Os poemas "incompreensíveis" de Jorge de Sena

Em áudio: “Anósia”, lido por Jorge de Sena

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Entre invocações ao demônio ou a Afrodite, entre inversões e palavras inexistentes ou não usuais, alguns poemas de Jorge de Sena propõem um jogo: decifrar o enigma, ou resistir à tentação de atribuir significado ao que insinua mas não diz?

  1. Pandemos
  2.  Anósia
  3.  Urânia
  4.  Amátia

 

QUATRO SONETOS A AFRODITE ANADIÓMENA

I – PANDEMOS

Dentífona apriuna a veste iguana
de que se escalca auroma e tentavela.
Como superta e buritânea amela
se palquitonará transcêndia inana!

Que vúlcios defuratos, que inumana
sussúrica donstália penicela
às trícotas relesta demiquela,
fissivirão boíneos, ó primana!

Dentívolos palpículos, baissai!
Lingâmicos dolins, refucarai!
Por manivornas contumai a veste!

E, quando prolifarem as sangrárias,
lambidonai tutílicos anárias,
tão placitantos como o pedipeste.

Assis, 6/5/1961
 

II – ANÓSIA

Que marinais sob tão pora luva
de esbanforida pel retinada
não dão volpúcia de imajar anteada
a que moltínea se adamenta ocuva?

Bocam dedetos calcurando a fuva
que arfala e dúpia de antegor tutada,
e que tessalta de nigrors nevada.
Vitrai, vitrai, que estamineta cuva!

Labiliperta-se infanal a esvebe,
agluta, acedirasma, sucamina,
e maniter suavira o termidodo.

Que marinais dulcífima contebe,
ejacicasto, ejacifasto, arina!…
Que marinais, tão pora luva, todo…

Assis, 6/5/1961
 

III – URÂNIA

Purília emancivalva emergidanto,
imarculado e róseo, alviridente,
na azúrea juventil conquinomente
transcurva de aste o fido corpo tanto…

Tenras nadáguas que oculvivam quanto
palidiscuro, retradito e olente
é mínimo desfincta, repente,
rasga e sedente ao duro latipranto.

Adónica se esvolve na ambolia
de terso antena avante palpinado.
Fimbril, filível, viridorna, gia

em túlida mancia, vaivinado.
Transcorre uníflo e suspentreme o dia
noturno ao lia e luçardente ao cado.

Assis, 14/5/1961
 

IV – AMÁTIA

Timbórica, morfia, ó persefessa,
meláina, andrófona, repitimbídia,
ó basilissa, ó scótia, masturlídia,
amata cíprea, calipígea, tressa

de jardinatas nigras, pasifessa,
luni-rosácea lambidando erídia,
erínea, erítia, erótia, erânia, egídia,
eurínoma, ambológera, donlessa.

Áres, Hefáistos, Adonísio, tutos
alipigmaios, atilícios, futos
da lívia damitada, organissanta,

agonimais se esforem morituros,
necrotentavos de escancárias duros,
tantisqua abradimembra a teia canta.

Assis, 20/6/1961
 

 

“NA TRANSTORNÂNCIA…”

Na transtornância impiala da firmusa
onde tão sulca de aridentes vem
a lúpida virónia damitem
que à fura imerna talifera e gusa,

alumibate a sintoscura etrusa.
Etrusa e tantimorta. E noctibem.
Como doriga e desinada quem
turidonada aflia a solidusa.

Regredassara detimura antrô-
temáqua adira apira escamivorta:
adominata incesca viridou
muldina igura talimen sigorta.

Nantida imbiva. Na primara andiata
e na danfia atedimasta aflata.

Araraquara, 5/8/1961
 

“ÁTIA CUÍ…”

Átia cuí dolcema trazidara
fistidonuta abadimeta pi-
tchesta morícula dojafa ri-
namudirata san. Omenicara.

Culipensteva. Chu. Manfemipara
alidorista infétia surpe si.
Seilascha tóvia senimor duri-
pendónis. Trabilástia assundigara.

Temedilíngra fraduslampo pórtio
vacrisdo abábio fluditorme abura
ganitonu medânti coligesta.

Vilo. Ver. Pess. Abilituno. Górtio
te trislanfa trisicanfa adura.
Intradijamba calimora resta.

(08/12/1963)
 

HOMENAGEM A SINISTRARI (1622-1701)
AUTOR DE “DE DAEMONIALITATE”

Os homini sublime dedit, coelumque tueri
Iussit et erectos ad sidera tollere vultus
(Ovídio, Met., I, 85-6)

Ó Belfagor Rutrem e Bafomet
Baclum-Chaam Sabazius Basiliscus
Mutinus Hautrus Chin Liber Strenia
Tchu-vang Tulpas Egrigors Churels
Lâmias Larvas Telazolteotl
Caballi Caballi Caballi Ca-
balli Caballi Caballi Caballi.
Melav oan em sonamuh euq
mim a edniv! Ó Laquiderme efiast!
Caste castina castinata cast!

Only he was heavie lyk a malt-sek
a hudge nature verie cold as yce.
(Boguet, An Examen of Witches)

1970
 
AFRODITE? NÃO
Aderga de agastura atabafada,
aterma barafusta e por betado
compeça batocante de chapado
numa cenreira a custo destrinçada.

Cuspido ao pai na lança definhada
se dissingula, esmera, escarmentado,
escafedendo-se elegante ao lado
na falcatrua, mística lufada.

Forfante de incha e de maninconia,
gualdido parafusa testaçudo.
Mas trefo e sengo nos vindima tudo
focinho rechaçando e galasia.

Anadiómena Afrodite? Não:
Apenas Duarte Nunes de Leão

(1971)
 

=> Sobre os “Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena”, ver os comentários do poeta brasileiro Antonio Cícero (e de seus leitores) no excelente blog “Acontecimentos”: http://antoniocicero.blogspot.com/2008/03/jorge-de-sena-sobre-os-quatro-sonetos.html

Peregrinações Européias

Poemas selecionados das andanças do poeta pelo Velho Continente

Desenho de Jorge de Sena
Desenho de Jorge de Sena

Nem todas as viagens são de exílio. Jorge de Sena era um indivíduo em constante deslocamento, de andanças e peregrinações, sempre fixadas em poesia. Abaixo, alguns poemas de exemplo, registros das viagens do escritor pela Europa:

 

 

Chartres ou as pazes com a Europa

Em Chartres, ó Peguy, eu fiz as pazes
com a Europa. Não que eu estivesse zangado,
mas estava esquecido. Primeiro
o almoço num pequeno hotel da praça
nem sequer de luxo, e todavia,
no domingo burguês com as famílias
déjeunant en ville, tão vieille France,
e os criados felizes de servirem bem,
e a gente feliz de assim comer com tempo,
gosto, prazer, e elegância. Da Réserve
Couronnée, ou do meio-dia planturoso e fosco,
fiquei tocado até às lágrimas.
Estou a ficar gagá, tout doucement.

Depois, Nossa Senhora, Chartres, Idade Média,
e a paz desta saudade n’alma
e a certeza de que este mundo tem de resistir
– e há-de resistir – à grosseria,
às bestas e ao vulgar, às multidões, a tudo:
como o veau flambé, como os vitrais de glória,
como esta flecha erguida sobre a Beauce,
imagem tão viril de Nôtre-Dame
a meio das campinas infinitas
que os séculos dos séculos calcaram
até fazê-las este plano horizontal de que,
portais de majestade, concreção de fé,
a nossa humanidade é pedra sem retorno
à natureza informe. Tal como a Deusa-Mãe
na cripta contida se transforma
nesta de vidros ascensão fremente
de cores que a luz acende mas não passa.

Europa, minha terra, aqui te encontro
e à nossa humanidade assim translúcida
e tão de pedra nos pilares sombrios.
(Chartres, 10/11/1968)
 

Travessia

Após cinco dias de sonolenta travessia
quase sem barcos, e sem nenhuma ilha,
apenas sobre um mar de ondeado azul sombrio
ou de estanhada palidez monótona
(ó mar – perene sangue a que regresso
nesta viagem como um ventre, um ovo,
o sumptuoso paquete de New York a Southampton),
de madrugada entrámos um par de horas
no Havre.
O tempo era pouco para ver-se a cidade.
Desci porém a terra, tonto como uma criança,
pousando com cautela os pés no cais.
Não por ser a França o que pisava na calçada suja:
Europa
(mais velha, como eu, quase dez anos).
(5/5/1969)
 

Florença vista de San Miniato Al Monte

Abrigado na brancura multicor de um românico
italianamente clássico, o cardeal de Portugal
dorme, primeiro túmulo da Renascença,
o seu sono (inquieto?) virginal.
Será que a morte – erecta – lhe forçou
o orgasmo que ele recusou à vida?

Converso disto com os monges brancos,
risonhos, sem inibições. E desço a escadaria
de San Miniato al Monte. Outonal e fria
a tarde é rubra no Arno e em Florença ao fundo.

Na esplanada sobre o vale, sento-me
ao silêncio do entardecer, vendo
Florença, com as suas cúpulas e torres, que escurece
austera e refinada: o Duomo, o Bargello,
Santa Croce, os Uffizi, o Palazzo Vecchio
a ponte antiga, o Campanile, tudo – e os montes
e os ciprestes, e o céu pálido, a lua:
um momento incrível de fé na grandeza humana,
que não existe já mas paira ali suspenso,
ecoa pelas praças e nos pátios,
um misto de rigor e de volúpia, dignidade
das coisas e das formas, que o cardeal,
aqui do alto, e na margem oposta,
velou dormindo, e vela, virginal.
(10/5/1969)
 

Vila Adriana

De súbito, entre as casas rústicas, e a estrada,
e o monte agreste e Tivoli, o invisível
oásis gigantesco.
Ao sol que passa
um arvoredo esparso, os campos verdes e
paredes, termas, anfiteatros, lagos,
e a paz serena e longa do Canopo
onde como antes cisnes vogam.

Palácio, o império em miniatura,
e sobretudo a solidão povoada
de guardas, secretários, servidores,
e gladiadores, e de uma sombra hercúlea,
ao mesmo tempo ténue e flexível,
e em cuja fronte os caracóis se enredam.

Neste silêncio em ruína, as sombras descem frias.
Mas para sempre o Imperador está vivo,
e o sonho imenso de um poder tranquilo
em que até mesmo escravos fossem livres
e as almas fossem corpos só tementes
de não salvar na vida o ser-se belo e jovem.
(7/5/1969)
 

Amsterdam

Canais concêntricos e radiais – vermelho –
hippies milhares na praça da estação –
as velhas casas dos patrícios dormem –
a sinagoga portuguesa ardeu
com letreiros dos nomes dos rabis
Mynheer Monteiro (e Sousa) (e Santos) – no
museu as sombras e na casa em que
viveu Rembrandt com a esposa nos joelhos –
em montras aos passantes mulheres nuas
turinas loiras Rubens se exibem
todas em burga e respeitável calma.
Noutro museu as memórias judaicas
da cidade que pôs a estrela de David
quando os nazis mandaram que os judeus a usassem.
(1/1/1970)
 

Ampúrias

Na tarde como Grécia imaginada
o ar se pousando claro à beira-mar
do golfo a recurvar-se verde-azul.
O cais primevo pende em ruína n’água
tão calmente em volta como pela areia
ondículas de praia silenciosa.
Paredes, ruas, casas rente ao chão
de que escavadas emergiram: pedras
branquipardas, secas de um aragem
quão perpassante e rasa nas colinas.
Aqui de Ibéria os gregos se fizeram
primeiramente terra das Espanhas.
(26/1/1970)
 

O Anjo-músico de Viena

Por trás do Dom em Viena,
após ter visitado o imperador Frederico III
que aí jaz (o marido de Leonor de Portugal,
com ele a mãe de Maximiliano de Áustria
por ela desejado o novo Constantino
e até exigia que a tratassem por
imperatriz Helena – de grandezas
mania tão de lusitano típica,
tanto mais que ninguém de portuguesas
antes dela chegara ao Santo Império)
– a luz faltava sobre o túmulo gigante
e houve uma briga, padre e sacristão,
em busca do interruptor, irados e germânicos –
comprei por trás da dita catedral
numa rua escusa um pequenino anjo
músico, esculpido em madeira
dentro de uma redoma, “souvenir”
modesto do lugar. Ali, ali,
enquanto o Fidélio do Karajan
ainda me lembra em preto e branco e cinza
na Ópera assistido, o poente da
Califórnia o ilumina de ouro suave
na prateleira em que pousa.
Fugindo a luz, o anjo toca e dança.
Em silêncio, imóvel, dentro
da redoma de prosaico plástico.
(17/1/1971)
 

Piazza Navona e Bernini

Palácios com aquele ar que em Roma
descasca de velhice o mais moderno prédio.
E a fonte de Bernini. Essa água toda
de que ele tinha em Roma o monopólio.
Mas noutra parte a colunata ascende.
E Santa Teresa, ante a seta do anjo,
vem-se de penetrada em vôo de pintelhos
que o hábito lhe roçam esvoaçante
num pélvico bater que a estoura de infinito.
(Chambéry, 27/7/1971)
 

A uma calista de Milão

Sob uma carioca bruma seca
também negro smog de Los Angeles,
Milão se estende noveau riche e cálida
numa abafação de estio lamentável.
Não vi quase Milão. O castelo Sforza
tinha o museu fechado, e o pátio cheio
de caranguejolas de ópera ao ar livre.
Também não vi, em Santa Maria delle Grazie,
o Cenacolo do Leonardo, fechado para
descanso dos artistas à 2a. feira.
Em Santo Ambrósio, lá estava o santo escaveirado
o mitrado entre o par (exagero promíscuo) de esqueletos romanos
soldados que nunca converteu. Em São Lourenço
(que resto de colunas ante a igreja, ó Roma!)
a capela Portinari estava também fechada.
Mas na estação Central as putas sobretudo machas
eram a Itália corrupta da democracia cristã
e serão dentro em pouco mui viris fascistas.
E encontrei uma calista, uma princesa
como de Bizâncio, de ícone as mãos, Senhora do
Perpétuo Socorro, de origem sarda mas
nascida em Milão. Tratou-me os pés martirizados
pelas calçadas da Itália como se fora o Miguel Ângelo,
e falou da sua Itália que acha – patrioticamente –
reles e torpe. Segundo ela que é
da opinião do rei analfabeto
feito lenda heróica do Risorgimento
(e que em Londres perdeu vitoriano casamento
por ter observado que as inglesas não usavam calcinhas),
os italianos não são de nada em política
(só máfia e vagabundos e fascistas).
Dante e Petrarca (Italia mia) e o Tasso e o grão Boccaccio
e o Bruno e o Campanella, e Giotto e o Tiziano Vecchio,
e os Médicis banqueiros, e os condottieri
desvergonhadamente mercenários – ó Machiavelli, tudo em vão…
Calista soberana, artista em pés doridos!
Tu não disseste, mas a tua Itália
é o puro exemplo de que na vida humana
há só uns quantos raros transformando em ouro
a merda milenária, e sempre a multidão
ansiosa de burguesa e de servil a transformar em merda
os oiros todos de sofrer-se o mundo
e de lhe dar em forma o senso que não tem.
Para quê obras de arte? Pra quê a literatura?
Há sempre em tudo, como nas ruas gloriosas
da Roma do Império e dos barrocos papas,
um vago cheiro a estival merda que se escapa
dos respiráculos sob as galerias em que lojas e bares
são modern style como a catedral em Milão
cheia de agulhas ferroviárias e de confessionários
para alívio dos borborigmas de alma
desta canalha humana esbarrigada ao sol
de um Verão como que eterno. Ó calista esguia,
ó mãos tão afiliadas em brandir bisturis!
Meus pés vão recordar-te gratos neste caminho da vida,
de cuja selva oscura não há já saída.
(Chambéry, 27/7/1971)
 

Plaza Mayor de Salamanca

I

De luz e sombra se recortam corpos
que não nas gralhas-grilhos destas vozes
tão de Castela vertical chilreio.
Ou digam se não digam que não digam
me falam dons de na distância em tempo
quando na Espanha Portugal vivia.

Ou quando era de exílio que na morte entrava
altiva e sitibunda e lealtad de España.

II

Que português não só de Espanha morre
mas de morrer-se não sequer conhece
a morte que de Espanha o sopra e mata?

Sentado nesta praça em Salamanca
de arcadas, medalhões e de janelas,
este quadrado incrível de elegância trémula –
mas catedrais são duas que de ao sol se douram
e dentro em cores o Juízo para o céu explode
uma harmonia que destrói o inferno.

Que português não só de Espanha morre?
(Salamanca, 1/9/1971)
 

Galiza

Aires airinhos aires
airinhos da minha terra:
qual terra me dareis vós,
se a vida em morte se encerra?

Airinhos aires airinhos
de língua que fora minha:
que língua me dareis vós
na vida que vai sozinha?

Aires airinhos aires
da carne que se envelhece:
que carne me dareis vós,
se a rede a morte me tece?
(1/9/1971)
 

Atenas

Também na Grécia eu. Custou mas foi.
Cheguei depois dos outros. Só Atenas vi
sob um calor de trópico e derrete
os deuses e os humanos nesta poeira seca
de montes e de praias sob um céu de névoas
com mar azul de sol e de ilhas carcomidas.
Vulgar cidade e bizantinas pobres
igrejas sem de torres tesas para o ar
mas padres gordos negros e sebosos
de barbas e rabicho pelas ruas cheias
de gente mais ruidosa que latina,
morena e grácil, juvenil e glabra,
negra de pêlos e cabelos, olhos
que descarados se abrem de pagã malícia
aguada, oriental, risonha num comércio
de perpassar desejo que se exibe em graça
como de arcaica estátua, torso, pernas
andando em firme passo de ombros duros
que fluidas ancas pela cinta quebram
– tão como nós de Europa o outro extremo
se Roma e cristandade a nós nos não vestira
de uma ausência castrando os deuses atrevidos.
Ruínas há de Adriano imaginada
a Grécia já, que só de Antínoo foi
no desfazer-se o antigo em corpos que só mortos
a deuses ascendiam como heróis de amor,
sacrificados touros para império ou escravos
um pouco mais para viverem contra as Parcas fúteis
então mais implacáveis de acabar-se o fio
que por tempos de Apolo e de Diónisos
com de um ou de outro à morte entreteciam.
Mas como fortaleza, ou rocha, ou monte
a que não chega nem ranger da carne,
nem gritos dia a dia de sofrer-se a vida,
nem mesmo estalar de ossos no deserto,
ergue-se alheia a tudo e sobre tudo a Acrópole.
Polida a pedra tão marmórea em lâminas
como crispadas vida em deuses congelada,
degraus mais altos que a medida humana
não teve tempo de gastar, e ruínas
de templos de altares saqueados frisos:
é como se de um lado pousassem
em peso de balança contra o mundo
as lajes e as colunas do Parténon,
nem grande nem pequeno só exacto,
medida insuportável de consolo agora
que os deuses e os humanos se perderam de
numa escala encontrar-se à mesma escala unidos:
aqui, sobre esta pedra gigantesca
que a nossos pés se foge de polida,
e onde milagre o se milagre foi:
os deuses como humanos, como deuses estes
ao mesmo tempo uma cidade e gente,
um vértice jamais revisitado,
devastada memória do poder ter sido.
Não foi, e não será. Em vão Antínoo
se matará, em vão suas estátuas
desviam de fitar-nos seu olhar vazio,
no lateral volver de uma cabeça
a caracóis penteada com volúpia,
sonhando ruínas em que o amor não fôra
o sangue e a morte de suspensos corpos
em árvores cortadas à cortada vida.
Desçamos tristemente a escadaria
de Propileu que se abre para baixo,
para as cidades rentes à traição divina.
E fique no alto como só castigo,
irónico chicote da Ateneia Palas,
o vértice perfeito imaginado outrora
para que à luz do sol ou das estrelas,
ou da gélida Artemis virgem ciosa
como a que cuja lança ali marcou o ponto
de uma oliveira sacra de entre céu e terra,
fique de nós o estigma e o pecado:
a humanidade de si mesma alheia
que ali subiu um dia, e voltou costas,
e veio passo a passo até às vis
cidades da planície a desejar dos anjos
o que dos deuses teve medo quando
as virgens e os efebos que eles raptavam
passaram a vender-se por uma alma quanto
só de imortais teriam em gratuitas garras
das águias e dos cisnes recravadas
em corpos como os destes que perpassam
aonde o mar primevo já não lava praias
e só babugem deixa de universo podre
de humanos que o percorrem sem favor dos deuses
e não regressam nunca ao lar das Ítacas
de que nenhum pecado os separava
e só esse prazer tão dulciamargo
de retardar a volta como os deuses sempre
que voando se afastavam de um eleito
abandonado por um outro à beira
da fina linha a dividir o espaço
entre o divino e o humano onde os heróis se geram
ou nos corpos idênticos a nódoa
ficava de uma posse que seria voz
e um recordar em ritmo o milagre ideal
de ser-se por momentos em divinos braços.
Nem mesmo essa memória nos possui
como mais que maldita: e quando a escutam
é só por suporem-se expiados
do risco a que escaparam de ter sido eleitos.
Sentem-nos na sombra da explanada
em frente do museu. Lá dentro existem
– fechada à noite a porta – estátuas e
as máscaras douradas de Micenas,
que só em ouro as máscaras nos restam
afiveladas num pavor mortal.
Vejamos de entre as mesas como passa
gente inda ateniense. Iluminada
a Acrópole é cenário – nada mais.
(9/10/1972)
 

Memória de Granada

Pairam repuxos gorgolejam estuques
dourados arrayanes e os leões
tão delicados alvo de ciprestes
Generalife no alto silencioso
– que te pierdas tú y el reino
y que se acabe Granada –
e João da Cruz aqui escreveu Joana
Filipe o Belo a Louca dele os Reis
Católicos de mármore e na cripta em terra
sic transiit gloria mundi. Sacromonte
ciganos de flamengo. Desce o Darro
murado em fundas pedras águas não
mas gatos que os garotos apedrejam.
Serra Nevada ao longe.
Pingo a pingo
goteja da montanha o poeta em sangue
– con qué trabajo tan grande
deja la luz a Granada! –
sobre a cidade moura e hispanamente burra
(Federico dixit e maricón mataram-no).
(8/12/1972)
 

S’hertogenbosch

Cidade albina a catedral dourados
os capitéis dominicais silentes
ruas. Aqui de Santo Antão os monstros
tentaram e as delícias vícios e pecados
incêndios na distância flores no cu
patas de pato bicos de galinha
as árvores da vida. Bosque
ducal Jerónimo queimaram bispos
os quadros. Dele não resta
traço. O sacristão expulsou-me
da nave cheia de negrumes fiéis.
(8/12/1972)
 

Anderlecht

Nesta casa de um cónego hóspede peregrino
Erasmo esteve pouco tempo. Mas
não por reconstituída à sua imagem
a imagem se conserva tristemente irónica
do que opôs a loucura e o cavaleiro
cristão além de igrejas e deveres
de crenças pulhas como os homens nelas.
Morreu suspeito a todos. Não aqui.
Os lábios apertados, pega a pena,
e mira dos retratos o seu Deus só alma.
(9/12/1972)
 

Madrigal de Las Altas Torres

Cresceu aqui Católica Isabel
viveu aqui a amante de Sebastião
um dos falsos melhor que o verdadeiro
morreu aqui Fray Luís de Léon
(“Como íamos dizendo…” – reatou na cátedra
aonde a Inquisição cortara uns anos antes)
as torres altas não existem já
nem madrigais se cantam nestas ruas brancas.
À freira perguntei onde era que a princesa
no convento escondia o amante pressuposto
o rei que se esfumava de Encoberto.
Corou voltou-me as costas – um segredo
ainda hoje ao fim de quatro séculos.
(12/12/1972)
 

De Glasgow a Londres

Britânicos carneiros se passeiam plácidos
solenes (sobretudo lhes pendendo longo)
por entre o sol nevoento e a neve branca
não derretida por calor que lhes
fez que em casa deixassem o chapéu de coco
e o guarda-chuva quando vieram fora
a pastar pelos moors erva já de verde
que negra se parece como a terra
pisada pelos cascos delicados.
Bosques alheados todos ramo seco
os galhos entrecruzam no cinzento
discretamente vago em claridade
e neve ontem caída. São de Escócia
a terra, a lã, e esta nudez perdida.
(23/2/1973)
 

Terras de Escócia

Estas gaivotas que da Escócia em terra
brancas os campos sobrevoam pousam
grasnando longe do rolar das ondas
a vida por verdura e sementeiras
como se negros corvos discutiram
de pardo azul estrias céu e mar –
descem redondas se passeiam suaves
pé ante pé como terrestres aves
que pisam não areias mas o campo
e quanto quão de corvos o silêncio escuta
em Escócia o passo dos que reis mataram
furiosos unicórnios violadores
e as mãos lavando a sangue lhas marcaram
de chifre em riste onde as gaivotas vieram
fazer um ninho de esquecidas águas
e brancas fitam seu olhar raiado
nesta paisagem verde que hibernal se apaga.
(Leuchars – Londres, 1/3/1973)
 

Crepúsculo ao sul de York

Azul pardo e laranja tão de quietas nuvens
de um invisível sol o poente se prolonga.
E ramos ainda inverno as árvores em renques
se escuram lineares escondendo casas
de negras no crepúsculo que paira
como dos campos névoa suspendida.
Enquanto escrevo o alaranjado é rubro,
o pardo se acentua, empalidece o azul,
e a noite se entreafina de esfriar tranquilo.
(1/3/1973)
 

Paris, um verão

Nas escadas do cais tão gasto e branco
(acima as casas pardas, verdes árvores,
iguais do lado oposto, mas sem cais igual)
me sento à beira-rio. O sol requeima
não a cidade mas quem passa ou fica
como se praia houvesse neste breve espaço
ao pé das águas onde barcos passam
criando brilhos no castanho delas.
Sentei-me, antes direi, à beira-rio.
Um rio estranho, porque é meu homónimo,
e que de tanto vê-lo (e conhecê-lo antigo
antes de havê-lo visto), não devia sê-lo.
Simples e doce este sentar-me aqui,
famílias passam, gente dúbia passa,
ainda há clochards catando-se embebidos
no seu sem tempo, mas hippies também,
também fora do tempo, não catando-se,
que fumam marijuana. O tráfego passando,
e o som de uma cidade são distantes.
Perto de mim, desnuda-se um casal
de jovens que se alonga nos degraus.
E comem-se com os olhos – é possível
que tenham feito amor, mas não se viram nunca
assim ao sol os dois, junto do rio,
e à volta a grã-cidade em que ambos vivem,
e gente que perpassa e nos seus corpos crava
uns olhos de desejo, inveja ou raiva,
ou só saudade de ter sido jovem
num tempo em que tais coisas não havia
como estar quase nu com tudo à volta.
E os corpos mais se gozam de se verem vistos.
(4/12/1975)

O Exílio e as Pátrias

Poemas selecionados entre Brasil, Portugal e Estados Unidos

Como escreve em seu poema “Em Creta com o Minotauro”, Jorge de Sena foi cidadão de muitas pátrias: “Nascido em Portugal, de pais portugueses / e pai de brasileiros no Brasil / serei talvez norteamericano quando lá estiver”. Nesta seleção, apresentamos alguns dos poemas escritos em cada uma de suas pátrias, sobre cada uma delas, pelo poeta que nasceu português e morreu brasileiro em solo norteamericano.

 

Portugal:

•    “Pão” (de Visão Perpétua)
•    “Os Paraísos Artificiais” (de Pedra Filosofal, Poesia I)
•    “De relance, o Alentejo” (de Post-scriptum, Poesia I)
•    “A Portugal” (de Quarenta Anos de Servidão)
•    “Glosa de Guido Cavalcanti” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “O Douro preso em barragens” (de Exorcismos, Poesia III)
•    “Aviso de porta de livraria” (de Exorcismos, Poesia III)
•    “Lisboa um domingo” (de Visão Perpétua)

Brasil:

•    “Vespertino do Rio de Janeiro” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Vigília Cívica” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Borboleta brasileira” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Os nocturnos merecem respeito ou A salvação do Brasil em 1o. de abril” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Natal – 1965” (de Visão Perpétua)

Estados Unidos:

•    “Do Trópico de Capricórnio aos Grandes Lagos” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Primavera no Wisconsin” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Noções de Linguística” (de Exorcismos, Poesia III)
•    “Duas paisagens da Califórnia” (de Exorcismos, Poesia III)
•    “Sobre esta praia… , III” (de Sobre esta praia… Oito meditações à beira do Pacífico, Poesia III)

 

Pão

Centeio novo do Minho
cresce depressa,
acompanha a vida:
o povo está sozinho
e vai partir.

Levanta-te bem verde.
A serra tem velas
e voa com nuvens
rolando nas velas.

Ergue-te e volta outro:
o povo parte sozinho,
não parte devagarinho.
(19/4/1942)

 

Os Paraísos Artificiais

Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

O cântico das aves – não há cânticos,
mas só canários de 3o. andar e papagaios de 5o.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
(3/5/1947)

 

De relance, o Alentejo

Um céu abafadiço, um ar de ausência
esperando nuvens imóveis no céu baixo.
A terra, já das ceifas recolhida,
alonga-se manchada a flores tardias,
roxas, vermelhas, amarelas, brancas,
como penugem de esquecida Primavera.

Por entre os campos, os cordões rugosos
dos caminhos para toda a parte,
menos para os campos, que pacientemente evitam.
Na linha do horizonte próxima ou distante
conforme as ténues cristas da planura imensa,
um claror de céu, um tufo de arvoredo,
alternadamente se tocam e se afastam.

De súbito, num alto que a planície esconde,
as casas surgem brancas e compactas.
Como surgem, mergulham
na sombra poeirenta de azinhagas em ruínas.
Ainda se demora uma torre antiga,
escura, com ameias e janelas novas,
caiadas.
Um rio se adivinha. Mas, de ao pé da ponte,
de novo apenas o ondular da terra,
um crespo recordar só de searas idas.
(30/5/1950)

 

A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de nascido dela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejeto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pro ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço: mas ser’s minha, não.
(Araraquara, 6/12/1961)

 

Glosa de Guido Cavalcanti

                              “Perchi’ I’ no spero di tornar giammai”

Porque não espero de jamais voltar
à terra em que nasci; porque não espero,
ainda que volte, de encontrá-la pronta
a conhecer-me como agora sei

que eu a conheço; porque não espero
sofrer saudades, ou perder a conta
dos dias que vivi sem a lembrar;
porque não espero nada, e morrerei

por exílio sempre, mas fiel ao mundo,
já que de outro nenhum morro exilado;
porque não espero, do meu poço fundo,

olhar o céu e ver mais que azulado
esse ar que ainda respiro, esse ar imundo
por quantos que me ignoram respirado;

porque não espero, espero contentado.
(11/6/1961)

 

O Douro preso em barragens

Verde tão verde e as árvores no fundo.
No fundo os rápidos que de água se quebravam
subindo à sirga em de rabelos barcos.
Mais baixas as alturas se reflectem calmas
de rochas casas e arvoredo fundo.

Verde tão verde o rio se não corre
de lago é preso e um barco noutra margem
parado se contempla a esbelta proa arqueada
sobre o telhado inverso do solar antigo.
Só brisa matinal se encrespa de água e morre.

Verde tão verde era de espuma e rocas
polindo-se tranquilas no fiar das águas.
Vinham descendo os montes em socalcos que
lambidos se inseriam no passar dos barcos.
No fundo como nuvens se enverdecem rocas.

Verde tão verde era de rijas águas
de espumas e de pedras e de alteadas margens.
Tão verde ora de névoa surda
em que de gritos não barqueiros remam.
Que rio se era escuro e já de verdes águas.

Parado e sempiterno e velho de águas rio
não passas repassando as águas de outro tempo,
verde tão verde na manhã parada.
(Douro, 30/8/1971)

 

Aviso em porta de livraria

Não leiam delicados este livro,
sobretudo os heróis do palavrão doméstico,
as ninfas machas, as vestais do puro,
os que andam aos pulinhos num pé só,
com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante,
enquanto com a terceira vão tapando a boca
dos que andam com dois pés sem medo das palavras.

E quem de amor não sabe fuja dele:
qualquer amor desde o da carne àquele
que só de si se move, não movido
de prémio vil, mas alto e quase eterno.
De amor e de poesia e de ter pátria
aqui se trata: que a ralé não passe
este limiar sagrado e não se atreva
a encher de ratos este espaço livre
onde se morre em dignidade humana
a dor de haver nascido em Portugal
sem mais remédio que trazê-lo n’alma.
(25/1/1972)

 

Lisboa um domingo

              1

Dominical a rua
e branco de silêncio
Agosto varre o sol
e papéis velhos das
soleiras carcomidas
por beirais de sombra.

2

Não nada
e que fica
só mentira
alheia.
Não há nos defenda:
perfídia
alheia.
Que resta
e o durar mais
só como queira
maldade alheia.

3

Um vento que ouço de árvores:
nenhuma voz humana.
Ninguém me ouve ninguém:
um vento que ouço de árvores.

4

Do alto da ponte
encostas de cidade
e prata rio e mar.

5

Rapazes conversam
em gritos grosseiros.
Silêncio de alegres mortos.
(26/8/1973)

 

Vespertino do Rio de Janeiro

Na noite as luzes furam treva, não
para além dela, mas de mim com ela;
não sei se arranha-céus, ou se favelas
que lado a lado arranham morros para
sustento de miséria. Imenso mar,
de altíssimas sombrias transparências,
na noite em que perpasso qual silêncio.
Não sei se amor me evita ou me protege,
ou se é de amor que eu velo o brando sono
ruidoso e povoado.

Meu coração é só de amor que sabe;
mas o que sabe, de saudoso esquece,
na angústia dúplice de não ter-te ao lado.
(22/8/1959)

 

Vigília Cívica

No planalto da Pérsia,
enquanto Quetzalcoatl se espaneja, arrasta a cauda,
eles votam pela adopção da ementa parlamentarista.
A ementa é:
sopa de nabos, feijão guisado, arroz com carne seca.
Seca?      Sim, minha senhora,
é na secura que os dentes encontram, exploram
e desenvolvem
as mais lídimas virtudes mastigativas.
Acredita V. Exª, senador, na selecção natural,
ou prefere, peito de rola, o outro mundo como
vontade e representação?
Eu sei, Excelência, que a resposta é impossível,
que o vento sopra no altiplano irânico
por uma forma que a serpente pode –
– o quê? Minha senhora, que entende de serpentes,
a senhora, emplumadas? Não
interrompa as meditações patrióticas dos sábios da Grécia
que eram sete e não houve, que se saiba,
outros.
Sirva-se V. Exª, senador, e a madame
também,
deste precioso guisado. O nabo é,
como diria Freud, um símbolo.
Acreditam V. Ex.as  no inconsciente colectivo? –
– pode a serpente levantar voo,
com as penas adejando e a cauda pendurada.
Nem sempre, eu sei, minha Senhora; mas,
em sopa cozinhada a fogo lento,
esse legume simbólico reage
como pode. Recorda-se, pai da pátria,
da sua juventude no planalto da Pérsia?
E de Édipo (o complexo), e de Jasão (o velo),
e de Ulisses (as sereias), naquela madrugada em que,
com ligeiro atraso, almoçámos juntos?
A cotação do café firmava-se nos astros
que Zaratustra lia apaixonadamente.
Foi nesse almoço que, na mesa ao lado, o cardeal falou,
citando CIF New York o Tigre de Bengala.
Creia, minha senhora, que de Ganimedes
nunca mais se soube, tranquilize
o coração maior que o mundo. Sobremesa?!
Mas como, senador, esta madama,
quando as serpentes passam exibindo as plumas,
deseja ainda pêssego em calda?!
O seu voto, senador, e o delas,
nesse altiplano irânico, Pamir, tecto do mundo,
são a derradeira garantia das instituições.
Mas pêssego, madame, com feijão
guisado e arroz com carne seca,
não é possível. Lembre-se de Ísis.
Repita a sopa. De nabo. Eu sei,
minha senhora, mas, a fogo lento,
esse legume simbólico reage
como pode.
(Araraquara, 4/9/1961)

 

Borboleta Brasileira

Patas de prata
losango de asas brancas
de negro debruadas
plumas cinzentas como cauda insólita
e a longa e fina tromba alaranjada
instantânea língua
olhos de esfera negra que me fitam
da estática assustada imóvel calma
que as patas pousam na vidraça
um animal        ser vivo       e borboleta
a mosca como eu olha-a espantada.
(5/3/1964)

 

Os Nocturnos merecem respeito ou A Salvação do Brasil em 1o. de Abril

Como podem chamar noite
a isto?
Há uma dignidade e uma nobreza
das trevas.
Isto
é outra coisa: a luz do dia
lá fora (onde?),
os sons e os cantos de alegria
lá fora (onde?),
o amor
lá fora
(onde?),
e a vergonha
lá fora
(aqui).
Como podem chamar noite
a isto?
(7/4/1964)

 

Natal – 1965

(Cartão de Boas-Festas a Sidónio Muralha)

“Quando São Paulo só tinha
quatro milhões de habitantes”
este mundo em que vivemos
não era melhor do que antes.
E muito menos São Paulo:
nenhum de nós lá vivera,
nenhum de nós lá escrevera,
nem nossos filhos havia
com que São Paulo aumentasse.

E nestas neves que tombam
exactamente na véspera
do Natal, por propaganda,
fico à espera dum livro
que de São Paulo me manda
a tua camaradagem.

Dos trópicos ao Wisconsin
não é uma longa viagem
se poetas portugueses
dos que andam pelo mundo
conservam preso no fundo
um Portugal que não há
nem nunca ainda haverá
neste mundo em que vivemos,
e de que sempre podemos
cantar São Paulo ou a lua.
Venha pois poesia tua,
apaixonada ou serena,
que gratamente a recebo
“ex corde”
Jorge de Sena.
(24/12/1965)

 

Do Trópico de Capricórnio aos Grandes Lagos

Deste Outono em árvores despidas
que em mil ramículos cruzados o livor enredam
celeste e nevoento de que as águas
tão crespamente se embranquecem frias,
eu não sabia já. Envelhecia
num Verão chuvoso ou num Inverno claro
em que de noutras árvores a folhagem viva
apenas de ser verde persistia.
Agora não. Neste hirto esbracejar de tantos dedos
que o ar sem unhas cortam tão tranquilos,
melhor hei-de saber que o tempo passa
em que sou eu quem passa como tempo
neste ficar do mundo sempre renovado,
com que da nossa vida é feito o tempo alheio.
(4/12/1965)

 

Primavera no Wisconsin

Na limpidez tranquila da manhã diáfana
em que as despidas árvores imóveis
são como nervos ou expectantes veias
no corpo transparente do azulado ar,
as águas quietas, mas não tanto que
nelas se espelhe mais que a concentrada cor
do ar tranquilo, nem tão menos que
pareçam gelo perto as águas mais distantes,
pousam na margem delicadamente
como na mesma terra infusas se dispersam
dos ramos e dos troncos sombras confundidas.
A terra se amarela de ante-verde
e, sêca, espera, entre a neve que foi
e o ténue estremecer da seiva que desperta.
(Madison, 15/3/1966)

 

Noções de Linguística

Ouço os meus filhos a falar inglês
entre eles. Não os mais pequenos só
mas os maiores também e conversando
com os mais pequenos. Não nasceram cá,
todos cresceram tendo nos ouvidos
o português. Mas em inglês conversam,
não apenas serão americanos: dissolveram-se,
dissolvem-se num mar que não é deles.
Venham falar-me dos mistérios da poesia,
das tradições de uma linguagem, de uma raça,
daquilo que se não diz com menos que a experiência
de um povo e de uma língua. Bestas.
As línguas, que duram séculos e mesmo sobrevivem
esquecidas noutras, morrem todos os dias
na gaguez daqueles que as herdaram:
e são tão imortais que meia dúzia de anos
as suprime da boca dissolvida
ao peso de outra raça, outra cultura.
Tão metafísicas, tão intraduzíveis,
que se derretem assim, não nos altos céus,
mas na caca quotidiana de outras.
(Outubro, 1970)

 

Duas Paisagens da Califórnia

– As ilhas de Santa Bárbara

Tão lúcidas recorte no horizonte
a névoa ergue-as do mar em que flutuam
violáceas quietas pela tarde imóvel
até nas brandas ondas que esta praia pousam
recurva apenas de uma luz sem cor
e do silêncio da distância em ilhas.

– Big Sur

Do alto da escarpa escarpas se prolongam
em que de praias se entelaça o mar
sobrevoado de aves. Os rochedos
somem-se e brotam de sem espuma em volta
que só ressaca é depois deles areia.
(Janeiro, 1971)

 

Sobre esta praia…

                   III

Sobre estas águas a que luz de inverno
dá não sombrias cores, ou nestas praias
em que uma brisa fria não levanta areias,
paira ou perpassa a calma e tamisada
serena paz das tardes infinitas.
Rareia só a gente num silêncio
de corpos isolados que deambulam
dispersos na distância ou que se deitam nela
a dissolver-se glabros na ondulada linha
de linhas sucessivas em que algas secas
são como escuras crespas cabeleiras nuas
de sexos e cabeças de gigantes que,
sumidos no sem tempo, mais não deixam deles
que essa memória solta por gastado em águas
o corpo que o seu foi por sobre a praia em rochas.
Nesta nudez total do que ainda se demora
dispersamente humano ou imagem sobre-humana,
o que fisicamente não tem voz nem gestos,
ou nem mesmo de olhar se comunica além
de uma presença solta pelo espaço límpido,
é como se do mundo espelhos se partissem
que nem sequer em estilhas neste sol dardejam,
e como se Narciso os não tivera para
se contemplar lá onde as águas o chamassem
para afogar-se mesmo em olhos que o fitassem.
(6/10/1972)

Leia mais:

Alguns Poemas Políticos

Em áudio: “Quem a tem…” e “Epígrafe para a Arte de Furtar”, lidos por Jorge de Sena

des_JS-1O posicionamento político de Jorge de Sena, como manifestação ética e estética daquilo que define como “testemunho”, aparece como tema de boa parte de sua obra, em especial nos contos e crônicas mas também em poemas como os que transcrevemos a seguir:

 

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OS PARAÍSOS ARTIFICIAIS

Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

O cântico das aves – não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

3/5/47

 

“QUEM A TEM…”

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

9/12/1956

 

EPÍGRAFE PARA A
ARTE DE FURTAR

Roubam-me Deus,
outros o Diabo
— quem cantarei?

roubam-me a Pátria;
e a Humanidade

outros ma roubam
— quem cantarei?

sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
— quem cantarei?

roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
— aqui del-rei!

3/6/1952

 

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse “com suma piedade e sem efusão de sangue.”
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,

foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sêmen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa — essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
— mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga —
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Lisboa, 25/6/1959

 

EM CRETA, COM O MINOTAURO

I
Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria de que escrevo é a língua em que por acaso de
[gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta

raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.

II
O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.
Violava e devorava virgens, como todas as bestas.
Filho de Pasifaë, foi irmão de um verso de Racine,
que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da “langue”.
Irmão também de Ariadne, embrulharam-no num novelo de que se lixou.
Teseu, o herói, e, como todos os gregos heróicos, um filho da puta,
riu-lhe no focinho respeitável.
O Minotauro compreender-me-á, tomará café comigo, enquanto
o sol serenamente desce sobre o mar, e as sombras,
cheias de ninfas e de efebos desempregados,
se cerrarão dulcíssimas nas chávenas,
como o açúcar que mexeremos com o dedo sujo de investigar as origens da vida.

III
É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu,porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos de outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.

IV
Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria. Apenas o café,
aromático e bem forte, não da Arábia ou do Brasil,
da Fedecam, ou de Angola, ou parte alguma.Mas café
contudo e que eu, com filial ternura,
verei escorrer-lhe do queixo de boi
até aos joelhos de homem que não sabe
de quem herdou, se do pai, se da mãe,
os cornos retorcidos que lhe ornam a
nobre fronte anterior a Atenas, e, quem sabe,
à Palestina, e outros lugares turísticos,
imensamente patrióticos.

V
Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,

sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.

5/7/1965

 

AVISO DE PORTA DE LIVRARIA

Não leiam delicados este livro,
sobretudo os heróis do palavrão doméstico,
as ninfas machas, as vestais do puro,
os que andam aos pulinhos num pé só,
com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante,
enquanto com a terceira vão tapando a boca
dos que andam com dois pés sem medo das palavras.

E quem de amor não sabe fuja dele:
qualquer amor desde o da carne àquele
que só de si se move, não movido
de prêmio vil, mas alto e quase eterno.
De amor e de poesia e de ter pátria
aqui se trata: que a ralé não passe
este limiar sagrado e não se atreva
a encher de ratos este espaço livre
onde se morre em dignidade humana
a dor de haver nascido em Portugal
sem mais remédio que trazê-lo n’alma.

25/1/1972

 

Leia mais:

Os encontros científicos em torno de Jorge de Sena

1979 — Colloquium in Memory of Jorge de Sena – University of California, Santa Barbara (promovido pelo Dept. of Spanish and Portuguese, em 6 e 7 de abril, gerou a publicação Studies on Jorge de Sena. Santa Barbara, UCSB/Bandanna Books, 1981)

1986 — Uma tarde com Jorge de Sena. Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (organizada por A. M. Nunes dos Santos, a 4 de junho, gerou a publicação Uma tarde com Jorge de Sena. Lisboa, UNL, 1986)

1988 — Colóquio Internacional sobre Jorge de Sena – University of Massachusetts, Amherst (organizado por Francisco Cota Fagundes, em 7 e 8 de outubro, gerou a publicação Jorge de Sena: o homem que sempre foi. Lisboa, ICALP, 1992)

1993 — Hommage à Jorge de Sena – Théâtre-Poème, Bruxelas (organizado por Anne de Villepin e Maria Manuel Gandra, com apoio da Livraria Portuguesa Orfeu e da Fundação Calouste Gulbenkian, 12 a 14 de março, com a participação de Mécia de Sena, Eduardo Lourenço, Maria de Lourdes Belchior, Luciana Stegagno Picchio, Michelle Giudicelli, José Terra, José Blanco e Carlo Vittorio Cattaneo). Paralelamente, exposição de pinturas de Manuela de Sena (filha do homenageado), exibição do filme Sinais de Fogo, leitura de poemas e a representação teatral da peça Le Physicien prodigieux (em cena de 12 a 28 de março).

1998 — Colóquio "Século XX – Itinerários da Poesia: Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Ruy Belo" – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (organizado pelo Depto. de Literaturas Românicas, de 27 a 29 de abril, gerou o nº 7 da Revista Românica – Itinerários da Poesia. Lisboa, Cosmos, 1999)

1998 — Colóquio Internacional "Jorge de Sena e outros escritores portugueses num Brasil recente"– Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro (organizado por Gilda Santos, de 25 a 27 de agosto, gerou a publicação Jorge de Sena em rotas entrecruzadas. Lisboa, Ed. Cosmos, 1999)

1998 — Congresso Internacional "Sinais de Jorge de Sena" – Faculdade de Ciências e Letras da UNESP/Araraquara (organizado por professores dessa universidade, de 30 de agosto a 02 de setembro)

1998 — Colóquio Jorge de Sena – Padrão dos Descobrimentos, Lisboa (promovido pela Câmara Municipal de Lisboa, de 19 a 21 de outubro, gerou a publicação Jorge de Sena vinte anos depois – O Colóquio de Lisboa. Lisboa, ED. Cosmos/CML, 2001)

2001 – Colóquio Internacional "Tudo Isto que Rodeia Jorge de Sena" – University of Massachusetts, Amherst (organizado por Francisco Cota Fagundes e Paula Gândara, em maio, gerou a publicação Tudo Isto que Rodeia Jorge de Sena, an international colloquium. Lisboa, Salamandra, 2003)

2003 – Seminário "Um quarto de século entre dois séculos: Vitorino Nemésio,Jorge de Sena e Ruy Belo" – Fundação Casa de Mateus, Junho de 2003.

2003 – Colóquio "Jorge de Sena: Ressonâncias" – Cátedra Jorge de Sena, Faculdade de Letras/UFRJ (organizado por Gilda Santos, a 4 de novembro, gerou a publicação Jorge de Sena: Ressonâncias e Cinquenta Poemas. Rio de Janeiro, 7Letras, 2006)

2008 – Colóquio Internacional "Jorge de Sena Cá e Lá: Novas Perspectivas 30 Anos Depois" – University of Massachusetts, Amherst (organizado por Francisco Cota Fagundes e Jorge Fazenda Lourenço, em 25 e 26 de abril, gerou a publicação Jorge de Sena: novas perspectivas, 30 anos depois. Lisboa, Universidade Católica Ed., 2009)

2009 – I Congresso Internacional da Cátedra Jorge de Sena "Andanças Prodigiosas da Literatura: Metamorfoses, Erotismo, Peregrinação, Testemunho"– Universidade Federal do Rio de Janeiro (organização de Teresa Cristina Cerdeira e Monica Figueiredo, de 20 a 22 de outubro, gerou a publicação Metamorfoses 10.2. Rio de Janeiro/Lisboa, Cátedra Jorge de Sena/ Ed. Caminho, 2010)
 

As Crônicas Senianas

* 1961 – O Reino da Estupidez (1979 – 2a.ed aumentada, como O Reino da Estupidez-I )

* 1978 – O Reino da Estupidez – II

* 1986 – Inglaterra Revisitada (Duas palestras e Seis cartas de Londres)

Jorge de Sena’s Biography

Critics and biographers himself generally emphasize the importance of biography, the concept of metamorphosis, and the experience of “double exile” when they write about Jorge de Sena. Although he spent much of his life in Brazil and the United States, Sena stated more than once: “I have always been in exile, even before I left Portugal.” The statement reflects the feelings of an intellectual who was born in a Portugal on the brink of the longest running European dictatorship of the twentieth century, and who grew up surrounded by all sorts of abuse of power and censorship.

Even family circumstances did little to attenuate the declared feeling of displacement that Sena kept for most of his life. Born in Lisbon on 2 November 1919, he was the only and late-coming child of a Merchant Marine Commander, Augusto Raposo de Sena, who was away from home for long periods of time and of a gifted, submissive woman of fine education, Maria da Luz Teles Grilo. Sena learned to read at the age of three, with his mother’s en-couragement and, at age ten, he could read French fluently. He found refuge from his solitude in books. His domestic environment appears to have been less than harmonious, judging from the short story “Homenagem ao papagaio verde” (Homage to the Green Parrot), which Sena always characterized as autobiographical. The situation became even worse when, in 1933, his father suffered an accident at sea and had to have a leg amputated. The family was forced to live on a small monthly allowance that the Companhia Nacional de Navegação gave the officer who had served them for over 40 years. The family was almost always in debt; this was the beginning of financial difficulties that Sena would face continuously throughout his life. From this less than happy childhood, only his grandmother on his mother’s side, Isabel, stands out. Sena was her favorite grandson, and it was she and his mother who gave the boy, who had shown an early artistic sensitivity, the greatest intellectual incentive. At age ten, he began piano lessons and continued to develop his musical taste for the rest of his life.

Sena studied in the best schools in Lisbon of the time. He finished high school in 1936, and that same year, took the preparatory course for the Escola Naval. With his family’s support, Sena entered the school with the highest grades of his class in the preparatory course. He earned first cadet in the “Curso do Condestável.” In February 1937, he set out on his first journey, on the teaching ship Sagres, visiting Cape Verde, São Tomé, Brazil, Angola, Sene-gal, and the Canaries, places that impressed him and were later pictured in his work.

For reasons still not exactly known, Sena was discharged from the Navy in March 1938. A naval career had been his major dream, so the discharge caused him enormous personal trauma, noted later in his work in the recurring theme of exclusion. Feeling sad, wronged, and humiliated, he shut himself up at home, until the beginning of the new academic year in October. When he finished his courses in 1940, he moved to Oporto, where he enrolled in the school of engineering.

The period between 1936 and 1940 was a formative one in Sena’s life. He started his career as a writer in the same year that the Spanish Civil War began, a fact noted in his novel Sinais de fogo (Signs of Fire). Influenced by Debussy’s La Cathédrale Engloutie, at age sixteen he began to write poetry, as reflected in the prologue-poem of Arte de música. He wrote the short stories “Paraíso perdido” (Paradise Lost) and “Caim” (Cain) during that period. Both stories contain autobiographical elements and, although written by a seventeen-year old, they reveal great narrative strength. The year 1938 was a particularly fertile one for the author. He started a novel, wrote a one-act comedy, a Lied inspired by the poem “Pobre velha música” (Poor Old Music) by Fernando Pessoa, and no less than 256 poems. His poetry pro-vided a catharsis during the anguished months of enclosure after his discharge from the Navy. The following year, 1939, he wrote 168 poems and published his first work: his poem “Nevoeiro” (Mist) appeared in a student’s review under the name of Teles de Abreu (which Sena used until 1942). In the following issue of the same review, he published the essay “Em prol da poesia chamada moderna” (In Favor of the So-called Modern Poetry). In 1940, he published a letter on Fernando Pessoa’s poem “Apostila” (Apostil) in the last issue of Pre-sença, and he began to collaborate on the journal Cadernos de Poesia. He later became co-director of the journal. During these early years, Sena was a voracious reader, focusing his attention on the established names in the literature and philosophy.

From October 1940 to November 1944 Sena lived in Oporto while attending the Uni-versity. He left the city only to go on vacation, for health reasons, and to fulfill his military duty, for which he was called in the summers of 1942 and 1943. The new military experi-ences, which lasted until 1945, are described in less than flattering terms in the short stories of Os Grão-Capitães (The Grand Captains). Sena’s years at the University of Oporto were extremely active ones. In 1941, he gave his first public lecture, “Rimbaud, ou o dogma da trindade poética” (Rimbaud or the Dogma of the Poetic Trinity), which initiated a long and bril-liant career as a lecturer. The following year, he published his lecture in a Lisbon magazine, and, under the aegis of the Cadernos de Poesia, his first poetry book, Perseguição (Persecution). In 1943, he started writing for the Lisbon paper Diário Popular, as a literary critic (later extended to film, music and theater), thus starting a career as essayist-journalist that he would pursue throughout his entire life. 1944 was his final year in engineering program, which with-out the financial help of his friends would not have been possible.

Sena finished his verse tragedy O indesejado (The Unwanted King), which he frequently read at gatherings of friends and other artists, in 1943. That same year, despite his status in the military, he signed one of the public lists that circulated in the country demand-ing free elections. He escaped prison by direct intervention of his Brazilian friend Ribeiro Couto, who was then in Portugal working at the Brazilian Embassy. The following year, Couto convinced editor Lello, from Oporto, to publish Sena’s second volume of poetry, Coroa da terra (Crown of the Earth), dedicated to that city.

In 1946 Sena started to work professionally as an engineer, first as an apprentice in some public organizations. He later took a permanent position with the Junta Autónoma das Estradas, where he stayed from 1948 to 1959, the year in which he moved to Brazil. The job assured him a regular though modest income, and it allowed him many trips around the coun-try, from which many of his historical and literary studies later benefited. He went to England in 1952 and 1957 for further professional training in engineering. During the first visit, he read a series of six chronicles entitled “Cartas de Londres” (Letters from London) for the BBC.

Sena met Maria Mécia de Freitas Lopes in 1940, and in 1949 they were married. Over the years they would have nine children, and she would become his greatest collaborator in life and work. With this new support by his side, Sena was very productive throughout the following ten years (the last ones he would live in Portugal) and defined his position in Portuguese literary and intellectual life. He published his third book of poetry, Pedra filosofal (Philosopher’s Stone) in 1950, followed by As evidências (The Evidences, 1955) and Fidelidade (Fidelity, 1958). In 1951 both O indesejado and A poesia de Camões. Ensaio de revelação da dialética camoniana (The Poetry of Camões. An Essay on the Camonian Dialectics) appeared in print. The latter, reproducing a lecture given at Oporto on 10 June 1948, is the starting point for his many critical studies on the sixteenth-century poet Luís de Camões. He published the book of essays Da poesia portuguesa (On Portuguese Poetry) in 1959, and as an anthologist, he produced the volume Líricas portuguesas (Portuguese Lyric Poetry). He started working as a literary consultant for the publishing house Livros do Brasil, and as a translator, he published the following: poems by Cavafy; Porgy and Bess, by DuBose Heyward; and Long Day’s Journey into Night, by Eugene O’Neill. Sena’s contact with literature in English was a novelty on the Portuguese cultural scene of the time, which was still heavily influenced by the French. Diversity of tasks and interests became a permanent aspect of Sena’s life, as seen in the volume and variety of his publications.

One activity about which Sena rarely spoke, perhaps owing to excessive caution, was that of a politically active citizen. He was always associated with those individuals who opposed the Salazar regime. After 1953, when he moved to the house in Restelo (which belongs to his family to this day), he was always willing to facilitate contacts or meetings of different groups. Special mention should be made of the failed attempt to overthrow the regime, known as the “Golpe da Sé”, which was to take place on 12 March 1959. Deeply involved in this, and witnessing the imprisonment and disappearance of companions who were as en-gaged as he was, Sena left for exile in Brazil.

The author arrived in Brazil on the 7 August 1959 (his family arrived a few months later). He had been invited to participate in the 4o Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, organized by the Universidade da Bahia, where his friends Adolfo Casais Monteiro and Eduardo Lourenço were lecturers. They had a decisive role in planning the event, which took place in Salvador from August 10 to 21. This was the first international confer-ence in literary and cultural studies in which Sena participated. Facing an audience of various specialists, he chose Fernando Pessoa as the theme of his lecture. Sena attended many important international conferences throughout the rest of his life.
The most important consequence of his Brazilian exile was the advancement of his academic career. Soon after his arrival, Antônio Soares Amora invited him to teach in the new Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras of Assis, São Paulo State. He stayed in Assis until July 1961, and then moved to Araraquara, where he taught Portuguese literature and literary theory until moving to the United States in 1965. In 1962 he taught a course on English literature, on which he published a book the following year. At that time, Assis and Araraquara had prestigious teaching staffs that contributed to the high quality of the intellec-tual atmosphere of both institutions at the time.

Sena always said he was born to teach, and in Brazil was always overbooked with classes, which, although he was not very well paid, still greatly satisfied him. Deeply involved in his new career, in 1964 he decided to take examinations, in Araraquara, to obtain his doctorate and professorship. He received the maximum grades from all examiners, as well as mention of “praise and distinction” for his thesis O soneto de Camões e o soneto quinhentista peninsular (The Sonnets of Camões and the Peninsular Sonnets of the Sixteenth Century). His was the first doctorate awarded by the Faculdade de Araraquara.

Sena always had a keen interest in research. In Brazil he had managed to obtain institutional support to develop his studies on Camões. His work led to volumes that are today fundamental references, such as Uma canção de Camões (A Song of Camões), A estrutura de Os Lusíadas (The Structure of Os Lusíadas) and Trinta anos de Camões (Thirty Years of Camões). These volumes comprise texts based on a thorough study of the photocopies of all editions and manuscripts of Camões’ works. Sena evaluates the state of Camonian studies and questions the work of established authorities, while proposing new ideas and notions on Camões’s dialectics and Mannerism.

In Brazil, Sena performed many functions at the same time. He lectured and did research; he gave seminars and conferences; he collaborated on literary and non-literary journals, did translations and editorial work, and travelled extensively. At the same time, for years he wrote the section “Letras Portuguesas” (Portuguese Literature) for the famous news-paper O Estado de São Paulo.

Sena’s literary production is truly astonishing. He took advantage of the freedom of the intellectual climate in Brazil, but he always insisted on being considered a Portuguese writer. And he published almost all his works in Portugal. He wrote around 120 poems, mostly found in the books Peregrinatio ad loca infecta, Arte de música (Art of Music), and Metamorfoses (Metamorphoses). At this stage, Sena wrote his first text in which Camões appears as the protagonist – “Camões dirige-se a seus contemporâneos,” (Camões Addresses his Contemporaries) from Metamorfoses – inaugurating one of the most fertile veins in his poetry: that in which the sixteenth-century poet is transformed into persona or alter-ego of the poetic “I”.

It was in Brazil between late 1964 and June 1965 that Sena wrote the first and most substantial segment of his only novel, which remained unfinished, Sinais de fogo. Although he returned to the text later in the United States, he never managed to complete it. The novel was intended to portray life in Portugal from 1936 to 1959. Sena only completed the part that takes place during some months in 1936, when the protagonist Jorge discovers love, poetry, and war. Although unfinished, the work is frequently included in the list of the best Portu-guese novels of the 20th century.

Sena’s only novella, O físico prodigioso (The Wondrous Physician) is dated Araraquara, May 1964. Praised by the critics, it represents an important moment if work. The allegorical atmosphere, with medieval and fantastic elements, created in the narrative accen-tuates the political reading allowed by the text in which it is easy to detect the Brazilian military dictatorship that had just come to power.

Of the eight short stories that constitute the book Andanças do Demônio (The Devil’s Doings), published in 1960, all but two (“Razão de o Pai Natal ter barbas brancas” [The Reason Why Santa Claus Has a White Beard] and “A Comemoração” [Commemoration]), written in the 1940’s, were kept unaltered. The others were either written or revised in Brazil. The seventeen short stories that make up Novas andanças do Demônio (New Devil’s Doings, 1966) and Os Grão-Capitães (The Grand-Captains, 1976) were written in either Assis or Araraquara. Some of these, such as “Super Flumina Babylonis”, “A Grã-Canária” and “Os amantes” (The Lovers), are true masterpieces of short fiction. Sena was fully aware of the difficulties of publishing this last collection. Extremely critical of the military life, they could not be distributed in Por-tugal before the Revolution.

While in Brazil, Sena wrote two one-act plays in March 1964: A morte do Papa (The Death of the Pope) and O império do oriente (The Empire of the Orient). The author himself pointed out the relation between the texts and the military assuming power in Brazil that year, attesting to how much the political situation had affected him. Rather than dedicating a lot of time to writing plays, Sena became involved with the people working in the Brazilian theater.

During the 1960s Sena also maintained close contacts with the Brazilian intelligentsia, some of whom he had known through reading or correspondence. His exchanges with poet Manuel Banderia deserve special attention, as does his encounter with the Concretist poets Augusto de Campos, Haroldo de Campos, and Décio Pignatari. He published his asemic poems that evoke Afrodite Anadiômena, of the final part of Metamorfoses, in their journal Invenção.

In Brazil, Sena was involved in his most intense political activity. He could never have done this openly in Portugal without running risks he could not afford with such a large family. Soon after his arrival in São Paulo, he joined the board of editors of the opposition newspaper Portugal Democrático, where he published thirty seven texts between November 1959 and October 1962. Most of these were signed, but some are anonymous or written un-der a pseudonym. Sena’s collaboration on Portugal Democrático, published by a group of intellectuals who shared anti-Salazarist ideas, lent prestige and respectability to the paper. Fighting against Salazar from a distance, quixotic as it may seem to some, was still a form of connection with his native land. The Portuguese political police (PIDE) maintained a dossier on Sena, with copies of his articles, and, in January 1962, issued an order of arrest against him. In July of the same year, he was banned from entering Portuguese national territory. This ban was only lifted in 1968. In addition to this intense participation in Portugal Democrático, Sena was also involved in other similar political activities, such as the Portuguese Republican Center in São Paulo, where he often lectured.

In spite of the physical distance between Sena and Portugal, his attention and activities remained focused on that country. Nonetheless, he also took an interest in the politics of his country of exile, of which he became a citizen in 1963. He followed Brazilian politics quite closely, but he did not take any conspicuous political stand. Many of his texts, however, reveal his close connection with events he witnessed in that country. He had arrived in Brazil under Juscelino Kubitschek; he followed the rise and resignation of Jânio Quadros, and the rise of João Goulart; and he witnessed the military coup of 1964. This last event, for many reasons, including the threat to his own survival, disquieted him. The evolution of the dictato-rial process only enhanced the anguish and sadness that he knew so well, and that was further increased by the wave of imprisonment and expulsion of many intellectuals and artists. As an inevitable consequence of this panorama of insecurity, Sena decided to leave Brazil. He ac-cepted an invitation as Visiting Professor at the University of Wisconsin, Madison, in the United States. He moved there, in October 1965, with Mécia and their children, two of whom had been born in Brazil.

The following year, Sena was promoted to the rank of Professor of Portuguese and Brazilian Literature and granted tenure. Sena plunged with characteristic intensity into the life of professor, scholar, and lecturer. He attended many conferences and meetings of professional societies and organizations. He also became a member of well-known American associations, such as the Hispanic Society and the Modern Languages Association. In 1968, he returned to Portugal for the first time after having left his country. From that point on, he would regularly return there, as well as visit other European countries to attending confer-ences and give lectures. It was his travels undertaken during his years in the United States that brought him the international renown as a writer and scholar.

Sena moved to the University of California at Santa Barbara in 1970 where he served as the Chair of Portuguese and Brazilian Literature and of Comparative Literature. Two years later, he had the opportunity to travel to Angola, South Africa, and Mozambique. His wife affirmed that the visit to the Isle of Mozambique, where Camões had lived in misery, was “one of the most touching moments in his whole life.” In 1974 Sena was named Chairman of the Spanish and Portuguese Department and of the Interdepartmental Program Comparative Literature, posts he held until his death. For his efforts in the diffusion of Portuguese culture, he was awarded the Order of Infante D. Henrique in Portugal in 1977. That same year, he received the Italian Etna-Taormina Poetry International Prize, and, invited by the President of Portugal, Ramalho Eanes, delivered the famous “Discurso da Guarda,” on June 10, Camões’s Day.

Sena died 4 June 1978, a victim of lung cancer. He posthumously received the Order of Santiago de Espada, the awarding of which was announced to him three days prior to his death, over the phone by the President of Portugal.

The multifaceted work of Sena is characterized by a profound internal coherence, based on an amazing network of intertextual sources. Sena considered himself to be, above all, a poet, and, indeed, it is easy to see that his poetry has repercussions in all the other genres he cultivated. Like other Potuguese poets of the post-Orpheu generation, Sena had to confront the awe-inspiring figure of Fernando Pessoa. He has been one of the few who, in his own innovative diction, has managed to respond to the challenges created by the polyphonic poetics of Pessoa. Sena is also one of the most recognized scholars of Pessoa’s work.

Associated since his early days as a writer with the Cadernos de Poesia, Sena, along with Eugénio de Andrade and Sophia de Mello Breyner Andresen, attempted to reconcile tendencies which competed on the Portuguese literary scene of the 1940s and 1950s. Backed by his theory of “testemunho” (witnessing), which he openly opposed to that of Fernando Pessoa’s “fingimento” (pretending), Sena proposed the creation in verse of what he called a “poetic diary.” The author explains: “um desejo de independência partidária da poesia social; um desejo de comprometimento humano da poesia pura; um desejo de expressão lapidar, clássica, da libertação surrealista; um desejo de destrurir pelo tumulto insólito das imagens, qualquer disciplina ultrapassada (e assim: a lógica hegeliana deve sobrepor-se à aristotélica; uma moral sociologicamente esclarecida à moral das proibições legalistas); e sobretudo um desejo de exprimir o que entende ser a dignidade humana—uma fidelidade integral à respon-sabilidade de esatarmos no mundo” (a desire for independence that favors social poetry; a desire for human engagement of pure poetry; a desire for lapidary, classic expression of the surrealist liberation; a desire to destroy, through the unusual rioting of images, any outdated discipline (and, thus: Hegelian logic must impose itself over the Aristotelian one; a moral which is sociologically aware over that of legalist prohibitions); and above all a desire to ex-press what it understands to be human dignity – a complete loyalty to the responsibility of us being in the world). One can see here Sena’s humanism, which echoes throughout much of his poetry, especially in the book Metamorfoses in poems such as the emblematic “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya” (Letter to My Children on the Executions of Goya).

Sena participated in many aesthetic trends during his forty years of writing poetry. His early books reveal an influence of Surrealism; he wrote a-semic creations in “Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena (Four Sonnets to Afrodite Anadiómena); Sequências (Sequences) contains his private experimentalism; and he wrote excellent classical poems characterized by formal rigor and semantic depth. He was able, nonetheless, to establish his own style and build a solid oeuvre that has been (and will continue to be) influential to various generations. In fact, critics such as Eduardo Prado Coelho describe him as a “figura titular” (a guarding figure), who “condiciona, em níveis diversos, quase tudo o que a poesia portuguesa contemporânea considera e partilha” (conditions, in various levels, almost everything that contemporary Portuguese poetry considers and shares).

Love, homeland, and poetry, as seen in these verses, are the important themes that structure Sena’s work: “De amor e de poesia de ter pátria/aqui se trata” (Love and poetry and having a country/ are dealt within here). Love, often expressed through erotic and sexual metaphors and images, is a dominant concern of the poet. The language used to convey the poet’s feelings and ideas is often direct and daring, less to shock the reader than to celebrate a consecration of the body that is seen as a primordial, constructive, and cosmogonic force. The seizure of the book As Evidências (The Evidences, 1955), considered “subversive and pornographic” by the Salazar regime, confirmed the impact of Sena’s politico-erotic discourse on a strongly sexually repressed Portuguese nation. Later poems, such as some in Exorcismos (Exorcisms, 1972) continue the theme of “o sexo em tudo visto” (sex seen in everything) in Sena’s poetic universe.

The notion of homeland, closely linked to the concepts of pilgrimage, roots, and exclusion, constitutes an important aspect of Sena’s poeticization of his personal experiences. The poet’s relationship to his country is a complex, dichotomous one of love and hate; Portugal is often perceived as the mother that forced him out of his home into a life of wandering and into many exiles. The title of one his books of poetry captures well the result of the feeling: Peregrinatio ad loca infecta. A citizen of the world, images of Sena’s many travels appear in all of his works, which serve as witness to the chaotic historical moment of transformation in he which he lived.

Like his sixteenth-century predecessor Camões, Sena was torn between an acute sensitivity and the vicissitudes of his world. Sena’s work is characterized by an enormous capacity for indignation and ethical questions that he transforms into theological and metaphysical ones, as in the poem “A morte, o espaço, a eternidade’ (Death, Space, Eternity) in Metamorfoses. Sena’s numerous metalinguistic texts, in which he explores the notion of writing poetry, as well as the works in which he establishes harmonious dialogues between poetry and the other arts, especially the visual arts (Metamorfoses) and music (Arte de música), are numerous.

Most critics would agree that the single unifying link among the multifaceted body of works of Sena is the figure of Camões. In his dialogue with the sixteenth-century poet, Sena’s writings gain a dimension that is simultaneously one of deprivation and plenitude, one sought by all who use the word as an instrument of expression. Like the image of the Camões he created, Sena “era um grande poeta, transformava em poesia tudo o que tocava mesmo a miséria, mesmo a amargura, mesmo o abandono de poesia” (was a great poet, transformed everything he touched into poetry, even misery, even bitterness, even the abandonment of poetry).
 

Jorge de Sena in English:

* 1979Over this Shore… Eight Meditations on the Coast of the Pacific, translated by Jonathan Griffin.
* 1980The Poetry of Jorge de Sena, anthology by Frederick G. Williams.
* 1980In Crete, with the Minotaur, and Other Poems, translation and preface by George Monteiro.
* 1986The Wondrous Physician, translated from the portuguese by Mary Fitton.
* 1987 England Revisited, translated from the portuguese and with notes by Christopher Damien Auretta.
* 1988Art of Music. Translated by Francisco Cota Fagundes and James Houlihan.
* 1989By the Rivers of Babylon and Other Stories. Introduction by Daphne Patai.
* 1991Metamorphoses. Translated by Francisco Cota Fagundes and James Houlihan.
* 1991Genesis. Translated by Francisco Cota Fagundes, published in In the Beginning There Was Jorge de Sena’s Genesis: The Birth of a Writer .
* 1994The Evidences. Translation and introduction by Phyllis Sterling Smith. Preface by George Monteiro.
* 1999Signs of Fire. Translated by John Byrne.

 

About Jorge de Sena:

=> Studies on Jorge de Sena: Proceedings of the Colloquium in Memory of Jorge De Sena University of California, Santa Barbara April 6-7, 1979, by Harvey L. Sharrer and Frederick G. Williams, Santa Barbara, UCSB/Bandanna Books, 1981.

=> Francisco Cota Fagundes, A Poet’s Way With Music: Humanism in Jorge de Sena’s Poetry, Gavea-Brown, Providence, Rhode Island, 1988.

=> Francisco Cota Fagundes, In the Beginning There Was Jorge de Sena’s Genesis: The Birth of a Writer, Bandanna Books, Santa Barbara, 1991.

=> Maria José Azevedo Pereira de Oliveira, Art as a Mirror in the Poetry of Jorge de Sena: The Metamorfoses, King’s College, London, 1992.

O Teatro de Jorge de Sena

* 1951O Indesejado  (António, Rei)

* 1974Amparo de Mãe e Mais 5 Peças em 1 Acto

* 1990Mater Imperialis: Amparo de Mãe e Mais 5 Peças em 1 Acto seguido de um Apêndice

=> As peças em 1 ato:

  • Amparo de mãe
  • Ulisseia adúltera
  • A morte do Papa
  • O império do Oriente
  • O banquete de Diónisos
  • Epimeteu, ou o homem que pensava depois

 

=> No “Apêndice” a esta edição, Mécia de Sena recupera do espólio do autor alguns esboços teatrais, ou “tentativas” deixadas inconclusas, em diferentes estágios de criação:

     

  • Luto
  • [Sem indicação de título]
  • Origem (1ª. versão)
  • Origem ou a 4a. pessoa (2ª. versão)
  • O arcanjo e as abóboras
  • Bajazeto e a revolução
  • A demolição

 

=> Para um sólido conhecimento do teatro seniano, é imprescindível consultar o livro de Eugénia Vasques, Jorge de Sena – uma ideia de teatro (1938-71), Lisboa: Cosmos, 1998.

=> A crítica teatral, exercida por Sena ao longo de vários anos, e publicada em periódicos, sobretudo em Gazeta Musical e de Todas as Artes, encontra-se reunida no volume Do Teatro em Portugal (vide A produção ensaística de Jorge de Sena).

A prosa ficcional de Jorge de Sena

* 1960Andanças do Demónio (contos)
* 1966Novas Andanças do Demónio (contos)
* 1976Os Grão-Capitães: uma sequência de contos (contos)
* 1977O Físico Prodigioso (novela)
* 1978Antigas e Novas Andanças do Demónio (contos)
* 1979Sinais de Fogo (romance)
* 1983Génesis (contos)
* 1994Monte Cativo e outros projectos de ficção (juvenilia e fragmentos)

 
=> A bibliografia crítica sobre a prosa ficcional seniana encontra-se sobretudo em trabalhos acadêmicos (teses, dissertações e monografias) ainda não editados comercialmente, ou em ensaios dispersos por coletâneas e anais de congressos. Em volume publicado, refira-se a visão de conjunto empreendida por Francisco Cota Fagundes em Metamorfoses do Amor: Estudos sobre a ficção breve de Jorge de Sena (Lisboa: Salamandra, 1999).

 

Leia mais:

Obra: Ficção

Ressonâncias: UFRJ

Ressonâncias: Estudos

Antologias: Ficção e Teatro

A produção ensaística de Jorge de Sena

OBRA-Ensaios* 1959Da Poesia Portuguesa

* 1961 “O Poeta é um Fingidor”

* 1963 A Literatura Inglesa: Ensaio de Interpretação e História (editado em São Paulo. A edição portuguesa é de 1989)

* 1965Teixeira de Pascoaes: Poesia. Selecção, introdução e notas. (editado no Rio de Janeiro. A edição portuguesa é de 1982)

* 1966Uma Canção de Camões: Interpretação Estrutural de uma Tripla Canção Camoniana, precedida de um Estudo Geral sobre a Canção Petrarquista Peninsular, e sobre as Canções e as Odes de Camões, envolvendo a Questão das Apócrifas.

* 1967 Estudos de História e de Cultura (1a. Série)

* 1969Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular: As Questões de Autoria, nas Edições da Obra Lírica até às de Álvares da Cunha e de Faria e Sousa, revistas à luz de um Inquérito Estrutural à Forma Externa e da Evolução do Soneto Quinhentista Ibérico, com Apêndices sobre as Redondilhas em 1595-98, e sobre as Emendas Introduzidas pela Edição de 1598.

* 1970A Estrutura de Os Lusíadas e Outros Estudos Camonianos e de Poesia Peninsular do Século XVI.

* 1973 Dialécticas da Literatura. (1978 – 2a. ed. revista e aumentada, como Dialécticas Teóricas da Literatura)

* 1974 Maquiavel e Outros Estudos. (1991 – 2a. ed., Maquiavel, Marx e Outros Estudos)

* 1974 Francisco de la Torre e D. João de Almeida (editado em Paris)

* 1974Poemas Ingleses, de Fernando Pessoa. Edição bilíngue, prefácio, traduções, variantes e notas.

* 1977Régio, Casais, a presença e Outros Afins.

* 1978Dialécticas Aplicadas da Literatura.

* 1980 Trinta Anos de Camões, 1948-1978 (Estudos Camonianos e Correlatos). 2 vols.

* 1982 Estudos de Literatura Portuguesa – I

* 1982Fernando Pessoa & Ca. Heterónima (Estudos Coligidos 1940-1978). 2 vols.

* 1982 Estudos sobre o Vocabulário de Os Lusíadas: Com Notas sobre o Humanismo e o Exoterismo de Camões.

* 1986 Sobre o Romance (Ingleses, Norte-americanos e Outros).

* 1988 Estudos de Literatura Portuguesa – II

* 1988 Estudos de Literatura Portuguesa – III

* 1988 Estudos de Cultura e Literatura Brasileira

* 1988Sobre Cinema

* 1989 Do Teatro em Portugal

* 1992 Amor e Outros Verbetes.

* 1994O Dogma da Trindade Poética (Rimbaud) e Outros Ensaios.

* 2005Sobre Literatura e Cultura Britânicas

* 2005 Poesia e Cultura

* 2008 Sobre Teoria e Crítica Literária

 

Prefácios Críticos a:

  • Poema do Mar, de António de Navarro. Lisboa, 1957.
  • Poesias Escolhidas, de Adolfo Casais Monteiro. Salvador, 1960.
  • Teclado Universal e Outros Poemas, de Fernando Lemos. Lisboa, 1963.
  • Poesias Completas, de António Gedeão. Lisboa, 1964.
  • Confissões, de Jean-Jacques Rousseau. 3a. ed., Lisboa, 1968.
  • Poesia (1957-1968), de Helder Macedo. Lisboa, 1969.
  • Manifestos do Surrealismo, de André Breton. Lisboa, 1969.
  • Cantos de Maldoror, de Lautréamont. Lisboa, 1969.
  • A Terra de Meu Pai, de Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa, 1972.
  • As Qvybyrycas, de Frey Ioannes Garabatus. Lourenço Marques, 1972.
  • Distruzioni per l’uso, de Carlo Vittorio Cattaneo. Roma, 1974.
  • Camões: Some Poems, trad. de Jonathan Griffin. Londres, 1976.

 

=> Da obra ensaística seniana, sem dúvida alguma, têm sido os seus estudos camonianos o principal objeto de inúmeras avaliações, por parte da crítica especializada, estampadas dispersamente em livros, periódicos e anais de congressos. No entanto, reunindo reflexões desenvolvidas ao longo de vários anos, Vítor Aguiar e Silva dedicou a tais estudos o volume Jorge de Sena e Camões – Trinta Anos de Amor e Melancolia (Coimbra: Angelus Novus, 2009), logo aquinhoado, por unanimidade, com o Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho, instituído em 2010 pela Associação Portuguesa de Escritores.

 

Leia mais:

Cronologia da Ficção de Jorge de Sena

Abaixo, a listagem cronológica da produção ficcional de Jorge de Sena, com as datas de escritura dos textos e a indicação dos livros em que se encontram publicados.

 

Contos:

1. Paraíso perdido: escrito em 7/9/37 – revisto: 15 e 16/4/38. Publicado em Génesis

2. Caim: acab. de comp. 28/4/38, acab. de rever 4/5/38. Publicado em Génesis

3. Razão de o Pai Natal ter barbas brancas: escrito em 1944. Publicado em ANAD-1

4. A comemoração: escrito em 1946. Publicado em  ANAD-1

5. A campanha da Rússia: escrito entre 1946-1960. Publicado em ANAD-1

6. O comboio das onze: escrito entre 1948-1960. Publicado em ANAD-1

7. História do peixe-pato: escrito em 1959. Publicado em ANAD-1

8. A janela da esquina: escrito em 3/9/1960. Publicado em ANAD-1

9. Duas medalhas imperiais com Atlântico: escrito em 8/9/1960. Publicado em ANAD-1

10. Os amantes: escrito em Assis, 12/9/1960. Publicado em ANAD-2

11. Mar de pedras: escrito em 15/11/1960. Publicado em ANAD-1

12. As ites e o regulamento: escrito em Assis, 17/3/1961. Publicado em GC

13. O “Bom Pastor”: escrito em Assis, 30/4/1961. Publicado em GC

14. Os salteadores: escrito em Assis, 4/5/1961. Publicado em GC

15. Conto brevíssimo: escrito em Assis, 6/5/1961. Publicado em ANAD-2

16. Defesa e justificação de um ex-criminoso de guerra: escrito em Assis, 7/5/1961. Publicado em  ANAD-2

17. A Grã-Canária: escrito em Assis, 16/5/1961. Publicado em GC

18. Homenagem ao papagaio verde: escrito entre Assis, 3/6/1961 e Araraquara, 25/6/1962. Publicado em GC

19. Os irmãos: escrito em Assis, 9/6/1961. Publicado em GC

20. Capangala não responde: escrito em Assis, 25/6/1961. Publicado em GC

21. Boa noite: escrito em Araraquara, entre 29/8 e 3/9/1961. Publicado em GC

22. O urso, a pantufa, o quadro e o coronel: escrito em Araraquara, 30/8/1961. Publicado em ANAD-2

23. O grande segredo: escrito em Araraquara, 2/9/1961. Publicado em ANAD-2

24. A noite que fora de Natal: escrito em Araraquara, Dez. 1961. Publicado em ANAD-2

25. Choro de criança: escrito em Araraquara, 20-22 / 5/1962. Publicado em GC

26. Super flumina Babylonis: escrito em Araraquara, 27/3/1964. Publicado em ANAD-2

27. Kama e o génio: escrito em Araraquara, Jul. 1964. Publicado em ANAD-2

 

O Físico Prodigioso (novela): escrito em Araraquara, Maio de 1964

Sinais de Fogo (romance): escrito a partir de Dez. de 1964, Araraquara (inconcluso)

 

Legenda:
GC => Os Grão-Capitães
ANAD 1=> contos de Andanças do Demônio, integrados em Antigas e Novas Andanças do Demónio
ANAD 2=> contos de Novas Andanças do Demônio, integrados em Antigas e Novas Andanças do Demónio