daquelas que a sorte fez secar mesmo em vida, apareciam nos interstícios das pedras. A terra era árida, a aridez estava em Deus, o sítio divino era árido. O dia ali estava enevoado. Grossos cúmulos encobriam o Sol que através deles imprimia a tudo uma luz algodoada e sem energia. Um vento fresco depois de acariciar os campos e cair aos baldões pela encosta ia arranhar a torrente. Sobranceiro à ravina e à planície erguia-se um penhasco abrupto, selvaticamente ornamentado pelas sarças.

Treparam-no com dificuldade e pararam ofegantes quase no cimo. Ajoelharam-se e fitando o céu invocaram: Jeová! Jeová!

As duas ribanceiras repetiram vale abaixo: Jeová… Jeová…

Começou a invadir o ar estranha sonoridade. Uma nuvem resplandecente destacou-se dentre as irmãs. Trovejou lá no alto. O ar assobiou, contornou-se em torno do penhasco. Uma pequena pedra desprendeu-se e rebolou até à água. Outro trovão estoirou mais baixo. O carneiro balou aflito. Abel e Caim, de cabeça baixa, não olhavam o Senhor que se aproximava recostado na nuvem.

Quando Jeová pôs os pés no alto do penedo as nuvens desapareceram descobrindo o Sol, o vento caiu, o ar tornou-se perfumado, uma música tocou nas almas e uma auréola veio respeitosa iluminar os cabelos brancos de Jeová. Amaciando a voz habituada a dirigir os movimentos astrais o Senhor perguntou:

– Que me quereis?

Eles levantaram as faces e Caim falou por ambos.
– Senhor! Trazemos hoje para vós do melhor que possuímos. Perdoai-nos o incomodar-vos por tão pouco…

– Muito me apraz isso, Caim. Tanto mais que ainda há pouco me visitaram com idêntico fim… E o que têm então para me dar?

Ele bem via as cousas mas queria que eles falassem.

– Trago-vos trigo da minha seara e fruta das minhas árvores. O trigo plantei-o para vós, os frutos para vós os colho…

E Caim era sincero quando dizia isto.

O Senhor agradeceu e voltou-se para Abel. – E tu?

– Eu, meu Senhor, trago-vos o meu carneiro mais gordo; sinto que está muito magro para vós.

Jeová sentia muita amizade por aquele que fôra o traço da sua reconciliação com os homens: Não… É um belo animal! e sentando-se puxou o carneiro para si. Enquanto falava ia-o afagando e o bicho mais se sentia no céu que na terra.

– Vejo, Abel, que és deveras meu amigo… e começou a ele a discernir sobre os rebanhos.

Decepcionado Caim deixou cair o que trouxera. As frutas maduras feriram-se nas pedras. Jeová olhou, parou de falar e, conservando uma das mãos na cabeça do cordeiro que lhe afocinhava os dedos, perguntou: – Que tens?

Tudo o que em Caim fervia no peito e zunia nas orelhas convergiu para a boca mas de tudo isso só saiu:
– Senhor! Nem contemplais o que vos trago! Hoje, como sempre, é a meu irmão que preferis! E o que vos trago é melhor que o dele… As mãos descaíram pesadas de amargura – Nem uma palavra, nem um louvor, nada… Vós sois Deus, vós sois o Senhor… Mas não tendes razão… Desprezais-me sem motivo…

Duas lágrimas apareceram, hesitaram e baixaram depois ao longo das faces deixando dois sulcos de tristeza.

Abel olhava o irmão e talvez estivesse contente vendo-o definir a sua superioridade.

Jeová, mal o desabafo de Caim fraquejou, atirou-lhe com seu amor-próprio ferido e a sua superioridade:

– Invejoso imundo! Não posso preferir quem eu quiser? Tenho de lho pedir? Eu sou quem sou! Tu nem és o que és! O teu coração pesa-te porque está cheio de falsidade e veneno! Os teus olhos choram porque ardem no fogo da tua maldade! Vergas o corpo para o chão porque mãos de demónios estão já apoderando dele! A tua inveja levou-te ao desrespeito do teu Senhor e da amizade de teu irmão…

Abel intercedeu: – Não vos zangueis com Caim, meu Senhor! Comigo é que ele se feriu e eu não me zanguei! Deixai-o…

– Perdoo-te o interromperes o Senhor teu Deus. E a ti perdoo-te por teu irmao; afunda-te, se quiseres, em ti mesmo e na tua maldade… Quanto ao que me trouxeste não aceito coisas de quem não me quer e não me acata! O carneiro vais levá-lo, Abel, porque te faz falta…

E lançando um último olhar àquele que esmagara desapareceu sem ruído.

Caim enovelado no seu desgosto murmurava distraído:

– Deus não é justo! não é justo…

O irmão chamou-o: – Vamos embora…

Levantou a cabeça: – Anh!?!

– Vamos! O Senhor já partiu…

Caim pôs-se de pé, pisou as suas espigas espalhadas pelo chão e repetiu maquinalmente: – Vamos…

Começaram a andar.

– Deus perdoou-te, afinal… – disse Abel – Não penses mais nisso. Deus ainda é bom…

– Perdoou-me por ti! E não é bom! gritou Caim e as mãos vigorosamente impelidas bateram na cara do irmão.

Abel recuou desequilibrado no corpo e espantado na alma. Caim inclinou-se para lhe bater de novo mas Abel então segurou-o pelo peito e caíram os dois.

Rebolaram sobre as pedras ferindo-se, mordendo-se, arranhando-se e batendo-se furiosamente.

Num dado momento Abel ficou de cima, dominou Caim e apertou-lhe o pescoço. Caim retesou-se para lhe escapar mas bem depressa a cabeça descaiu para o lado.

Abel levantou-se ofegante e ficou um momento parado, húmido de suor, empastado de sangue próprio e do irmão, braços pendidos, joelhos curvados, a pele que o cobria toda rasgada, a orelha esquerda rasgada também. Estava na beira do abismo. Seguindo-o com a vista passou a mão pela testa e deixou-a cair de novo. O corpo doía-lhe todo. Lembrou-se que podia sentar-se a descansar e que podia voltar para casa; mas tudo levou tempo a coordenar, a aparecer e a suceder-se.

Absorto no próprio cansaço não viu Caim voltar a si, mexer-se, levantar-se cautelosamente. Não o sentiu aproximar-se de braços estendidos.

Caim concentrou a última vontade, firmou-se e empurrou o irmão.
Abel levantou os braços e com o tórax avançado, o corpo arqueado, a cabeça descaída para trás, os cabelos eriçados, tombou para diante. Da garganta saiu-lhe um grito estridente, despedida angustiosa da alma que sente ir ser obrigada a abandonar o corpo.

O fratricida ficou, com os braços meio estendidos, petrificado no espanto de si próprio. Aos seus olhos desvairados parecia que Abel rolava no mesmo sítio e era a penedia que deslizava vertiginosamente para ele. Uma pedra pontiaguda aproximou-se. O crânio de Abel chocou com ela e fustigou-a de sangue; o corpo hesitou um momento e depois continuou o caminho para a torrente onde caiu. As águas fizeram-no voltear e esbracejar, lamberam-lhe o sangue e levaram-no consigo.

Caim quando a cabeça do irmão se estilhaçou deu um grito violento que o arranhou e encheu de pavor. Caiu de joelhos e agachado, mãos enclavinhadas no chão, olhou o irmão que a água transportava por entre as pedras. Um recorte alcantilado que encobria a torrente escondeu-lhe Abel. Ficou com a vista pregada nesse ponto; depois do íntimo estendeu-se por todo ele uma mágoa imensa e abateu-se sobre as pedras, amarfanhado a chorar. Não saberia dizer o tempo que assim esteve. Em seguida, a pouco e pouco, acabaram-se as lágrimas e adormeceu. O carneiro que durante a luta se afastara, aproximou-se lentamente, parou a decidir-se e deitou-se ao pé.

…………………………………………………………………………
– Caim!… Caim!… Uma voz chamava-o simultaneamente perto e longe, não sabia se dentro, se fora dele.

Deitou-se de costas e abriu os olhos. Era Jeová. Levantou-se e encarou-o. O Senhor olhava-o fixamente. Então Caim perguntou enquanto uma desconfiança atemorizada o apresava:

– Que me quereis, Senhor?

– Caim! pausou Jeová. Onde está o teu irmão?

Inúmeras ideias e sentimentos se atropelaram em Caim mas duas superaram: ódio à hipocrisia que respondia à sua hipocrisia e desejo de a atacar:

– Tenho alguma coisa com ele? Alguém me encarregou de o guardar?

O semblante divino escureceu e com ele tornou-se agreste a tarde que nascia.

Caim! gritou o Senhor. Que fizeste ao teu irmão? O seu sangue escorre dos teus dedos! O seu sangue perseguir-te-á! Assassino! Serás sempre maldito e todas as gerações te chamarão de maldito! O céu e o inferno não te abrirão as suas portas E a terra inteira te será hostil porquanto com o sangue que derramaste cairá sobre a tua cabeça a minha maldição!

Ele ouviu indiferente, a cabeça descaída sobre o peito onde os braços cruzados sustinham o apressado coração; ouvia assim porque tudo lhe era indiferente, porque tudo o que o Senhor lhe dizia já as suas lágrimas lhe tinham gritado.

– Eu sei que tu mataste o teu irmão! Eu já sabia que o ias matar! acrescentou num assomo de vaidade divina.

Uma revolta enorme endireitou Caim.

– Se sabia porque deixou? Porque não se entrepôs? Não era tão amigo dele? Porque me deixou matá-lo?

Deus defendeu-se: – Quis ver até onde ia a tua sede de maldade! Até onde se estende todo esse amontoado infame que teus pais aprenderam e te transmitiram no sangue! Quis julgar o vosso bem e o vosso mal! Porque…

– Sacrificaste-nos a mim e a ele à tua curiosidade horrorosa! Eu nunca teria matado o meu irmão se não me tivesses provocado… Para julgar o bem e o mal! O bem e o mal!! Que sabes tu deles?! Nem sequer lambeste a árvore!! Qualquer animal sabe mais do que tu!! E o pouco que sabes aprendeste connosco! É por isso que nos espias e nos provocas! Mesmo sem saber tu foste mau! Não tens alma à força de a espalhares em todas as coisas! És ridículo! Nem sequer sabes o que fazes! Eu rio-me! Vês?! – gargalhadas acres arderam-lhe nos lábios – eu rio-me de ti!… Se somos maus a culpa é tua! Para que envenenaste um fruto proibido?… Tu nada sabes de nós! Por isso nos espias! És a suma sabedoria! Então para que nos espreitas? Devias ter vergonha de ti mesmo! Eu nem a tenho de ti! Para quê? Olha, o mal é também isto! – Arrancou a pele que o cobria e atirou-lha – Mas é também o bem! E por mais que espies a este bem ou mal nunca chegarás! O amor é só p’ra nós! P’ra ti é só o amor-piedade, o amor-protecção… És mau! Odeio-te! Odeio-te!! Hás-de vingar-te de mim, que eu sei!… Não o faças em meus pais… Peço-te… que não saibam nada… De resto para nos substituir terão em breve outro filho… Não sentirão a nossa ausência… Repara que se lhes disseres alguma coisa feres também a memória do teu preferido! É só o que te peço… Porque te odeio! Escusas de me fulminar com o teu olhar que não tenho medo! Não tenho medo de ti!! Perdi tudo… nada me podes tirar! Só me resta a vida… e essa… para que a quererias tu?!! Irei por esse mundo fora gritar o meu crime que é a tua baixeza até cair exausto seja onde for, aqui ou além, agora ou daqui a tempo… E morrerei então… Mas morrerei contente! Saciado! Porque todos os que passarem pelos meus ossos dirão – Este é Caim, a vítima de Deus…

Calou-se cansado enquanto as lágrimas lhe vinham molhar o sorriso amargo que se obstinava nos lábios…

Deus ouviu tudo, sofreu tudo em silêncio, absorto em beber e meditar as palavras de Caim. Quando ele terminou, disse suspirando:

– Não quero ver se tens razão… Não me quero julgar… Se vós por vezes não compreendeis a alma que vos dei, eu também por vezes sou vítima da incompreensão da minha… Mas quero castigar-te. Não cairás em qualquer canto. Viverás. Porque sentirás o remorso do que fazes e do que dizes! Remorso tão subtil que te atormentará mesmo quando tiveres razão… Não gritarás nada porque ele te há-de abafar os gritos. Verás que acima de tudo me hás-de respeitar e hás-de chamar por mim. A revolta, que lançarás no teu peito, dele não sairá e ainda que passe aos filhos dos teus filhos, aos netos dos teus netos, do peito deles não sairá também… Vou dar-te um mundo novo para viveres. Nele terás filhos e serás feliz. – uma ponte, obra de anjos, apareceu sobre o abismo – Vai! Atravessa o teu cúmplice. Perdoar-me-ás como eu te perdoo…

Caim respondeu então:

– Hipócrita! Não me compras com as tuas escorregadias palavras de perdão… Vou-me embora, sim! Pode ser que tenha filhos! Pode ser que seja feliz! Que te perdoe, que chame por ti! Mas não há-de ser onde tu quiseres! Vou-me embora, mas não pela tua ponte! Não quero nada do que te pertence, não aceito nada do que me ofereces! Vou para onde a minha vontade me levar! Ofereces-me um mundo novo! Tudo quanto quiser conquistarei! Vou com a minha vontade! Ela é mais forte do que tu!

E virando as costas encaminhou-se para jusante. Lembrou-se do irmão que as águas transportavam no mesmo sentido. Voltou para trás. Ao passar diante do Senhor, silencioso e quieto, arredou com o pé a pele que o cobrira e, passando adiante, começou a sumir-se na noite que se aproximava.

O cordeirinho de Abel assistira a tudo sem compreender. E agora via-se entre Deus imóvel e Caim que se afastava.

Escolheu um momento e por fim, balando e às corridinhas, seguiu Caim.

Deus ficou olhando a noite e a sua ponte que nela branquejava. Pensativo, fê-la desaparecer com um gesto. Risos subiram-lhe aos ouvidos. Olhou. Das frestas das pedras caras escarninhas de diabos mofavam dele. Mal disposto, lançou-lhes um olhar que os fez esconderem-se; depois chamou uma nuvem, sentou-se nela e voltou para o céu.
 

acab. de comp. 28/4/38
acab. de rever 4/5/38

 

* In: Génesis (2a.ed. Lisboa: Edições 70, 1986).

O testemunho da guerra

Mini-antologia em torno do tema

Em mais uma forma de testemunhar o tempo que lhe foi dado viver, Jorge de Sena registrou em muitas páginas as não poucas guerras travadas no século XX, que, de vários modos, o afetaram, como teriam afetado aquele grande pintor “que tinha uma coração muito grande, cheio de fúria e de amor”. Alguns excertos exemplificadores:

 

Paredon1
Durante a Guerra Civil Espanhola, crianças “brincam” de fuzilar, reduplicando a terrível realidade cotidiana do “al paredón!”. Foto de Agustí Centelles, de 1937.

 

Em torno da Guerra Civil Espanhola

A falta de médicos e de remédios é que fazia sentir-se, mas era um efeito da guerra. De resto, a falar verdade, leprosos carne, não estavam lá muitos. Da carne? O padre ergueu os olhos, e as mãos quase postas, ao céu que empalidecia; e abanou a cabeça melancólico. — La lepra del alma es la peor. No es el comunismo la lepra del alma?
(“A Grã-Canária”, Os Grão-Capitães, 1976)

 

Sabe você que um amigo meu, durante a guerra de Espanha, era oficial miliciano em Chaves? E sabe você que os espanhóis do Franco, quando as nossas autoridades entregavam na fronteira algum foragido que se escapara para o lado de cá, mandavam depois uns cartões de convite para irem assistir ao fuziliamento?
(“Os Salteadores”, Os Grão-Capitães, 1976)
A Espanha estava realmente dividida. Os rebeldes consquistavam pouco a pouco os “altos” do Guadarrama, apertavam o cerco a Madrid. Mas parecia que a capital resistira. Dentro de dois ou três dias a situação ficaria mais definida ainda. O governo, por seu lado, apertava o cerco a Toledo. O desespero falsamente entusiasmado com que o Rádio Clube Português incitava os defensores do Alcázar, mostrava que a situação, aí, não era favorável aos rebeldes. O ministério presidido por Giral armara o povo, sem perder o apoio dos liberais, e controlava a situação do território que se revoltara ou onde as tentativas de revolta tinham sido sufocadas.
(Sinais de Fogo, 1979)
Em torno da 2ª Guerra Mundial

A certa altura tive de impor, autoritariamente, a disciplina. E mesmo me vi obrigado a mandar castrar, em execução pública, para exemplo, um homem (…). Eu nunca preguei a liberdade, mas a ordem; nunca preguei igualdade, mas hierarquia; nunca preguei a fraternidade, mas o livre arbítrio da raça que se purificou para tê-lo.
(“Defesa e justificação de um ex-criminoso de guerra”, Antigas e novas andanças do demônio, 1978)

 

Em torno da Guerra Colonial na África

— Tás a ver? A gente não sai daqui.
— Mas se agente aqui fica, estamos perdidos!
— Ora! Tanto faz a gente perder-se aqui como lá. Matam-nos de qualquer maneira. Toda esta pretalhada é contra nós.

(“Capangala não responde”, Os Grão-Capitães, 1976)

 

Poemas de Jorge de Sena sobre guerras:

2a. Guerra: “ Cinco Natais de Guerra, seguidos de um fragmento em louvor de J.S. Bach” (poemas de Pedra Filosofal, 1950).

Guerra do Vietnam: “ Cadastrado” e “ A vida e a morte como investimento segundo áreas geográficas” (poemas de Seqüências, 1980).

Todas as guerras: “ Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya” (poema de Metamorfoses, 1963).

 

A propósito do tema, e das relações entre História e Literatura em Jorge de Sena, ver:
ROMÃO, Márcio. Jorge de Sena: um escritor em tempo de guerras. In: Metamorfoses 8. Rio de Janeiro/Lisboa, Cátedra Jorge de Sena/ Ed. Caminho, 2008 p. 159-169
ROMÃO, Márcio. Das memórias à ficção: o quase de Jorge de Sena. In: Metamorfoses 9. Rio de Janeiro/Lisboa, Cátedra Jorge de Sena/ Ed. Caminho, 2008 p. 29-36

 

Desta vergonha de existir ouvindo

Um poema d’As Evidências no Portugal Democrático

O segundo soneto do livro As Evidências (1955) habitualmente não figura na listagem de “entradas” de Jorge de Sena no Portugal Democrático. No entanto, como lembra Douglas Mansur em seu verbete, é com estes 14 versos a sua primeira “aparição” no periódico: na página 5, do Portugal Democrático nº 29 , de outubro de1959, encimada pelo título de “Uma frente de batalha chamada poesia”, ao lado de mais 6 poemas, assinados por Alexandre O’Neill, Armindo Rodrigues, José Gomes Ferreira, Afonso Duarte, Carlos de Oliveira e Carlos Maria de Araújo. De organizador anônimo, a sucinta antologia (com textos datados de 1939 a 1958) é assim justificada: “Colhidos de livros e revistas publicados em Portugal, os poemas ora apresentados evidenciam a prolongada resistência oferecida pelos poetas à desumanização da sociedade portuguesa levada a efeito pelo regime de Salazar”. Cumprem-se, deste modo, as diretrizes do mensário, que, desde o “programa” estampado em seu primeiro número, declarava indissociável o político do cultural: ” a cultura portuguesa, que nas últimas décadas tantos atentados tem sofrido, merecer-nos-á especial carinho”.

Recorde-se que os sonetos de As Evidências “surgiram” a Sena depois de 7 meses sem produzir poesia — “crise de criação que sempre relembrarei com terror e saudade”, dirá no prefácio ao livro — que correspondem a período de vida extremamente angustiado, conforme demonstra no diário que na altura escrevia (de agosto de 1953 a outubro de 1954). Mas, eis que no dia 12 de fevereiro de 1954 aí registra: “Hoje, pela manhã, surgiram-me vários fragmentos de versos ou versos inteiros, que se me organizaram num poema e num soneto, que espero seja o primeiro da sequência por que anseio há tanto. Julgo-os do melhor que tenho feito, e satisfazem-me em comparação com o que, e raramente, andava fazendo”. Fechando a data diarística, lê-se na última linha: “Das 24 [horas] à 1:15, um segundo soneto”. Portanto, o poema “Desta vergonha…” é um dos poucos da obra seniana cuja gênese está minuciosamente datada (a ponto de, se quiséssemos ser rigorosos, permitir deslocá-lo para 13 de fevereiro…).

No aludido prefácio, recorda ainda Sena que, uma vez impresso, As Evidências “foi logo apreendido pela PIDE […] e só pode ser distribuído um mês depois, após repetidas visitas à Censura […]. O livro era, além de subversivo, pornográfico”. Para a imputada “subversão”, certamente este segundo soneto muito teria contribuído…

 

Desta vergonha de existir ouvindo,

amordaçado, as vãs palavras belas,

por repetidas quanto mais traindo

tornadas vácuas da beleza delas;

desta vergonha de viver mentindo

só porque escuto o que dizeis com elas;

desta vergonha de assistir medindo

por elas as injúrias por trás delas

ao mesmo sangue com que foram feitas,

ao suor e ao sémen por que são eleitas

e à simples morte de chegar-se ao fim;

desta vergonha inominável grito

a própria vida com que às coisas fito:

Calai-vos, ímpios, que jurais por mim!

12/2/1954

 

Uma autodefinição

De Poesia-I, 1977

O texto abaixo transcrito constitui o parágrafo final do “Prefácio à Segunda Edição” de Poesia I, datado de um ano antes do falecimento do escritor, o que, além do evidente caráter retrospectivo, lhe atribui valor quase testamentário.

 

Permitam-me que termine estas linhas citando a definição que dei de mim, quando escrevi o texto que me havia sido solicitado para o Encontro Internacional de Grado, na Itália, e que li em Roma, em Setembro de 1976, encontro esse que precedeu a honra insigne de haver-me sido concedido em Abril deste ano o Grande Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina de 1977, ao conjunto de minha obra, sem que, para tal, se tenham movido as mínimas influências diplomáticas em meu favor (e que aliás seriam descabidas, dada a organização do prémio que é efectivamente uma honra extraordinária que recebi tanto por mim como por Portugal a cuja literatura pertenço). Não é que proponha “explicar-me”. Mas creio que isso resume e ilumina o que eu sou, nas minhas convicções que, pior ou melhor, a minha poesia reflecte. Naquele escrito (que aparecerá em Portugal na reedição ampliada de Dialécticas da Literatura, a qual terá o título de Dialécticas Teóricas da Literatura) eu digo o seguinte: “Sou pessoalmente contra qualquer igreja organizada ou qualquer partido organizado, mas reconheço o direito de qualquer pessoa a ser um membro seja do que for, desde que a minha liberdade pessoal não seja com isso afectada. Religiosamente falando, posso dizer que sou católico mas não um cristão – o que apenas significa que respeito na Igreja Católica todo o velho paganismo que ela conservou nos rituais, nos dogmas, etc., sob vários disfarces, tal como a Reforma protestante não soube fazer. Acredito que os deuses existem abaixo do Uno, mas neste Uno não acredito porque sou ateu. Contudo, um ateu que, de uma maneira de certo modo hegeliana, pôs a sua vida e o seu destino nas mãos desse Deus cuja existência ou não-existência são a mesma coisa sem sentido. Filosoficamente, sou um marxista para quem a ciência moderna apagou qualquer antinomia entre os antiquados conceitos de matéria e espírito. Mas, politicamente, sou contra qualquer espécie de ditadura (quer das maiorias, quer de minorias), e em favor da democracia representativa. Não tenho quaisquer ilusões acerca desta – pode ser uma máscara para o mais impiedoso dos imperialismos. Mas isso também o podem ser outros sistemas. Sou a favor da paz e do entendimento entre as nações, e espero que o socialismo prevalecerá em toda a parte, mantendo todas as liberdades e a democracia representativa. Não subscrevo a divisão do mundo em Bons e Maus, entre Deus e o Diabo (estejam de qual lado estiverem). Apesar de minha formação hegeliana e marxista, ou também por causa dela, os contrários são para mim mais complexos do que a aceitação oportunista de maniqueísmos simplistas. Moralmente falando, sou um homem casado e pai de nove filhos, que nunca teve vocação para patriarca, e sempre foi a favor de a mais completa liberdade ser garantida a todas as formas de amor e de contacto sexual. Nenhuma liberdade estará jamais segura, em qualquer parte, enquanto uma igreja, um partido, ou um grupo de cidadãos hiper-sensíveis, possa ter o direito de governar a vida privada de alguém. Do mesmo modo, não devemos nunca pactuar com a ideia de que qualquer reforma vale o preço de uma vida humana. Mais do que nunca, num mundo onde as vidas humanas se tornaram tão baratas que podem ser gastas por milhões, aos escritores cumpre resistir. Poderemos ter revoluções: mas tenhamos esperança de que nelas as pessoas podem morrer por acidente, mas nunca assassinadas”. E por agora basta, quando Portugal – a quem a minha obra primordialmente pertence – tem de aprender a praticar as ironias democráticas, para sobreviver e ocupar, no mundo, o lugar que lhe cabe de antiqüíssima nação gloriosa: por uma vez, nesse país, que haja, na garantia da liberdade e da justiça, lugar para todos, como tão raras vezes houve. Do país subitamente falei. De lugares na literatura é melhor não dizer mais nada.
                                                                                                      

Santa Barbara, Julho de 1977
 

Quem é Jorge de Sena (à maneira de Curriculum)

De O Tempo e o Modo, 1968

Nasceu em Lisboa, em 2 de novembro de 1919, numa casa da Rua José Falcão, esquina com António Pedro, a Arroios, onde viveu até 1953. Essa casa foi demolida poucos anos depois desta data (mas é o cenário do conto "A janela da esquina", do volume Andanças do Demónio). Filho único e tardio de Augusto Raposo de Sena, natural dos Açores e comandante da Marinha Mercante, e de Maria da Luz Grilo de Sena, natural da Covilhã, ambos falecidos já. A família paterna era largamente de origem ou fixação açoreana; a da mãe era do Porto, com raízes transmontanas em cristãos-novos ou cripto-judeus. Ambas as famílias da alta burguesia, e a família paterna mesmo com presunções de aristocracia velha e predominância de militares, altos funcionários, etc., enquanto a materna era sobretudo de poderosos comerciantes portuenses. Nos fins do século XIX, os avós maternos, após a derrocada da sua casa, transferiram-se para Angola, onde vários tios nasceram e a descendência deles se multiplica. Mais tarde, os avós maternos regressaram a Portugal, fixando-se em Lisboa, onde vieram a morrer. A avó materna, depois de viúva, foi viver com o casal Sena, que, segundo as suas rígidas normas matriarcais, tinha direitos de primogenitura, já que Maria da Luz era a filha mais velha dos catorze filhos que tivera; e essa senhora teve uma influência cultural notável em quem foi o seu neto predilecto.

Jorge de Sena estudou a instrução primária e alguns dos primeiros anos do liceu, no Colégio Vasco da Gama, hoje extinto e substituído por um colégio de freiras, e concluiu os estudos liceais no Liceu Camões. Já noutros escritos (O Poeta é um fingidor, Lisboa, 1961) foi referido que uma sua tia-avó paterna era amiga de juventude da mãe de Fernando Pessoa (que, em casa dela, Jorge de Sena às vezes viu, quando não sabia ainda, nem estava em idade de pensar, quem ele fosse). E é interessante referir que, no 6o. e 7o. ano de Ciências, no Liceu Camões, Sena teve como professor de Físico-Químicas um jovem que iniciava a sua carreira e se chamava Rómulo de Carvalho e é hoje o poeta António Gedeão.

Os pais de Sena conheceram-se quando Maria da Luz, que se educara no Colégio de Santa Joana em Aveiro, instituição dominicana de grande prestígio na época (e que é hoje o Museu Regional daquela cidade), e onde ficara como instrutora, regressou à casa paterna em Angola, no planalto de Huila. Daí voltou ela pouco depois a Lisboa para casar, e em Lisboa viveu a sua vida inteira. Os navios, o mar, a vida marítima, foram uma realidade doméstica e pessoal de Jorge de Sena (parcialmente descrita no conto "Homenagem ao Papagaio Verde", publicado recentemente em O Tempo e o Modo), e a carreira com que sonhava e seu pai para ele sonhava (mas em termos mais "altos", a Marinha de Guerra…). Por isso, tirou os preparatórios para a Escola Naval, onde entrou em 1937, como no. 1 do seu curso. Como cadete de marinha, esteve em Cabo Verde, São Tomé, Brasil, Angola, Canárias. Algumas das suas recordações de viagens foram usadas no tríptico "Duas Medalhas Imperiais, com Atlântico", publicado em Andanças do Demónio, e no conto longo ou novela "A Grã-Canária", do volume inédito Os Grão-Capitães. Demitido da Marinha de Guerra, o seu desejo teria sido ingressar na Marinha Mercante, no que seu pai não consentiu, ou de prosseguir uma carreira de matemática, para o que o chamavam as altas classificações que tirara nos preparatórios para a Escola Naval. A isto se opôs violentamente a família toda, sobretudo paterna, que só aceitava carreiras militares, enquanto a materna não favorecia (na transformação social do antigo status comercial) senão carreiras liberais. Naquele tempo, as famílias tinham ainda um poder enorme na vida das pessoas, e tê-lo-iam bem mais, neste caso particular, após anos e anos de regerem o filho único de um pai sempre mitològicamente ausente, e que, sùbitamente, por um desastre e por doença, se tornara um inválido e se considerava desesperadamente e obsessivamente algo como um navio retirado de circulação e ancorado no Mar da Palha, antes de ser desfeito para sucata. 

Jorge de Sena começara a escrever conscientemente (e muito mal) nos princípios de 1936, sob a influência inicial de ter ouvido, pela rádio, La Cathédrale Engloutie de Debussy (o que é contado num dos poemas do último livro, Arte de Música). Mas era então, e no meio familiar, impensável (além de impossível para quem tirara o curso complementar de Ciências) um curso de letras. Foi então escolhido o curso de Engenharia, compromisso entre as matemáticas indignas e as profissões liberais condignas, que Sena tirou na Faculdade de Ciências de Lisboa e completou em 1944 na Faculdade de Engenharia do Porto. Naquela Faculdade de Ciências conheceu e teve por colega José Blanc de Portugal – e a sua estreia em letra de forma fez-se num jornalzinho efémero que nessa faculdade se publicou. De 1936 a 1939, Jorge de Sena desenvolveu a sua cultura literária, sem qualquer convívio com os meios respectivos (era de colegas de Ciências o conhecimento com José Blanc), e, quando a Presença publicou em 1939 o poema Apostilha, de Álvaro de Campos, como inédito, escreveu uma carta chamando a atenção para o facto de que esse poema havia sido publicado vários anos antes em Noticias Ilustrado, com variantes. A carta foi publicada por simbólica coincidência no último número daquela revista, de Fevereiro de 1940. E uma breve correspondência com Casais Monteiro, que acusara a recepção dela, culminou numa entrevista no 1o. andar do Café Chave de Ouro, no Rossio, que não existe já, e que era então um dos quarteis-generais, senão o quartel-general, do modernismo. Aí se reunia quase toda a gente que vivia em Lisboa, e aí apareciam os que a Lisboa vinham de vez em quando. Havia várias presidências de mesa, então apenas cordialmente hostis umas às outras, e que eram regularmente ocupadas por Gaspar Simões, Casais Monteiro e José Osório de Oliveira. Foi aí no Chave de Ouro que Jorge de Sena conheceu os rapazes dos Cadernos de Poesia. No n. 2 desta publicação, sob o pseudónimo de Teles de Abreu (apelidos seus de família), foram impressos os seus primeiros poemas a não aparecer em publicações sem repercussão nos meios literários. Foi isto em 1940. Em 1942, por cotização entre os directores do Cadernos e o autor, foi feita a edição do primeiro livro de poemas, Perseguição. Nesse mesmo ano, realizou Sena a sua primeira conferência pública, por acção de Ruy Cinatti, na Juventude Universitária Católica, a que não pertencia nem pertenceu nunca. O final dessa palestra (depois publicada na revista Aventura, e celebrando Rimbaud) foi marcado por um cómico incidente com o director espiritual daquela entidade, que ficou preocupado com o efeito deletério que Rimbaud e as interpretações expostas poderiam ter na pureza virginal das suas ovelhas.

De Outubro de 1940 até Novembro de 1944 (quando fez os últimos exames do seu curso), viveu Jorge de Sena sempre no Porto, com excepção de vindas a Lisboa pelo Natal e pela Páscoa, das férias grandes de 1940-1941 (passadas num estágio de topografia nos arrabaldes de Lisboa), e do 1o. ciclo de oficiais milicianos que foi chamado a fazer apesar de demitido da Marinha, no verão de 1942 em Penafiel, e do 2o. ciclo do mesmo curso militar que fez em Tancos, no verão de 1943. No ano lectivo de 1942-43, teve de abandonar os estudos no Porto e de ficar em Lisboa, por doença. Alguns aspectos da sua vida no Porto aparecem nos poemas de Coroa da Terra, que são desse período, assim como no conto A Campanha da Rússia do volume Andanças do Demónio. Experiências do curso de milicianos em Penafiel são dramatizadas no conto "As Ites e o Regulamento", do volume inédito Os Grão-Capitães. Outras experiências militares aparecem em outros contos desse mesmo volume, e reportam-se ao serviço como oficial miliciano que, em 1944, levou o autor aos Açores.

Em 1945, Sena começou a exercer a profissão de engenheiro, tendo sucessivamente servido na Câmara Municipal de Lisboa, na Direcção Geral dos Serviços de Urbanização, e na Junta Autónoma de Estradas, tendo entrado para o quadro deste último organismo, de que se separou ao fixar residência no Brasil em 1959. Após uma longa agonia que consumiu o que a família tinha e não tinha, seu pai morreu em 1944, e a avó materna oito dias depois. Casou em princípios de 1949. De 1949 a 1959 nasceram ao casal sete filhos. Em 1953, o casal mudou-se para uma casa do Bairro do Restelo, onde a mãe de Sena faleceu em 1967. Só em 1952, após as viagens de 1937 e a ida aos Açores em 1944 (mas após sete anos de conhecer Portugal de ponta a ponta, como engenheiro da J. A. E.), é que Sena saiu de Portugal para a Europa, numa viagem a Inglaterra. Dessa época em diante viajou muito por Espanha, e em 1957 voltou a Inglaterra, tendo também então visitado a Bélgica e estado em Paris.

Em Agosto de 1959, Sena, convidado a tomar parte no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros pela Universidade da Bahia e pelo Governo Brasileiro, partiu para o Brasil onde aceitou ficar como catedrático contratado de Teoria da Literatura, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, no Estado de São Paulo, experiência de nova estrutura universitária do governo daquele Estado do Brasil. Em 1961, transferiu-se para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, pertencente ao mesmo sistema universitário, como catedrático contratado de Literatura Portuguesa, cargo de que se licenciou em Outubro de 1965 para partir para os Estados Unidos da América, e de que pediu a demissão em 1967. No Brasil deu cursos ou conferências em diversas universidades: a do Brasil, as de Recife, Ceará, Minas Gerais, Bahia, etc., e fez parte da comissão do Ministério da Educação Nacional, que propôs a reformulação dos currículos superiores de Letras. Na Universidade de São Paulo, foi membro de vários júris para doutoramento, livre-docência (que equivale, em Portugal, ao concurso para professor extraordinário) e cátedra. Em 1964, após numerosas dificuldades burocráticas ou outras, Sena conseguiu defender tese de doutoramento em Letras e de livre-docência em Literatura Portuguesa, e os títulos académicos foram-lhe concedidos "com distinção e louvor". O júri era composto por catedráticos das Universidades do Brasil (Rio de Janeiro), São Paulo, Minas Gerais, e Bahia. A tese é Os sonetos de Camões e o soneto quinhentista peninsular, ainda inédita, para lá da edição original mimeografada.

Em 1965, convidado pela Universidade de Wisconsin (considerada uma das "ten top" nos Estados Unidos), Sena deslocou-se para os Estados Unidos, para reger cursos avançados de literatura portuguesa e de literatura brasileira, e dirigir teses de doutoramento em literaturas de língua portuguesa. Após dois anos como "visiting professor", foi nomeado catedrático do Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Wisconsin, ou seja, na terminologia americana, "full professor with tenure". Nos Estados Unidos, tem feito conferências em diversas universidades; e falado ante agremiações de cultura. Foi eleito em 1966 académico da Hispanic Society of America, e é membro da Modern Language Association e da Rennaissance Society of America. No Brasil, teve bolsas do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, para as suas investigações camonianas. Tem-nas recebido também de instituições americanas e da sua Universidade.

Participação em congressos técnicos ou literários, secretarias de alguns deles, trinta anos de colaborações dispersas em jornais e revistas de vários países, etc., eis o que é impossível resumir mesmo brevemente num currículo como este, sendo de destacar a acção como crítico literário em Mundo Literário, como crítico teatral na Seara Nova e na Gazeta Musical e de todas as Artes, e como conferencista sobre cinema nas secções do Jardim Universitário de Belas Artes, além dos artigos que publicou em O Primeiro de Janeiro e em O Comércio do Porto. Poemas de Sena estão traduzidos e publicados em espanhol, francês, inglês, alemão, croata e lituano. 

Entrevista em Moçambique, julho de 1972 [fragmento]

Em áudio: Trecho da Entrevista.

Em 1972, durante sua viagem ao continente africano, Jorge de Sena concedeu uma entrevista à Rádio Moçambique, no dia 19 de julho, a ser transmitida no programa "A noite e o ouvinte", produzido por Manuel Tomaz e Leite de Vasconcelos (o entrevistador). Censurada logo depois de sua gravação, esta entrevista nunca foi transmitida. Tratam-se, na verdade, de 86 minutos de intensa reflexão crítica, histórica e literária de tudo aquilo que rodeou a vida e a obra de Jorge de Sena. Nas claras e longas respostas, encontra-se vasta gama da conhecida erudição de Sena, articulada com um notável empenho pedagógico e um refinado senso de humor, que revelam o grande tecido de considerações estéticas, políticas e históricas, dentre outras, de que se fez o pensamento seniano. Após 38 anos, coube à Antena 2 a primeira transmissão radiofônica desta verdadeira "relíquia" (no dia 2 de novembro de 2010, quando Sena completaria 91 anos). E mais detalhes sobre as circunstâncias que a cercam podem ser ouvidas em http://www.rtp.pt/antena2/?t=Jorge-de-Sena-1919-%96-1978.rtp&article=1570&visual=2&layout=5&tm=5, no vivo testemunho do próprio jornalista Manuel Tomaz, a quem se deve sua preservação.
 

 


Imagem: Jorge de Sena e a Ilha de Moçambique. Fotografia de Rui Knopfli.

 

MT – Suponho que não vale a pena fazer qualquer espécie de apresentação ao público. Jorge de Sena é suficientemente conhecido e vai perdoar-nos o facto de não antecedermos de qualquer título o nome de Jorge de Sena. Vamos começar por perguntar ao poeta Jorge de Sena como chegou à poesia, se houve algum itinerário que o conduzisse a ela, nomeadamente um itinerário de leitura e de análise de outros poetas.

JS – […] O que me aconteceu foi o seguinte: eu escrevi sempre, sem ter consciência disso, desde quando era criança, e por volta de, suponho eu, quando tinha 16 anos, comecei a escrever conscientemente do que escrevia. […] Eu conhecia bastante, nesse tempo, os clássicos, […] conhecia vários poetas estrangeiros das línguas que podia ler e estimava, e procurei ler mais, mas só depois é que eu comecei a conhecer os poetas modernos portugueses. Eu vivia tão fora do que fosse vida literária em Portugal que nem sabia que eles existiam. E aconteceu uma coisa muito curiosa: eu mostrava alguns dos meus primeiros poemas a colegas meus, primeiro de liceu, e depois de faculdade. E havia um par de amigos meus que tinham uma paciência, coitados, de ouvir aquilo tudo que eu mostrava. E uma das coisas que mais influência teve, por curioso que pareça, na maneira como eu me tornei independente na forma de escrever, foi a estreiteza de um dos meus colegas, que tinha a convicção de ser um dos homens mais inteligentes do mundo (sempre teve, coitado), e era um homem muito inteligente, realmente, mas que não entendia e que não conhecia nada de poesia moderna, e quis constantemente insistir em que aquilo tudo que eu escrevia não era poesia, nada daquilo era poesia, nada daquilo eram versos, nada daquilo tinha regularidade nenhuma, era uma coisa perfeitamente inclassificável. E foi, talvez por uma espécie de oposição ou reacção contra aquela atitude dele tão rígida, e de outras assim, que eu fiquei um poeta moderno sem me dar conta. Quando depois eu comecei a ler mais poesia moderna, muito admirado verifiquei que eu era um poeta moderno e não sabia.

MT – Ora, a poesia portuguesa, desde que Jorge de Sena começou a escrever, passou por vários caminhos, sofreu várias influências, e falou-se de várias correntes, ou existiram de facto várias correntes na poesia portuguesa. Jorge de Sena alguma vez sentiu-se incluído em algumas dessas correntes?

JS –[…] Eu senti-me sempre incluído em diversas correntes. As correntes é que nunca me consideraram incluído nelas. […] Estando eu a par do que se passava e sendo eu muito curioso de conhecer literatura, eu ia sabendo do que se passava nas outras literaturas e não estava, portanto, a descobrir a pólvora. […] Por exemplo, eu creio que fui neo-realista, eu creio que fui surrealista etc. ao mesmo tempo, ou antes, das pessoas que apareceram depois com os “ismos”. Quer dizer: eu fui neo-realista quando conheci os neo-realistas, juntamente com eles. […] Quando apareceram os Cadernos de Poesia (que primeiro foram organizados, como se sabe, por José Blanc de Portugal, Rui Cinatti e Tomás Kim…) […] comecei a colaborar com eles – atitude, digamos, de vários dos neo-realistas, que o neo-realismo estava ainda a aparecer nessa altura, as obras ainda estavam por vir… O que havia eram as polêmicas, em grande parte como já costumava acontecer com os movimentos literários… E acontece que muitos desses neo-realistas eram nossos amigos pessoais (e continuaram a ser, como ainda são hoje), outros não eram, e, de uma maneira geral, catalogaram Cadernos de Poesia como sendo uma coisa que era o contrário deles. Mas os Cadernos de Poesia não eram o contrário deles, nem desde a primeira hora, até porque… as pessoas habitualmente ignoram, ou não sabem, ou nunca viram uma coleção dos Cadernos de Poesia, que é hoje uma coisa muito rara. […] Toda a gente, de todas as cores (menos para um certo lado), todas colaboraram nos Cadernos de Poesia, e todas foram convidadas a colaborar nos Cadernos de Poesia e colaboraram neles, o que prova evidentemente que os Cadernos de Poesia não eram contra eles, senão tinham-nos excluído. Mas fazia parte, evidentemente, do mito (e há sempre os mitos polémicos em todas as coisas), de que as pessoas eram contra aquilo […] E houve sempre outra coisa que nunca se entendeu, e que eu desejaria explicar: em Portugal é muito difícil, e sempre foi – e isso vem dos próprios defeitos da maneira de como a literatura é ensinada tradicionalmente – que as pessoas não sejam todas arrumadas numa prateleira, com uma ficha de catálogo, com um rótulo de um “ismo”, de um isto ou daquilo ou daquilo outro, e, quando as pessoas não acertam numa coisa destas, estamos todos perdidos, porque os historiadores literários estão habituados a arrumar tudo segundo o catálogo e quando encontram uma pessoa em quem não podem pôr um rótulo simples, deixam-nos ficar no fundo da página, não é? E é o que costuma acontecer. E aconteceu connosco, com todos nós. Uma das coisas mais curiosas, por exemplo, é falar-se assim do “grupo” dos Cadernos de Poesia como se os Cadernos de Poesia tivessem sido um grupo. Os Cadernos de Poesia não foram um grupo; foram uma série de pessoas que fundaram uma revista com a intenção de que a qualidade poética, dentro de certos limites de exigência de consciência do mundo, fosse preservada, numa altura em que, de um lado, nós tínhamos a presença, os homens da presença, a gritar pelo documento humano etc. etc. (e nunca diziam à gente como é que as pessoas escreviam fosse o que fosse) ou, do outro lado, tínhamos outros sujeitos a exigir que as pessoas se comprometessem aqui, ali e acolá. E todos a escreverem da mesma maneira, como os presencistas escreviam, e os presencistas e eles todos a escreverem como se escrevia antes de existir o Fernando Pessoa, não é? E esse é um dos raros segredos que a Crítica Literária não costuma sublinhar e é assim. E a atitude que nós assumimos coletivamente não foi a de um movimento. Foi, digamos, a de reagir, não contra as idéias, mas contra o facto de, no meio daquilo tudo, as pessoas se esquecerem de que a poesia se faz com palavras, a poesia se faz com expressão poética, a poesia se cria como um objecto estético, e não são necessariamente as idéias, ou as boas intenções, ou o documento humano, que faz seja o que for um objecto estético: é a própria arte com que as coisas são feitas.

MT – […] Ainda há pouco tempo eu ouvi alguém, aliás na rádio, a referir-se ao que deve ser a poesia, frisando até, ou enunciando até certas normas, significando uma função social da poesia e a necessidade daquilo que os ingleses poderiam chamar um commitment ou os franceses um engagement. Qual é a posição do Jorge de Sena em relação a estes aspectos?

JS – Bem, eu acho que eu fui sempre, nesse sentido, um poeta engagé, ou se quiser um poeta commited. A única coisa que eu nunca fui, não sou e creio que agora já é tarde para ser é estar commited ou engagé a qualquer programa que me seja imposto por alguém. Eu sempre estive commited ou engagé às idéias que me impus, ou que eu aceitei eu mesmo. Quer dizer que eu nunca aceitei quaisquer programas partidários de qualquer espécie. Eu nunca pertenci a nenhum partido político, não pertenço e creio que nunca pertencerei… Da mesma forma que nunca pertenci a secções de futebol, a clubes de classe, a outras coisas; que sempre fui a pessoa menos associativa do mundo, porque acho que associação, nesse sentido, é o oposto da coisa que mais estimo, que é a convivência humana. Eu acho que conviver é muito mais importante do que a gente associar-se para comer bacalhau, ou a gente associar-se para celebrar o aniversário do Infante D. Henrique, ou a gente associar-se para salvar o universo, inclusivamente, porque há numerosas formas de salvar o universo, o que faz que todas juntas não cheguem para isso.

MT – Poeta português, e não apenas por linguagem, Jorge de Sena não vive em Portugal. E como, portanto, pode assumir, longe, a realidade [literária] portuguesa?

JS – […] Quando nós estamos de longe, temos pelo menos uma possibilidade, que é escapar àquele problema que sempre existe de, no meio da floresta, não se ver floresta por causa das árvores. E também aos erros de perspectiva, que fazem a gente julgar que uma árvore pequenina que está ao pé de nós é muito grande, e que uma árvore muito grande que está longe de nós é muito pequenina. E é exactamente isso: quando a gente está de longe vê-se melhor, corrigem-se melhor as coisas. Além do mais, eu penso que […] ninguém tem a obrigação de ser o registro civil de tudo que se publica num país. A gente tem sempre tempo de esperar algum tempo, de saber quem é que se afunda e desaparece, quem é que fica. E aqueles que ficam a gente vai ler depois. Não há necessidade de ler todas as semanas tudo o que se publica. Até porque eu acho […] que todas as literaturas normalmente são feitas de obras notáveis e de obras relativamente medíocres. E se a gente passar a vir todas as semanas a ler 80% de porcarias e 20% de obras boas, a gente acaba por medir as coisas boas pelo nível da porcaria, não é?

 

Para ouvir a gravação completa da entrevista: clique aqui.

Para ler a transcrição na íntegra: clique aqui.

Entrevistas

entrevistaEstão aqui listadas, em ordem cronológica, as entrevistas (editadas) de Jorge de Sena a diversos interlocutores, em Portugal, no Brasil e pelo mundo:

1) “Três perguntas e três respostas: uma entrevista com o poeta Jorge de Sena.” Entrevista a Vasco Miranda. Império 45/46. Jan./Fev. de 1955. Reproduzida em Diário do Norte, 6/03/1958. Reproduzida parcialmente em “Porque acima de tudo… (duas entrevistas, à guisa de Epílogo)”, O Reino da Estupidez (1961; 3a.ed., 1984, p. 161-163)

2) “‘Cultura é livre discussão e esclarecimento e conquista pessoal da liberdade de reflexão e expressão’ – Diz-nos o engenheiro Jorge de Sena, notável poeta e crítico literário”. Entrevista. República, 18/07/1956. p.1-2. Reproduzida parcialmente em “Porque acima de tudo… (duas entrevistas, à guisa de Epílogo)”, O Reino da Estupidez (1961; 3a.ed., 1984, p. 161-163)

3) “Aspectos da literatura actual: conversando com o poeta Jorge de Sena”. Entrevista. República, 23/10/1958. p.1-2.

4) “Jorge de Sena não crê em poesia concreta, só nos concretistas”. Entrevista a Paulo Carvalho. Tribuna da Imprensa, 26/09/1959

5) “Jorge de Sena (crítico e poeta) no Brasil”. Entrevista. Jornal de Letras, nov. de 1959. p. 8. Reproduzido parcialmente, como “Jorge de Sena no Brasil”, em Correio do Ceará, 18/11/1959.

6) “Sobre ‘teatro de vanguarda’”. Entrevista à Radio Difusora de Assis. São Paulo, 13/04/1960. Reproduzido em Do teatro em Portugal (1989, p. 387-388)

7) “Conversa com o escritor”. Entrevista a Laís Corrêa de Araújo. Estado de Minas, 27/08/1961. p. 3-4.

8) “Uma escola de liberdade e dignidade: Jorge de Sena fala sobre literatura inglesa”. Entrevista. Notícias literárias 14, julho de 1963.

9) “A Lírica de Camões será reeditada em novas bases pelo escritor Jorge de Sena”. Entrevista a Alexandre Eulalio. O Globo, 16/02/1965. p. 9

10) “Falando com Jorge de Sena”. Entrevista a Arnaldo Saraiva. Jorge de Sena. Número especial de O Tempo e o Modo, 59 (abril de 1968). p. 409-430. Reproduzido como “Jorge de Sena”, em Encontros des encontros, de Arnaldo Saraiva (Porto: Paisagem, 1973. p.47-74). Reproduzida parcialmente em Versos e alguma prosa de Jorge de Sena, edição de Eugénio Lisboa (Lisboa: Arcádia; Moraes, 1979. p. 137-144).

11) “Diálogo com Jorge de Sena”. Entrevista a Mário Alexandre. República, 31/12/1968.

12) “Camões é, para mim, um dos raros poetas portugueses que ainda estão vivos”. Entrevista a Nuno Rocha. Diário Popular, suplemento Quinta-feira à tarde, 02/01/1969. Reproduzido em O jornalismo como romance: pessoas e paisagens, de Nuno Rocha (Lisboa: Nova Nórdica, 1983. p. 35-39).

13) “Encontro de Óscar Lopes com Jorge de Sena”. Entrevista a Óscar Lopes. Diário de Lisboa, Suplemento Literário, 09/01/1969.

14) “Cinco minutos com o escritor Jorge de Sena”. Entrevista. O Primeiro de Janeiro, 22/01/1969. p.12

15) “Os problemas da política não são uma especialização. A política é a vida de todos os dias.” Entrevista a Fernando da Costa. Vida Mundial, 7/03/1969. p.31-35

16) “Jorge de Sena fala a VM”. Entrevista. A Voz de Moçambique, 3/05/1970. Reproduzida como “Raízes sociológicas e económicas da evolução do Português no Brasil e outros problemas”, em Notícias da Beira, 23/05/1970. p.8-9.

17) “Jorge de Sena: ‘Vivemos no mundo de hoje uma total revolução cultural'”. Entrevista a António Aragão. Comércio do Funchal, 05/07/1970. p. 3-5. 12/07/1970, p. 6

18) “Encontro com Jorge de Sena na sua casa de Santa Bárbara”. Entrevista a Nuno Rocha. Diário Popular, 30/06/1971. p.34-35. Reproduzido em O jornalismo como romance: pessoas e paisagens, de Nuno Rocha (Lisboa: Nova Nórdica, 1983. p.190-201)

19) “‘Os meus amigos morrem de cancro, de tédio, de páginas literárias’: Jorge de Sena”. Entrevista a Filipe Vieira. Notícias, 16/07/1972. p.10

20) Entrevista a Manuel Tomaz, para a Rádio Moçambique (Lourenço Marques). Gravada em 17-18/07/1972. Publicada em versão condensada como “Jorge de Sena fala a seus contemporâneos – uma entrevista inédita”, editada por Sebastião Edson Macedo, em Metamorfoses 8 (Rio de Janeiro; Lisboa: Cátedra Jorge de Sena; Caminho, 2008. p.235-257)

21) “Jorge de Sena: ‘É preciso saber em que consiste a autonomia da universidade americana!’”. Entrevista. Notícias da Beira, 24/07/1972. p. 2

22) “O governo norte-americano cortou quase todas as verbas para os cursos de português”. Entrevista. Diário Popular, 09/08/1972. p.12.

23) Entrevista com Jorge de Sena. De J. F. Jorge. Notícias da Beira, suplemento Revista, 20/08/1972. p. 5

24) “Jorge de Sena: uma longa história no reino dos equívocos”. Entrevista a João Carreira Bom. Vida Mundial, 25/08/1972. p. 6-14. Reproduzido parcialmente em Versos e alguma prosa de Jorge de Sena, edição de Eugénio Lisboa (Lisboa: Arcádia; Moraes, 1979. p.172-177)

25) Interviu cu Jorge de Sena. De Marian Papahagi. Steaua 22, nova série (16/30, nov. 1972). p.23-26

26) “A cultura não progride em linha recta mas em progressões e regressões de que se cria a tensão dialéctica em direcção ao futuro”. Entrevista a Baptista-Bastos. Diário Popular, suplemento Quinta-feira à tarde, 5/07/1973

27) “Jorge de Sena fala de educação e literatura”. Entrevista a Curtis Holguin e John Pérez. Jornal Português, 25/04/1974.

28) “Poet”. Entrevista a Ava Gutierrez. Herald Examiner, março de 1976.

29) “Jorge de Sena em Lisboa: ‘Portugal precisa apenas de confiar'”. Entrevista a Helder Pinho. A Capital, 20/09/1976. p.9

30) “De passagem em Lisboa para Itália: o poeta e ensaísta Jorge de Sena”. Entrevista a José Valentim Lemos. O Dia, 20/09/1976. p.10-11

31) “Jorge de Sena a propósito de Camões”. Entrevista. Diário de Notícias, 24/09/1976. p.8

32) “Jorge de Sena: ‘Parece-me que vejo em funcionamento os velhos hábitos do Estado Novo'”. Entrevista a Baptista-Bastos. Diário Popular, suplemento Letras e Artes, 30/09/1976. p. 4-5

33) “Jorge de Sena risponde a tre domande su Pessoa”. Entrevista de Luciana Stegagno Picchio. Quaderni Portoghesi 1 (primavera, 1977). p.137-158. Reproduzido como “Resposta a três perguntas de Luciana Stegagno Picchio sobre Fernando Pessoa”, em Fernando Pessoa e Ca. Heterónima (1984, p. 391-408)

34) “Jorge de Sena: ‘Ao aceitar a Comenda da Ordem do Infante'”. Entrevista a João Alves da Costa. Diário Popular, 06/05/1977. p.28

35) “Jorge de Sena, escritor portugués, en Salamanca: ‘La guerra civil española fue para nosotros un cambio tremendo'”. Entrevista a Ignacio Moneo. El Adelanto, 21/05/1977. p.3

36) “Jorge de Sena: ‘Continuo a considerar-me um escritor português'”. Entrevista a Manuel Poppe. Diário de Notícias, 02/06/1977. p.17-18. Reproduzido em Portugal Informação, 20/21, segunda série. Agosto/setembro 1977 (p.8-10). Reproduzido em Palavras no Tempo; vol. 2: Cultura (Lisboa: Diário de Notícias; INCM, 1991. p.71-78)

37) “Fui sempre um exilado mesmo antes de sair de Portugal”. Entrevista a João Camacho Costa e João Lopes. Abril, 3 (abril de 1978) p. 36-38. Reproduzido em Diário Popular, suplemento Letras e Artes, 27/04/1978.

38) “Jorge de Sena: ‘Não pedi, não peço e – mais – não aceito'”. Entrevista a Arnaldo Saraiva. O Jornal da Educação 11, abril de 1978. p. 26-31

39) “Jorge de Sena: ‘Tudo quanto é humano me interessa’”. Entrevista a Frederick G. Williams. Gravada em 04/05/78, na Universidade da Califórnia (Santa Bárbara). Trad. Mécia de Sena. Dossiê “Sena, de novo”, Edição Jorge Fazenda Lourenço. JL, 14/05/1985. p.18.

40) “Neste país somos julgados pelo que não escrevemos”. Entrevista a Fernando Dacosta. Diário de Notícias, 14/09/1978. p.17-18

 

* Levantamento e ordenação de Luciana Salles, a partir de Uma Bibliografia Cronológica de Jorge de Sena (1939-1994), de Jorge Fazenda Lourenço e Frederick G. Williams.

De Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia_e_Sena

Carta(s)
a Jorge de Sena

I

Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde
II

E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida

 

III

Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem –
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como o filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
– Grandioso vencedor e tão amargo vencido –
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos

 

IV

E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta

 

in: Ilhas. Lisboa: Caminho, 2004. p. 41-42.

 

A vida de Camões

Da vida de Camões pouco sabemos
E fantasias de historiadores pouco interessam
Bem mais reais e exactos me parecem
Poemas contos e as convocações
De Super Flumina Babylonis
Onde o inscreveu se inscreveu nos inscreveu Jorge de Sena

De Camões direi que nos é pátria:
Este preciso sabor de exílio
Que há muito nos conhece e há muito conhecemos

 

in: Jorge de Sena: Ressonâncias & Cinquenta Poemas. (org. Gilda Santos) Rio de Janeiro: 7Letras, 2006. p.248.

De Vasco Graça Moura

Em 2005, num encontro com jovens, Vasco Graça Moura foi surpreendido pela leitura de “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”, com que o quiseram homenagear. Ao agradecer, valeu-se do ensejo para ampliar o conhecimento dos presentes sobre o autor do poema. Sacou da memória elementos da vida e obra do escritor e improvisou uma apresentação em traços largos desse Jorge de Sena que lhe inspira uma admiração sempre reiterada. Abaixo, transcrevem-se as palavras finais da breve “aula” (segundo http://www.(…)vascogracamoura03.pdf):
Um homem com uma obra vastíssima no domínio da investigação, ensaio, romance, teatro, tradução… Não há praticamente nenhuma área da criação literária que ele não tenha percorrido.

Tinha uma capacidade inovadora extraordinária. No livro em que sai esta obra [o poema “Carta a meus filhos…”], Jorge de Sena faz uma coisa inovadora: ligar um livro inteiro (Metamorfoses) a obras de arte visuais. Depois veio a ligar um outro livro inteiro a obras de arte musicais. Isto é extraordinariamente moderno na vida e cultura do séc. XX e tem a ver com o chamado ekfrasis – um “palavrão” grego que designa a descrição verbal de uma obra de arte visual, precisamente isto que ele faz com o quadro “dos fuzilamentos”. E tem coisas semelhantes, como quando se reporta a um busto de Camões, uma gazela da Ibéria encontrada numas escavações, etc. Esta visão do Jorge de Sena foi extremamente inovadora. Havia um poema do Jaime Cortesão, dos anos 15 ou 16, sobre Botticelli e um poema de Eugénio de Andrade sobre uma pintura de Augusto Gomes, dos anos 40, mas não havia praticamente mais nada. Depois de Jorge de Sena, muitos outros seguiram esses passos.

Ele é muito importante porque também representa a consciência de Portugal vista por um exilado. A partir de 59 viveu fora de Portugal (embora tenha vindo cá em 77 e em 69, quando eu o conheci pessoalmente). Sendo ele um homem de esquerda e avesso àquele Portugal e ao salazarismo, teve sempre um olhar muito amargo sobre a nossa realidade, porém, extremamente lúcido. Um pouco como aquilo que encontramos em outros pensadores que viveram ou vivem no estrangeiro, já desde o séc. XVIII, os chamados “estrangeirados”. Ou aquilo que vemos em Eduardo Lourenço, figura incontornável que tem vivido basicamente em França.

Gostava de salientar que o Jorge de Sena se bateu sempre pelo livro e pela cultura portuguesa, não em termos de paroquialismo fechado mas com abertura ao mundo e em contacto vivificante com outras culturas. Penso que é exemplar ter sido aqui lido um dos grandes poemas políticos da Literatura Portuguesa. Este é um dos maiores gritos em favor da dignidade humana que a Literatura Portuguesa produziu.

Na sua própria produção poética Vasco Graça Moura evoca Sena em vários momentos. O mais marcante encontra-se no poema “Jorge de Sena na Ilha de Moçambique”, do livro Os Rostos Comunicantes, 1984. (Já pelo título do poema, é impossível não pensar num imediato diálogo com os versos senianos de “Camões na Ilha de Moçambique”)

 

jorge de sena na ilha de moçambique

debruçado a esta janela quinhentista sobre a água lilás
do pôr do sol, jorge de sena repousava os olhos, ainda ofuscado
pela brancura da pedra e de tanta memória gastando-se
até onde pobremente o camões se arrastara

e um d.joão de castro está sepulto. fora uma tarde desmedida
de amargos deslumbramentos, de intimidades fragmentárias, de
coisas a ressoar (“e nunca pude saber dele”
diz-se, na década oitava, de um manuscrito roubado).

jorge de sena andou por aqui enxugando o suor com um enorme lenço
e rugidos na alma, e nem viu as acácias, o seu fogo insolente, as mulheres de máscara branca,
crispado entre os amigos nesta escala da passagem
de nada para parte nenhuma, por ruelas e pátios de má fortuna abandonados.

viu sim os rebocos desfeitos pela traça do tempo, tanta textura de flores esboroadas,
tanto mapa perdido de aventurososo destinos,
e viveu tudo isso como se o próprio orgulho, a prumo, com o seu nobre olhar
de exilado, fosse uma altiva insensatez.

sentia essa embargada transparência, um tão ágil amor desesperado,
e tinha de ter raiva: nem há neutralidades anódinas, é-se apanhado
por estas evidências a crescerem em nós como o coral insuportável
ramificando-se desta luz, desta água, desta força honrada do lugar.

a tarde foi caindo até ao cinzento escuro
e era parda a vela subitamente içada (ou rósea ainda?)
de algum barco pequeno cuja sombra partia. como é possível o trabalho
de peregrinar sem vir aqui? possível que isto vá morrer?

“o coração da vida está na lucidez das cicatrizes
que nos povoam” disse-lhe circe na praia transformando-o
no vulto que descia a correr as escadas da prelazia até
à misericórdia, ao palácio do governador, à rua dos arcos,

desprezando a quem implorava. ou não desceria
porque lá esteve antes, mas que interessa?
se andava por aqui crivado de dívidas e de versos
e lhe haviam tirado o seu parnasso e foi furto notável

e muito mais do que isso é comover-nos
este adobe de lembranças a destempo, esta severa condição
de um jogo limpo em que o real
só é dizível porque algumas palavras o destroem

e algumas palavras lhe resistem. anonimamente
jorge de sena voltou a pagar os duzentos cruzados da dívida:
camões parte amanhã mas continua aqui.
nem é desterro nosso que assim seja.

Vasco Graça Moura, Os rostos comunicantes, Lisboa, D. Quixote, 1984 p. 22-25

Capangala não responde

De Os Grão-Capitães. Em vídeo: Cenas de guerra no ultramar português. Voz de Salazar (“Sem hesitações…”).

 

Escrito no Brasil, em Assis, e datado de 25 de junho de 1961, este conto de Os Grão Capitães é um dos primeiros textos ficcionais da Literatura Portuguesa a tomar como cenário a guerra em África. Decerto, Sena valeu-se das informações sobre ela que abundantemente chegavam ao jornal paulista Portugal Democrático, no qual atuava desde 1959.

A excisa virilidade de Urano caiu no mar inquieto, aonde, da terra firme, Cronos a lançara. E por muito tempo vagou desencontrada. (apud Teogonia de Hesíodo)

“África, 1961”

– Capangala?
– Patrulha 20 chama Capangala.
– Capangala?
– Patrulha 20 chama Capangala.
– Um momento, trrrr… Capangala?
– Patrulha 20 chama Capangala.
– Já ouvi. Espere. Capangala?
– Patrulha 20 chama Capangala.
– Capangala não responde. Zzzzzzzz. Tique.

Pousou o telefone na caixa, levantou-se (estava de cócoras ao lado da caixa). De mãos nos bolsos, ficou a olhar o telefone de campanha, adiante das biqueiras das botas. O 37, esparramado nas ervas baixas e empoeiradas, roncava num sibilo como o do telefone. Voltou-se. O 401, sentado no chão, com os braços cruzados nos joelhos, levantava para ele um rosto parado e mudo, onde os olhos pareciam muito negros na lividez quadrada de rosto de menino imberbe. Ao lado do 401, estavam pousadas as pistolas-metralhadoras, os cunhetes de munição, os sacos de granadas, as mochilas. Percorreu com os olhos o campo que, para além da aberta em que estavam, era um mar de capim ralo que lhe chegava ao peito. Uma, duas árvores negras sem folhas. Os cocurutos dispersos como sentinelas, e amarelados, dos formigueiros.

– Patrulha 20 chama Capangala.
– Zzzzzz…
– Patrulha 20 chama 18. Patrulha 20 chama 18. Patrulha 20 chama 18.
– Zzzzzz… – novamente se levantou, mas não se voltou para o 401. A voz deste é que veio despertá-lo.
– Também não respondem? Já não respondem. Foram mortos. A esta hora, nesta hora, estão a capá-los, a…
– Cala-te! – berrou sem se voltar.
– Vamos morrer aqui. Se a gente se separa, matam-nos. Se nos agarram juntos, matam-nos. Essa negralhada toda a esfaquear-nos. Mas eu antes queria que ninguém me visse morrer.

Voltou-se: — Porquê?

O 401 desviou para o chão os olhos negros, pousou nos braços a cabeça: — Tenho vergonha.

– Vergonha?
– Sim… Não é de que ma vejam, mas de que tu ou aquele ainda estejam vivos e vejam eles caparem-me.
– Não te rales; só te fazem isso depois de morto.
– É a mesma coisa.
– A mesma coisa… — e levantou os olhos para a planura onde o ar tremia sobre as ervas. — Para que precisas tu dela, se estás morto?

Quando fixou o 401, os olhos negros estavam fitos nele, muito arregalados, numa ânsia.

Repetiu: — Para quê? Se estás morto…

O 401 estirou as pernas, deixou cair o tronco, ficou deitado, com os olhos vagueando nas nuvens baixas e brancas, e pôs as mãos cruzadas sob a nuca. Depois, voltou a cabeça, cuspiu para o lado, e o cuspo ficou escorrendo do canto dos lábios. Com os olhos envesgados, fitou o cuspo que escorria. A voz veio molhada por entre os dentes: — Capangala… Que raio de nome!… Meteram-nos numa boa alhada.

O outro não respondeu, e sentou-se no chão ao lado dele, do lado do cuspo, e estirou-se apoiado no cotovelo. A mão brincou com a poeira fina, fazendo riscos, ora com um dedo, ora com outro. — Vamos ficar aqui?

– Não me perguntes a mim, pergunta a esses filhos da puta dos teus amigos que nos mandaram para cá.
– Ninguém me mandou.
– Porque era dos trouxas, dos que vieram para salvar esta merda. És dos que sabem tudo e mais alguma coisa, dos que mandam… Eras “legionário”, não?
– Não era. Eu alistei-me.
– Ah foi? Pois cá a mim convocaram-me. E é porque naquela terra maldita não há onde um homem se esconda. Ou não me pilhavam aqui.
– Eles pagavam um prémio… Eu alistei-me.
– E que fizeste com o prémio? Foste às putas da alta cinco vezes ao dia até embarcares?

O outro riu silenciosamente, e respondeu: — Mais ou menos… — e, pigarreando, corrigiu: — Não. Eu precisava de me escapar de lá.

O 401 tornou a cuspir, e os dedos dele vieram rodear a saliva em que o pó se colava. Sem levantar os olhos, perguntou: — Qué que tinha sido?

– Oh, muita coisa.
– Mas o quê? Mataste, roubaste, fodeste alguma gaja? E não era melhor ficares na cadeia vivo do que morto aqui?

De súbito, ambos estavam de joelhos, segurando as armas, fitando as ervas pardacentas, quase sem cor, que pareciam mexer suspeitamente no ar que tremia.

– Não foi nada – disse o 401, mas a pele mais lívida era-lhe percorrida por tremuras como a de um cavalo ao sol. – Conta. Qué que tinha sido? – e não desfitava a planície, com os olhos saltando rápidos de um ponto para outro.
– Nunca matei ninguém. Fodi muita gaja que nunca se queixou.
– E eram todas virgens. Desvirgaste muitas?
– Algumas.
– Como é?

O outro olhou-o de esguelha, num relance: – Como é?

– Sim… Foram todas à primeira? Rebentaste logo com aquilo?

O outro, sem desviar os olhos da planície, tirou do cano da arma a mão esquerda que se crispara, espalmou-a recurva na massa do sexo, que apalpou. – Ahn? Que é que tu julgas que isto é?

O 401 calou-se, suspirou. Depois, rindo, sentou-se nos calcanhares, com a metralhadora no regaço, e perguntou:
– Mas então qué que tu fizeste? Roubaste? Eras ladrão fugido?

O outro sentou-se também nos calcanhares, baixou os olhos, abriu a boca, tornou a fechá-la, depois curvou-se para a poeira amarelada, e foi para ela que falou: – Nunca roubei nada. Mas eu queria viver bem. Não trabalhar. Trabalhar, para quê? Eu não tinha ninguém. Lancei mão de tudo. Fui informante.

– Informante? Eras “bufo”?
– Bufo, não. Eu andava com este e com aquele, falava com este e com aquele, e depois pagavam-me as informações.
– E foi por isso que te alistaste?
– Quando eu tinha estado na tropa, não precisava de pensar no que havia de fazer no dia seguinte. A gente, com arte, safa-se, e a cama e mesa não prestam, mas não faltam. E eu não aguentava mais. Todos desconfiavam de mim.

O 401 sentou-se de lado, voltado para ele: – Deixa lá, não penses nisso. Agora, já não adianta. Eu tinha um bom emprego numa oficina. Quando algum vinha à surrelfa conversar comigo, assim como tu havias de fazer, eu não dizia nada. Também não tinha nada que dizer. Essas coisas não eram para mim. Havia polícias, havia bufos, e o meu emprego também. Eu nem sabia que a África existia, nunca lia jornais. Ia casar-me – e repetiu, erguendo o olhar vago: – Ia casar-me.

Os olhos pousaram na cabeça do outro, ainda cabisbaixa. O outro sentiu o olhar, levantou os seus, sorriu. O 401 sorriu também, e disse: – Deixa lá, ao menos gozaste a vida.

O outro continuou a sorrir, jogou no ar um grãozinho maior da terra ressequida: – Não gozei… Era sempre outra coisa o que eu queria.

– Mas às vezes foi bem bom, não foi?
– Foi.
– Vês? Foi bem bom. Gozaste a vida. E não gostas de lembrar-te dos bons bocados que tiveste? Agora, tás a lembra-te, não estás? E só dos bons bocados, não é?

O outro ficou calado. E, de repente, deitou-se de bruços, sacudido por soluços fundos, dando socos no chão, batendo no chão com as biqueiras das botas.

O 401 acocorou-se, pousou-lhe as mãos nas costas, segurou-lhe depois a cabeça por um punhado de cabelos louros: – Não chores… Tás a lembrar-te? Tás a lembrar-te de que uma vez nem dormiste, toda a noite em cima dela? Tás a lembrar-te de que uma vez foi na praia, ao domingo, entre as pedras, e que se ouviam os putos a jogar à bola? Tás a lembrar-te de uma sardinha assada? Tás a lembrar-te de que ela te mordia? Tás a lembrar-te de que uma vez foi numa escada escura? Tás a lembrar-te de que passavas por diante da janela e ela mexia as cortinas para tu subires? Tás a lembrar-te de que ias à janela do comboio, e os montes iam andando à volta? Tás a lembrar-te delas todas? E do que comeste? E do cheiro que vinha dos restaurantes? E duma gravata às riscas que havia na montra? E de fazeres músculo diante do espelho? Tás a lembrar-te de tudo?

O outro voltou-se, com os olhos cheios de lágrimas, e a boca suja da poeira amarela: — Como é que tu sabes? Quem foi que te contou?

O 401 ficou a olhá-lo, abanou a cabeça: – Ninguém… São tudo coisas que eu pensei.

O outro sentou-se, esfregou os olhos com as costas da mão: – É que a gente pensamos todos o mesmo?

O 401, ainda de cócoras, disse: – Se calhar, é.

Ficaram ambos quietos. E o outro perguntou muito baixo: – Mas tu perdoas-me o mal que eu fiz?

O 401 não disse nada.

Ambos fitaram o 37 que continuava deitado de costas, sibilando pela boca entreaberta.

– Ó 54… — começou o 401. – Será que ele é com’a gente?
– Há-de ser. Não vês como ele dorme?
– Eu durmo assim? Com a boca aberta? Já viste?

Entreolharam-se, riram.

O sol rompeu por entre as nuvens, dardejou, o 37 sentou-se espavorido, esfregando os olhos, e logo procurou com as mãos a arma que estava do outro lado da clareira.

Os outros entreolharam-se e tornaram a rir.

O 37 fitou-os com os olhos piscos.

O 401 falou-lhe: – Estamos isolados. Ninguém responde. Acabou-se.

O 37 levantou-se num ímpeto e imediatamente se agachou: – Ninguém responde?

– Não, se queres, experimenta.
– Há quanto tempo não respondem?
– Sei lá – e voltou-se para o 54: – Há quanto tempo?

O 54 encolheu os ombros.

– Então vamos recuar, voltar à base – disse o 37.
– Qual base? – perguntou o 54, e deu uma cotovelada no 401.
– Capangala. Voltamos a Capangala. Não vamos ficar aqui.
– Vai tu sozinho – disse o 401.

O 37 olhou demoradamente para um e para outro. Depois, repetiu: – Sozinho?

– Sim – respondeu o 54. – A gente não sai daqui. Ó 401, a gente sai daqui?
– Não – disse o 401.
– Tás a ver? A gente não sai daqui.
– Mas, se a gente aqui fica, estamos perdidos!
– Ora! Tanto faz a gente perder-se aqui como lá. Matam-nos de qualquer maneira. Toda esta pretalhada é contra nós.
– Não é verdade! São fiéis – disse o 37. – Só esses bandidos que vieram do Congo é que querem matar-nos. São pagos para isso.

O 54 deu uma cotovelada no 401. Este olhou-o de relance. Riram ambos; e o 54 disse: — Ah são? Também os teus amigos me pagaram muitas vezes.

– Os meus amigos? Que é isso dos meus amigos? Quem são os meus amigos que te pagaram? Pagaram para quê?
– Ora… Para saberem quem estava farto de os aturar. E sempre te digo uma coisa. É muita gente. Ó 401, não é muita gente?

O 401 baixou os olhos. O 54 tornou a dar-lhe uma cotovelada: – Anda, diz-lhe que são muitos. Não tenhas medo. Agora, já se pode dizer.

O 401, sem levantar os olhos, repetiu: – São muitos… – e acrescentou: – Mas eu não sei se são muitos… Tu é que sabes. Mas se fossem muitos, os outros não atiravam com a gente para aqui. Se fossem muitos, era diferente. Se calhar, não são muitos.

O 54, então, disse de olhos pregados no 37: – São muitos, garanto que são muitos, o que todos ou quase todos têm é medo de gajos como esse.

– Como quem? – perguntou o 37.
– Como tu – respondeu o 54.
– Como eu? O que vocês são é uns merdas, uns maricas, uns comunistas.

O 54 deu outra cotovelada no 401: – Tás a ouvir o que ele diz?

– Estou – disse o 401.
– E a gente vai deixar esse gajo chamar-nos aquilo tudo? Eu conheço esse gajo de ginjeira. É dos que passam a vida a bater no peito, a dar vivas ao Salazar, a pensar que a gente somos todos uns merdas. Ó 401, nós somos merdas?
– Não – respondeu o 401.
– Vês? – disse o 54 ao 37. – Nós não somos merdas. Olha, e maricas também não, que isso de dar vivas ao Salazar é que é uma maneira de levar no cu como outra qualquer.

O 37 atirou-se a ele, rebolaram ambos engalfinhados, derrubaram o 401 que se enovelou no grupo. A poeira levantava-se em torvelinhos lentos que ficavam pairando sobre eles. Por fim, o 54 tinha o 37 a torcer-se debaixo dele que o montava e lhe socava a cara, enquanto o 401 lhe segurava os braços. A resistência do 37 afrouxava, as pernas já não se agitavam. O 54 ia perguntando: – Tens a tua conta? Queres mais? Tens a tua conta? – até o outro, com os lábios ensanguentados e o nariz a escorrer sangue, ficou quase inerte sobre ele.

O 54 desmontou, ficou acocorado ao lado. Largando os braços do 37, o 401 acocorou-se do outro lado. O 37 gemia. Por cima do corpo estirado, o 54 perguntou: – Ó 401, a gente somos maricas?

– Não.
– E ele? É?
– Tanto me faz que seja como que não seja.
– Isso mesmo. E comunistas, a gente é?
– Lá na oficina, uma vez, quiseram pedir aumento de salário, o patrão chamou a polícia, e os gajos vieram e chamaram comunistas a toda a gente. Mesmo aos que não tinham pedido nada, como eu. Achas que a gente é?

O 37 não respondeu. A custo, ergueu-se num cotovelo, depois sentou-se curvado para a frente, e disse: – Não podemos ficar aqui, à espera que nos matem. Temos de vender cara a vida, para que se não diga que não morremos com honra.

– Com quê? – perguntou o 54.

O 37 murmurou: – Com honra.

– Qual honra? A tua? A minha? Aqui a do 401? A dos teus patrões? Quem é que se rala com isso? E quem vai saber como é que tu morreste? Queres que venha o teu nome no jornal? É para ganhares uma medalha? Dão-ta de qualquer maneira. E, depois de morto, podes pendurá-la no lugar dos colhões que os pretos te cortarem. Até pode ser que te dêem duas, uma por cada um, se é que tens os dois.

E o 401 disse: – Vamos tentar outra vez o telefone?

Os três olharam para a caixa, e o 37 gatinhou para ela, sentou-se ao pé, limpou com a mão os lábios e o nariz ensanguentados, pegou no aparelho, tentou demoradamente comunicações sucessivas. Os outros dois, olhando-o, continuaram de cócoras. O 37 pousou o aparelho, ficou com os olhos nele, depois ergueu-os para ambos: – Ninguém responde:

– Claro que ninguém responde – disse o 401. – Ou estão mortos todos ou cavaram para longe.
– Foram buscar reforços para atravessarem até aqui.
– Espera por essa – disse o 54, e penteou com a mão o cabelo louro. – Quem julgas que tu és?
– O meu pai foi ministro.
– O teu pai foi ministro e tu és soldado como a gente? – gargalhou o 54. – Pois o meu pai era o papa.
– Eu não estudei, e não quis livrar-me da tropa.
– Ah não? Então aguenta.
– E podia ter-me livrado de vir para aqui, porque bastava que o meu emprego dissesse que precisava de mim para o esforço de guerra, e o meu pai falasse no Estado-Maior.
– Falar onde? Esforço de quê? – perguntou o 54. – Olha lá o esforço que fazes. Já não precisas de fazer esforço nenhum. Ó 401, não é que até para cagar não vai precisar de esforço? Quando os pretos aparecerem, borra-se logo pelas pernas abaixo.

O 37 passou a mão pela boca, não reagiu, e apenas disse secamente: – Mesmo que isso me acontecesse, é uma reacção automática, não prova nada contra a minha decisão de lutar pela pátria.

– Olha lá – perguntou o 401, lançando ao 54 um olhar rápido, – tu és de Angola? Já cá tinhas vivido?
– Não sou de cá, nem vivi aqui mais do que vocês – e, após um silêncio, acrescentou: – Nunca tinha saído de Portugal senão para ir à Espanha, a França…
– Ah, o teu pai pagava-te as viagens, não era? – perguntou o 401. – E na Espanha qué que tu fazias? Fodias as espanholas? E na França?

O 37 franziu o sobrolho.
– Não lhe fales nessas coisas que ele não gosta – disse o 54. – Não gostas, pois não? Era só às escondidas do padre-confessor, hein?

O 37 empertigou-se: – Não te admito…

– Não admites o quê? Não admites o quê? Olha, sabes o que mais? Mete a tua pátria no cu. Sabes o que é a pátria que a gente tem? Que tu e os outros nos deixaram? Sabes aonde está a nossa pátria? A pátria está onde está isto – e agarrou com a mão no sexo.

O 401 riu-se, e logo o riso se lhe suspendeu, vendo o 37 levantar-se lentamente, com os queixos cerrados, as mãos estendidas, e de pronto debruçar-se cambaleante à saraivada de tiros.

O 54 continuava de cócoras, mas a pistola-metralhadora ainda estava erguida nas mãos dele.

O 401 caiu sentado, com as mãos na boca, olhando ora para ele, ora para o 37 que estava deitado de bruços. As mãos do 37, estendidas, pareciam aranhas prontas a saltar-lhe para as botas, e o 401 encolheu as pernas. Depois, olhou para o 54 que pousara a pistola-metralhadora.

O 54 abriu para ele um sorriso torcido e ajoelhou-se. Baixando os olhos, disse: – Então ninguém havia de pagar-mas? Eu nunca acreditei nessas coisas… mas ele julgava que eram só dele?

O 401 tirou as mãos da boca e murmurou: – Está morto?
– Não sei. Volta-o.
– Eu?
– Sim. Volta-o.

O 401 gatinhou em redor do 37, parou-lhe ao lado, ergueu para o 54 uns olhos suplicantes.

– Volta-o – sibilou o 54, entre os dentes cerrados.

O 401 voltou-o. No lugar em que estivera o corpo, a poeira estava empapada de sangue. Na camisa e nas calças, havia chamuscos vermelhos e orlados de poeira amarela. O 37 tinha os olhos muito abertos, eram claros, e o rosto moreno torcia-se num esgar de que o nariz comprido se afilava mais.

– E se se descobre que ele foi morto com balas nossas? – perguntou o 401, sem despregar os olhos da boca aberta do 37.
– Ora, quando nos matarem a nós, hão-de servir-se depois das nossas armas. E, de resto, ninguém vai ver como é que ele morreu.
– Tu mataste-o.
– Ele ia matar a mim.
– Sabes lá!
– Nem preciso.
– És um assassino.
– E tu? Ainda ontem, eu contei, mataste três pretos, aqueles que iam a correr, e tu mataste-os como se fossem bonecos de pimpampum.

O 401 fitou-o: – Não é a mesma coisa.

– Não é a mesma coisa, porque…

Silvos perpassaram sobre as cabeças de ambos.

O 401 levantou-se e agachou-se logo, tropeçou no cadáver, e caiu com as mãos ao pé de uma pistola-metralhadora que agarrou: – Aí estão eles!

O 54, ajoelhado, com outra pistola-metralhadora nas mãos, disse: – Ainda demoram… Mas não vão querer que a gente gaste as munições. E hão-de querer a gente vivos…

O 401 tremia e, a custo, saiu de cima do cadáver: – Querem a gente vivos – repetiu.
– Bem sabes porquê.
– Não. Não.
– Sim, bem sabes porquê. Senão, não tinha graça.
– Não, não – e tremia.
– Foge – disse muito baixo o 54.
– Ahn?
– Foge…

O 401, com o suor a escorrer-lhe pela testa e pela cara, levantou-se nas pernas bambas.

– Corre…

O 401 vacilou e atirou-se para o meio das ervas, correndo aos arrancos. O 54 levantou-se, foi à borda da clareira, visou com a pistola-metralhadora, e disparou uma rajada longa que fez o 401 levantar os braços, parar, sumir-se.

– Vês que não é a mesma coisa? – disse o 54.

 

Assis, 25 de Junho de 1961.

The Impact of Africa on Portugal

Em vídeo: trailer e cenas do filme “Non, ou a vã glória de mandar”, de Manoel de Oliveira

Written on “May, 1975” (as we can see in the manuscript), this essay traces a brief history of the Portuguese actions in Africa, since the fifteenth Century to the days immediately following the “Revolução dos Cravos”, in 1974. It was first presented at the Colloquium “Double Impact: France in Africa and Africa in France”, that took place in the University of California, Los Angeles, on Spring 1975, but it wasn’t published until ten years after, in London, along with the proceedings of the event, from which we now transcribe.

Certainly no other non-African country – especially a European one – has had its destiny so closely linked with Africa as Portugal. It was with the conquest of Ceuta in North Africa in 1415 that the country launched the expansion which developed into the first colonial empire of modern times, thus embarking on a course that shaped Portuguese history and opened a new era for the world. And it was because of the colonial wars in Africa, supposedly maintained to defend the last colonial empire in the contemporary times, that a revolution was launched in Portugal in April of 1974, which toppled the dictatorial regime that had governed the country since 1926. The military revolution had two main aims, both directed at reversing the historical course of centuries: to recognize the independence of the colonies, and to eradicate the national structure that had been based on colonialism. Portugal underwent one of the greatest crises in its history of more than eight centuries as an independent and unified country, and this was largely because of Africa. Also we must bear in mind that, since the “discovery” in 1500 until its independence in 1822, Brazil was part of the Portuguese empire, and that the development of Brazil was largely based on contacts with Africa through the slavery that was there for centuries the source of labor (only abolished in 1888). The imperial history of Portugal had three main areas: Brazil in the Americas, Africa, and the Indian Ocean (extending its influence into the Pacific Ocean and the Far East), but in this triple process Africa played an important role, and it was, as we started by saying, the beginning and the end of an era.

At the risk of telling a learned audience what everybody knows, allow me to recall a few facts and dates, which may help us in a rapid survey of Portuguese relations with Africa and in understanding what is happening today.

The history of the relations of Portugal with Africa, during the expansion and the colonial empire, can be divided into several very distinct periods. The first includes the fifteenth century, starting with the conquest of Ceuta in 1415, followed by other conquests in North Africa. But at the same time, another policy was immediately developed: the one of discovering and exploring more or less methodically the western Coast of Africa, until the Cape of Good Hope was reached in the Bartolomeu Dias voyage of 1487-1488, which opened the way around Africa and into the Indian Ocean.

The voyage of Vasco da Gama, in 1497-1499, on its way to India, explored for the first time segments of the eastern coast of Africa. It was the beginning of the Indian empire which would dominate entirely the Portuguese policies for some decades – we could say, until the end of the sixteenth century, when, under the Dutch and English pressures, the eastern empire started to decline. Meanwhile, the discovery of Brazil and its colonization started to open a new era, which in the seventeenth and eighteenth centuries would place that country as the main focus of the empire. The period came to an end in 1822 not only with the independence of Brazil, but with the establishment in 1820 of a liberal system in Portugal. This system, after several setbacks and a civil war, triumphed in 1834. Another period starts then in which Portugal, facing the colonialist expansion of other European powers tried to occupy and explore most of its traditional territories in Africa, remnants of outposts all along the African coast. The liberal measures of the constitutional monarchy were amplified by the republic proclaimed in 1910. A military revolution in 1926 brought the republic to an end, and a new outlook, on the imposition of the Portuguese continental structure and on the enforcement of big monopolies, based on centralized power, was consecrated by the Colonial Act of 1930, written by dictator Salazar himself. The act included the famous distinction between “natives” and “assimilated people” (the portions of the empire excepted from this distinction were only Cape Verde, the Indian possessions, and Macao). This period came to an end with the revolutions of April 1974.

Now let us review as briefly as possible some events which punctuated these several periods. Portugal, which had been established as a semi-independent earldom under the suzerainty of the kingdom of Leon, became independent through a revolution in 1128, and Leon came to recognize the new kingdom in 1143. In the next one hundred years, Portugal conquered from the Moors the southern half of what is today its territory, thus becoming by 1250, the first Iberian kingdom to complete its “reconquest”. It is known that the Portuguese, confined between the sea and the kingdoms of Leon and Castille, very early engaged in international trade and navigation. In the twelfth century one of the daughters of the first Portuguese king became countess of Flanders, and in the thirteenth century a Portuguese prince was himself, by marriage, count of Flanders, while two Portuguese princesses were queens of Denmark.

Navigation along the coast of Africa started before the fifteenth century. Before the middle of the fourteenth century an expedition was organized in Lisbon to explore the Canary Islands. Competition for occupation and sovereignty of these islands continued between Portugal and Castille for more than one century, and it was settled in favor of Castile only in 1436, with Portugal finally accepting the settlement of 1480 which gave her a free and absolute hand in the exploration of the West Coast of Africa. But by then Portugal had established fortresses in Morocco and Mauritania, and had started in the 1420s a more or less methodical exploration of that West Coast. By 1450, the Portuguese had reached the latitude of present-day Monrovia, while they had explored the “Western Seas” and founds and colonized the desert islands of Azores. The colonization of the Madeira Islands had been started in the 1420s. Around the 1450s and 1460s the islands of Cape Verde were discovered and started to be colonized. The island of São Tomé was colonized by the end of the fifteenth century and became very important in the next century as the outpost for the slave trade between the West Coast of Africa and Brazil. It was also a center for the production of sugar, like Madeira, a prosperity that lasted until the sugar in Brazil came to beat all other enterprises. Nevertheless, it has been pointed out that the system of colonization established in the Atlantic and African islands served as a kind of experiment for what was later to be the first political organization of Brazil.

We mentioned the slave trade. It was the first commercial success that the Portuguese achieved in their contacts with the western coast of Africa. The first slaves arrived in Portugal in 1441 and were sold to Castille, Aragon, Italy, and elsewhere at good profit. We have a magnificent description of the arrival of one of the first cargoes, in the Crónica da Guiné by G. E. de Zurara, writing in the middle of the fifteenth century. In spite of being the official chronicler, Zurara finds the moving words of a modern humanist to describe the plight of the slaves. It was the several settlements in the Atlantic, shifted the direction of the trade to Brazil.

The second success came in 1442, with the arrival of the first African gold – one of the main reasons for launching the expansion. Much has been said about the imperial justifications. The military expansion in northern Africa, which came to a disastrous end in 1578 when King Sebastian was killed with most of his army in El-Ksar Kebir when attempting an intervention in the internal affairs of Morocco, can be viewed in two ways. On one side, it prolonged the ideology of the Reconquest, which had dominated the Iberian kingdoms for centuries and served as the support for an aristocratic-military society. The other side is that Portugal was looking for the North African outlets of gold which was in great demand for new economic development in Europe. Until the 1480s the exploration of the western coast of Africa was in fact dominated by this same purpose of drawing a circle around the centers of Arab gold trade, which is symbolized by the foundation of the castle of S. Jorge da Mina, known as El Mina, in contemporary Ghana, in 1482. Yet another idea was very early mingled with the expansion: to get in touch with the legendary Prester John, the Christian sovereign of the East, whose contact would encircle the Muslim world. Prester John was a legend launched in the twelfth century in Europe and came to be identified with the emperor of Ethiopia, with whom since the 1480s the Portuguese attempted to establish close relations. At the same time that Bartolomeu Dias was rounding the Cape of Good Hope, travelers had been sent by land to India (which they visited to gather information) and to Ethiopia, where one of the travelers lived, raised a family, and died. An embassy from Ethiopia came to Portugal in 1513-1514, and several diplomatic exchanges continued in the course of the century.

By the end of the fifteenth century, it is clear that the main purpose of the Portuguese crown was to prepare everything to round Africa and reach India by sea. Africa, however, was kept very well in mind. In 1482-1486, preceding Bartolomeu Dias, Diogo Cão had explored the western coast as far as the Tropic of Capricorn, but had also navigated up the Zaire River. And in 1490, an embassy was sent to Congo, establishing with its kings a relationship that lasted well into the seventeenth century, or reaching what became Rhodesia in 1514-1515.

What is now Mozambique started to be developed before what is today Angola, in spite of the explorations made inside the latter area in 1520-1530. There are several reasons, which reflect themselves in the different spheres in which Angola and Mozambique will live for a long time. The eastern coast of Africa (and in it the city-island of Mozambique, which gave the name to the country) was a base on the way to India and for the dominance of the Indian Ocean, and it was also the starting point for the attempts to reach the legendary Monomotapa with its gold and to contact Ethiopia and its Christian sovereigns. Angola really started as a monopoly of the island of São Tomé in 1550, and only in 1574 was organized as a captaincy. Luanda was founded in 1576, much later than the settlements in Mozambique, where, up the Zambezi River, the Portuguese had settled in Tete by 1531. When the colonization of Angola was started by the end of the sixteenth century, it seems that the idea was to transform it into a second Brazil. But the Brazilian interests, calling for the slave trade, got the upper hand, and at the same time the country itself and its population proved to be less easy and amenable than Brazil had proved to be. So for a long time, Angola gravitated in the Brazilian sphere, while Mozambique was part of the government of India and incorporated in the Indian empire (the establishment of a separate government in Mozambique came about only in 1752). When the Dutch had attacked Brazil and then attacked Angola (the source of manpower for the sugar plantations), they were expelled from Angola in 1648 by expeditions organized in Brazil by the big Luso-Brazilian sugar interests.

During the seventeenth and eighteenth centuries, the sugar and then the mines of Brazil dominated the empire, while by 1650-1660 the eastern part of it dwindled to some settlements which lasted to this century (Portuguese India was occupied by India in 1954-1961, Timor is still in the process of being decolonized, and Macao retains in China the ambiguous position that it has held for more than four centuries).

We may ask at this point what was the impact of Africa on Portugal during the “old” colonial empire. The new empire started in the nineteenth century in the wake of the colonization of Africa by the big European countries to compete with them.

It is very curious that, since the very beginning of the imperial expansion, the educated opinion was much divided in Portugal, in spite of all the imperial rhetoric by official chroniclers who themselves were many times very critical of the management of the empire. There were those who favored the expansion and those who feared that such ventures would deplete Portugal. One of the results of the empire, based mainly on monopolies of the crown and some grandees and other fortunate few, was to create in Portugal a double economic standard, which never allowed until very recently the creation of any powerful middle class and which consolidated a system of control of the lands in the hands of a small ruling class. Massive emigration to Africa was never implemented as it was to Brazil, whose possibilities very early attracted a stream of immigrants by the thousands and thousands which lasted until a few decades ago. At the same time, Portugal was economically placed in the vicious circle of depending on foreign capital for its imperial enterprises, while the riches were not reinvested but dissipated or served to pay the loans. On the other hand, the empire created a tradition of very centralized power around the king, which stifled almost completely the power of the urban middle classes, who as entrepreneurs had been involved in the beginning of the expansion, mainly as traders and even as organizers of naval expeditions. We must also bear in mind that the Inquisition, established in the middle of the sixteenth century (some decades after that in Spain), had as its main target the “new Christians” (or descendants of Jews forced to convert to Christianity) and so was used by the “old Christian” ruling class to keep down what was on its way to becoming a rich bourgeois class. The Inquisition which was all-powerful in Portugal itself and later became the same in India (where it wrecked the social contacts with the local population) was never entirely established in the same way either in Brazil or in Africa, where the missionary activities of the religious orders were more in the forefront. But in this respect we must stress that until the end of the eighteenth century, while Brazil was growing in European population, nothing of the sort was happening in the African territories.

As I pointed out, the loss of Brazil was a great shock for Portugal, nevertheless economically compensated by the stream of immigrants who would send money home or would return to establish themselves in the old country, exhibiting their acquired riches. By the beginning of the nineteenth century, at the same time that Portugal lost Brazil and Spain most of her American possessions, the great European countries started to launch a new drive toward Africa. Portugal, since the loss of most of its Indian empire, which had been the basis of all the imperial propaganda and pride, went through a period which lasted well into the present century, in which to dwell on the idea of decadence was prevalent among the educated classes. In the first decades of the nineteenth century, the liberal governments, once established in power, tried to counterbalance that feeling and the loss of Brazil by returning their attention to Africa in some way. On the other hand, in 1815 the Portuguese government had subscribed the treaty which ended (at least in theory) all slave trade north of the equator (which for Portugal included Portuguese Guinea and the islands of Cape Verde). The abolition of slavery south of the equator was decreed by a radical government in Lisbon in 1836, with several additional measures until 1869 that implemented the decision.

Meanwhile, many exploratory expeditions into the hinterland of Angola and Mozambique were made, since the new outlook of the European powers called for an effective exploration and occupation of the territories, as it had never been the Portuguese policy of outposts and of contacts with natives followed in the previous centuries (with the exception of Brazil). Those expeditions may be said to have started in the 1830s, culminating between the 1870s and the 1890s. The great dream was to establish a Portuguese zone going from Angola to Mozambique. The dream was shattered by the British designs, which came to a clash with Portugal in 1890 after several diplomatic and less diplomatic skirmishes when Great Britain sent an ultimatum to Lisbon. The treaties resulting from this humiliation of the Portuguese government established the actual boundaries of Angola and Mozambique. Already in 1870 the arbitration of the American President Grant had recognized the rights of Portugal to Portuguese Guinea against the pretensions of England. But the British ultimatum concerning Africa had a special political impact in Portugal. The Republicans seized the opportunity to accuse the monarchy of having betrayed the Portuguese interests and started an agitation which culminated in the downfall of the monarchy and the proclamation of the republic in 1910.

If the oldest cities in Portuguese Africa dated from the sixteenth century, there remained the need of occupying many portions inside the borders established for Guinea, Angola, and Mozambique, in which the natives resisted occupation, or, as it is known, were manipulated by Great Britain against Portugal. So intermittent “campaigns of occupation” were launched beginning in the 1840s, which lasted until the years of World War I. Nevertheless, with all its colonialism, the republic proclaimed in 1910 was much more progressive in its approach to the colonial problems, and tried to develop a more liberal and modern policy in the African territories. A greater autonomy was granted with the regime of high commissioners in Angola and Mozambique, a policy which lasted until 1930, when Salazar ended it. At this point, it must also be stressed that the trend of sending European settlers to Africa (mainly Angola), developed to some extent by the liberal monarchy and the republic, beginning in the middle of the nineteenth century, was also stopped by the Salazar regime. Salazar never could accept that American, African, or Asian countries should ever become, in the past or the present, independent from Europe (and he said so once when greeting most warmly none other than a president of Brazil). He was afraid of any kind of independence, even a White supremacist one. Portuguese Guinea and Mozambique in the nineteenth and twentieth centuries followed a different development, kept very much, as they were, like colonial “preserves” for the companies controlling large areas of the territories until quite late. The trend of allowing and encouraging European settlers (that is, Portuguese) in the African colonies was only reversed in the 1960s to answer the pressure of the colonial wars. This reversal attracted especially to Angola lots of small-scale traders and entrepreneurs, eager to enrich themselves as soon as possible. The “old” Whites despised them as much as the Blacks did.

The independence of the African colonies would come sooner or later, in one way or another. But it can be said that the conditions established by Salazar created, more than anything else, the ground on which movements toward independence, involving Blacks and Whites, would develop. The new regime established in 1926 in Portugal, for instance, signed in 1928, with South Africa and Rhodesia, a treaty for the regular export of Black labor from Mozambique to the mines of those countries. I have mentioned already the Colonial Act of 1930, which reduced the status of the territories, and as late as 1954 Salazar promulgated the Statute of the Natives to cover for a very distinctive social situation that had never, in some ways, existed before. It is curious that this was the year in which India took over some portions of the Damão enclave. The statute was abolished in response to international pressures in 1961, the year in which India occupied the old Portuguese territories there and also the year the rebellion began in Angola. The last phase had begun. In 1963, the rebellion broke out in Guinea, and in 1964 in Mozambique. It is interesting to note that the movement for these fights had, very timidly, begun in Lisbon in the 1950s, when several students from the colonies, who included most of the best known leaders of the future, met to voice a mild discontent, which was immediately crushed by Salazar’s government.

To say that at first the colonial wars were popular in Portugal would be a pious lie. For centuries, with some dissenting voices, the greatness of the empire and of the old Portuguese glories had been part of Portuguese culture, and Salazar’s regime had stretched that to an incredible display. At first, only the leftists and some liberals understood that the Portuguese government relied on colonial rule and the powerful interests intertwined into the system to perpetuate its dictatorial power. Only gradually did part of the population start to understand the situation, mainly with young people avoiding the draft and running away to other European countries, and thus joining the 2 million emigrants (mainly to France and West Germany) that the government allowed openly and clandestinely to leave, as the money they sent home would balance the financial situation. Even more gradually, to some extent, the colonial wars started to radicalize the armed forces themselves, who were also afraid of being saddled with a stalemate in Africa, or with full disaster.

The process started by the military revolution of April 1974 is more or less well known and included, as I have said, the decolonization. So, it is perhaps an irony of history that the militaristic expansion launched in 1415 came to an end under the direction of a government which was created and more or less run by the military themselves.

What has been the impact of Africa (and the expansion) on Portugal? It shaped for more than five centuries Portuguese history and the destinies of the Portuguese people subordinated to colonial interests. No other country in modern times had undergone quite the same effect. From Brazil to Macao in China, the Portuguese created very similar or parallel local cultures and adapted their own buildings to pioneer forms that are recognizable in all those zones as they did in Africa. Nevertheless, the impact of African usages and other cultural elements on Portugal was very small, contrary to what happened in Brazil. The slaves brought from Africa (never in any numbers comparable to the millions sent to Brazil) disappeared into the lower strata of the population. The Black people that one encounters in Portugal are newcomers from the former colonies, while in Brazil, where slavery on a larger scale lasted longer, they are the descendants of the slaves.

As a person who, from a very young age forty years ago, always opposed the dictatorial regime and colonialism, I am entitled to add something at this point. With all the evils of colonial exploitation, it must be stressed that Portugal in its dealings with the colonies, never practiced what can be described as “apartheid”. The approach was authoritarian and paternalistic, and racism was always based on economic discrimination. The rare mulattoes or Blacks who, due to special protection or parentage or acquired riches, achieved a higher social status, were considered (even if not entirely) as “Whites” and not discriminated against either in Portugal or in Africa. It was perhaps a more insidious approach than more open ones, based on the idea that, by definition, the Blacks left to themselves were childlike and had to be put to work. All this is very swiftly becoming a thing of the past. It is entirely possible that the Portuguese language, as the only means of political unity, might be retained in the African ex-colonies. There, many Whites have adhered (and since the colonial wars) to the idea of the independence. But whether multiracial societies with Whites as a minority are going to be developed remains to be seen.

 

 

 

Poesia e Música Popular

Em áudio: Poesia de JS musicada

 

Bem mais conhecida a predileção de Jorge de Sena pela música erudita — haja vista o excepcional livro Arte de Música, bem como os muitos comentários a audições que faz nos diários ou cartas — a seu ouvido não passa despercebida, no entanto, a música popular, que lhe mereceu os poemas abaixo transcritos “A Piaf”, “Ray Charles” e “Música ligeira”.

Mas impossível de não ser destacada é também a musicalização de vários poemas seus, em várias décadas, com diferentes abordagens, a acentuar musicalidades distintas de seus versos. Desde o internacional Zeca Afonso, que — tal como vários outros cantores e compositores portugueses no auge da repressão salazarista — seguiu o veio do texto literário impresso e circulante para fugir aos inevitáveis cortes da censura; passando por revisitas críticas, a oscilar entre fidelidade e ruptura, como David Mourão-Ferreira aponta no trabalho de Luis Cília, ou ainda a recuperação de ecos da música tradicional portuguesa como prefere o grupo Pedra d’Hera, até jovens universitários brasileiros, Luis Maffei e Marcelo Gargaglione que, ainda há pouco, encontraram no texto de Sena a atualidade de suas inquietações e o estímulo a experiências sonoras — o que é explicitado pelo primeiro no breve “memorial” que segue a transcrição.
Poemas de Jorge de Sena musicados:

* “Epígrafe para a Arte de Furtar” (Fidelidade, Poesia II): poema musicado por Zeca Afonso, no álbum Traz Outro Amigo Também (1970)

* “A Piaf” (Arte de Música, Poesia II): poema musicado por Marcelo Gargaglione e Luis Maffei, no álbum na mesma situação de blake (2005)

* “No casto promontório” (Quarenta Anos de Servidão): poema musicado por Luis Cilia, no álbum Sinais de Sena (1985) com dez faixas dedicadas à obra de Jorge de Sena

* “Nas terras de além do mar” (Quarenta Anos de Servidão): poema musicado pelo grupo Pedra d’Hera, no álbum Ventos (1996).

 

Outros Poemas de Jorge de Sena dedicados à Música Popular:

* “Ray Charles” (Sequências, 50 Poemas)

* “Música Ligeira” (Exorcismos, Poesia III)

 

Epígrafe para a Arte de Furtar

Roubam-me Deus,

outros o Diabo

– quem cantarei?

roubam-me a Pátria;

e a Humanidade

outros ma roubam

– quem cantarei?

sempre há quem roube

quem eu deseje;

e de mim mesmo

– todos me roubam

roubam-me a voz

quando me calo,

ou o silêncio

mesmo se falo

– aqui d’El Rei!

(3/6/1952)

 

A Piaf

Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,

ou docemente lírica e sentimental,

ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “Ça ira”,

ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,

dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,

e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado

nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma

de não ter tido plenamente a carne que a traiu,

esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,

como exactamente a vida que os outros continuam vivendo

ante os olhos que se fazem garganta e palavras

para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham

nesta sombra que se estende luminosa por dentro

das multidões solitárias que teimam em resistir

como melodias valsando suburbanas

nas vielas do amor

e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz

e na vida. Quem como ela perdeu

toda a alegria e toda a esperança

é que pode cantar com esta ciência

do desespero de ser-se um ser humano

entre os humanos que o são tão pouco.

(6/10/1964)

=> A partir de “A Piaf”

(por Luis Maffei)

O primeiro poema de Arte de música, “Bach: Variações Goldberg”, começa por dizer que “A música é só música”, no sentido de sua intraduzibilidade ecfrástica. O livro citado, sabe-se, é dedicado a poemas que partem de alguma peça musical existente, não para traduzi-la em versos, pois “música é só música” – o “só” seniano, aliás, sabendo a um sol restritivo, situa nietzschianamente a música num espaço nobre e amplo. O que faz Arte de música é, a partir de exemplares da chamada “grande música”, ou música de concerto, pôr a linguagem poética para estupefazer-se diante de compositores e temas e fazer-se harmônica e tensamente em concerto com compositores e temas.

“A Piaf”, poema composto por duas estrofes, a primeira longa e a segunda curta, cada uma ateúda em sua internalidade, é notável exceção. Edith Piaf é cantora popular, não apenas porque não faça música erudita, mas porque angaria boa parte de seus ouvintes entre pessoas sem especial educação musical. Melômano, Sena ouviu Piaf pela clave do humanismo, e também pela especialíssima voz “canalha e rouca”, ou “docemente lírica e sentimental” da francófona cantora nascida pobre e morta consagrada.

Marcelo Gargaglione e eu cometemos a audácia de, em nosso disco na mesma situação de blake, transformar “A Piaf” em música – uma valsa de certa evocação parisiense. “A Piaf” também funciona como exceção em nosso CD, pois as demais faixas possuem um mais acentuado caráter de experimentação (na falta de termo melhor) que a dedicada ao poema de Sena. A faixa conclui-se com uma gravação do próprio Sena lendo seu poema “Madrugada”.

Termos musicado “A Piaf”, desobediência, espero, criativa, foi como tornar à música um poema que sempre teve da música a vocação.

 

No casto promontório

No casto promontório dos teus seios

que sonhos nunca sonho de dormir

teus membros alongados que se curvam

abraço que já foi vai-vém de amor

e apenas é repouso respirado

e brandamente arfado

como um perlado

suor.

Tudo o que foste ainda serás por sempre

que auroras perpassarem rente a nós.

Tudo quanto és já foste e mais serás

no calor brando em que estaremos sós

agora e logo

neste silêncio –

voz.

Teu seio que repousa

no cristal que ousa

respirar por nós,

tão brandamente escuto

que, devoluto,

apenas sonho a transparência casta

em que mais vasta

se repete a vida.

Como um suor que fala,

como voz suada,

como repetição que se não cala

senão numa alvorada

consentida.

 

Nas Terras de Além do Mar
Nas terras de além do mar,

está meu Amor assentado.

Seus olhos fitam a noite,

seu seio sobressaltado

respira em brandos soluços

nas cartas que está escrevendo

o meu silêncio de ausente,

de distante e de presente

no corpo que se torcendo

está de saudades por mim.

Ó meu amor, minha amada,

meus ouvidos, minha fala,

minha dama de amargura!

(22/8/1959)
 

Ray Charles

Cego e negro, quem mais americano?

Com drogas, mulheres e pederastas,

a esposa e os filhos, rouco e gutural

canta em grasnidos suaves pelo mundo

a doce escravidão do dólar e da vida.

Na voz, há o sangue de presidentes assassinados,

as bofetadas e o chicote, os desembarques

de «marines» na China ou no Caribe, a Aliança

para o Progresso da Coreia e do Viet-Nam,

e o plasma sanguíneo com etiquetas de black e white

por causa das confusões.

E há as Filhas da Liberdade, todas virgens e córneas,

de lunetas. E o assalto ao México e às Filipinas,

e a música do povo eleito por Jeová e por Calvino

para instituir o Fundo Monetário dos bancos e dos louros,

a cadeira eléctrica, e a câmara de gás. Será que ele sabe?

Os corais melosos e castrados titirilam contracantos

ao canto que ele canta em sábias agonias

aprendidas pelos avós ao peso do algodão.

É cego como todos os que cegaram nas notícias da United Press,

nos programas de televisão, nos filmes de Holywood,

nos discursos dos políticos cheirando a Aqua Velva e a petróleo,

nos relatórios das comissões parlamentares de inquérito,

e da CIA, do FBI, ou da polícia de Dallas.

E é negro por fora como isso por dentro.

Cego negro, uivando ricamente

(enquanto as cidades ardem e os «snipers» crepitam)

sob a chuva de dólares e drogas

as dores da vida ao som da bateria,

quem mais americano?
(15/Mar/1964)
 

Música Ligeira

Vulgar, ligeira, música sem nome,

adocicada num rascante falso

de orquestração pedante e requebrada,

tão apelante para o sentimento

e a fácil lágrima pi-rí pi-rí –

mas em momentos de abandono é como

lubrificante cuspo que, secreto,

faz deslizante n’alma até ao fundo

o membro imenso de aturar-se a vida.

Depois, mesmo sem música, já está,

e a fêmea humana de aceitar-se a dor

até que as pernas juntas de prazer,

lembrando a melodia oleante e fluida,

vulgar, ligeira, música sem nome.

(25/11/1971)

 

Leia mais:

Andanças do Diabo pela obra de Jorge de Sena

por Luciana Salles

Dando prosseguimento ao projeto de um Dicionário de Jorge de Sena, apresentamos aqui um novo verbete: O Diabo, observado em suas múltiplas facetas na obra do poeta, do ficcionista e mesmo do crítico Jorge de Sena:

 

Câmara Cascudo, nos verbetes “demônio” e “diabo” de seu Dicionário do Folclore Brasileiro, lembra que

"no politeísmo grego era entidade protetora ou maléfica: um Bom Diabo (Agathodaemones), que Sócrates dizia ser a esposa Xantipa, ou um “Mau Demônio” (Cacodaemones), ficando nesta acepção entre os cristãos. (…) em Portugal se começou a inventar apelidos para o diabo, o que constituía a maneira de lograr o demo, pois, segundo a crendice, mencionando-se o seu nome, ele poderia aparecer e 'fazer das suas'”[1].

De tais afirmações, duas idéias centrais merecem ser destacadas. Em primeiro lugar, a noção do diabo como uma figura de múltiplas possibilidades, transitando entre a proteção e a tentação, sendo rotulado pela “propaganda da oposição” como um ser unilateral, inequivocamente perverso. Em segundo lugar, a íntima ligação entre o ser e a palavra utilizada para designá-lo. A cultura popular, uma vez doutrinada a ver no diabo a imagem do “outro” a ser temido e combatido, passa a evitar o uso de seu nome por atribuir-lhe uma função invocatória.

Listando as possíveis nomenclaturas empregadas no trato à inominável criatura, Câmara Cascudo levanta uma interessante possibilidade etimológica: entre as denominações populares consta a forma “dianho”, a que o folclorista se refere como uma corruptela de Dianus – Jano, deus romano de duas faces, responsável por aberturas e portas. Dentro do mesmo verbete, propõe ainda que a forma “oficial”, diabo, seja uma variação do tal apelido, uma evolução do galaico diañu [2]. Assim sendo, teríamos preservada no vocábulo a dualidade pré-cristã do diabo: associado a um deus dual e ambivalente que observa a um só tempo o passado e o futuro, ele acaba por ocupar espaço e função semelhantes. Mesmo se considerarmos a raiz grega do vocábulo – diabolos – tal sentido permanece preservado, afinal, “diabolos” é aquilo que é “lançado”(verbo βαλειν) “através”(δια-), o que significa que a tão temida palavra, potencialmente capaz de materializar o indivíduo a que se refere, guarda as histórias de um deus multifacetado e de um anjo caído – lançado através de espaços e do tempo, eternamente em movimento (porque expulso, exilado) e eternamente em busca. Se o diabo é a palavra que o representa, ele é isso: ambigüidade, deslocamento, travessia.

De acordo com as tradições populares de diversos grupos culturais em diferentes espaços e épocas, a autoria da Criação supostamente divina pode ser contestada. Como registra Mircea Eliade em suas investigações sobre os mitos cosmogônicos, vários apresentam uma interação entre Deus e Diabo, sendo este apontado como uma espécie de co-autor da obra de um Deus solitário e desprovido de criatividade [3]. Em inúmeras variantes mitológicas, um Deus consciente da própria impotência cosmogônica ou mesmo sem a imaginação necessária para construir o mundo recorre ao Diabo, pede ajuda, propõe acordos àquele que acaba por ser o “idealizador do projeto”. O Criativo por trás do “Criador”.

O diabo é uma presença recorrente na obra de Jorge de Sena. Em sua obra ficcional, primeiro aparece em Gênesis, livro de contos de um ainda jovem escritor. Em “Paraíso Perdido”, os anjos flagrados por Deus em extremo ato de desobediência, atacando os frutos proibidos da árvore do Bem e do Mal, são condenados à transformação em diabos, mandados diretamente ao inferno. Um deles, Lúcifer, recebe novo apelido – Satanás – e é nomeado o “líder” dos demais. Mais tarde surgiriam as Antigas e Novas Andanças do Demônio, livros de contos com um título de inspiração diabólica, embora o personagem seja substituído por uma variante mais ambígua: o demônio, versão moderna do antigo daimon greco-latino, entidade que Sena toma para si como uma espécie de parceiro criativo, forma masculina (ou andrógina) das musas, a quem vez por outra invoca (como no poema "Homenagem a Sinistrari (1622-1701) autor de De Daemonialitate"). Com O Físico Prodigioso, novela que tem como protagonista uma espécie de daimon, temos o diabo mais estudado da obra de Sena.

Na poesia, o exemplo mais evidente seria Exorcismos, livro dos últimos escritos por Jorge de Sena, em que mais uma vez a presença do diabo – ou sua expulsão – aparece já no título. No prefácio de Poesia-III, a descrição do poeta dá a ver o quanto a ambigüidade e a duplicidade de sua escrita são por ele vivenciadas num sentido muitas vezes biográfico, movido pela questão do exílio, por exemplo – “com Exorcismos (1972) (…), de novo cerca de 60 poemas se me reuniam em complexo volume que não podia deixar de reflectir a condição de andarilho que tem sido a minha…”[4]. Sobre tal complexo e demoníaco volume, escreve Helder Macedo:

"alguns dos poemas mais admiráveis desse admirável livro são, de fato, no sentido mais exacto da palavra, “exorcismos” – esconjuros de demónios, executados com um dom de invectiva que não destoaria junto das mais ferozes “cantigas de escárnio” da tradição medieval."[5]

O próprio Sena caracterizaria assim a sua experiência de mundo dual:

"Religiosamente falando, posso dizer que sou católico mas não um cristão – o que apenas significa que respeito na Igreja Católica todo o velho paganismo que ela conservou nos rituais, nos dogmas, etc., sob vários disfarces, tal como a Reforma protestante não soube fazer. Acredito que os deuses existem abaixo do Uno, mas neste uno não acredito porque sou ateu. Contudo, um ateu que, de uma maneira de certo modo hegeliana, pôs a sua vida e o seu destino nas mãos desse Deus cuja existência ou não – existência são a mesma coisa sem sentido. Filosoficamente, sou um marxista para quem a ciência moderna apagou qualquer antinomia entre os antiquados conceitos de matéria e espírito. Não subscrevo a divisão do mundo em Bons e Maus, entre Deus e o Diabo (estejam de qual lado estiverem). Apesar da minha formação hegeliana e marxista, ou também por causa dela, os contrários são para mim mais complexos do que a aceitação oportunista de maniqueísmos simplistas."[6]  

Sem maniqueísmos, sem antinomias, sem um Deus Todo e Uno, adotando uma postura dialética onde outros optariam pelo dogmático, a obra de Jorge de Sena, como um espelho que reflete seu criador, mais que um exercício de aceitação de sua condição bifurcada, representa uma busca constante pela totalidade, pelo conhecimento de tom renascentista que lhe permita fazer uso de seu caráter de inerente ambigüidade para enxergar o todo, visível e invisível, grotesco e sublime. Uma busca pela sabedoria de testemunho e invenção do Diabo.

Os exemplos não se restringem, naturalmente, à porção “artística” da obra de Jorge de Sena, já que “as suas obras críticas e as suas obras de auto-expressão mais obviamente criativa constituem um todo feito de partes inter-relacionadas”[7]. Na obra crítica, como forma de escrita, a dualidade discursiva do diabo aparece representada, por exemplo, pelas notas de rodapé que se insinuam nos cantos do papel, seduzindo o olhar do leitor do texto principal como faziam os “diabos” do auto medieval, e que por vezes chegam a ocupar mais da metade da página. Tendo Jano duas faces, duas bocas emitem a um só tempo dois discursos que, por mais científicos que sejam, ainda guardam um certo (grande) desejo de subversão, o que faz com que seja absolutamente comum nos estudos de Jorge de Sena a existência de várias páginas dominadas pelo discurso “paralelo”. A disposição diabólica para criar, para romper com o previamente estabelecido, para arruinar conceitos solidificados pela ordem em busca de novas cosmogonias, de novos mundos possíveis, isto é, tudo aquilo que marca a invenção poética seniana, quando voltada para a produção de um discurso teórico ou crítico, faz com que, não apenas pelo conteúdo de suas idéias mas também pela provocação de sua estrutura textual, tudo seja questionável, questionado, e mesmo detalhes aparentemente simples e habituais em qualquer discurso dito científico, como o termo “nota de rodapé”, perdem totalmente o sentido, deixando de significar apenas um adendo ou esclarecimento subordinado ao texto principal, para incorporar a independência de um termo coordenado ao texto como um discurso lateral, mas auto-suficiente.

Entretanto, a participação do diabo na obra crítica de Sena não se limita à influência estrutural. Como “personagem” ou metáfora, ele aparece em várias leituras e ensaios. Por exemplo, entre os muitos e incansáveis estudos de Sena sobre Camões, não falta um olhar atento aos demônios do Poeta, em especial aos demônios d’Os Lusíadas. Em seu Estudos sobre o vocabulário de Os Lusíadas (Lisboa, Ed. 70, [1982]), Sena estabelece, a partir de um levantamento de citações e referências camonianas a figurações demoníacas e de uma detalhada investigação aritmosófica do que vai definir como "cautelas cabalísticas", uma leitura d'Os Lusíadas como "jogo vocabular" em que o uso "diabólico" da ironia constrói um texto perversamente dialético, no qual o homem é responsabilizado por seus próprios vícios e virtudes. Resumiria mais tarde seus estudos vocabulares em “Camões: Novas observações acerca da sua Epopeia e do seu Pensamento”:

"infernais como demónios serão os próprios portugueses, se o rei D. Sebastião os olhar quando lutam por ele. Curiosamente, é esta a única ocasião em que nos é servida uma descrição de quaisquer demónios: infernais, negros e ardentes. E o adjetivo é destituído assim de qualquer conotação diabólica real, para se tornar metáfora de uma metáfora. (…) De facto, demónio é daemonium do latim tardio, um helenismo, o diminutivo de daimon; e demo pode ser identificado com o originário daimon. Deste modo, Camões – para o intento determinado de fazer passar pelo censor, incolumemente, tudo o que se referisse a mitologias e magias – podia usar ambas as palavras para o Demónio que os outros teriam em mente, enquanto ele – mais sabido em Demónio et alia – assim retinha nos vocábulos o sentido helenístico deles: daimon significando qualquer espírito sobrenatural, e mesmo um deus como ingenuamente Fr. Bartolomeu Ferreira dissera, na sua licença, que todos os deuses pagãos eram (imagine-se o sorriso de Camões ao lê-lo), e o daemonium significando, de um modo ou de outro, todos os outros espíritos menores através dos quais Deus opera."[8]

Valendo-se do mesmo jogo de diferenciação entre os termos "diabo" e "demónio", numa escrita que defende a liberdade das bifurcações mas que depende ainda de alguns mecanismos de autopreservação, posto que, como o diabo, as inquisições se transformam e disfarçam de muitas formas, mas nunca deixam completamente de existir, a "teologia liberal" diagnosticada por Sena no texto de Camões serve a um propósito caro a Jorge de Sena: a configuração de um dialético espaço de intervalo, de suspensão entre maniqueísmos simplórios, em que se possa ver o todo e ter dele uma consciência "total". Sobre Camões, afirma que "o maniqueísmo camoniano é uma dualidade intelectualista de natureza dialética, em que o Bem e o Mal, a vida e a morte, a luz e as trevas, todos os opostos possíveis, lutam entre si e se harmonizam numa transformação perpétua de que renascem sucessivamente e continuamente"[9] – que nada mais é do que afirmar uma visão de mundo em que a única permanência é a metamorfose. E continua, dizendo que "aquela visão dialética da natureza mutável e permanente das coisas e do pensamento é o que possibilita filosoficamente que, na estrutura de Os Lusíadas, tudo possa significar duplamente o aparentemente oposto"[10] – que nada mais é do que afirmar uma forma de escrita em que o principal mecanismo é a ironia. Afirmação ética e estética do rosto de Jano, da figura andrógina e em travessia que é o diabo, da ambiguidade de caráter dos demônios.
 
Habitando o espaço intervalar que conduz o desejo racional de conhecimento e a vertigem maneirista decorrente da constatação das próprias impossibilidades dentro de um mundo em desconcerto, o Homo totalis em crise que é Jorge de Sena ao espelhar-se em Camões tem no diabo uma representação nítida de ambos. Talvez seja esta, aliás, uma excelente definição para o diabo: um Homo totalis em crise. Alguém que, recusando a Deus o papel central da tragédia cósmica, busque todas as respostas e toda a sabedoria por meio da experimentação, que o mesmo seria dizer por meio do testemunho.

 

Notas:

1. (Luís da) Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2001. p. 190.
2. Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2001. p. 195.
3. Mircea Eliade. Mefistófeles e o Andrógino. 2ªed. Trad. Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p.85-87.
4. Jorge de Sena. Poesia III. Lisboa: Edições 70, 1989. p.13
5. Helder Macedo, “De amor e de poesia e de ter pátria”. In: Trinta leituras. Lisboa: Presença, 2007. p.193.
6. Jorge de Sena. Poesia I. 3ª ed. Lisboa: Edições 70, 1988. p.21
7. Helder Macedo, “De amor e de poesia e de ter pátria”. In: Trinta leituras. Lisboa: Presença, 2007. p.198.
8. Jorge de Sena, “Camões: Novas observações acerca da sua Epopeia e do seu Pensamento” (1972). In: —Dialécticas aplicadas da Literatura. Lisboa: Edições 70, 1978. pp.471-476
9. Jorge de Sena, Estudos sobre o vocabulário de Os Lusíadas. Lisboa, Ed. 70, [1982], p. 406. Grifo nosso.
10. Idem, p.407. Grifo nosso.