Cinco Natais de Guerra, seguidos de um Fragmento em Louvor de J. S. Bach

Dos 15 poemas “natalinos” de Sena, esta sequência reúne os datados de 1944 a 1948. Em áudio, “Jesus, alegria dos homens” de Bach.

Os Natais de Jorge de Sena tratam […] de uma ausência que dói e nos incrimina, de uma impossibilidade que agrava a sede e a fome, de um vazio que insistimos em não encher, falam, em suma, dos antinatais que somos, por culpa de tudo e de cada um de nós que os não vive dentro de si, como exigência e responsabilidade que se não podem transferir… (Eugénio Lisboa*)

 

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1944

Possivelmente, meu Deus, a vossa existência não passa
de uma piedosa mentira com que vos embalam os homens
(e tanto vos embalaram, meu Deus, que respirais tranquilo
nos braços destes milhares de gerações sofrendo a vossa vinda).

Acordai, Senhor; nascei, Senhor; olhai
como se amam estes numerosos povos
que se entre-destroem furiosamente sem saber por quê,
inventando razões, procurando razões, acreditando em razões,
à semelhança do enamorado que persegue uma eterna visão,
e é (julga), porque as pernas são belas, os cabelos são louros
e o seio saltava mansamente ao cruzar por ele.

Mas basta, Senhor: não demoreis a conquista.
Deixai que vos esqueçam, que descansem, que se alegrem,
sem que a morte espalhe uma violenta alegria,
e um feroz desejo de ter imensos filhos,
e uma tremenda raiva de que levem tanto tempo a crescer,
e uma simples saudade de um azul do céu,
sob o qual se morra tranquilamente de cancro ou de tuberculose
ao conspícuo abrigo dos códigos e do Governo Civil.

24/12/44
1945

Toca a silêncio o clarim no silêncio já feito
do quartel que dorme. Como é fria a noite
e prolongada ao mais fundo fundo da treva
por estas notas lentas, sossegadas, graves.
A noite é igual às outras, e o clarim que toca
repete, com variantes, os clarins do mundo.
Toca a silêncio pela terra, longe, do outro lado,
e há homens que dormem sonhando com a paz,
que chegou desconhecida e pálida. Quem dorme
acordado ouvindo os clarins a tocar? –
– a silêncio na noite de Natal, que passa
igual a tantas, desde que há Natal, e a guerra
continua, continua sempre. Ah nunca, nunca
a guerra acaba! Morrem oprimidos
povos e povos, crentes de uma paz, da mesma
prometida outrora e por penhor rasgada.
Morrem os homens, quando a sonham mais,
e os que não sonham, e os que não a sabem
e morrem, já da paz, e não serão lembrados
sob um nome comum, com monumentos e festas.
Mortos da paz! Anónimos! Perdidos! Não dareis
um feriado às crianças que da escola
sairiam correndo, ignorando até
que poderiam estar com elas vossos filhos,
se os tivésseis tido.
Toca a silêncio, ó clarim do mundo!
Toca a silêncio, agora, manda adormecer
esta humanidade frenética de saber que existe,
manda que durma e sonhe de si própria
a existência que sabe e que não tem!
Toca a silêncio, ó clarim do mundo!
E na alvorada, quando na alvorada
acordarem todos para mais um dia,
não toques para todos nunca mais!
Acorda apenas os que não viveram,
os banidos, os perseguidos, os traídos, os infames,
os que te ouviram sempre com o desejo nas mãos,
os mortos juvenis, os mártires de todos os tempos,
de todas as guerras, de todos os tratados
– e chama-os para que vejam com os seus próprios olhos
a terra imensa: era tão grande a terra! E depois, logo depois, na noite extrema
que os abrigará materna em pleno dia
– toca de novo a silêncio, ó clarim do mundo!,
é silêncio o que eles pedem, só silêncio, mais nada.

5/1/46
1946

É muito fria a minha mágoa
neste Natal que, à beira de água,
referve em multidões embriagadas
por frios tão de outrora, que, apagadas
as brasas de uma esperança já perdida,
acordarão sozinhas junto à vida.

A mágoa, se é do mundo,
talvez não seja apenas de tão fundo
ser o desvão em que estou frio e só.
E o céu azul, e a raiva de o olhar
neste mau hábito infantil de paz sonhada,
e a solidão do amor, e o presunçoso dó
de longe haver a esperança de o cantar:
ridículo Natal, miséria e nada.

25/12/46
1947

Mécia:

Não é já de Natal esta poesia.
E, se a teus pés deponho algo que encerra
e não algo que cria,
é porque em ti confio: como a terra,
por sobre ti os anos passarão,
a mesma serás sempre, e o coração,
como esse interior da terra nunca visto,
a primavera eterna de que existo,
o reflorir de sempre, o dia a dia,
o novo tempo e os outros que hão-de vir.

31/12/47
1948

Dentro do frio os coros cantam docemente
em louvor de deuses por nascer
se os deuses nascem deste amor de um instante
como acontece aos homens
se da perpétua noite desesperada
que alegremente os coros tiram de julgar os astros
se pela terra massacrada as águas fogem
à ténue melodia da amargura
dentro do frio noite solidão
murmúrios de revolta silêncio rebelado
gritos de amor por tanta ausência pura
os deuses nascem de nenhum nascer
humanos passam como a terra em nós
até ao fim dos séculos dos mares
dos átomos descritos coração que pede
mão que se fecha lágrimas que secam.

Cantai cantai na hora mais que breve
a vossa dor de virgens só mentais
o parto ameno do ventre imaginado.

24/12/48
Fragmento

… … … … … … … … … … … … … … … … … …

Em ti está a alegria
e tu não estás em parte alguma nem no céu,
na terra, sobre o mar, entre as trevas das magnas profundidades,
não, não estás no rosto amigo, no sorriso de amor
acompanhando o doce apertar de mãos antes ou depois das últimas palavras,
não, não estás na esperança de felicidade para os outros
sem que nunca serei feliz dessa alegria em ti,
nem estás na angústia das traições que vi
virem já dentro dos sonhos, dentro dos cânticos,
não estás em nada, nem no nada estás,
mas onde, aonde esta alegria, esta certeza, esta música,
mais silenciosas, mais humildes – tão orgulhosas,
tão altivas, tão amantes perpétuas de um tu sussurrado
com doçura firme, autêntica, viril,
e femininamente áspera e cortante,
sussurrado tudo, à luz do sol, à escuridão nocturna,
a qualquer sombra do amor fugidio, fugitivo, imenso.
… … … … … … … … … … … … … … … … … …

5/5/47
* “Os Antinatais de Jorge de Sena”. In: As Vinte e Cinco Notas do Texto. Lisboa, IN-CM, 1987 p. 45-50 (Texto destinado a uma coletânea de poemas de Natal de JS, nunca publicada)

**in: Poesia I (Lisboa: Edições 70, 1988). No áudio: Jesus, Alegria dos Homens – J. S. Bach

 

Jorge de Sena e Fernando Pessoa

Os ensaios e artigos que Jorge de Sena escreveu sobre Fernando Pessoa entre 1940 e 1978, que a seguir se transcrevem, estão repertoriados na minha Pessoana. Bibliografia passiva, selectiva e temática (Assírio & Alvim, 2008). Os textos marcados com asterisco encontram-se reunidos in Fernando Pessoa & Cª. Heterónima (Estudos Coligidos 1940-1978) Lisboa: Edições 70, 1982, 2 vols; 2ª. edição, 1983; 3ª, edição num volume, 2000):

 
 
1. [Carta à Direcção da "Presença"]. In Presença., XII, Série II, 2, 2/1940, pp. 138-139. *
Carta datada de 8 Janeiro 1940 e publicada sob o pseudónimo Teles de Abreu. O poema "Apostila", de Álvaro de Campos, publicado pela "Presença" como inédito, não o era: tinha sido publicado no "Notícias Ilustrado" de 27 de Maio de 1928, com algumas variantes, que se comentam.

2. "Carta ao Poeta". In O Primeiro de Janeiro, 9/8/1944. [Rep. sob o título "Carta a Fernando Pessoa", in DA POESIA PORTUGUESA. Lisboa: Ática, 1959, pp. 165-169; em tradução castelhana de Ángel Campos Pámpano, sob o título "Carta a Fernando Pessoa", in ABC, Madrid, 30 de Novembro de 1985] *
A tendência de FP para a despersonalização, com a criação de poetas e escritores heterónimos, significa uma desesperada defesa contra o vácuo que ele sentia sem si próprio e à sua volta. FP não foi um mistificador, nem foi contraditório: foi complexo; não foi tão-pouco um poeta do Nada mas, pelo contrário, um poeta do excessivamente tudo, do excessivamente virtual.

3. "Prefácio" e "Notas". In FERNANDO PESSOA. PÁGINAS DE DOUTRINA ESTÉTICA. Selecção, Prefácio e Notas de (…). Lisboa: Editorial Inquérito, 1946, pp. 7-16 e 303-365. [2ª. reimpr., não autorizada, s.d. (1964] *
Reúnem-se escritos de FP em prosa, que dão uma imagem do que foi, no campo da especulação e da acção, o seu enorme labor intelectual, servido por um estilo multímodo e inconfundível, cuja "encenação" é levada até à ortografia. Na sua generalidade, os textos aqui coligidos, se algum defeito têm é a excessiva clareza lógica de um raciocínio implacável, sempre a dois passos do esquematismo. Há em FP uma ironia latente (e muitas vezes ostensiva) que permite erros de interpretação e avaliação: ele desejava, certamente, a salutar descida ao subconsciente nacional da maior parte dos seus escritos. A propósito da "Nota ao acaso", de Álvaro de Campos, sublinha-se que toda a obra de FP, poética ou não, patenteia que o "problema gnoseológico do conhecimento" foi problema fundamental de FP: toda essa obra coloca, em primeiro plano, a questão da sinceridade, mas da sinceridade metafísica (e não a sinceridade ética).

4. "Sobre um artigo esquecido de Fernando Pessoa". In Mundo Literário, 19/10/1946, pp. 7-8. [Ensaio parcialmente integrado no Prefácio e numa Nota in FERNANDO PESSOA. PÁGINAS DE DOUTRINA ESTÉTICA] *
O texto de FP "À memória de António Nobre", inspirado na pura tradição do ensaísmo inglês, é escrito numa prosa absolutamente poética, sem a abstracção lógica, tão implacável como irónica, dos seus artigos. Nele perpassa uma profunda melancolia.

5. "Fernando Pessoa e a literatura inglesa". In O Comércio do Porto, Supl. "Cultura e Arte", 11/8/1953. [Acompanhado da trad. dos "Sonnets" XV (por Jorge de Sena), XXVIII (por Adolfo Casais Monteiro) e XXXV (por Jorge de Sena e Adolfo Casais Monteiro. Rep. in ESTRADA LARGA. Porto: Porto Editora, s.d. (1958), I, pp. 192-197] *
O problema das relações de FP com o Inglês e indirectamente com a cultura britânica é da maior importância, na medida em que ajuda a explicar a formação intelectual e artística em que, como grande poeta português, sempre se comprazeu: a cultura britânica, adquirida em Durban, deu-lhe a possibilidade de usar a língua portuguesa com uma virgindade de quem a contempla pela primeira vez. Os "35 Sonnets" sintetizam o neoplatonismo integral que é subjacente ao pensamento profundo de FP, devendo muito à doutrinação de Walter Pater. "Antinous" e "Epithalamium" são dos mais belos poemas raiando a obscenidade que jamais escreveu um poeta português.

6. "Maugham, Mestre Therion e Fernando Pessoa". In Diário de Notícias., 3/21/1957. *
A figura de Aleister Crowley, cuja personalidade se descreve através de citações do romance de Sommerset Maugham "The Magician", é interessante para a "petite histoire" de FP.

7. "'Inscriptions' de Fernando Pessoa. Algumas notas para a sua compreensão". In O Comércio do Porto, Supl. "Cultura e Arte", 9/9/1958. [Com a tradução do Epitáfio II. Texto utilizado, em grande parte, in "O heterónimo Fernando Pessoa e os Poemas Ingleses que publicou" . Rep. in ESTRADA LARGA. Porto: Porto Editora, s.d. (1958), I, pp. 187-191] *
Descontado um certo requinte indispensável à simplicidade e concisão lapidares (também utilizadas em poemas da "Mensagem") e inerente ao estilo alusivo que é o das literaturas da antiguidade, as "Inscriptions" de FP são de uma sóbria e correcta singeleza, longe da complexidade conceptual dos "35 Sonnets". É errado dizer-se que Ricardo Reis é o heterónimo mais afim destes poemas em Inglês.

8. "Fernando Pessoa, indisciplinador de almas. (Uma introdução à sua obra em prosa)". In DA POESIA PORTUGUESA. Lisboa: Ática, 1959, pp. 171-192. [Conferência proferida em 12 de Dezembro 1946 no Ateneu Comercial do Porto.] *
A obra de FP que, embora variada, é extremamente una, caracteriza-se pela preocupação nacional, a irreverência propositada, a consciência do próprio valor, a qualidade luciferina do seu espírito e a inexcedível perfeição da sua linguagem. De certo modo um pós-simbolista e cujo génio integra as tendências europeias do seu tempo, FP dedicou a vida inteira à subversão, em si mesmo, nos seus amigos, nos seus contemporâneos e na posteridade (sobretudo nesta): é um dos maiores mestres de liberdade e de tolerância que jamais houve.

9. "ORPHEU". In DA POESIA PORTUGUESA. Lisboa: Ática, 1959, pp. 145-163. [Palestra lida em 25 Novembro 1954 no Restaurante Irmãos Unidos, em Lisboa, por ocasião do descerramento do retrato de FP por Almada Negreiros] *
Descrevem-se e comentam-se as personalidades do grupo do "Orpheu" que significa, acima de tudo, uma crise, magistralmente superada em FP, que a viveu através da criação dos heterónimos. Nestes realiza FP a objectivação da expressão poética e, ao mesmo tempo, procura a dissolução da personalidade corrente e indivisível das estruturas psicológicas clássicas da sociedade tradicional

10. "Cartas de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa". In O Estado de S. Paulo, 19/3/1960, pp. 1. [Rep. in O POETA É UM FINGIDOR. Lisboa: Ática, 1961, pp. 61-77] *
Ninguém como FP compreendeu Mário de Sá-Carneiro, porque se estava compreendendo a si próprio na pessoa do outro, cuja intimidade de espírito e cujas declarações escritas são sinal de uma identidade de contrários, sublimada pelo suicídio de Sá-Carneiro.

11. "Vinte e cinco anos de Fernando Pessoa". In O Estado de S. Paulo, 3/12/1960. [Rep. in O POETA É UM FINGIDOR. Lisboa: Ática, 1961, pp. 79-95] *
Relato do relacionamento da Tia-Avó de Jorge de Sena com FP, na Rua Coelho de Rocha e recordações pessoais: Sena lembra-se, adolescente, de FP como um "senhor suavemente simpático, muito bem vestido, que escondia no beiço de cima o riso discretamente casquinado", com um ar de estrangeiro, distante no tempo e no espaço". A publicação da "Obra Poética" (Aguilar), marca uma data nos estudos "fernandinos" : Maria Aliete Galhoz vem tomar um lugar proeminente entre "os donos encartados" de FP.

12. "O poeta é um fingidor (Nietzsche, Pessoa e outras coisas mais)". In O POETA É UM FINGIDOR. Lisboa: Ática, 1961, pp. 21-60. [Comun. ao IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, Salvador, 1959.] *
Verifica-se, coteja-se e explora-se o nexo entre o pensamento de FP e o de Nietzsche, aspecto decisivo para a interpretação do Poeta: para Nietzsche, o poeta, para dizer a verdade, precisa de, em consciência e vontade, ser capaz de mentir. Esta capacidade de mentir não significará o "criar ficções", nem o pura e simplesmente "fingir" que os detractores de FP leram no primeiro verso de "Autopsicografia", antes se refere especificamente à ordem do conhecimento ou, mais exactamente, à ordem da "expressão autêntica" de um conhecimento do mundo. Está por fazer o estudo sistemático do elemento erótico em toda a obra de FP.

13. “Pessoa e a Besta". In O Estado de S. Paulo, 30/3/1963. [Rep. in O Comércio do Porto, 14 Janeiro 1964] *
A propósito da personalidade de Aleister Crowley, historiam-se as suas relações com FP, incluindo o "Caso da Boca do Inferno". O capítulo das relações e convicções esotéricas de FP, embora fundamental, é ainda um dos menos compreendidos.

14. "21 dos '35 Sonnets' de Fernando Pessoa. Apresentação em português". In Alfa, 10, Marília: Departamento de Letras, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília: 9/1966, pp. 7-24. [Texto parcialmente utilizado in "O heterónimo Fernando Pessoa e os Poemas Ingleses que publicou"] *
Apresentação e justificação da tradução para português de 21 dos "35 Sonnets" de FP, feita por Jorge de Sena (16), Adolfo Casais Monteiro (4) e José Blanc de Portugal (1). As traduções não são livres: são, talvez, a busca do compromisso possível entre a literalidade e a transposição poeticamente livre. Assim como a tradução literal não é a mais fiel, será um pecado fazer belas poesias com as poesias dos outros.

15. [Verbete sobre Fernando Pessoa]. In GREAT ENCYCLOPEDIA OF WORLD LITERATURE IN THE 20TH CENTURY III. Nova York, 1971. [Rep. Em trad. portuguesa in Jorge de Sena, AMOR E OUTROS VERBETES. Lisboa: Edições 70, 1992, pp. 227-231] Como "caso", FP seria um pasmo, se o não fosse pela excepcional qualidade da sua poesia: é um dos maiores poetas deste século em qualquer língua.

16. "Literatura Portuguesa (Europeia e do Brasil Colonial". In ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. 15ª. ed., 1974. [Rep. em trad. portuguesa in Jorge de Sena, AMOR E OUTROS VERBETES. Lisboa: Edições 70, 1992, pp. 253] FP está a tornar-se internacionalmente conhecido como um dos grandes poetas do século.

17. "O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou". In POEMAS INGLESES PUBLICADOS POR FERNANDO PESSOA. Obras Completas de Fernando Pessoa XI. Edição bilingue com prefácio, traduções, variantes e notas de (…), e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal. Lisboa: Ática, 1974, pp. 13-87. *
Apresentação e justificação da edição, incluindo os critérios seguidos na tradução para Português e a história completa da génese dos poemas. Os poemas em Inglês publicados por FP não são, à parte excelentes passos, da sua melhor poesia, mas são indubitavelmente da maior importância pelo que revelam do que ele menos revelou de si mesmo na sua poesia em Português e pelo que, por outro lado, mostram de uma fixação de temas e expressões suas, como de muitos jeitos sintácticos ou estilísticos da sua língua poética que, em português, se criou da tradução mental de construções correntes, ou menos correntes, que a língua inglesa possui e permite. Um tão completo processo de despersonalização lírica como é a heteronímia não poderia efectivar-se tão perfeitamente senão em alguém cuja dualidade linguística lhe desse a linguagem como um sistema de signos e relações destituído de outro valor que o de serem equivalentes de um sistema para o outro, como da conceptualização à verbalização.

18. "'Sim, é o Estado Novo, e o povo' – Um inédito de Fernando Pessoa apresentado por Jorge de Sena". In Diário Popular, 30/5/1974. *
Apresentação do poema, que prova que FP, se não era "um modelo de ideais socialistas que não eram os seus", era "anti-autoritário e adversário do antigo regime".

19. "Um triplo poema de Fernando Pessoa sobre António de Oliveira Salazar apresentado e comentado por Jorge de Sena". In Diário Popular, 5/30/1974 e 6/6/1974. *
Estes três poemas descobertos quinze anos antes, no espólio de FP, mostram que o Poeta não só mantinha as suas distâncias, como enveredava por uma atitude de franca resistência relativamente a Salazar e ao Estado Novo. Jorge de Sena esclarecem as condições em que os descobriu no espólio de FP e fez publicar em O Estado de S. Paulo.

20. "Os Poemas de Fernando Pessoa contra Salazar". In O Comércio do Porto, 9/7/1974. *
A propósito da publicação por Joaquim de Montezuma de Carvalho em "O Comércio do Porto" (em 28 de Maio de 1984) do poema "António de Oliveira Salazar", Jorge de Sena historia e esclarece a sua anterior publicação em "O Estado de São Paulo" e no "Diário Popular".

21. "Amor". In GRANDE DICIONÁRIO DE LITERATURA PORTUGUESA E DE TEORIA LITERÁRIA. Dirigido por João José Cochofel. Vol. I. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1977 . [Rep. In Jorge de Sena, AMOR E OUTROS VERBETES. Lisboa: Edições 70, 1992, pp. 60-63] Ricardo Reis proclama polemicamente um erotismo livre das limitações cristãs tradicionais; Alberto Caeiro é um amoroso ainda mais tradicional e Álvaro de Campos é o mais erótico dos heterónimos. "Antinous" é a mais intensa afirmação de erotismo composta por um poeta português desde a poesia clandestina dos sécs. XVII e XVIII.

22. "Jorge de Sena rispondi a tre domande su Pessoa". In Quaderni portoghesi, 1, Giardini Editori e Stampatori, Primavera 1977, pp. 137-158. [Entrevista conduzida e transcrita por Luciana Stegagno-Picchio em Abril de 1977] *
Interpretação dos poemas em Inglês – que não são grande poesia, mas em que há momentos de grande poesia – como chave para a compreensão do pensamento poético de FP e análise da questão da sinceridade do Poeta: o "fingimento" pessoano é uma "arte poética" que FP partilha com grande número dos seus pares modernistas de várias línguas e culturas: aliás, o verbo latino fingo, quando aplicado à criação poética, significava muito simplesmente, "compor".

23. "Fernando Pessoa : O Homem que Nunca Foi". In Persona 2, Porto, C.E.P., 7/1978, pp. 27-41. [Trad. portuguesa, pelo Autor, da comunicação original em inglês por ele apresentada no Simpósio Internacional sobre Fernando Pessoa, Brown University (Providence, E.U.A.), 8 Outubro; rep. do texto original sob o título "Fernando Pessoa. The Man Who Never Was", in THE MAN WHO NEVER WAS. Essays on Fernando pessoa. Edited and with an introduction by George Monteiro, Providence, Rhode Island: Gávea-Brown, 1982, 19-31; rep. em trad. francesa in "Po&sie", nº. 75, Paris, 1º. trimestre 1996, pp. 40-50] *
Tendo como "fonte de inspiração" as suas recordações de adolescente (FP era "um senhor, distinto e simpático", que "falava ocasionalmente em inglês com a minha tia-avó, permutava com ela livros em inglês, objectos raríssimos e invulgares naquele tempo em Portugal, e fazia uso do telefone dela (outro objecto então tremendamente incomum em casas de família, nesse tempo"), Jorge de Sena analisa a vida e a obra "daquela pessoa real chamada Fernando Pessoa, que era realmente um fantasma, ou, se quisermos, um cabide para a multidão de seres inexistentes muito mais reais do que ele mesmo queria ser". Ninguém, como ele, levou a despersonalização dos autores modernos a tão acabados extremos de conseguida e magnífica realização: os heterónimos são a mais mortalmente séria criação poética de todos os tempos.

24. "O 'meu mestre Caeiro' de Fernando Pessoa e outros mais". In ACTAS DO I CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS PESSOANOS, Porto: Brasília Editora, 1979, pp. 341-364. [Comun. ao I C.I.E.P., Porto] *
Estudo comparativo biográfico-crítico dos participantes no fenómeno heteronímico, com especial incidência no caso de Alberto Caeiro, e das suas incidências e correlações com a vida real de FP ele-mesmo: Caeiro vivia com uma tia-avó (a tia materna de FP, Maria Xavier Pinheiro?), "viveu" exactamente o mesmo tempo que Mário de Sá-Carneiro (1889-1915) e "morreu" tuberculoso como o próprio pai de Pessoa. O poeta quinhentista inglês Sir Philip Sidney será um Alberto Caeiro avant la lettre.

25. "Inédito de Jorge de Sena sobre o 'Livro do Desassossego'". In Persona 3, Porto, C.E.P., 7/1979, pp. 3-40. [Com uma introdução de Arnaldo Saraiva] *
Ensaio que seria o prefácio da edição do "Livro do Desassossego", pela Ática, de que Jorge de Sena teve de desistir, em 1969, por insuperáveis dificuldades em obter, de Lisboa, cópias e informações rigorosas sobre os fragmentos. Historia-se, minuciosa e exaustivamente, a génese do "Livro", incluindo os diversos planos em que ele é mencionado, inventaria-se rigorosamente a volumosa produção de FP em prosa e em verso, publicada entre 1915-1929 e 1930-1935 (para concluir que FP "não era o desconhecido que fizeram dele"), analisam-se as implicações da carta a Adolfo Casais Monteiro sobre a génese dos heterónimos e distingue-se entre Bernardo Soares e o Barão de Teive. Se nem todos os trechos do "Livro" são de igual valor, alguns serão da mais bela e mais penetrante prosa da língua portuguesa. Neles perpassam os temas dos poemas de todos os heterónimos e ortónimos: o racionalismo transcendental e o misticismo irónico e frio de FP ele-mesmo, a meditação existencial de Álvaro de Campos, o empírio-criticismo de Alberto Caeiro, a consciência da fugacidade de tudo de Ricardo Reis, o anarquismo paradoxal de "O Banqueiro Anarquista", o neo-positivismo espiritualista dos "35 Sonnets", a lascívia reprimida do autor do "Antinous", etc., etc. Sob tudo isto, como uma maldição, a terrível incapacidade de amar, a medonha demonstração de que o homem existe pelos seus actos e não é outro senão eles e que não existe, senão como ficção, quando, em lugar de aceitar "ir sendo", escolhe fixar-se na pedagogia monstruosa de ser por conta alheia, de se perder "na floresta do alheamento".

26. [Verbete sobre Fernando Pessoa]. In COLUMBIA DICTIONARY OF MODERN EUROPEAN LITERATURE. Nova York: Columbia University Press, 1980. [Rep. em trad. portuguesa in Jorge de Sena, AMOR E OUTROS VERBETES. Lisboa: Edições 70, 1992, pp. 214-215] Resumo biográfico-crítico de FP.

27. [Carta à Direcção da "Presença"]. In FERNANDO PESSOA & Cª. HETERÓNIMA (ESTUDOS COLIGIDOS 1940-1978). Lisboa: Edições 70, 1982, pp. 23-24 (Vol. I). [Rep. in 3ª. ed., pp. 17-18] Carta datada de 6 Abril 1940. Post-scriptum (não publicado) à carta de 8 de Janeiro 1940, com indicação de mais uma variante do poema "Apostila", de Álvaro de Campos.

28. "Ela canta pobre ceifeira". In FERNANDO PESSOA & Cª. HETERÓNIMA (ESTUDOS COLIGIDOS 1940-1978). Lisboa: Edições 70, 1982, pp. 7-65 (Vol. II). [Rep. in 3ª. ed., pp. 207-253] Ensaio sobre a poética do FP ortónimo. Entre o enorme número de poemas por ele publicados em vida, "Ela canta pobre ceifeira" ocupa lugar de relevo; a seu propósito, analisa-se exaustivamente a produção poética ortónima entre 1914 e 1934, nos aspectos da métrica, da rima e da organização estrófica, verificando a recorrência de poemas octossilábicos, o que revela um gosto incomum por essa medida (contrariamente à ideia generalizada de que o FP ortónimo era quase uniformemente heptassilábico). Historia-se a génese daquele poema e estudam-se em pormenor sete dos poemas enviados por FP a Armando Côrtes-Rodrigues em 1915. Para Jorge de Sena, a obra dita ortónima não é menos heteronímica que a dos heterónimos propriamente ditos: apenas muitas vezes ela participa sinultaneamente dessa criação "em nome de outrém" (ainda que assinada FP), que imita uma maneira de estilo, e de uma consciência crítica do não-eu que a assinatura ortónima civilmente representava.


A obra pessoana de Sena é paradigma de uma atitude crítica de incomparáveis scholarship, profundidade, inteligência e intuição: não se pode compreender a obra de Fernando Pessoa se não se conhecer o que sobre ela escreveu Jorge de Sena.

 

 

* Licenciado em Direito ligado à Fundação Calouste Gulbenkian durante décadas (1961-2004), José Blanco é "pessoano" apaixonado desde longa data e vem realizando detido trabalho de investigação e de divulgação internacional da obra do poeta. Além de numerosa participação em encontros científicos, foi curador das exposições pessoanas de 1985, em Paris e Londres, e de 1988, em Lisboa. A sua portentosa Pessoana (Bibliografia passiva, selectiva e temática e Índices), em 2 vols., registra mais de 6.000 verbetes comentados e constitui indispensável instrumento de estudo para quem se debruce sobre Fernando Pessoa.