Nota sobre os estudos camonianos e inesianos de Jorge de Sena

Numa concessão ao gosto seniano das contagens, listamos abaixo o número de páginas ao lado de cada título completo, para que melhor se evidencie a extensão de seus estudos sobre Camões (buscando maior uniformidade, seguimos as publicações das Edições 70, 1980/1984):

 

1) Uma canção de Camões. Interpretação estrutural de uma tripla canção camoniana, precedida de um estudo geral sobre a canção pretarquista peninsular e sobre as canções e as odes de Camões, envolvendo a questão das apócrifas. (1ª ed. 1966) – 479 p.

2) Os sonetos de Camões e o soneto quinhentista peninsular. (1ª ed. 1969) – 301 p.

3) A estrutura de Os Lusíadas e outros estudos camonianos e de poesia peninsular do século XVI. (1ª ed. 1970) – 315 p.

4) Trinta anos de Camões. 1948-1978 Estudos camonianos e correlatos – 2 vols. (1ª ed. 1980) – 357 p. (I) e 279 p. (II)

5) Estudos sobre o vocabulário de Os Lusíadas. Com notas sobre o humanismo e o esoterismo de Camões. (1ª ed. 1982) – 427 p.

TOTAL: 2.158 páginas

Convém lembrar que além dessas ponderosas 2000 páginas (arredonde-se o número descartando folhas de rosto, sumários, divisórias de capítulos etc.), há ainda textos de Sena que se encontram dispersos (como o é o caso da conferência “Camões: quelques vues nouvelles sur son epopée et sa pensée”, proferida em 1972 no Centro Gulbenkian de Paris) e outros textos de interesse colateral para os estudos camonianos (como é o caso do livro Francisco de La Torre e D. João de Almeida, e dos segmentos do livro O Reino da Estupidez II “O Fantasma de Camões (uma entrevista sensacional)” e “Um imenso inédito semi-camoneano e o menos que adiante se verá”. Neste último – originariamente prefácio de As Quybyrycas, de Frey Joannes Garabatus /António Quadros – encontra-se mordaz ironia a ilustres investigadores e seus eruditos métodos analíticos, não faltando mesmo a paródia a certo camonista preocupado com números e estatísticas n’Os Lusíadas…).

Mas, enquanto os estudos camonianos de Sena são frequentemente citados, quer para endossos, quer para revisões críticas de suas propostas (tal como faz Vítor Aguiar e Silva, no seu já indispensável Jorge de Sena e Camões – Trinta Anos de Amor e Melancolia), o mesmo não se passa com os também alentados, e algo correlatos, estudos sobre Inês de Castro a que se dedicou. Encontram-se eles inseridos nos monumentais Estudos de História e de Cultura, cuja publicação em fascículos tem início em fevereiro de 1963 (quando Sena ainda se encontrava no Brasil) e cessa em novembro de 1969 (já nos Estados Unidos), sempre pela revista Ocidente.

Deste conjunto, os 29 fascículos iniciais ganharam formato de livro em 1967, mas jazem nas páginas do periódico os restantes 15 vindos à luz, numa publicação tão abruptamente interrompida que nem sequer se completa a última frase impressa. E, até hoje, ainda estamos à espera do prometido segundo volume, que conteria, como anunciado ao fim do volume I, “além da conclusão do estudo sobre Inês de Castro, a Adenda e Corrigenda e o Índice Onomástico referente aos dois volumes”. A coletânea em livro é composta por quatro ensaios: “A família de Afonso Henriques”, “O Vitorianismo de Dona Filipa de Lencastre”, “Os painéis ditos de ‘Nuno Gonçalves’” e o colossal, porque se estende por 495 páginas, “Inês de Castro, ou literatura portuguesa desde Fernão Lopes a Camões, e história político-social de D. Afonso IV a D. Sebastião, e compreendendo especialmente a análise estrutural da Castro de Ferreira e do episódio camoniano de Inês”, cujo longo título auto-explicativo soa como proposição e bem dimensiona o ambicioso projeto de Sena, começado a publicar na Ocidente em outubro de 1963. Projeto que se espraia – inconcluso, sublinhe-se – por todas as 365 páginas dos demais fascículos editados. Ou seja, o estudo de Sena sobre Inês de Castro mereceu-lhe irrefutáveis e compactas 860 páginas impressas (tanto como cerca de 43% das dedicadas a Camões…), ao longo das quais examina as obras literárias peninsulares que, da Idade Média ao século XVIII, elegeram como alvo “aquela que depois de morta foi rainha”, e faz entremear a leitura analítica com espantosa erudição histórica e genealógica, adensada em transbordantes notas de rodapé. Segue abaixo a transcrição dos títulos dos 84 “capítulos” inesianos, e a indicação de suas páginas, caminho seguro, não só para situar o leitor diante da magnitude da empreitada, do encadeamento temático e do espaço concedido a cada tópico, como também para suprir uma lacuna no que concerne à sua 2ª. parte:

 

                                  Jorge de Sena: Estudos de História e de Cultura

 

INÊS DE CASTRO, ou literatura portuguesa desde Fernão Lopes a Camões, e história político-social de D. Afonso IV a D. Sebastião, e compreendendo especialmente a análise estrutural da Castro de Ferreira e do episódio camoniano de Inês

 

Índice do volume I (1967):

Nota prévia  (pág. 123)

Introdução (128)

1) Inês e o Romanceiro (130)

2) Algumas considerações sobre o Romanceiro (143)

3) Floresta de Inês e de Isabel (151)

4) Dona Isabel de Liar e a vingança da sua morte (165)

5) Ainda algumas considerações sobre o Romanceiro castelhano (176)

6) Conceituação preliminar do problema literário de Inês (180)

7) Inês de Castro nos reinados de Afonso IV e Pedro I (183)

8) O casamento de Pedro e Inês (197)

9) Os túmulos de Alcobaça (204)

10) Inês de Castro no reinado de D. Fernando, na crise de 1383-85 e na primeira metade do século XV: Fernão Lopes (219)

11) Digressão sobre Menezes, Castros e outros (245)

12) Lucena e Rui de Pina (250)

13) Rui de Pina e Garcia de Resende (259)

14) Inês vista por Lopes e por Pina (263)

15) Inês de Castro e a Crónica Geral de Espanha (269)

16) Data das Trovas de Resende (272)

17) Análise estrutural das Trovas de Resende (277)

18) Gil Vicente e Inês de Castro (303)

19) Gil Vicente e o Romanceiro (315)

20) A Crónica de Acenheiro (323)

21) A Eufrósina de Jorge Ferreira de Vasconcelos (340)

22) O reinado de D. João III (348)

23) O teatro post-vicentino (360)

24) O teatro de Séneca (375)

25) As poéticas do “Cinquecento” (380)

26) Algumas observações ainda sobre o teatro néo-clássico: Aires Vitória e outros (385)

27) António Ferreira: aspectosda sua vida e da sua obra (413)

28) Data provável da Castro (433)

29) O soneto e quem fez a elegia de Dona Inês (439)

30) Observações estruturais acerca da Castro de Ferreira (442)

31) A Castro de 1587 e a Castro de 1598 (447)

32) As duas Castros e as duas Nises (451)

33) Os Confidentes, os Mensageiros e o Coro (468)

34) O duplo Coro, e a primeira comparação entre a Castro e a Octávia de Séneca (472)

35) A Castro, a Sofonisba e a Cléopatre captive (481)

36) Observações sobre a composição métrica da Castro (486)

37) As personagens da Castro em relação às obras anteriores (489)

38) Digressões sobre Pachecos, Coelhos e Resendes (494)

39) Análise estrutural da Castro (506)

40) Camões, Inês de Castro e Os Lusíadas (570)

41) Alguns aspectos de episódio camoniano (579)

42) As “fontes” do episódio camoniano (Faria e Sousa e J.M.Rodrigues): algumas observações (591)

43) Anrique da Mota ou Inês em prosa e verso (604-618)

Total do volume I: 495 páginas

 

Índice do volume II, em fascículos (Revista Ocidente, set.1967 a nov.1969):

1) O Códice Manizola, D. Afonso IV, e outras obras (pág. 3)

2) Conspecto geral das referências a Inês de Castro e da evolução do seu mito (10)

3) Visão geral das obras sobre Inês, desde c.1575 a c.1640 (23)

4) Os condes de Lemos e Inês de Castro (29)

5) Bermudez e a tragediografia castelhana dos fins do século XVI (43)

6) Observações sobre as “Nises”, em especial a “Laureada” (51)

7) As teses de Rey Soto (56)

8) A “Nise Laureada” e “Os Lusíadas” (59)

9) Outras fontes de Bermudez (60)

10) Gabriel Lobo Lasso de la Vega e Inês de Castro (62)

11) Duarte Nunes de Leão (63)

12) O soneto de Lope de Vega, e uma peça ou não (66)

13) João Soares de Alarcão e a sua Infanta Coronada (72)

14) Os poemas narrativos publicados durante a ocupação castelhana (77)

15) As obras de João Soares de Alarcão, e análise de “La Infanta Coronada” (93)

16) A “Tragédia famosa de Dona Inés de Castro, reina de Portugal” (109)

17) Lugar de Alarcón, Guevara e Tirso no teatro espanhol do século XVII (123)

18) “Siempre ayuda la verdad” e a questão da sua autoria (132)

19) Inês de Castro em “Siempre ayuda la verdad” (149)

20) Matos Fragoso e a “Segunda Parte de Doña Inés de Castro” (165)

21) Alarcóns de Espanha e Alarcões de Portugal (173)

22) Uma alusão de Guillén de Castro a Inês, e o romance do “Palmero” (184)

23) Juan de Grajales e José de Valdivieso ocuparam-se de Inês de Castro? (196)

24) Mateus Pinheiro e D. Francisco Manuel de Melo (201)

25) Os sonetos de D. Francisco Manuel de Melo a Inês de Castro (206)

26) Manuel de Faria e Sousa (215)

27) Um curioso problema de fontes e de tópicos suscitado por Faria e Sousa (223)

28) Vélez de Guevara e “Reinar después de morir” (227)

29) Algumas observações sobre “Reinar después de morir” (237)

30) Análise de “Reinar después de morir” (243)

31) Análise de “Reinar después de morir” e vários problemas correlatos (246)

32) O Fradinho da Rainha e o Cano dos Amores (282)

33) O Cancioneiro Fernandes Tomás (289)

34) Fernão Correia de Lacerda e o “Cancioneiro Fernandes Tomás” (295)

35) Alguns dados sobre Fernão Correia de Lacerda; e Inês de Castro na família (305)

36) O “Império Lusitano”, de Fernão Correia de Lacerda (309)

37) “Saudades de D. Inês de Castro” (e também o Cancioneiro de Faria e Sousa) (313)

38) O Cancioneiro Manuel de Faria (e Sousa) (320)

39) Visão de Inês de Castro na segunda metade do século XVII em Portugal (350)

40) Inês no século XVIII (353)

41) O soneto ao representar-se no teatro de Lisboa a tragédia “Reinar depois de morrer: ou D. Inês de Castro” (360)

42) Heloisa e Abelardo, Pedro e Inês (363-368)

 

E no espólio de Jorge de Sena, em Santa Barbara, há ainda inéditos relevantes, além de numerosos apontamentos relativos a estes estudos inesianos…

A poesia de Cavafy, por Jorge de Sena

No Suplemento Literário de O Comércio do Porto, de 9 de junho de 1953, Sena publica o primeiro texto português sobre Constantino Cavafy (1863-1933), acompanhado de 5 poemas que traduziu do poeta grego (abaixo reproduzidos). Voltará a ele nos números dos dias 8 de setembro e 22 de dezembro do mesmo jornal, com mais poemas. O texto encontra-se hoje reproduzido em O dogma da trindade poética (Rimbaud) e outros ensaios e os poemas integram o volume Constantino Cavafy, 90 e mais quatro poemas, incumbindo-se da tradução, prefácio, comentários e notas.

 

 

À Espera dos Bárbaros

O que esperamos nós em multidão no Forum?

       Os Bárbaros, que chegam hoje.

Dentro do Senado, porque tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

        É que os Bárbaros chegam hoje.
        Que leis haveriam de fazer agora os senadores?
        Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

        Porque os Bárbaros chegam hoje.
        E o Imperador está à espera do seu Chefe
        para recebê-lo. E até já preparou
        um discurso de boas-vindas, em que pôs,
        dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

        Porque os Bárbaros chegam hoje,
        e coisas dessas maravilham os Bárbaros.

E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

        Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
        e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

Porque, sùbitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?

        Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
        E umas pessoas que chegaram da fronteira
        dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.

                                                                  [Antes de 1911]

 

 

Canção da Jónia

Porque lhes quebrámos as estátuas,
porque os expulsámos dos seus templos,
não morreram, não, os deuses.
A ti, terra da Jónia, ainda eles amam,
e em suas almas sempre te recordam.
Quando a manhã de Agosto é alvorada em ti,
passa em teu ar um ardor dos deuses vivos;
e às vezes uma etérea forma juvenil,
indefinida, em trânsito subtil,
teus montes sobrevoa.

                                       [1911]

 

 

A Bordo

Claro que é parecido este pequeno
retrato dele, a lápis.

Feito num momento, no convés do barco,
numa tarde encantadora.
O mar da Jónia a rodear-nos.

Parece-se com ele. Não era ele mais belo?
Sensível era a ponto de sofrer –
o que seu rosto iluminava.
Mais belo me aparece, agora que,
fora do Tempo, eu o recordo n'alma.

Fora do Tempo. Tudo isto é muito antigo –
o desenho, e o navio, e o entardecer.

                                                   [1919]


 

A Origem

Consumara-se o prazer ilícito.
Ergueram-se ambos do catre humilde.
À pressa se vestiram, sem falar.
Saíram separados, furtivamente;
e, ao caminhar inquietos pela rua,
como que receavam que algo neles traísse
em que espécie de amor há pouco se deitavam.

Mas quanto assim ganhou a vida do poeta!
Amanhã, depois, anos depois, serão
escritos os versos de que é esta a origem.

                                                          [1921]


 

Nos Arrabaldes de Antióquia

Ficámos siderados em Antióquia
com as últimas façanhas de Juliano.

Apolo "pessoalmente" em Dafne lhe dissera
que mais não proferia (forte pena!)
oráculo nenhum, enquanto o templo
não fosse, em Dafne, purificado.
Os mortos em redor incomodavam-no.

Em Dafne havia numerosos túmulos.
E um dos que lá estavam sepultados
era o magnífico – de nossa fé a glória –
Babilas, santo e triunfante mártir.

O falso deus a ele se referia, a ele é que temia,
enquanto ao pé o sentisse, não proferiria
oráculos: ficava mudo e quedo.
(Que os falsos deuses temem nossos mártires!)

O Apóstata Juliano arregaçou as mangas…
Todo irritado, vocifera: "Levem-no,
tirem daqui, quanto antes, o Babilas.
Não me ouvem? O grande Apolo está inquieto.
Levem-no sem demora, tirem-no daqui.
Desenterrem-no e levem-no para onde queiram.
Que é brincadeira julgam? Façam o que eu mando.
Apolo quer purificado o templo."

E assim exumámos as santas relíquias,
com honras devotas nós as transladámos.
O que afinal aproveitou ao templo!…
Não tardou um instante, e um fogo começou,
um grande incêndio que alastrou terrível:
e o templo ardeu e Apolo ardeu também.

A imagem? – cinza p'ra varrer no lixo.

Juliano esteve a ponto de estourar, e fez correr –
– que havia ele de fazer? – que o fogo fora posto
por nós, Cristãos, é claro. Deixem-no falar.
De resto, nada se provou. Que fale…
O caso é que por pouco não estourou de raiva.

                                                                   [1933]

Os Diários de Jorge de Sena

A publicação em volume dos Diários de Jorge de Sena (Porto, Caixotim, 2004), com esclarecedora introdução de Mécia de Sena, reúne os seguintes textos:

 

  • Relatório da VDiariosiagem de Adaptação do Curso do Condestável apresentado pelo cadete Jorge Cândido de Sena
  • Diário da “Sagres”: Prefácio (1938) e Nota (1943), precedidos de quatro cartas (1937/38)
  • Diário e Recordações da Vida Literária (1946)
  • Diário (1953/54)
  • Breve Diário (1964)
  • Agenda de 1966 (extracto)
  • Diário de Viagem (1968)
  • Diário de Viagem (1971)

 

=> Sobre os diários, ver: Jorge de Sena : «meu diário feito poesia que o escrever poemas me é desde sempre» / Gilda Santos. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 172, Set. 2009, p. 78-91. http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/issue?n=172

Jorge de Sena em outros idiomas

* 1975Esorcismi (antologia – port./italiano). Org., intro. e trad. de Carlo Vittorio Cattaneo.

* 1979Over this Shore… Eight Meditations on the Coast of the Pacific (port./inglês). Trad. de Jonathan Griffin.

* 1980 The Poetry of Jorge de Sena (antologia – port./inglês). Org. de Frederick G. Williams.

* 1980In Crete, with the Minotaur, and Other Poems (antologia – port./inglês). Org., trad. e prefácio de George Monteiro.

* 1984 Su questa spiaggia (com antologia – port./italiano). Org. e trad. de Carlo Vittorio Cattaneo e Ruggero Jacobbi. Prefácio de Jorge de Sena e introdução de Luciana Stegagno Picchio.

* 1985 Le physicien prodigieux (francês). Trad. de Michelle Giudicelli. Posfácio de Luciana Stegagno Picchio.

* 1986 The Wondrous Physician (inglês). Trad. de Mary Fitton.

* 1986Génesis (port./chinês). Trad. de Wu Zhiliang.

* 1986 Signes de feu (francês). Trad. e prefácio de Michelle Giudicelli.

* 1986 Senyals de foc (catalão). Trad. de Xavier Moral. Prefácio de Basílio Losada.

* 1987 Metamorfosi (port./italiano). Trad. e prefácio de Carlo Vittorio Cattaneo.

* 1987 Il medico prodigioso (italiano). Trad. e pref. de Luciana Stegagno Picchio.

* 1987 El Físico prodigioso (castelhano). Trad. de Sara Cide Cabido e A. R. Reixa.

* 1987Storia del peixe-pato (italiano). Trad. de Carlo Vittorio Cattaneo.

* 1988O Físico Prodigioso (port./chinês). Trad. de Jin Guo Ping.

* 1988 Art of Music (inglês). Trad. de Francisco Cota Fagundes e James Houlihan.

* 1988 La Gran Canaria e altri raconti (italiano). Trad. de Vincenzo Barca. Prefácio de Luciana Stegagno Picchio.

* 1989 Frihetens Färg [A Cor da Liberdade] (antologia – sueco). Org., trad. e prefácio de Marianne Sandels.

* 1989 Sobre esta playa (antologia – port./castelhano). Org., trad. e prefácio de Cesar Antonio Molina.

* 1989 Der wundertätige Physicus (alemão). Trad. de Curt Meyer-Clason.

* 1989 By the Rivers of Babylon and Other Stories (antologia – inglês). Org. e introdução de Daphne Patai.

* 1990 La notte che era stata di Natale (antologia – italiano). Trad. de Carlo Vittorio Cattaneo.

* 1991La finestra d'angolo [A Janela da Esquina] (italiano). Trad. de Vincenzo Barca.

* 1991Metamorphoses (inglês). Trad. de Francisco Cota Fagundes e James Houlihan.

* 1991 Genesis (inglês). Trad. de Francisco Cota Fagundes, em In the Beginning There Was Jorge de Sena's Genesis: The Birth of a Writer.

* 1992Les Grands capitaines (francês). Trad. e prefácio de Michelle Giudicelli.

* 1993Arte musicale (port./italiano). Trad. e prefácio de Carlo Vittorio Cattaneo.

* 1993 Peregrinatio ad loca infecta (antologia – francês). Sel., trad. e pref. de Michelle Giudicelli.

* 1993 Au nom du diable (francês). Trad. e prefácio de Michelle Giudicelli.

* 1994 The Evidences (port./inglês). Trad. e introdução de Phyllis Sterling Smith. Prefácio de George Monteiro.

* 1994 De wonderdokter [O Físico Prodigioso] (holandês). Trad. e posfácio de Arie Pos.

* 1995 Tekens van wuur [Sinais de Fogo] (holandês). Trad. e posfácio de Arie Pos.

* 1997Feuerzeichen [Sinais de Fogo] (alemão). Trad. de Frank Heibert.

* 1998 Señales de fuego (castelhano). Trad. e prólogo de Basílio Losada. Introdução de Mécia de Sena.

* 1999Signs of Fire (inglês). Trad. de John Byrne.

* 1999 De Grootkpiteins (holandês). Trad. e posfácio de Arie Pos.

* 2000Antología poética (antologia – castelhano). Sel., trad. e notas de José Ángel Cilleruelo, José Luís Puerto e José Luís García Martín. 

* 2006Segni di fuoco (italiano). Trad. de Vincenzo Barca.

* 2006 Scorribande del demonio (antologia – italiano). Trad. de Carlo Vittorio Cattaneo e Vincenzo Barca. Introdução de Luciana Stegagno Picchio.

* 2008Die Grosskapitäne: Erzählungen [Os Grão-Capitães: Contos] (alemão). Trad. de Marcus Sahr.

Jorge de Sena, tradutor

condicao+humana* 1953O Fim da Aventura [The End of the Affair], de Graham Greene.

* 1954 A Casa de Jalna [The Building of Jalna], de Mazo de La Roche.

* 1954 Fiesta [The Sun Also Rises], de Ernest Hemingway.

* 1954 Um rapaz da Geórgia [Georgia Boy], de Erskine Caldwell.

* 1955 Oriente-Expresso [Stamboul Train], de Graham Greene.

* 1956 O Velho e o Mar [The Old Man and the Sea], de Ernest Hemingway.

* 1958 A Abadia do Pesadelo [Nightmare Abbey], de Thomas Love Peacock.

* 1958A Condição Humana [La Condition humaine], de André Malraux.

* 1960 As Revelações da Morte [Les Revelations de la mort], de Léon Chestov.

* 1960História da Literatura Inglesa, de A. C. Ward. Revisão da tradução (de Rogério Fernandes), tradução, notas, prefácio e aditamentos (“Antes e Depois de Ward”).

* 1961 Palmeiras Bravas [The Wild Palms], de William Faulkner.

* 197090 e Mais Quatro Poemas de Constantino Cavafy. Tradução, prefácio, comentários e notas.

* 1971-72Poesia de 26 Séculos: I – De Arquíloco a Calderón; II – De Bashô a Nietzsche. Tradução, prefácio e notas.

* 1978 Poesia do Século XX: De Thomas Hardy a C. V. Cattaneo. Tradução, prefácio e notas.

* 1979 80 Poemas de Emily Dickinson. Tradução e apresentação.

* 1992Jornada para a Noite [Long Day’s Journey into Night], de Eugene O’Neill.

Um guia de Lisboa pela mão de Jorge de Sena

Carta a Joaquim-Francisco Coelho, 13/11/1970

Que Jorge de Sena foi grande viajor todos sabemos. Que muito escreveu sobre os lugares que visitou, também. Mas, dando início ao mapeamento de suas muitas andanças pelos vários continentes, optamos por selecionar um texto sobre a cidade em que nasceu — que, como se poderá constatar, bem conhecia e amava.

 

 

 

“Este sucinto e muito admirável guia cultural e sentimental de Lisboa escreveu-o Jorge de Sena em Santa Bárbara, Califórnia, em 13 de Novembro de 1970. Faz parte de uma carta “pedagógica” sobre a cidade, enviada pelo grande camonista ao seu amigo e dilecto ex-aluno Joaquim-Francisco Coelho, àquela altura recém chegado a Lisboa (…). O guia, tal como a restante correspondência entre os dois amigos, conservou-se até hoje totalmente inédito, e aqui vai divulgado com a permissão de Joaquim-Francisco Coelho, no espírito das comemorações a Jorge de Sena, lisboeta de nascimento, nos vinte anos da sua morte.” [*]

 

Vejo que tem passeado Lisboa como eu a passeei desde que tive licença para passear sózinho: pela noite dentro, perdendo-me por quelhas e becos, andando-a a pé ouvindo os meus próprios passos ecoar no silêncio da noite. Não sei se o Almeida Faria terá mais que um conhecimento “popular” de Alfama, e lhe terá chamado a atenção para as muralhas que, perdidas dentro do casario, viram o cerco de 1383 para a rua da Judiaria, para os velhos palácios decadentes, tudo o que está desde o castelo (que deve visitar) até à Casa dos Bicos que foi dos Albuquerques. Alfama deve ver-se de dia, primeiro do Miradouro de Santa Luzia, que a tem aos pés, e depois descendo por ela dentro (S. Miguel de Alfama), e de noite, não tanto pelas falsas casas de fado para turistas. Estando naquele Miradouro, terá a seu lado o Limoeiro, prisão hoje, mas cujas fundações, para o lado do rio visíveis, são as do palácio real onde João I matou o Andeiro (ainda um arco está num cunhal, quando V. sobe a rua). Deve por aí ver a Sé, e os seus claustros e túmulos (uma capela especial é a dos Pachecos, e o túmulo mais belo é o do pai do Diogo Lopes Pacheco, um dos grandes homens ibéricos, depois de ter ajudado a matar a Dona Inês). E a igreja de Santo António, construída sobre o lugar onde nasceu esse ilustre Bulhões da família de Godefroy de Bouillon da Primeira Cruzada – a cripta é o lugar. Mais para cima e para o lado da Graça, passa V. pela Lisboa velha dos palácios senhoriais, e na Graça tem a igrejinha de S. Gens contemporânea da tomada de Lisboa aos mouros, e a Graça com o túmulo de Afonso de Albuquerque. Passará por S. Vicente de Fora, igreja do fim do século XVI (do maneirismo neo-clássico, e por isso parece haver séculos entre ela e os Jerónimos), panteão dos Braganças, como antes lhe disse. Vindo da Graça para o Rossio o Teatro Nacional está construído ou a ser reconstruído onde estava: sobre os cárceres da Inquisição, já que era ali o palácio dela. Em S. Domingos que ardeu há poucos anos, e que havia sido reconstruída pelo pai do Alexandre Herculano, Fr. Luis de Granada está sepultado na entrada do corredor da sacristia. Ao lado, tem V. o palácio dos Almadas, de onde saiu a revolução de 1640, e, acima, o Hospital de São José, construído sobre as ruínas do Colégio de Santo Antão, o primeiro que os jesuítas tiveram no mundo – a capela do hospital é a sacristia da antiga igreja e um dos mais perfeitos modelos do neo-clássico do fim do século XVI. Por aí ao pé, tem V. a igreja de Sant’Ana, onde ainda estará sepultado o Camões debaixo do chão – já que os ossos dos Jerónimos são hipotéticos (o túmulo dele e do Gama, cujos ossos não são hipotéticos, são do falso manuelino século XIX, o português “gothic revival” vitoriano, como a Estação do Rossio, onde se diz que o arquitecto deixou a assinatura nas portas em ferradura…). A ala direita do Terreiro do Paço, quando V. se volta para o rio, está construída sobre as ruínas do Palácio Real de D. Manuel, e, na rua da Alfândega para o outro lado tem V. uma fachada manuelina esplêndida, a Conceição Velha, tudo o que resta da igreja destruida pelo terramoto famoso (é a porta lateral da igreja desaparecida). Indo ao Museu das Janelas Verdes, aonde cumprimentará o Bosch da Tentação, e algumas pinturas de primeira, não muitas, estará V. no palácio que o Pombal comprou ao Matias Aires, paulista da Vaidade dos Homens. Aos Jerónimos e à Torre de Belém por certo já V. foi. Quanto a sepulturas ou túmulos de escritores, a mais dos que estão nos Jerónimos, toda a gente, desde o século XVIII, com raras excepções, está em dois cemitérios: o dos Prazeres, ou o do Alto de S. João – é onde o Pessoa e o Eça estão, em jazigos de família sem relevo algum. Não sei de repente dizer-lhe aonde cada um deles está, mas é em um desses cemitérios. Não deixe de ver a Igreja da Estrela, uma jóia do rococó comedido, aonde jaz a D. Maria I, e, descendo da Ajuda para Belém a igreja da Memória, construída aonde foi atentado contra D. José. Em Belém, as casas para a esquerda-lado-abaixo, e esquerda-lado/à frente, são, estas, do século XVII, as outras estão onde era o lugar da execução (ou do palácio) dos Távoras (lembrado por uma coluna atrás das casas). É interessante ver o Carmo, a igreja do Nun’Álvares, onde há peças arqueológicas de muito interesse, e o Bairro Alto, cheio de palácios do século XVII XVIII (e que foi o glorioso centro da prostituição lisboeta para os pobres e a classe média). Diz-me V. que já foi a Alcobaça, Tomar, Santarém, Óbidos, Nazaré – esqueceu-se de escrever Batalha, ou não foi lá? Shame, shame on you. Acrescente depois: Leiria, Évora, Coimbra, Porto, Viseu, o vale do Douro (por onde pode passar na Ilustre Casa de Ramires), e o Algarve (Sagres deve ser visto, pela imponência natural e lendária). Se fosse mais ao Norte: Barcelos, Guimarães, Braga, Viana – o outro Portugal.

 

[*] Texto inédito distribuído durante o colóquio “Jorge de Sena, vinte anos depois”, promovido pela Câmara Municipal de Lisboa em outubro de 1998, e depois reproduzido nas atas (Ed. Cosmos/CML, 2001, p. 173-4)

Carta a Eduardo Lourenço, 15/6/1953

Lisboa, 15/6/953

                                                             Meu caro Eduardo Lourenço

    Por não me ter sido possível ir ao passeio (que sei ter redundado em excelente êxito – e perdoa-me V. que lhe diga da simpatia e consideração por V. que ressumam dos comentários que ontem ouvi?), não chegámos a conversar, quando eu nem sequer chegara a devidamente lhe agradecer a sua bela carta.
   
O que me diz da tradução – eu limitei-me estrita e esforçadamente a recriar em português o estilo do Greene, mesmo por vezes com sacrifício de uma clareza imediata, cuja subtil falta respeitei sempre que a encontrei por fazer ela parte da própria estrutura do romance.
   
Do prefácio: há muito, e cada vez mais, eu escrevo com a noção absoluta de pregar no deserto. Sei que uns entendem e não aceitam, e que outros, que aceitariam, não entendem. Mas a única justificação de uma existência que escreve para testemunhar de todas as verdades é persistir mesmo assim, e escrever da compreensão que era possível no nosso tempo. É provável também que me canse – mas isso nada prova senão contra mim, pois que sempre poderá haver, expressa ou não, uma compreensão profunda e amplificadora como a sua. A tristeza, porém, é muita; e não sei se, ainda que (quem sabe?) alegremente, não acabaremos por nos convencer definitivamente de que só nós estamos errados… e certos todos os outros. Eu não ando, de resto, muito longe disto: simplesmente as razões acima ainda se inserem no quadro de uma – como direi? – nada fatalista visão do mundo. Nem de outro modo poderia eu explicar o ter chegado a escrever o poema que lhe mandei e faz parte de toda uma sequência (pela unidade de ocasião no tempo e de inspiração) de igual ou análogo sentido.
   
                             Mais uma vez, pois, muito obrigado. Abraça-o com muito estima o camarada amigo
                                                                                                                 Jorge de Sena

P.S.- Não deixe de ler os poemas do grego Cavafy que traduzi do inglês e publiquei no “Comércio”, no passado dia 9. Não me lembro se chegámos a falar nisto.
 

Carta a Eduardo Lourenço, 6/7/1959

Lisboa, 6/7/959

                                                                                     Meu caro Eduardo Lourenço

    Não demorei tanto a responder à sua carta de 18, quanto V. possa julgar, porque me chegou às mãos atrasada. E escrevo-lhe hoje, porque só ontem soube, confirmada indirectamente pela Maria de Lourdes Belchior e pelos jornais que publicaram a lista dos convidados, cá a notícia que V. me dava. Mas agora passa-se o seguinte. Eu não recebi nem receberei comunicação alguma, que nem a Comissão Portuguesa ma manda, nem a Alta Cultura para onde a ilustre comissão enviou a lista se digna. Ora sem um papel que ninguém me dá não posso pedir licença ao meu Ministro para sair do País. Veja V. como os “maquiaveis” de bolso funcionam bem. Não será possível, só para achatar estes gajos, V. arranjar-me aí uma cópia autenticada, com o sêlo branco da Universidade, da lista? Por seu lado, a Panair do Brasil telefonou cá para casa a dizer que eu já tinha a passagem marcada e paga (por quem? – mistério).
   
De modo que, precisando de tratar de milhentas licenças – ministerial, militar, passaporte, visto, etc. – estou a um mês, sem poder fazer nada. E são tantos os trabalhos em mãos que ficam suspensos e que tenho de dispor para largar isto por cerca de 20 dias (pois não hei-de ir ao Rio?) que não posso dispor a minha vida nem des-dispô-la!
   
A lista, como veio publicada nos jornais (com todo o ar de provir da Comissão), varia muito de jornal para jornal. O Saraiva e o Joel não figuram nela (de resto, parece que o Joel não está numa lista dos que teriam passagem), e na do Diário de Notícias, que é a que o Prado Coelho viu, figura a Natércia Freire! Tudo uma macacada, que será devidamente orientada pelos Marcelos, como se verá.
   
Dê as minhas melhores lembranças e saudades ao Casais – e espero firmemente poder abraçar-vos em breve.

                                                                         Um grande abraço amigo do

                                                                                                       Jorge de Sena